Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)
Mostrar mensagens com a etiqueta Faltam dedos na mão invisível. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Faltam dedos na mão invisível. Mostrar todas as mensagens

01/10/2025

CASE STUDY: O mercado português dos mídia é "moderadamente concentrado". E esta, hem?


Foi com alguma surpresa que vi no gráfico acima (publicado numa newsletter da Economist a partir de dados do Global Media & Internet Concentration Project ) que Portugal ocupa o 5.º lugar em 19 países com maior concentração dos mídia.

________________ 

O Índice Herfindahl–Hirschman (IHH) mede a competitividade pelo grau de concentração dentro de um mercado específico. Um HHI inferior a 1.500 é considerado um mercado competitivo, um HHI de 1.500 a 2.500 é moderadamente concentrado e um HHI de 2.500 ou mais é altamente concentrado. O mercado português dos mídias é, pois, classificado como moderadamente concentrado.

11/09/2025

CASE STUDY: EU-MERCOSUR Partnership Agreement. Uma no cravo, outra na ferradura

Por um lado, a Comissão Europeia promove um acordo de parceria com a Mercosur contrariando a tendência inaugurada pela administração Trump de restrições ao comércio internacional, por outro sucumbe às pressões dos agricultores, nomeadamente dos agricultores franceses, sempre prontos à tomada da Bastilha com as suas marchas de tractores, no sentido de adoptar medidas proteccionistas que retiram uma boa parte do potencial do acordo. 

Leia-se o anúncio do acordo com o sugestivo título OPENING OPPORTUNITIES FOR EUROPEAN FARMERS que a CE publicou há dias, de onde extraio os seguintes excertos que apresentam o acordo com um propósito imaginário do título, acordo cujo interesse é sobretudo da abertura dos mercados sul-americanos aos produtos europeus em troca da abertura dos mercados europeus aos produtos agrícolas sul-americanos, aproveitando as vantagens competitivas de cada uma das zonas económicas. 

«The EU-Mercosur agreement will open unprecedented access to the countries of Mercosur for European farmers and food producers. Mercosur countries are growing and dynamic markets, with high barriers to entry. Providing EU farmers and agri-food producers with greater access to these markets will give them a first-mover advantage and a more secure position in years to come. At the same time, the agreement will shield Europe’s farmers from undue market pressure. (...)

The EU will grant very limited access to its market to imports of agri-food products. For sensitive products like beef, poultry or sugar, in particular, access to the EU market will be permanently limited through gradually implemented quotas. Moreover, a bilateral safeguard clause can be applied in case increased imports from Mercosur cause - or even only threaten to cause - serious injury to the relevant EU sectors. For the first time, this safeguard clause also covers imports under tariff rate quotas.

The deal will have limited impact on the EU beef market and will not generate further deforestation in Mercosur. The agreement does not give duty-free access to Mercosur beef. It will allow 99,000 tonnes of Mercosur beef to enter the EU market with a 7.5% duty. 55% of the quota will consist of fresh or chilled meat and 45% of lower-value frozen meat.»

04/09/2025

ESTÓRIA E MORAL: Desta vez vai ser diferente?

Estória

A valorização estratosférica da Palantir, uma empresa de software e serviços de tecnologia especializada na Defesa, levou Adam S. Parker (Could Palantir Be The Best Short Idea?,) a questionar-se sobre até onde poderia chegar essa valorização.

Fonte

O diagrama com os dados tratados por Parker mostra a evolução da média do retorno total (= mais valias + dividendos) em relação ao máximo atingido por 14 empresas cotadas no S&P 500 que desde 2000 apresentaram num determinado momento um rácio capitalização bolsista/vendas superior a 30. Nos 12 meses seguintes a terem atingido o máximo essas empresas já apresentavam uma redução média do retorno de 22% em relação ao índice S&P 500. 

Moral

Tudo o que sobe um dia desce, ou, mais precisamente, quase tudo (as dívidas...) 

17/09/2023

Estará o capitalismo americano a perder o gás?

Se a destruição criativa é inerente ao capitalismo como defendeu Joseph Schumpeter, um economista austríaco que não por acaso publicou pela primeira vez em 1942 «Capitalismo, Socialismo e Democracia» onde defende essa ideia, precisamente nos Estados Unidos onde então vivia, o capitalismo americano revelou-se durante mais de um século especialmente criativo e, em consequência, destrutivo.

Alguns indicadores sugerem que esse ímpeto criador (e destrutivo) está a esmorecer, como os gráficos seguintes parecem mostrar (fonte).


No gráfico à esquerda em cima está representado por décadas da sua fundação o número de empresas da Fortune 500 que representam um quinto do emprego, metade das vendas e dois terços dos lucros. Apenas cerca de 10% foram criadas depois de 1990, só sete foram criadas depois de 2007, 280 das 500 são anteriores à segunda guerra mundial e desde 1990 a idade média subiu de 75 para 90 anos, embora com grandes variações por sector, como se pode ver no gráfico da direita onde as TI surgem com a idade média mais baixa, como é natural.

O gráfico anterior confirma a mesma tendência mostrando o abrandamento na criação de novos negócios nas últimas décadas. Há várias razões que podem explicar este fenómeno e uma delas é que, tal como Schumpeter reconheceu no final da vida, ao contrário do passado, a inovação tem tendido a ser cada vez mais do lado dos incumbentes, ou mais rigorosamente a adopção das inovações tem sido garantida pelos incumbentes que pela sua dimensão podem suportar os investimentos necessários, a começar pela compra das startups que geraram essas inovações.

20/12/2020

O sonho húmido de um empresário do regime é o "condicionamento industrial"

«É possível proteger o mercado sem violar a legislação europeia?

Se em Espanha o conseguem proteger sem violar a lei, nós também o deveríamos fazer.»

Entrevista ao empresário António Mota, presidente da Mota-Engil no Expresso. 

[Para quem se tenha esquecido: o Estado Novo - uma espécie de Estado sucial em que a imprensa também era quase toda boa imprensa, com a diferença que os oposicionistas podiam ser presos, e no Estado sucial ainda não - adoptou uma política designada  por "condicionamento industrial" que só autorizava a criação de novas empresas com a concordância dos incumbentes, e que nas colónias impunha a compra de produtos fabricados na metrópole]

09/08/2020

Itália, uma espécie de Portugal dos Pequeninos, mas em grande

Segundo um levantamento pelo Corriere della Sera, um dos três diários italianos com maior tiragem, para abrir uma oficina de reparação de automóveis são necessárias 86 autorizações, uma loja para vender fatias de pizza está sujeita a controlos por 21 departamentos estatais diferentes e um processo judicial comercial consome em média três anos.

O Corriere della Sera foi citado pela Economist num artigo (How to spend it) sobre as dificuldades que a Itália irá defrontar para aplicar bem o dinheiro que será despejado pela bazuca de Bruxelas. Note-se que escrevi aplicar bem o dinheiro e não gastá-lo, o que até o governo do Dr. Costa fará sem dificuldades.

Evidentemente que o Portugal dos Pequeninos não é Itália. É mais Calabria ou Sicília, com os Espírito Santo, o Senhor Engenheiro e os novos situacionistas do PS em vez da 'Ndrangheta e da Cosa Nostra.

04/08/2020

SERVIÇO PÚBLICO: Leitura recomendada sobre o planeamento do Estado em Portugal

«Afinal, como se tomam as grandes decisões de investimento? Esvaziados de capacidade técnica e sem estudos encomendados de reputação, os governos tornam-se reféns de grandes grupos de interesse, como na Energia, ou como foi nos anos 2000 das empresas de construção e banca, no caso das PPPs. Já nos esquecemos dos projetos de PPPs ou das eólicas que asseguravam taxas de rentabilidade de 11 a 20% aos investidores privados? Não se salvaguarda o interesse público. As decisões são tomadas ao sabor de alguns interesses privados, que até mobilizam a opinião pública do momento. E as decisões são tomadas nos gabinetes ministeriais e depois encomendados os “pareceres técnicos ou jurídicos” para sua fundamentação “a posteriori”, escolhendo-se pessoas que já se sabe que irão validar a escolha previamente feita.»

Excerto de Porque falta visão estratégica no planeamento do Estado?,  Abel Mateus no Observador

Recomendo a leitura não porque partilhe da opinião do autor sobre a importância do planeamento do Estado, mas porque o ensaio permite perceber que no lugar do planeamento do Estado existe em Portugal a gestão partidária dos lóbis económicos.

24/07/2020

A agricultura não tem asas e o pedronunismo não se interessa por sovkhoses

Os sovkhoses estão fora de moda e aos apparatchiks socialistas no campo só lhes interessam as datchas.


Disse em entrevista ao Público o presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal. A propósito da TAP, recomendo a leitura do artigo de Carlos Guimarães Pinto TAP: Não havia necessidade (resposta a Pedro Nuno Santos).

08/07/2020

Lost in translation (339) - Com o pedronunismo nos comandos da TAP haverá rupturas nos bolsos dos sujeitos passivos

Como resultado da sua «bravata ideológica», o ministro das Superestruturas pagou 55 milhões ao accionista David Neeleman para ele se libertar do pesadelo TAP, comprometeu-se a considerá-lo credor privilegiado do seu empréstimo de 90 milhões a uma generosíssima taxa de 7,5%, conseguiu que a TAP fosse a única companhia europeia a não receber um apoio Covid, vai enterrar naquele cemitério 1.200 milhões como primeira de várias prestações a sacar aos contribuintes, despediu o único gestor que conhece o negócio de aviação e garantiu que irá recrutar para a gestão da TAP uma equipa de topo. A respeito desta última garantia só me ocorre o que escreveu José Diogo Quintela: «faz tanto sentido como a minha filha contratar o Chef Kiko para preparar o chá imaginário que ela serve às suas bonecas».

O Dr. Pedro Nuno Santos, a berrar há meses que a TAP está falida, teve de aceitar que a CE considerasse a TAP inviável, apesar dos capitais próprios e os resultados operacionais ainda serem positivos. E, a propósito, recorde-se que quem está de facto falida é a holding TAP SGPS porque uma das participadas é a TAP Manutenção e Engenharia que tem perdido milhões parcialmente compensados pelos lucros na operação da TAP. Recorde-se também que na compra e na gestão desta participada andaram as mãozinhas de Lacerda Machado, o amigo do Dr. Costa, e de outros socialistas (Almeida Santos, por exemplo).

Ah!, quase esquecia, o Dr. Pedro Nuno Santos ainda garantiu que «Não haverá rupturas. Não vamos deixar isso acontecer» o que é uma ameaça assustadora para os sujeitos passivos.

Qual o racional de comprometer os portugueses com o desastre anunciado? Salvar uma companhia de bandeira (leia-se o post there is no such thing as flag carrier)? Dos 10 milhões de portugueses só uma pequeníssima parte viaja regularmente na TAP e os outros milhões de portugueses não residentes, dispõem da oferta das low cost. Querem proporcionar voos baratos aos residentes nas Regiões Autónomas? Subsidie-se se necessário (e talvez não seja) os voos das low cost para as RA- já agora recorde-se que o turismo para os Açores só se começou a desenvolver quando a Ryanair e outras passaram a operar. Querem salvar dez mil postos de trabalho ao custo de 120 mil euros cada, só para começo de conversa?

E qual foi o resultado de tudo isto? Para citar Helena Garrido, «o Governo cavou um buraco ainda maior na TAP e salvou um dos accionistas privados de referência. Com a cumplicidade do primeiro-ministro, do Presidente da República e de todos os partidos. As vítimas desta gestão irracional do processo da TAP serão mais de dez mil famílias, os contribuintes portugueses e o dinheiro que vai faltar noutras áreas em que o Estado é importante.»

Há, porém, um hipotético, ainda que desmesuradamente caro, resultado positivo se o pequeno oráculo Marques Mendes tiver razão e a TAP vier a ser um «grande crematório político ... (que) pode queimar ministros a torto e a direito».

[Para uma recapitulação da saga veja-se etiqueta TAP]

Aditamento:

Já depois de publicado este post, li este artigo de André Abrantes Amaral citando alguns números comprovando a fraude da TAP ser uma "companhia de bandeira": «apenas 28% dos passageiros que chegam ao Funchal o fazem através da TAP. Para Ponta Delgada são apenas 17%. Quanto ao Porto só 20% dos passageiros que chegam à invicta o fazem por via da TAP. Mas a cereja em cima do bolo diz respeito a Faro. Sabia que a TAP foi responsável por apenas 3% (repito, 3%) dos turistas que chegaram ao Algarve no terceiro trimestre de 2019?» 

02/07/2020

Lost in translation (313) - A salvação de empresas segundo o pedronunismo

O ministro das Superestruturas Dr. Pedro Nuno Santos garantiu há dias no parlamento a respeito da TAP «não vamos ceder nas nossas condições e estamos preparados para intervencionar e salvar empresa».

Fiquei confundido. Então este ministro não é o que tutela a CP e outros elefantes brancos dos transportes públicos? Por via das dúvidas, submeti a declaração do ministro ao nosso web bot de AI com machine learning baseada numa Neural Network com acesso a servidores de Big Data que a traduziu assim:
«Se não fosse o Lacerda que é amigo do primeiro e está contra porque perderia o tacho, eu nacionalizava já a TAP e inclui-a na lista das empresas subsidiadas.» 

01/07/2020

Dúvidas (312) - E se o pedronunismo defendesse a nacionalização da CP para resolver os problemas que o accionista não resolve?

«Governo vai demorar três meses a estudar reforço da Linha de Sintra (que pode nem acontecer)».

Repare-se: três meses a estudar e pode nem acontecer. Seria caso para o Dr. Pedro Nuno Santos, fundador do pedronunismo, terror dos banqueiros alemães e putativo candidato a sucessor do Dr.  Costa, reproduzir a propósito da CP o mesmo discurso que fez no parlamento há dois meses ameaçando os accionistas da TAP com um «a música agora é outra» e acusando-os de má gestão

Seria, não fosse o caso dele por coincidência ser o representante do accionista único da CP. Sendo assim, na falta de acordo com o accionista da CP porque não nacionalizá-la? O quê? Já está nacionalizada? Então talvez privatizá-la.

18/01/2020

No futebol, como no resto, os melhores profissionais tenderão a emigrar para as melhores ligas

Economist

Poderão não ser todos os melhores, são certamente os mais inconformados. É assim desde o século XV e isso explica muita coisa.

É claro que no futebol tudo fica mais óbvio porque, como escrevi aqui, aqui e aqui, os jogadores são os únicos profissionais portugueses que trabalham num mercado verdadeiramente internacional a uma enorme distância de outras profissões.

04/08/2019

A greve dos motoristas de mercadorias perigosas explicada às criancinhas

Créditos: TRADEREADY
«Voltando ao mercado de trabalho, imagine o dilema dos motoristas. A maioria dos adultos sabe conduzir um carro. Se precisar de uns euros a mais, qualquer um está disposto a conduzir durante umas horas por dia. O mercado natural dos condutores tende para a concorrência. Conduzir uma carrinha não é, no entanto, o mesmo que conduzir um camião. Um veículo pesado transporta de forma mais eficiente e segura as mercadorias. Tirar a carta de pesados é custoso e difícil, mas é a forma de um motorista se diferenciar no serviço que oferece às empresas e ganhar um pouco mais. 

O passo seguinte é tornar- se motorista de matérias perigosas. Transportar cerveja ou gasolina não é exatamente a mesma coisa (mas quase). Aprendendo a transportar gasolina, os motoristas podem receber mais. Só que a tentação de ir mais longe está lá. Basta algum sentido de estratégia para se aproveitar dos temores da opinião pública e da fraqueza dos políticos. Bastou agitar o medo de um acidente grave para convencer os legisladores em 2007 que para conduzir mercadorias perigosas deve ser obrigatório ter uma certificação especial. Não basta saber fazê-lo mas é preciso tirar um curso, fazer parte de uma associação, e renovar a licença de 5 em 5 anos. Assim, garante-se que só 800 pessoas no país o podem fazer. Tornam-se monopolistas, e impõem preços mais altos pelos seus serviços. Ganham poder de mercado através da lei, pois se eles não conduzem os camiões, mais ninguém pode fazê-lo.»

Excerto de «Condutores poderosos», Ricardo Reis no Expresso

26/12/2018

Dúvidas (247) - Serão os monopólios modernos mais duradouros do que os antigos?

«Monopolies have been as ephemeral as classical economics would predict. That is unless they benefit from a government scheme to keep out competition, such as the championing of AT&T during the 20th century. Once state support for AT&T's monopoly status was removed, the phone market became cut-throat. 

One of the last acts of Lyndon Johnson's administration was to file an antitrust suit against IBM. Described by Robert Bork as the antitrust division's Vietnam, the suit was dismissed in 1982 during the Reagan administration. A few years after the launch of the Apple II computer, IBM was no longer feared as a monopolist. People used to worry that Microsoft's Internet Explorer had a stranglehold on the browser market. Who thinks that today? In both cases, time and technological innovation played their roles. 

Today some worry about Google and Facebook monopolising their spheres of the online world. But their days on the top will end. Consumers' preferences will change, or some unimagined technology will displace them. Consumers and capitalism would be better served if governments followed The Economist's recommendations to lower barriers to enter markets and to eliminate incumbent supporting rents. That is what causes monopolies.»

ANDREW TERHUNE, um leitor de Filadélfia, escrevendo a propósito do Special report on competition, publicado com o número de 7 de Novembro da Economist

A expressão «monopólio» na carta não deve ser lida à letra porque se trata de empresas dominantes coexistindo com várias ou mesmo muitas outras empresas. Repare-se igualmente que a dúvida só faz sentido se existirem condições concorrenciais e uma regulação forte. De contrário, um monopólio moderno poderá manter-se por tempo indefinido. Dito isto, a carta chama a atenção para a facilidade com se que esquece a história económica e se imagina constantemente que desta vez será diferente.

19/05/2016

SERVIÇO PÚBLICO: «Por que os taxistas nunca vencerão o Uber (e o que você pode tirar disso)»

«No dia 11, o prefeito Fernando Haddad regulamentou os aplicativos de transporte, como o Uber, em São Paulo. Isso desencadeou uma nova onda de protestos violentos dos taxistas, que acusam a empresa de concorrência desleal. Mas é uma luta que eles jamais vencerão, pois o Uber redefiniu o transporte de pessoas, “commoditizando” o serviço dos taxistas. E esse é um fenômeno social e econômico que pode atingir qualquer negócio ou categoria profissional.

Mas o que é essa “commoditização” de produtos e serviços? Isso acontece quando novas empresas, novas tecnologias ou novos modelos de negócios começam a oferecer a mesma coisa de maneira inovadora, acrescentando uma camada inédita de valor sobre algo que já existe. Nesse processo, o produto ou o serviço original continua lá e até pode ser essencial no novo formato, mas o público deixa de ver valor naquilo, passando a pagar apenas pela novidade.

É o que o Uber fez com os táxis. Trocando em miúdos, os passageiros passaram a querer mais que o simples transporte em quaisquer condições, oferecido pelos taxistas. Para esses consumidores, o verdadeiro valor é ter esse serviço em um carro novo, limpo e confortável, com um motorista educado, treinado e bem vestido, com serviço de bordo. É por tudo isso que cada vez mais pessoas estão dispostas a pagar. E é isso que o Uber oferece, e os taxistas não conseguem –ou não querem– entender e fazer.

É claro que o que os taxistas e o Uber vendem é transporte de passageiros. Mas o Uber tirou o valor disso, que virou apenas o básico, aquilo que o público nem vê, por mais que seja a essência do serviço: foi “commoditizado”. O valor foi transferido para a camada de serviços extra.

O que os taxistas oferecem não vale mais. É por isso que não vencerão o Uber.»

Paulo Fernando Silvestre Jr. no Linkedin

03/11/2015

CASE STUDY: Os caminhos-de-ferro britânicos

Mais de metade dos britânicos mostram-se insatisfeitos com os preços (aumentaram 24% em termos reais desde 1995) e a qualidade (22% e 16% dos passageiros nas zonas de Londres e Manchester, respectivamente, ficam em terra por falta de lugar) dos caminhos-de-ferro privados desde 1994 e querem a sua nacionalização. Não admira que o Old Labour de Corbyn já tenha adoptado a palavra de ordem «People’s Railway»,

Fonte: Economist
Têm os britânicos razão quanto ao problema. Terão razão quanto à solução? Possivelmente não - depois da nacionalização a seguir à guerra e até à sua reprivatização em 1994 a ineficiência dos caminhos-de-ferro públicos foi proverbial. De resto, vejam-se no diagrama os volumes de passageiros transportados durante esse período.

Talvez se possa concluir é quando se trata de serviços públicos que partilham uma infra-estrutura comum, como os caminhos-de-ferro ou as comunicações, não há soluções milagrosas e pouco se resolve só com a mudança do proprietário.

14/09/2015

CASE STUDY: Os amanhãs que cantarão, segundo o PS, ou o triunfo da fé e da esperança sobre a experiência (7)

Outros amanhãs.


Antes de retomar os comentários ao relatório dos 12 sábios «Uma década para Portugal», interrompo a sequência por razões de oportunidade para citar a entrevista do Expresso ao economista Pedro Portugal a respeito da redução da TSU que é uma das propostas do Programa do PS mas, curiosamente, não faz parte do relatório dos 12 sábios.

Antes disso, devo advertir que no (Im)pertinências colocámos em devido tempo as reservas à solução preconizada por Pedro Portugal - a este respeito ver as séries «CASE STUDY: Efeitos da redução indiscriminada da TSU compensada por um aumento do IVA» e «Mitos - a redução indiscriminada da TSU é equivalente a uma desvalorização da moeda»). Sobre a proposta do PS não tenho dúvidas e concordo que é um disparate sem remissão como explica Pedro Portugal:
«O custo da redução da TSU (a cargo dos trabalhadores) será de €5 mil milhões - o preço da injeção do BES/ Novo Banco-para criar 45 mil postos de trabalho no acumulado dos quatro anos. Cada um destes postos de trabalho custa mais de €100 mil. Não sei o que pensar de um decisor político que acha isto razoável. Até porque contrasta com os 100 mil empregos criados no segundo trimestre deste ano. (…) As propostas do PS têm uma lógica eleitoral: não é prometer tudo a todos, mas é prometer alguma coisa a todos».

2.4 Mercado de trabalho


Clicar para ampliar
Os sábios queixam-se de 90% das novas contratações de desempregados serem contratos temporários, sem perceberem que tendo sido os trabalhadores temporários os primeiros a ser despedidos é normal que quando a retoma se inicia sejam os primeiros a ser contratados.

Outro equívoco resulta de não perceberem que a baixa taxa de sindicalização pouco afecta a rigidez do mercado de trabalho porque as condições negociadas entre sindicatos, que representam sobretudo os trabalhadores das maiores empresas, e as associações destas empresas são aplicáveis também aos trabalhadores não sindicalizados e em geral das pequenas empresas, pela via administrativa da extensão salarial (ver este post),

Subjacente a estes e outros equívocos está a ideia de que o mercado de trabalho português está suficientemente liberalizado. Sendo certo que nos últimos anos a rigidez se reduziu significativamente, é igualmente certo que continua uma das mais elevadas dos países desenvolvidos (ver diagrama).

2.5 Situação social


Também neste capítulo vamos encontrar os equívocos habituais baseado nas ladainhas que fazem parte do património cultural da esquerda portuguesa, como aqui escreveu o Pertinente demonstrando com base nos dados da OCDE as falácias por trás desses mitos. Cito:
  • Mito: a crise agravou as desigualdades. Realidade: em Portugal as desigualdades aumentaram apenas moderadamente e, em relação aos rendimentos disponíveis (isto é, rendimentos depois de impostos e subsídios sociais), as desigualdade diminuíram. 
  • Mito: a crise teve efeitos mais graves em Portugal. Realidade: os rendimentos disponíveis das famílias tiveram quedas maiores ou mesmo muito maiores na Grécia, Islândia, Espanha e México.
  • Mito: os pobres foram os mais afectados. Realidade: em Portugal os mais afectados foram os ricos. 
  • Mito: os idosos foram ainda mais afectados. Realidade: em Portugal os idosos tiveram ganhos nos rendimentos disponíveis.
  • Mito suplementar: ah, isso foi no período 2007-2001. Realidade: a «austeridade neoliberal» foi menos penosa do que a «austeridade socialista» do Dr. Soares.
(Continua)

31/08/2015

CASE STUDY: Os amanhãs que cantarão, segundo o PS, ou o triunfo da fé e da esperança sobre a experiência (6)

Outros amanhãs.


Retomando os comentários ao relatório dos 12 sábios «Uma década para Portugal».

2.1 Desempenho macroeconómico

(continuação)

Um dos inúmeros exemplos da abordagem dos 12 sábios à dívida pública vista como algo independente do resto é quando escrevem sobre «o sentido desfavorável da evolução do peso da dívida pública no PIB» como se esta não resultasse inexoravelmente da acumulação dos défices orçamentais, défices que para eles eufemisticamente se devem «a fatores substantivos endógenos».

Criticam, com razão mas sem autoridade moral, a insuficiente redução dos défices sem se darem conta que a soma dos défices deste governo no triénio 2012-2014 foi 14,4% (5,5%+4,9%+4,0%), ou seja metade de 28,4% (9,8%+11,2%+7,4%) do governo anterior no triénio 2009-2011. Distraidamente, lá reconhecem que parte do aumento do défice se deveu «ao alargamento do perímetro das administrações públicas (pela incorporação de empresas públicas)».

Contradizem-se constantemente ao vilipendiarem a austeridade ao mesmo tempo que criticam que a despesa não se reduziu o suficiente sem reconhecerem que, em todo o caso, foi revertida a tendência crescente, como se vê no diagrama.

Fonte: Pordata


2.3 Os factores de crescimento


No que respeita ao ensino apontam o aumento do abandono e retenção no ensino básico sem perceberem que a única coisa que pode ter mudado em apenas 2 ou 3 anos foi o grau de facilitismo.

[O último parágrafo da página 17 em que se compara o ensino secundário em Portugal com a OCDE é completamente incompreensível.]

Uma vez mais, encontramos a exaltação da obra socrática, lamentando:

(Continua)

24/08/2015

CASE STUDY: Os amanhãs que cantarão, segundo o PS, ou o triunfo da fé e da esperança sobre a experiência (5)

Outros amanhãs.


Retomo os comentários ao relatório dos 12 sábios «Uma década para Portugal», interrompidos para tratar dos 207 mil empregos simulados.

2. Diagnóstico económico e social


Este capítulo começa pela aceitação do que se negara no capítulo anterior e reconhece-se que antes da adopção do euro o investimento já se havia reduzido pela redução da taxa de poupança. Reconhece-se ainda que a taxa de poupança é baixa, apesar de se insistir em aumentar o consumo reduzindo-a ainda mais.

Continua-se o delírio de classificar as infra-estruturas como «instrumentos competitivos da economia portuguesa (que) decorrem de investimentos materializados antes do atual governo», como se dos muitos milhares de milhões torrados em auto-estradas e outros elefantes brancos se tivessem multiplicado no PIB e não na dívida pública e privada, como de facto aconteceu. Exemplificando a manta mal-amanhada com retalhos socráticos cosidos no meio do pano dos «novos economistas», na mesma página do referido delírio já se reconhece a «excessiva concentração de investimento em sectores de bens não-transacionáveis».

2.1 Desempenho macroeconómico


Mais contradições: a taxa de poupança que duas páginas antes «atingiu valores preocupantes no auge da actual crise» atinge duas páginas depois «valores superiores em 2 p.p. aos verificados antes da crise». Reconhece-se que a «correcção acelerada dos desequilíbrios externos», porém, segundo os sábios, tal «não resultou de aceleração das exportações». No parágrafo seguinte voltam as contradições , para puxar o lustro à governação socrática: «as exportações de bens e serviços registam desde 2005 uma evolução muito positiva». Voltemos ao mundo real e vejamos os diagramas seguintes.

Fonte: Trading Economics

Fonte: Trading Economics

Tentando tapar o sol com a peneira socialista, lá voltam a admitir na página seguinte que afinal «o comportamento das exportações» até terá sido positivo mas «mais justificado pela entrada em funcionamento de alguns grandes projetos em implementação desde antes da crise». Quais projectos, minha nossa senhora, impulsionaram as exportações? Terão sido o TGV e o aeroporto Jamais Alcochete?

Assinala-se a queda de mais de 20% do emprego na indústria transformadora, mas esquece-se que o PIB gerado na indústria está de novo muito próximo dos valores anteriores ao resgate, significando uma melhoria da produtividade.

Fonte: Trading Economics
Para concluir, por hoje, destaco o padrão analítico dos 12 sábios do PS: os resultados da execução do programa de ajustamento que o PS tornou indispensável, negociou e assinou têm sido uma desgraça, excepto nos aspectos que resultaram da governação miraculosa do preso 44.

(Continua)

21/08/2015

CASE STUDY: Os amanhãs que cantarão, segundo o PS, ou o triunfo da fé e da esperança sobre a experiência (4)

Outros amanhãs.


Interrompo aqui os comentários ao relatório dos 12 sábios «Uma década para Portugal», que retomarei mais tarde (se os deuses me concederem a indispensável pachorra), para tratar do último e retumbante anúncio que o Público sintetizou brilhantemente no seu título:
«PS simula criação de 207 mil postos de trabalho até 2019»
Título muito mais apropriado do que, por exemplo, o do Negócios, que titulou «PS promete a criação de 207 mil empregos até 2019», visto que o sábio Mário Centeno teve o cuidado de explicar que não iria criar, mas antes a coisa resultou de uma simulação.

Notemos que, uma vez mais, estamos perante o triunfo da fé e da esperança sobre a experiência. Experiência que resulta do Programa de XVII Governo de José Sócrates que se propunha «como objectivo recuperar, nos próximos quatro anos, os cerca de 150.000 postos de trabalho perdidos na última legislatura».

Como é sabido, o referido objectivo, equivalente a reduzir o desemprego de 150 mil, foi com o tempo mudado para criar empregos em número que foi evoluindo ao longo da legislatura em que o desemprego aumentou quase tanto como o número de postos de trabalho prometidos recuperar e o número de postos de trabalho criados não chegou a 5 mil. Esta saga está amplamente documentada neste post e nos cinco nele linkados.

Evidentemente que então, como agora, o PS conta com o nevoeiro criado pela má-fé e incompetência do jornalismo de causas e dos opinion dealers, para os quais criar 207 mil empregos (o que pode ser feito destruindo 414 mil e portanto aumentando em 207 mil o desemprego) é o mesmo que reduzir o desemprego no mesmo número. É claro que nem vale a pena lembrar que o governo só cria empregos na administração pública, aumentando a despesa pública, e as empresas criarão ou não emprego dependendo de imensas coisas e também do que o governo faz.

Que medidas pretende o PS que o seu putativo governo tome para que as empresas criem 207 mil postos de trabalho nos próximos 4 anos? Com base no resumo do Público encontrei as seguintes:

1. «Eliminação da sobretaxa sobre o IRS em 2016 e 2017»
2. «Redução temporária da taxa contributiva dos trabalhadores»
3. «Complemento salarial anual para os trabalhadores pobres»
4. «Renovação das políticas de mínimos sociais»
5. «Condição de recursos nas prestações sociais não contributivas»
6. «Resolução do problema do financiamento das empresas»
7. «Limitação de contratos a termo»
8. «Procedimento conciliatório para cessação de contratos»
9. «Agravamento da contribuição para a Segurança Social por parte de empresas que abusem da precariedade»
10. «Revisão do sistema de descontos dos recibos verdes»
11. «Esforço de reintegração no mercado de trabalhadores de meia-idade»
12. «Estímulo da actividade nos sectores da reabilitação do património e da restauração»

Se das medidas 1 a 5 poderá resultar o aumento indirecto dos salários e, portanto, do rendimento disponível e, portanto, do consumo e, portanto, das importações e, portanto, do défice da balança comercial, só por bruxaria terão algum impacto na criação de emprego.

Das medidas 7, 9 e 10 resultará aumento do desemprego. Das restantes medidas, a 8 tem um impacto positivo irrelevante na redução dos custos de contexto, pelo que a esperança socialista fica residente nas duas últimas, isto é:

11. «Esforço de reintegração no mercado de trabalhadores de meia-idade»
12. «Estímulo da actividade nos sectores da reabilitação do património e da restauração»

Chegado aqui pergunto-me: estarão os sábios do PS convencidos que destas duas medidas resultará a criação de 207 mil empregos?

Se estiverem convencidos fico ainda mais preocupado do que se for só a costumeira mistificação.

(Continua)