Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
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Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
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18/09/2026

The far-right Haredi religious group is an internal threat to Israel, just as the Persian Shiites are an external threat

1) Israel’s success was built on education and high‑tech

  • After independence, Israel invested heavily in research universities and scientific talent.
  • This produced a world‑leading high‑tech sector, responsible for half of exports and extraordinary levels of R&D investment.
  • But only 20% of the workforce—those in high‑tech, medicine, and academia—generate 93% of income tax.

2) A deep productivity divide

  • High‑tech workers produce 22% above the OECD average.
  • The rest of the economy—where 90% of Israelis work—lags 24% below the OECD average.
  • Half the workforce is too poor to pay income tax.

3) The education crisis

  • Israel ranks near the bottom of the OECD in PISA math, science, and reading.
  • Half of Israeli children receive a core education below levels seen in many developing countries.
  • The fastest‑growing groups are the least educated, especially the Haredim.

4) The Haredi demographic surge

  • Haredi boys receive almost no secular education; from age 13 they study only Torah.
  • Fertility rate: ~7 children per woman, compared with ~2 in other groups.
  • Their share of the population doubles every 25 years.
  • In 2023, they were 6% of 50–54‑year‑olds but 26% of children under five.

5) Municipal collapse as a warning

  • Cities like Jerusalem and Arad show rapid socioeconomic decline as educated residents leave and Haredi populations expand.
  • Secular students in Jerusalem fell from one‑third to 9% over 35 years.

_________________

Source: "Israel’s neglected threat from within" by Dan Ben-David , president of the Shoresh Institution for Socioeconomic Research and emeritus professor of economics at Tel Aviv University.

11/09/2026

As habilidades hermenêuticas do Dr. Centeno

Expresso

mais liberdade

Por que diabo o Dr. Centeno disse o que disse, aparentemente uma barbaridade imprópria de sair da boca de um sábio das finanças públicas, sem receio de ser incinerado na praça pública? Ora, porque o Dr. Centeno sabe que o Eurostat e a Comissão Europeia utilizam o conceito de Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), usado no quadro acima, onde se enquadra a maioria dos fundos que Portugal recebe, conceito que é diferente dos critérios do ministério das Finanças e da contabilidade pública nacional, em que o "Investimento Público" abrange verbas classificadas como capital financiadas diretamente pelos impostos, tais como: 
  • Aquisição de equipamento militar, como fragatas, aeronaves ou sistemas de defesa;
  • Bens de equipamento comuns: veículos, computadores, sistemas informáticos ou equipamentos hospitalares;
  • Subsídios e entradas de capital a empresas públicas: transferências financeiras que o Estado faz para recapitalizar ou cobrir o plano de investimentos de empresas públicas.
E é assim que o Dr. Centeno, abusando das subtilezas da hermenêutica contabilística, obscurece os factos relevantes que (1) são a dependência maioritária dos dinheiros de Bruxelas do investimento do Estado em capital público criador de riqueza e (2) os expedientes que usou durante anos no OE e nas contas públicas para esconder o facto de estar a reduzir o investimento público por trás da aparência de o estar a aumentar (ver o post Investimento público, a autoestrada mexicana do PS).

07/08/2026

Um Rio cada vez mais parecido com um socialista (2) - Era parecido, agora é indistinguível

Em 2018, por alturas deste post, o Dr. Rui Rio era líder do PS-D e já então dificilmente distinguível de um socialista encartado.


Há dias, com a sua confissão no X do Dr. Musk, o Dr. Rio declarou-se um anticapitalista puro e duro.

_________

A este propósito é indispensável não fazer confusões. 

Por um lado, temos os anticapitalistas, como o Dr. Rio, que, por natureza, é um pró-socialista, entre outras coisas possíveis, mas improváveis dado o seu passado. 

Por outro lado, temos os adeptos cépticos do capitalismo, como este vosso escriba, que veem o capitalismo como o pior dos sistemas económicos e sociais, com excepção de todos os outros, principalmente se esses outros forem sistemas sem propriedade privada e sem um mercado livre e se não tiverem por companhia um Estado Democrático e de Direito.

31/07/2026

TIROU-ME AS PALAVRAS DE BOCA: O Portugal dos Pequeninos é «um Estado corporativista, com traços claros de capitalismo de compadrio» (andamos a dizer isso aqui há 23 anos e noutros sítios há mais tempo)

Portugal está preso num sistema de compadrio, com justiça lenta, reguladores capturados e um Estado que falha aos cidadãos, é, «em larga medida, um Estado corporativista, com traços claros de capitalismo de compadrio», onde a proximidade entre poder político e grandes grupos económicos continua a condicionar a concorrência, a produtividade e o crescimento económico.

James A. Robinson, Prémio Nobel da Economia em 2024, co-autor com Daron Acemoglu de «Porque Falham as Nações».

23/07/2026

TIROU-ME AS PALAVRAS DE BOCA: O Portugal dos Pequeninos e o neoliberalismo que é afinal a economia de compadrio

«Há uma fraude intelectual no centro do debate político português, e é esta: a ideia de que Portugal é, ou alguma vez foi, uma economia liberal entregue à selva dos mercados. Sempre que algo corre mal — os salários baixos, a emigração, a habitação, a pobreza — a culpa é atribuída ao “neoliberalismo”, ao “mercado”, ao “capitalismo selvagem”. É uma mentira, e das mais consequentes que contamos a nós próprios, porque o diagnóstico errado garante o tratamento errado. O doente não morre de excesso de liberdade. Morre da sua ausência. (...)

No capitalismo de mercado, enriquece-se servindo melhor o cliente do que o concorrente. Ninguém está protegido, o consumidor é o árbitro e a falência é a sanção sagrada que liberta o capital mal empregue para quem o emprega melhor.

Na economia de compadrio é tudo ao contrário: O Estado escolhe os vencedores, os subsídios vão para os amigos, as normas são escritas para matar os pequenos e blindar os grandes já instalados e o lucro não vem do cliente, vem do lobbying. Deixa de se ganhar criando valor e passa a ganhar-se comprando um favor.»

Excerto de O Estado-empresário: Cinco séculos a fazer o mesmo, Pedro Santa Clara

13/05/2026

SERVIÇO PÚBLICO: Desfazendo o mito do efeito milagroso dos fundos europeus

«... os fundos europeus, longe de promoverem convergência, funcionam como uma «pílula envenenada» para países receptores, incluindo Portugal. Estas transferências sustentam um Estado ineficiente, alimentam clientelismo político, e distorcem a alocação de recursos para sectores não-transacionáveis. Ao reduzirem a pressão para reformas estruturais, os fundos perpetuam a baixa produtividade e o atraso económico. Décadas de apoios não geraram convergência real com a Europa rica. Terminar com os fundos de coesão traria benefícios substanciais a longo prazo, tanto para os contribuintes líquidos como para os próprios beneficiários.»

Nuno Palma anunciando o seu novo livro: «O Vício dos Fundos Europeus», no Portugal no longo prazo, em mais «Uma obra de demolição de alguns dos mitos mais populares no Portugal dos Pequeninos»

19/03/2026

Bons exemplos (144) - Leitura recomendada aos membros actuais e futuros dos governos do Portugal dos Pequeninos

Não desconhecendo a diferença entre intenções e realizações e acreditando que sem boas intenções não há boas realizações (as opiniões dividem-se a este respeito), recomendaria aos membros dos governos actuais e futuros a leitura integral da mensagem aos funcionários da administração pública inglesa (que lá, não por acaso, se chama Civil Service) de Antonia Romeo, recentemente nomeada Secretária do Gabinete e Chefe do Serviço Civil, mensagem da qual à guisa de teaser extraio alguns trechos.

«The Civil Service has deep skills and expertise, but we need to continue to modernise and innovate. I have spent much of the past five years talking to civil servants across the country about what they want from the Civil Service. What you have told me is that you want to change the things that get in the way of you doing your jobs. You want us to be more productive, to do things differently. You want to be proud of what you achieve. Civil Service modernisation needs to embrace your ideas and have innovation at its core.

I have given my career to public service because I care passionately about the country and the importance of democracy. No one will be a stronger advocate of the Civil Service than I am. I will stand up strongly for the Civil Service and I will work with you all to maintain and build trust in our institution. In 25 years I have seen civil servants respond to huge challenges with creativity, resilience, and determination. I know what we can achieve together.

Finally, my commitment to you as your Cabinet Secretary is to provide the energy, direction and support you need to excel. I will always take pride in what we do. You do some of the hardest jobs in the country - and you do them because they are hard, not in spite of them being hard.

That is the heart of public service. Every single person in the country, every day, depends on our work. That should be a matter of pride for us all, and something we should all carry with us.»

09/03/2026

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: E se o povo não quiser reformas?

«(...) É claro que reformas deste tipo não teriam qualquer hipótese de aprovação no parlamento. Mesmo que o PSD as desejasse (o que não estaria assegurado), encontra-se entalado entre dois partidos, o Chega e o PS, avessos a reformas liberais e que defendem mais intervenção do estado na economia e na sociedade. A resposta de PPC a um impasse deste tipo é confiar no povo. O político reformista deve apresentar e advogar a sua agenda perante os eleitores sempre, em eleições ou fora delas. Deve apresentar as suas propostas com coragem, sem compromisso ou calculismos. Os consensos que muitos advogam são frequentemente bissetrizes que nada mudam, simulacros de reformas que reduzem a pressão para as verdadeiras alterações estruturais. Insistir sempre. Se não for possível, ouça-se o povo. 

Gosto! Mas ... e se o povo não quiser reformas? E se o povo preferir a quietude anestesiante do declínio gradual à agitação transformadora? Afinal foi o povo que deu ao Chega e ao PS o poder bloqueador que atualmente detêm.

É que as reformas têm sempre ganhadores e perdedores. Esperam os reformistas que os benefícios dos ganhadores sobrelevem as perdas dos perdedores - isto é, que as reformas sejam um jogo de soma positiva - e que existam mecanismos redistributivos que permitam a compensação daqueles prejudicados. Em jargão de economista, esperam que as reformas representem uma melhoria potencial à Pareto. O problema complica-se quando consideramos a dimensão intergeracional. Os benefícios das reformas podem levar muito tempo a manifestar-se e os maiores ganhadores podem vir a ser aqueles que hoje ainda são muito jovens ou mesmo ainda não-nascidos - ou seja, segmentos com pouca voz eleitoral ou sem ela Em contrapartida, os eleitores mais velhos, com as vidas resolvidas, são aqueles expostos a maiores riscos e para quem o up side das reformas é menos óbvio. Vê-se assim que em sociedades envelhecidas como a portuguesa, em que a idade mediana são 47 anos e 25% da população tem mais de 65 anos, conseguir maiorias eleitorais reformistas é tremendamente difícil.

O reformador arrisca-se, assim, a ser como o escuteiro que queria praticar a sua boa ação diária levando uma velhinha a atravessar a rua. Só que ela não o queria fazer.»

O reformador e o povo, José A. Ferreira Machado no Jornal Sol

23/01/2026

A courageous speech by Mark Carney in Davos: Enough of "living a lie." "Nostalgia is not a strategy."

«In 1978, the Czech dissident Václav Havel, later president, wrote an essay called The Power of the Powerless, and in it, he asked a simple question: how did the communist system sustain itself?

And his answer began with a greengrocer.

Every morning, this shopkeeper places a sign in his window: ‘Workers of the world unite’. He doesn't believe it, no-one does, but he places a sign anyway to avoid trouble, to signal compliance, to get along. And because every shopkeeper on every street does the same, the system persist – not through violence alone, but through the participation of ordinary people in rituals they privately know to be false.

Havel called this “living within a lie”.

The system's power comes not from its truth, but from everyone's willingness to perform as if it were true, and its fragility comes from the same source. When even one person stops performing, when the greengrocer removes his sign, the illusion begins to crack. Friends, it is time for companies and countries to take their signs down.

In 1978, the Czech dissident Václav Havel, later president, wrote an essay called The Power of the Powerless, and in it, he asked a simple question: how did the communist system sustain itself?

And his answer began with a greengrocer.

Every morning, this shopkeeper places a sign in his window: ‘Workers of the world unite’. He doesn't believe it, no-one does, but he places a sign anyway to avoid trouble, to signal compliance, to get along. And because every shopkeeper on every street does the same, the system persist – not through violence alone, but through the participation of ordinary people in rituals they privately know to be false.

Havel called this “living within a lie”.

The system's power comes not from its truth, but from everyone's willingness to perform as if it were true, and its fragility comes from the same source. When even one person stops performing, when the greengrocer removes his sign, the illusion begins to crack. Friends, it is time for companies and countries to take their signs down.

21/12/2025

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Há sete anos Bibi antecipou que lhe deveria acontecer

O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, foi investigado há seis anos e está a ser julgado por acusações de suborno, fraude e quebra de confiança que ele nega, insistindo que isso não o impede de governar. 

Foi também acusado pelo Tribunal Penal Internacional de crimes de guerra e contra a humanidade que emitiu em Novembro de 2024 um mandado de prisão. Os seus advogados apresentaram no mês passado um pedido de perdão ao presidente de Israel, Isaac Herzog.

Que consequências deveriam ter essas acusações e o julgamento em curso sobre o seu mandato? O próprio Netanyahu disse claramente em 2008 o que pensava sobre a situação semelhante do seu antecessor no cargo, Ehud Olmert que renunciou antes de ser indiciado por aceitar subornos:

«Um primeiro-ministro atolado em investigações não tem mandato moral ou público para tomar decisões fatídicas para o Estado de Israel. Há um medo... e é real e não infundado que ele tomará suas decisões com base em seu interesse pessoal para a sobrevivência política, não no interesse nacional.»

19/10/2025

PUBLIC SERVICE: Trump Is Making Socialism Great Again. Capitalism needs better advocates.

«In 2002, toward the end of her public career, Thatcher was asked to name her greatest achievement. “Tony Blair and New Labour,” she replied. “We forced our opponents to change their minds.”

Sanders might say the same about Trump and his Republican Party. Goodbye to Reagan-era enthusiasm for markets and trade: Trump vowed much more aggressive and intrusive government action to protect American businesses and workers from global competition. He also offered a bleak diagnosis of America’s condition, for which the only way forward was to return to the past.

At the same time, Trump’s persona vindicated every critique Sanders might advance about the decadence of late capitalism. Here was a putative billionaire whose business methods involved cheating customers and bilking suppliers. His private life was one scandal after another, and he spent his money on garish and gimcrack displays. He staffed his administration with plutocrats flagrantly disdainful of the travails of ordinary people, and with grifters who liked to live high on public expense. (...)

12/07/2025

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Expliquem isso ao Eng. António Guterres

The UN «was not created in order to bring us to heaven, but in order to save us from hell».

Dag Hammarskjöld, economista e escritor, membro da Academia Sueca, Secretário-Geral das Nações Unidas de 1953 até 1961, ano em que morreu num acidente de aviação em Ndola, Rodésia do Norte (actual Zâmbia)

27/03/2025

ARTIGO DEFUNTO: Jornalismo de causas artísticas, um exemplo

Steve Reich é um velhote com quase 90 anos compositor de inspiração minimalista, rótulo que ele questiona. Ganhou um Grammy em 1990 e o Pullitzer da Música em 2009 e a sua peça mais conhecida é provavelmente "Música para 18 Músicos". A pretexto do lançamento de uma edição da sua obra completa (até agora), foi entrevistado pela Blitz e a entrevista foi também publicada pela Revista do Expresso.

A certa altura, o entrevistador vai à sua agenda de jornalismo de causas artísticas e saca de várias perguntas absolutamente previsíveis na sua tentativa tosca de politizar a música no pressuposto que os músicos são ou devem ser militantes ideológicos. As respostas de Reich, de que cito a seguir alguns excertos, são desarmantes.

«Não, a ideia de mudar o mundo é... é uma ambição tola para um artista. (...) Por isso não acho que a arte consiga mudar o mundo, acho, sim, que imaginamos ou esperamos que os artistas tenham um efeito transformador no mundo. (...)

Porquê começar por Gaza? Comecemos muito antes, há 2000 anos, por exemplo. Ou talvez ainda mais, há 3400 anos. A questão é que a terra de Israel tem sido um ponto fulcral na civilização ocidental e na civilização oriental há quase 4000 anos, por um motivo ou por outro. (...)

Bem, ser remunerado é importante. Qualquer outro ser humano que trabalhe poderá concordar com isso. Um dos meus modelos, claro, foi Igor Stravinsky, que era famoso por sempre encontrar uma forma de ser recompensado pelo seu trabalho. Ele pensava numa peça e depois tentava encontrar quem a quisesse e pudesse pagar por ela. Sempre trabalhei com agentes, na Europa, aqui nos Estados Unidos, é basicamente a mesma coisa. É um princípio muito simples: se conseguirmos que muitas pessoas paguem por uma só coisa, fica mais barato para cada uma. (...)

Como é que as condições políticas atuais me afetam a mim ou a outras pessoas enquanto compositores? Não tenho a certeza que afetem, na verdade. Quero dizer, não sei quantos Presidentes diferentes em partidos políticos diferentes estiveram no poder durante todas estas décadas em que tenho trabalhado. Claro que isso faz diferença no mundo, mas em termos da minha própria perceção do trabalho, sigo aquilo que me interessa.»

20/02/2025

A brilliant speech by VP JD Vance delivered in the wrong place


I do not share JD Vance's political thinking, particularly his nativist nationalism, although I would subscribe to every line of his speech on democracy. So what's the problem? There are three problems.

One is that I am not sure of the sincerity of his democratic convictions when I see the government of which he is a part using democracy to propagate the ideas they defend and try to prevent the dissemination of ideas they disagree with, distort the American Constitution and try to control justice and the federal administration for the benefit of a clique in their party. Another is that some of those who applauded him most in Munich are trying to illegitimately control the democratic institutions of their countries. Third, his extraordinary speech was delivered in the wrong Conference.

16/11/2024

SERVIÇO PÚBLICO: Ideias para o Portugal deixar de ser Pequenino

Pedro Santa Clara Gomes e Nuno Palma, professores da Universidade Nova e  da Universidade de Manchester, respectivamente, publicaram há duas semanas «Um desafio ao governo a propósito do Nobel de Economia» (*) com várias propostas de reforma do Estado sucial de onde extraio com o propósito de espevitar as meninges os seguintes excertos:     

«A primeira coisa a fazer é medir o valor dos serviços que estamos a obter com os nossos impostos.  Em vez de simplesmente alocar dinheiro a agências e ministérios para “cumprirem a sua função”, devemos estabelecer um contrato-programa com os resultados que pretendemos obter.  Estes resultados não devem depender de quantas pessoas o Estado consegue tratar ou alojar, mas sim de medidas concretas com uma avaliação de impacto que demonstre como a saúde da população vai aumentar ou o número de pessoas sem casa será reduzido.  (...)

Uma segunda área fundamental é a prestação de contas.  Cada ministro deve apresentar um relatório e as contas anuais do seu ministério. Um relatório que explique o que faz, quanto custa e que justifique porque é que as suas funções são mais eficientemente cumpridas no sector público, em vez de ser contratadas a entidades privadas. Que inclua a atividade do ministério e de todas as entidades que tutela.  (...)

 Uma terceira área fundamental é o levantamento e a valorização dos ativos públicos – o levantamento dos passivos, pós-troika, já é bastante bem feito, com a exceção do buraco da segurança social. O governo tem o dever fiduciário perante os cidadãos de cuidar da gestão destes ativos que nos pertencem a todos.  Poderemos ter finalmente um levantamento de todos os imóveis públicos e uma justificação de que estão a ter o melhor uso que lhes pode ser dado? Cada edifício público a degradar-se abandonado representa uma falta de responsabilidade perante a sociedade.

A qualidade dos serviços públicos deve ser sistematicamente avaliada e os resultados tornados públicos: os tempos de espera, a satisfação dos utentes, as comparações de qualidade e de custo ao longo do tempo, também internacionalmente. (...)

Outra área em que a qualidade do governo pode ser muito melhorada é o licenciamento e a regulação.  Cada obrigação de licenciamento ou de regulação deve ser justificado para assegurar que cria mais benefícios do que custos.  (...)

Têm de existir regras claras e com aplicação efetiva, que limitem os conflitos de interesse, como as portas giratórias, entre a política, o jornalismo e o poder judicial. Deve existir uma promessa firme e consequente de acabar com as nomeações políticas. Da mesma forma, devem ser aplicados critérios de mérito para as contratações e a progressão na carreira à gestão de recursos humanos em todas as entidades públicas. (...)

A Autoridade da Concorrência e o Tribunal da Concorrência, Regulação e Supervisão não estão a desempenhar o seu papel, já que vários estudos demonstram que os níveis de concorrência da economia portuguesa são comparativamente baixos. Sendo impossível reformar os reguladores supostamente independentes, mas na verdade capturados, devem ser extintos e devemos regressar ao modelo das Direções-Gerais: é mais barato e, dessa forma, a responsabilização política é clara.»

___________

(*) Se parecer estranho a relação entre o último prémio Nobel da Economia e os padecimentos do Portugal dos Pequeninos pode ler-se uma possível explicação no post Os estudos de Acemoglu, Johnson e Robinson não são sobre a desigualdade das nações. São sobre o fracasso de algumas nações.

04/11/2024

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Se o sectarismo em geral é uma estupidez, o sectarismo num partido liberal é uma estupidez indesculpável

«Ao contrário de outras ideologias, o liberalismo não é uma ideologia utópica. Também não aspira a criar um homem novo despido da sua natureza humana. É uma ideologia que aceita a imperfeição como algo inerente à realidade. O liberalismo não aspira a um mundo perfeito, aspira a um mundo cada vez melhor. A lógica de pensamento para o mundo e para o país deve aplicar-se também ao partido. O partido nunca será perfeito para ninguém, será sempre composto por pessoas diversas, com diferentes personalidades e motivações, algumas das quais incompatíveis entre si. Esperar o contrário é utópico e o caminho mais rápido para a desilusão e o conflito. Entender a natureza humana implica saber gerir e tolerar as suas imperfeições, especialmente aquelas que são agravadas pelo stress da prática política e exposição pública.

As eleições internas podem ser uma festa da democracia, contribuir para projetar uma imagem positiva da IL e do próprio liberalismo. As circunstâncias, a inexperiência e alguma imaturidade impediram que isso acontecesse da primeira vez. Temos agora uma segunda oportunidade. Não a podemos desperdiçar.»

Carlos Guimarães Pinto, escrevendo sobre o sectarismo do tipo esquerdismo infantil que infecta o Iniciativa Liberal

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Declaração de interesse: a relação que tenho com o IL resume-se a ter votado uma vez na sua lista antes da infecção pelo sectarismo. 

27/08/2024

BREIQUINGUE NIUZ: Eleitores capazes de ouvir más notícias elegem políticos capazes de as dar

«I will be honest with you, there is a Budget coming in October and it's going to be painful.

Just as when I responded to the riots, I'll have to turn to the country and make big asks of you as well to accept short term pain for long term good. The difficult trade-off for the genuine solution.

Those with the broadest shoulders should bear the heavier burden, and that’s why we’re cracking down on non-doms.

Who made the mess should have to do their bit to clean it up.»

We have to get away from this idea that the only levers that can be pulled are more taxes, or more spending. Our number one mission is to grow the economy.»

Estas foram algumas das coisas que Keir Starmer, o primeiro-ministro inglês, disse esta manhã no Downing Street Rose Garden aos eleitores.

No Portugal dos Pequeninos não há políticos capazes de dizer coisas como estas a um eleitorado infantilizado porque os eleitores são incapazes de as ouvir e por isso elegem políticos incapazes de as dizer.

12/06/2024

How Working Class Americans Became Second-Class Citizens

Amazon
«Americans are constantly told we are hopelessly divided, and it’s easy to see why many of us could believe it: our politicians relentlessly accuse the other side of undermining democracy and endangering the vulnerable, while our legacy media, which no longer even pretends to be objective, consistently portrays its side’s enemies in the starkest of terms.

People on the right are “racist,” says the left. People on the left are “groomers,” says the right. And so on.

But what if I told you that the people in the political and media classes are the ones who are polarized—in fact, they are the only ones who are so polarized?

This is obvious to most Americans, even—perhaps especially—to those who have neighbors or friends or colleagues who vote differently than they do. Regular Americans know we are more united than divided on the issues that are supposedly tearing us apart.

Democrats portray conservatives as characters out of The Handmaid’s Tale, and Republicans portray liberals as “baby killers.” Yet two-thirds of Americans agree that abortion should be rare and also legal.

Democrats like to tell us that Republicans are gung ho on school shootings, and Republicans are fond of saying Democrats want to steal our guns. Yet 61 percent of us believe that the Second Amendment should stand, but it’s too easy to get a gun. 

Democrats tell us Republicans hate gays and Republicans tell us that Democrats want every child to be queer. Yet average Americans believe that sex is determined at birth and that trans people should be protected from discrimination, though when it comes to sports, trans people should compete on teams that match the sex they were born with. This is how six in ten of us feel. 

The partisan claims of a polarized America ring especially false to working-class Americans. This is because—unlike the college-educated elites who run the country—they don’t identify with the full list of policy proposals produced by either party. 

I spent one year interviewing working-class Americans across the country from every political persuasion for my new book, Second Class: How the Elites Betrayed America’s Working Men and Women, and what I found was a remarkable consensus on the issues.»

Batya Ungar-Sargon (The Free Press)

24/04/2024

SERVIÇO PÚBLICO: Uma obra de demolição de alguns dos mitos mais populares no Portugal dos Pequeninos (8)

Continuação de (1), (2), (3), (4), (5), (6) e (7)

O último post sobre os mitos cuja demolição considero mais importante versa sobre o Estado Novo ter sido uma espécie de idade das trevas, mito que é um favorito da esquerdalhada e funciona como contraponto do mito de que a Primeira República foi um regime salvífico que tratei no post anterior.

Em primeiro lugar o Estado Novo não foi uma ditadura particularmente repressiva e muito menos um Estado totalitário. Na verdade, suporta bem a comparação com a "democracia" republicana. 

Em segundo lugar, a década de 50 o salazarismo colocou o país num processo acelerado de desenvolvimento traduzido por um aumento do PIB per capita  de cerca de 37% da média da Europa Ocidental para mais de 55% no final da década 60, apesar do crescimento fortissimo da maioria dos países dessa zona na mesma época. 

O mito do crescimento se ter dado à custa da exploração das colónias não tem pés nem cabeça, desde logo porque as exportações para as colónias no período de crescimento mais forte representavam apenas cerca de 3% do PIB. O mito do Portugal agrícola cai quando se compara a população activa na agricultura que nos anos 20 era quase 60% com os menos de 25% no final do regime.
 
Do ponto de vista da educação, o analfabetismo que no início do século XX atingia três quartos da população no final dos anos sessenta era residual e não existia analfabetismo infantil.

Na saúde pública todos os índices mostram fortes melhorias. A percentagem de homens com deficiências de crescimento reduziu-se a metade; a mortalidade infantil reduziu-se de mais de 140 por mil para menos de 60 por mil no final do regime. As percentagens da população com acesso aos serviços de saúde pública foi aumentando gradualmente de 10% em 1954 para quase 80% em 1975, ainda antes do tão incensado SNS.