Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
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Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
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18/09/2026

The far-right Haredi religious group is an internal threat to Israel, just as the Persian Shiites are an external threat

1) Israel’s success was built on education and high‑tech

  • After independence, Israel invested heavily in research universities and scientific talent.
  • This produced a world‑leading high‑tech sector, responsible for half of exports and extraordinary levels of R&D investment.
  • But only 20% of the workforce—those in high‑tech, medicine, and academia—generate 93% of income tax.

2) A deep productivity divide

  • High‑tech workers produce 22% above the OECD average.
  • The rest of the economy—where 90% of Israelis work—lags 24% below the OECD average.
  • Half the workforce is too poor to pay income tax.

3) The education crisis

  • Israel ranks near the bottom of the OECD in PISA math, science, and reading.
  • Half of Israeli children receive a core education below levels seen in many developing countries.
  • The fastest‑growing groups are the least educated, especially the Haredim.

4) The Haredi demographic surge

  • Haredi boys receive almost no secular education; from age 13 they study only Torah.
  • Fertility rate: ~7 children per woman, compared with ~2 in other groups.
  • Their share of the population doubles every 25 years.
  • In 2023, they were 6% of 50–54‑year‑olds but 26% of children under five.

5) Municipal collapse as a warning

  • Cities like Jerusalem and Arad show rapid socioeconomic decline as educated residents leave and Haredi populations expand.
  • Secular students in Jerusalem fell from one‑third to 9% over 35 years.

_________________

Source: "Israel’s neglected threat from within" by Dan Ben-David , president of the Shoresh Institution for Socioeconomic Research and emeritus professor of economics at Tel Aviv University.

11/06/2026

MAGA is a product of the decline of American democracy and an agent of its acceleration

«Belief in democracy as a core pillar of American identity is eroding, with only about two-thirds of U.S. adults now stating that a democratically elected government is highly important to the nation's identity, a sharp drop from 80% in 2021.

The poll reveals a widening generational divide over American exceptionalism, as 44% of adults under 30 say there are other countries better than the U.S., compared to just 22% of Americans aged 60 and older who feel the same way.

Skepticism surrounding the "American Dream" has become mainstream, with 51% of all respondents stating that the ideal—that hard work guarantees success—once held true but no longer does in the current economic landscape.

Deep partisan splits persist regarding the nation's global standing and values, as roughly half of Republicans view the U.S. as standing above all other countries compared to only 7% of Democrats, while 76% of Democrats see a mix of global cultures as essential to the U.S. compared to 40% of Republicans.

The data highlights a broader feeling of national unease, contrasting sharply with local and federal planning for the upcoming "America 250" celebrations commemorating the 250th anniversary of the United States' founding.»

(Groundnews)

19/04/2026

CASE STUDY: Democracias defeituosas (7) - O contributo do PS para a democracia em Portugal é quando deixa de governar

Outras democracias defeituosas.

O Portugal do governo PS, classificado como “flawed democracy” em 2023, melhorou em 2024 com o governo AD para “full democracy”, alcançando a 23ª posição. A pontuação de Portugal melhorou de 7,75 em 2023 para 8,08 em 2024 e voltou a subir para o 20.º lugar com 8,28 em 2025. 

Fonte

O governo do Dr. Montenegro é melhor a promover a democracia do que a reformar, talvez (um simples talvez) porque a maioria dos portugueses não gosta de reformas que cheiram a "sacrifícios" e, sobretudo, odeiam a incerteza, sendo que se há coisa em que os portugueses são notáveis é na aversão ao risco, talvez (um simples talvez) porque durante cinco séculos se deu uma espécie de anti-selecção, em que foram saíndo os afoitos e ficando os acomodados.


Já o governo do Dr. Trump faz o seu melhor para piorar a democracia e seu melhor para empatar guerras que não fazia ideia de qual o propósito com inimigos da terceira divisão, descendo mais uma vez para o 34.º lugar com 7,65 pontos.

12/04/2026

Pro memoria (147) - Se o Fidesz não vencer as eleições de hoje não será por Viktor Orbán não ter feito por isso

«As eleições de 2010 colocaram, na prática, Viktor Orbán acima da lei: passou a poder alterar a Constituição à vontade, o que fez 12 vezes durante o seu primeiro ano no cargo. Logo no início, eliminou a exigência de uma maioria de quatro quintos para rever a Lei Fundamental. Menos de um ano após o início do mandato, apresentou uma nova Constituição, com centenas de novas leis, muitas com impacto no sistema eleitoral. A Constituição de 2011 reduziu para metade o número de deputados, medida amplamente bem acolhida, uma vez que o anterior Parlamento, com 394 membros, era considerado dispendioso. No entanto, tal implicava redesenhar todas as circunscrições eleitorais do país, e a Constituição nada dizia sobre como esse processo deveria ser conduzido.

Em vez de elaborar o novo mapa de forma transparente, o Governo desenhou os círculos eleitorais à porta fechada. A resultante Lei CCIII/2011 passou a incluir os limites exatos de cada um, e foi aprovada rapidamente como “lei cardinal”, só podendo ser alterada mediante nova maioria parlamentar de dois terços. Os limites das circunscrições foram radicalmente redesenhados. Académicos como Kim Lane Scheppele, da Universidade de Princeton, têm argumentado que o Executivo de Orbán utilizou o redimensionamento eleitoral para concentrar áreas com tendência para a oposição em circunscrições maiores, ao mesmo tempo que dividia áreas favoráveis ao Fidesz em vários círculos, ou seja, vários deputados em potencial, reduzindo o número de mandatos desfavoráveis ao partido no poder.

Outra alteração instituiu o chamado “círculo de compensação do vencedor”, uma especificidade húngara. No sistema anterior a Orbán, os votos atribuídos aos candidatos derrotados nas circunscrições eram somados aos das listas partidárias, numa tentativa de equilibrar o número de votos obtidos por cada partido com a sua representação parlamentar. Por exemplo, se o candidato do Partido X obtivesse 400 votos num determinado círculo e o candidato do Partido Y obtivesse 200 votos, os votos “perdidos” — ou seja, os 200 dados ao candidato derrotado do Partido Y — seriam acrescentados à lista partidária do Partido Y, como forma de repor a proporcionalidade. Este mecanismo de “compensação dos perdedores” é comum em sistemas eleitorais mistos, nos quais os eleitores votam separadamente em candidatos e em partidos.

Orbán introduziu a chamada “compensação dos vencedores”. Neste modelo, qualquer voto que não seja estritamente necessário para eleger um candidato num círculo eleitoral é considerado “perdido”, mesmo que tenha sido atribuído ao vencedor. Utilizando o exemplo acima, com um resultado de 400 contra 200 votos, os 200 votos seriam transferidos para a lista do Partido Y, como anteriormente, mas também 199 votos seriam transferidos para a lista do Partido X, uma vez que o seu candidato apenas precisava de 201 para vencer, tendo obtido 199 sufrágios excedentários.»

26/06/2025

CASE STUDY: Democracias defeituosas (6) - Mais do que defeito, continua a ser feitio

Quando publiquei o post anterior (Democracias defeituosas (5) - Mais do que defeito, continua a ser feitio) não tinha ainda tido acesso ao relatório completo com informação específica sobre a democracia portuguesa.

Por exemplo, não tinha relevado que o Portugal do governo PS, classificado como “flawed democracy” em 2023, melhorou com o governo AD para “full democracy” e foi o terceiro país com maior upgrade do índice.


Melhoria que a The Economist Intelligence Unit descreveu assim:
«Portugal foi promovido a "democracia plena" no Índice de Democracia de 2024, subindo oito posições no ranking global, alcançando a 23ª posição. A pontuação de Portugal melhorou de 7,75 em 2023 para 8,08 em 2024, impulsionada por melhorias nas categorias de funcionamento do governo e cultura política. O país foi despromovido para uma "democracia falhada" em 2011 e recuperou o estatuto de "democracia plena" em 2019. No entanto, as limitações à liberdade individual resultantes da pandemia de covid-19 fizeram com que Portugal fosse novamente despromovido para uma "democracia falhada" em 2020. A pontuação do indicador que avalia o grau em que os cidadãos portugueses acreditam que a democracia é boa para a economia, com base nos dados do World Values ​​Survey (WVS), melhorou de 0,5 para 1 em 2024. Os dados da WVS sugerem que uma maior parte da população acredita agora que um sistema democrático forte é também benéfico para o desempenho económico.»


No final, não há grandes motivos para celebrações porque o Portugal dos Pequeninos ficou no penúltimo lugar das "democracias plenas" numa lista de 25 países liderada pela Noruega, seguida da Nova Zelândia`, ex aequo com a República Checa e apenas à frente da Grécia.

06/03/2025

CASE STUDY: Democracias defeituosas (5) - Mais do que defeito, continua a ser feitio

A semana passada a Economist publicou o EIU’s Democracy Index que mostra uma queda média de 5,23 para 5,17, confirmando o declínio da democracia onde apenas vivem 45% da população mundial, dividindo-se os restantes entre o regimes "híbridos" (15%) e os autoritários (39%). 

The Economist


A Noruega foi pelo 16.º ano considerada o país mais democrático com 9,81, seguido da Nova Zelândia e da Suécia. Os EUA, que vêm descendo desde 9,6 em 2006, ficaram pelos 7,8, valor que se mantém desde 2021. Quanto a Portugal aumentou o índice de 7,8 em 2023 para 8,1 em 2024, o segundo maior valor desde 2006, e subiu no ranking para 31º para 23º, mostrando que a democracia não teve saudades do socialismo e do Dr. Costa.

24/05/2024

O entendimento de Aguiar Branco tocou o nervo dos que entendem que liberdade de expressão é poder dizer o que eles acham que pode ser dito

Uma espécie de continuação desta ESTÓRIA E MORAL.

De quase todos os quadrantes políticos irromperam no mínimo protestos e no máximo exigências de demissão de Aguiar Branco em resposta ao seu entendimento sobre a liberdade de expressão dos deputados face ao desafio da socialista Dr.ª Alexandra Leitão, entendimento que ele expressou assim 

«A liberdade de expressão está constitucionalmente consagrada, não é uma liberdade sob ponderação do juízo de uma qualquer pessoa faça em relação àquilo que no discurso político é dito. Não haverá condicionamento na liberdade de expressão. A avaliação do discurso político que seja feito nessa casa será feito pelo povo em eleições se se revê nas suas posições.»

Das inúmeras reacções, escolho uma do "investigador" António Brito Guterres (ABG), com um título Quem nos defende de Aguiar-Branco?» que é todo um programa, onde conclui que «a luta contra o racismo não se resume a afrontar a bancada do Chega, mas que é algo muito mais lato, com cúmplices em todas as esferas políticas e instituições do país.» Aí está, Aguiar Branco é para ABG apenas o porta-voz de uma cabala dos cultores do rácismo que, para simplificar, são todos os que não se identificam com a geringonça alargada.

Como o comentador se declara «a favor da liberdade de expressão absoluta» devemos concluir que também é a favor da liberdade de expressão tout court mas apenas para exprimir o que ele achar que pode exprimir-se.

Pedro Gomes Sanches, um dos poucos comentadores que se desalinhou com estes entendimentos da liberdade de expressão, recordou uma decisão de 1969 do Supremo Tribunal americano no caso Brandenburg v. Ohio que estabelece o seguinte critério para os discursos de ódio, como hoje são chamados: 

«A state may not forbid speech advocating the use of force or unlawful conduct unless this advocacy is directed to inciting or producing imminent lawless action and is likely to incite or produce such action.»

É um bom critério, que depara com grandes obstáculos para ser aplicado, sobretudo num país onde «a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas», como em tempos concluiu António Alçada Baptista.

20/05/2024

ESTÓRIA E MORAL: Liberdade de expressão não é poder dizer o que acham que pode ser dito

 Estória

O Dr. Ventura e o Chega pretenderam criminalizar o Dr. Marcelo por traição à pátria por este ter expressado a sua opinião de que Portugal deveria reparar a prática de escravatura de que foram vítimas africanos dos territórios coloniais.

Todos os partidos representados no parlamento rejeitaram a queixa por traição à pátria apresentada pelo Chega. 

No mesmo parlamento, o Dr. Ventura disse que «os turcos não são conhecidos por serem os mais trabalhadores do mundo», expressão que indignou deputados dos partidos que se tinham indignado pela queixa-crime do Chega contra o Dr. Marcelo.

Os mesmos ou outros deputados também se indignaram pelo presidente da AR ter permitido a expressão de juízos, como aquele, que eles consideram racista. E um spin-off do PSR, um partido de que foi líder o Dr. Louçã, apressou-se a considerar que o presidente não tinha condições para se manter na presidência da AR, por ter consentido e afirmar que «A liberdade expressão está constitucionalmente consagrada, não é uma liberdade sob ponderação do juízo de uma qualquer pessoa faça em relação àquilo que no discurso político é dito. Não haverá condicionamento na liberdade de expressão. A avaliação do discurso político que seja feito nessa casa será feito pelo povo em eleições se se revê nas suas posições.»

Moral

Os deputados dos partidos representados na AR, com a excepção conhecida do Dr. Aguiar Branco, parecem estar de acordo que liberdade de expressão significa o direito de dizer o que eles acham que pode ser dito e, por isso, parecem não estar de acordo com George Orwell a quem possivelmente teriam proibido de dizer o que disse:

«Se liberdade significa alguma coisa, significa o direito de dizer às pessoas o que elas não querem ouvir.» 

16/02/2024

CASE STUDY: Democracias defeituosas (4) - Mais do que defeito, começa a ser feitio

É já um clássico a Economist Intelligence Unit (EIU) classificar o Portugal dos Pequeninos nas democracias com falhas (*), devido principalmente aos baixos índices de funcionamento do governo (desceu de 7,50 para 6,79), graças ao Dr. Costa, e da Participação Política (desceu de 6,88 para 6,67) e da Cultura Política (6,88), graças a nós.

Democracy Index 2023

O quadro seguinte mostra a tendência nos últimos cinco anos de deterioração do índice de democracia português no caminho para o socialismo.

(*) «Democracias com falhas (Flawed democracies): estes países também têm eleições livres e justas e, mesmo que existam problemas (como a violação da liberdade de imprensa), as liberdades civis básicas são respeitadas. Contudo, existem fraquezas significativas noutros aspectos da democracia, incluindo problemas de governação, cultura política subdesenvolvida e baixos níveis de participação política.»

24/10/2023

Mr. Orbán is a smart guy. He chooses the enemies that won't send tanks to take him down

Politico

Authoritarian regimes and flawed democracies need external enemies. Who the enemies are reveals as much about the nature of the regime as who the friends are.

21/06/2023

Numa democracia defeituosa o chefe escolhe os deputados. Numa democracia funcional os deputados escolhem o chefe (4)

Continuação de (1), (2) e (3)

O parlamento inglês aprovou ontem por 354 votos (entre os quais 118 dos 364 deputados conservadores) contra 7, com 225 abstenções, um relatório que concluiu ter Boris Johnson, o anterior primeiro-ministro e ex-líder dos conservadores, enganado intencionalmente os deputados acerca das festas em Downing Street durante o confinamento da covid.

A ex-primeira-ministra Theresa May, a líder da Câmara dos Comuns, Penny Mordaunt, e a ministra de Educação, Gillian Keegan, aprovaram as conclusões do relatório.

O deputado conservador Tobias Ellwood referiu-se à aprovação como «foi a consciência colectiva do Parlamento sendo julgado pelo povo britânico».

Alguém imagina um terço dos deputados socialistas a votarem um relatório que considera ter o seu primeiro-ministro mentido ao parlamento?

08/03/2023

SERVIÇO PÚBLICO: O integral-situacionismo visto por Sá Carneiro há 45 anos está de volta

Estado Novo / Novo Estado vistos por João Abel Manta

A semana passada o jornal Nascer do Sol citou um artigo com o título "Indiferença" de Francisco Sá Carneiro escrito a 3 de janeiro de 1978 para o Povo Livre mas nunca publicado. O texto tem uma actualidade à primeira vista surpreendente, mas na verdade expectável porque parafraseando o Grande Zarolho apesar de se terem mudado os tempos, permaneceram as vontades. Desse artigo extraio algumas passagens. 

«1. Nesta crise que se vai instalando tem sido gabada a serenidade e maturidade dos portugueses, a calma e o civismo com que aguardam o seu desfecho.
Ora a verdade é que a serenidade, o civismo e a calma são meras aparências que os políticos e alguma imprensa gostam de invocar como sinais e ornamentos da ‘jovem democracia portuguesa’.
O que na realidade há, perante a crise e tudo quanto a ela tem dado lugar, é uma enorme e profunda indiferença.
Indiferença que radica em crescente descrença e se liga ao conformismo tradicional dos portugueses.
Quanto mais os políticos e os responsáveis falam, menos as pessoas neles acreditam. E têm razão. Há anos que ouvimos as mesmas pessoas dizerem de modo mais ou menos solene e pomposo as mesmas coisas, sem que nada se modifique. Há quem, a intervalos. enumere as questões e faça afirmações perentórias de mudança. As coisas vão piorando, mas os discursos vão-se sucedendo, enquanto leis essenciais não são postas em vigor e outras não se aplicam; nada de fundamental se modifica.
(...)

04/02/2023

CASE STUDY: Democracias defeituosas (3) - A tradição ainda é o que tem sido

Uma vez mais, a Economist Intelligence Unit (EIU) classifica o Portugal dos Pequeninos nas democracias defeituosas, devido principalmente aos baixos índices de funcionamento do governo (7,50), graças ao Dr. Costa, de participação política (6,67) e de Cultura Política (6,88), graças a nós.
Democracy Index 2022, EIU

Em termos de ranking global continuamos no 28.º lugar e na Europa Ocidental ocupamos o 16.º posto onde o nosso índice total (7,95) está claramente abaixo da média da região (8,36), devido sobretudo ao baixo índice de Cultura Política (6,88 contra 8,10).

07/12/2022

Dúvidas (347) – Ainda falta muito para termos benzina? (II)



«Este governo não há de cair - porque não é um edifício. Tem de sair com benzina - porque é uma nódoa!»
Eça de Queirós, O Conde d'Abranhos / A Catástrofe



Expresso

19/11/2022

Encalhados numa ruga do contínuo espaço-tempo (100) - Os portugueses não apreciam a liberdade. Em consequência, a maioria detesta o capitalismo

Não por acaso, o pensamento desde há muito em curso aqui no (Im)pertinências de António Alçada Baptista reza assim:  

«Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» 

Ora sendo os mercados e o capitalismo essencialmente a democracia liberal e as suas instituições a funcionarem na economia, é certamente natural que a falta de gosto dos portugueses pelas liberdades - visível pelas quase cinco décadas do Estado Novo, pela sobrevivência de um dos apenas seis partidos comunistas europeus com representação parlamentar, pelo peso dos partidos hostis à democracia liberal (maioritários se incluirmos os que apenas a toleram) - se traduza em desapego, na melhor hipótese, ou rejeição do capitalismo, na hipótese mais frequente.

Por isso, não deveriam surpreender os resultados dos inquéritos de opinião que Rainer Zitelmann incluiu no seu livro «Em Defesa do Capitalismo», recentemente publicado em português pela Aletheia, resultados que em relação a Portugal foram citados no artigo do Observador «O que pensam as pessoas em Portugal a respeito do Capitalismo?»

Esses resultados dão-nos um retrato à la minute do anticapitalismo dominante no Portugal dos Pequeninos, onde ressaltam os seguintes traços:

  • 40% entendem que deve ser o Estado a fixar preços e salários 
  • 79% associam ao capitalismo ganância e 75% corrupção
  • As apreciações positivas sobre o capitalismo são partilhadas por uma pequena maioria entre 10% e 20%.
Um optimista tenderá a concluir que a ideia negativa do capitalismo dominante na sociedade portuguesa resulta de os portugueses só terem experimentado até agora um capitalismo paternalista, subalterno e periférico com aversão à concorrência e ainda contaminado pelo corporativismo. É possível, mas conhecendo-se a história portuguesa dos últimos séculos fará pouco sentido apostar todas as fichas nisso.

04/11/2022

Dúvidas (345) – Ainda falta muito para termos benzina?



«Este governo não há de cair - porque não é um edifício. Tem de sair com benzina - porque é uma nódoa!»
Eça de Queirós, O Conde d'Abranhos / A Catástrofe



«Em Caminha, um empreendedor chamado Ricardo Moutinho convenceu há dois anos o presidente da câmara, Miguel Alves, a avançar para a construção de um Centro de Exposições Transfronteiriço (CET), da seguinte forma: a empresa de Moutinho (a Green Endogenous) construía o centro, a câmara ficava a pagar 25 mil euros por mês durante 25 anos (total: 7,5 milhões), e à cabeça avançava logo com 300 mil euros, correspondentes à renda do último ano de contrato.

Problema: Miguel Alves garantiu publicamente que a empresa promotora do CET era de confiança, já que tinha “experiência na construção e exploração de equipamentos semelhantes". Só que não tinha: a Green Endogenous foi formada oito meses antes do negócio com a câmara e tem como único accionista o próprio Ricardo Moutinho, com um longo historial na criação de empresas inactivas, e que ainda por cima foi apresentado na vila com um currículo falso. A construção do CET ainda não arrancou e ninguém sabe se arrancará.

Explicações para isto? Zero. E como é possível? Graças a uma cultura de irresponsabilidade política, que se agrava de ano para ano. Só mesmo numa república das bananas é que um secretário de Estado pode ser confrontado com suspeitas deste calibre e uma semana depois continuar escondido e caladinho, com o país indiferente ou conformado
.»

O respeitinho é muito bonito, João Miguel Tavares no Público

28/08/2022

CASE STUDY: Chuva na eira e sol no nabal na América Latina

Os inimigos da liberdade não apreciam a democracia liberal e entre outros defeitos apontam-lhe o de criar desigualdades, por exemplo na distribuição dos rendimentos. Não é certo que as crie, porque sendo os homens desiguais nos talentos, a desigualdade na distribuição dos rendimentos é apenas uma das consequências inevitáveis. Contudo, os inimigos da liberdade parecem ter razão porque as democracias liberais ao não conseguirem assegurar a igualdade de oportunidades, tendem a acentuar essas desigualdades e, ao fazê-lo, alienam os mais pobres e colocam a sua sustentabilidade em risco como a história mostra e como, de novo, parece estar a acontecer.

Voltarei mais tarde a este tema, mas, por agora, pretendo apenas responder à questão: sendo certo que a democracia liberal tende a acentuar as desigualdades de rendimento, as democracias iliberais que apenas retêm as formalidades das democracias liberais, na melhor hipótese, ou, na pior, os regimes não democráticos, reduzem essas desigualdades?

Inequality in Latin America is fuelling a new wave of populism

A resposta parece ser não, pelo menos no caso da América Latina onde, com poucas excepções, os regimes da maioria dos Estados têm sido democracias imperfeitas, para ser benigno, alternando com ditaduras militares, com golpes de estado pelo meio, e, no entanto, ou talvez por causa disso, a desigualdade não só é maior do que a média mundial e nos EUA, como os sistemas fiscais mostram-se menos eficazes para a atenuar.

07/07/2022

Numa democracia defeituosa o chefe escolhe os deputados. Numa democracia funcional os deputados escolhem o chefe (3)

Continuação de (1) e (2)

Numa democracia avariada o Dr. Costa afasta os candidatos a deputados em quem não confia e escolhe os candidatos amigos.

Numa democracia funcional, o líder do partido e primeiro-ministro é escolhido pelos deputados eleitos.

«So it’s over: Boris Johnson has resigned after his new cabinet appointments turned against him. For a brief, mad moment he thought he’d press ahead anyway – but with 35 ministerial vacancies to fill he had to accept that, this time, there was no victory to be snatched from the jaws of defeat.» (Spectator)