Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
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22/03/2023

Da paixão socialista pela ópera nasceu o Opart, um aborto que produz abortos

Jorge Calado, entre muitas outras coisas, como professor, cientista e investigador, um melómano em geral e um amante de ópera em especial, escreveu o que se segue sobre a obra da cóltura socialista no Teatro Nacional de São Carlos. Só posso concordar.

«Suspeito que o São Carlos seja hoje o pior teatro nacional de ópera na Europa, ignorado pelas revistas da especialidade. (...)

Além de ignorância cultural, o atual TNSC sofre do chamado ‘problema parasitário português’, definido há quase um século por Augusto Reis Machado como uma “organização caracterizada pelo predomínio de grupos de indivíduos que exclusivamente tratam dos seus interesses em detrimento dos interesses gerais”. O pecado original remonta a 2007 com a invenção do Opart ou Organismo de Produção Artística — uma hidra de sete cabeças que deveria gerir os teatros nacionais (teatro, ópera e dança) em Lisboa e no Porto, e ‘o mais que adiante se veria’. Para desgraça da ópera, ficou com o São Carlos, funcionando como agência de jobs for the boys and girls. (Compare-se o número de funcionários do Teatro antes e depois e as respetivas produtividades.) Recordo apenas que os primeiros administradores nomeados se dirigiram ao São Luiz para tomar posse, pensando que era o São Carlos; houve depois um administrador que se mudou para Madrid (creio que por razões sentimentais), obrigando um funcionário do teatro a ir lá regularmente para assinatura da papelada. Outros têm usado as mais-valias do edifício, incluindo o Salão Nobre, para os seus negócios particulares, etc.

Decorre agora um concurso internacional (?), com um júri integralmente nacional (!) cabeceado pela presidente do Opart — juíza em causa própria? — para a nomeação da ou do próximo diretor artístico. Dos cinco elementos, apenas um é musicólogo! Quanto às 19 páginas de um arrazoado caricato intitulado ‘procedimento de seleção’ — intraduzível em língua decente — não passa de um ataque de ‘burrocracite’ aguda capaz de afugentar qualquer candidato culto, com dois dedos de inteligência. A má e delirante escrita reflete a incapacidade de pensar de quem o redigiu. Pelos lidos, ficamos a saber que acreditam que arte não é cultura (como reza o exercício prospetivo da atividade artística e cultural). Se não sabem pensar, muito menos saberão escolher. (...)

A conclusão é óbvia: deliberadamente não querem resolver o problema, para que tudo fique na mesma. Isto é, com o ignorante Opart como controleiro, à moda soviética. Serão elas e eles a determinar o que o diretor artístico fará. Nestas condições, o TNSC é irreformável. Só enxergo uma solução: começar novamente do princípio, com gente séria e capaz. Se José Sasportes vê a atual situação como comédia — na verdade, esta gente não merece mais do que troça — eu encaro-a como tragédia.»

10/02/2011

DIÁRIO DE BORDO: a maiêutica do aborto (24)

Segundo as contas da Federação Portuguesa pela Vida, o governo socrático torrou nos últimos 4 anos 100 milhões de euros para pagar os abortos e a «licença de maternidade» de 100% do vencimento. De facto, chega-se lá facilmente com 60.000 abortos a 800 € por aborto, somando-lhe as «licenças de maternidade».

No país que tem uma taxa de fertilidade insuficiente para manter a população e corta 1,4 milhões de abonos de família, será o método anti-concepcional mais caro da história da humanidade uma das grandes realizações fracturantes do estado sucial de José Sócrates?

Exercícios anteriores de maiêutica em (0), (1), (2), (*), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10), (11), (12), (13), (14), (15), (16), (17), (18), (19), (20), (21), (22) e (23).
(*) O n.º 3 abortou.

13/02/2010

DIÁRIO DE BORDO: a maiêutica do aborto (23)

Fiquei a saber que depois da liberalização do aborto pago o número de abortos aumentou mais de 50% entre o 2.º semestre de 2007 e o 1.º semestre de 2009 e que na Maternidade Alfredo da Costa quase 90% das mulheres que abortaram não usavam contraceptivos. Quem é que ficou surpreendido?

Exercícios anteriores de maiêutica em (0), (1), (2), (*), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10), (11), (12), (13), (14), (15), (16), (17), (18), (19), (20), (21) e (22).
(*) O n.º 3 abortou.

23/07/2009

DIÁRIO DE BORDO: a maiêutica do aborto (22)

Equipas de cientistas das Universidades de Maastricht e St. Radboud estudaram 100 mulheres grávidas e concluíram que os fetos têm memória de curto prazo desde pelo menos a 30.ª semana de gestação. Como nas 29 semanas anteriores acontecem igualmente fenómenos interessantes (ver aqui o que acontece nas primeiras 8 semanas), terá sido por isso que o aborto, piedosamente baptizado de IVG, não foi aprovado por 3/4 dos eleitores?

[Visto aqui]

Exercícios anteriores de maiêutica em (0), (1), (2), (*), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10), (11), (12), (13), (14), (15), (16), (17), (18), (19), (20) e (21).
(*) O n.º 3 abortou.

29/07/2007

ESTADO DE SÍTIO: o bombeiro incendiário

Ao mesmo tempo que, com uma mão, o estado napoleónico-estalinista espolia os sujeitos passivos para financiar abortos, com a outra mão o mesmo estado espolia os mesmos sujeitos passivos para financiar putativos incentivos à natalidade.

Incentivos putativos, apenas isso. Se o governo e a esquerdalhada imaginam que oferecer um aborto que custa em média 800 € aos contribuintes não é um incentivo para banalizar o aborto, como podem os mesmos imaginar que um subsídio que não atinge 800 € pode ser um incentivo à natalidade?

28/07/2007

ESTADO DE SÍTIO: capacidade instalada

Num ofício escrito em socialês dirigido ao governo regional da Madeira, o ministério da Saúde do contenente garantiu que não haveriam de faltar abortos às madeirenses, porque a maternidade (?) Alfredo da Costa «tem capacidade instalada para assegurar a aplicação da lei».

19/03/2007

SERVIÇO PÚBLICO: o aborto e a condição feminina

«NÃO acompanhei de perto a questão do referendo sobre o aborto e os esforços legislativos que se seguiram. Mas desde há mais de 20 anos que tenho um conhecimento razoável dos Estados Unidos, pelo que o melhor contributo que posso dar é, provavelmente, falar do caso americano, que em certo sentido 'vai à frente' do caso português.
O controle reprodutivo - primeiro, a generalização dos meios contraceptivos, depois, a liberalização do aborto - teve um enorme efeito na condição da mulher americana. É notável o aumento de mulheres com curso superior ou pós-graduação, com participação activa na vida política, com carreiras profissionais onde há cinquenta anos praticamente não eram vistas. É, também, notável o maior equilíbrio de funções nas relações familiares.

MAS o que também salta à vista do economista (pelo menos deste economista) é aquilo que Diane Pearce caracteriza como a 'feminização' da pobreza: o facto de as mulheres representarem uma fracção cada vez maior dos pobres.
Um estudo recente de três economistas americanas sintetiza alguns dos factos da situação actual. A taxa de pobreza em famílias com dois adultos é de 7%. Em famílias com apenas um adulto, o valor sobe para um astronómico 40.3%. Dentro deste grupo, mais de 80% corresponde a mulheres solteiras. Tudo isto aconteceu nas últimas décadas; nos anos 50, o número de mães solteiras era entre um terço e metade do número actual.

TEMOS de ser cautelosos para não confundir correlação temporal com causalidade. Mas a explicação de George Akerlof, Janet Yellen e Michael Katz parece plausível. A ideia é que o controle reprodutivo reduz o poder de negociação da mulher. Até aos anos 60, a mulher pode exigir a promessa de casamento como condição para relações pré-matrimoniais. Após o choque tecnológico-legal-social da pílula e do aborto, esta condição perde peso. De facto, o 'casamento de pena1ty' tornou-se rapidamente uma coisa do passado.
Ora, quem perde com a mudança são as mulheres que não sabem usar a pílula; ou que acham que abortar é um crime; ou que, simplesmente, querem ter filhos. Perdem porque acabam como mães solteiras - algumas por opção, certamente, mas muitas por força das circunstâncias.
A mulher ganhou com a liberalização do aborto pois agora tem maior liberdade de escolha; logo, a condição feminina melhorou com o aborto liberalizado - este argumento está errado por dois motivos. Primeiro, porque não toma em consideração os efeitos indirectos que a liberalização do aborto teve, nomeadamente ao contribuir para desvalorização do casamento. Em segundo lugar, porque se trata de um raciocínio sobre a média quando de facto o impacto do aborto liberalizado foi muito diferente entre as mulheres ricas e as mulheres pobres.

PARA um economista, esta é a ironia do debate sobre a liberalização do aborto: enquanto que a defesa das mulheres mais pobres e desprotegidas é frequentemente apontada como argumento chave, a evidência dos Estados Unidos sugere que a liberalização piorou justamente a situação das mulheres mais pobres e desprotegidas.»
O aborto e a condição feminina, Luís Cabral, professor da Universidade de NY, no SOL

13/03/2007

ARTIGO DEFUNTO: porque ri Sócrates?

A entrevista ao engenheiro Sócrates na Tabu do Sol não é uma entrevista. É um panegírico encomendado. É uma elegia amanteigada. É um paradigma do que é hoje o jornalismo de causas português e das relações promíscuas que mantém com os poderes fácticos (não só o político).

Sem querer entrar pelas veredas por onde andou o Grande Loja do Queijo Limiano, metendo o pau nos duvidosos pergaminhos académicos do senhor engenheiro, a verdade é que ficam umas dúvidas que o tom geral da entrevista só avoluma.

Onde não ficam dúvidas é sobre o valor que a vida do senhor engenheiro tem para o próprio. Com a liberalização do aborto irrestrito, confessa que alcançou uma daquelas «vitórias que valem uma vida».

12/03/2007

O IMPERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: cada Manel com sua Maria

Ultimamente não tenho publicado nesta rubrica os insultos (alguns merecidos) que tenho recebido da(o)s minhas (meus) querida(o)s detractores.

Aproveito um email de RMR com umas cócegas no ego. Publico-o para arejar esta secção que estava a ficar com mofo.
O código genético berloquista mais a penseuse cinéfila encheram-me as medidas.
Com o chorrilho de baboseiras com que a comunicação social nos brinda, precisamos de impertinências que nos venham confirmar que há mais quem pense como nós e se sente sufocar sob a almofada do politicamente correcto.
De facto, com o novíssimo ABORTEX entrámos no século XXI e, portanto, os jovens vão ter de ser educados em conformidade para não sobrecarregar os serviços. Para isso, nada como uma visão gay da vida. Em vez de ser cada Manel com sua Maria, passa ser cada uma com cada uma e cada um com cada um. Adeus, gravidez na adolescência. E nós, em matéria de "IVG" (ainda gostava que me explicassem como se interrompe aquilo que se extermina, até já procurei no seu glossário) vamos de TGV, a trezentos à hora. Qual aconselhamento, qual carapuça. Para o aborto, rapidamente e em força.
Posso até estar a ser injusta, mas quase apostava que a penseuse também "pensa" assim.
O ABORTEX merece ter entrada directa para o Glossário (work in progress).

10/03/2007

CASE STUDY: está-lhes no código genético

O Bloco de Esquerda está este fim de semana a preparar «iniciativas legislativas para a prevenção da gravidez adolescente e para tornar a Educação Sexual matéria obrigatória nas escolas». Embalado pela última vitória na guerra das causas fracturantes, o berloquismo prepara-se para iniciar mais uma batalha - a da educação sexual. Com a ecoanomia no estado em que está e estará, com as reformas a marcarem passo, com a gestão mediática a dar alguns sinais de desgaste, até pode ser que o engenheiro Sócrates embarque em mais esta batalha para distrair o eleitorado, à míngua de meios para umas obras de encher o olho e um alívio do cinto ao aproximar-se o countdown das eleições de 2009. Parece um bom complemento para a liberalização do aborto. Agora que o estado fornece os meios do aborto irrestrito, parece lógico adicionar-lhe alguma engenharia social, das almas e dos corpos, à pala de preparar as adolescentes para a contenção na utilização do serviço nacional de abortos, que os tempos estão difíceis.

Porquê esta obsessão, duma esquerda que se veste muitas vezes com roupagens libertárias, de atribuir ao estado um papel de intervenção cada vez mais intrusivo na vida privada dos cidadãos? A resposta é: está-lhes no código genético. Sabem de ciência certa que não têm qualquer chance de chegar ao poder pelo voto. Sabem que já não podem trautear os amanhãs que cantam, porque os amanhãs que cantaram no passado são hoje evocados como um requiem. Desconfiam absolutamente das famílias como lugar da educação por excelência, porque sabem que se podem convencer algumas toda a vida, não podem convencer todas, nem mesmo durante algum tempo. A família é uma instituição que nunca poderão controlar e que abominam por isso mesmo. Não há tomada de palácio de inverno que lhes valha no que respeita à família. Resta-lhe tentar controlar as escolas públicas (em grande parte já conseguem), os mídia (idem), entreter a opinião pública com as causas fracturantes e aprisionar os governos com as suas tácticas chantagistas. Nunca chegarão ao poder mas ajudarão a solapar as fundações das sociedades democráticas.

(A propósito das ambições de engenharia social sempre presentes nestes projectos de «educação social» releia-se este post antigo do Impertinências)

18/02/2007

SERVIÇO PÚBLICO: «o que é fácil torna-se frequente»

Um dos argumentos mais usados pelos adeptos da liberalização do aborto, isto é a sua despenalização e disponibilização tendencialmente gratuita no Serviço Nacional de Saúde, é que dessa política resultará uma redução do número de abortos.

É um argumento contra-intuitivo e definitivamente um insulto à inteligência de qualquer criatura que perceba minimamente como funciona a natureza humana. Imaginemos uma mulher que não tendo usado um dos muitos tipos de contraceptivos disponíveis no mercado, em farmácias, supermercados, em máquinas de venda nos bares, nas discotecas ou na rua, não tomou a pílula do dia seguinte, e decidiu abortar clandestinamente correndo os riscos e suportando os custos. Essa mesma mulher irá agora, dispondo de acesso livre e gratuito ao aborto num hospital, sem ter que dar explicações a ninguém, usar os contraceptivos que não usou no passado ou ter o filho que no passado não quis?

Não, de todo. O que irá acontecer é o que aconteceu noutras paragens - a banalização do aborto como contraceptivo. Por exemplo na Grã-Bretanha, como o Daily Telegraph relata (via Causa Liberal), ou na Rússia, para citar um caso extremo, onde o número de abortos já é superior ao número de nascimentos.

40 anos depois, os argumentos de engenharia social do esquerdismo inglês foram todos eles desmentidos. Redução do número de crianças abandonadas, «ilegítimas», sujeitas a violência, redução do número de mães adolescentes, e toda a bullshit do costume, tudo isto caiu pela base. O número de crianças abandonadas passou de 5.000 para 50.000, a Grã-Bretanha tem o número mais elevados de mães adolescentes na Europa, 1/3 dos nascimentos são actualmente fora do casamento, e o número de abortos aumentou mais de 2% por ano.

Dir-se-à que a situação actual não resultou só do aborto universal e gratuito. É verdade. É o resultado da intervenção sufocante do estado na vida dos indivíduos e da dissolução que opera nas famílias, tornadas aparentemente dispensáveis pela omnipresença do leviatã.

12/02/2007

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: interrupção voluntária da maiêutica (*)

Secção Insultos à inteligência

«Ontem Portugal mudou. Sintonizou-se com o seu tempo e com a sua identidade europeia, com a matriz contemporânea da sua civilização.»
Joana Amaral Dias, no DN

«Estivemos desde sempre determinados a prevenir e a reduzir o mais possível o recurso ao aborto. Esta foi uma das razões que nos levou a propor a despenalização da interrupção voluntária da gravidez»
Duarte Vilar (Movimento Cidadania e Responsabilidade pelo Sim), no Público

Francisco Louçã considerou hoje que no referendo à despenalização do aborto “são vitoriosos homens e mulheres que todos diferentes se juntaram no ‘sim’ para mudar a lei em Portugal” e que o país pode “entrar finalmente no século XXI”.
No Público

"A vontade do povo português" será respeitada e permitirá "consolidar um novo consenso social para combater eficazmente o aborto clandestino".
José Sócrates, no Público

Para cada um dos ex-citados 3 bourbons e 5 chateubriands.


Secção Albergue espanhol

A legislação espanhola (aprovada em 1985) é muito parecida com a portuguesa (de 1984). Despenaliza a interrupção voluntária da gravidez (IVG) em caso de violação (12 semanas), malformação fetal (22 semanas) e grave perigo para a vida ou para a saúde física ou psíquica da mulher (sem prazo). Na prática, em Espanha as mulheres abortam a pedido e em Portugal não. (Público)

Cinco afonsos para Filipe II de Espanha, I de Portugal, que terá dito: as leis em Portugal são duras, mas a prática é mole.

(*) Fica prometido que a série a maiêutica do aborto se interrompe até ao próximo referendo em 2015.

11/02/2007

DIÁRIO DE BORDO: a maiêutica do aborto (21)

Num referendo em que se pergunta «concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas 10 primeiras semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado», e os partidos representando a maioria parlamentar e o jornalismo de causas en masse se empenharam activamente na promoção do sim, o que se poderá legitimamente concluir dos resultados seguintes?
  • 58 eleitores em 100 não responderam à pergunta
  • 25 eleitores em 100 concordaram
  • 17 eleitores em 100 não concordaram
Poderemos concluir que 1 em cada 4 eleitores se aflige com a agenda das causas fracturantes?

Poderão os activistas de causas fracturantes ter esperança que dentro de 8 anos atrairão mais 1 milhão de votos e poderão então aprovar um outro sim em referendo?

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(*) O n.º 3 abortou.

10/02/2007

DIÁRIO DE BORDO: a maiêutica do aborto (20)

Não sei se gostaria de ter as certezas dos incondicionais do não e do sim. Dúvida inútil porque não as tenho.

Faço um último esforço e vou ler um blogue do sim e outro do não, coisa que até agora não tinha feito, e procuro ao acaso argumentos definitivos que me convençam. Não encontro.

Com excepção da lógica terminal pura e dura dos argumentos extremos (a mulher é dona do seu corpo versus o embrião e o feto têm um direito absoluto à vida) que encontram o seu fundamento em vulgatas dogmáticas, quase todos os outros argumentários menos simplistas formam conjuntos incoerentes facilmente refutáveis por redução ao absurdo. Se o embrião/feto têm direito absoluto à vida, porquê aceitar o aborto em certas circunstâncias? Se a mulher é dona do seu corpo e o feto não tem direitos, porquê impor limitações ao aborto até ao momento do parto?

Por instinto, sou contra a intromissão do estado na esfera privada. Mas se o embrião/feto tem (certos) direitos, a sua ofensa pertencerá à esfera privada da mãe (ou portadora, como implicitam os defensores do aborto livre)? Em caso de dúvida, defendo que o estado deve ficar de fora. Mas se já está dentro.

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(*) O n.º 3 abortou.

26/01/2007

DIÁRIO DE BORDO: a maiêutica do aborto (19)

Fazem-se campanhas pública contra o tabaco, o alcool, a violência doméstica e a favor da condução segura. Mas nunca foi feita uma campanha contra a prática de aborto. Ou seja, para a moralidade de estado que existe em Portugal fumar um cigarro é mais grave do que fazer um aborto. (Aborto, a estranha causa da esquerda, post do blasfemo João Miranda)

Porquê?

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(*) O n.º 3 abortou.

23/01/2007

DIÁRIO DE BORDO: a maiêutica do aborto (18)

«O Parlamento dinamarquês apelou ao "sim" no referendo sobre o aborto em Portugal», informou a doutora Edite Estrela num jantar-comício em Castelo Branco, segundo o Público. E se o parlamento irlandês ou o parlamento italiano apelassem ao sim? Seria uma inaceitável ingerência?

Para que não houvesse dúvidas sobre o que pensa da democracia participativa, como lhe chama, a inefável senhora terá dito que «se [o referendo] continuar em Portugal a não ter a adesão do povo, a democracia participativa está em causa». Se a doutora Estrela fosse uma adepta do não, poderia dizer que se o aborto continuar a ter a adesão da maioria dos deputados, a democracia representativa está em causa?

Terá a doutora Estrela conseguido ultrapassar o pároco de aldeia na disciplina da engenharia das almas?

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(*) O n.º 3 abortou.

12/01/2007

DIÁRIO DE BORDO: a maiêutica do aborto (17)

Para o melhor e para o pior não tenho as certezas do Convictamente NÃO! do Filtragens que hoje me chegou via email.

Até à 5.ª semana de gravidez em que o conhecimento científico actual parece mostrar que não existe ainda um cérebro e um coração, podemos falar de vida humana, isto é da vida de um ser humano? E, se não se trata ainda de vida humana, devemos considerar o aborto até às 5 semanas um crime?

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(*) O n.º 3 abortou.

06/12/2006

DIÁRIO DE BORDO: a maiêutica do aborto (16)

E o espermatozóide? Não é para aqui chamado?

E o dono do espermatozóide? Não tem direitos? E, já agora, não tem obrigações?

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(*) O n.º 3 abortou.

02/12/2006

DIÁRIO DE BORDO: a maiêutica do aborto (15)

Pode legitimar-se o aborto com vários fundamentos. O mais honesto de todos é o dos direitos da mulher. A mulher é dona do seu corpo, logo a remoção do embrião ou do feto é uma decisão da qual não tem que dar satisfações - é equivalente à remoção dum pólipo. Neste caso, Sócrates (o da maiêutica) perguntaria: sendo assim, porquê limitar o aborto às 10, ou 12 ou 16 semanas? Ou ainda, e o embrião ou o feto não têm direitos?

Há também o fundamento científico que está quase sempre implícito nos que não têm a ousadia de usar o fundamento absoluto dos direitos da mulher. O embrião ou o feto só é um ser humano quando há vida cerebral e esta começa às 12, às 16 semanas, mais tarde ou mesmo muito mais tarde, segunda a seita. Até lá, o embrião ou o feto não teria direitos. A estes Sócrates (o da maiêutica) poderia perguntar onde estão as provas disso, se não há consenso na comunidade científica? E, na dúvida, será razoável esperar 10 semanas se a mulher sabe está grávida, em média, depois de 4/5 semanas e, em caso de dúvida, pode fazer um teste que custa o equivalente a um ou dois carregamentos de telemóvel?

Temos os argumentos utilitaristas. A liberalização do aborto até às 10 semanas irá diminuir o número de abortos, dizem uns. Como assim? Quem hoje faz um aborto clandestino não o faria podendo fazê-lo gratuitamente num hospital? E quantas mulheres que hoje ponderam o risco e o desconforto material e moral contra o desconforto de um filho não desejado e acabam por aceitar a segunda alternativa, não recorreriam ao aborto gratuito em hospital?

A liberalização do aborto irá diminuir a criminalidade associada aos filhos indesejados em famílias disruptivas que mais tarde serão delinquentes, alegam outros. Talvez sim. Mas então porque não prolongar um pouco mais a lógica e a moral subjacente e aceitar a eutanásia dos jovens presumíveis futuros delinquentes?

A penalização do aborto não evita que os abortos se continuem a fazer em más condições sanitárias, com maior risco para a mulher e adicionando a sanção moral e jurídica da sociedade ao sofrimento da própria mulher (um argumento particularmente repugnante), defendem alguns. É provavelmente verdade. Mas, uma vez mais, porque não prolongar um pouco mais a lógica e a moral subjacente e defender despenalização do crime passional (por exemplo, o assassinato do marido por ciúme) cuja sanção moral e jurídica se acrescenta ao sofrimento da própria mulher?

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(*) O n.º 3 abortou.

05/11/2006

DIÁRIO DE BORDO: a maiêutica do aborto (15)

Se do referendo resultar a despenalização do aborto, serão os abortos considerados tendencialmente gratuitos? Segundo a Associação para o Planeamento da Família os abortos clandestinos serão entre 20 a 40 mil por ano. Quem irá pagar o custo dos abortos? Terão os abortos taxas moderadoras?

Será a gravidez indesejada uma doença requerendo cirurgia, como uma úlcera ou um pólipo? Serão os milhares de abortos considerados prioritários face às centenas de milhar de cirurgias em fila de espera? Ou os abortos irão esperar em média vários meses, como a maioria das cirurgias?

A pílula abortiva RU 486 custa 147,7 euros, menos de 1/5 do aborto mais baratinho (fonte: Semanário Económico). Porque não reformular a pergunta do referendo?
Concorda com o acesso tendencialmente gratuito à pílula abortiva, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas de gravidez, receitada por um médico legalmente autorizado?

Exercícios anteriores de maiêutica em (0), (1), (2), (*), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10), (11), (12), (13) e (14)
(*) O n.º 3 abortou.