Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

21/09/2017

Mitos (263) - O contrário do dogma do aquecimento global (XVII)

Outros posts desta série.

Em retrospectiva: que o debate sobre o aquecimento global, principalmente sobre o papel da intervenção humana, é muito mais um debate ideológico do que um debate científico é algo cada vez mais claro. Que nesse debate as posições tendam a extremar-se entre os defensores do aquecimento global como obra humana – normalmente gente de esquerda – e os negacionistas – normalmente gente de direita – existindo muito pouco espaço para dúvida, ou seja para uma abordagem científica, é apenas uma consequência da deslocação da discussão do campo científico, onde predomina a racionalidade, para o campo ideológico e inevitavelmente político, onde predomina a crença.

O paper «Emission budgets and pathways consistent with limiting warming to 1.5 °C» publicado há dias no nature geoscience por uma equipa internacional de 10 investigadores na maioria europeus, concluiu que, apesar de o aquecimento global ainda se estar a verificar, as previsões do aumento da temperatura global podem ter sido indevidamente exageradas, sendo ainda possível atingir o objectivo do Tratado de Paris de limitar o aumento da temperatura global «bem abaixo» de 2° C acima do nível pré-industrial.

20/09/2017

SERVIÇO PÚBLICO: A ideologia do género é a continuação de um projecto totalitário por outros meios

«A Assembleia da República discute um projeto-lei do Bloco de Esquerda que permite a mudança de sexo aos 16 anos e, no caso de os pais se oporem a esta ideia, possibilita que os menores possam intentar judicialmente contra estes. A agenda política do BE é a seguinte: promover a ambiguidade da identidade sexual e considerar normal aquilo que, na maioria dos casos, é patológico. Convém alertar as pessoas para os perigos desta aberração legislativa, pois os deputados não sabem de medicina, nem tão-pouco de psiquiatria. Os casos de perturbação de identidade sexual (disforia de género) são complexos e levam por vezes os jovens ao suicídio, pelo que este assunto deve ser tratado com uma enorme prudência. Considerar que estes casos se resolvem com um pacote legislativo, é uma visão simplista, redutora e perigosa deste problema.

A estratégia por detrás desta mutação social, que agora se pretende implementar pela via legislativa, é fazer crer que a a ideologia de género é cientificamente correta. As teses desta ideologia são apresentadas como um dado científico consensual e indiscutível, mas isto é absolutamente falso. A natureza tem regras, cabe à ciência compreendê-las e descodificá-las. Portanto, compete à ciência elaborar as teorias que ajudem a desvendar a realidade e não o contrário, como acontece na ideologia do género: elaborou-se uma teoria e para a validar procura-se alterar a realidade.

As consequências deste conflito estão à vista. Nunca como hoje se baralhou e confundiu tanto a mente de crianças e adolescentes. E isto não tem nada a ver com liberdade, mas com uma doutrinação promovida por alguns partidos que se apoderaram ideologicamente do Estado e que desejam proceder à reeducação das massas. Neste contexto, esta proposta legislativa não poderia ser mais tirânica: os pais são expulsos do processo educativo, os psiquiatras e psicólogos são totalmente desvalorizados, sendo-lhes retiradas competências, e os menores passam a ser “propriedade” do Estado que, no plano educativo e legislativo, lhes impõe um novo sistema de valores baseado na ideologia do género. »


Excerto de «A estratégia para acabar com os rapazes e as raparigas», Pedro Afonso no Observador

SERVIÇO PÚBLICO: A geringonça pode gripar

«Até agora, a aposta de António Costa em formar governo com o apoio da extrema-esquerda parlamentar tinha--se revelado um enorme sucesso. No parlamento, esses partidos nunca vacilaram no seu apoio ao governo, que em contrapartida os presenteou com a aceitação de medidas radicais de efeitos desastrosos, como o regresso ao congelamento de rendas ou o imposto Mortágua. Por seu lado, Marcelo Rebelo de Sousa abstinha-se de exercer o que quer que se parecesse com um freio ou contrapeso, nunca suscitando sequer a intervenção do Tribunal Constitucional. António Costa conseguia, assim, ter um controlo absoluto do Estado sem ter vencido as eleições.

E esse controlo estendeu-se mesmo à própria sociedade. O PCP paralisou completamente as tradicionais reivindicações sindicais, que constituíam uma dor de cabeça para qualquer governo, e o Bloco também assegurou o apoio das redacções de jornais em que tem influência. O governo não apenas dispunha do apoio de uma maioria e de um Presidente como gozava ainda de uma paz política e social sem precedentes, por muitas asneiras que fizesse. Foi assim que graves descoordenações, como a morte de 65 pessoas num incêndio florestal ou um roubo de material de guerra, passaram praticamente incólumes na imprensa, enquanto uma simples subida do rating da dívida era objecto de manchetes eufóricas.

Mas começam agora a surgir os primeiros sinais de falhanço desta solução de governo».

Excerto de «A geringonça numa encruzilhada», Luís Menezes Leitão no jornal i

19/09/2017

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: A nível nacional como a nível local

A nível nacional:

jornal Eco


jornal Eco

A nível local:

Não é que as câmaras controladas pelos outros partidos se recomendem, mas o certo é que oito das dez autarquias mais endividadas são do PS. (Público)

DIÁRIO DE BORDO: O Céu visto da Terra (17)

[Outros céus vistos de outras terras - este Céu não é um céu nem é visto da Terra mas fica em boa companhia]

Saturno fotografado em Outubro de 2016 pela sonda Cassini da NASA que nele mergulhou na 6.ª feira passada

18/09/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (101)

Outras avarias da geringonça.

Comecemos pela celebração da saída do lixo que para Costa representa «a viragem da página da austeridade que nos permitiu também agora virar a página do lixo». Que Costa tenha sido capaz de celebrar como um grande feito a melhoria do rating por uma agência que ele há dois anos considerava «lixo» com «uma gente que já demonstrou não ser minimamente credível, fiável» só confirma que o seu descaramento está à altura da sua ignorância. De facto, o upgrade da notação da S&P para BBB- (o nível mais baixo de investimento) significa que a dívida portuguesa passou em 15 de Setembro para o mesmo nível que tinha em 29-03-2011, com o resgate à vista. Como o outlook é estável isso significa adicionalmente que a S&P não prevê a curto prazo uma melhoria.

17/09/2017

ACREDITE SE QUISER: Um cruzeiro heterofóbico

«Pela primeira vez vai sair do porto de Lisboa um cruzeiro exclusivamente para gays. A partir de amanhã e durante oito dias, o navio Monarch vai passar por Madeira, La Palma, La Gomera, Tenerife, Lanzarote, terminando a viagem na Gran Canaria. Organizada pela La Demence - responsável por uma das maiores festas gay europeias que costuma ter lugar em Bruxelas -, esta é a sétima edição de uma iniciativa que já faz parte dos roteiros homossexuais anuais.

A novidade nesta iniciativa, que contará com 2200 viajantes de 85 nacionalidades - 35 deles portugueses, segundo disse ao DN a organização -, é a partida de Lisboa, considerada por várias publicações como uma das cidades mais gay friendly da Europa.» (DN)

A propósito desta espécie de heterofobia como oposto da homofobia, lembrei-me que, nos tempos em que a esquerdalhada não disfarçava as suas inclinações profundas com esta treta da ideologia dos géneros, Millor Fernandes explicava assim a diferença entre comunismo e capitalismo: «O capitalismo é a exploração do homem pelo homem. E o comunismo é exactamente o contrário.»

Pro memoria (357) – O choque com a realidade do carro eléctrico de Sócrates (IV)

[Continuação de (I), (II) e (III)]

Balanço no final de 2013:
  • Planos socráticos até 2020: 180 mil carros eléctricos e 25 mil locais de carregamento; 
  • No final de 2013 havia 1.300 pontos de carregamento normal, 50 pontos rápidos, postos que terão custado 15 milhões, e 426 carros eléctricos vendidos desde 2010 sendo 140 em 2013 até Outubro (Expresso); 
  • Desde 2010 até 2013 foram feitos 27 mil carregamentos - o que dá 555 euros de investimento por carregamento nos 1.300 pontos, equivalentes a 7 carregamentos por ponto e ano ou um carregamento em cada 52 dias.
Em 2014 foram vendidos 216 veículos eléctricos, 645 em 2015  e 756 em 2016. Em 2016 existiam cerca de 4.100 veículos eléctricos de todos os tipos (uma parte significativa do Estado ou empresas públicas) e até ao final do ano estima-se que serão cerca de 5.000 (fonte).

Comparemos Portugal com os países europeus com maior penetração de veículos eléctricos em relação a novos registos nos últimos 12 meses terminados em Julho, frota em Julho e número de postos de carregamento e número de veículos por posto de carregamento:

Noruega 31.063 ;  140.752 ; 11.520 ; 12,5
Suécia 9.413 ; 37.594 ; 4.522 ; 8,3
Bélgica 8.624 ; 24.705 ; 3.850 ; 6,4
Holanda  4.375 ; 115.210 ; 21.357 ; 5,4
Portugal  2.062 ; 5.580 ;  1.884 ; 3,0

(Fonte: novos registos e frota - EAFO ; número de postos de carregamento - ChargeMap)

Como seria de esperar também estes planos socráticos saíram furados, houve um enorme desperdício de recursos para plantar postos de abastecimento e provavelmente teremos de esperar talvez uma década para justificar a rede existente que entretanto continuará a crescer.

16/09/2017

Pro memoria (356) - O que significa a saída do lixo? Nada, segundo Costa. As agências de rating são lixo!

Costa sobre as agências de rating em Julho de 2015

«A minha classificação sobre as agências de rating é que são lixo e foi por isso, aliás, que rescindi o contrato com todas quando era presidente da câmara de Lisboa. É uma gente que já demonstrou não ser minimamente credível, fiável, que contribuíram muito gravemente para o endividamento generalizado dos Estados. das famílias, das empresas e não deram nenhum contributo sério até agora para uma gestão mais regulada do mercado de capitais. Portanto, a minha visão sobre essas instituições é péssima e acho mesmo que uma das medidas que ainda é necessário tomar na sequência desta crise é pôr ordem nessa coisa dos ratings.» (Fonte)


Costa sobre o upgrade da notação da Standard & Poor's em Setembro de 2017

«É a demonstração de que a viragem de políticas, que a viragem da página da austeridade nos permitiu também agora virar a página do lixo e que estamos no bom caminho». (Fonte)

Em conclusão

Ou bem que as agências de rating não são minimamente credíveis nem fiáveis e são lixo, ou bem que Costa não é minimamente credível nem fiável e é lixo, ou bem que umas e outro não são minimamente credíveis nem fiáveis e são lixo.

15/09/2017

NÓS VISTOS POR ELES: A Europa do Jean-Claude

Jean-Claude Juncker, o presidente da Comissão Europeia, no discurso onde anunciou a sua visão para a União Europeia disse enigmaticamente:
«Não se iludam, a Europa estende-se de Vigo a Varna. De Espanha à Bulgária»
Sendo certo que para dar uma imagem da amplitude da UE seria muito mais adequado dizer que a Europa se estende de Portugal à Estónia ou de Lisboa a Talin (uma diagonal perfeita que atravessa o centro do território da UE), o que quereria ele significar com essa imagem geográfica?

Uma explicação simples partiria do facto de ser voz corrente em Bruxelas e noutras capitais que Jean-Claude tem um «increasingly erratic behavior», não consegue ler os relatórios dos assessores nem conter a verborreia (nós também estamos bem servidos nesta matéria) e que esse comportamento se pode dever ao «cognac for breakfast». Mais do que simples, esta explicação é simplista, também porque, mesmo etilizado, um Jean-Claude, primeiro-ministro luxemburguês durante oito anos, dificilmente se esqueceria de um país cujos nacionais e seus descendentes representam 1/6 dos residentes no Luxemburgo e constituem a maior comunidade estrangeira.

A explicação de Rui Ramos constitui um bom ponto de partida para compreender o aparente lapso de Juncker e assenta em duas premissas: (1) Portugal não conta na relação de forças com o grande urso russo, outra vez com ambições de grande potência e uma ameaça sentida pela Alemanha e todos os antigos países comunistas; (2) Com todos os membros da UE na Zona Euro, como defendeu Juncker, a presença dos relapsos financeiros do Sul seria uma borbulha no rabo da União. Conclusão: «uma Europa sem Portugal é perfeitamente imaginável.»

O que é menos imaginável é a viabilidade política de uma União Europeia saída da cabeça de um eurocrata, sem nações, comandada por um «directório franco-alemão (mais alemão do que francês)», como refere RR, e administrada por legiões de apparatchiks bruxelenses.

14/09/2017

A superioridade moral imobiliária do socialismo (2)

Em retrospectiva:

Da esquerda para a direita e de cima para baixo: Héron Castilho, Lisboa (José Sócrates); Passy, 16ème, Paris (José Sócrates); Avenida da Liberdade, Lisboa (António Costa); Rua Milharada, Massamá (Pedro Passos Coelho)
Acrescente-se que o duplex de Costa na Avenida da Liberdade lhe foi arrendado entre 2012 e 2014 por 1.100€ (uma renda baixa até para um duplex na Reboleira) pela Holding Violas Ferreira, num imóvel ampliado em 2010, com Costa já presidente da câmara, contra o parecer técnico dos serviços (fonte).

Novos desenvolvimentos:

Fernando Medina, que herdou de Costa a presidência da câmara de Lisboa, é mais um socialista com olho para o negócio imobiliário. Primeiro vendeu um apartamento T3 em 2016 por 490 mil euros que lhe tinha custado dez anos antes 360 mil.

Também em 2016 comprou um apartamento duplex (a inclinação dos socialistas para o duplex...) por 645 mil euros à proprietária que tinha pago por ele 843 mil dez anos antes. A proprietária que perdeu de uma assentada quase 200 mil euros é, por acaso, um membro da família Teixeira Duarte (várias empresas da Teixeira Duarte haviam sido proprietárias do edifício, entretanto convertido em propriedade horizontal). Medina não reparou a quem comprou o apartamento porque, disse, foi-lhe proposto por uma agência, apartamento que ele pelos vistos não sabia situar-se no mesmo edifício onde o sogro (por acaso ex-ministro de Sócrates) também era proprietário de outro apartamento (bem como outros ex-ministros do CDS), apartamento que, por acaso, seis anos antes lhe custara mais cinco mil euros do que o preço pago pelo genro Medina. Também por acaso, depois disso, a câmara adjudicou sem concurso várias obras à Teixeira Duarte. (Observador, Público)

Em resumo o génio negocial de Medina permitiu-lhe em dez anos realizar uma mais-valia actual de 230 mil euros e uma mais-valia potencial de 198 mil. É obra!

Não pretendo insinuar que dos casos referidos se conclua que os socialistas envolvidos sejam corruptos - abro uma excepção para José Sócrates, tanto quanto o segredo de justiça já permitiu saber. Nada disso, pretendo apenas concluir que esses casos são exemplares das trapalhadas e dos circuitos subterrâneos do funcionamento do polvo socialista com o seu corpo entrincheirado no Estado Sucial e os seus tentáculos em todos os sectores que dele dependem.

13/09/2017

ACREDITE SE QUISER: Afinal era só um problema de falta de formação

Já sabíamos que o ministro da Defesa não sabe se alguém entrou em Tancos e no limite, pode não ter havido furto.

Ficámos agora a saber que «as avaliações pedidas pelo ministro da Defesa à segurança das instalações militares recomendam o aperfeiçoamento da formação e treino do pessoal dedicado à guarda do material militar, partilha de informação e normas comuns aos ramos. Essas avaliações foram pedidas na sequência do (alegado) assalto aos Paióis Nacionais de Tancos, em junho, que resultaram no desaparecimento de granadas, explosivos e outro armamento. Esta semana, o ministro admitiu que possa nunca ter havido um furto.»

«Está-se mesmo a ver que os rapazes precisam de umas aulas para guardar o armazém»
De onde podemos concluir que a (alegada) tropa que o Estado Sucial nos cobra para defender o (alegado) país vai precisar antes disso de umas aulas e, em qualquer caso, se tiver (alegadamente) de combater será só nas horas de expediente.

DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (45)

Outras preces.

Dando razão outra vez à crítica implícita (chapéu que Marcelo enfiou prontamente) de Cavaco Silva, que na circunstância disse algo com pertinência, o presidente dos Afectos, durante um passeio em Andorra à beira de uma ravina, note-se durante um passeio no estrangeiro, fez os seguintes comentários para a comitiva:
«Quem será a oposição ao Presidente que ama todos os portugueses? Não há oposição. Tem de ser alguém muito distraído. Com quotas de popularidade de 80 e tal por cento, tem de ser alguém muito distraído. (...)
Agora viramos à direita, coisa que eu em Portugal já não faço há algum tempo (...) De vez em quando faço, mas a direita não nota. Eu quando viro à direita em Portugal, a direita está distraída a bater na esquerda, não nota. Em vez de aproveitar, não nota
É difícil de acreditar que que isto tenha sido dito por um presidente de uma República que não seja das Bananas. Por isso, confesso que hesitei entre citar MRS na série «ACREDITE SE QUISER» ou nesta colecção do DIÁRIO DE BORDO que lhe é dedicada.

Acredito que ele mantenha quotas de popularidade de 80 e tal por cento durante meses ou anos, enquanto durar o dinheiro dos credores e dos «ricos». Não acredito que essa popularidade resista à primeira crise ao virar da esquina e antecipo que, quando o Zé Povinho se sentir outra vez miserável, o maquiavelismo de pacotilha do «catavento de opiniões erráticas» não o salvará de uma impopularidade simétrica da popularidade de hoje.

12/09/2017

CAMINHO PARA A SERVIDÃO: O Estado Sucialista d'après Costa

«Lembremos qual foi a tese que os actuais ministros e os seus aliados parlamentares trouxeram para o governo. Em 2011, num país próspero e de contas equilibradas, um bando de malfeitores neo-liberais apossou-se do poder, e começou a cortar rendimentos aos portugueses. Como recuperaram os portugueses esses rendimentos? Trabalhando, reorganizando-se, reequilibrando as contas, tornando-se mais competitivos? De modo nenhum. “Resistindo” e “lutando”, até o governo maldoso ser substituído por um governo bondoso.

Reparem: para a diminuição de rendimentos, segundo o presente governo, não houve nenhuma razão, a não ser a ideologia do governo anterior; e para a sua reposição, nenhuma outra razão, a não ser a derrota desse governo. A “luta”, e não o trabalho, é portanto o modo de adquirir proventos. É esta a cultura económica de António Costa e da sua maioria: o Estado é o grande distribuidor de rendas, e a situação de cada um depende, por isso, da sua relação com o Estado.

Toda a sociedade é explicada desta maneira. Se há ricos, é só porque o Estado não lhes cobra impostos. Se há pobres, é só porque o Estado não lhes dá subsídios. Tudo passa pelo poder político. A ideia de um esforço colectivo para aumentar a riqueza e melhorar a condição de todos é estranha a esta filosofia. A riqueza é uma quantidade constante disputada pelos vários grupos, e repartida pelo Estado de modo arbitrário, conforme a relação de forças

Com este governo, o que importa é a “luta”, Rui Ramos no Observador

Um governo à deriva (34) - No limite pode nem haver ministério da Defesa


Já tínhamos concluído que Azeredo Lopes pertence a outro governo. Concluímos agora que o ministério dele não é deste mundo.

11/09/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (100)

Outras avarias da geringonça.

«Governo nunca foi tão impopular» titula preocupado o semanário de reverência. Exagero, não é caso para preocupações. Afinal, depois de 20 meses de austeridade heterodoxa e de escândalos vários (colapso da resposta aos incêndios, roubo das armas de Tancos, etc.) o governo continua com um saldo positivo de 2,1% e o PS com 40,3% de intenções de voto.

O que é negativo é o saldo até Julho entre a receita de 8,9 mil milhões e a despesa de 9,38 mil milhões da Segurança Social. Também este saldo negativo não é preocupante porque, como diz o ministério respectivo, «em 2017, os sinais de curto prazo continuam positivos» e, segundo a doutrina da Mouse School of Business, no sistema de pensões o que importa é o curto prazo.

LASCIATE OGNI SPERANZA, VOI CH'ENTRATE: Os gestores do futuro são filhos dos gestores do passado

A revista Exame e o Fórum de Administradores e Gestores de Empresas organizaram uma espécie de concurso «40 Líderes Empresariais do Futuro». Depois de muita elaboração, o júri, uma selecção nacional com onze notáveis, escolheu 40 jovens de elevado potencial com menos de 40 anos que estão pré-destinados a serem os gestores do futuro. Uma olhadela pelos nomes da lista que pode ser vista aqui diz imenso sobre o nosso Portugal dos Pequeninos e o inbreeding característico das nossas elites o que, por sua vez, explica como o nosso Portugal é o Portugal dos Pequeninos.

10/09/2017

E o candidato a presidente da câmara de Lisboa mais photoshópico é...

Semanário de reverência

As minorias são o novo proletariado da esquerdalhada

«Por culpa do marxismo cultural, hoje quando ouvimos falar em minorias associa-se de imediato a um grupo de “coitadinhos” escravizados, maltratados e segregados pela sociedade malvada, sem qualquer hipótese de igualdade social.  Por isso, estes pseudo-defensores destes grupos impõem que o Mundo inteiro se transforme de forma radical para que essas minorias se “sintam em casa” deixando de ser minorias, o que é profundamente ERRADO.  A verdade por trás disto não é a luta por direitos mas sim  a sobrevivência de uma ideologia morta que por não ter vingado junto do proletariado, procura alimento nestas minorias que quer fazer crescer para assegurar votos. Confuso? Eu explico.

Há minorias por todo lado. Se eu for para a África, eu sou minoria porque sou branca. Se eu for para um país nórdico, eu sou minoria porque não sou loira, nem alta, nem tenho olhos azuis. Se eu for para um país muçulmano sou minoria porque sou cristã. Se eu for trabalhar para as obras sou minoria porque sou mulher. Ou seja, somos minoria ou maioria consoante o sítio onde vivemos ou trabalhamos. Mas isso faz de mim uma coitadinha? Claro que não.»

As Minorias Não São “Coitadinhos”, Cristina Miranda no Blasfémias

09/09/2017

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (52) O clube dos incréus reforçou-se (XVII)

Outras marteladas e O clube dos incréus reforçou-se.

Recapitulando:

O intervencionismo do BCE, que copiou com atraso a Fed e o BoE, adoptando o alívio quantitativo e as taxas de juro negativas ou nulas, desde o «whatever it takes» do Super Mario há 5 anos, está cada vez mais parecido como terapêutica com a sangria dos pacientes praticada pela medicina medieval para tratar qualquer doença, incluindo a anemia.

Por razões fáceis de entender, estas políticas continuam a merecer a reverência, sobretudo em países como o nosso em que o Estado vive directa e sobretudo indirectamente, pela indução de confiança nos mercados, a expensas do BCE. Proliferam assim as luminárias que vêem a União Europeia e as miríficas políticas de mutualização da dívida como o alfa e ómega da salvação sem esforço das finanças arruinadas da pátria.

Agora que passaram dez anos do espoletar da última grande crise financeira, é quase um serviço público a divulgação das visões divergentes dos incréus na bondade das políticas de injecção de dinheiro e de juros artificialmente baixos dos bancos centrais. Como é o caso (inesperado?) de Patrick Jenkins, o editor financeiro do FT num seu artigo recente se pergunta «A decade on from the financial crisis, what have we learnt?» Muito pouco, creio.

Jenkins situa as raízes da crise em 1995 com a aprovação pela administração Clinton da alteração do Community Reinvestment Act para incorporar a agenda da «habitação acessível». Precisamente nesse ano foi criado o New Century Financial focado no crédito hipotecário de alto risco (subprime) que, para potenciar um crescimento exponencial do crédito aos americanos até aí sem score suficiente, lançou a securitização empacotando milhares ou centenas de milhares de crédito de alto risco e "vendendo" os pacotes como se os riscos individuais se anulassem colectivamente - o que aconteceu foi precisamente o contrário quando estas engenharias mostraram a sua verdadeira natureza sistémica. Em Abril de 2007 o New Century Financial faliu o incêndio começou a pegar na floresta. No ano seguinte quando faliram o Northern Rock e depois o Lehman Bros ficou claro que o sistema financeiro corria o risco de colapsar.

Dez anos passados, novos focos de incêndio são já visíveis. Nos Estados Unidos o car-loan subprime tornou-se um problema potencial com o crescimento de 70% em dez anos. A China com a sua dívida total em 300% do PIB é outro problema pronto a explodir, mas é apenas uma fracção da dívida total a nível mundial que triplicou para USD 271 milhares de biliões (triliões na escala curta).

Abaixo desta camada visível temos a invisível: os triliões investidos em projectos com TIR insuficientes que foram financiados a taxas de juro insustentáveis a longo prazo, taxas que quando gradualmente se forem aproximando dos seus níveis "normais" históricos tornarão esses investimentos inviáveis.

08/09/2017

CASE STUDY: O pensamento económico da Mouse School of Economics à luz do revisionismo de Costa (2)

Continuação de (1)

Recapitulando: o pensamento económico de Costa seria, se Costa tivesse um pensamento económico para além da sua inspiração na Banda do Casaco («Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos»), fundado na doutrina dominante da Mouse School of Economics.

Concluímos também que a governação de Costa abandonou os corolários principais da doutrina, a saber: o défice das contas públicas e o défice das contas externas que eram irrelevantes passaram a ter a maior importância e a «aposta no investimento público» faleceu vítima das cativações e de outros expedientes.

Contudo, a inovação de Costa não se limitou ao abandono desses corolários. Costa, assessorado pelo Ronaldo das Finanças, criou um novo teorema no que respeita à influência da economia internacional na economia doméstica. A doutrina tradicional da Mouse School of Economics, desenvolvida por alturas da falência do Estado Sucial às mãos do Grande Líder José Sócrates, a que seguiu o resgate pela troika, consistia em explicar que a economia doméstica atravessava um período de grande prosperidade até ser atingida pela crise internacional resultante da economia de casino e do neoliberalismo e da conspiração das agências de rating.

O novo teorema, pelo contrário, postula que a economia internacional não tem qualquer influência na economia doméstica e, por isso, como corolário o «maior crescimento do século» não deve nada ao crescimento da Espanha, França, Alemanha e Reino Unido e ao crescimento das importações por esses países de bens e serviços portugueses (56% do total destinaram-se àqueles 4 países em 2016), nem ao turismo, e é fruto da adopção pelo governo do Documento dos Doze Sábios.

07/09/2017

CASE STUDY: Perguntas politicamente incorrectas podem ter respostas politicamente incorrectas (2)

As perguntas são como as cerejas. Depois destas perguntas (politicamente incorrectas) e destas tentativas de respostas (politicamente incorrectas), surgem outras perguntas: porquê os negros, além de mais pobres, são mais vítimas de assassinatos?

Quão mais? Em cinquenta grandes cidades americanas a taxa de assassinatos dos negros voltou a aumentar significativamente nos últimos anos, é quatro vezes maior do que a taxa média da população dessas cidades e oito vezes maior do que a média nacional americana.

Fonte
Porquê o aumento? Há quem o explique como consequência do "efeito Ferguson" em resposta ao assassinato de Michael Brown pela polícia de Ferguson, Missouri, em 2014, potenciado pela morte de Freddie Gray pela polícia de Baltimore em 2015; efeito que teria levado as polícias a uma atitude mais passiva potenciando a criminalidade. Contudo, se esse efeito é visível nessas cidades, no resto do país não há evidência.

Em qualquer caso, porquê uma taxa de assassinatos entre os negros tão mais elevada? E porquê continua a aumentar? Em 1980 os negros representavam 56% das vítimas de assassinato e em 2015 já eram 68%. Um factor importante é a violência dos gangues de jovens negros ligados à droga. E porque não de jovens brancos ou asiáticos?

O que fazer? Não sei. Sei o que não fazer: não aplicar as receitas de engenharia social baseada em ciências ocultas e na vulgata do politicamente correcto.

06/09/2017

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (161) - Ele sabe do que fala

«Mais tarde aderi ao Partido Socialista, por ser o partido defensor da liberdade, da democracia e da justiça social, tendo acabado recentemente por também abandonar o PS ao verificar que os objectivos democráticos do partido eram mais formais do que reais e que, através de sucessivas direcções partidárias, bem como de vários governos, o PS praticava com relativo sucesso uma ideia que me repugna: de que a vontade dos cidadãos pode ser manipulada através da informação disponibilizada e de algum controlo dos meios de comunicação, onde se incluem mais modernamente as redes sociais. Tal como no PCP, ainda que de forma diferente, no PS acredita-se ser possível controlar duradouramente a vontade dos militantes e a partir daí o pensamento livre dos portugueses, usando um modelo eleitoral onde todo o poder de escolha reside na direcção dos partidos. (...)

Por outro lado, quarenta anos depois de termos um regime supostamente democrático, o atraso organizacional, económico e social de Portugal, relativamente aos outros países de democracia consolidada, aumentou. E que isso aconteceu à medida que o poder político português aprendeu a manipular a vontade dos cidadãos e a dominar o Estado e a sociedade através do enfraquecimento das suas instituições.»

O aventureirismo do poder, Henrique Neto no jornal i

CASE STUDY: Uma espécie de affirmative action do nepotismo

Aqui tratei do insucesso da affirmative action como forma de luta contra discriminação racial na admissão às faculdades e universidades americanas. Mas há outras formas sub-reptícias de discriminação. E não, não se trata da discriminação sexual, até porque actualmente as mulheres estão em maioria ou para lá caminham em muitas universidades e, mais cedo do que tarde, é até provável que seja "necessário" adoptar medidas de affirmative action sexual em benefício dos homens (brancos).

Trata-se da discriminação positiva em favor das famílias - uma espécie de nepotismo nas universidades de elite americanas. O fenómeno também existe em Portugal - por exemplo no Liceu Francês.


Veja-se o caso de Harvard, uma das oito universidades da Ivy League e a segunda mais selectiva, em que pelo menos 30% das admissões são herdadas de pais ou familiares próximos devido aos critérios explicitamente adoptados. «Among a group of similarly distinguished applicants, the daughters and sons of Harvard College alumni/ae may receive an additional look» escreve-se no site da universidade com notável frontalidade (ou falta de pudor dirão as almas sensíveis).

«The affirmative action ‘we don’t talk about’ — 30% of Harvard freshmen are legacies: survey»
Como o rácio médio de admissões na Ivy League é inferior a 10%, há todos os anos um bom número de estudantes talentosos preteridos em favor do esperma feliz, como lhes chama Warren Buffet.

05/09/2017

Pro memoria (355) - Os militantes do politicamente correcto vivem dentro de uma bolha

Lembram-se das declarações de André Ventura sobre os comportamentos dos ciganos de Loures? Essas declarações são censuráveis? Um módico de senso comum é suficiente para perceber que é conveniente separar os factos dos juízos e só refutar os segundos depois de demonstrar que os primeiros são falsos. Afinal o que disse a criatura sobre os ciganos?
  1. vivem quase exclusivamente de subsídios do Estado 
  2. acharem que estão acima das regras do Estado de direito
  3. vários munícipes queixam-se de pessoas de etnia cigana que entram nos transportes, usam os transportes e nunca pagam, e ainda geram desacatos. 
  4. A ideia de maioria e minoria inverteu-se a partir do momento em que as minorias se tornaram minorias de privilégio. Isto tem de acabar. 
  5. A etnia cigana, quer em Loures quer no resto do país, tem de interiorizar o manual do Estado de direito
  6. Na Quinta da Fonte, o comandante da polícia diz-me que são chamados lá só para serem agredidos
  7. Nada tenho contra as pessoas de etnia cigana, isto tem a ver com um grupo que acha que está acima do Estado de direito.
Sendo certo que um número considerável de portugueses vive quase exclusivamente de subsídios do Estado, alguém questionou com factos o que disse André Ventura em 1 ou em 2, 3 e 6? Não dei por isso. Sendo certo que várias outras minorias, como os LGBTQQIAAP, se tornaram minorias de privilégio, alguém questionou a razoabilidade do juízo exprimido por André Ventura em 4? Não dei por isso. Alguém defende que a etnia cigana, quer em Loures quer no resto do país, NÃO tem de interiorizar o manual do Estado de direito?

Lembram-se das reacções politicamente correctas, nomeadamente da queixa-crime dos berloquistas? Vejam-se agora os resultados de 597 entrevistas telefónicas a nível nacional realizadas nos dias 29 e 30 de Agosto (e tenha-se em conta a dificuldade cada vez maior que pessoas comuns têm em exprimir ideias diferentes do manual todos os dias trombeteado pelos militantes do politicamente correcto que ocupam os mídia):

Fonte: Negócios
O que podemos concluir? Várias coisas, das quais sublinho uma: as doutrinas dos militantes do politicamente correcto amplificadas por várias corporações profissionais, como os jornalistas e os políticos que na sua maioria vivem dentro de bolhas sem contacto com o mundo real, servem principalmente para exacerbar a xenofobia.

04/09/2017

ESTADO DE SÍTIO: Habituem-se (12) - Perpétuo é manifestamente exagerado. Talvez duradouro

Outros Habituem-se

«Esta fórmula [a geringonça] de poder perpétuo, que tem tudo para funcionar, impõe três lições sobre este novo tempo político. A primeira é que se tornou consensual que o verdadeiro poder político não está no parlamento – se estivesse, o PS ficaria entusiasmado pela possibilidade de obter uma maioria absoluta e libertar-se dos parceiros à esquerda. Ou seja, assume-se que, num país centralizado e pendurado no Estado, o controlo da máquina estatal define quem detém o poder. E, nesse sentido, o PS sozinho nunca conseguiria esse domínio, ficando nas mãos sindicais da CGTP ou dos sectores da administração central controlados pelo PCP e pelo BE, que bloqueariam as suas iniciativas. Ora, num contexto de geringonça, todas as portas se abrem.

A segunda é o reconhecimento utilitário de que, tendo PCP e BE ao seu lado, o PS esvazia a oposição política a um governo seu. Desde logo, pelas razões óbvias: os partidos mais à esquerda gerem a “rua” e definem os níveis de contestação social, podendo impor o caos ou estabelecer a paz. A “descrispação” que Marcelo saudou como vitória política resulta artificialmente desse monopólio da contestação social que PCP e BE detêm – ou seja, o ambiente social é gerado pelas conveniências desses partidos e tê-los do lado do governo é proteger o PS do desgaste da governação. Além disso, no debate parlamentar, durante décadas perdurou o entendimento de que a oposição estava a reboque de PCP e BE, partidos de protesto cuja especialidade era sovar ministros no plenário da Assembleia da República. PS e PSD habituaram-se a fazer oposição de mãos nos bolsos, à espera que chegasse a sua vez de regressar a São Bento. Ora, agora que PCP e BE trocaram as críticas ao governo pelas ovações, a direita ficou dependente de si própria na luta parlamentar – e não sabe o que fazer.

A terceira lição é que o tempo das reformas acabou. (...)

Entender que, sendo a geringonça uma força de bloqueio, a direita tem a oportunidade de se assumir como motor reformista do país – e, portanto, formar alternativa na apresentação de ideias inovadoras por sector, com bons think tanks ou até um governo sombra. E aceitar que, no contexto parlamentar, terá de começar a sujar as mãos e trabalhar mais. Já era tempo.»

«A fórmula do poder perpétuo»,  Alexandre Homem Cristo no Observador

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (99)

Outras avarias da geringonça.

Um evento trivial, uma "aula" de Cavaco Silva aos jovens aspirantes a apparatchiks do PSD, transformou-se no acontecimento da semana, graças aos barretes que o PS e o presidente dos Afectos enfiaram nas suas próprias monas, suscitando variados comentários incluindo o do presidente que, como M Jourdain dizia prosa sem o saber, garantiu não comentar fazendo um comentário surpreendentemente insípido.

Registe-se o reconhecimento em entrevista à Bloomberg do ministro Santos Silva - o que gosta de malhar na direita - que o seu governo apenas abandonou «the most orthodox austerity». De onde temos de concluir que o governo adoptou a nova austeridade socialista, baseada, como agora já sabemos, em perdões fiscais, cativações, cortes do investimento e engenharia orçamental.

Entre os vários resultados desta nova austeridade boa, temos o aumento do número de «utentes» à espera de cirurgia, número que no primeiro ano da geringonça atingiu 211 mil, com o tempo médio de espera mais alto desde 2011, isto é desde os tempos da austeridade má.

03/09/2017

ARTIGO DEFUNTO: Jornalismo de "referência" é o jornalismo de causas adoptado pelo jornal que se diz de referência (4)

Continuação de (1), (2) e (3)


O recorte do lado esquerdo é da primeira página do caderno principal do semanário de reverência e dirige-se aos leitores que se ficam pelo título e aos leitores que lêem o texto e não fazem a menor ideia de que a notação que o título diz que «melhora» é uma coisa e o outlook ("perspectiva") é outra, sendo que no conjunto estes leitores provavelmente representam a maioria, e tenta subliminarmente convencê-los de mais uma realização do governo de Costa.

O recorte do lado direito é da segunda página do caderno de economia e dirige-se aos leitores distraídos e aos que procuram ver a confirmação dos prognósticos que lhes impingiram, sendo que no conjunto também estes leitores provavelmente representam a maioria. Esta "notícia" é ainda mais pornográfica do que a outra quando confrontada com outra imprensa menos alinhada que noticia ter a dívida em Julho aumentado 100 milhões atingindo 249,2 mil milhões de euros.

Até mesmo para os padrões de alinhamento do luso-jornalismo, o semanário de reverência está a exceder-se na manipulação. Enfim, talvez estejam a tentar reestruturar os 160 milhões de dívida bancária com um empréstimo de Caixa e a rezar para melhorar a cotação das acções que perderam 60% do seu valor durante o ano passado e mesmo depois do anúncio da vendas das revistas ainda estão 40% abaixo da cotação de Janeiro do ano passado. Moral da estória: é preciso ganhar dinheiro para pagar o preço da independência.

Mitos (262) - O contrário do dogma do aquecimento global (XVI)

Outros posts desta série.

Em retrospectiva: que o debate sobre o aquecimento global, principalmente sobre o papel da intervenção humana, é muito mais um debate ideológico do que um debate científico é algo cada vez mais claro. Que nesse debate as posições tendam a extremar-se entre os defensores do aquecimento global como obra humana – normalmente gente de esquerda – e os negacionistas – normalmente gente de direita – existindo muito pouco espaço para dúvida, ou seja para uma abordagem científica, é apenas uma consequência da deslocação da discussão do campo científico, onde predomina a racionalidade, para o campo ideológico e inevitavelmente político, onde predomina a crença.

Fonte
É claro que correlação não é causalidade. É claro que, em qualquer caso, a correlação entre o número de catástrofes e a quantidade de gases com efeito de estufa na atmosfera, em particular do dióxido de carbono. não permite provar que o aumento desses gases seja a causa determinante do aumento do número e intensidade das catástrofes naturais. É ainda mais claro que nada disso permite provar que o aquecimento global (supondo que este está provado) tenha como causa determinante o aumento da quantidade de gases com efeito de estufa na atmosfera.

E também é claro que as emissões com origem humana não são as únicas a contribuir para o aumento do dióxido de carbono na atmosfera. Para ficar por Portugal, nos incêndios de 2010 até 15 de Agosto, os 70 mil hectares de floresta e mato ardidos emitiram um milhão de toneladas de CO2 equivalente, o mesmo que a 29 milhões de automóveis a viajarem de Lisboa ao Porto (estimativa da Quercus). Nos incêndios deste ano até 31 de Julho os 128 mil hectares ardidos libertaram 2,9 milhões de toneladas de CO2 (estimativa da Agência Portuguesa do Ambiente) o equivalente (segundo as contas da Quercus) a 84 milhões de automóveis a viajarem de Lisboa ao Porto ou (segundo as minhas contas) o equivalente a todos os 5,4 milhões de veículos ligeiros existentes em Portugal a circularem durante quatro ou cinco meses.

Mas, sejamos honestos, é igualmente claro que tudo isto ainda menos suporta as teses negacionistas.

02/09/2017

DIÁRIO DE BORDO: Pensamentos a propósito da luso-dificuldade de lidar com a realidade


Go, go, go, said the bird: human kind
Cannot bear very much reality.
Time past and time future
What might have been and what has been
Point to one end, which is always present. 

T. S. Eliot, Burnt Norton (No. 1 of  Four Quartets)


Reality is the leading cause of stress among those in touch with it. 

Mary Jean "Lily" Tomlin. comediante, escritora e cantora americana e, por acaso, lésbica praticante há mais de 4 décadas que simplesmente nunca sentiu necessidade de nos informar disso

ESTADO DE SÍTIO: Habituem-se (11)

Outros Habituem-se

Mais uma sondagem e mais do mesmo. As intenções de voto no PS, embora caindo ligeiramente nos últimos 2 meses, continuam 20 pontos percentuais acima das do PSD que nos últimos 12 meses foi descendo gradualmente até aos 23% actuais. Quanto à apreciação dos líderes partidários, o desastre da gestão do combate ao incêndio fez perder a Costa menos de 3 pontos em 20 possíveis.

Clique para ampliar (fonte Negócios)
O que quer isto dizer? O mesmo que as sondagens anteriores: Costa e o PS montados numa clientela eleitoral potencial de mais 5 milhões de pensionistas e funcionários públicos (3,6 milhões) e respectivos apêndices (talvez 2 milhões) que constituem a base do partido do Estado, como lhe chamava o falecido Medina Carreira, com boa imprensa garantida pelo jornalismo de causas e contando com a passividade na pior hipótese e o apoio na melhor de comunistas e berloquistas, só serão derrotados pela realidade, como até Cavaco Silva já percebeu.

Dito de outro modo, enquanto houver dinheiro para extorquir à classe média - os ricos para geringonça - e sacar aos credores, a geringonça estará de pedra e cal. Bom, pelo menos até se desintegrar por interesses inconciliáveis dos seus componentes.

E quando acabará o dinheiro? Em condições ideais, navegando à bolina da conjuntura internacional, pode durar o suficiente para Costa ganhar um segundo mandato. Só que as fragilidades são tão grandes que se o vento muda a nau começará a meter água e em pouco tempo podemos recuar a 2011 e passar de um estado de aparente prosperidade para um estado de aparente miséria e, no final, o que conta é a aparência para um eleitorado infantilizado.

A prolongada esperança de vida de Costa dará a Passos Coelho mais um tempo (saberá ele usá-lo?) se, como é provável, os seus putativos sucessores se encolherem amedrontados por uma travessia do deserto que os transformará em cadáveres políticos adiados.

01/09/2017

DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (44)

Outras preces.

«Não faço comentários sobre os meus antecessores. E quando deixar de ser Presidente não farei comentários sobre os meus sucessores» disse Marcelo Rebelo de Sousa, comentando o que o Cavaco Silva, a quem sucedeu em Belém, disse enaltecendo a ausência de verborreia de Macron, chapéu que ele entendeu lhe serviria.

Como já tinha enfiado o chapéu de ser um «um catavento de opiniões erráticas» que Passos Coelho colocou à sua disposição.

Para quem se espante de MRS ter feito o contrário do que disse publicamente antes, recorde-se que é o mesmo Marcelo que uns meses antes de ser entronizado presidente do PSD também garantiu que «só se Cristo descer à terra» se candidataria. O mesmo Marcelo que garantiu ter havido o célebre jantar com Paulo Portas com vichyssoise de entrada. O mesmo que implicitou no início do mandato que só cumpriria o primeiro e está a fazer tudo para assegurar o segundo. O mesmo que garantiu a Isabel II que, com oito anos de idade, filho de um ministro de Salazar, estava na primeira fila da plebe que na Praça do Comércio a viu passar na visita a Lisboa em 1957. O mesmo que ainda garantiu a Isabel II ter-se encontrado com ela em 1985 como «líder da oposição». O mesmo a quem o «Presidente da República Federativa do Brasil, (...) pediu para ser recebido» mas não apareceu. O mesmo que em pleno incêndio de Pedrógão Grande garantiu que «tudo está a ser feito com critério e organização», para poucos dias depois garantir que se iria «apurar tudo, mas mesmo tudo, o que houver a apurar». Ainda o mesmo Marcelo que depois de ter minimizado o desaparecimento de munições em Tancos, veio dias depois defender «uma investigação que apure tudo, factos e responsabilidades». Ah!, já quase esquecia, o mesmo que garante que «não haverá razões institucionais que limitem a capacidade de crescimento».

Não há, portanto, razões para espanto. A não ser talvez desta vez tudo se ter passado de um só fôlego.

CASE STUDY: Perguntas politicamente incorrectas podem ter respostas politicamente incorrectas

Tentando explorar respostas (politicamente incorrectas) a estas perguntas (politicamente incorrectas), em particular porque são mais pobres as zonas com maiores representações de negros e hispânicos (sendo que a resposta mais óbvia, mas não necessariamente certa, é que são mais pobres porque têm mais negros e hispânicos) e, nesse caso, porque são mais pobres negros e hispânicos?

Tentando explorar respostas, cheguei ao paper «Racial/Ethnic Differences in Non-Work at Work» de Daniel Hamermesh, Katie Genadek e Michael Burda publicado no início deste ano que, repare-se no pormenor, apesar de um tema e de conclusões politicamente incorrectas, tem uma mulher, perdão um ser humano do género feminino, entre os autores.

Seguindo, uma vez mais, o conselho de Confúcio, aqui fica um diagrama da Economist, por via da qual lá cheguei.


Para que não haja dúvidas, cito também o abstract do paper que diz o essencial:

«Evidence from the American Time Use Survey 2003-12 suggests the existence of small but statistically significant racial/ethnic differences in time spent not working at the workplace. Minorities, especially men, spend a greater fraction of their workdays not working than do white non-Hispanics. These differences are robust to the inclusion of large numbers of demographic, industry, occupation, time and geographic controls. They do not vary by union status, public-private sector attachment, pay method or age; nor do they arise from the effects of equal-employment enforcement or geographic differences in racial/ethnic representation. The findings imply that measures of the adjusted wage disadvantages of minority employees are overstated by about 10 percent.»

31/08/2017

ARTIGO DEFUNTO: A lista de Salgado (4) - Quem tem telhados de vidro não deve andar à pedrada

Continuação de (1), (2) e (3)


«Quando ainda se aguarda a divulgação da lista dos jornalistas e dos políticos avençados pelo GES, está em curso a caça às viagens pagas aos políticos e aos dirigentes dos serviços públicos. Mandará o rigor que o esforço de transparência e escrutínio seja extensível aos jornalistas que aos longo destes anos viajaram a expensas de empresas e depois publicaram peças jornalísticas. Isso é que era transparência a sério.»

António Galamba, um socialista transviado, no jornal i

Recordando:

Em Abril do ano passado o Expresso e a TVI divulgaram as primeiras informações sobre os Papéis do Panamá e na mesma ocasião foi referida a existência de uma lista de avenças e compensações pagas pelo GES a mais de uma centena de pessoas, incluindo políticos, gestores e jornalistas.

Mais tarde pressionado por o assunto ter sido morto (por causa dos jornalistas?) o Expresso publicou uma Nota Editorial onde esclareceu que «a lista de alegados pagamentos não está nos Panama Papers. Está no Ministério Público».

Seja lá onde estiver a lista de alegados pagamentos não seria possível os senhores jornalistas darem-nos a conhecer quais de entre eles estavam avençados pelo DDT?

ESTADO DE SÍTIO: Um país parasitado pelo Estado Sucial e governado por utentes da vaca marsupial pública

«Espreitando a biografias dos nossos governantes, constata-se que dos 18 ministros (incluindo o Primeiro), 12 são funcionários públicos, e aos restantes 6 pouca experiência empresarial se lhes conhece.

Convenhamos que é muito difícil para alguém a quem o emprego e o salário ao fim do mês foram sempre realidades imutáveis e sagradas perceber a ansiedade dos "portugueses", cuja vida depende em cada momento de um enorme conjunto de fatores que não controlam. (...)

Um governo insensível a esta realidade, porque a não conhece, entretém-se a impor normas e obrigações que exasperam quem as tem de cumprir e que minam a competitividade. (...)

E isto para já não falar dos poucos idiotas que um dia se lembram de fazer qualquer coisa, metendo o seu dinheirinho em qualquer negócio. O caso é logo configurado como um atentado pela miríade de "serviços públicos" (o nome só pode ser mesmo para gozar com o lorpa do cidadão) que acometem sobre o estúpido empreendedor todo o tipo de licenças, autorizações, inspeções, declarações, atestados e outra balística própria do léxico do funcionalismo.

O agravamento do fenómeno fica agora explicado ao escrutinar a origem profissional dos ministros.

Temos um Governo de funcionários públicos que derrota um país de "portugueses". Parabéns aos vencedores.»

«Portugueses, 0 - Funcionários públicos, 1», Isabel Stilwell no Negócios


Vaca marsupial pública
Tem mamas, mas não é um mamífero, muito menos uma vaca. É um gigantesco e dispendioso dispositivo de concessão de sinecuras, financiado pela extorsão duma classe de tansos chamados contribuintes. O marsúpio aloja no seu seio muitas dezenas de milhar de vitelos mamões, confortavelmente protegidos do estresse do mundo real, que produzem, com má cara e maus modos, uns vagos serviços caríssimos e de má qualidade.

30/08/2017

A maldição da tabuada (45) - O multiplicador dos alívios fiscais

Títulos do dnoticias.pt citando a agência do regime e do Observador  
Pedro Nuno Santos, aquele rapaz berloquista que entrou para o PS e é agora secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, o mesmo que in illo tempore (foi em Novembro de 2011, mas parece ter sido há décadas) se estava marimbando para os credores e faria tremer as pernas dos banqueiros alemães, esse mesmo, mostrou ser já um verdadeiro socialista, partilhando a fé no multiplicador que aplicou aos 1,6 milhões para transformar em 3,6 milhões e ao mesmo tempo evidenciando as dificuldades comuns da esquerdalhada com a aritmética elementar.

ESTÓRIA E MORAL: Quem não tem dinheiro não tem vícios nem delicatessen

Estória

Há décadas que os médicos e os dietistas vêm induzindo toda a gente, em particular os obesos e os com colesterol elevado e um risco elevado de doenças cardíacas, a adoptar uma dieta mediterrânea.

No entanto, as conclusões de um estudo da equipa italiana Moli-sani Study Investigators, baseado na análise de 18 mil indivíduos e publicado recentemente no International Journal of Epidemiology apontam noutro sentido:

«MD is associated with lower CVD risk but this relationship is confined to higher socioeconomic groups. In groups sharing similar scores of adherence to MD, diet-related disparities across socioeconomic groups persisted. These nutritional gaps may reasonably explain at least in part the socioeconomic pattern of CVD protection from the MD.»

Em suma, a dieta mediterrânica só funciona para quem tiver um alto rendimento ou uma elevada educação, isto é para quem não precisa muito dela porque não come habitualmente as comidas farta-brutos do povo ainda com memória geracional das fomes seculares.

Moral

Quem não tem dinheiro, além de não poder ter vícios (a menos que tenha crédito), também pouco lhe adiantariam as dietas saudáveis, se as adoptasse.

29/08/2017

CASE STUDY: Consequências indesejadas das políticas de affirmative action

affirmative action foi o resultado das lutas contra discriminação racial nos Estados Unidos no início dos anos 60. Começou no domínio laboral, alargou-se à discriminação de sexos e mais recentemente ao ensino universitário com decisões dos tribunais autorizando as faculdades e universidades a considerar a raça ou etnia como um factor de admissão.

Há poucos dias o NYT publicou um estudo muito bem documentado cujo título sumariza as principais conclusões: «Even With Affirmative Action, Blacks and Hispanics Are More Underrepresented at Top Colleges Than 35 Years Ago». Segundo Confúcio (ou Mao Ze Dong para os seus seguidores que hoje se sujeitam à liderança dos trotskistas no BE, o que fará Mao e Estaline rebolarem de raiva nos seus mausoléus), uma imagem vale mais do que mil palavras. Aqui ficam alguns dos diagramas que confirmam as principais conclusões.



Em consequência da affirmative action a representação dos negros e dos hispânicos diminuiu no conjunto e em especial nas admissões às faculdades e universidades «altamente selectivas», apesar de ter aumentado nas «menos selectivas». De acordo com os especialistas consultados pelo NYT «a sub-representação persistente decorre geralmente de questões de equidade que começam anteriormente. As escolas primárias e secundárias com grande número de estudantes negros e hispânicos têm menos probabilidades de ter professores experientes, cursos avançados, materiais de instrução de alta qualidade e instalações adequadas».

Nem os especialistas nem o NYT explicam porque razão outras minorias, como a asiática que aumentou a sua representação, não são afligidas por este fenómeno. Nem explicam as razões dessas escolas com grande número de estudantes negros e hispânicos terem menos probabilidade de ter professores e condições adequadas, mas parece evidente isso resulta de se situarem em zonas mais pobres. E porque são mais pobres essas zonas com maiores representações de negros e hispânicos (mais dos primeiros do que dos segundos)? A resposta mais óbvia é que são mais pobres porque têm mais negros e hispânicos. E porque negros e hispânicos são mais pobres? Porque vivem em zonas mais pobres?

Deixando a circularidade argumentativa, o que me parece claro é que estes problemas de desigualdade não se resolvem com a engenharia social baseada em ciências ocultas e na vulgata do politicamente correcto.

SERVIÇO PÚBLICO: Da próxima vez também não vai ser diferente (10)

[Uma espécie de continuação de «Too big to fail» - another financial volcanic eruption in the making (1) e (2) e de «Da próxima vez também não vai ser diferente»]


No conjunto, os países da UE28, incluindo a Noruega, atravessaram 50 crises económicas desde 1970, com o máximo a ser atingido em 2009 quando 18 países simultaneamente tiveram crises sistémicas nos mercados bancário, soberano, monetário e de capitais.

Repare-se que a criação do euro, que se esperavam criasse maior estabilidade sistémica, pelo contrário amplificou a instabilidade - ainda que em boa verdade a crise internacional de 2008 a tivesse potenciado.

Da próxima vez vai ser diferente? Depois de vários anos de alívio quantitativo, com o BCE a despejar dinheiro na Zona Euro e a reduzir as taxas a zero, exponenciando a apetência pelo risco e o investimento em projectos que serão inviáveis quando as taxas voltarem à normalidade histórica, é caso para dizer que não só não vai ser diferente como será provavelmente pior.

28/08/2017

Pro memoria (354) - Liberdade de imprensa segundo os líderes socialistas

Por falar em Sócrates e no seu mundo putrefacto e no vício que partilha com o «merdas do Costa», como ele lhe chamou, de tentar controlar os mídia, coisa para a qual os mídia frequentemente se põem a jeito, evoco um episódio que diz muito sobre esse vício narrado por Henrique Monteiro a propósito de um artigo do animal feroz recentemente publicado pelo Público:

«É nesta frase "jornalismo decente e honesto" que me quero centrar. Eu sei bem o que Sócrates considera jornalismo decente e honesto. É, por exemplo (e isto passou-se comigo, quando era diretor do Expresso), telefonar fora de si a pedir - mais do que pedir, um misto de implorar e exigir com ameaças - que se retire da edição um artigo a seu respeito. Era um artigo a que não quis responder, desmentir ou outra coisa qualquer. Quis apenas que fosse retirado, como se tal ato de censura fosse normal, decente ou honesto.

Do jornalismo "decente e honesto" de Sócrates faz parte, ainda, colocar condições para que se realize uma entrevista em vésperas de eleições legislativas nas quais se recandidatava a primeiro-ministro. Essa condição era uma: eu não estar presente, apesar de ser o diretor do jornal. Na verdade, sei algumas coisas sobre ele, incluindo como pessoas próximas do então chefe do governo arranjaram e-mails internos do 'Público' para tramarem Belém. 

Do jornalismo "decente e honesto" de Sócrates faz ainda parte mentir sobre o que este jornal escreveu (o que obrigou o jornal que engoliu a patranha, o 'JN', a publicar um desmentido que eu próptio enviei) e nunca se escusar por isso, não respondendo a uma carta que recebeu, apesar de enviada com protocolo que prova tê-la recebido.»

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (98)

Outras avarias da geringonça.

A semana que passou foi rica em episódios notáveis. Começo pela entrevista ao DN de uma secretária do Estado, até agora desconhecida, cujo passado se resume a colaboradora desse prodígio da sociologia marxista prof. Boaventura de Sousa Santos e a colaboradora de António Costa como MAI, como presidente da câmara de Lisboa e como chefe do governo. Em vez de falar sobre o seu pelouro, a modernização administrativa, à entrevistadora (por sinal uma ex-namorada de José Sócrates, especialista no coming out) , declarou-lhe com que sexo costuma partilhar os lençóis. O governo e a sua imprensa celebraram com brio a declaração que distraiu o povo dos incêndios, das armas de Tancos e das cativações. Por exemplo o semanário de reverência dedica toda uma página ao tema, página ilustrada com uma foto formato A4 da criatura encarnando o estereotipo andrógino característico das lésbicas.

O mesmo semanário de reverência tinha publicado uns dias antes uma outra entrevista àquele a quem José Sócrates chamava «o merdas do Costa que não tem tomates», onde o dito revelou a sua última epifania: um pacto de regime com o PSD em que nem ele próprio acredita.

27/08/2017

ACREDITE SE QUISER: Confundiram o Estado Islâmico com o Estado Espanhol

Não, os catalães não estão em guerra com a Espanha. É uma manif a pretexto dos atentados do Estado Islâmico
«Aconselho a que se revejam as fotos da manifestação de repúdio pelos atentados de Barcelona. Procurem um cartaz que condene os terroristas. Ou até o Estado Islâmico que reivindicou a autoria. Encontram-se cartazes contra Espanha, contra o Rei, contra o governo de Espanha que não tem competências sobre a segurança na Catalunha e contra a venda de armas, coisa assombrosa quando se sabe que os terroristas usaram facas, automóveis e botijas de gás. Também havia pelo menos um cartaz contra a islamofobia. Contra os terroristas eles mesmos e contra o terrorismo é que é difícil encontrar. E claro muitas papeletas a dizer que não têm medo. De facto não devem ter. O medo faz parte da sobrevivência.»

Um Post Scriptium em «O paradoxo» de Helena Matos no Observador

Lost in translation (297) - Ele queria dizer "austeridade alternativa"


Owen Jones, o comentador e activista político com um fácies de copinho-de-leite, adepto do «socialismo democrático» fabiano, que defende a convivência entre a democracia política e a propriedade social dos meios de produção, convivência cuja inviabilidade a história já mostrou abundantemente, escreveu no Guardian, um locus onde se podem encontrar muitos outros adeptos da mesma doutrina, um artigo sobre a experiência da geringonça lusitana onde tenta demonstrar a justeza do título.

Alguém deveria explicar ao jovem Jones que a alternativa de Costa à austeridade, com os seus aumentos de impostos, perdões fiscais, cativações, cortes do investimento e aldrabices no orçamento e nas contas, é mais exactamente uma «austeridade alternativa».

E se ele pensa que that lie has now been nailed deve ser porque só tem um martelo e vê tudo como pregos.

26/08/2017

Pro memoria (353) – Sócrates e o seu mundo putrefacto, o «merdas do Costa que não tem tomates», a amiga Clara que «fez o seu melhor», o mano Costa que achou um grande texto e o agente duplo Galamba

[Como que uma sequela daqui]

Saíste-me cá um merdas sem tomates... 
António Costa também não é esquecido na conversa. Guilherme Dray lamenta a sua ausência nas cadeiras da frente: «Foi pena o Costa. Parece que não conseguiu entrar... ». Mas o interlocutor, de ego insuflado, interrompe-o: «Ele é um m**das. Tinha lugar mesmo à minha frente, ainda o foram buscar à fila, mas ele não quis entrar. É porque já não ia com vontade...».

Dois dias depois, numa conversa com o amigo e deputado Renato Sampaio, José Sócrates volta à carga: «Os da direita estão cheios de medo [de mim] e o m**das do Costa está cheio de ciúmes». Voltar à liderança do partido e às rédeas do poder era para ele, mais do que uma prioridade, uma 'predestinação' de um homem criado na província. 

O chefe que a direita queria ter
Foi esta ideia, aliás, que fez passar numa entrevista ao Expresso, dias antes de o livro ser lançado. O jornal promoveu abundantemente a entrevista no seu site, destacando algumas frases. Numa delas, Sócrates afirmava ser «o chefe democrático que a direita sempre quis ter». A 'esquerda' do PS não gostou. E os comentários choveram nas redes sociais. (…)

E Peixoto receia que Clara Ferreira Alves, autora da entrevista, pregue alguma rasteira. Mas Sócrates prevenira-se: «Falei com o Mário Soares, que falou com a Clara, que lhe disse que eu não tinha de ficar preocupado porque ela fez o seu melhor. E o Ricardo Costa até me disse que estava um grande texto». (…)

Neste grupo, porém, havia agentes duplos. Galamba mantém relações com Sócrates mas também com Costa. Em março, por exemplo, António Peixoto reencaminha a Sócrates um sms enviado por João Galamba a António Costa, e transmite-lhe uma informação que Galamba lhe passara: «Disse-me que o Costa quer chegar a primeiro-ministro e não a Presidente da República».

E Sócrates, que não encontrava ninguém para esse cargo melhor do que ele próprio, conclui: «O Costa não tem 'tomates' para isso».

Excertos de um artigo do jornal SOL transcrevendo e comentando as escutas da Operação Marquês

Proposta de petição para demolição de um símbolo do fascismo


Quarenta e três anos depois da queda do fascismo ainda existem em Portugal monumentos glorificando o Estado Novo, insultando o Povo português e a memória de gerações de luta contra a ditadura e afrontando o espírito da democracia implantada pela Revolução do 25 Abril, obra do glorioso MFA em aliança com as Forças Democráticas e o Povo Português.

Comício na Fonte Luminosa no dia 19 de Julho de 1975 das forças da reacção em aliança com a Igreja
onde os líderes da Forças Progressistas foram chamados «paranóicos» e «dementados»
Nós os abaixo assinados, inspirados e identificados com a dinâmica progressista de remoção de símbolos do colonialismo, do supremacismo, da discriminação de géneros e de minorias, exigimos a demolição da Fonte Luminosa, símbolo do Estado Novo fascista, utilizado pelas forças anti-progressistas e reaccionárias para combater as conquistas do 25 de Abril.

DIÁRIO DE BORDO: O Céu visto da terra (16)

[Outros céus vistos de outras terras]

Foto "artística" da estrela gigante Antares da constelação Escorpião, a mais detalhada até hoje, tirada há poucos dias pelo Very Large Telescope Interferometer do European Southern Observatory

25/08/2017

SERVIÇO PÚBLICO: O politicamente correcto e o sexo dos anjos; perdão, o género dos anjos


«Há ainda um aspecto significativo: de todas as tendências ocidentais, esta é a única que não tem aspirações universais. Os seus defensores, que combatem a separação entre brinquedos para meninos e meninas, nada têm a dizer sobre a segregação dos sexos nas comunidades islâmicas. A barbie indigna-os, mas a burqa não lhes diz nada. O politicamente correcto é um sinal do que pode vir a ser um Ocidente em declínio: uma aglomeração paroquial de pequenos lóbis identitários, em disputas absurdas, sob a vigilância de um poder despótico. Parece que era assim Bizâncio antes da conquista muçulmana.»

«A lógica civilizacional do politicamente correcto», Rui Ramos no Observador

Nota (moi a mostrar erudição barata): «Discutir o sexo dos anjos» era o que faziam os teólogos em Bizâncio (Constantinopla) enquanto a cidade estava prestes a ser dominada pelos bárbaros. Bárbaros que na circunstância eram os turcos otomanos, referência que me condenaria pela tropa do politicamente correcto - se por acaso eles ousassem entrar nesta fortaleza do politicamente incorrecto.

CAMINHO PARA A SERVIDÃO: News-speak, exemplos recentes


George Orwell no seu «1984» imaginou uma nova língua (newspeak) criada no estado totalitário Oceania (uma União Soviética ficcionada) para controlar o pensamento dos indivíduos prevenindo o crimethink - um pensamento desviante do Partido – e pastoreando-os para o goodthinkful.

Foi por isso que no Glossário das Impertinências inserimos o termo news-speak hifenizando a palavra inventada por Orwell porque hoje é nos newspapers que se acolhe o jornalismo de causas e se amplifica a voz dos que fazem o papel dos censores da Oceania.

Alguns exemplos recentes fora da jangada de pedra (um destes dias adiciono à lista exemplos domésticos):

Em Charlottesville um «afro-americano» estudante de liceu promoveu uma petição para retirar do Emancipation Park uma estátua de Robert Lee, um herói da Guerra de Secessão, general do exército dos Estados Confederados sobre o qual Dwight D. Eisenhower, presidente dos EU e herói da II Guerra Mundial, disse o que disse. O Conselho Municipal de Charlottesville votou por maioria a favor da venda da estátua e um juiz embargou-a. O episódio deu um pretexto à alt-right para fazer o que fez, o que, por sua vez, deu um pretexto à alt-left de fazer o que fez. Tudo isto deu ondas de indignação convenientemente espalhadas pelo jornalismo de causas.

Chico Buarque, um conhecido autor e cantor brasileiro, publicou um novo álbum incluindo a canção «Tua Cantiga» com os versos «Quando teu coração suplicar / Ou quando teu capricho exigir / Largo mulher e filhos / E de joelhos / Vou te seguir». Foi suficiente para ser acusado de machismo pelo politicamente correcto tropical, apesar dos seus pergaminhos de adepto de Lula e do PT.

O engenheiro de software James Damore foi despedido depois de escrever um memo onde expunha a sua visão das diferenças entre os sexos e criticava o ambiente interno da Google adverso às ideias desalinhadas com os estereótipos do «género» adoptados pelos dirigentes da Google.

A direcção da universidade de Yale, uma das oito da Ivy League, censurou uma escultura no campus representando um índio armado e um puritano por ter sido considerada uma imagem "hostil" pela revista dos alunos da Ivy League.