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20/08/2026

ARTIGO DEFUNTO: Segundo o jornalismo de causas, os salários médios deveriam ser o que o governo quisesse


Numa peça com o título estilo agitprop «Inflação devorou grande parte do aumento dos salários médios em 2026, a mesma jornalista do Expresso que escreveu as anteriores obtusidades usa o melhor da sua ciência para demonstrar o óbvio ululante de que o aumento nominal de 5,1% inclui uma inflação de 3,3% e, portanto, o aumento real foi só de 1,8%.

Poderia apresentar como desculpa para as suas obtusidades o suposto nobre propósito de desmontar as patetices chico-espertas do Dr. Castro Almeida nas jornadas parlamentares do PSD e do Dr. Montenegro na missa do Pontal que atribuíram ao governo a subida de 5,1% em 12 meses do salário médio, subida que, diria M de La Palice, resultou da média dos salários que as empresas tiveram de pagar para ter a mão-de-obra que precisaram num mercado de trabalho que é actualmente um sellers' market, com a particularidade de que os salários, ao contrário dos outros preços, não podem descer.

Poderia apresentar essa desculpa e poderia também ter percebido: (1) o governo tem menos influência no salário médio do que na construção do aeroporto Luís de Camões (60 anos) ou na inauguração do novo hospital de Lisboa (23 anos) e (2) um aumento real de 1,8% do salário médio é ainda assim notável quando (a) a produtividade do trabalho se manteve e (b) o aumento da população activa se fez sobretudo nas profissões menos qualificadas e com menores salários.

18/08/2026

ARTIGO DEFUNTO: A "inclinação ideológica e política" das ciências actuariais, da estatística matemática, da econometria, da demografia, da macroeconomia e das finanças públicas

[Este post é uma espécie de continuação de Comparar a beira da estrada com a Estrada da Beira]

Cinco dias antes de ser conhecido o relatório sobre a sustentabilidade do sistema de pensões, o semanário de reverência, no seu papel de órgão oficial do militante socialista anónimo, citava o PS que já classificava o relatório como «enviesado» e se declarava preocupado por o estudo ter sido coordenado por «duas pessoas que têm uma inclinação ideológica e política muito clara».

Fiquei confundido, sem perceber qual seria o papel da inclinação ideológica e política na avaliação da sustentabilidade financeira de um sistema público de pensões. Admiti que essa confusão se devesse a não estar iluminado pela ciência das jornalistas de causas que assinam o artigo (duas economistas portadoras de mestrados pelo ISEG e uma cientista da comunicação da equipa das Redes Sociais e Online). Vergado ao peso dessa ciência, resolvi pedir a um agente de IA para descrever um modelo teórico geral de repartição (Pay-As-You-Go ou PAYG), em que os trabalhadores activos financiam diretamente as pensões dos reformados do mesmo período. 

Eis a descrição do modelo que, surpreendentemente, não contém a variável inclinação ideológica e política.

16/08/2026

ARTIGO DEFUNTO: Comparar a beira da estrada com a Estrada da Beira

Semanário de reverência

É difícil superar a falta de senso de comparar o valor actual do FERSS, que se estima possa pagar dois anos de pensões, no segundo país mais envelhecido da UE, cujos fundos privados de pensões representam apenas cerca de 20 mil milhões e abrangem cerca de 1,2 milhões de pessoas, com cinco vezes o custo estimado do novo aeroporto Luís de Camões.

É assim parecido com comparar o custo do aeroporto de Schiphol, cujo custo de substituição se estima em cerca de 30 mil milhões de euros, com as reservas totais dos fundos de pensões dos Países Baixos, um país com uma população 1,6 vezes a portuguesa, mais jovem (menos 5 anos de idade mediana e menos 5 pontos percentuais de idosos), fundos que são suficientes para 30 anos de pensões e cujo valor atinge um total superior a 900 mil milhões ou 13 vezes o total os fundos portugueses. 

Já agora, a jornalista, com um mestrado em economia pelo ISEG, situou a estimativa do custo do novo aeroporto em menos de 10 mil milhões. No lugar dela, teria feito outras estimativas, por exemplo: 
  • Custo estimado da construção (em 2024) 7,9 a 8,9 mil milhões
  • Custo estimado das grandes obras de acessibilidade 5,5 mil milhões
  • Custo total estimado 13,4 a 14,4 mil milhões
  • Coeficiente médio de derrapagem das grandes obras públicas em Portugal 1,3 a 1,35
  • Custo total provável 17,4 a 19,4 mil milhões
  • Dois exemplos de derrapagem:
    • Centro Cultural de Belém, o custo final triplicou o orçamentado;
    • Aeroporto de Berlim: os 5 anos planeados escorregaram para 14 anos; o custo triplicou.
  • O meu palpite do custo total final do Aeroporto Luís de Camões: 20 a 30 mil milhões

02/08/2026

CASE STUDY: Perceberam mal. O que falta não são diplomas, é know-how. Now, how?

A valorização do canudo é um caso particular da valorização dos títulos que domina há séculos a cultura, isto é, o conjunto de valores, de crenças, de normas, de costumes, de conhecimentos e de símbolos, do Portugal dos Pequeninos. Daí a atribuir-se ao canudo propriedades mágicas na atribuição de estatuto social vai um pequeno passo, e daqui a imaginar-se que o "atraso" resulta da escassez de canudos vai outro passo mais pequeno, que os governos socialistas (do PS e do PS-D), com destaque para o programa «Novas Oportunidades», criado pelo governo do Sr. Eng. José Sócrates, que foi uma espécie de fábrica de diplomas que dariam acesso a 143 cursos profissionais, de aprendizagem e de ensino artístico especializado que o governo ofereceu aos candidatos que terminassem a equivalência ao 9.º ano de escolaridade que o programa atribuiu.

O resultado foi, em matéria de diplomas, a redução do nosso desalinhamento em relação à UE: dos 25 aos 29 anos, apenas 13,5% possuem escolaridade inferior ao ensino secundário e 44,4% concluíram o ensino superior. Não obstante, a escolaridade entre os empregadores é verdadeiramente um desastre, com mais de 40% só com o ensino básico, e isso é uma parte da explicação da baixa produtividade do trabalho.

O problema real não é a falta de diplomas, é a falta de competências, o saber como fazer.


O gráfico acima, extraído do trabalho de Óscar Afonso «Portugal tem mais diplomas, mas falta capital humano», publicado há dias, coloca-nos em 34.º lugar na proficiência média (*) em numeracia e literacia dos 38 países da OCDE.

Perante este handicap o que fazem as nossas elites merdosas? Autoelogiam-se dentro da respectiva bolha, dão graxa à plebe e exaltam as exageradas, e muitas vezes imaginadas, realizações do Portugal dos Pequeninos, que é outra maneira de se autoelogiarem.

_______________

(*) «A proficiência dos adultos em resolução adaptativa de problemas é avaliada através do PIAAC, um programa internacional da OCDE que mede a proficiência dos adultos em competências-chave de processamento de informação. A resolução adaptativa de problemas envolve a capacidade de atingir objetivos em situações dinâmicas, onde uma solução não está imediatamente disponível.»

23/03/2026

Pro memoria (146) - Os cortes no orçamento federal anunciados pelo Sr. Musk pareciam ser um bocadinho magalómanos... e estão a ser

Continuação de Os cortes no orçamento federal anunciados pelo Sr. Musk podem ser um bocadinho magalómanos e de Os cortes no orçamento federal anunciados pelo Sr. Musk podem ser um bocadinho magalómanos... e o défice pode ainda aumentar

Recordemos que o Sr. Musk garantiu em plena campanha eleitoral em 2024 num comício MAGAlómano no Madison Square Garden que iria cortar um terço do orçamento federal anual de US$ 7 biliões, o equivalente a US$ 2,3 biliões (2.300.000.000.000). 

Consumado o divórcio Musk-Trump, passado um ano e meio desde o anúncio e apenas cinco meses do ano fiscal de 2026 iniciado em Outubro e ainda sem a despesa militar decorrente do ataque ao Irão ao fim da 3.ª semana estimada em cerca de USD 20 mil milhões (o governo pediu ao Congresso um reforço do orçamento militar de USD 200 mil milhões), os dados oficiais mostram uma dívida federal em constante crescimento que já ultrapassou a do ano fiscal anterior.
Treasury.gov

Nas palavras do Committee for a Responsible Federal Budget «No matter what metric one chooses to examine our fiscal trajectory, we are clearly headed in the wrong direction. Gross debt is now $39 trillion; debt held by the public recently surpassed $31 trillion for the first time; deficits are approaching $2 trillion; and deficits as a share of the economy are twice as large as the 3% goal many economists and bipartisan policymakers believe we ought to be targeting.?»

07/02/2026

UGT propõe ao governo a redução do PIB. Imagina-se que a CGTP não queira ficar atrás

A UGT, uma central sindical afecta ao PS e ao PSD, mais ao primeiro do que ao segundo, apresentou ao governo como contraproposta ao pacote laboral a redução do horário semanal para 35 horas, a semana de quatro dias, o aumento das férias para 25 dias e o aumento das indemnizações por despedimento.
Se admitirmos que da contraproposta da UGT resultaria uma redução de 5% do número de horas trabalhadas e como a produtividade por hora trabalhada não seria alterada, a produtividade por pessoa empregada (actualmente 76% da média da UE, a sexta mais baixa da UE) desceria aproximadamente os mesmos 5%, de onde resultaria uma redução comparável do PIB a paridades do poder de compra.

06/02/2026

A economia do pastel de nata tem o melhor desempenho este ano? (5)

Continuação de (1), (2), (3) e (4)

Além dos poucos comentadores assinalados nos posts anteriores que questionaram o faux pas da Economist, provavelmente a melhor revista de economia e finanças, que atribuiu o primeiro lugar do seu ranking à economia portuguesa, a saber Óscar Afonso (jornal Sol), José Paulo Soares (jornal Eco), Daniel Bessa (Expresso), João Duque (Expresso), Luís Aguiar-Conraria (Expresso) e Luís Mira Amaral (Expresso), acrescento agora o professor de Economia da UP Freire de Sousa.
 
No seu artigo «Quando os primeiros podem ser os últimos», publicado também no Expresso, Freire de Sousa deu-se à maçada de preparar um ranking alternativo com três dos cinco indicadores da Economist (os de natureza mais estrutural) onde a economia portuguesa cai do primeiro lugar do ranking da Economist para o penúltimo, apenas acima da Grécia. 
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Duas notas de rodapé:
  • Relevo, outra vez, que cinco dos seis comentadores desalinhados da euforia geral escreveram no Expresso, um semanário que, apesar da sua frequente reverência aos poderes fácticos, mostra, apesar disso, alguma independência e qualidade de opinião que não são frequentes na generalidade da imprensa;
  • Registo também que Freire de Sousa, apesar de assinar há quatro décadas a Economist, não deixou de apontar criticamente a falha, mostrando não dispor de um cérebro ideológico, algo raro nos tempos dos "factos alternativos" e do primado da devoção acrítica pelos seus criadores.

04/02/2026

SERVIÇO PÚBLICO: Desfazendo equívocos em comentários ao post de ontem

Trata-se de dois comentários aos itens «Um novo pletórico peditório, desta vez o das tempestades» e «Uma Boa Nova, ou talvez não» da Crónica da passagem de um governo (35b) publicada ontem.

PRIMEIRO COMENTÁRIO

As «Duas sugestões» têm subjacente a confusão sobre os conceitos relacionados com o tratamento dos riscos: mitigação, evitação, transferência e financiamento – ver “ A Risk Management Standard”. Neste caso, não podendo evitar-se, os riscos poderão ser mitigados (enterrar os cabos eléctricos, melhorar o sistema de drenagem de águas pluviais, limitar a construção nas linhas de água, poda e abate de árvores, etc.), poderão ser transferidos (para seguradoras que por sua vez as transferirão para os mercados internacionais de resseguro) ou financiados (ver abaixo o Consorcio de Compensación de Seguros espanhol).

Bibliografia (um exemplo entre dezenas, no que respeita à gestão de riscos a nível estatal, e entre milhares no que respeita à gestão de riscos empresariais): “Diretrizes de Gestão dos Riscos de Catástrofes” da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho.
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Em Espanha (e não, não é na Suíça) existe uma estrutura de resposta a catástrofes através do Sistema Nacional de Proteção Civil, que inclui planos específicos para vários riscos como sismos e tempestades.

A resposta é estruturada da seguinte forma:
  • Plano Nacional de Redução do Risco de Desastres: Reforçado recentemente para antecipar ameaças derivadas das alterações climáticas e coordenar a resposta estatal.
  • Planos de Riscos Especiais: Existem diretrizes nacionais específicas (Planos Especiais) para gerir riscos como sismos, inundações, maremotos e incêndios florestais.
  • Hierarquia de Resposta:
    • Territorial: As comunidades autónomas e municípios têm os seus próprios planos para emergências locais.
    • Nacional: O Estado intervém quando a emergência é declarada de "interesse nacional", coordenando todos os recursos públicos.
    • Unidade Militar de Emergências (UME): Uma força militar especializada criada especificamente para intervir rapidamente em catástrofes naturais graves em todo o território espanhol.
Também em Espanha (e não, não é na Suíça) existe o seguro público de catástrofes naturais que é gerido pelo Consorcio de Compensación de Seguros, uma entidade pública que compensa danos por riscos extraordinários (inundações, sismos, tempestades). Para ter acesso ao Consorcio, é indispensável dispor de um seguro privado (casa, carro, empresa) com os prémios pagos.

Em Portugal temos o peditório nacional e estamos há décadas a chutar a bola para a frente à espera criar uma solução semelhante limitada ao risco sísmico.
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«Nunca em Portugal Continental tinha havido ventos superiores a 150 km/hora.»

Segundo a página “Extremos climatológicos Portugal” do IPMA, em 13-10-2018 foi registada na Figueira da Foz  uma rajada de vento de 176,4 km/h.
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SEGUNDO COMENTÁRIO

«O que interessa é sempre o valor da dívida em percentagem do PIB».
Infelizmente há muitas outras coisas que interessam.  
Na véspera do resgate pela troika em 2011, a dívida pública do Estado Português era cerca de 163 mil (equivalente a 208 milhões de euros a preços actuais) e 94,0% do PIB. Catorze anos depois, no final de 2025, a dívida pública era de 274 mil milhões (mais 66 mil milhões do que em 2011 a preços actuais) e 89,7% do PIB (menos 4,3 pontos percentuais), rácio que era o sexto mais elevado da UE, posição do ranking onde o crescimento da produtividade se deveria situar para garantir que continuaremos a comprar popós no futuro e podemos financiar um Fundo de Catástrofes e não apenas um Fundo Sísmico.
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MORAL DA ESTÓRIA

Precisamos de persistência para resolver os problemas que têm solução, de paciência para conviver com os que não têm e inteligência para distinguir uns dos outros (Ditado chinês) .
Precisamos também de conhecimento para evitarmos o recurso aos palpites e bitaites, uma patologia que no Portugal dos Pequeninos infecta desde analfabetos até doutorados.

27/12/2025

A economia do pastel de nata tem o melhor desempenho este ano? (4)

Continuação de (1), (2) e (3)

Com algum esforço, foi possível encontrar na comentadoria almas que não se iludiram com o primeiro lugar da economia portuguesa no ranking da Economist. Já registei Óscar Afonso (jornal Sol), José Paulo Soares (jornal Eco), Daniel Bessa (Expresso), João Duque (Expresso), Luís Aguiar-Conraria (Expresso) e acrescento agora à lista das criaturas cépticas Luís Mira Amaral (Expresso) que, como qualquer alma com dois dedos de testa, concluiu que «foi só o emprego e não a produtividade a crescer» e, por isso, «parece aquele mau aluno que quando chega a casa finalmente com 10 valores logo é considerado um génio!»).

[À margem do tema, registo que a maioria dessas almas escreveu no Expresso confirmando que o semanário de reverência, que sucumbe (et pour cause) frequentemente à necessidade de louvaminhar os governos em exercício, também cultiva alguma independência e qualidade de opinião que não são frequentes na generalidade da imprensa.]

20/12/2025

A economia do pastel de nata tem o melhor desempenho este ano? (3)

Continuação de (1) e (2)

Contra a corrente, o (Im)pertinências tentou colocar no devido lugar o primeiro lugar da economia portuguesa no ranking da Economist. Algumas outras vozes (poucas, porque isto de ir contra a corrente patridiótica não é fácil) se fizeram ouvir no mesmo sentido, tais como Óscar Afonso no jornal Sol (sem link), José Paulo Soares no jornal Eco, Daniel Bessa no Expresso e João Duque, também no Expresso.

A estes juntou-se ontem Luís Aguiar-Conraria que, igualmente no Expresso, não resistiu à tentação de zurzir «os nacionais-pessimistas», entre os quais poderia distraidamente incluir o (Im)pertinências, mas acaba por admitir que «uma vez passadas as primeiras impressões, há que ser honesto e dar ao ranking a importância que tem: praticamente nenhuma», por razões semelhantes às que aqui enumerei.

15/12/2025

A economia do pastel de nata tem o melhor desempenho este ano? (2)

Continuação de (1)

O governo, o coro da comentadoria e até os jornalistas de causas, que nestas coisas patrióticas alinham com os governos que detestam, saudaram efusivamente o primeiro lugar da economia portuguesa no ranking da Economist. Contra a corrente, o (Im)pertinências não embandeirou em arco e tentou colocar o feito no seu humilde lugar. Desde então, ao longo da semana passada, algumas outras vozes cépticas atenuaram o nosso sentimento de solidão.

Começo por Óscar Afonso que no jornal Sol (sem link) publicou um artigo cujo título, só por si, diz quase tudo - O IgNobel da Economia vai para ... Portugal em 1.º segundo a The Economist.  

Continuo com o economista José Paulo Soares, que no seu As sweet as a pastel de nata considera  «enternecedor o bacoquismo patriótico» do coro de celebrantes e salienta que nos indicadores fundamentais (produtividade do trabalho e PIB per capita) as coisas não melhoraram, como até pioraram, como aqui escrevi a semana passada.

No mesmo sentido, com mais contenção, escreveram Daniel Bessa (A melhor economia do ano) e João Duque (A economia do pastel de nata).

08/12/2025

A economia do pastel de nata tem o melhor desempenho este ano?

Which economy did best in 2025?
*Excluding Chile and Costa Rica
†Share of product categories with an annual price increase of more than 2%
‡Or latest available
§National stockmarket indices, October 2025
Sources: Bureau of Labour Statistics; Central Statistics Office; Eurostat; Féidhlim McGowan; OECD; The Economist
Antes de embandeirarmos em arco com a economia portuguesa no topo do ranking da Economist dos membros da OCDE, atentemos no seguinte:
  • Estes resultados traduzem o desempenho medido pelos referidos 5 indicadores; se fossem outros os indicadores, os resultados seriam diferentes;
  • Por exemplo, se fosse considerada a produtividade do trabalho (que diminuiu visto o emprego ter aumentado 2,8% e o PIB apenas 2,4%) ou o PIB per capita PPC (que diminuiu porque o PIB aumentou 2,4%  e a população residente aumentou mais de 3% com cerca de 321 mil estrangeiros que não constavam das estatísticas), a economia portuguesa cairia para a metade inferior da tabela; (*)
  • Alguns indicadores beneficiam da comparação com valores excepcionais no ano de 2024: a capitalização bolsista em 2024 tinha caído cerca de 16% e o PSI 0,3%; o aumento do emprego resultou do aumento do número de imigrantes que entraram no mercado de trabalho;
  • Por último, o desempenho passado (e neste caso o desempenho de apenas um ano) não garante o desempenho futuro e esgotados os dinheiros da bazuca, estancada a entrada de imigrantes e reduzidos os fluxos turísticos, o futuro não é radioso.
(*) Acrescentei neste parágrafo as explicações entre parênteses.

22/10/2025

CASE STUDY: O que nos diz o ranking das escolas de ensino secundário (3)

Continuação de (1) e (2)
No primeiro post chegámos a duas conclusões: os resultados das escolas privadas são claramente melhores em 2,14 pontos (= 13,50-11,36) e há tendência das piores escolas "compensarem" os seus alunos com uma avaliação menos exigente (a diferença entre as médias de exame e as notas internas de exame é 1,21 pontos nas melhores e 4,90 pontos nas piores).

No segundo post concluímos que escolas privadas aparentam ter maior heterogeneidade do que as escolas públicas, isto é, coexistem alunos muito bons com alunos fracos ou medíocres e que a relação entre notas de exame e notas internas é claramente mais fraca no caso das escolas públicas.

Vejamos agora no ângulo da localização das escolas se podem ser identificadas relações com o aproveitamento escolar. No quadro seguinte as escolas estão segmentadas em três grandes regiões: os concelhos puramente urbanos de Lisboa e Porto, com níveis de rendimento médio e educacional mais elevados, e os restantes concelhos. 


Em todas as regiões as escolas privadas têm um melhor desempenho e uma menor diferença entre notas internas e notas de exame. Nas escolas privadas do concelho de Lisboa essa diferença (0,96) é claramente muito inferior, menos de metade das escolas privadas do Porto (2,19) e dos outros concelhos (2,45), sugerindo uma necessidade muito menor de "compensação" dos alunos. Diferentemente, nas escolas privadas do Porto a diferença entre notas internas e notas de exame é mais do dobro da diferença em Lisboa (2,19 contra 0,96) e está próxima dos outros concelhos.   

Nas escolas públicas o factor regional não parece ter influência significativa nas notas de exames que variam entre si apenas umas décimas, sugerindo um nivelamento por baixo.  

No quadro seguinte registam-se os desvios-padrão das notas de exame e das notas internas para os mesmos concelhos.   


Os desvios-padrão das notas internas muito mais baixos do que os desvios-padrão das notas de exame em todos os concelhos sugerem que todas as escolas, independentemente do seu estatuto e da sua localização, tendem a "alizar" as notas que atribuem aos seus alunos.
    
No concelho de Lisboa o desvio-padrão mais baixo, quer das notas de exame (1,41) e quer das notas internas (0,49), sugere que o aproveitamento nas escolas privadas tem uma menor heterogeneidade nesse concelho. Nas escolas públicas dos outros concelhos destaca-se o desvio-padrão claramente inferior (1,04) ao de Lisboa (1,62) e do Porto (1,54), confirmando um nivelamento por baixo do ensino público na maioria dos concelhos.

03/10/2025

CASE STUDY: O que nos diz o ranking das escolas de ensino secundário (2)

Continuação de (1)

No post anterior chegámos a duas conclusões: os resultados das escolas privadas são claramente melhores em 2,14 pontos (= 13,50-11,36) e há tendência das piores escolas "compensarem" os seus alunos com uma avaliação menos exigente (a diferença entre as médias de exame e as notas internas de exame é 1,21 pontos nas melhores e 4,90 pontos nas piores).

Vejamos agora no quadro seguinte dois indicadores estatísticos relacionados com a dispersão dos valores das notas de exame e internas. 

Os valores dos desvios-padrão (uma medida da dispersão ou variação em relação à média) são claramente superiores nas escolas privadas, quer nas notas de exame, quer internas (1,69 e 0,88, respectivamente) em relação às públicas (1,08 e 0,62), Já quando à amplitude dos intervalos da variação (diferença entre a nota mais alta e a mais baixa) os valores são muito mais próximos, sobretudo nas notas de exame. Uma explicação possível é que as escolas privadas têm maior heterogeneidade do que as escolas públicas, isto é, coexistem alunos muito bons com alunos fracos ou medíocres.  

O quadro seguinte regista os mesmos indicadores, mas agora na dicotomia entre melhores e piores escolas. 

As piores escolas apresentam maior dispersão das notas (1,29 e 0,77, contra 0,66 e 0,60) e maior amplitude dos intervalos de variação (só há uma escola pública nas 40 melhores e por isso o intervalo de variação é 0). No nível das melhores e piores escolas, a comparação entre escolas públicas e privadas não tem significado, visto que entre as melhores só há uma escola pública e entre as piores só há duas escolas privadas.

O quadro seguinte refere-se ao coeficiente de correlação linear entre notas de exame e notas internas, isto é, à medida da relação linear entre essas duas variáveis. Os coeficientes mais próximos de +1 correspondem a uma correlação perfeita das duas variáveis que aumentam e diminuem em paralelo, os valores negativos mais próximos de -1 significariam que as duas variáveis se movem em sentidos opostos e o valor 0 significaria que as duas variáveis não estão relacionadas. 


Dos valores do quadro, podemos concluir que a relação entre notas de exame e internas é claramente mais fraca no caso das escolas públicas em resultado do factor já identificado no post anterior onde se constatou que as piores escolas "esticam" muito mais as notas dos seus alunos (1,21 pontos nas melhores, aumenta para 4,90 pontos nas piores) e as piores escolas pesam mais entre as públicas.

No próximo post, vamos analisar a influência da localização das escolas nas notas, segmentando notas de exame e  internas e escolas públicas e privadas.

______________

(Continua)

02/10/2025

ARTIGO DEFUNTO: A megalomania do jornalismo de causas

Por estes dias está a decorrer o exercício da NATO Tiger Meet 2025 na base aérea de Beja, onde estarão presentes quase dois mil militares de vários Estados membros da NATO, o que foi aproveitado pela Saab sueca, fabricante do caça Gripen, e pela Lockheed Martin, fabricante do caça F-35, para promover os seus produtos. Como é óbvio ululante, não vieram cá para vender à FAP a sua mercadoria.

Para que conste, um F-35, dependendo do modelo em concreto, pode custar ao redor de 100 milhões e o orçamento de 2024 da Força Aérea Portuguesa (FAP) não chegou a 600 milhões, o que seria suficiente para comprar seis F-35. De resto, cada um dos 28 F-16 de que dispõe a FAP deve custar actualmente, sem armamento, cerca de 27 milhões, que foi o preço que a Argentina pagou o ano passado, e custou no passado uma fracção disso.

É neste contexto que um jornal económico publica um artigo com o título «Americanos e suecos fazem fila para vender aviões de combate a Portugal» em que se escreve «Aquece a corrida para vender a Portugal os substitutos do F-35. Depois da Saab mostrar o seu Gripen, agora foi a vez dos americanos da Lockheed Martin apresentarem o F-35», onde além dos delírios de grandeza se troca o F-16, o caça que se pretende substituir, pelo F-35. 

E estamos nisto.

28/09/2025

CASE STUDY: O que nos diz o ranking das escolas de ensino secundário (1)

Usando os dados do «Ranking das Escolas 2024 por escola, concelho ou disciplina no 9.º ano e secundário, com base nas notas dos exames» publicados em Abril pelo Observador (em parceria com a Nova SBE), calculei os valores de alguns indicadores estatísticos para extrair conclusões relativas à dicotomia escolas públicas-escolas privadas, escolas nas grandes regiões metropolitanas e fora delas, quer em termos de qualidade de ensino (ou mais exactamente da qualidade medida pelas notas de exame), quer da tendência para sobrevalorizar as "notas internas".  

A primeira evidência é a confirmação de que a média de exame nas escolas privadas é claramente superior à das escolas públicas - no ano lectivo passado a diferença foi de 2,14 pontos (13,50-11,36). 


A segunda evidência é, ao contrário da ideia generalizada de que as escolas privadas "esticam" as notas internas mais do que as escolas públicas, que o "esticanço" é mais acentuado nas públicas (3,21 contra 2,24).

Não surpreende, pois, que as escolas privadas dominem entre as escolas com melhores médias de exame  - 39 das primeiras 40 escolas são privadas.


Nem surpreende que as escolas públicas dominem entre as escolas com piores médias de exame - 38 das últimas 40 escolas são públicas.

O que pode ser mais inesperado é constatar que são as piores escolas, quer privadas quer públicas, que "esticam" muito mais as notas dos seus alunos. No conjunto, o "esticanço" de 1,21 pontos nas melhores, aumenta para 4,90 pontos nas piores, mantendo-se maior, num caso e noutro, o "esticanço" das escolas públicas.

O que se pode concluir até aqui? Pelos menos duas coisas: melhores resultados das escolas privadas e tendência das piores escolas "compensarem" os seus alunos com uma avaliação menos exigente.

___________

(Continua)

20/09/2025

Dúvidas (357) - Que interessam essas merdas que ocorrem nos EUA?

Assim de repente e se por misericórdia admitisse que não há perguntas idiotas e tivesse de responder a esta pergunta, diria que as merdas que ocorrem num país que representa mais de um quarto da economia mundial, tem o exército mais poderoso, é o terceiro país mais populoso e tem uma cultura com enorme influência no resto do mundo, devem interessar a qualquer criatura, até mesmo a uma criatura que viva a olhar para o umbigo num Portugal dos Pequeninos representado no diagrama seguinte por baixo da seta branca. 


E acrescentaria que, no caso particular deste blogue, as merdas que ocorrem nos EUA parecem também interessar aos habitantes dos países que aqui fizeram 540 mil visitas nos últimos 12 meses.

Blogspot 

Por isso, a resposta é: interessam imenso.

17/09/2025

CASE STUDY: Nos Estados Unidos a direita recorre mais à violência do que a esquerda

Fonte

Antes que as almas de direita se comecem a indignar e as de esquerda a festejar, convirá saber que o gráfico acima foi construído com base nos dados recolhidos por The Prosecution Project, «uma plataforma de pesquisa de inteligência de código aberto de longo prazo que rastreia e fornece uma análise de casos criminais envolvendo violência política ilegal que ocorrem nos Estados Unidos desde 1990».

Esses dados reflectem queixas criminais, acusações e registros judiciais de crimes que visam uma mudança sociopolítica ou transmitir uma opinião política para uma audiência externa, e referem-se apenas ao número de casos identificados sem considerar a gravidade nem o número de vítimas (por isso o ano de 2001 em que ocorreu o atentado das Torres Gémeas que causa cerca de 3 mil mortos parece um ano "normal").

04/06/2025

Pro memoria (443) - Os cortes no orçamento federal anunciados pelo Sr. Musk podem ser um bocadinho magalómanos... e o défice pode ainda aumentar

Continuação de Os cortes no orçamento federal anunciados pelo Sr. Musk podem ser um bocadinho magalómanos

Recordemos que o Sr. Musk garantiu o ano passado num comício MAGAlómano no Madison Square Garden que iria cortar um terço do orçamento federal anual de US$ 7 biliões, o equivalente a US$ 2,3 biliões (2.300.000.000.000) e que as últimas estimativas apontam para cortes que não devem ultrapassar os 150 a 170 milhões.

Por muito paradoxal que seja a acção do DOGE, ainda mais paradoxal é que, entre o pork barrel e o prolongamento das redução de taxas sobre o rendimento introduzidas no primeiro mandato de Donald Trump, do que está em discussão no Congresso podem resultar incrementos das despesas federais e redução dos impostos que acrescentarão à dívida biliões de dólares.

The Cost of BIG, BEAUTIFUL DEBT (fonte)

Em resultado, várias agências reviram em baixa a classificação de crédito da dívida americana que perdeu o triple A pela primeira vez em décadas. É mais um exemplo notável das leis Merton de unintended consequences de que a administração MAGAlómana nos tem dado inúmeros exemplos.

Como corolário a lei de Merton, Elon Musk, o mentor do DOGE, saltou em andamento do comboio do MAGA com um post bombástico na sua rede X:

«I’m sorry, but I just can’t stand it anymore. This massive, outrageous, pork-filled Congressional spending bill is a disgusting abomination. Shame on those who voted for it: you know you did wrong. You know it.»

E assim terminou uma GREAT and BEAUTIFUL friendship.

17/05/2025

Olhe que não Dr.ª Mortágua. Taxar os ricos não "alivia quem trabalha"...

«‘Tax the rich’ comes the familiar cry from the left – but what happens when the rich leave? As Michael Simmons observes in this week’s cover piece, Britain is becoming an increasingly inhospitable place for the wealthy and, unsurprisingly, many are voting with their feet. Since 2016, more than 30,000 millionaires have left the UK – an exodus unmatched in the developed world. It’s not easy to muster sympathy for the ultra-rich. But the uncomfortable truth is that Britain depends on them: the top 1 per cent of earners contribute nearly 30 per cent of all income tax. The Treasury thought it could squeeze the rich without consequence. It was wrong. Unless that mistake is acknowledged soon, it won’t just be the wealthy who pay the price; it will be all of us.»

Olhe que não Dr.ª Mortágua, não alivia, carrega. Se espremer demasiado os "ricos" eles emigram e serão os "pobres" a pagar mais impostos para manter o Estado sucial.