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21/08/2015

SERVIÇO PÚBLICO: Os adversários estão na outra bancada. Na mesma bancada estão os inimigos

«O que é que Maria de Belém tem? (teorias da conspiração)»


«Por que razão correm as mais diversas teorias da conspiração acerca de uma militante católica do PS, de aspeto frágil e voz quase inaudível que de repente pôs o PS em polvorosa? A mim ocorre-me uma frase de Marx a completar um aforismo de Hegel: a história repete-se, a primeira como tragédia e a segunda como comédia. Estamos pois numa espécie de comédia da guerra Soares/Zenha, a velha guerra do PBX, com protagonistas de terceira categoria.

Hoje mesmo o 'Público' informa-me que a candidata Maria de Belém tem atrás de si (e cito) "nomes importantes da banca, da indústria e até das sociedades secretas". Há uma diretora da Associação Nacional de Farmácias ex-diretora da farmacêutica Merck, um gestor do BES Numismática (que nem eu sabia existir), ex-presidente da ESEGUR, um presidente do Conselho Fiscal do BPI, o presidente da Amorim Turismo, uma administradora do Grupo Altis e um gestor do Instituto Português de Estudos Maçónicos, que é ligado à Maçonaria do GOL.

Ontem, Alfredo Barroso informava-me que ela pode ser o "cavalo de Troia da Igreja", ligada ao frade Melícias e ao padre Lino Maia, além de ter sido nomeada ministra pelo "beato Guterres" (expressão de Barroso).

Um email anónimo refere que ela está, no fundo, a cumprir uma estratégia de Passos Coelho. Devo dizer que se tudo isto fosse verdade, a senhora mereceria ser eleita, sem dúvida. Seria a presidente de todos os portugueses...

O PBX ("partido berdadeiramente xuxialista ") era como os soaristas se referiam jocosamente àqueles que achavam que o PS não era suficientemente à esquerda. Entre eles estavam muitos eanistas e uma parte substancial do PS que se reunia num sótão de Guterres. Nessa altura Alfredo Barroso era a favor de Soares, que era a direita, assim como Vítor Ramalho, que hoje está ao serviço de Sampaio da Nóvoa. Sampaio, que entrara para o PS, juntamente com os seus amigos dissidentes do MES, na mesma altura em que o PS se aliara ao CDS, mantinha uma certa distância. Mas isto é história. Uma história que desembocou num partido apadrinhado por Eanes, o PRD, e por muitos ex-socialistas, como Medeiros Ferreira, e conseguiu uma candidatura do histórico Zenha, apoiado pelo PCP, contra a candidatura moderada de Mário Soares, apoiada pela direção do PS. O PRD deu cabo do PS pelos anos da maioria absoluta de Cavaco, ao passo que Zenha ia derrotando Soares. Este, ao passar à segunda volta, depois dos escassos 25°/o obtidos na primeira, derrotou depois o então 'fascista' Freitas do Amaral, por um estádio da Luz, nas mais renhidas eleições de sempre.

Passaram 30 anos.

Hoje temos Sampaio da Nóvoa no lugar de Zenha, a tentar unificar a esquerda. Tem o lugar, mas não a estatura nem a história, nem a coragem. E Maria de Belém no lugar de Soares (que entretanto é a favor de Nóvoa porque mudou - e muito - de posição). Também tem o lugar, mas não o estatuto, a história e a coragem. É a farsa, ou comédia da repetição.

Porém, desta vez, a direção do PS não está alinhada com uma das candidaturas - cada qual apoia o seu. É mais farsa ainda. Costa gere como pode, empurrando com a barriga para depois das Legislativas. Se conseguir uma vitória, terá a legitimidade para apoiar quem achar melhor. Se não a conseguir, o que ele disser já não conta para nada, porque será imediatamente substituído.

A minha tese, embora a não possa provar, é menos conspirativa e mais simples: Sampaio da Nóvoa, ex-assessor de Sampaio, depois de ter feito honoris causa pela Universidade de Lisboa todos os ex-presidentes da República vivos, foi 'vendido' por Sampaio como grande solução a Costa, razão pela qual o atual presidente do PS, Carlos César, o apoia fortemente, assim como os amigos próximos de Soares e ainda a ala mais esquerda do PS.

Maria de Belém era, há muito, a cartada que António José Seguro queria jogar. Por isso, ao contrário do que afirmou Miguel Sousa Tavares ela não aparece apenas por vontade própria, nem a sua inclusão nas sondagens é inocente. A luta (em volta do PBX) continua. E, até agora, quem mais razões tem para se rir da farsa é Seguro.»

Henrique Monteiro, no Expresso

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