Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
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Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
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03/08/2024

O Dr. Costa e a sua circunstância

«Yo soy yo y mi circunstancia y si no la salvo a ella, no me salvo yo»

José Ortega y Gasset

Em entrevista ao canal Now o Dr. Costa fez algumas declarações aparentemente inesperadas, nomeadamente as seguintes:

«A AD ganhou as eleições e deve governar quatro anos»

«Aquilo que é normal nas oposições é não inviabilizarem à partida a existência de um Orçamento, mas predisporem-se a que o Orçamento possa ser viabilizado sem que isso seja entendido como um apoio ao Governo»

(...) se o Orçamento não tiver nenhuma medida que seja absolutamente intolerável para a oposição, eu acho normal que a oposição viabilize»

«A oposição não deve transformar Orçamento numa moção de censura.»

O comentariado doméstico parece ter ficado surpreendido. Sem razão, porque o Dr. Costa que proferiu tais declarações não é o mesmo Dr. Costa que foi um primeiro-ministro medíocre que geriu o poder com astúcia e um líder que colocou sempre o partido acima do país. O Dr. Costa que disse isso é o Dr. Costa futuro presidente do Conselho Europeu, mais interessado em projectar uma imagem de figura política da Óropa acima dos pequenos interesses domésticos e nada interessado em envolver-se nas pequenas intrigas do Portugal dos Pequeninos. Qual é o verdadeiro Dr. Costa? Nenhum deles ou, como provavelmente diria o filósofo espanhol Ortega y Gasset, os dois.

23/06/2020

Depois do patriotismo bacoco, o saloísmo transforma-se em pânico

Este post é uma continuação de O saloísmo é a etapa superior do patriotismo bacoco.

S. Ex.ª o presidente dos beijinhos, acompanhado por Altas Figuras do Regime compostas por S. Ex.ª o presidente da AR, o Sr. primeiro-ministro, vários ministros e seus ajudantes e ainda o presidente da câmara de Lisboa, todos fazendo companhia ao presidente da Federação Portuguesa de Futebol, S. Exª., dizia eu, anunciou com orgulho patriótico que a UEFA, na falta de outros candidatos a albergar uma nova Bergamo, tinha aceite a oferta portuguesa para realizar em Lisboa a fase final da Taça, admitindo a possibilidade de os jogos terem assistência (S. Ex.ª omitiu esta parte).

Assustados com as primeiras reacções críticas à autorização de um evento com presença de alguns milhares ou dezenas de milhar, no caso de os jogos terem assistência, e tardiamente receosos de um provável surto, algumas das excelências começaram, como é seu hábito, a fugir com as nádegas à seringa. O presidente dos beijinhos, primeiro, e o chefe do governo, de seguida, ameaçaram os sujeitos passivos com medidas «mais duras» e até um novo «quadro punitivo» para as «festas ilegais», festas incomparáveis com o pandemónio que as finais da UEFA podem desencadear (veja-se a final da taça de Itália a semana passada).

O que esperáveis destas elites merdosas que nos governam? Elites merdosas, convém recordar, que os portugueses do Portugal dos Pequeninos veneram como demonstram as sondagens que dão 80,5% e 84,6% dos sujeitos passivos a avaliarem positivamente o presidente dos beijinhos e o chefe do governo.

18/06/2020

O saloísmo é a etapa superior do patriotismo bacoco

«Num momento em que todos os países disputam o regresso ao turismo internacional, a retoma das suas economias e o afirmarem a sua marca nacional no mundo, ser a marca Portugal, aquela que vence e que se vai afirmar, nesse mês crucial de agosto, durante mais de oito dias, não tem preço, é irrepetível, é uma vez na vida.» 
Disse S. Ex.ª, o presidente dos beijinhos, numa cerimónia com as "forças vivas da Nação", como diziam as luminárias situacionistas do salazarismo, congratulando-se pelo facto de nenhum outro país querer correr os riscos de albergar uma nova Bergamo.

Também como uma luminária situacionista, mostrando uma grande conformidade com o Alto Interesse da Nação segundo o novo Almirante Tomás, a directora-geral da Saúde enfiou a carapuça de directora-geral do Turismo e declarou
«Quanto maior for o número de visitantes para o nosso país melhor, desde que obviamente cumpram as regras previamente estabelecidas entre todos os intervenientes,»

03/11/2019

De boas intenções está o inferno cheio (53) – A religião é a política por outros meios? (XXIII)


Confesso que, mais por falta de tempo do que de interesse, não acompanhei, nem de longe, o Sínodo da Amazónia que mesmo à distância me cheirou a teologia da libertação (ou teologia da submissão ao totalitarismo), doutrina católico-guevarista que proliferou na América Latina nos anos 70. Li por isso com curiosidade e interesse o artigo de Rui Teixeira Santos no jornal SOL (sem link disponível) e que resolvi transcrever.

O Sínodo da Amazónia e a conservação do planeta 

«O Sínodo da Amazónia que, segundo o Papa Francisco, na semana passada escutou o «clamor dos pobres», teve objetivamente quatro resultados:
1. Legitimou a 'Teologia Indigenista', novo nome da 'Teologia da Libertação', uma criação soviética, para instrumentalizar a Igreja Católica na divulgação do marxismo-leninismo na América Latina, no âmbito da Guerra-Fria, criticada pelo Papa João Paulo II;
2. Legitimou a 'ideologia de género' e a agenda dos teólogos alemães · (como o cardeal Kasper da 'gloriosa faculdade teológica de Tübingen') a favor da ordenação de mulheres como diáconos, sustentando- se que «é urgente que a Igreja promova e confira na Amazónia ministérios para homens e mulheres de maneira equitativa» e o reconhecimento de padres casados.
3. Legitimou a apostasia do reconhecimento do animismo índio (a «irmã Natureza» como lhe . chamou o Papa) como compatível com o Evangelho, esquecendo a doutrina dos missionários e apostando na criação de um novo 'rito amazónico', que «reflita a espiritualidade, as culturas e as necessidades únicas dos fiéis daquela região», numa nova cisão com o 'rito latino'; e
4. Legitimou um discurso de autodeterminação e independência das tribos indígenas (um total de apenas 230 mil almas, num universo de 25 milhões de habitantes nos nove Estados da Amazónia) reavivando a nossa memória da traição dos Jesuítas, expulsos de Portugal pelo Marquês de Pombal, por defenderam a Independência de Mato-Grosso, na Amazónia, apropriando-se das suas riquezas naturais e por ameaçarem a unidade política do Brasil.

27/06/2018

De boas intenções está o inferno cheio (50) – A religião é a política por outros meios? (XXII)

Outros posts sobre a religião como a política por outros meios.

Aviso: como qualquer frequentador regular do (Im)pertinência já terá tido oportunidade de constatar, não sou fã do papa Francisco. Aquele aroma a teologia da libertação (ou teologia da submissão ao totalitarismo) faz-me tonturas, a mim que sou um agnóstico e adepto de a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.

Segundo o Guardian, o papa Francisco concedeu ontem uma audiência privada de 57 (cinquenta e sete) minutos ao presidente francês Macron que incluiu dois beijinhos. A audiência, sublinha o jornal, durou o dobro da concedida a Donald Trump que, supõe-se, não incluiu beijinhos.

No seu lugar, caro leitor, não teria a certeza se foi o papa que encurtou a duração da audiência ao Donaldo (que se declara presbiteriano).

28/02/2018

De boas intenções está o inferno cheio (49) – A religião é a política por outros meios? (XXI)

Outros posts sobre a religião como a política por outros meios.

Aviso: como qualquer frequentador regular do (Im)pertinência já terá tido oportunidade de constatar não sou fã do papa Francisco. Aquele aroma a teologia da libertação (ou teologia da submissão ao totalitarismo) faz-me tonturas, a mim que sou um agnóstico e adepto de a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.

Por isso o tenho criticado por andar a tentar reformar o mundo e ajudar a construir o socialismo, que como se sabe não correu bem no passado (União Soviética, Europa de Leste, China, etc.), nem corre bem no presente (Cuba, Venezuela, etc.), em vez de tentar reformar a Curia Romana, obra que não está ser nada fácil.

E também por isso fiquei surpreendido (e não, não é censura, é só surpresa) pelo inesperado exercício de realpolitik de Francisco que, para melhorar as relações diplomáticas entre o Vaticano e Pequim, está a deixar cair os «dois bispos ‘clandestinos’ (ou seja, que seguem as orientações de Roma e foram nomeados e ordenados à revelia do regime) que, no final do ano passado, foram abordados por uma equipa negocial do Vaticano que lhes propôs que resignassem aos seus lugares e dessem lugar a dois bispos nomeados pelo governo chinês.»

18/01/2018

Ressabiados do regime (21) - O PS-D em reconstrução


«António Capucho quer regressar ao PSD depois de, em 2014, ter sido expulso do partido por ter apoiado uma lista adversária nas autárquicas em Sintra.» (Observador)

É difícil perceber porque não aderem estas criaturas ao verdadeiro PS-D, que é o PS.

07/07/2017

De boas intenções está o inferno cheio (48) – A religião é a política por outros meios? (XX)

Outros posts sobre a religião como a política por outros meios.

Se estivesse no lugar do Papa Francisco (vade retro) em vez de, ou pelo menos antes de, reformar o mundo e ajudar a construir o socialismo, que como se sabe não correu bem no passado (União Soviética, Europa de Leste, China, etc.), nem corre bem no presente (Cuba, Venezuela, etc.), tentaria reformar a Curia Romana, obra que não estava a ser nada fácil.


A polícia do Vaticano interrompeu uma orgia gay, com drogas, no apartamento do secretário de um cardeal que é um dos conselheiros do Papa. Aconteceu no mês passado, mas só agora foi tornado público.

Não estava e não está a ser nada fácil. No entanto, aos olhos de um agnóstico, desinfectar a Curia Romana parece-me essencial para credibilizar o programa evangélico porque o credo quia absurdum est só esta a resultar com os populistas.

13/02/2017

De boas intenções está o inferno cheio (47) – A religião é a política por outros meios? (XIX)

Outros posts sobre a religião como a política por outros meios.

«O principal painel consultivo do Papa Francisco começa hoje uma reunião de três dias em Roma. Logo após o início de seu papado, Francisco escolheu nove cardeais para elaborar planos para reformar a governação da Igreja. Os planos deveriam incluir uma nova constituição para a Cúria Romana, a administração central. Quase quatro anos depois, os planos ainda não se conhecem. Um projecto abrangente de reforma ajudaria o papa a desviar a atenção de uma revolta cada vez mais aberta por parte de prelados conservadores que estão convencidos de que suas declarações doutrinárias estão em desacordo com o ensino da Igreja. No início deste mês, apareceram cartazes em Roma atacando-o. Francisco pode ser o queridinho dos progressistas do mundo - alguns até o veneraram como o anti-Trump, mas uma minoria do seu próprio rebanho vê-o quase como um anti-Cristo. Se o papa embarcar em uma revisão profunda da Curia Romana, que tem uma resistência lendária à mudança, alguns rebeldes de topo terão motivos para detestá-lo ainda mais.»

[The Economist Espresso desta madrugada]

19/12/2016

DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (23)

Outras preces.

«Rebelo de Sousa, um dos sócios principais da sociedade de advogados SRS Legal (Simmons & Simmons), é irmão do Presidente da República, facto que fonte ligada às negociações sublinhou como sendo naturalmente valorizado pelos investidores chineses.

Curiosamente, a contratação de Rebelo de Sousa ocorre numa altura em que a banca tem estado em destaque na agenda oficial e oficiosa do Presidente da República, que tem tido na CGD uma das suas prioridades.» (jornal i)

Alguém falou em conflito de interesses? Não dei por isso.

«Marcelo Rebelo de Sousa apareceu ontem no Teatro da Cornucópia para uma reunião com a companhia durante a qual perante as câmaras e os jornalistas tentou conseguir um estatuto especial para impedir o fim do grupo fundado por Luís Miguel Cintra. O Presidente chegou a pedi-lo ao ministro da Cultura que inesperadamente apareceu no encontro. Mas se há muito quem queira salvar a Cornucópia, também há quem ache que a Marcelo extravasou os seus poderes ao intervir no caso.» (jornal i)

Alguém falou em peronização do regime? Sim, Helena Matos.

14/11/2016

De boas intenções está o inferno cheio (46) – A religião é a política por outros meios? (XVIII)

Outros posts sobre a religião como a política por outros meios.

«O papa Francisco disse que os comunistas "pensam como os cristãos", numa entrevista publicada esta sexta-feira pelo jornal italiano "La Repubblica".

"São os comunistas que pensam como os cristãos. Cristo falou de uma sociedade em que os pobres, os débeis e os excluídos é que decidem. Não os demagogos, os Barrabás, mas o povo, os pobres, tenham fé em Deus ou não, mas são eles que temos de ajudar a obter a igualdade e a liberdade", afirmou o papa, na entrevista.»

Li o Expresso e, desconfiando do jornalismo de causas, corri a La Reppublica para confirmar que o papa tinha dito isso. E disse mesmo.

Como é possível, um católico, o chefe da igreja católica, de uma penada absolver uma nomenclatura de assassinos, demagogos e Barrabás e os milhões de comunistas seguidores de uma doutrina em nome da qual num século foram suprimidas as liberdades a metade da humanidade em duas dúzias de regimes despóticos, foram presos, torturados e assassinados uma centena de milhões de seres humanos, muitos deles católicos?

01/11/2016

De boas intenções está o inferno cheio (45) – A religião é a política por outros meios? (XVII)

Outros posts sobre a religião como a política por outros meios.

É preciso reconhecer alguma coragem ao papa Francisco para visitar a Suécia, um país com 80% de agnósticos e ateus e apenas 1% de católicos, ainda para mais para comemorar os 500 anos das 95 teses de Martinho Lutero, o alemão católico dissidente, excomungado pela igreja católica, que fundou a primeira igreja protestante.

Depois de uma primeira e de uma segunda manifestações da deriva de uma espécie de Teologia da Libertação ressuscitada para uma espécie de Realpolitik, é uma terceira manifestação. Desta vez bem mais aceitável.

25/10/2016

BREQUINGUE NIUZ: Porta-voz do ministério da Finanças confirma défice de 2,5%


«Aquilo que conhecemos hoje mostra que, como eu disse repetidas vezes há condições para que o défice fique em 2,5%. Lembram-se que houve quem tivesse muitas dúvidas olhando para os números do primeiro trimestre, do segundo trimestre, terceiro trimestre.»

«Marcelo Rebelo de Sousa aos jornalistas à saída da escola Ave-Maria, em Lisboa» (Fonte)

30/08/2016

ACREDITE SE QUISER: O lugar do outro

Não é preciso ser piloto-aviador, nem mesmo ter estado na tropa para compreender que a Força Aérea, que nem tem os meios capazes e suficientes para defender o país dos inimigos externos e cumprir as obrigações que as nossas alianças requerem, muito menos dispõe das aeronaves, do know-how, dos pilotos e restante pessoal para andar a apagar fogos, fazer a manutenção da parafernália e tudo o mais necessário durante doze meses por ano para manter os aviões no ar três ou quatro semanas.

Deve haver algumas razões para mesmo em países que dispõe de Forças Aéreas incomensuravelmente melhor apetrechadas não se inclui o combate a incêndios nas suas missões.

Consigo perceber que um desempregado, residente em Odivelas ou em qualquer outro ponto do país, à falta do que fazer, torture as suas meninges e tenha tempo disponível para promover uma petição para pôr a FA a fazer de bombeiros. Com um pouco mais de dificuldade, ainda consigo perceber, que 32 mil outras criaturas se tivessem disposto a assinar a petição - afinal de contas são apenas 0,33% dos eleitores e se até o MRPP teve 60 mil votos.

Porém, está para além da minha compreensão que o ministro da Defesa, ainda que só depois de feito ministro tenha entrado num quartel, considere «inevitável que a FAP venha a ser dotada dessa capacidade» e fico ainda preocupado com o destino do país quando o ministro acrescenta que «o primeiro-ministro coincide nessa abordagem».

17/03/2016

Dúvidas (151) – Costa, o banqueiro socialista

Citando o Expresso (não encontrei o artigo original - é possível que tenha sido apagado…), o Observador  escreveu que António Costa «esteve pessoalmente envolvido no processo» BPI, o que me levanta várias dúvidas.

É verdade que Costa meteu o bedelho nas negociações BPI-La Caixa-Isabelinha? Se sim, o que tem ele de se envolver num negócio entre entidades privadas? Se não, para que fez ele o seu spin doctor de serviço soprar uma mentirola nas orelhas do jornalista amigo de serviço no Expresso?

No primeiro caso, Costa mostra bem a sua visão orwelliana do papel do Estado. No segundo caso, também.

10/02/2016

De boas intenções está o inferno cheio (42) – A religião é a política por outros meios? (XV)

Outros posts sobre a religião como a política por outros meios.

Admito que o jornalismo de causas do Público possa ter ajeitado os factos às suas causas – uma vez mais. Tenho até esperança que o ajeitamento tenha sido feito no artigo em que se relatam mais umas quantas declarações do Papa Francisco. Vou respigar algumas passagens desse artigo de causas.

«Poucos dias antes do encontro histórico com o Patriarca russo Kirill, no dia 12, o Papa Francisco deu uma entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera onde reconhece algumas “convergências” entre o Vaticano e Moscovo sobre os conflitos no mundo árabe. “A Rússia pode oferecer muito” em termos da paz mundial”».

«O encontro – o primeiro entre o chefe da Igreja Católica e o líder da maior e mais influente das Igrejas Ortodoxas desde o grande cisma de 1054 – realizar-se-á em Cuba.»

“Nas Primaveras Árabes e no Iraque, podíamos adivinhar o que se ia passar. E em parte houve uma convergência de análises entre a Santa Sé e a Rússia» disse o Papa em entrevista ao Asia Times acrescentando «Mas se se pensa na Líbia antes e depois da intervenção militar contra o regime do coronel Muammar Kadhafi – antes era só um, agora são 50. Não se pode deixar de pensar, com uma ponta de apreensão, no que poderá acontecer se os EUA e a Europa resolverem atacar de novo o território da Líbia, lacerado pelo tribalismo e terrorismo islâmico».


Confesso que o Papa Francisco me surpreende. Tão depressa faz juízos e proclamações ingénuas e irrealistas inspiradas por uma espécie de Teologia da Libertação ressuscitada, como faz agora inesperadas proclamações inspiradas numa Realpolitik que Henry Kissinger não desdenharia e com as quais tenho de confessar o meu alinhamento - com reservas.

02/12/2015

Encalhados numa ruga do contínuo espaço-tempo (54) – Remoendo a golpada

Quando o pior pode acontecer, acontece. E o pior que pode acontecer a uma coligação que ganhou as eleições e foi apeada por uma aliança espúria e oportunista é continuar a remoer a golpada de Costa e a produzir uma moção de rejeição de um programa de governo que está provavelmente mais próximo do seu próprio do que da caldeirada programática que em termos práticos resultará dessa aliança espúria.

Apresentam uma moção de rejeição quando deveriam vigiar de perto a governação de Costa e denunciar 24 horas por dia, 7 dias por semana todas as golpadas, asneiras, incumprimento de promessas, violações do programa e apresentando medidas e soluções alternativas, fazendo assim o seu papel de oposição construtiva em vez de imitarem o estilo trauliteiro da esquerdalhada. Se isto é mau para o futuro da coligação é pior para o PSD e para Passos Coelho que deveria manter as distâncias dos chiliques do salta-pocinhas.

A coligação deveria fazer o papel de oposição construtiva principalmente por razões de princípio, mas também de eficácia e circunstância porque, como aqui explicou Joaquim do Portugal Contemporâneo, a golpada de Costa teve até agora sucesso e «não é possível argumentar com o sucesso».

12/07/2015

Lost in translation (246) – «Passos Coelho deve rezar a Deus Nosso Senhor Jesus Cristo», disse ele

Escrevi há dias, a propósito do Dr. Domingues de Azevedo, bastonário dos técnicos oficiais de contas, que ele é um tribuno sempre à frente das grandes causas, a apontar novos caminhos e a criticar a governação com uma linguagem colorida, inesperada em quem lida com o deve, o haver e as partidas dobradas. Poderá ter sido um exagero? Parece que não. Ora leia-se mais uma das suas proclamações precisamente na mesma entrevista ao jornal i que foi «desdobrada» como se tratasse de outra:

«Passos Coelho deve rezar a Deus Nosso Senhor Jesus Cristo, se é que ele acredita, se não acredita reze a quem quiser, todos os dias de manhã e à noite para que a Grécia saia da Europa, porque se não sair é evidente que os portugueses vão analisar todos os problemas que enfrentaram e toda a carga fiscal que suportam enquanto os gregos não fizeram nada disso e permanecem na União Europeia. É claro que vão condenar quem tomou estas decisões. A melhor prenda política que Passos Coelho poderá ter é a Grécia não ficar na Europa.»

Com a invocação a Deus Nosso Senhor Jesus Cristo, lembrou-me o papa Francisco que também parece sofrer da mesma síndrome: fazer o lugar do outro. Se isto continua, ficaremos com um insustentável défice de papas e de técnicos oficiais de contas e um superavit cada vez maior de políticos.

30/08/2014

ACREDITE SE QUISER: Os mais poderosos da economia portuguesa

A imprensa doméstica costuma fazer umas listas meias parvas com classificações bizarras muito apreciadas pelos jornalistas, eles saberão porquê. Uma das mais parvas é a «lista dos mais poderosos da economia portuguesa» do Jornal de Negócios com 50 nomes que incluem o presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, e o presidente dos Lampiões, Luís Filipe Vieira, ambos os presidentes criaturas sem as quais a economia portuguesa ficaria de rastos, como se sabe. E também, pasme-se, José Sócrates o principal responsável pela bancarrota da economia portuguesa.

Entre outras singularidades, a «lista dos mais poderosos da economia portuguesa» apresenta dois estrangeiros nos lugares cimeiros – Mario Draghi (8.º) e Angela Merkel (7.º) que na lista de 2013 foram os primeiros – o que só por si diz muito sobre a aceitação que o estatuto de protectorado já ganhou entre os portugueses.

Muito sugestiva é a descida do pódio em 2013 do DDT Ricardo Salgado para 48.º lugar em 2014. Muito sugestiva e bastante injusta para quem só este ano revelou em toda a extensão o impacto da sua persona na economia portuguesa.

A maior das singularidades na «lista dos mais poderosos da economia portuguesa» é, porém, acredite se quiser, o nome do 6.º mais poderoso da economia - Joaquim de Sousa Ribeiro, presidente do Tribunal Constitucional. No top five que ainda falta conhecer não devemos excluir outras singularidades do mesmo calibre.

25/01/2014

Pro memoria (162) – O lugar do outro (II)

O ano passado, por esta altura, escrevi aqui que o Tribunal Constitucional (TC) fazia o papel do executivo, o executivo fazia o papel de apresentador dos estudos do FMI e o presidente da República fazia o papel do TC produzindo um documento com 29 páginas, que se recusou a divulgar publicamente (estaria em segredo de justiça?), onde explicou ao TC o que este deve acordar.

Durante todo o resto do ano o país continuou, como habitualmente, contaminado pela síndrome do lugar do outro e, com as eleições autárquicas, uma fornada de novos vereadores ficaram habilitados a mostrar vocações para secretários de estado, ministros, primeiros-ministros e até presidentes de repúblicas. Foi o caso, no princípio da semana passada, de Rui Moreira que desafiou Bruxelas e no fim da semana já «exige entrar na negociação de fundos comunitários».

Tudo indica que o presidente da câmara do Porto está com dificuldades em compatibilizar o seu pletórico ego com a modéstia do lugar. Vamos certamente continuar a ouvir a criatura a falar em bicos de pés para as câmaras de eco mediáticas tentando, eventualmente, fazer parte da legião de proto candidatos a PR, lugar para o qual há tantos pretendentes que poderíamos chamar-lhe lugar-comum – releia-se, a propósito o post do Impertinente «A atracção por Belém - a lista dos que não se excluem não pára de crescer».

[Novo termo a adicionar ao Glossário das Impertinências: lugar-comum]