Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

30/04/2017

Mitos (252) - Macron não tem aparelho partidário

Depois da esperada vitória de Emmanuel Macron na primeira volta das eleições presidenciais francesas, e da menos esperada completa derrota do candidato socialista Benoît Hamon (que entretanto teria tentado montar uma estratégia «brinquebalante», inspirada no zingarelho de Costa), começou a circular entre a comentadoria doméstica a ideia de que Macron não teria um aparelho partidário e ficaria dependente dos partidos estabelecidos, nomeadamente do PS.

Macron não tem um partido? Ça dépend de ce qu'on entend par parti. O En Marche!, a organização que suporta Macron, tem 250 mil membros, o dobro do Partido Socialista francês. E não esqueçamos a história dos partidos em França, nomeadamente a criação do RPF (Rassemblement du peuple français) a partir do nada, por Charles de Gaulle em 1946, e a refundação por François Miterrand do PS francês no congresso de Épinay em 1971, a partir dos cacos dos grupúsculos de inspiração socialista.

CASE STUDY: Trumpologia (17) - Mau perder

Mais trumpologia.

«À primeira vista Mauricio Macri, que visita a Casa Branca hoje (5.ª feira), parece ter pouco em comum com Donald Trump. O presidente argentino está a restaurar a sanidade da política do seu país depois de anos de populismo; o líder americano parece estar a tentar o contrário. Mas os dois, ambos filhos de promotores imobiliários, são velhos conhecidos: conheceram-se pela primeira vez na década de 1980, quando o pai de Macri vendeu terras a Trump. Ainda assim, o relacionamento entre os dois precisa de melhorias. Macri descreveu uma vez o Sr. Trump como "totalmente louco", e apoiou a campanha presidencial de Hillary Clinton. Por isso, provavelmente irão evitar os temas difíceis como o comércio. Macri também vai encontrar-se com Paul Ryan e Mitch McConnell, os líderes republicanos na Câmara e no Senado, respectivamente. De acordo com o pai do Sr. Macri, o Sr. Trump uma vez partiu os seus tacos de golfe frustrado por ter sido batido pelo jovem Mauricio. O presidente da Argentina deve esperar que a única coisa quebrada depois da reunião seja o gelo.» (The Economist Espresso)

29/04/2017

A maldição da tabuada (44) – A saúde está pela hora da morte, segundo a agência do regime e o semanário de reverência

«A saúde em Portugal representa quase dois terços da despesa total do Estado, mas está entre as mais baixas da União Europeia, segundo um relatório divulgado esta quinta-feira que faz o retrato do sistema de saúde português.

Segundo o relatório, a despesa pública com a saúde em Portugal totaliza 64,7% do total dos encargos do Estado, enquanto a média da UE é de 76%.»

Excerto do artigo do Expresso «Despesa pública em saúde em Portugal entre as mais baixas da União Europeia»

Dois terços da despesa total do Estado? 

Ora vejamos as despesas do Estado em milhões de euros em 2015 (Pordata)
  • (A) Saúde 8.518,4
  • (B) Total  48.493,5
  • (A) / (B) = 17,6%
É claro que multiplicar por quatro a despesa com saúde é um disparate de um tamanho não poderia vir de um relatório do Observatório Europeu de Saúde. Por descargo de consciência fui vasculhar no «Portugal, Health system review» e a páginas 48 descobri a origem da confusão: onde se escrevia «General government health expenditure as % of total health expenditure» a Lusa leu e escreveu, e o semanário de reverência reproduziu, despesa pública com a saúde em Portugal em % do total dos encargos do Estado.

Acontece, é um erro. Não, não é «um erro», é não ter a mínima noção da grandeza e da proporção das variáveis da despesa pública. É assim como confundir a distância do Terreiro do Paço a Cacilhas com a distância de Peniche às Berlengas. É a maldição da tabuada.

28/04/2017

Berloquistas agarrados à metadona do poder entraram de leão e saíram de sendeiro

A transição das associações de estudantes, das redacções dos jornais e das universidades de Verão com festas «LGBTQIA+» para os corredores do poder não está a ser fácil para o BE. Uma após outra, deixam cair as suas bandeiras para não comprometer a ménage à trois (e não, não é a quatre porque o quarto é a criada de servir do PCP), ménage que lhe dá acesso a esses corredores que percorrem com gosto e avidez, na esperança de chegarem aos gabinetes do poder.

A última bandeira que deixaram cair foi a da «reestruturação da dívida» que no bloquês significava «abaixamento da taxa média de juro», «alongamento do prazo de pagamento da dívida» e «reestruturar, pelo menos, a dívida acima de 60% do PIB», ou seja um haircut de 70% do PIB.

Após um longo labor intelectual em que participaram luminárias do BE e do PS, foram agora conhecidas as conclusões do Grupo de Trabalho sobre a Sustentabilidade da Dívida Externa: «alargamento da maturidade para 60 anos (mais 45 anos do que o prazo atual) e uma redução da taxa de juro para 1%. Isto apenas em relação aos empréstimos europeus que somam 52 mil milhões de euros, ou seja, um terço do envelope financeiro do resgate português em 2011».

Lá se foi a maior parte da redução dos juros e o haircut de 70% do PIB. Mesmo com o colossal haircut do haircut, deixando o BE cair as calças e a vergonha, o governo já disse que não se compromete. Pudera! Costa sabe perfeitamente que se falar demasiado grosso com Bruxelas arrisca-se a fecharem-lhe a torneira do óleo para a geringonça.

Registe-se que o PCP não participou no Grupo de Trabalho. Teve um pouco mais de vergonha e, sobretudo, tem mais para dar em troca com os sindicatos à trela que lhe dão um poder que o paleio inflamado do BE não lhe proporciona, mesmo cedendo em toda a linha no que jurava serem os seus princípios.

SERVIÇO PÚBLICO: A Internacional da Indignação (11)


Outras indignações internacionais.

Mais um exemplo da paranóia politicamente correcta que assola as universidades, sobretudo americanas (ver exemplos no link acima). Foi agora a vez da Universidade da California, Berkeley, e a propósito de uma conferência de Ann Coulter.

Para quem não saiba, Coulter é uma escritora, colunista e comentadora americana, republicana e conservadora que fora convidada pela associação Berkeley College Republicans para fazer uma conferência. Primeiro a direcção da universidade alterou o evento para um dia e hora em que a universidade estivesse quase vazia com o pretexto que os grupos organizados e potencialmente violentos de estudantes que se opunham à conferência de Couter obrigariam a um policiamento com centenas de agentes e um custo incomportável. O evento acabou por ser anulado.

Lembram-se do episódio da conferência abortada de Jaime Nogueira Pinto na Universidade Nova? É mais ou menos o mesmo, supersize.

Curtas e grossas (47) - Eurobond? Só se for James Bond.

Tudo indica que Costa e o PS em geral apostam em privado em tentar empandeirar a dívida passada e/ou mutualizar a dívida futura e, sendo a Alemanha a chave da solução, depositam grandes esperanças no governo que sair das eleições alemãs.

No pior cenário, se a coligação CDU/CSU ganhar, imaginam que Merkel estará mais compreensiva com a economia europeia a sair da estagnação. No melhor cenário, se o SPD ganhar, imaginam que o socialista Schulz estará disposto a embarcar na mutualização, se não mesmo numa "reestruturação" da dívida portuguesa.

Provavelmente estão enganados. Com altíssima probabilidade Merkel não quer nem ouvir falar em mutualização para não criar mais tensões com o seu parceiro CSU e não dar argumentos à AfD.

Quanto a Schulz também é recomendável não apostar nesse cavalo, por muito que no passado tenha aceite a ideia. Se Schulz retomasse a ideia arriscar-se-ia a perder todas as chances de derrotar Merkel defendendo uma solução que não tem suporte no eleitorado alemão e à qual Merkel já começou a tentar atrelá-lo aos olhos do eleitorado. Por isso Schulz fará tudo para escapar à armadilha e já disse recentemente que é suficiente para a Zona Euro a existência do Mecanismo Europeu de Estabilidade e a respeito dos eurobonds rematou com uma piada que diz tudo: «The most interesting Bond is James».

27/04/2017

Porque não estou surpreendido?

«O investigador José Filipe Pinto referiu que Portugal tem um índice de populismo semelhante ao da França, ocupando o 11.º lugar dos países mais populistas da UE, graças a partidos como o Bloco de Esquerda, o PCP e Os Verdes.

(...)

“E isto é que me incomoda porque ouvi o senhor Presidente da República [no seu discurso no 25 de abril] dizer que Portugal, felizmente, estava alheio a este fenómeno populista. E estava a falar na Assembleia da República. À sua frente tinha três partidos cujos deputados são populistas: o Bloco de Esquerda (populista autoritário), o PCP (populista totalitário) e o Partido Ecologista Os Verdes (populista autoritário)”, explicou.» (Observador)

Ó José, ó Filipe, ó Pinto, tens toda a razão e não te incomodes com o que diz o senhor Presidente da República. Ele diz principalmente o que pensa que o seu público quer ouvir - ele, se calhar, também é populista.

Brexit - Unintended consequences

A convocação de eleições intercalares para 8 de Junho proporcionará legitimidade acrescida a quem, como Santana Lopes, herdou o poder de Cameron e parece estar a revelar-se uma boa jogada de Theresa May. Segundo as sondagens, os conservadores ganharão as eleições com uma enorme vantagem e, mais do que isso, na Escócia o Scottish National Party de Nicola Sturgeon, pode perder lugares para o Partido Conservador e o Partido Trabalhista, completamente infiltrado por lunáticos esquerdistas, poderá ser simplesmente erradicado do parlamento escocês, Como se fosse pouco, Theresa May pode ter a maioria no País de Gales pela primeira vez em mais de 100 anos e os conservadores podem tornar-se um partido tão britânico quanto tem sido inglês até agora.

26/04/2017

Nem todos os obamas de Obama fazem felizes os obamófilos: episódio (86) – Um homem de palavra

Nos três primeiros meses depois de se ter mudado da Casa Branca, Barack Obama já fez grandes progressos no reforço do seu fundo de pensões privado. Primeiro, vendeu os direitos do livro que vai escrever por 60 milhões de dólares. Agora, inicia o seu ciclo de facturação do verbo aceitando discursar numa conferência de «fat cats bankers» de Wall Street sobre saúde, promovida pelo banco de investimento Cantor Fitzgerald LP pela módica quantia de 400 mil dólares, dobrando a tarifa de Hillary Clinton. A aceitação ainda não está confirmada - está à espera de ver se as reacções não prejudicam a sua imagem...

Barack Obama disse em tempos no programa «60 minutes» da CBS que não se estava a candidatar para ajudar «fat cats bankers». Manteve a sua palavra. São os «fat cats bankers» que o estão a ajudar.

SERVIÇO PÚBLICO: Porque falha a justiça penal?

«Abandonado o moralismo e o justicialismo, porque falha a justiça penal? Porque temos corrupção sem corruptos? A teoria da conspiração da classe política não me parece convincente. Num artigo anterior sobre o Ministério Público, apontei duas pistas. Por um lado, a incapacidade orçamental de disponibilizar mais recursos. E sabemos que isso não vai mudar, não pode mudar e provavelmente não deve mudar (porque as estatísticas europeias indicam que, em valores relativos, já gastamos mais, temos mais procuradores e mais tribunais do que a média). Por outro lado, os consensos jurídicos que rejeitam qualquer aproximação aos modelos europeus (oposição ao princípio da oportunidade, imoralidade da delação premiada, a hierarquização do Ministério Público acompanhada de um sistema de prestação de contas exogâmico seria uma violação inaceitável da independência). Do casamento destas duas restrições, incapacidade orçamental de disponibilizar mais recursos e consensos jurídicos que rejeitam qualquer aproximação aos modelos europeus, resulta a atual situação

Excerto de «Corrupção sem corruptos», Nuno Garoupa no DN

Um exemplo da falta de aproximação aos modelos europeus:

Sumário do Acórdão de 29 Mar. 2017 do Tribunal da Relação do Porto

Sendo os arguidos de nacionalidade sul-americana e não lhes tendo sido nomeado o competente intérprete aquando a busca domiciliária, as provas obtidas nessa busca são nulas,

Resumo da Jusnet

BUSCA DOMICILIÁRIA. FALTA DE INTÉRPRETE. 
Quando houver de intervir no processo pessoa que não conhecer ou não dominar a língua portuguesa, é nomeado intérprete idóneo, ainda que a entidade que preside ao ato ou qualquer dos participantes processuais conheçam a língua por aquela utilizada. Em conformidade, a falta de nomeação de intérprete constitui uma nulidade dependente de arguição, nos casos em que a lei a considerar obrigatória. Nestes termos, a busca domiciliária efetuada na residência do arguido de nacionalidade sul-americana é nula pelo facto de a autorização dessa busca não ter sido traduzida para espanhol, nem ter sido validada por parte do Juiz de Instrução Criminal, tendo a mesma sido realizada sem ser na sequência de um flagrante delito. Com efeito, não releva que o arguido tenha assinado a autorização de busca, pois se presume que a mesma não foi assinada por não ter sido traduzida para a sua língua. 
ARGUIÇÃO DA NULIDADE. Considerando que não foi nomeado intérprete na busca domiciliária, não era exigível aos arguidos que até ao fim desse ato fosse arguida a nulidade, pois para tanto são necessários conhecimentos técnico-jurídicos e os arguidos não estavam representados por defensor.

Mitos (251) - Não há alternativa? Há alternativa, claro. Porém não gostamos dela.

«A ideia de que “não há alternativa” – o conceito baptizado de TINA, da formulação inglesa “there is no alternative” – é de uma enorme falácia.

Claro que a “alternativa” existe. Ela é praticada há muitos anos em muitos países e com bons resultados. Na Alemanha, Holanda, Áustria ou Bélgica, para dar apenas alguns exemplos, não consta que haja sucessivos pacotes de austeridade, défices descontrolados, impostos a subir estratosfericamente ou dívidas consideradas impagáveis — até a Bélgica, que há duas décadas era um dos países com o indicador mais alto, na casa dos 130% do PIB, conseguiu colocá-lo já próximo de 100%.

E mesmo a Irlanda, que foi resgatada apenas uns meses antes de nós, isso já é verdadeiramente uma coisa do passado. O PIB já cresce acima dos 4%, o défice orçamental quase não existe e a dívida pública está nos 75%.

A austeridade não é nenhuma fatalidade para quem tem políticas consistentes e responsáveis, para quem toma medidas atempadas para evitar desequilíbrios futuros e para os países que têm uma matriz reformista que procura a competitividade e a produtividade.

O problema são os outros, como nós. Incapazes, como temos sido, de construir uma base sólida de crescimento e convergência, passamos a vida a suspirar por uma “alternativa” e por uma “mudança”, atirando para agentes e decisores externos a responsabilidade das nossas próprias insuficiências.»

 «A “alternativa”, grande truque de marketing político», Paulo Ferreira no jornal Eco

25/04/2017

DIÁRIO DE BORDO: Pensamento do dia

«A great many people think they are thinking when they are really rearranging their prejudices.»

Edward R. Murrow, um dos grandes no jornalismo americano de factos

Mitos (250) - O contrário do dogma do aquecimento global (XV)

Outros posts desta série.

Em retrospectiva: que o debate sobre o aquecimento global, principalmente sobre o papel da intervenção humana, é muito mais um debate ideológico do que um debate científico é algo cada vez mais claro. Que nesse debate as posições tendam a extremar-se entre os defensores do aquecimento global como obra humana – normalmente gente de esquerda – e os negacionistas – normalmente gente de direita – existindo muito pouco espaço para dúvida, ou seja para uma abordagem científica, é apenas uma consequência da deslocação da discussão do campo científico, onde predomina a racionalidade, para o campo ideológico e inevitavelmente político, onde predomina a crença.


Economist
Supondo que estes não são «factos alternativos», está a passar-se qualquer coisa no Árctico. Que esta qualquer coisa seja obra do homem é uma outra questão.

24/04/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (80)

Outras avarias da geringonça.

Segundo o semanário de reverência Expresso, o «Governo pressiona agências de rating» e «Mourinho Félix fez raide nos EU para a saída do "lixo"» - sim, é o mesmo Félix que protagonizou aquele número deprimente com Dijsselbloem, registado para a posteridade por um câmara-homem de causas. Tendo sobrevivido àquele momento de ridículo mortal, Félix abusa da sua sorte e reincide com o «raide» às agências, talvez pensando pôr as perninhas dos analistas a tremer como aquele outro pateta imaginava fazer tremer as perninhas dos banqueiros alemães.

O ministro da Cultura quebra o silêncio desde o show Cornucópia, com a participação especial de Marcelo, e promete que irão ser criados lugares de quadro para os trabalhadores de museus e monumentos, dando assim o seu contributo cóltural para a engorda da vaca marsupial pública.

No seu esforço de levar o governo aos ombros, a imprensa amiga produz títulos que são verdadeiros achados, como os do Público «Centeno conta com prenda nos juros para pagar exigência da esquerda» e «Estado só acaba de encolher em 2020», ambos da autoria do seu director.

ACREDITE SE QUISER: Realizações do socialismo africano


Robert Mugabe, o soba marxista que há 37 anos manda no regime socialista que desgoverna o Zimbábue, depois de uma inflação de 4 dígitos durante vários anos e de ter substituído o dólar de Zimbabué, actualmente a valer $ 0,00276, pelo dólar americano, perante a falta destes, planeia obrigar os bancos a aceitarem gado como colateral para os empréstimos e as escolas a aceitarem cabras como pagamento das propinas.

23/04/2017

Bons exemplos (119) - A arte de recuperar bancos com o português certo

Era uma vez o banco Lloyds resgatado em 2008 pelo governo inglês com 20,3 mil milhões de libras (à época quase 30 mil milhões de euros) dos contribuintes. Nove anos depois, o chanceler Philip Hammond anunciou na sexta-feira que o governo tinha vendido gradualmente desde 2013 os 43% que detinha no Lloyds, ficando com menos de 2% que irá vender nas próximas semanas. Com o produto da venda em bolsa e os dividendos recebidos, o governo já encaixou 20,4 mil milhões de libras, ou seja recuperou todo o dinheiro do resgate. Se a este valor somarmos a venda dos restantes 2% o governo ganhará com o resgate quase mil milhões de libras em 9 anos.

Para justificar a venda Hammond explicou: «while it was right to step in with support during the financial crisis, the government should not be in the business of owning banks in the long term». Algo que o presidente dos Afectos, Costa, Centeno e a geringonça em coro deveriam recitar todas as noites antes de dormirem enquanto por aí andarem.

Como foi isto possível, quando se sabe que os os governos portugueses não tem parado de torrar dinheiro nos bancos resgatados, incluindo num cagalhoto chamado BPN, que foi nacionalizado pelo governo socialista de Sócrates e, segundo Teixeira dos Santos, era para não custar nada e custará pelo menos um quarto do resgate do Lloyds?

As respostas óbvias são: (1) o governo inglês nomeou para resgatar o Lloyds Horta Osório, provavelmente o único português capaz de o fazer com sucesso; (2) o governo inglês teve a rainha Isabel II no lugar de Cavaco, primeiro, e de Marcelo dos Afectos, depois, teve David Cameron e Theresa May no lugar de Sócrates, primeiro, de Passos Coelho e António Costa depois. teve George Osborne, primeiro, e Philip Hammond, depois, no lugar de Teixeira dos Santos, primeiro, e de Vítor Gaspar e Maria Luís Albuquerque, depois, e finalmente Centeno.

Abreviadamente: a Inglaterra ficou com o português certo (aquele a quem Ricardo Salgado e os outros banqueiros que arruinaram os bancos portugueses chamavam a bocca chiusa «o amigo dos espanhóis») e, claro, ficou com os ingleses que já tinha; Portugal ficou sem o português certo e, claro, ficou com os portugueses errados que já tinha e ainda arranjou outros.

22/04/2017

ARTIGO DEFUNTO: Jornalismo de "referência" é o jornalismo de causas adoptado pelo jornal que se diz de referência (2)

Continuação de (1).



Tendo aparentemente desistido de Rui Rio como cunha, o Acção Socialista Expresso tenta agora usar uma carta viciada para um jornal que in illo tempore denunciou as manigâncias de Relvas. É uma manobra bastante denunciada e tosca, até para os critérios do semanário de reverência, misturando cartomância com factóides e leituras da mente através de um acesso privilegiado ao cortex pré-frontal das criaturas citadas.

O que me leva a concluir, outra vez, que tendo eu próprio as maiores dúvidas que Passos Coelho seja o líder da oposição que o país precisa, a procura obsessiva de um seu substituto pela geringonça, o presidente dos Afectos e o jornalismo de causas talvez faça dele um candidato a líder que a oposição precisa (e o país, quem sabe?).

PS: Adicionei uma etiqueta dedicada ao Expresso: «semanário de reverência».

ACREDITE SE QUISER: Eles nunca irão a Torremolinos

As 15 crianças em idade escolar da aldeia de Atuler, uma comunidade com 72 famílias na província de Sichuan bem no coração da China, que vive com o equivalente a 240 dólares por ano e cabeça, têm de percorrer vários quilómetros até à escola. Nada de muito diferente do que milhões de outras crianças têm de fazer para aprenderem, salvo uma parte do percurso de apenas 800 metros - na vertical.

The Guardian
A descida e subida da escarpa é tão perigosa que já morreram 7 ou 8 crianças segundo contaram os aldeões ao fotógrafo Chen Jie, um vencedor do World Press Photo de 2016,

21/04/2017

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Austeridade socialista

«A política orçamental do Governo de António Costa foi, e promete ser, mais austeritária do que a concretizada pelo último ano de Governo de Pedro Passos Coelho. As perspectivas desenhadas no Programa de Estabilidade e Crescimento 2017-2021 dizem-nos exactamente isso: a página da designada austeridade não foi nem será virada. Como não podia ser, se o PS continuasse a ser aquilo que sempre foi, um partido que defende a integração de Portugal no euro e o respeito pelos compromissos da República Portuguesa em relação aos tratados que assinou e à dívida que contraiu.

O mais extraordinário dos tempos que vivemos em Portugal é a brutal diferença entre aquela que é a mensagem política e aquilo que de facto o Governo faz. É o ditado popular “faz o que eu digo, não faças o que eu faço” adaptado numa fórmula do género “acredita no que eu digo, sem olhar para as estatísticas, nem para o dinheiro que te entra de facto no bolso e muito menos para o teu poder de compra”.»

Helena Garrido no Observador

Qual a diferença entre a austeridade da geringonça e a austeridade do PáF? A austeridade da direita tem poucas reformas estruturais e beneficiários indeterminados. A austeridade da geringonça tem muitas contra-reformas, as célebres «reversões», e beneficiários bem determinados - os dependentes do Estado, a clientela eleitoral da geringonça.

Chávez & Chávez, Sucessores (56)

Outras obras do chávismo.


Os inimigos do socialismo bolivariano (Foto NYT)
O que faz esta gente toda? Manifestam-se contra as realizações do socialismo chávista. Como reagiu a nomenclatura chávista de Nicolás Maduro? Com violência.

Falamos de um país que há 50 anos era um exemplo para a América Latina de democracia e progresso, com um nível de vida pouco inferior ao da Grã-Bretanha, com as maiores reservas confirmadas de petróleo.

Quais os resultados do socialismo chávista? O ano passado a economia encolheu 10% e este ano estima-se que encolherá 23% em relação a 2013; a inflação deve atingir 1.600%; 75% dos venezuelano perderam em média 8,7 kg o ano passado, devido à escassez de comida. Como foi possível chegar a este ponto? Por várias razões, todas elas resultantes das escolhas políticas da nomenclatura chávista que se apoderou do poder.

20/04/2017

¿Por qué no te callas? (17) - Lucky Luke em Belém, mais rápido do que a própria sombra

Negócios

DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (36) - A caminho da irrelevância?

Outras preces.

«O emplastro»
A caminho da irrelevância? Com um eleitorado politicamente adulto que não apreciasse ser tratado como adolescente retardado, estaria certamente.  Não necessariamente com um eleitorado que lhe dá índices de popularidade superlativos (mas também deu a Cavaco, não esqueçamos). Ainda assim, o sucesso da performance artística será seriamente abalado se e quando o PS tiver uma maioria e o seu público não precisar de Marcelo e comunistas e bloquistas puderem aliviar as frustrações acumuladas fazendo sobre ele fogo à vontade com a tropa do jornalismo de causas ao seu serviço. Em último caso, não resistirá (nem a gerigonça) quando a realidade se apresentar a cobrar as consequências da engorda da vaca marsupial pública, das «reversões», da falta de reformas e das políticas erradas.

19/04/2017

COMO VÃO DESCALÇAR A BOTA? (10) - Botas de todos os tamanhos, calçadas por vários pés

Outras botas para descalçar.

Recordando: nesta secção do (Im)pertinências recolhem-se para memória futura os juízos laudatórios do desempenho do zingarelho inventado por António Costa, juízos produzidos pelos comentadores (incluindo o residente em Belém), opinion dealers e jornalistas de causas que têm levado ao colo a geringonça e, acrescento agora, também os anúncios de amanhãs que cantam da autoria do governo.

Começando pelos anúncios do governo, no Programa de Estabilidade, que será discutido hoje no parlamento e posteriormente enviado para Bruxelas, o governo prevê que a dívida pública não ultrapassará o limite do tratado (60% do PIB) em 2032, 14 anos antes do que previa no OE 2017. Veja-se o carrossel imaginado pelo governo.


O mais inverosímil não é a previsão do que se passará em 2032 porque nessa altura o pessoal socialista que produziu estes delírios nem sequer estará no activo e, de resto, estes delírios não são muito diferentes dos que os seus antecessores vêm produzindo há muitos anos, O mais inverosímil é a previsão do que se passará dentro de 2 ou 3 anos quando sabemos o que se está a passar agora e a engorda da vaca marsupial pública a que o governo se tem dedicado. 


Passando ao capítulo dos comentadores/opinion dealers, atente-se o prognóstico de Marques Mendes na sua última homilia aqui resumida e imagine-se o esforço hercúleo, até para ele próprio, que terá de despender para descalçar a botifarra em que enfiou os pezinhos.

Passando ao capítulo do jornalismo de causas, leia-se qualquer número da edição diária do semanário de reverência Expresso, ainda mais do que a edição em papel, onde se sucedem páginas laudatórias da obra actual e sobretudo futura de Costa. Só para dar um exemplo, veja-se esta página de que reproduzo o título e alguns subtítulos: «FMI aumenta crescimento português em mais de 60% em seis meses»; «Alemanha e Itália abaixo de Portugal» e, à cautela, para o caso da coisa correr mal, «Trump e populismos podem estragar previsões» (estão encontrados os culpados em substituição das agências de rating, do neoliberalismo, de Angela Merkel, etc. que tão bem serviram para explicar a falência das políticas socialistas há 6 anos).

Estado empreendedor (103) - o aeroporto que só abria, abre ou abrirá aos domingos (8)

[Continuação de outras aterragens: aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaquiaqui e aqui]

Recapitulação

Ao princípio era o verbo do Eng. José Sócrates: mais de um milhão de passageiros até 2015 e o investimento seria recuperado nos 10 anos seguintes. Era o multiplicador socialista a funcionar de acordo com o estudo «Plano Regional de Inovação do Alentejo» da autoria de Augusto Mateus – um ex-ministro socialista da Economia do 1.º governo de Guterres que nos últimos tempos tem tentado sacudir a água do capote dos seus estudos «multiplicativos».

Novos desenvolvimentos

O Observador escreveu o que já se estava cansado de saber: «o aeroporto de Beja, que custou 33 milhões de euros e foi inaugurado há seis anos, serve quase só para estacionamento e manutenção de linha de aviões».

Curiosamente não se faz qualquer alusão à «unidade de desmantelamento de aviões» o que me deixa triste porque é mais uma previsão que pensava ter acertado e falhei.

Para compensar, no segundo novo desenvolvimento não falhei. Trata-se da evolução do espírito inquieto de Augusto Mateus, de quem aqui tracei um retrato à la minute. Pois bem, o emérito economista em entrevista ao Expresso diz várias coisas de que é difícil discordar e, num inesperado flic-flac, só acessível a uma mente muito flexível, concede que «temos de ter a coragem de dizer não a muitos projectos» porque «só se devem apoiar projectos que trazem algo de verdadeiramente importante em matérias de reestruturação e reorientação da economia portuguesa». É algo de surpreendente para quem escreveu no estudo «Plano Regional de Inovação do Alentejo» da sua autoria que o aeroporto de Beja iria constituir uma «plataforma logística para a carga a receber e a expedir de/para a América e África, incluído o transporte de peixe, utilizando aviões de grande porte e executando em Beja o transhipment para aviões menores para a ligação com os aeroportos europeus».

18/04/2017

SERVIÇO PÚBLICO: Aldeias gaulesas desconformes numa Gália ocupada pelo jornalismo de causas

«Dias Loureiro, a justiça e o jornalismo», João Miguel Tavares no Público

«Quem está contra tudo isto ao mesmo tempo é cúmplice do estado moralmente miserável em que nos encontramos, devido ao comportamento das elites que governaram o país — e se governaram do país — ao longo de décadas. A diferença entre o Ministério Público de 2007 e o de 2017 é a liberdade que hoje existe para investigar, acusar e arquivar.»


«Vítimas de todo o Mundo, repousai!», José Diogo Quintela no CM

«(No topo está a mulher negra, transexual, lésbica, cega e hindu, o Cristiano Ronaldo da vitimização. Ganha por capote. Além das classes oprimidas que representa, pertence a uma religião que acredita na transmigração das almas, de maneira que pode afirmar que foi discriminada noutras reencarnações. Uma espécie de vidas infinitas, como nos jogos de computador, mas em que as vidas, além de ilimitadas, são oprimidas). 

Um debate é ganho, não por argumentos, mas pela identidade. Por isso, não interessa ter razão, interessa pertencer a uma minoria. Quanto mais traumatizada, mais virtuosa é. Obviamente, tanto trauma acumulado dá origem à Síndrome de Stress Pós-Traumático, um distúrbio psicológico que precisa de ser tratado


«Da circulação das espécies», Helena Matos no Observador

«Os esfomeados, os indignados e os desistentes. 

Entre 2011 e 2015 estava um em cada esquina. Aliás a fome estava por todo o lado. Se o desemprego baixava era porque os desistentes já nem procuravam trabalho pois não se conseguiam arrastar, mergulhados na depressão e falta de vitaminas. Diante de cada microfone estava um indignado.

Agora os esfomeados reconverteram-se em dinamizadores de programas para combater os erros alimentares. Os indignados esperam por ordens para saber se se devem indignar um poucochinho e se já chegou a hora de irem buscar outra vez as bandeiras negras e os desistentes estão hiperactivos de tanto optimismo.»

Dúvidas (194) - Porquê mais esta ejaculação legislativa?

Este post poderia ser uma continuação deste e daquele.

«O Presidente da República promulgou o diploma que obriga o Fisco a divulgar as estatísticas com o valor total e destino das transferências de dinheiro de Portugal para paraísos fiscais, os offshores.» (Jornal Eco)

Porque será que esta ejaculação do órgão legislativo me faz lembrar uma hipotética lei aprovada pelo parlamento, a pedido hipotético da Unidade Nacional de Trânsito da Guarda Nacional Republicana, que o presidente dos Afectos se apressaria hipoteticamente a promulgar para obrigar os inúmeros condutores incapazes de circular pela via mais à direita quando existam duas ou mais vias de trânsito, e por isso estão sujeitos a uma multa de 60 a 300 euros, o que, como é do conhecimento público, está a ocorrer com muita frequência?

Nota bibliográfica:
Para quem se interessa por estas coisas do espírito, recordo que foi o outro contribuinte do (Im)pertinências que há mais de uma década isolou e estudou o referido comportamento, o baptizou de nacional-faixismo e o definiu no Glossário, assim:
Um movimento social-nacionalista. Um estado de espírito que emprenha o país, do Portugal profundo à socialite ranhosa da Caras, e que leva os portugueses a circular na faixa errada. Como movimento, existe na versão faixismo de esquerda - a mais agressiva, e na versão faixismo de centro. A versão faixismo de centro é, como no resto, provavelmente maioritária, abrangendo os que andam devagar mas têm vergonha de não andar depressa. A versão faixismo de direita é imobilista. É adoptada pelos indígenas que não circulam e encalham o chaço em 2ª fila enquanto vão fazer umas comprinhas, que duram um par de horas.

In vino veritas

Fonte: Semanário de reverência
Queixam-se do Dijsselbloem, que até nem falou na liderança do ranking do briol, e se Jeroen vier a descobrir as resmas de casas de alterne espalhadas por esse país e recuperar da Torre do Tombo o célebre número da edição europeia da Time com o artigo When The Meninas Came To Town e concluir que as meninas do alterne são a alegria dum patriota que nem as mães brigantinas conseguiram travar?


Assim se confirmará que, além de lendas vivas na copofonia, os tugas são verdadeiros machos, agora semi-clandestinos por causa do politicamente correcto.

A essas duas dimensões, copos e gajas, é mister adicionar a grande propensão para a pedinchice comprovada por mais de três décadas a torrar 9-milhões-9 de euros por dia do dinheiro desses tristes nórdicos. E assim chegamos à demonstração da negação do statement de Dijsselbloem e podemos dizer ao Mourinho Félix que, enquanto lhe segura a mão visível, lhe grite orgulhosamente na cara: podemos gastar todo o vosso dinheiro em álcool e mulheres (*) e continuar a pedir ajuda!

(*) Num sentido figurado. Em rigor deveríamos acrescentar autoestradas, bolsas de doutoramento em ogias, startups que fecham assim que acabam os subsídios, pasto para a vaca marsupial pública, as contas do Eng. Sócrates, as offshores do Dr. Ricardo and all that jazz.

17/04/2017

DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (35) - O bombeiro

Enviado pelo Agent Provocateur
No passado, leríamos na notícia «os bombeiros estão no local». Nos tempos dos Afectos e da geringonça temos o presidente da República e o SEF.

Não ignoro que o presidente Marcelo é muito popular, o que significa que o povo aprecia muito ser infantilizado. O que me leva a concluir que podemos usar os indices de popularidade de Marcelo para medir o grau de infantilismo popular.

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (79)

Outras avarias da geringonça.

Não admira que a geringonça nos anuncie os amanhãs que cantam, porque ela está lá para os anunciar. Já o BdP, que aumentou as suas previsões para 2017 de 1,4% para 1,8% inspira um pouco menos de desconfiança.

Contudo, se segundo a geringonça e a legião de opinativos que a suporta está tudo a correr tão bem, como explicar que o chamado Indicador Compósito Avançado da OCDE, que visa antecipar os pontos de viragem nos ciclos económicos, está há seis meses consecutivos a decrescer?  Há várias razões, a começar porque o horizonte da geringonça é de curtíssimo prazo e cada semana que aguentar é uma vitória e o indicador da OCDE indicia uma viragem nos próximos 6 a 9 meses; a continuar porque a aposta da geringonça nas reversões das tímidas medidas do governo anterior está de facto a criar um clima de certa euforia, devidamente apimentado pelo presidente dos Afectos, clima que excita os Animal Spirits de Keynes, aumenta o consumo e episodicamente puxa pela economia. Só que, num país descapitalizado, pior, num país em que o investimento não tem sido sequer suficiente para manter o capital fixo, que não tem mercado interno com dimensão, nem um contexto político, social e económico atractivo para o investimento directo estrangeiro, tudo isto são explosões de anfetaminas que esgotam rapidamente o músculo económico fraco e flácido.

16/04/2017

SERVIÇO PÚBLICO: Sugestão ao Expresso

O Expresso anunciou a publicação em sete volumes com distribuição gratuita a partir da próxima semana do "Portugal Amordaçado" de Mário Soares, que teve uma única edição em Portugal em 1974.

Expresso

Sugestão ao semanário de referência: publicação de uma obra com mais de 400 páginas que constitui um complemento do livro de Mário Soares. da autoria de um seu colaborador próximo e de muitos anos, com uma única edição em 1996, rapidamente esgotada e nunca reeditada por razões desconhecidas, apesar do seu desaparecimento rápido das prateleiras.


CASE STUDY: Trumpologia (16) - Donald, o Pimenta Machado ianque

Mais trumpologia.

Muito mais do que «factos alternativos» ou «pós-verdades» o que melhor caracteriza as premissas da doutrina Trump é o lema de António Pimenta Machado, à época do presidente do Vitória de Guimarães, assim enunciado:

«O que hoje é verdade, amanhã é mentira»

Alguns exemplos:

Quem era o melhor amigo de Trump até recentemente? Vladimir Putin, czar de todas as Rússias. Quem é hoje um dos seus inimigos? Vladimir Putin.

Quem era para Trump o maior «currency manipulator»? China. Hoje, China «not a currency manipulator».

Quem era um dos maiores inimigos de Trump até recentemente? Xi Jinping, chefe do Partido Comunista e presidente da China. Quem é hoje um dos seus novos amigos? Xi Jinping.

Quem era o ditador que deveria ser tolerado porque combatia o Daesh? Bashar al-Assad, o presidente da Síria. Quem é o ditador a quem Trump chamou carniceiro e pretende derrubar? Bashar al-Assad.

Qual era a organização de defesa internacional que estava «obsolete»? A NATO. E hoje o que é a NATO? «No longer obsolete».

Quem mantinha baixas as taxas de juro para ajudar Barack Obama e deveria ser substituída no final do mandato? Janet Yellen, a presidente da Fed. Quem foi a pessoa que Trump elogiou pelo seu papel na recuperação da economia americana? Janet Yellen.

Quem era o adviser que Trump mais prezava? Stephen Bannon. Quem foi o adviser a ser despromovido e publicamente criticado? Stephen Bannon.

15/04/2017

As 10 fases por que passa a reacção ao terrorismo islâmico

«Sempre que meia dúzia de transeuntes são trucidados numa cidade europeia, a primeira fase consiste em proclamar que nada indica tratar-se de um acto terrorista. Numa segunda fase, aceita-se que, se calhar, até foi um acto terrorista. A terceira fase implica atribuir a matança exclusivamente à arma utilizada, seja um pechisbeque explosivo, uma faca ou um camião (a frase “camião abalroa X pessoas” tornou-se um clássico do jornalismo cauteloso e da dissimulação). Na quarta fase, descobre-se, não sem algum espanto, que o explosivo, a faca ou o camião tinham alguém a manobrá-los, embora haja pressa em adiantar que as motivações do manobrador permanecem obscuras. Na quinta fase, o espanto redobra quando se percebe que o nome do homicida é Abdullah, Ahmed, Ali, Assan, Atwah, Aymen (noto que ainda não chegamos aos “bb”) ou algo com ressonância pouco latina, anglo-saxónica ou asiática. A sexta fase envolve um questionário aos conhecidos de Abdullah, que o caracterizam como uma jóia de rapaz. Na sétima fase, suspeita-se que a jóia afinal viajara recentemente para a Síria e participava em “sites” de ligeira influência “jihadista”, onde jurava matar os infiéis que se lhe atravessassem à frente (uma promessa literal no caso da utilização de camiões). A oitava fase decide que Abdullah se “radicalizara”, ou seja, jurara devoção ao Estado Islâmico, a que chamamos Daesh só por pirraça. A nona fase estabelece que Abdullah, ele mesmo um infeliz afectado por distúrbios psiquiátricos ou discriminação social ou ambos em simultâneo, não representa o Islão, por muito que o próprio afirme aos berros o contrário. A décima fase é essencial: aos tremeliques, o poder político declara que nunca cederá ao medo; os jornais desenham capas giras e vagas a propósito; o povo sai à rua a cantar o “Imagine” ou fica no Facebook a “solidarizar-se” com as vítimas sem referir os culpados

«O terrorismo islâmico nunca existiu», Alberto Gonçalves no Observador

ARTIGO DEFUNTO: Grécia, Venezuela, Offshores, desaparecerem em combate

Alguns temas que suscitaram enorme excitação/indignação e, sem aviso, como por milagre, desapareceram da mídia de causas

ekathimerini.com
«Enquanto os funcionários do governo se preparavam para retornar aos seus distritos eleitorais para a Páscoa, o primeiro-ministro Alexis Tsipras tentou prepará-los para as críticas que provavelmente sofrerão de seus partidários após concessões feitas aos credores do país. 

Dirigindo-se a seus ministros em uma reunião de gabinete, Tsipras insistiu que um acordo alcançado na semana passada entre os ministros das Finanças da zona do euro, determinando os "elementos abrangentes" das reformas económicas que devem ser implementadas para desbloquear novos empréstimos de resgate, foi "defensável em sua totalidade"

Revista Veja

Diário de Notícias

14/04/2017

Quem disse?

«Um abrandar da nossa vontade, da nossa determinação em ter boas contas públicas, podia fazer perigar a própria situação de longo prazo do país. Temos uma dívida pública muito elevada e que precisa de ser reduzida de forma substancial».

Dito numa entrevista a um dos diários do regime que a titulou «Abrandar a consolidação poderia pôr em perigo o país». Curiosa, mas não surpreendentemente, na sua edição online diária, o semanário do regime adoptou precisamente o mesmo título para citar trechos da mesma entrevista. Quem disse?
  • Vítor Gaspar, ministro das Finanças do governo neoliberal "austeritário" de Passos Coelho
  • Maria Luís Albuquerque, sua substituta 
  • Passos Coelho himself  
  • Nenhum dos anteriores
Acertou se escolheu a quarta opção - quem disse foi Pedro Marques, o ministro do Planeamento de Costa. É uma espécie de legitimação a posteriori da austeridade neoliberal, como dizem os patetas que confundem austeridade com necessidade e não sabem o que é ser liberal.

É também uma espécie de insulto à inteligência ou elogio à estupidez (talvez mais este do que aquele) dos eleitores do PS que votaram no «Virar a página da austeridade» e no «início de um ciclo virtuoso, assente na melhoria do rendimento e no incentivo do investimento empresarial».

SERVIÇO PÚBLICO: "Cristiano Ronaldo nunca foi a Torremolinos"

«É muito difícil arranjar adjectivos para ilustrar com justeza as proezas desportivas de Cristiano Ronaldo. Todo o mundo o conhece, é o desportista que mais dinheiro ganhou em 2016, é feliz a fazer o que gosta e nunca foi a Torremolinos em viagem de finalistas.

Este não é um artigo sobre futebol, é sobre a força mental que deve estar na base da criação do sucesso. CR não nasceu em berço de ouro, não teve uma infância fácil, foi criado com amor mas numa família que sofria para todos os dias ter pão na mesa.

Para lá dos seus golos e troféus, o seu melhor exemplo e legado é a maneira como fintou as curvas da vida com mentalidade de campeão. Porque o seu mérito é a capacidade de trabalho, a ambição de ser melhor todos os dias, querer ganhar e superar-se para bater todos os recordes

Rui Calafate no jornal Eco

13/04/2017

Pro memoria (343) - «O momento Torrremolinos de António Costa»


«O momento Torrremolinos de António Costa», Henrique Monteiro no Expresso Diário

Este homem talvez mereça ser secretário-geral de uma agremiação como PS, mas não merece ser primeiro-ministro, nem mesmo de Portugal.

CASE STUDY: A pátria do capitalismo é o inferno dos capitalistas (15)

Outros anjos caídos: (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10), (11), (12), (13) e (14).

Em Setembro do ano passado foi posta a nu uma fraude gigantesca que envolveu milhares de agências do banco americano Wells Fargo. Gerentes dessas agências foram tacitamente encorajados a atingir os seus objectivos de vendas convencendo os clientes a abrirem um total de 2 milhões de contas desnecessárias e não solicitadas e a transferir fundos de e para essas contas, bem como para outras contas simuladas em nome de familiares dos gerentes.

A fraude envolveu 5.300 gerentes e empregados das agências que foram despedidos e os clientes foram indemnizados pelos prejuízos relativamente diminutos (USD 3,2 milhões).

Esta semana, a administração do Wells Fargo identificou os dois ex-administradores directamente responsáveis pela montagem da fraude, John G. Stumpf  e Carrie L. Tolstedt, que impuseram objectivos de vendas inalcançáveis aos gerentes, e decidiu exigir-lhes o reembolso (clawback) de salários, prémios e stock options nos montantes de USD 69 e 67 milhões, respectivamente - se não pagarem voluntariamente, a Wells Fargo deduzirá esses montantes aos seus fundos de pensões.

Imaginemos o que teria acontecido neste nosso cantinho de brandos costumes. Internamente o caso seria abafado e, se chegasse à justiça, seria mais um para a equipa do juiz Carlos Alexandre se entreter até à aposentação.

Ciência da trivialidade - a teoria do laço dos atacadores



Um grupo de engenheiros mecânicos da universidade de Berkeley acaba de publicar um artigo científico na revista Proceedings of the Royal Society em que explica pela primeira vez por que se desatam os laços dos atacadores dos sapatos. A razão é um efeito duplo do golpe de pisar e do chicotear que actua como uma «mão invisível», aliviando o nó e puxando nas extremidades livres dos laços que acabam por se desenrolar. O estudo é um exemplo de como a ciência encontra respostas para quase tudo, até para as questões triviais. Graças a uma câmara em slow motion percebe-se uma interacção complexa de forças faz com que o nó do laço se desate em segundos. (Fonte)

Sabe-se lá porquê, isso fez-me lembrar a geringonça - o que não é difícil porque desde há um ano muita coisa me faz lembrar a geringonça. Neste caso foi a «mão invisível» que gradualmente vai aliviando o nó e puxando pelas extremidades livres de laços que acabam por se desenrolar. De um momento para o outro, quando tudo parecia caminhar sobre rodas, neste caso sapatos, os laços desenrolam-se, o nó desata-se e o dono dos sapatos em fuga para a frente fica subitamente descalço ou, pior do que isso, estatela-se ao comprido. E aí, o dono dos sapatos deixa os seus admiradores, que lhe prognosticaram um futuro longo e risonho, com um problema: como vão descalçar a bota?

Como postula a legenda do vídeo, espera-se que esta descoberta nos ajude a compreender como se desatam outros nós complexos, como a geringonça.

12/04/2017

ARTIGO DEFUNTO: Empregos que dependem de opiniões

Com um pedido de desculpas aos leitores do (Im)pertinências por voltar a chafurdar no tema álcool e mulheres nos quais Dijsselbloem se recusa a gastar dinheiro emprestado (foi isso que literalmente ele disse), tema já bastantemente e bem glosado pelo outro contribuinte, vou continuar o único post que escrevi sobre um aspecto particular desta farsa, a saber: a extraordinária colaboração que vários jornais e jornalistas de causas têm dado à criação do «facto alternativo» «Centeno sondado par substituir Dijsselbloem», como titulou o Expresso na sua primeira página.

Assumo, portanto, que o título e a peça do Expresso onde tudo começou é uma mistificação, para chamar um nome alternativo à mentira com um propósito, neste caso talvez com dois ou três: sujeitar Dijsselbloem a uma humilhação aos olhos dos parolos localizados no rectângulo lusitano, parolos já fascinados com a voz grossa de Costa a insultar o homem, aproveitando para pôr um mais na caderneta de Centeno, elevando-o a candidato ao olimpo bruxelense.

Não foram muitas as vozes que se atreveram a denunciar a mistificação e quase todas foram vozes alinhadas: Marques Mendes (o primeiro), Paulo Rangel (neste artigo frontal), entre outros, dos quais destaco Manuel dos Santos, eurodeputado socialistas que ao jornal i garantiu «é um facto político criado artificialmente. Nunca ouvi falar»,


Apesar de achar extraordinário que vários eurodeputados do PS se tenha prontificado a capear a mistificação, talvez pretendendo dar credibilidade ao subtítulo do Expresso «socialistas europeus procuram nome do sul da Europa», concedo-lhes a benevolência de estarem a defender o emprego. É mais difícil ser benevolente com os jornalistas de causas que em vários jornais acolheram estas estórias da carochinha e as compuseram para alimentar as meninges crédulas dos leitores.

É mais difícil ser benevolente com os jornalistas de causas? Talvez não. Afinal a maioria desses jornalistas de causas também estava a defender o emprego. Talvez o maior problema seja a quantidade de empregos que está dependente de opiniões.

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Sem esquecer Churchill


Eric Frattini, em entrevista ao Expresso Diário

11/04/2017

SERVIÇO PÚBLICO: O terrorismo na Europa está a aumentar?

Fonte: BBC

Como o diagrama mostra, o número de vítimas mortais não está a aumentar, muito pelo contrário. A média anual nas décadas de 70 e 80 foi de 150 e desde 1990 a média baixou para 50. Os terroristas é que são outros. O terrorismo de génese nacionalista como o IRA ou ETA, responsáveis por 3.500 e mais de 800 mortes, respectivamente, foi substituído pelo terrorismo do fundamentalismo islâmico.

¿Por qué no te callas? (16) - Entrada de leão, saída de sendeiro (ACTUALIZADO)

Este post é como uma continuação de Em defesa do Jero e de Se o ridículo fosse mortal.

Depois de ter usado contra Dijsselbloem três dos insultos mais graves disponíveis na vulgata socialista («racista, xenófobo e sexista») e ter exigido a sua demissão a partir da Rua de S. Bento e do Largo do Rato e não, como devia, na Rue de la Loi; depois de Dijsselbloem ter respondido ironicamente ao ajudante Mourinho Félix com um «não lhe vou exigir um pedido de desculpas» e em entrevista ao De Volkskrant ter rematado com uma subtil provocação «esperava que Mourinho Félix pedisse a minha demissão, mas ele não o fez»; depois de tudo isto Costa enfiou a viola no saco, queixou-se das «palavras insuportáveis» (é preciso uma grande lata para quem chamou ao homem «racista, xenófobo e sexista») e conclui «temos de continuar a trabalhar no que é essencial» (como se antes não tivéssemos).

Depois de tudo isso e da invenção da «sondagem» do Expresso, Costa acrescentou a declaração ao El País de estar disposto a apoiar o espanhol Luis de Guindos, um adversário político do Partido Popular, para substituir Dijsselboem um socialista holandês do Partido do Trabalho. Um autêntico malabarista e salta-pocinhas.

Ocorre-me aquele desabafo de Filipe II Juan Carlos (*) em resposta à verborreia revolucionária inflamada do defunto coronel Chávez: ¿Por qué no te callas?

(*) Talvez devido a um curto-circuito nas sinapses sobrecarregadas com a geringonça, ocorreu-me o Filipe II em vez de Juan Carlos, como gentilmente fez notar um leitor neste comentário. Filipe II definitivamente não disse tal coisa, e em vez disso, segundo a lenda (espero que não seja outro curto-circuito), disse que as leis em Portugal são duras mas a sua imposição é mole, o que era e é uma grande verdade, mesmo que ele não a tenha dito.

10/04/2017

Dúvidas (193) - Dará conta do recado? Pelos vistos não (3)

Outras dúvidas do mesmo teor: (1) e (2)

Os sarilhos de Guterres na ONU continuam. Desta vez, um tanto surpreendentemente para quem era considerado um especialista em desgraças, é a Amnistia Internacional que, a propósito do conflito no Iémen, critica Guterres pela boca da sua patroa Sherine Tadros: «ele disse que este é um dos principais temas que iria atacar e ouvimos coisas muito positivas sobre a forma como gosta de se envolver pessoalmente na mediação. No entanto, não vimos nada».

Para quem estivesse ao corrente da sua passagem pelo governo português (10 milhões de portugueses incluindo criancinhas de colo) e dispusesse de uma porção de neurónios ainda activos (uma percentagem não muito alta desses 10 milhões) não seria surpresa que a vida de Guterres como secretário-geral da ONU viria a ser difícil, podendo tornar-se impossível. Porquê então se criaram essas expectativas inverosímeis sobre o papel da criatura? O Impertinente já aqui escreveu que do seu ponto de vista é o resultado dos complexos de inferioridade e da necessidade de encontrar heróis, o refúgio nos falsos consensos e as câmaras de eco do jornalismo de causas. Tendo a concordar.

Há quem continue a garantir que acredita em grandiosas realizações de Guterres na ONU, como Santos Silva, o MNE que gosta de malhar na direita e de massajar a esquerda, que diz não ter «nenhuma dúvida de que Guterres vai fazer reformas nas Nações Unidas — até porque essas reformas são necessárias». É claro que Santos Silva, a menos que fosse parvo que não é, não acredita que quem nem no governo português, numa época de vacas gordas, não fez nenhuma reforma que se visse, fará as reformas necessárias na ONU num contexto especialmente difícil e com poderes de um chefe de secretaria.

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (78)

Outras avarias da geringonça.

Ao mesmo tempo que se empluma com um défice mais baixo do que os défices do governo que nos castigou com a austeridade, o governo de Costa bate mês a mês os recordes da dívida que em Fevereiro atingiu 243,5 mil milhões de euros, ou seja mais 12 mil milhões de euros em relação a Fevereiro de 2016. Nesse mesmo período o défice segundo os números do governo não ultrapassou 4 mil milhões de euros. Como um défice gerou um aumento da dívida três vezes superior é algo só explicável por uma contabilidade voodoo.

Todas administrações públicas fazem o seu melhor para contribuir para a dívida. Por parte dos hospitais a dívida às farmacêuticas está a aumentar este ano ao ritmo de um milhão por dia e já atingiu 845 milhões.

09/04/2017

Se o ridículo fosse mortal, Dijsselbloem teria infligido várias baixas ao governo da geringonça

Tudo começou com uma entrevista ao Frankfurter Allgemeine Zeitung, em que Jeroen Dijsselbloem disse: «O pacto na zona euro baseia-se na confiança. Com a crise do euro, os países do norte na zona euro mostraram a sua solidariedade para com os países em crise. Como social-democrata considero a solidariedade extremamente importante. Mas quem a exige, também tem obrigações. Não posso gastar todo o meu dinheiro em álcool e mulheres e continuar a pedir ajuda. Este princípio aplica-se a nível pessoal, local, nacional e, inclusivamente, europeu.»

O enunciado de Dijsselbloem inclui factos (os países do norte na zona euro mostraram a sua solidariedade para com os países em crise), premissas geralmente aceites (o pacto na zona euro baseia-se na confiança; quem exige a solidariedade, também tem obrigações) e princípios pessoais (não posso gastar todo o meu dinheiro em álcool e mulheres e continuar a pedir ajuda). É óbvio para quem tenha metade dos neurónios a funcionar que álcool e mulheres é mais ou menos o que um português em privado diria putas e vinho verde, como sinónimo para designar dinheiro mal gasto e provavelmente mal ganho

Reagindo a esta entrevista, o primeiro-ministro português considerou que os portugueses foram ofendidos, ou seja assumiu que os portugueses gastam mal o dinheiro que recebem em nome da solidariedade, exige a demissão de Dijsselbloem, o presidente socialista do Eurogrupo, e classifica-o como «racista, xenófobo e sexista» o que no politiquês corrente são três dos insultos mais graves em vigor na vulgata socialista.

Com o sentido de oportunidade que caracteriza o costismo, alguns dias depois, no dia 1 de Abril (uma piada involuntária), o Acção Socialista Expresso publica na primeira página uma suposta sondagem por «socialistas europeus» a Centeno para substituir Dijsselbloem, sondagem de que não se encontram traços na imprensa internacional.

Se a coisa tivesse ficado por aqui, já teríamos várias vítimas do ridículo no governo e no semanário de referência. Não ficou.

Tivemos de seguida uma cena protagonizada por Mourinho Félix cuidadosamente encenada e filmada por um cameraman de causas (ver aqui o vídeo devidamente legendado), em que o ajudante de secretário de Estado se dirige a Dijsselbloem enquanto lhe segura a mão para ele não o deixar a falar sozinho. «Quero dizer-lhe que foi profundamente chocante aquilo que disse dos países que estiveram sob resgate e gostaríamos que pedisse desculpas perante os ministros e a imprensa». Dijsselbloem responde «eu vou dizer alguma coisa sobre isso... mas a reacção de Portugal também foi chocante. Bom, não lhe vou exigir um pedido de desculpas mas vou dizer alguma coisa


Num país que tivesse um pingo de dignidade e respeito por si próprio ninguém teria enfiado a carapuça e reagido à entrevista de Dijsselbloem. Num país desses, nenhum ajudante de secretário de Estado teria montado aquela cena ridícula. Num país desses, se um ajudante de secretário tivesse montado tal cena e ouvisse uma resposta irónica do visado, o vídeo encenado seria rapidamente esquecido, Neste país, o ajudante de secretário foi promovido a herói nacional e quase ninguém percebeu a ironia da resposta de Dijsselbloem.

08/04/2017

Encalhados numa ruga do contínuo espaço-tempo (75) - O cão de Pavlov

Face à condenação generalizada do ataque com armas químicas contra populações sírias, atribuído ao regime de Bashar Al-Assad apoiado pelo regime do czar Putin, os comunistas domésticos insurgiram-se com veemência e opuseram-se ao voto no parlamento condenando o ataque.

Não há uma explicação racional para a colagem dos comunistas portugueses ao partido Baath e ao regime despótico de Assad nem ao partido Rússia Unida e ao regime autocrático de Putin, porque nenhum deles tem, de perto ou de longe, qualquer relação com o comunismo como ideologia, nem mesmo com a vulgata comunista do PCP. Sendo certo que o Baath e o clã Assad foram durante décadas aliados da União Soviética governada pelo PCUS, cuja doutrina oficial era o marxismo-leninismo, com o colapso do regime soviético depois da queda do muro de Berlim em 1989, o regime que se seguiu tem de comum com o comunismo apenas o facto de ser uma autocracia onde a nomenclatura soviética foi substituída pela mafia putinesca.


Ocorre-me como explicação mais aceitável a de que se trata de um reflexo condicionado como o do cão de Pavlov, habituado a associar comida ao som do badalo, que se babava quando este tocava ainda que não houvesse comida por perto.

07/04/2017

Brexit - Shooting itself in the foot

David Cameron, ex-primeiro-ministro e ex-líder conservador, prometeu durante a campanha para as eleições de 2014 realizar um referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, para segurar os votos que, pensava ele, estariam a fugir para o UKIP de Nigel Farage. A semana passada, para limpar a sua folha, Cameron explicou que o fez because the issue had been poisoning British politics for years.



Os resultados das sondagem nos últimos dez anos, mostram precisamente o contrário. Até ser anunciado o referendo em Fevereiro de 2016 os britânicos não ligavam peva ao assunto. Foi a partir daí que o tema ganhou importância até se tornar uma obsessão. Como escreveu a Economist, from non-issue to big deal, mérito de Cameron (em tempos alcunhado de Chamaleon).

DIÁRIO DE BORDO: Pensamento do dia a propósito da trumpologia e da esquerdalogia

«A great deal of intelligence can be invested in ignorance when the need for illusion is deep.»

Saul Bellow

06/04/2017

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (149) - Quem se mete com o PS, leva

«A Entidade das Contas e dos Financiamentos Políticos (ECFP) detetou irregularidades nas contas do PS de 2014, ano em que se realizaram as Primárias (...) O PS previa que as eleições custassem 328 mil euros, mas os custos totais passaram os 1,65 milhões de euros: cinco vezes mais do que o orçamentado. O PS contestou as falhas apontadas no relatório em meados de março e espera agora ser ilibado, enviando vários recados ao excesso de zelo da Entidade das Contas.» (Observador)

Luís Patrão, o patrão das finanças socialistas, insinuou que a Entidade das Contas é uma espécie de nova troika. Não é verdade. As contas das Primárias dispararam precisamente por que a Entidade das Contas não é uma espécie de nova troika. Imaginem o que Centeno, o patrão socialista das finanças, faria se a velha troika não o mantivesse sob ameaça de lhe fechar a torneira.

SERVIÇO PÚBLICO: Mais de 40% do preço da energia eléctrica doméstica são subsídios

Fonte: EDP, informação aos clientes 

Varrendo o défice tarifário para
debaixo do tapete
Mais de 40% do preço da energia eléctrica doméstica são subsídios às empresas de energias renováveis, acrescente-se. Energias renováveis que são vendidas em Portugal a 92,1 €/MWh e em Espanha a 67,1 €/MWh, ou seja menos 27%. De onde os valores unitários do lucro antes das amortizações, encargos financeiros e impostos são respectivamente 78,4 e 37,2 €/MWh, ou menos 53%. (Fonte: Luís Miral Amaral, «Eólica e Solar, no Expresso)

De onde se pode estimar o enorme grau de felicidade dos operadores de energias renováveis portugueses face aos espanhóis, e o enorme grau de infelicidade dos consumidores portugueses face aos espanhóis, grau de infelicidade a que devemos adicionar o défice tarifário, o expediente inventado pelo governo de Barroso para enfiar parte dos custos reais de produção para debaixo do tapete de onde sairão para ser pagos pelos futuros consumidores, que é como quem diz, o último a sair apague a luz.

A mentira como política oficial (33) - A cada um a sua verdade mentira

«BE lembra socialistas que usam argumento de Passos Coelho em que nunca acreditaram»

05/04/2017

Uma hipótese desalinhada e politicamente incorrecta

«Os economistas Mark Aguiar e Erik Hurst mostram de forma convincente que a melhoria da qualidade do lazer tem tido o efeito de diminuir a oferta de trabalho, isto é, dão razão à hipótese de que os jogos de computador são um dos factores que explicam a baixa taxa de emprego nos Estados Unidos. 

Embora não disponha de dados para Portugal, suspeito que os resultados seriam semelhantes. O problema do desemprego jovem não é somente um problema de falta de empregos; é também o facto de que não trabalhar nunca foi tão atractivo.»

Excerto de «Desemprego jovem» um artigo de Luís Cabral, economista e professor da Universidade de Nova Iorque e da AESE, publicado no Expresso do dia 1 de Abril (não parece mentira)

Mitos (249) - O contrário do dogma do aquecimento global (XIV)

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Em retrospectiva: que o debate sobre o aquecimento global, principalmente sobre o papel da intervenção humana, é muito mais um debate ideológico do que um debate científico é algo cada vez mais claro. Que nesse debate as posições tendam a extremar-se entre os defensores do aquecimento global como obra humana – normalmente gente de esquerda – e os negacionistas – normalmente gente de direita – existindo muito pouco espaço para dúvida, ou seja para uma abordagem científica, é apenas uma consequência da deslocação da discussão do campo científico, onde predomina a racionalidade, para o campo ideológico e inevitavelmente político, onde predomina a crença.

Se dúvidas houvesse sobre a natureza ideológica do debate sobre as mudanças climáticas, os habituais títulos bombásticos e catastrofistas eliminariam as dúvidas. Leia-se, por exemplo, o do diário da manhã DN:
«Alguns dos glaciares da costa da Gronelândia estarão pedidos para sempre»
Perdidos para sempre? Verdade seja que do paper «A tipping point in refreezing accelerates mass loss of Greenland’s glaciers and ice caps» citado pelo DN e outros jornais não se pode concluir que «alguns dos glaciares da costa da Gronelândia estarão pedidos para sempre» mas apenas que está a acelerar-se a perda de massa dos glaciares e das calotas polares.

Não é preciso ser-se um cientista para se saber que o clima na terra já mudou profundamente por diversas vezes e essas mudanças não poderiam por razões óbvias ser atribuídas a acções humanas. Se os jornalistas das causas climáticas escrevessem nos jornais há uns 110 mil anos talvez pudessem ter escrito um dislate semelhante, uns tempos antes do início do último período glaciar que perdurou até há cerca de 10 mil anos. No máximo do período glaciar a cobertura de gelo teria o aspecto da recriação aqui ao lado, onde é possível perceber que a Gronelândia está totalmente encapsulada pela cobertura do gelo polar.

Ou, mais recentemente, imagine-se um jornalista holandês (eventualmente um antepassado de Jeroen Dijsselbloem) a escrever no «Nieuwe Tijdinghen», surgido no princípio do século XVII em Antuérpia e considerado um dos primeiros jornais publicado regularmente no Ocidente. E imagine-se que esse imaginário jornalista, depois de um verão tórrido nos Países Baixos, tivesse escrito qualquer coisa sobre glaciares pedidos para sempre, isto em meados do século XVII uns anos antes da Pequena Idade Glaciar, durante a qual foi possível patinar no Tamisa.

04/04/2017

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Imaginem

«Imaginem que um governo baixava o défice com medidas extraordinárias.

Imaginem que um governo aumentava as cativações e cortava o investimento do Estado, de modo a manter os maiores salários da função pública e as pensões mais elevadas.

Imaginem que um governo tentava primeiro privatizar a administração da CGD, e depois arranjava investidores estrangeiros caríssimos, ao mesmo tempo que anunciava ir encerrar balcões e despedir trabalhadores.

Imaginem que um governo, para arranjar receita fiscal, dava um perdão às maiores empresas portuguesas, que assim poupavam milhões de euros.

Imaginem que um governo se propunha aumentar o poder dos serviços de informações para recolher dados de comunicações privadas, numa iniciativa outrora chumbada pelo Tribunal Constitucional.

Imaginem que um governo vendia um banco a custo zero e com garantia à Lone Star, entidade há muito classificada pelo BE como “fundo abutre”, consagrando o controle estrangeiro dos quatro maiores bancos privados em Portugal.

E agora, imaginem que esse governo era um governo chefiado por Pedro Passos Coelho.

Estão a ver?

Era a austeridade. Era o neo-liberalismo. Era a crise social. Era o fim de Abril. Era o fascismo. E, claro, eram greves, eram manifestações, eram aulas magnas, eram apelos ao tribunal constitucional, era Vasco Lourenço, era Manuel Alegre, era a revolução.

Mas como esse governo é de António Costa, derrotado nas eleições de Outubro de 2015, mas amparado pelo PCP e pelo BE, eis o país, segundo o presidente da república, embalado pela mais perfeita paz social.»

«Sim, dá muito jeito ter António Costa no governo», Rui Ramos no Observador