Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

10/05/2021

Como atrasar irremediavelmente o plano de vacinação? Resposta: um dia de cada vez (46) - Estará o Sr. Almirante a conseguir mover a armada da vacina?

Média diária desde o início da vacinação em 27-12-202070% da população vacinada no final de Setembro100 mil pessoas incluindo "privados"maiores de 60 anos vacinados na primeira semana de Junho

Temos de reconhecer mérito ao Sr. Almirante que, desde que ficou a tomar conta da armada da vacina em 3 de Fevereiro em substituição do apparatchik Dr. Francisco Ramos, com os mesmos milicianos, mas com uma liderança e uma organização que não existiam, conseguiu melhorar a média diária de 10-15 mil para os actuais 70-80 mil.

O que mostra este caso? Que a razão da ineficácia e ineficiência do Estado sucial que o PS e o PS-D montaram não é a falta quantitativa de recursos humanos, que não têm parado de crescer, é o excesso de apparatchiks partidários e a falta de dirigentes e quadros profissionais competentes. É um Estado capturado pelos aparelhos partidários, nomeadamente o socialista, e, em consequência, pelas corporações que vivem em simbiose com esses aparelhos.

Crónica da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa (84) - Em tempo de vírus (LXI)

Avarias da geringonça e do país seguidas de asfixias

Expandindo a freguesia eleitoral

Talvez a maior vocação do PS seja a expansão dos utentes da vaca marsupial pública. O Dr. Costa, partindo dos 659.103 funcionários do governo PSD-CDS, aumentou-os em 9% para 718.823, repondo o stock que o Eng. Sócrates deixou a Passos Coelho. Querendo exceder-se a si próprio, o Dr. Costa já anunciou mais contratações de «por exemplo, técnicos superiores, de que a administração pública está muito carente», contratações que, segundo ele, resultarão do Plano de Recuperação e Resiliência.

A freguesia não está satisfeita ou será o PCP a mostrar prova de vida?

A "Frente Comum" anunciou para dia 20 de Maio uma greve da função pública em defesa do aumento dos salários e da revogação do sistema de avaliação. Como por coincidência, várias outras corporações anunciaram greves: os Inspetores e funcionários do SEF no dia 7, os trabalhadores do Metro no dia 25 de Maio; os da CP e da Infraestruturas de Portugal no dia 27.

[Nota: Quando lerem um nome que inclua a palavra "frente" podem apostar singelo contra dobrado que é um ser criado pelo PCP; se a palavra "comum" fizer parte, ganharam a aposta.]

Enquanto o Avante da Sonae proclama ter o governo o «programa mais ambicioso na redução da dívida pública em 2021, a dívida, indiferente a proclamações, segue o seu percurso imparável.

Adaptado do JN

09/05/2021

ESTADO DE SÍTIO: O Estado sucial do Portugal dos Pequeninos trata de tudo menos das suas funções essenciais

Se pensa que administrar a Justiça e providenciar a Defesa e a Segurança Nacional são funções primordiais do Estado sucial português, pense duas vezes.

Administrar a Justiça? Exemplo: a palhaçada do processo Marquês em que um juiz da instrução depois de muitos meses de trabalho árduo produz um despacho de seis mil páginas reduzindo de 189 para 17 o número de crimes imputados aos arguidos e dedica o melhor do seu talento a acrescentar um novo crime, o da distribuição do processo de investigação ao outro juiz.

Providenciar a Defesa e a Segurança Nacional? Exemplo: a armada portuguesa está reduzida, no que respeita navios relevantes para este propósito, a dois submarinos, cuja compra, recorde-se, deu lugar a mais um escândalo com fortes suspeitas de luvas envolvendo o então ministro da Defesa, a cinco corvetas e, sobretudo, a cinco fragatas; dos dois submarinos apenas um está operacional e das cinco fragatas apenas uma única está operacional.

08/05/2021

De como a crítica de cinema de causas faz de uma house-less por escolha uma homeless por fatalidade


Nomadland, o filme de Chloé Zhao, uma cineasta chinesa expatriada nos EUA e excomungada no seu país, conta a história de um grupo de pessoas a quem a crise de 2008 mudou as suas vidas que escolheram vaguear pelos EUA, trabalhando em empregos ocasionais e encontrando-se regularmente. Citando a síntese do IMBD centrada na personagem principal: 

«Following the economic collapse of a company town in rural Nevada, Fern (Frances McDormand) packs her van and sets off on the road exploring a life outside of conventional society as a modern-day nomad.»

No Portugal dos Pequeninos, e noutros lados, a crítica de cinema de causas - um ramo da esquerdalhada com pretensões cinéfilas - escreveu sobre o filme como se este fosse um panfleto denunciando as misérias do capitalismo americano. O propósito é desde logo denunciado pelo título da tradução portuguesa a que foi acrescentado «Sobreviver na América». Por falar em misérias, a proverty line para um americano isolado é $12,760, o equivalente em termos nominais a 3/4 do ganho médio anual de um trabalhador português.

Na verdade, o filme tem mais a ver com a opção por uma vida errante e livre de pessoas como Fern, a personagem principal protagonizada por Frances McDormand, uma actriz que é boa no seu pior e excelente no seu melhor. Isso é evidente na resposta de Fern à pergunta da pequena Makenzie «My mom says that you're homeless, is that true?»: «No, I'm not homeless. I'm just house-less. Not the same thing, right?»

07/05/2021

ACREDITE SE QUISER: A pobreza menstrual segundo os delírios do PAN

Projeto de Resolução n.º 1257/XIV/2.º (proposto pelo PAN)

Recomenda ao Governo que diligencie no sentido da menstruação não ser uma forma de discriminação, de desvantagem económica e ambiental

(...)

Os elevados custos com a aquisição destes produtos, dificultam o acesso aos mesmos. Os gastos mensais com os produtos de higiene menstrual, são, em média, de nove euros e meio por mês [*] para adquirir produtos de higiene, o que significa, aproximadamente, cinco mil euros ao longo da vida.

(...)

A esta problemática conhecida como “pobreza menstrual” (...)

De acordo com os estudo existentes, cada pessoa que menstrua usa, durante a vida, cerca de 15 mil descartáveis menstruais [**] (...)

Nestes termos, e ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, as Deputadas e o Deputado do PAN abaixo assinados, propõem que a Assembleia da República recomende ao Governo que:

1. Crie um programa que disponibilize gratuitamente, através do Serviço Nacional de Saúde, e mediante solicitação do utente, o acesso gratuito a produtos menstruais reutilizáveis; (...)

_______________


[* ] Equivale a cerca de 2/3 dos tarifários mensais mais baratos dos 7,2 milhões de telemóveis existentes em Portugal usados como meio principal de comunicação.
[**] Durante 40 anos da vida das «mulheres, raparigas e pessoas trans», os 15 mil descartáveis correspondem a 30 descartáveis por período menstrual.

Este é mais um exemplo das efabulações de um pessoal político que vive numa bolha e imagina que o resto do mundo tem as mesmas preocupações e prioridades da tribo com quem partilha a bolha.

LASCIATE OGNI SPERANZA, VOI CH'ENTRATE: Vamos todos fingir que o problema não existe? Sim, vamos (4) - A leveza insustentável do sistema público de pensões

 Continuação de (1), (2) e (3)



Segundo o estudo «Finanças Públicas – Uma Perspetiva Intergeracional publicado pela Fundação Gulbenkian e citado pelo Jornal Económico, «o atual modelo de pensões é insustentável e a sua manutenção levaria a um desequilíbrio corrigível com um aumento de impostos na ordem dos 22% ou uma perda dos benefícios de reforma de 19%» . 

É apenas mais um estudo a antecipar as consequências de uma população crescentemente envelhecida e do aumento da esperança de vida no aumento número de reformados com pensões a serem financiadas por cada vez menos activos. Na década de sessenta havia dezenas de activos por reformado, hoje há 1,5 activos por cada reformado.

Os portugueses, sobretudo os 4 milhões de portugueses que se reformarão nos próximos 20 anos, deveriam estar preocupados, mas tudo indica que não estão para se maçar com o seu futuro o que se explica pela conjugação de vários factores como a ignorância e uma cultura ancestral de dependência do Estado (segundo os estudos de Hofstede, Portugal é o país europeu mais colectivista), dependência alimentada pelos vários socialismos que disputam o eleitorado. 

Vai acabar mal porque o horizonte de sustentabilidade do sistema de pensões é de várias gerações e nenhum governo está preocupado para além das próximas eleições. É aparentemente paradoxal que este tema permaneça na sombra e um tema como o das alterações climáticas, que tem um horizonte ainda mais distante, mobilize as atenções das elites e de uma parte cada vez maior da opinião publicada.

06/05/2021

Novo Império do Meio, um gigante com pés de barro

«China has invested huge amounts in physical infrastructure, but neglected its human capital. Do not be fooled by league tables, such as the oecd’s pisa rankings, that show Chinese high-school students outperforming those of nearly every other country. The Chinese figures are not for the whole country, but only for the better schools in the richer cities.

The children of rural migrants are barred from such schools, thanks to China’s brutal hukou (household registration) system, which excludes people with rural origins from many public services in big cities. Migrant workers’ children must either pay to attend awful urban private schools or stay back in the countryside with grandma and go to a mediocre government school there. Such discrimination is keenly resented.

After decades of research, Mr Rozelle and Ms Hell present some startling data. Their team gave an iq-like test to thousands of rural Chinese toddlers. They found that more than 50% were cognitively delayed and unlikely to reach an iq of 90 (in a typical population, only 16% score so poorly). There were several reasons for this.

Half of rural babies are undernourished. Caregivers (often illiterate grandmothers) cram them with rice, noodles and steamed buns, not realising that they also need micronutrients. Studies in 2016 and 2017 found that a quarter of rural children in central and western China suffer from anaemia (lack of iron), which makes it hard for them to concentrate in school. Two-fifths of rural children in parts of southern China have intestinal worms, which sap their energy. A third of rural 11- and 12-year-olds have poor vision but no glasses, so struggle to read their schoolbooks. (...)

05/05/2021

Dúvidas (306) - Afinal qual é a geração mais educada de sempre?

«Só metade dos alunos portugueses de 15 anos consegue distinguir entre facto e opinião quando está a navegar na Internet, segundo o relatório “Leitores do séc. XXI: desenvolver competências de leitura num mundo digital”, da OCDE.»

Será o resultado das aulas de Cidadania em escolas que pretendem fazer felizes os alunos?

"Eleições faz de conta". Para além da espuma dos dias

Marktest

Focando a floresta das tendências em vez  de olhar para as dúzias de árvores das sondagens:
  • O PS têm-se aguentado, cavalgando a pandemia e o nacional-cagaço;
  • O PSD do Dr. Rio não consegue afirmar-se como uma alternativa aos olhos dos eleitores, por causa do PS e por causa do próprio Dr. Rio;
  • Nos restantes, há uma ligeira tendência para o declínio do PCP, do BE e do PAN e as únicas outras alterações com significado são
  • A afirmação do Chega;
  • O crescimento do IL, possivelmente à custa do PSD;
  • O desaparecimento do CDS aspirado pelo Chega.

04/05/2021

A mentira como política oficial (48) - O Plano A tinha menos 1600 páginas do que o Plano B (o Expresso a tentar ser um semanário de referência, em vez de reverência)

Expresso

Como atrasar irremediavelmente o plano de vacinação? Resposta: um dia de cada vez (45) - É muita falta de vergonha ou de siso

Média diária desde o início da vacinação em 27-12-202070% da população vacinada no final de Setembro100 mil pessoas incluindo "privados"maiores de 60 anos vacinados na primeira semana de Junho

Apesar de uma melhoria lenta, o padrão mantém-se: uma média móvel de 7 dias inferior a 60 mil doses diárias, com uma grande quebra nos fins de semana. A data final de conclusão à média dos últimos 7 dias continua a escorregar para o próximo ano o que, a verificar-se, significará um inverno em que uma parte significativa da população ainda não estará vacinada.

Em cima do atraso do plano de vacinação, temos prioridades definidas para atender aos egoísmos corporativos. Qual é o sentido de vacinar prioritariamente quase 200 mil funcionários se dos 225 mil testes realizados nas escolas pelo ministério da Educação só foram detectados 340 positivos o equivalente a uma taxa de 0,15%, inferior a um quinto da taxa média em Portugal?

Neste contexto, é ainda mais inacreditável a falta de vergonha ou de siso (cortar ao gosto) do Dr. Costa  ao afirmar que Portugal vai «chegar ao grau de imunização dos ingleses mais ou menos ao mesmo tempo» quando se sabe que em 1 de Maio o Reino Unido tinha 23% da população imunizada e 51% com pelo menos uma dose e os números do Portugal dos Pequeninos, dois dias depois, eram respectivamente 9% e 25%.

03/05/2021

Declaração de não voto em Isaltino Morais. Não é por ser um obelisco maçónico, é por ser um obelisco

Apesar do Dr. Isaltino Morais não ter um passado recomendável, tem feito mandatos aceitáveis como presidente da câmara de Oeiras. Não obstante algumas asneiras e decisões por vezes opacas, tenho votado nele como mal menor face às alternativas.

Com os 600 mil euros (mas podiam ser 60 mil) torrados num obelisco de simbologia maçónica (mas podia ser de outra qualquer simbologia), com uma placa de inauguração onde se explica que é um «espaço de cultura e laser», atravessou a linha vermelha e perdeu o meu voto nas próximas eleições. Não tenho a certeza se alguém ganhará esse voto.

Crónica da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa (83) - Em tempo de vírus (LX)

Avarias da geringonça e do país seguidas de asfixias

O plano A e o plano B

O plano A é o Plano de Recuperação e Resiliência, também chamado de bazuca ou vitamina, ou, mais exactamente, a parte dele que foi tornada pública, ou seja o resultado do peditório que aos olhos do governo permitirá ao PS empurrar as reformas com a barriga para frente, enquanto distribui o maná pelos amigos e as sobras pelo povo, às custas dos frugais.

O plano B é isso e as medidas que o governo fica obrigado perante Bruxelas para ter acesso ao peditório, medidas que, embora tímidas, são inaceitáveis por comunistas e berloquistas.

Por incrível que pareça, foram precisos vários meses para vir à tona (logo na 1.ª página do Expresso) o ilusionismo do Dr. Costa que tirou da cartola o coelho e deixou dentro dela a factura da coelheira, o que só pode ser explicado pela boa-vontade das redacções e a aposta do jornalismo de causas no mal menor.

É injusto dizer que o Dr. Costa está agarrado ao lugar

Veja-se o que aconteceu a semana passado quando o Dr. Costa, acompanhado do seu ministro Dr. Pedro Nuno Santos, encurralado pelos protestos em Valença, empurrou o putativo sucessor para responder aos populares que o questionavam.

Uma ajuda do Dr. Costa à campanha do Dr. Pedro Nuno

Deve acrescentar-se que durante essa deslocação a Viana do Castelo e Valença, o Dr. Costa aproveitou para inaugurar a modernização da Linha do Minho, obra inacabada que deveria estar concluída há mais de dois anos. Foi uma espécie de pré-inauguração que não prejudicará um dia a inauguração.

L’État c’est nous…

O Dr. Cabrita decidiu requisitar o empreendimento turístico Zmar para alojar pessoas infectadas com a Covid-19 sem negociar com os proprietários.

… et Lisbonne est aussi à nous

Durante uma dúzia de anos o arquitecto Manuel Salgado, primo do Dr. Ricardo Dono Disto Tudo Salgado, mandou e desmandou na câmara de Lisboa com a bênção primeiro do padrinho Dr. Costa e depois do afilhado Dr. Medina (ver os posts sobre Quem manda na câmara de Lisboa). Os fumos de corrupção, que já estavam espessos há vários anos, adensaram-se agora com a investigação em curso da PJ aos negócios da câmara em que interveio o primo Manel.

Cuidando da freguesia eleitoral

Os filhos dos funcionários públicos que venham estudar para Lisboa irão dispor de uma residência universitária. Há quem se indigne sem razão. Se o governo não cuidar dos seus, quem cuidará?

02/05/2021

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Bons conselhos para a direita de uma cronista de esquerda

Frequentemente a escrita de Clara Ferreira Alves é de um diletantismo cosmopolita enjoativo. Uma vez ou outra, produz textos de invulgar lucidez e fora da caixa, como agora. São conselhos invulgares de uma rara esquerda inteligente a uma direita inteligente ameaçada de extinção.

«De 1986 a 1990, frequentou a Universidade de Harvard, Estudos Sociais, tendo ganho o Prémio Hooper. De 1992 a 1993, frequentou a Universidade de Stanford e completou um mestrado em Política Internacional. De 1993 a 1995, tirou um MBA na Harvard Business School. De 1990 a 1991, trabalhou como analista financeiro no Chase Bank de Londres. De 1991 a 1992, voltou ao país para cumprir o serviço militar. De 1995 a 1997, tendo acabado os estudos de pós-graduação, trabalhou na McKinsey, em Londres, especializando-se em telecomunicações e indústria de serviços financeiros. De 1997 a 1999, trabalhou para a Alpha Ventures, uma private equity do Alpha Bank, como quadro de estratégia de investimento empresarial. Em 1999, fundou uma empresa de capital de risco, subsidiária do banco nacional, sendo o CEO responsável pelas transações na sua região. Demitiu-se deste posto para seguir uma carreira na política. Em janeiro de 2003, foi nomeado pelo Forum Económico Mundial como um líder do futuro. Fala inglês, francês e alemão.

Este currículo, completado por uma carreira política ao serviço do partido de direita Nova Democracia, do qual foi deputado eleito por um círculo da capital, Atenas, é o do primeiro-ministro grego Kyriakos Mitsotakis, nascido em 1968. Antes de ser eleito primeiro-ministro, foi o líder da oposição na Grécia, de 2016 a 2019, e ministro da Reforma Administrativa de 2013 a 2015. Sucedeu a Alexis Tsipras, o líder da extrema-esquerda que impediu a Grécia de sair da União Europeia, ao contrário do que queria o brilhante, volúvel e errado nos vaticínios, o economista-rock-star Yanis Varoufakis.

A Grécia, note-se, está a recuperar de um período duríssimo, continua uma sólida democracia, estabilizou a desordem financeira e vai ultrapassar Portugal. O combate à pandemia foi um sucesso, comparado com outros países com menos problemas e sem migrantes, e o turismo vai abrir em força este verão. A Nova Democracia recuperou os votos de protesto que tinham ido para o Aurora Dourada, o partido de extrema-direita com recheio nazi, e os líderes da AD foram julgados e condenados por delitos criminais. (...)

 A direita não fez voto de pureza ou pobreza e é inimiga do coletivismo e do estatismo que tolhem a economia e a iniciativa privada. A direita dispensa pergaminhos de superioridade moral, o seu terreno é o sucesso económico capitalista que retira pessoas da indigência e do desemprego e legisla de modo a enriquecer o país e a sociedade. A esquerda ocupou o território das ordens mendicantes e do moralismo, como se viu pela questão do desfile no 25 de Abril.

Ora o que a direita portuguesa precisa é de demonstrar que as suas políticas económicas são melhores do que as da esquerda, que as suas políticas fiscais são distintas, que têm sólidos quadros económicos e políticos que invertam a tendência suicidária da estagnação e do aumento progressivo da dívida pública, que saneiam o Estado, reduzindo-o, e que acabam com o clientelismo partidário intensivo que gera a corrupção. Acima de tudo, que deem aos políticos condições salariais para fazerem da política uma carreira bem remunerada em vez de escolherem a via empresarial e que consigam atrair as novas gerações de economistas e gestores formados por duas excelentes escolas, a Nova Business School e a Universidade Católica, que foram obrigados a partir para cidades estrangeiras, Londres e Nova Iorque, para prosseguirem uma carreira que sirva o brilhantismo próprio em vez de se colocarem ao serviço dos partidos e das mediocridades sem currículo que mercantilizam o acesso ao chefe. O mérito português reluz no estrangeiro porque aqui não tem futuro. Aqui amanhecem os que não embarcam nas caravelas. (...)

Se a direita estiver condenada a Ventura, a esquerda estará condenada a mandar. Estudem, dizia-se. Estudem.»

Currículo de Direita, Clara Ferreira Alves no Expresso

01/05/2021

Maldição da tabuada (56) - Falta de patriotismo. Portugal já esteve no topo do mundo e não a Índia

«Índia ultrapassa 400 mil casos de coronavírus num só dia, um novo recorde mundial» titula o Observador. Ainda pensei que o título catastrofista se devesse à ignorância do número de habitantes da Índia. Não deve, porque logo de seguida se escreve que «O país de 1,3 mil milhões de habitantes está a braços com um surto devastador, com novos máximos diários de infetados e mortos há vários dias.» É certo que a população da Índia tem mais quatro portugais do que o número indicado, mas para o caso é igual ao litro.

Não se devendo o título catastrofista à ignorância demográfica, resta a ignorância aritmética que passa ao lado de os 400 mil casos num dia na Índia serem equivalentes a pouco mais de 3 mil em Portugal, ou seja menos de um terço da média portuguesa em Janeiro (quase dez mil casos por dia).

As vacinas como projecção de influência política e económica das autocracias russa e chinesa

Vaccine diplomacy boosts Russia’s and China’s global standing

In January, as many rich countries were rolling out covid-19 vaccine programmes, others were being left behind. (...) This is especially true in poor parts of the world. According to a recent tally by Agence France-Presse, a news agency, of the more than 1bn doses of vaccines that have been administered worldwide, just 0.2% have gone to people in low-income countries.

Many have turned to China and Russia for help. (...)  Such vaccine diplomacy is designed to bolster the two countries’ global standing, improve bilateral relations and gain strategic influence. (...) 

To ensure they gain a foothold in places where Western influence is declining, both China and Russia are setting up vaccine-production facilities abroad and training local workers. The two countries are playing a long game. But, besides enhancing their global prestige, they may also be using vaccines to reward loyal friends or secure particular favours. The EIU report points out that Russian officials began talks with the Bolivian government about access to mines producing rare-earth minerals and nuclear projects shortly after Russia had delivered a batch of its domestically produced Sputnik V vaccine. And China’s generosity to Cambodia and Laos may be partly explained by gratitude for their backing for China’s position on the South China Sea.

For all their diplomatic success, China and Russia have fared less well at home. China’s enormous population may stymie its own vaccination drive, and its Sinovac jab yielded an efficacy rate of just 50.7% in recent phase-three trials conducted in Brazil, barely above the 50% threshold set by the World Health Organisation for covid-19 vaccines. Meanwhile, Russia’s inoculation campaign has been sluggish because of vaccine hesitancy and production problems at home. So far both countries have administered only 0.2 shots per 100 people per day, compared with almost three times as many in Britain and France and five times as many in America. The EIU reckons that Russia will achieve widespread vaccination only in mid-2022, and China not until late that year.»

29/04/2021

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: O pesadelo de BoJo

Secção Entradas de leão e saídas de sendeiro / Secção Still crazy after all these years

The nightmare: Boris’s battles are just beginning

Uma imagem, neste caso o cartune de Morten Morland na capa da Spectator, diz mais do que mil palavras. No pesadelo de BoJo surge Dominic Cummings, um spin doctor que ameaça divulgar email privados, recentemente despedido por influência de Carrie Symonds, a namorada de BoJo, surge a namorada herself  e ainda Nicola Sturgeon, a primeira-ministra da Escócia que ameaça um referendo ao Scotexit, seguido de pedido de adesão à UE.

Pelo pesadelo, obra de noites mal dormidas, BoJo leva cinco bourbons, por não conseguir deixar de ser ele próprio, e três chateaubriands por imaginar que o resto do mundo não dá por isso e continuará a tolerar as suas palhaçadas.

O Novo Império do Meio tem aspirações a ser um império global e para já comporta-se como um império regional agressivo

«The chinese ships that appeared around Whitsun Reef in March were unusual for fishing vessels. They seemed to do little fishing, for a start. Satellite images revealed them to be pristine and lined up with military precision. China said the ships were simply sheltering from bad weather. But the Philippine government said they belonged to China’s “maritime militia”, a naval auxiliary force under the command of the People’s Liberation Army. The result is the latest stand-off in the South China Sea.

In 2016 an international tribunal in The Hague rejected China’s vague and sweeping claims in the South China Sea, including to the Spratly Islands, in a complaint brought by the Philippines. But Rodrigo Duterte, the Philippines’ president, has largely avoided confronting China over the issue, preferring instead to needle America, an ally but also a former colonial occupier of the Philippines.

Thus it was a surprise when Mr Duterte’s government strongly denounced the latest provocations. On March 21st Delfin Lorenzana, the defence minister, demanded that the 220 Chinese vessels in the reef’s lagoon leave “our sovereign territory”. Two weeks later he complained that China had shown “utter disregard…of international law”. The next day Teddy Locsin, the foreign minister, thundered at China’s “blatant falsehoods”. Though many of the ships have now left Whitsun Reef, they are thought to have dispersed to nearby reefs, still within the Philippines’ eez.

China has deployed a notionally civilian maritime militia since the 1970s, and Vietnam operates a similar fleet, although not as large or active. Chinese fishing boats played a big part in the Chinese seizure of disputed rocks and sandbars such as Mischief Reef in 1994 and Scarborough Shoal in 2012, notes Ryan Martinson of the us Naval War College. In late 2019 and 2020 China used both its maritime militia and its coastguard to intimidate the West Capella, a ship licensed by Malaysia to drill for oil and gas. In January China passed a law expanding the powers of its coastguard, allowing it to use force more readily.»

China tries to nick another speck in the sea from the Philippines, Economist

28/04/2021

Como atrasar irremediavelmente o plano de vacinação? Resposta: um dia de cada vez (44) - O alvo em movimento

Média diária desde o início da vacinação em 27-12-202070% da população vacinada no final de Setembro100 mil pessoas incluindo "privados"maiores de 60 anos vacinados na primeira semana de Junho

Dia após dia, fica mais difícil alcançar os objectivos que o próprio governo definiu. Por exemplo, para atingir 70% de vacinados até 30 de Setembro seria necessário aumentar um terço do número médio de doses diárias de 57 mil na última quinzena para 75 mil, aumento que até agora não foi possível e mais difícil será nos meses de Verão.

Para complicar, os objectivos estão constantemente a ser alterados. Ontem o Sr. Almirante redefiniu os objectivos por faixa etária que passaram a ser os seguintes em relação à primeira dose:

Observador

Acontece que, segundo o Expresso, a faixa etária 80+ anos só tem vacinados 77% com as duas doses e como os objectivos agora definidos são em função de uma dose é ainda mais duvidoso que seja possível administrar duas doses a 7 milhões até ao fim do Verão.

E qual é a credibilidade de tal plano onde se considera completada em 11 de Abril a 1.ª dose da faixa etária 80+ anos quando a informação oficial ECDP (European Centre for Disease Prevention) refere que hoje 28-04 só 92,7% estão vacinados com pelo menos uma dose?

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (39) - Deitar foguetes antes da festa

Outros portugueses no topo do mundo.


O título sugere um Portugal que sempre foi especial passar a ser também espacial. No texto o foguetão baixa à categoria de foguete ao saber-se que o consórcio vai investir no Portugal dos Pequeninos uns míseros 9 milhões de euros em 3 anos, escassamente suficientes até para montar uma modesta fábrica de pirotecnia, daquelas que de vez em quando explodem levando consigo a família proprietária.

Uma linhas mais abaixo fica-se a saber que afinal a produção é só de umas peças a que Luís de Gôngora y Argote se escrevesse o artigo teria chamado de sistemas para o futuro foguetão RFA ONE, e se no lugar do presidente da AICEP também proclamaria «estamos a entrar numa nova era, ao plantar as primeiras sementes da indústria espacial no País. Estamos a lançar a Era Espacial!». 

27/04/2021

ARTIGO DEFUNTO: A lista de Salgado (7)

 Continuação de (1), (2), (3), (4), (5) e (6)


Há cinco anos, o Expresso e a TVI divulgaram as primeiras informações sobre os Papéis do Panamá entre os quais se encontrava uma lista de avenças e compensações pagas pelo GES a mais de uma centena de pessoas, incluindo políticos, gestores e jornalistas, lista até hoje não divulgada.

Mais tarde, o Expresso desculpou-se numa Nota Editorial pela não divulgação explicando que «a lista de alegados pagamentos não está nos Panama Papers. Está no Ministério Público», contrariando o que escreveu inicialmente em que referiu a lista como parte dos Papéis do Panamá a que tiveram acesso. Em qualquer caso estar no MP ou noutro sítio qualquer não impediria que a ela se tivesse acesso, como a qualquer outra informação "protegida" pelo segredo de justiça.

A única protecção eficaz do segredo de justiça é a doutrina corporativista dos jornalistas em geral que mantêm um prudente silêncio, com a excepção conhecida de Vítor Rainho no jornal i.

Entre a comentadoria também o silêncio é a regra, ainda para mais porque os nomes de alguns dos opinion dealers podem constar da lista de Salgado. Que tenha reparado, só António Galamba - uma bête noire do Dr. Costa - insistiu em Os jornalistas no saco azul do GES e a teoria geral do funil e agora em Os nomes dos jornalistas avençados do saco azul do GES já prescreveram?

26/04/2021

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Sérgio Sousa Pinto e a manifestação da intolerância cultural e da ditadura do politicamente correcto

Secção Res ipsa loquitur / Secção Tiros no pés

Sérgio Sousa Pinto, um exemplo raro de militante socialista tolerante e provido de coluna vertebral, resolveu participar na convenção Portugal e os portugueses - Reconfiguração social, política e económica para as próximas décadas, promovida pelo Movimento Europa e Liberdade, onde intervirão várias outras personalidades públicas que vão desde o centro-esquerda, centro-direita e a direita liberal até à extrema-direita, tais como Fátima Bonifácio, José Manuel Fernandes, João Cotrim de Figueiredo, Paulo Portas e muitos outros incluindo Álvaro Beleza, Henrique Neto e ainda André Ventura, a bête-noire da esquerdalhada

Num país normal, a participação de Sousa Pinto seria vista como normal. Portugal não é, porém, um país normal, talvez porque tem uma esquerdalhada que fala em nome da esquerda e até fala, com grande desaforo, em nome do Portugal dos Pequeninos. 

Excitada com o tema "A intolerância cultural e a ditadura do politicamente correcto" em que Sousa Pinto participará no painel, a esquerdalhada reagiu pavlovianamente, ou seja, levianamente como o cão de Pavlov, e começou a soprar as habituais indignações nos jornais e os habituais incêndios nas redes sociais onde maluquinhos desprovidos de neurónios torram Sousa Pinto pelo facto de, dizem, "branquear" André Ventura.   

A Sousa Pinto atribuo quatro afonsos pela tesura de se borrifar para a intolerância militante da esquerdalhada e aos indignados com tal participação ofereço cinco bourbons, por nada esquecerem e nada aprenderem, e quatro chateaubriands, por não perceberem que o resultado destas patetices tem efeito contrário ao que pretendem.

Crónica da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa (82) - Em tempo de vírus (LIX)

Avarias da geringonça e do país seguidas de asfixias

L'État c'est nous

Cumprindo o seu desígnio de ocupar o Estado sucial, o PS do Dr. Costa tem hoje um papel semelhante ao da União Nacional do Dr. Salazar fazendo os militantes socialistas instalados no aparelho do Estado as vezes dos funcionários situacionistas. O caso da Segurança Social é um bom exemplo. Segundo o levantamento do Observador, todo o Conselho Directivo do ISS e 12 dos 18 directores distritais são boys. O último nomeado como director-geral da Segurança Social é um caso paradigmático de um boy que fez o percurso dos gabinetes de Costa e Vieira da Silva.

A nomenclatura espera ansiosa o desencalhar da bazuca

Vencido o obstáculo do Tribunal Constitucional alemão que deixou passar a alteração que permitirá à CE financiar-se directamente nos mercados financeiros, ainda faltam nove países dos quais só a Holanda e a Áustria poderão levantar algum problema.

Por isso, já é audível o salivar das Forças Vivas de Nação (uma expressão usada no Estado Novo para designar as fraquezas moribundas nele penduradas), à espera dos fundos. Para citar Helena Garrido, até «os empresários ficaram aparentemente satisfeitos porque boa parte do aumento da dívida do país vai ser para eles.»

A tradição ainda é o que era

Numa espécie de homenagem póstuma ao Eng. Sócrates, por ocasião da limpeza da sua folha pelo Juiz Rosa, o Dr. Costa que havia sido forçado pela CE a retirar do PRR 140 milhões de euros para estradas resolveu financiá-las pelo OE2021. O que é uma coisa extraordinária a vários títulos, incluindo o à vontade magistral do governo ter enfiado no orçamento algo que lá não estava, depois de ter considerado inconstitucional a aprovação pelo parlamento do aumento da despesa relativa aos subsídios aos trabalhadores independentes.

Ineficiente, sempre. Ineficaz quando possível

Acredite se quiser: os seis helicópteros russos Kamov de combate aos incêndio florestais comprados por 40 milhões durante o mandato do Dr. Costa como ministro da Administração Interna (ver aqui o resumo da estória) e mantidos durante 11 anos a um custo anual de 10 milhões estão parados desde há três anos a aguardar uma auditoria para saber se vale a pena repará-los. Entretanto, mais de 4 milhões de peças propriedade do intermediário da compra continuam montadas nos helicópteros.

25/04/2021

Como atrasar irremediavelmente o plano de vacinação? Resposta: um dia de cada vez (43) - Ó Sr. Almirante deixe-se lá de anúncios

Média diária desde o início da vacinação em 27-12-202070% da população vacinada no final de Setembro100 mil pessoas incluindo "privados"maiores de 60 anos vacinados na primeira semana de Junho

A média móvel semanal que durante 6 dias consecutivos ultrapassou as 60 mil doses voltou a cair. Para compensar, o Sr. Almirante anunciou, mais uma vez, «um ritmo muito elevado, que será dentro de muito pouco tempo, superior a 100 mil vacinas por dia». Também anunciou a chegada de mais vacinas e não se desculpou com a falta delas que é uma versão que, para justificar o atraso na vacinação, continua a ser instilada subliminarmente nas cabecinhas do povo ignaro, apesar do stock de 20 milhões de doses na UE.

Na mesma linha de anúncios, o Sr. Thierry Breton, comissário do Mercado Interno (não perguntem o que tem ele a ver com a vacinação), que já havia anunciado que a imunidade colectiva na Óropa será atingida no 14 juillet, anunciou agora que «vamos alcançar a imunidade coletiva antes dos britânicos e talvez ao mesmo tempo que os americanos» o que não disse é se será antes ou depois da tomada da Bastilha. Visto que o Reino Unido e os EUA já vacinaram, respectivamente, 50,2% e 41,8% da população com pelo menos uma dose e 18% e 28% com a segunda, contra os 24,2% e 8,9% da UE, o anúncio de M Breton é no mínimo arrojado e fez-me lembrar Napoléon na véspera de Waterloo.

DIÁRIO DE BORDO: Um 25 de Abril impertinente. A tradição aqui ainda é o que sempre foi

O meu 25 de Abril foi o dia em que comecei a descobrir que as coisas não eram o que pareciam ser.

Em que comecei a descobrir que o país estava coalhado de democratas, socialistas e comunistas nunca antes vistos, nascidos nos escombros do colapso por vício próprio do edifício decadente do Estado Novo. Pouco a pouco, nos dias e meses seguintes, para minha surpresa, o coalho derramou-se pelo país numa maré do coming out, como lhe chamaríamos hoje. Em cada empregado servil, venerador, de espinha dobrada e mão estendida, havia um heróico sindicalista pronto a lutar pelos direitos dos trabalhadores e pelo «saneamento» do patrão.

Em que comecei a descobrir como tinha sido possível o marcelismo ter-se mantido de pé 6 longos anos, depois do Botas ter caído da célebre e providencial cadeira. Que nunca tinha havido uma oposição digna desse nome. Que a mole imensa do povinho lá tinha feito pela vidinha, esgueirando-se pelas frestas das fronteiras, pelas cunhas da tropa e pelas veredas das guerras do ultramar.

Em que comecei a perceber que o leitmotiv do drama não era uma ditadura suportada por uma direita retrógrada e infinitamente estúpida. Nem era uma ditadura provinciana, bafienta, decadente, de brandos costumes, que mantinha um número de presos políticos que envergonharia qualquer ditadura à séria (112, depois dum mês agitado de prisões).

Em que comecei a perceber que também não era a guerra colonial, que em 25 anos fez o equivalente ao número de mortos de 4 ou 5 anos de guerra rodoviária. Nem a guerra cujo fim foi uma humilhante fuga às responsabilidades (nem mais um só soldado para as colónias, berravam os bloquistas avant la lettre) que desencadeou em Angola, Moçambique e Timor a enorme hecatombe humana dos 20 anos seguintes.

Em que comecei a perceber que o leitmotiv do drama era a resposta à pergunta: como foi possível a uma tal ditadura manter-se quase 50 longos anos sem ter sido seriamente ameaçada?

Em que comecei a perceber que o 25 de Abril foi princípio do fim das nossas desculpas como povo. Que nada adiantaria sacudir a água do capote, e mandar a coisa para cima dos eles que escolhemos para nos desgovernarem.

E foi neste 25 de Abril que descobri que já não me restava pachorra para aturar, mais um ano, as comemorações do gang do esquerdismo senil que se julga proprietário da data.

[Este post foi publicado no trigésimo aniversário da chamada revolução dos cravos e republicado posteriormente. Hoje poderia escrever o mesmo, mas não foi preciso porque já estava escrito.]

24/04/2021

O Partido Socialista apodreceu e com ele apodreceu a 3.ª República (2)

 Continuação deste apodrecimento.

«A história do Acórdão 90/2019 do Tribunal Constitucional, de que falei aqui na semana passada e que Ivo Rosa utilizou para mandar abaixo toda a Operação Marquês (com o argumento de que o prazo de prescrição para os crimes de corrupção activa começou a contar em 2006, e portanto tudo estava prescrito), ficou ainda mais interessante com as informações  reveladas pelo programa da RTP Sexta às 9.

Em primeiro lugar, ficámos a conhecer o nome do advogado que interpôs o recurso junto do Tribunal Constitucional (TC) a que Ivo Rosa se agarrou com grande entusiasmo. Chama-se Rui Patrício, e é um ás na sua profissão. Em 21 de Março de 2018, o Supremo Tribunal de Justiça tinha condenado um cliente seu a cinco anos e sete meses de prisão pela prática de nove crimes de corrupção a activa e dois crimes de peculato (trata-se de um caso de processos de falência que não envolveu figuras públicas). Em meados de 2018, o advogado recorreu ao TC, argumentando que os crimes de corrupção estavam prescritos.

Graças a Deus, a justiça nem sempre é lenta, e o TC deu-lhe razão a 6 de Fevereiro de 2019. Numa jogada de mestre, Rui Patrício ganhou em vários tabuleiros: inocentou directamente o cliente das falências com aquele acórdão, e inocentou mais três clientes por tabela. Como? Simples: Rui Patrício é também advogado de Hélder Bataglia, de Bárbara Vara (filha de Armando Vara) e de Rui Horta e Costa (ex-administrador do empreendimento de Vale do Lobo), todos eles não pronunciados por decisão de Ivo Rosa com base no Acórdão 90/2019, que lhe caiu no colo a meio da instrução da Operação Marquês.

Mas há mais. Graças ao Sexta às 9, ficámos também a saber por que razão Manuel da Costa Andrade, então presidente do Tribunal Constitucional (abandonou este ano o cargo), não participou (e bem) na decisão da 1.ª secção do TC. Costa Andrade estava impedido de o fazer, porque em Novembro de 2015 assinou um parecer encomendado por Rui Patrício, no qual defende a tese da prescrição dos crimes de corrupção a partir do momento da promessa, invocando para isso o respeito pelo princípio da legalidade, argumento central utilizado pelo Juiz relator Cláudio Monteiro no Acórdão 90/2019.

Esse parecer, curiosamente, não foi assinado só por Costa Andrade. Foi assinado também pela professora Cláudia Cruz Santos, actual deputada do PS, e não por acaso citada pelo próprio juiz Cláudio Monteiro, ex-deputado do PS, no Acórdão 90/2019. Como se as coincidências não bastassem, ainda há mais uma: Manuel da Costa Andrade, ex-deputado do PSD, é pai de João Costa Andrade, advogado de José Paulo Pinto de Sousa, o fidelíssimo primo de José Sócrates, que também escapou à pronúncia. 

Há quem afirme que o mero elencar destes factos é uma forma ínvia de pôr em causa a reputação de pessoas respeitáveis, sobre as quais não recai suspeita alguma. Deixem-me esclarecer que não é a reputação das pessoas que está em causa, mas esta bambochata de ligações familiares, financeiras ou políticas. Somos um país dominado por uma elite minúscula que vive em circuito fechado, pejada de conflitos de interesses, porque o advogado já encomendou pareceres ao juiz, o filho seguiu as pisadas do pai, a professora esta no parlamento a sonhar com o TC (com uma perninha no futebol) e o político, o banqueiro ou o grande empresário que de repente é apanhado sabe muito bem a que portas ir bater para se safar. Isto é o sistema. Não foi criado por Sócrates . E continuará muito para além dele.»

O juiz, a deputada, o advogado, o professor e o filho dele, João Miguel Tavares no Público

Comentário: 
Sim, não é a reputação de pessoas respeitáveis que está em causa, porque na fossa séptica em que o PS e o regime estão mergulhados, pode haver reputação mas é a reputação da fossa séptica e quem a tem são pessoas talvez respeitadas na fossa séptica, mas não respeitáveis fora dela.

23/04/2021

Estado empreendedor (110) - O aeroporto que só abria, abre ou abrirá aos domingos (13) - Ressuscitado como apêndice de uma zona franca

Continuação de outras aterragens: aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10, (11), (12)

Recapitulação

Ao princípio era o verbo do Eng. José Sócrates: mais de um milhão de passageiros até 2015 e o investimento seria recuperado nos 10 anos seguintes. Era o multiplicador socialista a funcionar de acordo com o estudo «Plano Regional de Inovação do Alentejo» da autoria de Augusto Mateus, um ex-ministro socialista da Economia do 1.º governo de Guterres. Segundo o estudo, o aeroporto de Beja iria constituir uma «plataforma logística para a carga a receber e a expedir de/para a América e África, incluído o transporte de peixe, utilizando aviões de grande porte e executando em Beja o transhipment para aviões menores para a ligação com os aeroportos europeus».

Entretanto, durante mais de uma década, desenrolou-se uma saga cujos principais episódios são relatados nos posts anteriores, o último dos quais consistiu num projecto para desmantelar aviões que se esfumou, como os anteriores.

Novos desenvolvimentos

Passados doze anos e imensos projectos de inspiração evangélico-socialista, do tipo se o construímos eles virão, ou do tipo Lockheed TriStar, se já gastámos x milhões vamos gastar mais y milhões para não perder o x, e de seguida vamos gastar mais z milhões, para não perder x + y, e assim sucessivamente, as ideias tornam-se inevitavelmente cada vez mais místicas, como é o caso agora da ideia de «usar aeroporto de Beja para ser uma zona franca comercial e industrial»

Esta última ideia, avançada pelo Presidente da Comunidade Portuária e Logística de Sines, cargo que certamente lhe deixa tempo suficiente para produzir mais ideias, seria mais uma para fazer meia dúzia de anúncios, dois ou três relatórios, quatro ou cinco apresentações, e no final torrava-se umas centenas de milhar e estaria o assunto arrumado. Infelizmente, com a chegada os milhões da bazuca a coisa pode complicar-se e chegar a vias de facto torrando-se não umas centenas de milhar mas centenas de milhões.

A bidenlogia substitui Alt-Right e White Supremacists por Antifa e Woke e recupera partes de trumpologia (nem sempre as melhores)

«Joe Biden, the 46th President of the United States, has never been able to keep his mouth shut. Throughout his absurdly long career in politics, he has always said too much, made stuff up, gone too far. ‎Os amigos e fãs encolhem-no.‎ ‘That’s our Joe.’

The trouble is, Biden is now America’s Commander-in-Chief, leader of the not-so-free-anymore world, and his loquaciousness — and the mental fuzziness it betrays — is becoming a problem.

Take, for instance, his decision this week to intervene before the jury reached its verdict on the trial of Derek Chauvin, the white police officer now found guilty of the murder last year of George Floyd in Minneapolis, Minnesota. ‘I’m praying the verdict is the right verdict. I think it’s overwhelming in my view,’ Biden said. ‘I wouldn’t say that unless the jury was sequestered,’ he quickly added — as if there were nothing untoward in a president weighing in pre-emptively on the most racially charged legal trial in America since the O.J. Simpson case in 1995.

As things turned out, mirabile dictu, the jury agreed with Biden and found Chauvin guilty on all three counts. Yet what ought to have been a calm vindication of American justice was treated as a grubby political show trial. Angry right-wingers will regard the verdict as a sop to left-wing mobs who would have — hell, maybe still will — set fire to cities across America had Chauvin not gone down. Chauvin’s lawyers are expected to claim that their client was not given a fair trial due to the monstrous public pressure surrounding the case.

The strangest part about Biden’s intervention was how unnecessary it was. Nobody was clamouring for the President to wade into the controversy at such a critical juncture. Yes, other leading Democrats had jumped the justice gun. Congresswoman Maxine Waters last weekend told reporters she hoped Chauvin would be found ‘guilty, guilty, guilty’ — which prompted a rebuke from the judge and lots of tut-tutting in responsible media circles.

Biden should have remained above the fray, but he just couldn’t help himself. That’s our Joe. He’s a member of the so-called Silent Generation who can’t stop talking.

22/04/2021

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (38) - Os primeiros na mão estendida

Outros portugueses no topo do mundo.

#Portugal foi o primeiro Estado membro a apresentar o PRR. A nossa recuperação assenta no reforço do SNS, na habitação digna e acessível, na promoção das qualificações, na capitalização e inovação empresarial, no desenvolvimento do interior e nas transições climática e digital.

Saudemos o Dr. Costa e a sua obra de realização do sonho do Padre António Vieira, dando passos para a criação do Quinto Império da Pedinchice.

Lost in translation (351) - Vou ser o Sócrates da bitola estreita, quis ele dizer por outras palavras

“Fizeram-se milhares de quilómetros de auto-estrada quase sem discussão. O investimento na ferrovia toda a gente discute”

Dr. Pedro Nuno Santos, na apresentação Plano Ferroviário, citado pelo Avante da Sonae

CASE STUDY: Trumpologia (75) - Uma espécie de balanço do trumpismo por uma portuguesa residente na Trumpolândia

Mais trumpologia.
«No fim-de-semana, quando conversei com as minhas amigas, uma delas disse que estava muito satisfeita com o Biden. A política do Biden tem diferido muito pouco da política do Trump; a maior diferença está no uso do Twitter e outra diferença é o papel da Rússia, que continua a ser vista como inimiga, isto depois de Trump ter visto a Rússia com mais afinidades.

Para mim, o Trump é um enorme paradoxo. Decerto que sem ele não teríamos tanto progresso social tão rápido; mas pagámos bem o preço de tudo o que conquistámos.»
Rita Carreira, neste post de A Destreza da Dúvidas

21/04/2021

Como atrasar irremediavelmente o plano de vacinação? Resposta: um dia de cada vez (42) - Depois do foguetório, mais do mesmo

Média diária desde o início da vacinação em 27-12-202070% da população vacinada no final de Setembro100 mil pessoas incluindo "privados"maiores de 60 anos vacinados na primeira semana de Junho

Depois do foguetório de cinco dias acima dos 60 mil e um dia com quase 120 mil, de volta aos 30 mil. É a confirmação do amadorismo ou, mais rigorosamente, do mau profissionalismo, porque amador não significa mau ou medíocre, significa que se faz com gosto.

Na União Europeia, que está muito atrás do Reino Unido e dos EUA, a posição de Portugal, com 23,5% da população com pelo menos uma dose e 8,0% com as duas, relativamente à média de 22,9% e 8,4%, posiciona-nos a meio da tabela o que nos classifica como medíocres no género europeu, que é medíocre no género países desenvolvidos. Porém, quando olhamos para o ranking europeu da vacinação por grupo etário, constatamos uma situação curiosa e muito significativa (fonte ECDC).
  • > 80 anos  - 6.º 
  • 70-79 anos - 18.º
  • 60-69 anos -  18.º
  • 50-59 anos - 10.º
  • 25-49 anos - 9.º
  • 18-24 anos - 16.º
Como explicar melhores situações em escalões de menor risco, em detrimento dos escalões de maior risco? A prioridade à freguesia eleitoral dos funcionários públicos não deve ser estranha a este resultado.
 
E o que diz S. Ex.ª, o presidente dos melhores entre melhores? Diz que em Portugal a vacinação decorre com «a flexibilidade compatível» com a falta de vacinas. Flexibilidade? Sem dúvida, se por flexibilidade se entender variabilidade que vai de menos de dois milhares para mais de uma centena de milhar de doses diárias. Falta de vacinas? O stock de doses na UE é 18,5 milhões (132,9 distribuídas e 114,4 administradas e em Portugal só Deus sabe, mas acaba de ser anunciada a entrega de 1,2 milhões de doses da Pfizer.