Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
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Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
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25/09/2025

Dúvidas (358) - Por que cedem os princípios à fidelidade? O que é uma resposta proporcional?

Em minha opinião, fundada em muitos anos de observação do comportamento humano, uma grande parte das pessoas de direita (e de esquerda) confundem a defesa dos princípios e das ideias com o que consideram ser a fidelidade devida aos correligionários ou então abandonam essa defesa por não terem a coragem de criticar estes em nome daquelas. Sobram muito poucos para defender os princípios e as ideias. Sempre foi assim e provavelmente sempre assim será.

Grozny, Chechénia, 1994                                                                         Gaza City, 2023.

Honestamente, não sei o que seria uma resposta proporcional. Ainda assim, acredito que as destruições que qualquer das fotos mostram e as muitas dezenas de milhar de mortos que delas resultaram não são uma resposta proporcional, seja lá ao que for proporcional, e seja lá o que for o que a resposta visa, seja evitar a secessão da Chechénia e manter a integridade do Império Russo, seja vingar as vítimas do terrorismo do Hamas, manter a integridade do governo com o apoio da extrema-direita religiosa e supremacista, gastando o que resta dos créditos do Holocausto.

24/09/2025

O ridículo da "Flotilha Global Sumud" esconde uma tragédia


Há muito que se esgotou a legitimidade e a justificação moral da resposta israelita aos crimes cometidos pelo Hamas e é uma tragédia que a denúncia das consequência sobre as populações civis dos excessos de uma resposta desproporcionada esteja a cargo deste e de outros bandos de palhaços que desacreditando a denúncia acabam por dar uma preciosa ajuda ao governo israelita de Bibi controlado pela extrema-direita religiosa.

17/05/2025

Olhe que não Dr.ª Mortágua. Taxar os ricos não "alivia quem trabalha"...

«‘Tax the rich’ comes the familiar cry from the left – but what happens when the rich leave? As Michael Simmons observes in this week’s cover piece, Britain is becoming an increasingly inhospitable place for the wealthy and, unsurprisingly, many are voting with their feet. Since 2016, more than 30,000 millionaires have left the UK – an exodus unmatched in the developed world. It’s not easy to muster sympathy for the ultra-rich. But the uncomfortable truth is that Britain depends on them: the top 1 per cent of earners contribute nearly 30 per cent of all income tax. The Treasury thought it could squeeze the rich without consequence. It was wrong. Unless that mistake is acknowledged soon, it won’t just be the wealthy who pay the price; it will be all of us.»

Olhe que não Dr.ª Mortágua, não alivia, carrega. Se espremer demasiado os "ricos" eles emigram e serão os "pobres" a pagar mais impostos para manter o Estado sucial. 

19/03/2025

Pro memoria (439) - There are two Sundar Pichais - the one who fired James Damore and the one who bowed down to Trump

Almost eight years ago, (Im)pertinências described in this post the case of software engineer James Damore who worked for Google before deciding to write a 10-page memo where, among other debatable things, he said (source): «(...) men and women differ biologically in many ways (...)» and that the tendency to protect women creates a hostile environment for men «because men are biologically disposable and because women are generally more cooperative and agreeable than man», something that evolutionary psychology confirms.

What did Google do? Damore was fired and Google CEO Sundar Pichai issued a memo to staff saying that «suggesting that a group of our colleagues have traits that make them less biologically suited to this job is offensive and not okay,» and that parts of the memo actively violated Google's code of conduct by «promoting harmful gender stereotypes in our workplace.»

Eight years later, a reporter from The Free Press went to meet Damore in Luxembourg, who had since been boycotted by the tech community and had been unable to find a steady job.


Some time earlier, on January 20, the same Sundar Pichai appeared at the inauguration of the new POTUS in the company of Elon Musk and other techno-garchs, bowing to Trump's «harmful gender stereotypes», principles that were opposed to those that led him to fire Damore.

Take this case as just one example among the bunch of opportunistic techno-garchs who have jumped on Donald Trump bandwagon and who don't believe a word of his bullshit.

16/03/2025

Pro memoria (438) - O pensamento do Dr. Ventura antes de ser o presidente Ventura. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

O jornalista Gustavo Sampaio escreveu “Os Políticos São Todos Iguais!" escarafunchando o passado de vários políticos portugueses e o Expresso publicou um artigo com uma versão reduzida de um capítulo dedicado ao populismo. Nesse artigo Gustavo Sampaio passa em revista o passado doutrinário do Dr. Ventura e mostra-nos que esse pensamento mudou, o que é natural porque todo o mundo é composto de mudança. O que alguns, como eu, podem não apreciar é que a epifania que atingiu o Dr. Ventura há uns cinco anos, e que os seus seguidores verão como o caminho da escuridão para a iluminação, é vista como o caminho da pouca luz para a obscuridade ou talvez a procura de um produto para um mercado. 

«... argumentou contra o securitarismo, contra o populismo penal, contra os políticos que procuram ganhar votos com o acicatar dos medos e dos preconceitos» (tese de doutoramento)

«... países como Portugal e a Irlanda não devem esquecer o seu passado e devem acolher o maior número de migrantes» (artigo de opinião)

«Hoje, tornou‑se uma espécie de gíria popular — ou uma certa elite intelectual — atacar a comunicação social. Digo isto completamente livre nesta matéria. Nós, em Portugal, temos tido a sorte de ter meios de comunicação social capazes de tocar com o dedo na ferida. […] Temos que ter alguma cautela quando apontamos o dedo à comunicação social.»

«Quando perguntam ao Presidente dos EUA (Trump) porque é que ele usa o Twitter, é porque dá um poder enorme não haver nenhuma espécie de intermediário. Eu escrevo o que quiser. Ninguém me faz a pergunta, sequer”, explicou Ventura. “Na verdade, por trás desta perceção está a lógica de os intervenientes políticos se quererem furtar aos intermediários que fazem perguntas. É incómodo. É muito mais fácil (recorrer às redes sociais). E é por isso que se utiliza isto. […] É esta a lógica das fake news, que são perniciosas, porque nos levam à negação e à defesa permanente. Mas, sobretudo, porque são capazes de convencer em períodos de grande turbulência noticiosa.»

«O Estado manterá nas suas mãos uma função arbitral, de regulação e de inspeção sediada em organismo dependente da Presidência do Conselho de Ministros. Essas funções seriam exercidas sobre todos os graus de ensino não superior (planos de estudo, exames, etc.). As instalações escolares passariam, num primeiro momento, para a tutela da Direção‑Geral do Património, que, de seguida, as ofereceria a quem nelas demonstrasse interesse, dando‑se prioridade absoluta aos professores nelas lecionando nesse momento. Os professores que pretendessem assumir a posse do seu estabelecimento de ensino criariam uma empresa ou uma entidade coo­perativa para a qual transitaria a propriedade desse estabelecimento.» (programa político do Chega de 2019)

10/07/2024

CASE STUDY: Outro exemplo de humorismo de causas de Ricardo Araújo Pereira

Na Revista do Expresso de 5 de Julho, o humorista Ricardo Araújo Pereira (RAP) escreveu numa peça sobre o debate Biden-Trump com o título «Um candidato que esteja vivo, se faz favor», o seguinte:

Apesar de esperar quase tudo dos disparates e do chorrilho habitual de meias mentiras e mentiras completas de Donald Trump, duvidei de que, mesmo ele, pudesse ter produzido a frase sublinhada. Não tive pachorra para ver o vídeo de mais de uma hora e meia do debate entre um velhote severamente diminuído e um velhote totalmente destituído de escrúpulos, fiz algumas pesquisas e não encontrei em fontes credíveis qualquer citação daquela frase. Encontrei-a apenas num post do X citado numa lista de memes publicados a pretexto do debate, obviamente parodiando-o.   

Ainda assim, resolvi perguntar ao ChatGPT que respondeu com alguma inteligência (artificial):

«The claim that Donald Trump stated "there are ten billion Guatemalans attacking the Lincoln Memorial right now" during the June 27, 2024, debate with Joe Biden on CNN does not appear to be accurate. Comprehensive reviews and fact-checks of the debate by sources such as FactCheck.org, PolitiFact, and Poynter did not report any instance of Trump making this statement.

Fact-checking sources covered a wide range of claims made during the debate, but there was no mention of such a quote from Trump regarding an exaggerated number of Guatemalans or an attack on the Lincoln Memorial​ (FactCheck.org)​​ (PolitiFact)​​ (PolitiFact)​​ (Poynter)​.

It is important to rely on verified sources and official transcripts for accurate information regarding statements made during public debates.»

Se, como tudo indica, Donald Trump não disse o que lhe foi atribuído, RAP praticou outra vez uma espécie de humor de causas, desta vez citando factos inexistentes, que na melhor hipótese não se deu ao trabalho de verificar e na pior os citou apesar de saber não serem verdadeiros, partilhando a mesma falta de profissionalismo ou de isenção, respectivamente, habitual no jornalismo de causas e assim desperdiçando o seu inegável talento.

09/05/2024

Dúvidas (372) - O que move o Dr. Ventura ao pretender limitar o direito de expressão do Dr. Marcelo, um notório picareta falante?

É pouco frequente escrever sobre o Chega ou o seu líder Dr. Ventura, principalmente porque as minhas críticas iriam acrescentar-se, ainda que por razões e pressupostos muito diferentes, à enxurrada que o jornalismo de causas e a comentadoria do regime lhe dedica, ou mesmo, para os distraídos, confundir-se com essa enxurrada.

Abro mais uma excepção para comentar a iniciativa aprovada ontem pelo grupo parlamentar do Chega de apresentar uma queixa-crime contra o Dr. Marcelo "por traição à Pátria", fundada no facto deste último ter defendido as reparações às ex-colónias num jantar com jornalistas estrangeiros. 

Sobre o fundo da questão não vou agora discorrer porque em várias ocasiões (por exemplo aqui ou aqui) já disse o que tinha a dizer, como disse sobre o Dr. Marcelo, em quem não votei. O que pretendo salientar é que, por muitos disparates que o Dr. Marcelo produza e nem mesmo pelo exercício deplorável dos seus dois mandatos, exercício que faz dele um dos piores presidentes da República, se não mesmo o pior, ele não perde a liberdade de os exprimir.

Pretender inventar um crime de expressão que obviamente não existe (por enquanto), como sabe muito bem o Dr. Ventura, pode ter dois propósitos, ambos para mim preocupantes, não pelos efeitos que são com toda a probabilidade inócuos, mas pelo que isso pode indiciar: ou bem se pretende intimidar a criatura, ou bem se pretende excitar os piores sentimentos da turba num exercício demagógico tão ao gosto do Dr. Ventura. Em ambos os casos, isso revela tiques totalitários de mau prenúncio.

26/11/2023

NÓS VISTOS POR ELES: Por que insistem em convidá-lo? (4) - O "misterioso milagre" de Krugman explicado às criancinhas

Continuação de (1), (2) e (3)

Recordando, Paul Krugman participou na «Grande Conferência do Negócios» e classificou o desempenho económico de Portugal nos últimos anos como um «milagre económico (...) um pouco misterioso». A imprensa do regime destacou o sound bite e foi um festim de aproveitamento do bullshit que revela uma ignorância da realidade que até para o que se espera de um comentarista é excessiva.

Comecemos por comparar o milagre português com o de oito países saídos do bloco soviético que aderiram à UE mais tarde e que nos ultrapassaram na produtividade, um indicador sintético que traduz  bem o sucesso económico.


Vejamos a evolução de um conjunto de dez outros indicadores, dos quais metade tiveram uma evolução positiva e a outra metade negativa, e ainda o stock de capital do Estado cuja redução durante os governos socialistas é uma das razões para a paralisia do aparelho administrativo impossível de esconder mesmo com a cortina de fumo que o controlo dos mídia dá ao PS, paralisia de que o colapso do SNS é apenas o exemplo mais notório. Acrescente-se que foi à custa dessa redução do stock de capital do Estado que o governo conseguiu o único verdadeiro milagre para um partido socialista: continuar a redução do défice e da dívida pública vinda do governo anterior, política que ele tanto criticou e a que opôs o seu mantra «virar a página da austeridade» enquanto a continuava da pior maneira possível. 
 

Note-se também que apesar de os cinco indicadores com evolução positiva revelaram um inegável sucesso, dois deles nada ficaram a dever às políticas públicas dos governos socialistas (exportações e taxa de desemprego cuja recuperação se iniciou com o governo PSD-CDS), a redução do rácio da dívida pública deve-se significativamente ao aumento do PIB nominal pela inflação (recorde-se que em valor absoluto a dívida pública subiu 44,2 mil milhões de 235,7 mil milhões em Dezembro de 2015 para 279,9 mil milhões em Setembro de 2023). Restam por isso as emissões de gases que podemos creditar parcialmente às políticas ambientais do governo socialista e debitar pelos elevados custos da energia.

Se isto é um milagre, Paul Krugman é uma nossa senhora de Fátima saída das páginas do New York Times.

22/11/2023

NÓS VISTOS POR ELES: Por que insistem em convidá-lo? (3) - À quarta vez foi de vez

Continuação de (1) e (2)

Em Fevereiro de 2012, no auge da «austeridade» resultante do programa de resgate negociado pelo PS e executado pelo governo PSD-CDS, luminárias académicas socialistas e outras resolveram doutorar honoris causa Paul Krugman, o prémio Nobel da Economia que já foi economista no passado e hoje é um comentador do NYT, na esperança de obter a sua bênção para as soluções alternativas estatistas e dirigistas que inspiravam as suas políticas,

Nessa altura o tiro saiu pela culatra e Krugman acabou a dizer: «eu realmente tenho dificuldade em dar conselho ao Governo português [na época o governo PSD-CDS]. Aliás, detesto dizê-lo, mas não faria as coisas de forma muito diferente daquilo que está a ser feito agora.»

De novo, em Dezembro de 2015 nas vésperas do Dr. Costa ser entronizado primeiro-ministro, Krugman foi convidado a pretexto da homenagem a Silva Lopes, e disse coisas inconvenientes  como: o aumento do salário mínimo em Portugal é «problemático» dada a baixa produtividade, ao contrário da Grécia, o país não ficou numa «situação tão desesperada», e, cúmulo do desaforo, que «o novo Governo não pode fazer muito diferente do anterior» e «deve focar-se no investimento». O novo governo PS não só foi contrariado nas suas teses como fez exactamente o contrário de «focar-se no investimento» ao reduzi-lo em detrimento da despesa pública para manter as «contas certas», o mantra do Dr. Costa para se distanciar do seu antecessor Animal Feroz que arruinou as contas públicas.

Ainda uma outra vez, em Abril de 2016 voltaram a convidar Krugman e ele disse «Portugal? Não é um desastre completo, é só muito mau» e deixou quatro recados assim resumidos pelo director do Expresso: «1) a margem de manobra para o país é muito escassa; 2) o Governo faz bem em aproveitar essa margem para aliviar a austeridade e diminuir a dor social; 3) não estamos em posição de lançar um programa de estímulo orçamental; 4) a nossa recuperação passa sobretudo por mudanças nas políticas alemãs.» O governo reagiu naturalmente com mixed feelings a estes recados.

Da quarta e última vez, Krugman veio a Portugal para participar na «Grande Conferência do Negócios» e disse várias coisas das quais a imprensa do regime destacou o sound bite do desempenho português nos últimos anos ser  um «milagre económico» o que, confessou, «é um pouco misterioso». Desta vez foi, por assim dizer, o triunfo da persistência porque o bullshit de uma vedeta do comentário económico que não se deu ao incómodo de se informar fully and thoroughly sobre o objecto do seu comentário foi algo que o governo terá escutado com gosto. 

Um bullshit que não resiste a uma análise mesmo superficial do que tem sido a evolução da economia portuguesa dos últimos 8 anos, ultrapassada um a um pelos países vítimas do colapso do império soviético, economia em que persistem, e nalguns casos se agravam, todos os handicaps de sempre como a baixa produtividade, a descapitalização e a inevitável falta de competitividade, que se tem aguentado à tona à força de subsídios e de um turismo conjuntural que nada deve às políticas do governo socialista.

21/05/2023

Albertina. No Portugal dos Pequeninos a IA é pequenina e a garganta é grande

«Albertina é um nome com tradição, mas foi escolhido por investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) e Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) também para apontar para o futuro com o primeiro modelo de Inteligência Generativa, que permite produzir textos com vários temas, de forma completamente autónoma tanto nas variantes europeia e brasileira, da língua portuguesa. Desde a discreta estreia, na sexta-feira, até esta segunda-feira, a Albertina já foi descarregada 33 vezes – um número que não é assim tão reduzido se se tiver em conta que esta ferramenta foi desenhada para correr em servidores (computadores empresariais, de grande capacidade).» (notícia do Expresso com o habitual título hiperbólico)

Sabendo-se que o LLM (large language model) da Albertina tem 900 milhões de parâmetros o que compara, por exemplo, com 540.000 milhões do PaLM da Google, seria mais adequado dizer que a Albertina tem um SLM (small language model). 

Entendamo-nos, isso não é vergonha nenhuma, afinal estamos no Portugal dos Pequeninos. É, porém, um pouco embaraçoso que isso precise de equipas de investigadores de duas universidades porque, segundo um email interno da Google, um modelo LLM pode ser preparado em apenas algumas horas por uma centena de dólares com um laptop robusto e uma técnica chamada LoRa (low-rank adaptation) que permite especializar uma LLM existente para uma tarefa em particular (provavelmente foi esta a via escolhida pela FCUL e a FEUP).

Vergonha, mais do que embaraço, é ainda não nos termos conseguido libertar do complexo de inferioridade que nos leva a exaltar constantemente coisas relativamente triviais, complexo que Eduardo Lourenço descreveu assim:

«Os Portugueses vivem em permanente representação, tão obsessivo é neles o sentimento de fragilidade íntima inconsciente e a correspondente vontade de a compensar com o desejo de fazer boa figura, a título pessoal ou colectivo. A reserva e a modéstia que parecem constituir a nossa segunda natureza escondem na maioria de nós uma vontade de exibição que toca as raias da paranoia, exibição trágica, não aquela desinibida que é característica de sociedades em que o abismo entre o que se é e o que se deve parecer não atinge o grau patológico que existe entre nós».

17/03/2023

COMO VÃO DESCALÇAR A BOTA? (38) - P'ra mentira ser segura... (VI)

Outras botas para descalçar

Este post é uma continuação de (I), (II), (III), (IV) e (V) 

Em retrospectiva:

Em 2019 o governo anunciou 104 milhões de euros (três quartos dos quais destinados à área metropolitana de Lisboa) para permitir reduzir o preço dos passes sociais, justificou que daí resultariam mais 100 mil pessoas por ano nos transportes públicos, mais 63 milhões de viagens e menos 72 mil toneladas de dióxido de carbono, escrevi aqui que se tratava de mais um exercício de planeamento milagroso porque as famílias com menores rendimentos já então privilegiavam o transporte público e tinham um passe social.

Os meses foram passando e os resultados milagrosos não aparecerem ou só apareceram do lado dos passes que têm vindo a aumentar, o que se explica pelo acréscimo da procura induzido pela redução dos preços de quem não é passageiro regular, nomeadamente as centenas de milhar de reformados nas zonas metropolitanas.

Decorridos quatro anos, há uma novidade em relação aos planos do governo do Dr. Costa. Desta vez não ficou tudo na mesma. Desta vez as coisas pioraram, como descreve o Expresso:

«Só um em cada quatro portugueses vai a pé ou de transportes coletivos para o trabalho (24,9%), segundo os dados dos Censos de 2021 divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) esta quarta-feira. Há uma década a percentagem era de 29,1%. Portanto, ao contrário do desejável, a utilização desses modos de deslocação diminuiu e aumentou o uso do automóvel, tornando mais distantes as metas definidas pelo Governo para 2030.

Os dados sobre dinâmicas territoriais agora discutidos pelo INE focam-se nas deslocações para o trabalho, sem incluir a ida das crianças para a escola. E mostram que ir a pé para o trabalho tornou-se ainda menos frequente na última década: era a escolha de 13,5% dos portugueses em 2011 e passou para 12,7% em 2021.

O mesmo aconteceu com a utilização de transportes coletivos, como comboio, autocarro, Metro ou barco, a caminho do trabalho: passou de 15,6% em 2011 para 12,2% em 2021.

Pelo contrário, aumentou o uso do carro. Há uma década era o meio usado por 68,3% dos portugueses na ida para o trabalho, agora subiu para 72,6%.»

29/10/2022

ACREDITE SE QUISER: Ele disse fábrica de unicórnios. E não pode ser só uma oficina? (2)

Continuação de (1)

Há um ano, o Dr. Moedas anunciou uma «fábrica de unicórnios, onde vamos ensinar os detalhes e os processos, e fazer dos sonhos grandes negócios, criar empregos e mudar o mundo e ter propósito. É isso que a Fábrica de Unicórnios será.»

Ontem o Dr. Moedas cumpriu o prometido e anunciou que a nova Fábrica de Unicórnios vai arrancar em 2023 com um investimento de €8 milhões para três anos de funcionamento. Cumpriu o prometido? Pois parece que não, porque primo, ele fez apenas outro anúncio, e secundo, oito milhões em três anos não dão nem para mandar cantar um cego, quanto mais para "apoiar" empresas inovadoras que um dia serão avaliadas em mais de mil milhões de dólares.

É mais um equívoco que começa por imaginar que já existem unicórnios portugueses, os quais segundo a AICEP seriam Farfetch, OutSystems, Talkdesk, Feedzai, Remote, SWORD Health, Anchorage Digital. Na verdade, um já não é classificado como tal (a Farfetch já está cotada) e os outros seis estão sedeados em cidades americanas: Boston, São Francisco (3), São Mateo e Nova Iorque. Entre os 1.191 (número de hoje) unicórnios não se encontra um único com sede em Portugal. Mais, entre os vários milhares de "Selected Investors", numa vista rápida em diagonal não encontrei um único português.

Todos aqueles supostos unicórnios lusitanos são considerados pela CBInsights como americanos porque foram criados, operam e se financiam nos Estados Unidos e a nacionalidade dos fundadores só é considerada quando a sede do unicórnio se situa no exterior. 

E o equívoco continua com o imaginar que atirar (pouco) dinheiro para um terreno inóspito a respeito do risco e da inovação irá criar uma safra de unicórnios, quando virtualmente todos os unicórnios nasceram sem dinheiro ou com o dinheiro de venture capitalists que puseram o dinheiro onde puseram a boca apostando numa ideia e numa equipa. 

E o equívoco termina, por agora, com o pensar que a inovação, isto é, a criatividade organizada e sistemática, e a iniciativa, isto é, a disposição para assumir riscos, precisam do «edifício da Factory que está em fase de conclusão no Hub Criativo do Beato.» É o equivalente a pensar que a fé precisa de um Convento de Mafra, ainda para mais sem o ouro do Brasil. Não temos emenda.

13/09/2022

COMO VÃO DESCALÇAR A BOTA? (37) - O ilusionismo gasoso do Dr. Costa (II)

Outras botas para descalçar. Esta bota é uma sequência do post O ilusionismo gasoso do Dr. Costa (I), de onde republico o mapa seguinte com os terminais de gás natural liquefeito (LNG) assinalados.
 
Technology Quarterly

«O chanceler alemão, acossado pela trágica dependência do gás russo, aceita, obviamente, tudo o que permita minimizar tal. O espanhol Sánchez vendeu-lhe então o reforço das interligações gasistas entre Espanha e França através da construção do primeiro troço do gasoduto MidCat (Midi-Catalonia Pipeline), que levaria nove meses a executar, permitindo a utilização dos seis terminais espanhóis de gás natural liquefeito (GNL) para abastecer em gás natural (GN) a Alemanha. O nosso primeiro-ministro aproveitou e vendeu-nos na silly season um gasoduto de Sines à Alemanha, fazendo crer que Sines salvaria energeticamente a Alemanha, ao mesmo tempo que tal permitiria exportar o hidrogénio verde produzido em Sines, em substituição da ideia inicial de o exportar para os Países Baixos por via marítima.

Ora, não seria necessário um novo gasoduto, mas apenas reforçar alguns troços, como o MidCat referido, e fazer uma nova interligação Portugal-Espanha entre Celorico da Beira e Vilar Formoso (162 km, €244 milhões), continuada em Espanha até Zamora (86 km, €110 milhões), em complemento das atuais ligações em Rio Maior e em Valença do Minho, lançadas no nosso projeto de introdução do GN em Portugal, as quais são perfeitamente suficientes para o funcionamento do mercado ibérico.

Mas Sines, por razões económicas, estando os terminais espanhóis mais subutilizados do que o nosso, e geográficas, não será competitivo em relação aos terminais espanhóis. Será mais prático e eficiente os metaneiros descarregarem em Bilbau e Barcelona, e, a partir daí, injetar o GN na rede europeia, do que virem a descarregar em Sines. O único porto praticamente à mesma distância da rede francesa de Sines será Huel­va, todos os outros terminais espanhóis estão mais perto. E no fim do ano esses barcos até poderão vir a descarregar já mais perto da Alemanha, em Wilhelmshaven e Brunsbüttel, e em 2023 em Stade e Lubmin.

E os franceses, que nunca concordaram com o MidCat, chamam a atenção que será sempre mais barato fazer terminais de GNL mais perto do Centro da Europa e da Alemanha do que investir nas interligações referidas para levar o GN da Península Ibérica para a Alemanha e que, face às incertezas que ainda existem na produção e transporte do hidrogénio verde, é prematuro redimensionar interligações para fazer esse transporte.

Mas, numa perspetiva de reduzir na energia a quase ilha ibérica, fará sentido o reforço das interligações gasistas e elétricas, estas prioritárias para nós, entre Espanha e França.»

De Sines para a Alemanha?, Luís Mira Amaral no Expresso

08/07/2022

COMO VÃO DESCALÇAR A BOTA? (36) - O ilusionismo gasoso do Dr. Costa

Outras botas para descalçar

«Portugal, e mais precisamente Sines, tem um papel importante a desempenhar na eliminação da dependência energética da Europa face à Rússia. "Podemos ser um porto de acolhimento, de armazenamento e de trans shipment de gás natural liquefeito, que pode vir das múltiplas rotas atlânticas e de múltiplas origens para outras regiões europeias", afirmou ontem o primeiro-ministro, António Costa, na apresentação do MadoquaPower2X, o projeto de mil milhões de euros para produção de hidrogénio e amónia verdes na zona industrial daquele concelho do litoral alentejano.» (DN)

Lembrei-me desta declaração recente do Dr. Costa ao ver o mapa seguinte onde estão assinalados os terminais de gás natural liquefeito (LNG).

Technology Quarterly

Ó Dr. Costa explique lá qual é a vantagem competitiva do terminal de Sines que, das duas dezenas de terminais LNG, é o mais distante dos grandes consumidores?

04/07/2022

Que duzentas Dr.ªs Matos Rosa desabrochem e pagamos a dívida

Negócios

Com o Dr. Costa a conseguir colocar a dívida pública nos 280 mil milhões, é só fazer as contas, como disse a propósito do PIB o seu antecessor Sr. Eng. Guterres.

26/05/2022

Mitos (319) - Nacionalismo só com um corno

Unicórnios na newspeak são as startups tecnológicas, não cotadas em bolsa, avaliadas em mais de mil milhões de dólares. De acordo com a Complete List Of Unicorn Companies da CBInsights há no total mais de 1.000. Apesar da obsessão dos mídias domésticos com os unicórnios portugueses, em boa verdade, eles são mais raros do que o lince da Serra da Malcata e ainda assim os poucos que se podem encontrar só se podem considerar portugueses se o critério for a nacionalidade de algum dos fundadores.

Can Silicon Valley still dominate global innovation?

Como se pode ver nos diagramas acima, nenhuma cidade portuguesa está no mapa-mundo dos unicórnios. De facto, dos sete unicórnios portugueses recenseados pela AICEP (Farfetch, OutSystems, Talkdesk, Feedzai, Remote, SWORD Health, Anchorage Digital), um já não é classificado como tal (Farfetch que já está cotada) e os outros seis estão sedeados em cidades americanas: Boston, São Francisco (3), São Mateo e Nova Iorque.

O que a AICEP escreveu «Portugal já tem mais unicórnios que Espanha, Grécia e Itália juntos», não faz sentido porque Portugal não tem unicórnio nenhum e os nacionais dos países citados, tal como os portugueses, têm mais unicórnios do que os sedeados nesses países. É o nacionalismo ridiculamente saloio do costume muito cultivado entre nós, a começar por S. Ex..ª, o papagaio-mor do reino, e a acabar no político ou no jornalista mais incógnito.

10/03/2022

A propósito do Dia da Mulher sacrifica-se a inteligência à conformidade

A Dr.ª Leonor Beleza, presidente da Fundação Champalimaud, é uma pessoa inteligente e bem informada e, apesar de não ter uma formação académica na área da medicina ou da biologia, tem perfeita noção que nesta área o que pode ser relevante é o sexo feminino ou masculino, isto, é a distinção entre fêmeas (cromossomas XX, sexo homogamético) e machos (cromossomas XY, sexo heterogamético), e não a orientação sexual do indivíduo a que a praga do marxismo cultural chama "género" do qual existirão cento e doze variedades, segundo os praticantes mais assanhados.

Sabendo isso, a Dr.ª Leonor Beleza numa sua entrevista ao DN no Dia da Mulher diz em determinada altura: 

«Havia a utilização de modelos animais masculinos na convicção de que tanto fazia e considerando que o sexo não seria relevante para aquilo que se estivesse a estudar. Hoje, sabe-se perfeitamente que é errado, os cientistas dizem que as células têm sexo, e portanto têm diferenças, e essas diferenças têm de ser olhadas e consideradas esteja a estudar-se o que se quiser, em toda a biologia isto é extremamente relevante.» 

Talvez percebendo que não mencionando a palavra mágica "género" divergiria do cânone do politicamente correcto e colocaria em risco a sua reputação na bolha da bem-pensância, a Dr.ª Leonor Beleza pôs em risco a sua inteligência salpicando o resto da entrevista com uma dezena de referências perfeitamente despropositadas a "género".

[Como já em tempos escrevi, a tropa doméstica do politicamente correcto usa a palavra "género" copiando os seus homólogos ianques, ignorando que o termo inglês equivalente a "género" em português é "genus"(do latim "genus", raça, família, origem, etc.) e não "gender". Ainda que a origem latina de ambos seja a mesma, o percurso foi diferente: genus (latim) -> gendre (francês antigo) -> gender (inglês)]

30/01/2022

DIÁRIO DE BORDO: Clowning for a cause (3)

Uma continuação daqui

Durante a campanha eleitoral Ricardo Araújo Pereira a propósito e também a despropósito fez humor com algum gosto e também com mau gosto e verrina, hostilizando e ridicularizando os visados, o que fez com quase toda a gente. Em contraste, foi notória a suavidade com que tratou o pessoal do BE e especialmente visível a simpatia com que acolheu os comunistas.

"Isto é gozar com quem trabalha", foi assim uma espécie de tempo de antena suplementar do PCP, a pretexto de inocentes piadas que eram mais oportunidades para o convidado brilhar.

18/12/2021

A competência mais notável do governo do Dr. Costa é a propaganda para retardados

«Portugal oferece ajuda à Alemanha para tratar doentes com covid-19

Caso seja aceite, apoio pode passar por receber doentes a precisar de cuidados intensivos ou pelo envio de equipas de profissionais de saúde para aquele país, tal como a Alemanha fez com Portugal no início do ano.»

Fonte

O governo do país do lado esquerdo tem os serviços públicos de saúde em colapso com centenas de milhar de consultas e dezenas de milhar de cirurgias por fazer e com 1.000 infectados internados em hospitais e menos de 150 em UCI diz-se aflito. Esse governo ofereceu-se para "ajudar" o país do lado direito.