Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
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Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
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05/10/2022

TIROU-ME AS PALAVRAS DE BOCA: Marx morreu e todos queremos ser ricos

«Não apenas queremos todos ser ricos, como relegámos para o caixote do lixo da história os mais elementares deveres de compaixão e solidariedade. Veja-se a crise dos refugiados, que convém não confundir com imigrantes, embora também estes devessem ter um acolhimento fraterno. Pois bem, refugiados e imigrantes são um dos principais ingredientes de que se alimentam as novas direitas radicais que se estão a impor na Europa.

Não subscrevo a tese da xenofobia: o que move a animosidade dos novos cidadãos-consumidores é a concorrência no mercado de trabalho, e não o facto de os arribados à Europa serem estrangeiros, pese embora o facto de que a integração socio-cultural destes novos hóspedes possa suscitar conflitos sociais e coloque aos Estados problemas muito difíceis de resolver. 

A social-democracia, por mais subsídios que invente, não resolve estes problemas: os imigrantes e refugiados são mal vindos, e o dinheiro que distribui nunca é suficiente. Não há nada em Marx que nos ajude a pensar este tipo de questões, como o fascínio do consumismo e o desejo de riqueza.

Porquê? Porque não há nada em Marx que leve em conta a natureza humana. Mas, muito precisamente, o que fazem os partidos de direita radical, ditos populistas, é levar em conta a natureza humana e ir ao encontro do que nela existe de menos nobre, mas que é o que é e, pelos vistos, o que dá votos.

Marx morreu.»

Maria de Fátima Bonifácio no Nascer do Sol

09/03/2022

Joe Biden quase a alcançar a popularidade de Donald Trump

Joe Biden’s state-of-the-union address fails to impress

«After a little more than one year in office, Mr Biden is in a slump. Setback has piled atop setback. After months of agonising negotiations, the signature legislative agenda of the administration—a gargantuan safety-net and climate-change spending package called Build Back Better—is in effect dead. High inflation, exacerbated by the large fiscal stimulus that Mr Biden signed, has wrecked his standing as an economic steward. Having promised to manage the pandemic better than his predecessor, Mr Biden has found himself at the mercy of covid-19 variants. And even his supposed core competence in foreign policy has looked in doubt since the chaotic withdrawal of American forces from Afghanistan (though his handling of the crisis in Ukraine has so far been more adroit).»

18/02/2022

Não é possível é enganar todas as pessoas todo o tempo

A NBC News há dois anos que pergunta regularmente a eleitores republicanos se eles se consideram mais apoiantes de Donald Trump ou do Partido Republicano. Mais ou menos por altura da invasão do Capitólio por admiradores de Trump, como se pode ver no diagrama seguinte, deu-se uma inversão das respostas e no último inquérito 54% dos entrevistado identifica-se mais com o PR e apenas 38% com DT.  

Fonte

Pelo lado de Joe Biden, as coisas não estão melhores, como se pode ver no diagrama seguinte.

Rasmussen Reports

Com 47% de "forte desaprovação" e apenas 19%  de "forte aprovação", Biden é hoje o presidente americano menos apreciado pelos eleitores, comparativamente com os anteriores (inclusive Trump) na mesma altura do mandato.

Foi um outro presidente americano que disse:
«É possível enganar algumas pessoas todo o tempo; é também possível enganar todas as pessoas por algum tempo; o que não é possível é enganar todas as pessoas todo o tempo» 
Abraham Lincoln

24/11/2018

Mitos (285) - Estados Unidos da Europa

Por muito que se considere admirável a tentativa de construir uma espécie de Estados Unidos da Europa num Continente dividido por séculos de guerra culminando na hecatombe da Segunda Guerra, um módico de realismo obriga-nos a reconhecer que o caminho percorrido só foi possível pela instrumentalização que o voluntarismo e auto-interesse da nomenclatura bruxelense, particularmente nos tempos de Delors, fez da megalomania francesa, dos complexos alemães e da subsídio-dependência dos países da Europa mediterrânica, primeiro, e oriental, depois. Como todas as construções fruto do voluntarismo, pode funcionar nos tempos das vacas gordas mas tropeça nos tempos das vacas magras quando emergem as idiossincrasias das culturas nacionais que não se apagaram com subsídios. Quanto mais incapazes forem os líderes democráticos europeus de perceber esta realidade mas se fortalecerá e tornará agressivo o instinto nacionalista. Reagir a esta realidade classificando como fascistas ou mesmo populistas os líderes e partidos que tentarão dar corpo a esses instintos, mais do que estúpido é suicida.

A este propósito, leiam-se alguns excertos de The resurgence of regionalism in Europe que transcrevo a seguir.

05/10/2016

CASE STUDY: Um imenso Portugal (36)

[Outros imensos Portugais]

O povo falou no domingo e o PT sofreu um rude golpe nas eleições municipais. Nas 26 cidades capitais de Estado apenas conseguiu eleger um prefeito em Rio Branco, no Acre e na segunda volta apenas tem uma única hipótese de eleger um outro no Recife, estado de Pernambuco. Perdeu 60% das prefeituras e passou de terceiro para décimo partido mais votado.

Verdadeira humilhação foi Marcos Cláudio, o filho adoptivo de Lula, candidato em S. Bernardo do Campo, em S. Paulo, onde vez uma campanha baseada em ser filho do pai, ter conseguido 1.500 votos numa cidade com 822 mil habitantes.

Sem surpresa, emudeceram as vozes da esquerdalhada doméstica. Curiosamente, a única referência que se encontra no site do PCP às eleições brasileiras é uma entrevista a José Reinaldo Carvalho, Secretário de Política e Relações Internacionais do PC do Brasil publicada em 15 de Setembro com o premonitório título «O Brasil depois do golpe - Dar voz ao povo».

18/09/2016

BREIQUINGUE NIUZ: Ainda vão ter saudades dela

«O partido da chanceler alemã, Angela Merkel, enfrentou uma derrota histórica nas eleições regionais deste domingo em Berlim, com apenas 18% dos votos, e com a direita populista a alcançar 12,5% dos votos, segundo as sondagens. (É) o pior resultado do pós-guerra, o que deverá resultar no fim da coligação regional com os Social-Democratas, que obtiveram 23% dos votos.» (TVI)

14/09/2016

CASE STUDY: O populismo alimenta-se do preconceito

Fonte: The Economist Espresso

Note-se que 58% dos adeptos de Trump se encontram no 1.º quartil do «ressentimento racial», um indicador de racismo, e 51.8% apoiariam uma emenda constitucional autorizando os estados da União a proibir o casamento gay. Não é que isso legitime o preconceito, mas a verdade é que em parte é uma reacção aos delírios do politicamente correcto.

03/09/2016

ACREDITE SE QUISER: Votar contra, mesmo não sabendo porquê

Amanhã, domingo, haverá eleições para o parlamento do estado federal Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental no norte da Alemanha, um antigo território da Alemanha de Leste. Nas sondagens o AfD-Alternative für Deutschland (Alternativa para a Alemanha), o partido de direita anti-emigração, tem 20% de intenções de voto e com o voto de protesto pode vir a ser o mais votado.

O facto de Mecklemburgo ter apenas 23 mil refugiados numa população de 1,6 milhões (1,4%) não explica o voto de protesto, mas mostra que motivações dos eleitores não são explicadas pela contabilidade e pela aritmética. Talvez o bom aspecto da líder Frauke Pedry ajude.

09/07/2016

ESTADO DE SÍTIO: Estamos a falar da mesma Nação?

Segundo Costa, ontem no parlamento, falando do Estado da Nação, «os portugueses estão melhor e o país está melhor».

Barómetro de Julho da Eurosondagem publicado pelo Expresso

Não sabemos a que portugueses Costa se refere, porque nem mesmo todos os eleitores do Partido Socialista parecem concordar,

16/03/2016

Bons exemplos (107) – Talvez ainda possa haver esperança

A notícia já é velha mas merece ser relevada porque mostra que, afinal, a opinião pública ainda não está tão alienada quanto a opinião publicada. Citando a opinião publicada pelo Expresso «por cada português que defende o Novo Banco na posse do Estado, há três que são contra a nacionalização».

Haja Deus.

25/01/2016

Pro memoria (290) – Quem ganhou e quem perdeu as eleições presidenciais?

A resposta simples e óbvia para quem ganhou foi dada esta madrugada por The Economist Espresso: «O pândita televisivo favorito dos portugueses». Não ganhou sozinho. O segundo grande vencedor foi o Sr. Vitorino Silva, aka Tino de Rans, com 152 mil votos (3,28%).

Perderam todos os outros candidatos com derrotas de vários tamanhos. A maior de todas foi a do ex-padre e actual comunista Edgar Silva que apenas capturou 183 mil votos (3,95%) dos 446 mil de que o PCP (8,25%) ainda é proprietário. A segunda maior derrota foi a de Maria de Belém que acabou com menos de 197 mil votos (4,24%) - 1/3 das primeiras sondagens.

Porém, não foram só os candidatos que perderam, também os partidos que se esconderam por trás. A começar pelo PCP que viu a sua base eleitoral nas eleições presidenciais ainda mais reduzida do que o costume e sofrendo uma pesada derrota cujas consequências, muito provavelmente, serão agudizar as contradições da geringonça.

O grande perdedor seguinte foi o Partido Socialista que dos seus 1,75 milhões de votos nas últimas eleições não conseguiu reter nos dois candidatos apoiados à sorrelfa mais do que 1,26 milhões, ou seja perdeu meio milhão de votos, apesar do maná já oferecido e o prometido por Costa em apenas 2 meses. Ainda que somássemos os votos de Vitorino Silva e de Henrique Neto terão sido perdidos mais de 300 mil. (*)

Há quem considere que o Bloco de Esquerda foi um vencedor ao comparar os votos 469 mil votos de Marisa Matias com os 292 mil de Francisco Louçã. Contudo, esta comparação não faz muito sentido porque desta vez o BE está numa dinâmica de forte crescimento e, valha-nos Deus, não podemos comparar o sex-appeal do tele-evangelista com o da menos esganiçada das esganiçadas (concedo, sou um sexista-machista-fáxista empedernido). O que se passou é que o BE não segurou mais de 80 mil votos.

Finalmente, para concluir o menos óbvio e o mais polémico, os grandes vencedores foram os cépticos do regime que, com o apoio dos desinteressados, apoio que só não foi entusiástico porque, como se sabe, os desinteressados não se se entusiasmam facilmente, aumentaram o seu score em quase 700 mil de 4,27 milhões para 4,96 milhões, ultrapassando também em meio milhão o número dos que lá foram depositar os seus votos afectuosos para recompensar as ondas de afecto que os 10 candidatos derramaram pelo país durante um mês que pareceu uma eternidade.

(*) Aditamento:
O desastre do PS pode ter sido muito maior se, como alguns indícios apontam e alguns ex-dirigentes do PCP reconhecem, tiver havido uma migração de votos do PCP (parte dos 260 mil perdidos) para Sampaio da Nóvoa. Nesse caso a perda do PS pode ter-se aproximado dos 750 mil eleitores. Não foi uma vitória por «poucochinho», foi uma derrota por muitíssimo.

01/07/2013

Mitos (115) – O povão manifesta-se nas cidades do Brasil

Já aqui manifestei a minha dúvida cartesiana sobre a participação en masse do povão brasileiro, e em particular dos pobres, nas manifestações recentes e em curso nas cidades brasileiras. Um inquérito da Datafolha entre os presentes a uma das manifestações em S. Paulo publicado pelo «Folha de S. Paulo», confirma isso mesmo.

Evidentemente não é por o povão estar ausente que as manifestações são menos legítimas, até pelo contrário, na medida em que há menos manipulação partidária, como mostram dos dados da Datafolha. É apenas uma questão de repor a verdade obscurecida pela mitologia dos habituais proprietários das manifestações.

21/06/2013

Mitos (114) - Protestos contra as despesas com a «Copa do Mundo»? Só contaram pra vocês...

Desculpem lá mas não compro essa estória dos protestos contra as despesas com a «Copa do Mundo». Seria a primeira vez que um povo protestaria contra os gastos sumptuários. Os povos gostam de circo, desde que não lhes falte o pão e, como disse o Joãozinho Trinta há quase quarenta anos, pobre gosta de luxo, quem não gosta de luxo é intelectual.

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Além de gostarem de luxo (Joãozinho referia-se ao luxo das escolas de samba. Sim, luxo, é isso mesmo!), os pobres raramente se manifestam e só o fazem quanto têm fome e com a Bolsa Família os que têm fome não chegam para uma manif. Vejam-se aqui as fotos. Entre centenas de milhares de estudantes e jovens da classe média em geral quanto pobres se conseguem contar?

25/11/2011

Estará o eleitorado a sair da adolescência?

Não sei qual o grau de fiabilidade do barómetro da Marktest, mas, depois das medidas inevitavelmente impopulares já tomadas por este governo, depois das manobras do cavaquismo a trabalhar para o seu mentor ficar num rodapé da estória como o amigo do povo, depois do PS ter arruinado o país e continuar a propor agora medidas mistificadoras, se o barómetro valer alguma coisa, poderá a subida para 45,4% do principal partido da coligação significar alguma maturidade do eleitorado?

Declaração de interesse: nada me liga ao PSD, em quem em 35 anos apenas votei 2 vezes. Se fizessem um partido à medida para as minhas preferências seria pouco parecido com este.

14/02/2010

Alguém pode explicar-me

Porquê, perante um governo liderado por um primeiro-ministro com um estilo visivelmente autocrático, os inquiridos no barómetro da Eurosondagem dão ao governo um saldo de -17,3%, entre apreciações positivas e negativas, só superado pelos juízes com -19,2%, e atribuem ao primeiro-ministro um saldo positivo de 6,0%? Um primeiro-ministro que escolheu os ministros, os seus ajudantes, que lhe vêm comer à mão, que não manifestam o mais tímido assomo de independência, um primeiro-ministro que define todas as políticas sectoriais, um político que está embaraçado há anos em múltiplas trapalhadas, que vão desde o início da sua carreira até às estórias da Face Oculta, passando, pela compra da casa, da obtenção da licenciatura, dos casos Cova da Beira, Freeport e o mais que se há-de ver.

Será o ressuscitar daquele sentimento próprio dum povo medroso, sempre pronto a pôr-se debaixo da asa protectora do Estado Novo, que no passado levava os portugueses a desculpar o Botas, explicando que era o governo, era a União Nacional, era a Legião, era a Pide, e que ele Botas, coitadinho, não sabia de nada, não tinha culpa e só queria o nosso bem? Se for assim, só temos que substituir o Estado Novo pelo Estado Social, a União Nacional pelo Partido Socialista, a Legião pelas Juventudes Socialistas, e o Botas pelo Socras, ficando de fora, por agora, a Pide, porque os secretas estão organizar-se e ainda não têm acesso aos dados do fisco.

Quem souber a resposta, favor informar para a caixa do correio do (Im)pertinências. Obrigado.

08/02/2010

SERVIÇO PÚBLICO: Petição TODOS PELA LIBERDADE

O primeiro-ministro de Portugal tem sérias dificuldades em lidar com a diferença de opinião.

Esta dificuldade tem sido evidenciada ao longo dos últimos 5 anos, em sucessivos episódios, todos eles documentados. Desde o condicionamento das entrevistas que lhe são feitas, passando pelas interferências nas equipas editoriais de alguns órgãos de comunicação social, é para nós evidente que a actuação do primeiro-ministro tem colocado em causa o livre exercício das várias dimensões do direito fundamental à liberdade de expressão.

A recente publicação de despachos judiciais, proferidos no âmbito do processo Face Oculta, que transcrevem diversas escutas telefónicas implicando directamente o primeiro-ministro numa alegada estratégia de condicionamento da liberdade de imprensa em Portugal, dão uma nova e mais grave dimensão à actuação do primeiro-ministro.

É para nós claro que o primeiro-ministro não pode continuar a recusar-se a explicar a sua concreta intervenção em cada um dos sucessivos casos que o envolvem.

É para nós claro que o Presidente da República, a Assembleia da República e o poder judicial também não podem continuar a fingir que nada se passa.

É para nós claro que um Estado de Direito democrático não pode conviver com um primeiro-ministro que insiste em esconder-se e com órgãos de soberania que não assumem as suas competências.

É para nós claro que este silêncio generalizado constitui um evidente sinal de degradação da vida democrática, colocando em causa o regular funcionamento das instituições.

Assistimos com espanto e perplexidade a esse silêncio mas, respeitando os resultados eleitorais e a vontade expressa pelos portugueses nas últimas eleições legislativas, não nos conformamos. Da esquerda à direita rejeitamos a apatia e a inacção.

É a liberdade de expressão, acima de qualquer conflito partidário, que está em causa.

Apelamos, por tudo isto, aos órgãos de soberania para que cumpram os deveres constitucionais que lhes foram confiados e para que não hesitem, em nome de uma aparente estabilidade, na defesa intransigente da Liberdade.