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22/02/2026

DIÁRIO DE BORDO: Elegeram-no? Então aguentem outros cinco anos de TV Marcelo (24) - Não correu bem

Então aguentem outros cinco anos, uma espécie de sequência indesejada da série Outras preces (não escutadas).

«Marcelo coroado 'rei amor' na Costa do Marfim»

Durante 10 longos anos, dediquei à presidência do Dr. Marcelo cento e trinta e tantos posts, dos quais mais de cem no primeiro mandato, cada vez mais espaçados no tempo, porque a minha paciência gastava-se aceleradamente, incapaz de acompanhar a agitação febril do sujeito. Agora que se aproxima o termo do segundo mandato, achei que deveria publicar uma espécie de epitáfio presidencial. Porém, faltou-me a inspiração e a pachorra e resolvi preguiçosamente citar um trecho da peça "Por que é que Marcelo falhou de forma tão espectacular?" que Miguel Pinheiro escreveu no Observador

«... Marcelo achou que tinha descoberto um antídoto: iria combater o populismo “do mal” com o populismo “do bem”. O plano era simples: o novo Presidente só precisava de dar um beijinho ou um abraço a cada português. Eternamente obcecado com as suas taxas de aprovação, Marcelo não se comparava a outros políticos, mas às duas maiores celebridades do país, Cristina Ferreira e Ricardo Araújo Pereira. Se fosse suficientemente amado pelos portugueses, os eleitores não precisariam de se refugiar na direita radical. Não correu bem: em legislativas, o Chega somou 60 deputados; em presidenciais, André Ventura chegou à segunda volta.»

03/01/2026

DIÁRIO DE BORDO: Elegeram-no? Então aguentem outros cinco anos de TV Marcelo (23) - Afinal os melhores dos melhores são os medíocres dos medíocres

Então aguentem outros cinco anos, uma espécie de sequência indesejada da série Outras preces (não escutadas).

Para quem andou dez anos a dar graxa à mediocridade que infesta o Portugal dos Pequeninos com o mantra «nós portugueses somos os melhores e, por isso, não admira que aqui estejam os melhores a fazer o melhor», é um pouco insólito evocar na sua última mensagem em contraponto a atributos (exagerados) como «a franqueza, a doçura, a bondade, a imensa bondade», os defeitos (bem reais) como «o desleixo, a constante trapalhada nos negócios e (...) a imaginação, que leva sempre a exagerar até à mentira», «a esperança constante de algum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades». O pior de tudo foi concluir que «assim somos há quase 900 anos, assim seremos sempre».

29/08/2025

DIÁRIO DE BORDO: Elegeram-no? Então aguentem outros cinco anos de TV Marcelo (22) - Sim, o Sr. Trump parece ser um activo de Putin, mas não pode ser o PR a dizê-lo

Então aguentem outros cinco anos, uma espécie de sequência indesejada da série Outras preces (não escutadas).


Um presidente da República que se apresenta num encontro de um partido, ainda para mais do qual é militante e foi presidente, demonstra uma certa falta de senso. Não achando suficiente essa demonstração, o Dr. Marcelo produz um juízo sobre outro presidente da República de um Estado aliado do seu  («o líder máximo da maior superpotência do mundo, objetivamente, é um activo soviético, ou russo») que, não fora a  insignificância do Dr. Marcelo e a pouca significância do seu país, criaria um incidente diplomático grave. E não está em causa o fundamento do juízo, perfeitamente aceitável se dito por um comentador, está em causa que tal afirmação em público do PR mostra que o Dr. Marcelo fez um percurso inverso ao seu homólogo ucraniano de quem se diz que começou por comediante e acabou presidente. 

01/08/2025

DIÁRIO DE BORDO: Elegeram-no? Então aguentem outros cinco anos de TV Marcelo (21) - Sem vergonha e sem limites

Então aguentem outros cinco anos, uma espécie de sequência indesejada da série Outras preces (não escutadas).

«Para se salvar, Marcelo está disposto a contribuir para o aumento da “pós-verdade” na política portuguesa. Também na questão da imigração, a “verdade” deixa de existir, e “não há números credíveis”. As “narrativas” é que contam; e ter influência nos meios de comunicação social para espalhar as “narrativas” convenientes ao senhor Presidente. Cada vez que ouvirem o PR a criticar o populismo e a demagogia não liguem nenhuma, ou comecem às gargalhadas. Marcelo Rebelo de Sousa é o político mais populista que existe em Portugal. Numa década, reduziu a presidência da república a um populismo sem vergonha e sem limites.»

«Populismo sem vergonha e sem limites», escreveu João Marques de Almeida sobre o Dr. Marcelo palavras que não hesito em subscrever. Não sei se estes últimos episódios terão ou não surpreendido JMA, mas seguramente não me surpreenderam a mim 9 (nove) anos e centenas de posts depois.

19/03/2025

Pro memoria (439) - There are two Sundar Pichais - the one who fired James Damore and the one who bowed down to Trump

Almost eight years ago, (Im)pertinências described in this post the case of software engineer James Damore who worked for Google before deciding to write a 10-page memo where, among other debatable things, he said (source): «(...) men and women differ biologically in many ways (...)» and that the tendency to protect women creates a hostile environment for men «because men are biologically disposable and because women are generally more cooperative and agreeable than man», something that evolutionary psychology confirms.

What did Google do? Damore was fired and Google CEO Sundar Pichai issued a memo to staff saying that «suggesting that a group of our colleagues have traits that make them less biologically suited to this job is offensive and not okay,» and that parts of the memo actively violated Google's code of conduct by «promoting harmful gender stereotypes in our workplace.»

Eight years later, a reporter from The Free Press went to meet Damore in Luxembourg, who had since been boycotted by the tech community and had been unable to find a steady job.


Some time earlier, on January 20, the same Sundar Pichai appeared at the inauguration of the new POTUS in the company of Elon Musk and other techno-garchs, bowing to Trump's «harmful gender stereotypes», principles that were opposed to those that led him to fire Damore.

Take this case as just one example among the bunch of opportunistic techno-garchs who have jumped on Donald Trump bandwagon and who don't believe a word of his bullshit.

16/03/2025

Pro memoria (438) - O pensamento do Dr. Ventura antes de ser o presidente Ventura. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

O jornalista Gustavo Sampaio escreveu “Os Políticos São Todos Iguais!" escarafunchando o passado de vários políticos portugueses e o Expresso publicou um artigo com uma versão reduzida de um capítulo dedicado ao populismo. Nesse artigo Gustavo Sampaio passa em revista o passado doutrinário do Dr. Ventura e mostra-nos que esse pensamento mudou, o que é natural porque todo o mundo é composto de mudança. O que alguns, como eu, podem não apreciar é que a epifania que atingiu o Dr. Ventura há uns cinco anos, e que os seus seguidores verão como o caminho da escuridão para a iluminação, é vista como o caminho da pouca luz para a obscuridade ou talvez a procura de um produto para um mercado. 

«... argumentou contra o securitarismo, contra o populismo penal, contra os políticos que procuram ganhar votos com o acicatar dos medos e dos preconceitos» (tese de doutoramento)

«... países como Portugal e a Irlanda não devem esquecer o seu passado e devem acolher o maior número de migrantes» (artigo de opinião)

«Hoje, tornou‑se uma espécie de gíria popular — ou uma certa elite intelectual — atacar a comunicação social. Digo isto completamente livre nesta matéria. Nós, em Portugal, temos tido a sorte de ter meios de comunicação social capazes de tocar com o dedo na ferida. […] Temos que ter alguma cautela quando apontamos o dedo à comunicação social.»

«Quando perguntam ao Presidente dos EUA (Trump) porque é que ele usa o Twitter, é porque dá um poder enorme não haver nenhuma espécie de intermediário. Eu escrevo o que quiser. Ninguém me faz a pergunta, sequer”, explicou Ventura. “Na verdade, por trás desta perceção está a lógica de os intervenientes políticos se quererem furtar aos intermediários que fazem perguntas. É incómodo. É muito mais fácil (recorrer às redes sociais). E é por isso que se utiliza isto. […] É esta a lógica das fake news, que são perniciosas, porque nos levam à negação e à defesa permanente. Mas, sobretudo, porque são capazes de convencer em períodos de grande turbulência noticiosa.»

«O Estado manterá nas suas mãos uma função arbitral, de regulação e de inspeção sediada em organismo dependente da Presidência do Conselho de Ministros. Essas funções seriam exercidas sobre todos os graus de ensino não superior (planos de estudo, exames, etc.). As instalações escolares passariam, num primeiro momento, para a tutela da Direção‑Geral do Património, que, de seguida, as ofereceria a quem nelas demonstrasse interesse, dando‑se prioridade absoluta aos professores nelas lecionando nesse momento. Os professores que pretendessem assumir a posse do seu estabelecimento de ensino criariam uma empresa ou uma entidade coo­perativa para a qual transitaria a propriedade desse estabelecimento.» (programa político do Chega de 2019)

09/05/2024

Dúvidas (372) - O que move o Dr. Ventura ao pretender limitar o direito de expressão do Dr. Marcelo, um notório picareta falante?

É pouco frequente escrever sobre o Chega ou o seu líder Dr. Ventura, principalmente porque as minhas críticas iriam acrescentar-se, ainda que por razões e pressupostos muito diferentes, à enxurrada que o jornalismo de causas e a comentadoria do regime lhe dedica, ou mesmo, para os distraídos, confundir-se com essa enxurrada.

Abro mais uma excepção para comentar a iniciativa aprovada ontem pelo grupo parlamentar do Chega de apresentar uma queixa-crime contra o Dr. Marcelo "por traição à Pátria", fundada no facto deste último ter defendido as reparações às ex-colónias num jantar com jornalistas estrangeiros. 

Sobre o fundo da questão não vou agora discorrer porque em várias ocasiões (por exemplo aqui ou aqui) já disse o que tinha a dizer, como disse sobre o Dr. Marcelo, em quem não votei. O que pretendo salientar é que, por muitos disparates que o Dr. Marcelo produza e nem mesmo pelo exercício deplorável dos seus dois mandatos, exercício que faz dele um dos piores presidentes da República, se não mesmo o pior, ele não perde a liberdade de os exprimir.

Pretender inventar um crime de expressão que obviamente não existe (por enquanto), como sabe muito bem o Dr. Ventura, pode ter dois propósitos, ambos para mim preocupantes, não pelos efeitos que são com toda a probabilidade inócuos, mas pelo que isso pode indiciar: ou bem se pretende intimidar a criatura, ou bem se pretende excitar os piores sentimentos da turba num exercício demagógico tão ao gosto do Dr. Ventura. Em ambos os casos, isso revela tiques totalitários de mau prenúncio.

05/05/2024

DIÁRIO DE BORDO: Elegeram-no? Então aguentem outros cinco anos de TV Marcelo (22) - Perdoam, perdoam

Então aguentem outros cinco anos, uma espécie de sequência indesejada da série Outras preces (não escutadas).

«Os portugueses, desta vez, talvez não lhe perdoem. A Presidência estará contaminada por tanta leviandade, que pode ser servil ou não. Pedir a um país pobre e empobrecido que acolhe centenas de milhares de imigrantes brasileiros, e os integra sem esforço, e bem, que acolhe muitos milionários brasileiros que usam o país como entreposto europeu e investimento imobiliário, e nada mais, que pague indemnizações a um país riquíssimo e de endémica corrupção como o Brasil, onde o obstáculo à redistribuição social é essa corrupção e não a míngua de recursos, é pedir demais. Não lhe perdoarão os portugueses das ex-colónias, cujo rancor estava neutralizado pelo tempo. E não lhe perdoarão os que acham que não sabe o que diz e que não pode achar que pode dizer tudo porque tem graça.»

Escreveu a Dr.ª Clara Ferreira Alves, a Pluma Caprichosa, uma das almas mais desalinhadas no planeta mediático, capaz do pior, como sucumbir ao charme do Dr. Soares e fazer uma entrevista apologética ao Sr. Eng. Sócrates, o Animal Feroz, ou do melhor, como reconhecer que o Dr. Costa pode ter sido um dos piores primeiros-ministros desde Dona Maria II. Suspeito que esteja enganada, porque o Bom Povo Português verga-se aos afectos, mesmo que fingidos, e adora uma criatura popularucha que se faz passar por um deles.

26/04/2024

DIÁRIO DE BORDO: Elegeram-no? Então aguentem outros cinco anos de TV Marcelo (21) - Vindo dele, pior é difícil, mas sempre possível

Então aguentem outros cinco anos, uma espécie de sequência indesejada da série Outras preces (não escutadas).

Só quando me enviaram o vídeo de ontem do Canal A Cor do Dinheiro de Camilo Lourenço me dei conta de que poucos dias depois de ter insinuado propósitos políticos à PGR, o Dr. Marcelo meteu no mesmo saco da conversa com os correspondentes estrangeiros o caso das gémeas e do seu filho, juízos pessoais sobre o Dr. Costa e o Dr. Montenegro, a escravatura, os crimes coloniais e as suas indemnizações aos descendentes das vítimas. Só há uma justificação que se poderia considerar aceitável: demência senil.


Para mim não deixou de ser porque nunca foi o meu presidente, pelas razões que venho explicando há oito anos. Os dois mandatos do Dr. Marcelo tornam um exemplo de dignidade e decência os mandatos dos seus homólogos durante o Estado Novo, generais Carmona e Craveiro Lopes e almirante Américo Thomaz.

02/01/2024

DIÁRIO DE BORDO: Elegeram-no? Então aguentem outros cinco anos de TV Marcelo (20) - Quando se pensava que não podia descer mais baixo, ultrapassa as expectativas

Então aguentem outros cinco anos, uma espécie de sequência indesejada da série Outras preces (não escutadas).

A minha alergia a telejornais se, por um lado, me permite manter alguma sanidade mental, por outro priva-me de aspirar em primeira-mão os eflúvios de fossa séptica em que se estão mergulhadas as instituições e  as eminências oficiais do Portugal dos Pequeninos. Fico, assim, compelido a conhecer esses eflúvios através de almas com olfactos mais resistentes, a quem fico grato. Desta vez é o caso de um dois únicos blasfemos que ainda sobrevivem num blogue que resistiu com dificuldade ao canibalismo twítico do qual cito um excerto do post "O Cabaret do Presidente e dos Bispos" onde se escalpeliza S. Ex.ª e as suas últimas produções mediáticas. 

«Como se constata pelas suas declarações, em plena véspera de Natal, para cuidar da sua imagem e popularidade, Marcelo não hesita em mandar o seu filho para debaixo do comboio, atribuindo-lhe todas as culpas pelo processo das cunhas, sugerindo que o seu filho mentiu ou omitiu ao pai e que o desiludiu. Marcelo chega ao requinte de já nem sequer tratar o seu filho por “Dr. Nuno”. Agora, pura e simplesmente refere-se ao filho como o “Alguém”.

Ou seja: entre a manutenção da dignidade de uma relação familiar e a manutenção dos niveis de popularidade em sondagens, Marcelo escolha a segunda opção.»

06/12/2023

DIÁRIO DE BORDO: Elegeram-no? Então aguentem outros cinco anos de TV Marcelo (19) - Definitivamente S. Ex.ª não acabará o mandato com dignidade, mesmo com ajudas

Então aguentem outros cinco anos, uma espécie de sequência indesejada da série Outras preces (não escutadas).

A estória é bastante embrulhada e envolta nas brumas das mentiras e meias-verdades, como é habitual nos casos de cunhas (pistolão no Brasil) e empenhos. Indo ao osso do assunto que parece estar suficientemente estabelecido, o filho de S. Ex.ª meteu uma cunha ao pai (e talvez a outras pessoas, o pai diz que desconhece) para às gémeas brasileiras filhas de uns amigos brasileiros ser administrado pelo SNS português - que não consegue dar resposta às necessidades mais básicas - um medicamento custando o equivalente a 5.263 salários mínimos mediante um expediente de lhe ser atribuída nacionalidade portuguesa por um processo fast track. O pai diz que se limitou a encarregar a sua assessora para a área de Saúde de saber o estado do processo. No final o medicamente foi administrado e às gémeas foram disponibilizadas duas vezes 2 cadeiras. 

Na minha impertinente visão da coisa, um presidente com integridade imune ao compadrio e bom educador teria educado o seu filho que saberia ser seu dever rejeitar desde logo o pedido dos amigos. O mesmo presidente se tivesse falhado na educação do filho e este lhe apresentasse o pedido ter-lhe-ia a dito para deixar cair o pedido. 

Com um presidente cujo passado não permite estabelecer com segurança a sua integridade, só se pode concluir que a sua versão da estória revela ou uma ingenuidade dificilmente compatível com seu passado de cinco décadas de conspiração política ou uma tentativa maquiavélica de limpar a sua folha insultando a inteligência dos 63% de eleitores que avaliam como mau o seu desempenho ou têm dúvidas.

03/12/2023

DIÁRIO DE BORDO: Elegeram-no? Então aguentem outros cinco anos de TV Marcelo (18) - S. Ex.ª também está a precisar de ser ajudado a terminar o mandato com dignidade

Então aguentem outros cinco anos, uma espécie de sequência indesejada da série Outras preces (não escutadas).
  • 1995 - «Vamos ajudar o senhor Presidente a acabar o mandato com dignidade», apelo do Dr. Cavaco em benefício do Dr. Soares 
  • 2015 - «Vamos ajudar Cavaco a terminar mandato com dignidade», apelo do Dr. Costa em benefício do Dr. Cavaco
  • 2023 -  Cresce o número de  portugueses que acham que o Dr. Marcelo está a precisar de ajuda para terminar o mandato com dignidade
Fonte

24/09/2023

DIÁRIO DE BORDO: Elegeram-no? Então aguentem outros cinco anos de TV Marcelo (17) - Uma espécie de autópsia antecipada de S. Ex.ª

Então aguentem outros cinco anos, uma espécie de sequência indesejada da série Outras preces (não escutadas).

«(...) A função presidencial está comprometida. Atores políticos vários, no segredo das confidências, começam frases assim: eu até gosto do Marcelo, mas... Este “mas” é uma interrogação e a expressão de um cansaço. Quosque tandem abutere, Marcelo, patientia nostra? Qualquer observador sensato, não precisa ser Cícero, está farto das manifestações instantâneas de portuguesismo “fixe” que ganham atributos de cerimónias de Estado. A recusa de uma atitude séria sobre o mundo não serve o momento grave. A sociedade portuguesa, empobrecida e classificada pelos mecanismos do capitalismo e do mercado como não rentável, está a tornar-se um estudo antropológico sobre o ressentimento. E o desapontamento.

Marcelo talvez ache que a sua marca de populismo conseguirá estancar marcas mais viciosas, impedindo-as de se tornarem dominantes. Está errado. O pensamento popularucho, somos fado, bacalhau e Ronaldo, coloniza o discurso português, transformando-o no beneficiário de todos os niilismos. Se só somos isto, somos nada. Somos repasto de turistas, fado e bacalhau, e das paixões tribais da bola. Não temos método nem propósito, não temos história, não temos ciência, não temos cultura, não temos nada exceto o juízo dos outros sobre o valor de entretenimento.

Nem por ironia é aceitável. Uma sociedade sem reportório crítico, sem vitalidade intelectual, sem convicção, sem educação. Fado e bacalhau, a retórica pobre dos pobres de espírito. Ronaldo, o novo Camões. A estrutura deste vocabulário é perigosa, embalando a ignorância num contexto político e, dir-se-ia, estético, que faz dos portugueses seres que não governam o seu destino, são governados.

A versão identitária da portugalidade no texto de Marcelo não passa de indulgência e transtorno cognitivo. O estereótipo é tudo menos uma experiência estética.

Outros Presidentes, como Soares e Sampaio, leram muitos livros de História. Talvez fosse bom que Marcelo se retirasse dos afetos e, por uma vez, lesse até ao fim um livro em vez de o apresentar, recomendar e prefaciar. Recomendo-lhe dois, “O Livro do Desassossego”, de Bernardo Soares, e “Os Lusíadas”, de Luís de Camões. E releia, supondo que leu, “Os Maias”. Nele encontrará uma perso»nagem chamada Dâmaso Salcede. Um estremeção de reconhecimento e identificação será inevitável. (...)»

Clara Ferreira Alves, aka Pluma Caprichosa, no Expresso

05/06/2023

DIÁRIO DE BORDO: Elegeram-no? Então aguentem outros cinco anos de TV Marcelo (16) - Look On The Bright Side, três quartos já não têm pachorra

Então aguentem outros cinco anos, uma espécie de sequência indesejada da série Outras preces (não escutadas).

Uma sondagem sobre o presidente que os portugueses preferem teve os seguintes resultados:

  • Marcelo Rebelo de Sousa 27% dos inquiridos
  • António Ramalho Eanes, com 25,7% 
  • Aníbal Cavaco Silva, 6,7% 

Tenho amigos que ficaram deprimidos pelo catavento mediático ter sido preferido. Não há razões para a depressão, a meu ver. Interpreto os resultados como significando que quase três quartos dos portugueses (73%) depois de sete anos de selfies e de uma presença constante dos mídia a debitar banalidades - que muitos portugueses preferem às duras verdades - não preferem o Dr. Marcelo.

26/04/2023

DIÁRIO DE BORDO: Elegeram-no? Então aguentem outros cinco anos de TV Marcelo (15) - Excedeu-se a si próprio, uma vez mais

Então aguentem outros cinco anos, uma espécie de sequência indesejada da série Outras preces (não escutadas).

Faria rir se não fosse uma vergonha para o Portugal dos Pequeninos
(se os portugueses pequeninos tivessem vergonha)

Consegue-se perceber que por razões de Estado S. Ex.ª condecore o marido Sr. Lula. A esposa D. Janja é mais difícil, até mesmo por parte de um catavento mediático que já vai na terceira condecoração de esposas.

10/03/2023

DIÁRIO DE BORDO: Elegeram-no? Então aguentem outros cinco anos de TV Marcelo (14) - Continuemos no sofá a ver TV

Então aguentem outros cinco anos, uma espécie de sequência indesejada da série Outras preces (não escutadas).

A propósito da entrevista de ontem à RTP de S. Ex.ª (*) o picareta falante, Rui Ramos (que em tempos depositou esperança no presidente-comentador), escreveu no Observador:  

«A política portuguesa, do ponto de vista do Presidente, é um conjunto de caprichos ideológicos temperados pela impotência colectiva. O comentador presidencial insinuou assim que o povo nunca poderá ser mais do que uma simples audiência de televisão, porque não há meios de acção política, e nem o governo, nem a oposição, nem ele próprio têm força para nada. A única coisa que nos resta é, enquanto espectadores, continuarmos no sofá a ver TV. Talvez aconteça alguma coisa. Mas o mais certo é não acontecer nada. Eis a lição do presidente comentador.

A imprensa, recorrendo ao palavreado empresarial que passa por análise política, louvava ontem o Presidente pela “gestão do regime”. É a “gestão do regime” num país em divergência da UE, e onde a escola pública, entre confinamentos e greves, deixou de funcionar. Não, o Presidente não é a causa nem o maior responsável. Pode até ser que não seja a solução. Mas é certamente parte do problema.»

(*) Declaração de interesse: A conselho médico, não vejo os pronunciamentos do Dr. Marcelo pelo que não posso confirmar o rigor da apreciação de Rui Ramos.

15/02/2023

Escrever direito por linhas curtas

Este post é uma espécie de continuação deste.

Declaração de interesse: Não conheço, nem tenho em especial conta o Eng. Carlos Moedas, a quem tenho criticado acções e declarações.

Isso não me impede de apreciar e relevar a sua resposta na assembleia municipal de Lisboa às críticas oblíquas de S. Exª, o papagaio-mor do reino, e às críticas hipócritas de socialistas, berloquistas e comunistas da sua proposta dos imigrantes só serem aceites com um contrato de trabalho. Resposta da qual respigo:

«Eu fui emigrante, sou casado com uma imigrante, o meu sogro é marroquino, a minha sogra é tunisina, por isso, há algo que gostaria de deixar muito claro: não aceito lições de ninguém nesta matéria, de ninguém». 

Mas também não deixo de acrescentar que não chegam as declarações de princípio e é preciso encontrar soluções concretas para conciliar com os interesses dos portugueses as oportunidades que devemos conceder aos imigrantes, o que desde logo exige a distinção, geralmente obscurecida por oportunistas de todos os matizes, entre refugiados perseguidos por razões políticas, religiosas ou étnicas, que devemos humanitariamente acolher sem condições, e migrantes económicos.

10/02/2023

¿Por qué no te callas? (31) - Enfiando a cabeça na areia até ser atropelado por um camelo

O Eng. Moedas sofre de uma maleita que ataca cada vez mais os políticos do Portugal dos Pequeninos. Maleita para cuja difusão tem contribuído o Dr. Marcelo a quem assenta bem o epíteto picareta falante, inventado para o Eng. Guterres pelo falecido Vasco Pulido Valente, 

Pois bem, o Eng. Moedas é também um picareta falante cujas falas o seu public relations espalha com zelo pelos mídia. A última dessas falas foi acerca do risco sísmico na zona de Lisboa, um problema especialmente crítico, que o homem irresponsavelmente minimizou:
«Gostava de deixar aqui alguma tranquilidade sobre a preparação que Lisboa tem em relação a potenciais sismos, e todos sabemos que vivemos numa zona do país em que estes sismos podem acontecer. Como engenheiro civil e como alguém que trabalhou nesta área, a nossa cidade está extremamente preparada depois dos anos de 1980, infelizmente não nos bairros mais antigos, mas muito, muito, preparada em termos de engenharia e de construção.»
Lembrando que o Eng. Moedas se está a dirigir a uma audiência de luso-criaturas cuja atitude predominante é enfiar a cabeça na areia até ser atropelado por um camelo, sem entrar em pormenores técnicos, cito um outro engenheiro civil, que no mesmo dia em que o Eng. Moedas desatinou, disse que «se houver um sismo em Lisboa será catastrófico porque os edifícios não estão preparados» e cito ainda um generalista, fundador do QUAKE – Centro do Terramoto de Lisboa, que, por coincidência, publicou também no mesmo dia um artigo de opinião onde explicava:

«Portugal situa-se na Placa Euroasiática, limitada a sul pela falha ativa Açores-Gilbraltar, correspondente à fronteira entre as Placas Euroasiática e Africana, e a oeste do continente localiza-se a falha dorsal do Oceano Atlântico. A maioria dos sismos registados em Portugal deve-se às várias falhas ativas na região, mas existem outras capazes também de gerar sismos destrutivos em terra. Algumas dessas falhas são bem conhecidas, mas há ainda muitas outras que permanecem por descobrir e estudar.

Este contexto onde estamos inseridos tem uma particularidade: a deformação das placas é muito lenta, estamos a falar de poucos milímetros por ano, pelo que os sismos podem acontecer com grandes intervalos de tempo, acumulando grandes quantidades de energia que um dia, inevitavelmente, será libertada. Isto explica porque temos tendência a esquecê-los no dia-a-dia, embora os seus efeitos possam vir a ser devastadores. Achamos que estas desgraças só acontecem aos outros – não temos consciência sísmica em Portugal.

A responsabilidade de preparar as infraestruturas base (hospitais, escolas, regulamentos de construção, etc.) cabe ao Estado mas não é esse o foco deste texto. Nem me atrevo, sequer, a tentar descrever o caos que vivemos nessa perspetiva. Gostaria, sim, que nos focássemos no risco cultural e naquilo que depende de nós, cidadãos, para termos consciência sísmica.

Tudo começa com a nossa atitude – necessitamos de ganhar consciência (sísmica) e cultura de autoproteção. É óbvio que o estado também desempenha um papel ativo, entre várias vertentes, como educador e regulador, mas isso não esvazia o nosso papel de cidadão responsável.»