Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

28/02/2006

CASE STUDY: fé limitada nos mercados

O governo espanhol, como todos os governos socialistas, professa uma fé limitada nos mercados. Tão minguada é essa fé que o governo espanhol a gasta toda fora de portas.

Para só citar os casos recentes mais mediáticos, os «corporate conquistadors» espanhóis tomaram ou estão a tentar tomar várias praças fortes inimigas, como por exemplo:
  • Cesky Telecom, operador incumbente checo, comprado pela Telefónica
  • O2, o segundo maior operador telemóvel britânico, comprado pela Telefónica
  • Abbey, um dos maiores bancos britânicos, comprado pelo Santander
  • Sovereign, uma instituição financeira americana, de que o Santander comprou 20%
  • Gecina, uma grande empresa imobiliária francesa, comprada pelo Metrovasa
  • BAA, o operador do aeroporto de Heathrow, a quem a Ferrovial propôs a compra.
Não há notícia que o governo espanhol tenha ficado preocupado com o funcionamento desses outros mercados.

Há notícia que o «governo espanhol aprovou medidas para tentar impedir a oferta de aquisição no valor de 29,1 mil milhões de euros lançada pela E.ON sobre a Endesa, uma oferta que poderá criar a maior «utility» do mundo, com mais de 50 milhões de clientes.» (JN)

Se o governo espanhol convencesse os governos dos outros países a não criar obstáculos para as empresas espanholas continuarem a opar empresas europeias, isso seria um jogada genial. Infelizmente para todos os europeus, a coisa não funciona assim e, mais do que mostrar a grande falta de vergonha do governo do Bambi, a jogada Endesa vai servir para alimentar a onda proteccionista da qual resultará um jogo de soma nula.

E a onda vem a caminho cavalgada pelo primeiro-ministro francês Dominique de Villepin, não por acaso um grande admirador (e biógrafo) de Napoleão Bonaparte.

27/02/2006

BLOGARIDADES: faz hoje um ano

Faz hoje um ano, surgiu O Insurgente, um «Só se não puder» desde os primeiros vagidos. Continuem rapazes. Nunca se arrependam do bem que fazem.

SERVIÇO PÚBLICO: ascensão e queda

«Temos de perceber que vivemos num mundo perigoso e hostil, não só pelas questões islâmicas. O conforto e a comodidade conquistados no pós-guerra estão a acabar. Noutros locais há muita gente desesperada e com fome, mas têm coragem. No Ocidente não existe nem fome, nem fé, nem desespero, nem audácia. E os nossos ministros, que nada sabem de História, não têm noção de que a Humanidade já passou por momentos semelhantes, como na época de Constantinopla ou de Roma. Os impérios têm os seus momentos de expansão, de auge e de queda. O Ocidente está em decadência. Isso é evidente. Mas é bom que assim seja para nos estimular e permitir a renovação
Arturo Pérez-Reverte, jornalista e ex-repórter de guerra, numa entrevista a O Independente

26/02/2006

ARTIGO DEFUNTO: não foi preso por ter cão e foi medalhado por não o ter

Nas páginas 2 e 3 do caderno principal, sob o título «A marca de Sócrates», o Expresso põe em destaque as suas «marcas»:

  • Aumento da taxa de desemprego de 6,7% para 7,7%
  • Aumento do défice público de 3,0% para 6,0%
  • Aumento das taxas de juro de 2,1% para 2,2%
  • Redução do crescimento de 1,2% para 0,5%
  • Redução da inflação de 2,4% para 2,3%
O Impertinências acha que estas performances devem-se apenas um pouco mais ao governo do que a quantidade de precipitação no 4.º trimestre do ano passado. O Expresso costuma achar diferentemente, não percebendo que «a economia depende dos dez milhões de portugueses e não dos duzentos palhaços que vão à televisão falar de economia».

E costumando o Expresso achar diferentemente, custa a perceber que no caderno de Economia, o inefável manteigueiro doutor Nicolau Santos faça um panegírico do governo com um título que tresanda («UM GRANDE PRIMEIRO-MINISTRO»), debaixo duma foto do próprio que ocupa 1/4 de página. No curto texto o manteigueiro atinge uma densidade dificilmente igualável de lisonja que torna extensiva aos ministros António Costa, Freitas do Amaral, Mariano Gago e (até) Alberto Costa. Das realizações de tão emérito governo, o inefável cita concretamente apenas a introdução do ensino do inglês no 3.º e 4.º anos.

Esquece as mais importantes realizações do governo: o aumento dos impostos e o aumento dos efectivos da função pública. São estes os resultados da acção do governo e não o comportamento das variáveis macro-económicas, meia dúzia de meses depois da tomada de posse. O resto é estilo e gestão da boa imprensa.

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: estranhas formas de vida

Secção Rilhafoles
Passa-se algo na Bloguilha que me escapa. Há um não sei quê nos posts, daqui e dali. É um desporto esquisito. Um chuta bolas para o ar, como o decálogo de seis, de nove ou de um. Outros não acertam na bola e vão às canelas do adversário, não uma, nem duas, várias vezes.

Três chateaubriands para o Abrupto, pelos balões, outros tantos para o Grande Loja, pelos chutos na relva, com mais um ignóbil pela entrada de carrinho nas canelas do Abrupto sem bola.

Continuem assim e são internados em Rilhafoles, diria a mãe do Impertinente se ainda por aqui andasse.

24/02/2006

GLOSSÁRIO IMPERTINENTE: Secção de Rilhafoles

Quando o Impertinente era infante e se excedia nas impertinências, a mãe ralhava-lhe, como era costume as mães ralharem aos filhos naquela remota época. Se as impertinências, uma vez ou outra, roçavam o temerário ou a absoluta falta de senso, a mãe culminava a longa sequência de admoestações com o dedo em riste e a apavorante ameaça: continua assim e interno-te em Rilhafoles!

Só bastante mais tarde é que o Impertinente veio a saber que Rilhafoles era esse - o antigo convento perto do Campo dos Mártires da Pátria, sede do Real Colégio Militar durante alguns anos e, a partir de meados do século XIX, manicómio que albergava doidos de todo o país, alguns deles com impulsão suicida avant la lettre.

Na Secção de Rilhafoles da Avaliação Contínua se trata das criaturas que a mãe do Impertinências poderia, por boas ou más razões, ameaçar punir as suas sandices com o dedo em riste: continua assim e interno-te em Rilhafoles!

22/02/2006

CASE STUDY: há falar e falar, há ir e ficar

Em 2005 a economia espanhola cresceu 3,4% e criou 548 mil novos postos de trabalho. (Jornal de Negócios). Dito de outra maneira, o ano passado a Espanha poderia ter empregado todos os nossos desempregados e ainda a 2/3 dos nossos «inactivos disponíveis» e subempregados (Diário de Notícias)

«Falando na Conferência do Diário Económico sobre Inovação e Competitividade nas Empresas, Augusto Mateus sublinhou que Portugal vai chegar ao fim do terceiro Quadro Comunitário de Apoio (QCA) pior do que estava no princípio, porque fez pior do que os seus parceiros europeus.
Para o antigo ministro, se esquecermos que a economia global está baseada no mercado, não vale a pena apostar na economia do conhecimento.
Augusto Mateus defendeu que Portugal precisa de se especializar na base daquilo que sabe fazer, encontrar novos modelos de negócio e a partir daí entrar em actividades que geram maior valor, sublinhando que o futuro está na capacidade de criar riqueza, seja na agricultura, na indústria ou nos serviços.
» (Diário Económico)

Falando sobre a fala do professor Augusto Mateus, e trocando por miúdos o pensamento algo galáctico do professor, o leitor senhor Ramon Catalan fez-nos o favor de comentar assim a notícia do DE:

«Estrategia a Corto / Medio Plazo para un Pais del Sur de Europa como Portugal:
1.-Tiene que desarrollar los recurso que no tienen riesgo de "deslocalización": Agricultura, Pescas,
Turismo, Recursos Humanos y los Derivados de estos.
2.-Proyectos de regadio como como Alqueva, tienen una prioridad máxima! Mas que un TGV, que nadie esta a la espera para viajar mejor.
3.-Pienso que el desarrollo de la Pesca y los derivados del mar pasan por "joint-Ventures" com entidades estranjeras para conseguir el "Know-How" y que este sea transferido de forma estable y permanente.
4.-Hay que incentivar y motivar mas a los empresarios portugueses para que asuman el desarrollo de instalaciones para el Turismo de "Alta Competitividad".
5.- Si estos 3 sectores, "no deslocalizables", funciona a un buen ritmo de competitividad internacional, Portugal tiene asegurado un 45% de su PIB (GDP) Potencial y alcanzaria la media europea en 7 años.
Un cordial saludo RC
»

Gracias. Saludo también para usted.

O Impertinente

Post scriptum:
Confirma-se que tive uma recidiva e continuo a consumir.

21/02/2006

DIÁRIO DE BORDO: qualquer coisa terá que mudar para que tudo fique na mesma

Podia estar a pensar no Portugal dos pequeninos. Mas estou a pensar no Luchino Visconti e no seu magnífico «Il gattopardo», que pode ainda ser (re)visto no Nimas. Os filmes magníficos são como os bons vinhos - só ganham com a idade e este aquece-me as tripas como há 43 anos.

A «terribile insularità d'animo» e o «cambiare per non cambiare» da Sicília do Risorgimento nos anos 60 do século XIX, vista pelos olhos dum Lampedusa um século depois, evocam-me os portugais do Portugal.

São precisos pelo menos 3 aristocratas para fazer um filme como este: Lampedusa, Visconti e Lancaster, que acabou por fazer um princípe de Salina melhor (acho eu) do que teria sido feito por Sir Laurence Olivier, como queria Visconti. Hoje já não se fazem (não se podem fazer) filmes assim.

20/02/2006

TRIVIALIDADES: só mais uma passa

Procurando umas pepitas sobre o risk mapping, encontro uma trivial referência a um estudo de Cohen & Lee de 1979, que estima as seguintes reduções da esperança de vida:

  • being 30% overweight ........... 3.5 years
  • over 20 cigarettes per day ..... 7 years
  • being unmarried................. 9.5 years
Segundo Cohen & Lee, posso viver até mais 21 anos do que um marmanjo solteiro, obeso, grande fumador. Ou mais 40 ou 50 do que um triste gay.

Segundo Cohen & Lee, posso perfeitamente dar mais uma passa e viver até aos noventas.

DIÁRIO DE BORDO: os rumores sobre a minha cura têm sido grandemente exagerados

Continuo a tentar. Está mais difícil do que deixar de fumar.

19/02/2006

DIÁRIO DE BORDO: addicted to blogging

Está a ser duro. Tenho recaídas. Comecei a frequentar as sessões dos Bloguenautas Anónimos, onde encontro algum conforto. Cada dia é um dia.

Carpe diem.

16/02/2006

DIÁRIO DE BORDO: o mundo é composto de mudança

Eu hoje acordei assim (copy, right? right). Com vontade de mudar.

Ou mudo de mulher (onde é que arranjava outra assim?), ou mudo de país (agora não tenho tempo), ou mudo de profissão (é tarde), ou mudo de clientes (é cedo), ou mudo de casa (agora não, que o mercado imobiliário está pela hora da morte), ou mudo de carro (é cedo).

Ou fecho o estabelecimento. Fica assim.

TRIVIALIDADES: OTAs - objectos de tecnologia alta - a mola de roupa (1)

Possivelmente é um dos objectos cujo upgrade deveria fazer parte, por direito próprio, do Plano Tecnológico.

Quantas horas perdidas a apanhar roupa do chão, quantos quilovátios e detergente gastos a lavá-la uma vez mais, quanto estresse a remontar aquelas traiçoeiras três peças? Já alguém avaliou os ganhos de performance com a substituição do plástico manhoso por kevlar e do arame baratucho por uma mola high-tech de titânio? E que dizer dum chip com RFDI capaz de assinalar o sutiã que atingiu o grau de humidade ideal para ser engomado?

Porquê importar aquelas merdosas e pedantes molas francesas (Élephant «Menagez-vous!»)?

15/02/2006

DIÁRIO DE BORDO: descobri o que é um metrossexual

Um metrossexual é um jeitoso que já está a besuntar-se com cremes no pescoço quando o Impertinências passa por ele no balneário em direcção à piscina e na volta, depois de 50 piscinas a contornar esforçadamente os nacionais-faixistas natatórios que por ali bóiam ao acaso, o querido está a untar com óleos a bundinha empinada, enquanto se contempla ao espelho com ar de princesa, como quem pergunta: meu deus porque me fizeste tão belo?

TRIVIALIDADES: dúvida dilacerante

Alguém pode explicar como é possível a doutora Fátima Felgueiras, de Felgueiras, ter estado a receber uma pensão mensal de 3.449 euros de reforma como professora na Escola Secundária de Felgueiras durante cerca de dez anos?

CASE STUDY: aritmética da cremação

O embaixador do Irão teve uma palavra de apreço pela redacção sobre as blasfémias dinamarquesas, executada no papel timbrado do MNE, da autoria do colega professor Freitas do Amaral. Ao mesmo tempo, evidenciando o seu domínio da tabuada, o senhor embaixador fez uma demonstração aritmética da falácia do Holocausto que, segundo os seus cálculos, teria precisado de 15 anos para incinerar 6 milhões de judeus e não apenas dos 4 ou 5 que, dizem, os aliados concederam aos nazis.

Algumas criaturas mal intencionadas (se eu fosse o embaixador requisitava uma fatwa contra esses sujos infiéis) puseram em causa a numeracia do diplomata iraniano, porque, segundo eles, as suas contas estariam furadas. Talvez sim, ou talvez não. Esquecem os detractores que toda a verdade é relativa e, na circunstância, toda a aritmética também o será. O embaixador fez as suas contas provavelmente seguindo a estimativa do tempo necessário para incinerar os judeus de Israel (que, não por acaso, igualam em número os alegadamente incinerados no Holocausto), baseada, naturalmente, na produtividade média de um operário iraniano dos fornos. Ora, um crente sujeito às exigências de culto do Islão terá, compreensivelmente, uma produtividade inferior à dos seus homólogos infiéis.

QED.
(ver aqui a estória citada pelo Abrupto)

14/02/2006

BREQUINGUE NIUZ: o governo é quem mais ordena

«Governo ordena às empresas que baixem retenção na fonte do IRS» (Público, Diário Económico).

(Porque não ordena o governo aos funcionários públicos que se demitam maciçamente e às empresas que exportem mais?)

BREIQUINGUE NIUZ: lataria esgotada em Belém

Correm rumores que o professor Cavaco já exprimiu ao doutor Sampaio as suas preocupações por este último ter deixado esgotar em Belém o estoque de medalhas. A última foi gasta ontem.

Mais grave do que esgotar a lataria, terá confidenciado o presidente em trânsito, é ter esgotado os candidatos fora da Caras, condenando o novo presidente a lutar contra a falta de espaço nos já atravancados peitos dos medalháveis.

BREIQUINGUE NIUZ: para que não haja dúvidas

«A administração da Portugal Telecom, que considerou insuficiente o preço oferecido na OPA da Sonae, já tem um intervalo provisório para aquilo que irá anunciar como "valor justo" da empresa: entre os 11 euros e os 12 euros por acção».(Jornal de Negócios)

Confirma-se, assim, contra todas as expectativas que um nó double-windsor cuidadosamente ataviado poderia criar nas nossas mentes, a franqueza do doutor Horta e Costa e restante administração da PT, admitindo os danos que a sua permanência à frente da PT tem causado ao valor que o mercado atribui à empresa.

SERVIÇO PÚBLICO: o multiculturalismo transporta-nos para o século IIX (*)

«If we give in to these 8th-century clerics, shortly we will be living in an 8th century ourselves, where we may say, hear, and do nothing that might offend a fundamentalist Muslim — and, to assuage our treachery to freedom and liberalism, we'll always be equipped with the new rationale of multiculturalism and cultural equivalence which so poorly cloaks our abject fear.»
(Victor Davis Hanson, via Causa liberal)
(*) Esclarecimento desnecessário (tornado necessário por um email dum detractor habitual)
O século IIX é diferente do século VIII. Chega-se ao século VIII avançando 3 séculos para a frente do século V. Fica-se ao século IIX recuando 2 séculos para trás do século X.

BLOGARIDADES: soterrado, ressuscitou ao chamamento das blasfémias

Foi um período difícil, em que o apoio à candidatura do doutor Soares quase soterrou, debaixo de toneladas de confusas elucubrações, a inteligência da esquerda inteligente.

Mas o melhor de A Praia acabou por emergir a propósito da guerra das caricaturas blasfemas.

Esquerda inteligente
Há quem defenda que existe uma contradição nos termos esquerda e inteligente. Mas são fanáticos de direita a quem não devemos emprestar os ouvidos.
Definir esquerda é complicado, mas é possível formular a coisa duma forma simples. Para mim, esquerda é o credo que sacrifica a liberdade em nome da igualdade, na dúvida (esquerda «democrática») ou sempre (a «outra» esquerda). Dependendo do tamanho da certeza ou da dúvida, podemos aqui meter toda a gente de esquerda – desde o doutor José Estaline, que nunca tinha dúvidas e raramente se enganava, até ao engenheiro Guterres, que só tinha dúvidas e estava sempre a enganar-se.
Definir inteligente é estupidamente difícil. Para simplificar, inteligente é aquilo que consigo suportar sem agonia – é um bocado subjectivo, mas o blogue é meu.
(Glossário das Impertinências)

13/02/2006

SERVIÇO PÚBLICO: quem dá o mais, dá o menos

A Comissão de Trabalhadores da PT defende a manutenção da 'golden share' do Governo, porque «só com a garantia de que o Governo pode "supervisionar e intervir, através de prerrogativas especiais", é possível "contrariar decisões que não defendam os interesses de Portugal, a empresa, os clientes, o emprego e os trabalhadores".»

Não se percebe porque não defende a CT a renacionalização, rebobinando a PT até um dos estados anteriores (TLP, CTT/TLP), em que era necessário ter uma cunha no mastodonte para conseguir um telefone. Conhece a CT da PT melhor maneira de defender «os interesses de Portugal, a empresa, os clientes, o emprego e os trabalhadores»?

12/02/2006

SERVIÇO PÚBLICO: "Lambendo a bota que lhe dá pontapés..."






Chirac, o Freitas deles
(via ¡No Pasarán!)

DIÁRIO DE BORDO: Joana

Não a conhecia. Durante mais de dois anos, li no Semiramis, avidamente, quase todos os dias, posts inteligentes, acutilantes, informados, bem escritos, revelando uma sólida cultura. Estranhamente, não havia posts desde o dia 2.

Leio aqui (via jcd) que não haverá mais posts da Joana. Vai fazer-me imensa falta.

SERVIÇO PÚBLICO: uma ficção das nossas cabecinhas?

«No entanto, tenho ouvido muitos comentários de Portugal sobre o MIT e tenho ouvido grandes questiúnculas entre responsáveis pelo plano, ministros e inclusive primeiro-ministro. Ao contrário, procurando em todas as referências e contactos a que tenho acesso no MIT, ninguém ouviu falar do projecto MIT Portugal. O que pode ser sinal de duas coisas: 1) Eles tratam isto de uma forma muito mais profissional que nós (o que não é, seguramente, novidade); ou 2) Eles não estão sequer a tratar do assunto MIT Portugal, pelo que a coisa não é mais que uma ficção das nossas cabecinhas.» («MIT Portugal», José Crespo de Carvalho, professor do ISCTE, Semanário Económico)
Será mais uma release do Matrix reloaded pelo doutor Pinho numa co-produção com o doutor Gago? Uma ficção mortal que reivindica, até agora, 3 coordenadores do Plano Tecnológico.

BREQUINGUE NIUZ: reminiscências da catequese

Andando o Impertinências uns dias fora, fazendo pela vidinha, logo o professor doutor Freitas do Amaral resolveu aproveitar o papel do ministério dos negócios estranhos para dar a conhecer aos ignaros as doutrinas que aprendeu na catequese quando criança (teria ele sido criança ou nasceu aos 19 anos numa aula de direito administrativo?).

Já um pouco entaramelado pela idade, que não perdoa, nem mesmo ao inefável, esqueceu-se de referir um pormenor que, para outras criaturas, teria sido o leit motiv do seu comunicado em papel do ministério - uns incêndios, umas maninfestações, uns cartazes ameaçadores, umas mortes.

Este seu comunicado é só mais um episódio a juntar ao seu rico currículo, que o Impertinências tem acompanhado com distraída displicência, como nesta, nesta ou nesta retrospectiva.

Ainda antes de visitar a pitonisa, o Impertinência já tinha aqui avisado que «tal como no passado traiu o doutor Soares, ..., o professor Freitas irá trair no futuro o engenheiro Sócrates... Está na sua natureza.» Só precisais de ter um pouco de paciência.

11/02/2006

BREQUINGUE NIUZ: A OPA e o nó double-windsor

A OPA da Sonae é a um preço 20% superior à última cotação da PT na Euronext antes do anúncio. Esta cotação traduz o valor que o mercado atribui à PT nesse momento.

Com uma franqueza invulgar, e inesperada num sujeito que gasta uma hora por dia a compor o seu double-windsor e a coordená-lo com o lencinho no bolsinho do jaquetão, o CEO da PT confessou a «profunda convicção de que o valor actual e futuro da PT é muito superior», admitindo assim a sua incompetência para mostrar ao mercado o que seria o verdadeiro (segundo ele) valor da PT, e colocando-se, assim, a jeito para ser vassourado.

CEO com double-windsor pré-OPA

10/02/2006

DIÁRIO DE BORDO: ponto de partida

«Match point», o último Woody Allen, é talvez o seu melhor nos últimos anos, depois duma série de filmes pouco inspirados. Um humor mais cruel, menos óbvio. Um tema moral: eu sou eu e a circunstância, ou sou só a circunstância?

Woody Allen chegou a ridicularizar os críticos e os públicos pernósticos europeus, em 2002, em «Hollywood Ending», um filme absurdo (isto é, o filme dentro do filme) que acaba por ser um sucesso da crítica e do público europeus, os quais, no filme, acham très avant garde a completa falta de senso do filme dirigido pelo cego psicossomático, dentro do filme dirigido pelo iconoclasta.

Depois, finalmente reconheceu que, se são os europeus que apreciam os seus filmes (imagino que a maioria dos seus poucos espectadores americanos viva em Manhattan ou em Greenwich Village), então o melhor é rodá-los na Europa, com actores europeus, com produção europeia e temas atractivos para o público diletante que constitui a maioria dos seus fãs.

Jonathan Rhys-Meyers tem uma interpretação soberba de contenção que vale, só por si, os 5 euros do bilhete. Scarlett Johansson? Ah, claro, Scarlett. Apesar não se estar especialmente bonita, um seu bater de pestanas, um seu sorriso diagonal, um seu movimento ondulatório de anca, provoca um sismo no outro lado do planeta (ou no mesmo lado, dependendo donde ficar a sala).

09/02/2006

DIÁRIO DE BORDO: ide lá no dia 11, caramba!

Já que tive (e tenho) que pagar para o Centro Cóltural de Belém, é justo que também tenha que pagar para a pirâmide musical da avenida da Boavista.

Afinal, um e outra, têm muito de comum. Ambos são bons exemplo do que os adoradores do estado napoleónico-estalinista não chamam, mas deveriam chamar, o multiplicador do investimento - a gente aprova o orçamento da coisa por x e, no final, a coisa custa n vezes x.

Ide lá, pois, dar algum valor ao dinheiro que me custa a pirâmide e ouvir no dia 11 aquele rapaz talentoso de que já aqui falei. Enquanto não houver o TGV até às Devezas, delego em vós. Para açular o vosso apetite, ó cambada, tomem um cheirinho de «Day is done».

07/02/2006

CASE STUDY: preso por ter cão, preso por não ter

Há sempre quem critique os governos por tudo e por nada. Ora porque não investem, ora porque investem demais. Ora porque contribuem para o clima depressivo, só falando em sacrifícios, ora porque estimulam a «exuberância irracional» e levam o povo a correr atrás do écran de plasma para ver os alienantes derbies ou os canais pornográficos - o que é quase a mesma coisa.

A todos esses, o governo do engenheiro Sócrates cortou-lhes o pio. Porquê? Qual foi o governo, desde dona Maria II, que anunciou mais projectos do que este? Nenhum, nem de perto, nem de longe, ousou em menos de um ano anunciar TGV's, aeroportos, planos tecnológicos, refinarias, culminando com o anúncio de mais uma manada deles, na semana anterior às eleições.

O ímpeto continuou a semana passada com mais anúncios de dúzias de parcerias com a Microsoft, e um must - o programa Finicia.

Podemos criticar o governo por torrar a grana em projectos discutíveis? Não podemos. Até hoje o governo só gastou uns trocos com consultores para mostrar as coisas com aspecto decente. Corremos o risco do governo gastar o dinheiro do aumento dos impostos nesses projectos? Dificilmente. A grana já está a ser torrada na redução do desemprego.

Podemos criticar o governo por propagar o pessimismo? Não podemos. É difícil dar mais boas notícias em menos tempo. É impossível contribuir mais intensamente para a recuperação da confiança e da auto-estima dos portugueses, apesar da venda de veículos ainda não o evidenciar.

É certo que é sempre possível um mal intencionado invocar que o programa Finicia de financiamento a micro-empresas poderá torrar 114 milhões de euros em 1.300 novas iniciativas empresariais, nascidas do alfobre de inovação que são as nossas garagens. Poderá mesmo? Dificilmente.

Primeiro, porque as nossas garagens já estão ocupadas com carros (classe A) ou com a tralha que não temos coragem de deitar fora (classe B) - as restantes classes não têm garagem. Segundo, porque o governo tomou a precaução de entregar aos reitores a avaliação dos projectos e a sua aceitação. Ora estes, começam por estar mais longe do «empreendedorismo» do que o diabo da cruz, e, por via das dúvidas, pela boca do Conselho de Reitores, já tiveram o cuidado de esclarecer que não sabiam de nada, o que é meio caminho andado para se gastaram só umas dezenas de milhões a montar as «estruturas» e ficar por aí. Entretanto, o ministro Pinho é remodelado e azera-se outra vez o conta-quilómetros.

Em estado de desespero (passe a redundância), se levarmos à letra o ministro Costa, o estado descarta tudo e fica-se pelas "funções de segurança, as reguladoras e que asseguram a igualdade de oportunidades e a protecção social". Mas só depois dos portugueses recuperarem a auto-estima.

06/02/2006

SERVIÇO PÚBLICO: como disse?

«O Estado vai deixar serviços na área económica, ficando com "as funções de segurança, as reguladoras e que asseguram a igualdade de oportunidades e a protecção social", refere António Costa em entrevista ao Jornal de Negócios.»

«Ainda viro socialista!», comentou o leitor Muffin. Not so fast. Espere para ver quais os serviços na área económica que o estado napoleónico-estalinista vai deixar.

DIÁRIO DE BORDO: o censurável e o intolerável

É moralmente censurável ridicularizar a religião ou outra crença de outrem. Não há a menor dúvida. Representar Maomé com uma bomba no turbante é quase tão ofensivo como representar o Papa com um preservativo no nariz, como o cartunista António um dia fez no Expresso. Sendo neutro em matéria religiosa, devo reconhecer que a segunda caricatura é gratuitamente ofensiva, pelo preservativo, pelo nariz, e pelo Papa, enquanto que a primeira é um pouco mais realista, porque as partes mais ruidosas das sociedades islâmicas defendem e praticam o terrorismo como forma legítima de luta.

É ainda mais inquestionável que as democracias não podem tolerar a intolerância e fraquejar na defesa do direito de expressar juízos que são moralmente censuráveis.

Os cartunes em causa parecem ter sido destinados a ilustrar um livro onde se refere que Maomé teria praticado a pedofilia. Não sei se isso é historicamente demonstrável, mas já aqui fiz referência a uma peça que The Economist publicou a este respeito, há exactamente 3 anos, e que vale a pena ler.

(via ¡No Pasarán!)

05/02/2006

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Mozart e a tabuada

Secção Still crazy after all these years
Confesso, por uma vez, que um dos meus inconfessáveis vícios com mulheres é ler a «Crónica Feminina» de Inês Pedrosa e a «Pluma Caprichosa» de Clara Ferreira Alves, no Expresso. Nos tempos difíceis que correm, são das poucas, além da patroa, que quase nunca me desiludem. Só por vergonha não descrevo compulsiva e frequentemente no Impertinências o deleite que me proporcionam essas leituras.

Desta vez, Inês Pedrosa fala-nos de Mozart e da sua música. Lamenta os tempos em que «os artistas eram, de facto, animais domésticos dos grandes senhores - animais bem escovados e cheios de laçarotes» e ainda não vagueavam pelas artérias públicas, com o pêlo desalinhado e sem laçarotes, disputando um lugar nas atravancadas tetas da vaca marsupial pública.

No meio das suas divagações mozartianas, Inês deixa cair distraidamente que «Portugal teria outra cadência se o ensino da música fosse tão natural como da tabuada», esquecendo que depois da passagem da doutora Ana Benavente (e dos seus antecessores) por uma qualquer secretaria de estado do ministério da educação, o ensino da tabuada actualmente se faz nos primeiros anos dos cursos de matemáticas superiores, convertendo-o em coisa tão natural como o ensino da música e tornando possível, já hoje, aquela «outra cadência» que Inês ambiciona.

Menos de 3 chateaubriands seria injusto oferecer a Inês - 2 pela música e 1 pela tabuada.

ARTIGO DEFUNTO: o doutor Nicolau nas nuvens

Na página 2 do Expresso, por baixo do «Cem por cento» do analista (*) Nicolau Santos, pode ler-se uma peça de encomenda governo-encomiástica, provavelmente escrita pelo próprio, com o título «O clima económico está melhorar», em cujo último parágrafo se escreve «Pode ser que estejamos a tomar a nuvem por Juno. Mas lá que há alguma mudança no ar, um sentimento mais confiante e positivo, lá isso há.»

Na página seguinte, Juno revela-se uma nuvem com a primeira notícia das curtas «Macro», que tem o título «Confiança em baixa» e onde se pode ler que «o Indicador de Sentimento Económico referente a Janeiro é o segundo mais baixo da UE, contrariando a tendência da zona euro, que atingiu o valor mais alto dos últimos 4 anos».

(*) Como «analista», o doutor Nicolau Santos, também está longe dos scores do seu antigo director, o Lesma do casaquinho cor de merda, segundo a colorida expressão do doutor Rangel.

03/02/2006

BLOGARIDADES: o mundo é composto de mudança

No final dos anos 90 os web lunatics imaginavam que a emergência do e-commerce, e-business, do B2B, do B2C, do P2P, e das outras tretas de vapourware com outras tantas buzzwords apelativas, iria exterminar o comércio mortar & bricks. Como todos os lunáticos, também estes confundiram o que se passava no interior dos seus cérebros mortificados por incontáveis noites de vigília com o que se iria passar no mundo real dos negócios. E o que se veio a passar foi a dissolução da bolha das TI no início deste século vitimar incontáveis projectos de e-commerce nascidos nas garagens. Enquanto isso, os dinossáuricos negócios de pedra e cal abriram os cordões às recheadas bolsas e gastaram uns trocos na web, criando os sites e os portais que precisavam para atingir os segmentos de mercado que por aí navegavam com saldo no cartão de crédito.

Uns anos depois, quando surgiram as primeiras vagas dos web logs, logo outros profetas anunciaram precipitadamente o fim dos mídia, ou, se não o fim, pelo menos o fim dos mídia tal como os conhecemos hoje. Também este prenúncio de morte era um pouco exagerado. Como desde há mais de um ano já se vê cada vez mais claramente, com a chegada de ondas sucessivas de profissionais dos mídia (não só jornalistas) a abrirem na Blogosfera sucursais do seu negócio de papel ou do éter, o que se passa não é a morte dos mídia. É a invasão da Blogosfera - sendo certo que alguns blogonautas também abriram sucursais no sentido inverso, os exemplos contam-se pelos dedos das mãos (vá lá, dos pés, também).

Vem isto a propósito da chegada à Blogosfera lusitana, chegada muita celebrada por vários blogues, de la crème de la crème do pessoal que escreve nos jornais, do vértice da pirâmide dos opinion makers cá do burgo. Nada menos do que a doutora Constança Cunha e Sá, escoltada pelo doutor Vasco Pulido Valente. Fez-se um silêncio respeitoso, aqui e ali (muitos aquis e alis) rasgado por educados cumprimentos e desejos de boas vindas e (insinuo maldosamente) inconfessados apetites de figurar na olímpica lista de links de O Espectro.

Perante tanta manifestação respeitosa, tanta vénia reverencial, acende-se-me na alma um impulso incontrolável de soltar o impertinente que em mim habita. Fica para mais tarde. Por agora só lembro aquele episódio do mais queiroziano dos nossos comentadores quando, há uns bons anos, acrescentando mais uma às suas incontáveis previsões falhadas, e tendo prometido previamente que deixaria de ser «analista» se tal infortúnio acontecesse, iniciou a sua crónica seguinte explicando que tinha passado à categoria de «comentador».

E já que falo de previsões, a arte mais nobre do «analista», lembro o injustamente vilipendiado (*) arquitecto Saraiva, a quem deve ser creditado um score de previsões acertadas, como o próprio lembrou recentemente com uma compreensível falta de humildade, muito mais alto do que ao doutor Pulido Valente (qualquer número positivo é maior do que zero, como se aprendia na 1.ª classe do doutor Salazar e hoje no 1.º ano dos cursos de matemáticas puras). A esse, sim, deve ser atribuído o estatuto de «analista». É mais um exemplo de que é melhor cair em graça do que ser engraçado.

(*) Aproveitando o elance evocativo, lembro as palavras cruéis do doutor Rangel, no Correio da Manhã, há uns pares de anos a propósito do seu ex-colega do grupo Imprensa: «O Lesma foi à televisão. Com o mesmo ar de homem das cavernas que lhe marca perfil, com o mesmo casaquinho cor de merda que usa todos os dias e em todas as ocasiões, com os mesmos tiques de troglodita tímido que chega à cidade e não sabe onde pôr os pés». Se o Impertinências já existisse nessa altura teria atribuído ao doutor Rangel cinco merecidos ignóbeis vitalícios e uma medalha de impertinente honorário.

02/02/2006

DIÁRIO DE BORDO: yo no creo, pero que las ay, las ay

Num tempo em que é mais fácil um camelo passar pelo buraco duma agulha do que encontrar um casal heterossexual que não viva ou tenha vivido em união de facto. Num tempo em que é mais fácil uma alma entrar no céu do que encontrar um jovem macho ou uma jovem fêmea com mais de 15 anos que não pratique a queca de facto. Num tempo destes, quem é que acredita que duas lésbicas, para cuja união de facto 10 milhões de portugueses se estão borrifando, procuram benzê-la com uma escritura pública? Quem é que acredita que tais marafonas venham expor as suas miudezas sexuais na praça pública, num clima de histérico chinfrim mediático, sem terem uma agenda política, devidamente promovida pelo Berloque Sinistro?

Eu não?

Declaração de interesse: o Impertinências é «um blogue desalinhado, desconforme, herético, heterodoxo e homofóbico».

01/02/2006

BLOGARIDADES: elas andam por aí

Andam por aí umas pequenas polémicas acerca do verdadeiro liberalismo. Exibem-se certificados. Fazem-se juras. É o que parece, tanto quanto pode parecer a um sujeito que não é crente.

Não me tiram do sério. Afinal todos os fundamentalismos me parecem iguais no desapego à realidade, senão no resto.

ARTIGO DEFUNTO: deve haver uma explicação

Como explicar a proporção desmesurada da informação económica e empresarial dedicada às empresas onde o estado napoleónico-estalinista tem uma intervenção accionista por via da sua propriedade (TAP), duma participação relevante (EDP, Galp) ou golden share (PT)?

Como explicar a proporção irrelevante da informação económica e empresarial dedicada às empresas propriedade do estado napoleónico-estalinista que acumulam, ano após ano, prejuízos mastodônticos e se encontram há muito legalmente falidas (Metro, Carris, CP, entre outras)?