Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

05/12/2020

Pro memoria (407) - Eduardo Lourenço, um português desalinhado

«Os Portugueses vivem em permanente representação, tão obsessivo é neles o sentimento de fragilidade íntima inconsciente e a correspondente vontade de a compensar com o desejo de fazer boa figura, a título pessoal ou colectivo. A reserva e a modéstia que parecem constituir a nossa segunda natureza escondem na maioria de nós uma vontade de exibição que toca as raias da paranoia, exibição trágica, não aquela desinibida que é característica de sociedades em que o abismo entre o que se é e o que se deve parecer não atinge o grau patológico que existe entre nós».
Eduardo Lourenço, um dos poucos que compreendeu e teve a coragem de dissecar a "alma" portuguesa moldada por elites merdosas que fingem venerar o povo para darem graxa a si próprias

O Dr. Costa que se cuide. Se os seus aliados comunistas o virem como um obstáculo à revolução poderá acabar encostado ao paredão

O Dr. Costa que condena acordos com o Chega, «um partido da direita xenófoba», faz acordos com um partido onde no seu XXI Congresso o dirigente Albano Nunes, membro da comissão central de controlo, faz um discurso onde mostra o apego do seu partido à democracia:  

«Mas o capitalismo não cai por si, tem de ser derrubado pela força. Também aqui a prática confirma as grandes teses do marxismo-leninismo relativas à revolução, à teoria da luta de classes, ao papel das massas e da sua luta como motor da revolução, à missão histórica da classe operária, à necessidade do partido de novo tipo, ao Estado como questão central de cada revolução, à socialização dos grandes meios de produção, ao internacionalismo proletário. A história do movimento comunista e revolucionário internacional mostra que é na aplicação viva e criadora dos princípios fundamentais do marxismo-leninismo que se fortalecem os partidos comunistas e que, pelo contrário, o afastamento deles tal como a sua consideração dogmática, conduz à degenerescência e à derrota.»

04/12/2020

Títulos inspirados (90) - Semanário de reverência, uma longa experiência a fazer títulos

ARTIGO DEFUNTO: Um swap sobre os factos (2)

Jornal de Negócios

A "notícia" acima tenta induzir nos leitores distraídos e mal informados que Maria Luís Albuquerque, ministra das Finanças do governo de Passos Coelho, é responsável pelos 1,5 mil milhões. É uma espécie de reedição de uma outra de há quatro anos com o título que, escrevi então, é um excelente exemplo de como o jornalismo de causas manipula a opinião pública: «Maria Luís derrotada. Portugal condenado a pagar 1,8 mil milhões ao Santander». 

Republicando o que então escrevi, literalmente aplicável neste caso:

O que tem Maria Luís a ver com o assunto? Citando João Vieira Pereira via (Im)pertinências de há quase sete anos:

«As empresas públicas reclassificadas (aquelas que passaram a ter de consolidar as suas contas com o Estado como a RTP ou o Metro de Lisboa) fizeram 88 operações com swaps que acabaram por ser reestruturadas pelo menos 128 vezes. Estes contratos tiveram o seu expoente máximo durante o governo de José Sócrates e eram feitos para cobrir o risco das taxas de juros. Como recebiam milhões no início do contrato ajudavam as contas das empresas públicas no ano em que eram feitos. O crime (receber logo e pagar depois) foi perpetuado na altura, não agora

O que tem afinal Maria Luís a ver com os swaps? Renegociou uns e contestou outros, tentando mitigar a factura deixada pelo governo socialista resultante de operações de fixação das taxas de juro que se revelaram inúteis porque os juros desceram em vez de aumentarem. O título concordante com os factos seria: «Portugal condenado a pagar 1,8 mil milhões ao Santander pelos swaps negociados pelo governo de José Sócrates».

Quem queira aprofundar o assunto pode ler uma quinzena de posts sob a etiqueta swap.

É mais um exemplo de como no modelo negócio do PS e em particular do Dr. Costa há dois componentes essenciais: uma freguesia eleitoral composta essencialmente pelos dependentes do Estado (o Partido do Estado de que falava Medina Carreira) e uma imprensa servil e incompetente.

03/12/2020

Ser de esquerda é... (12)

... ser uma candidata presidencial impante de zelo e superioridade moral, acusar que «há vacinas, mas reservadas p/certas pessoas de certas empresas, q as compraram» e, sem um sobressalto de consciência e nem um pingo de vergonha, «tomar vacina c/ gripe, trazida por amiga de França».

Vacinas? É melhor esperarmos deitados (2)

Continuação de (1

Prometeu a Dr.ª Temido enquanto trauteava A Internacional que a vacina estaria disponível em Janeiro e, confrontada com o risco de Portugal não estar preparado para a administrar maciçamente, garantiu que esse risco é «zero». Para quem está a falhar na distribuição da vacina contra a gripe comum, que se faz há anos, é muito atrevimento fazer afirmações deste calibre.

Para aferirmos o grau de incompetência e irresponsabilidade da equipa que gere o SNS que essa displicência da ministra mostra, vejamos o que se passa nos EUA, um país que tem a medicina mais avançada do mundo e cujas farmacêuticas estão directamente envolvidas nas vacinas mais promissores e em duas cuja distribuição já tem data marcada.  

«A logística de vacinar mais de 300 milhões de americanos seria assustadora com qualquer vacina. Mas a Pfizer será “extremamente desafiadora”, diz Claire Hannan, da Association of Immunization Managers. “Não é nada como vimos antes”, diz ela. A vacina deve ser armazenada a -70 ° C, que é a temperatura em ultracongeladores raramente encontrada fora de laboratórios de pesquisa e grandes centros médicos. Para lidar com isso, a Pfizer estará distribuindo a vacina em “thermal shippers”, contentores especiais embalados com gelo seco projetados para conter entre cerca de 1.000 e 5.000 doses. (Agora está a ser projetada uma versão menor para facilitar a distribuição.) Mas o gelo seco deve ser reabastecido regularmente, o recipiente pode ser aberto apenas duas vezes ao dia e, uma vez retirada, a vacina permanece em uma geladeira comum por apenas cinco dias. Quando estiver pronto para administrar.

As pessoas que manuseiam a vacina Pfizer precisarão de treinamento extensivo, diz a Sra. Hannan. “Isso não é algo onde você pode assistir ao vídeo e então você está pronto para começar.” Ela teme que esses novos procedimentos cheguem em um momento em que os hospitais e seus funcionários estão sobrecarregados e exaustos pela enxurrada de pacientes. Por causa de todas as complexidades envolvidas, uma boa quantidade dos primeiros suprimentos de vacina da Pfizer pode deteriorar-se.

A vacina da Moderna está mais de acordo com o que os vacinadores já estão acostumados. Deve ser conservada a -20 ° C, temperatura dos frigoríficos convencionais de farmácia, conservado em geladeira comum por 30 dias, vem em embalagens de 100 doses e não necessita diluição. Esta vacina, se aprovada, seria entregue pela McKesson, um distribuidor médico que já distribui vacinas em todo o país.

Onde quer que as vacinas cheguem, os suprimentos para as vacinas devem chegar ao mesmo tempo. Eles serão distribuídos pela McKesson em embalagens pré-montadas de seringas, lenços humedecidos com álcool, luvas e outros itens necessários para cada injecção de covid-19. A Operação Warp Speed ​​tem estado a armazenar desde o verão - para evitar uma repetição do fiasco com equipamentos de protecção individual para profissionais de saúde na primavera, quando as autoridades estaduais e federais competiam entre si em uma corrida louca pelos escassos suprimentos globais.

Atualmente, os Estados e o Departamento de Defesa, que lidera a logística de distribuição da vacina, estão focados na preparação da vacina da Pfizer. As autoridades estaduais têm registrado provedores de vacinação, elaborando listas de profissionais de saúde e outros que precisam ser vacinados primeiro e criando sistemas para manter o controle das vacinas. Eles apenas começaram a fazer “ensaios clínicos”, colocando pedidos de vacinas e seringas no sistema nacional e praticando o que farão com os remetentes térmicos da Pfizer (que, por enquanto, chegam com frascos vazios). 

(...)

Esse tipo de trabalho de base, treinamento e campanha é caro. A Association of Immunisation Managers estima que, ao todo, as autoridades estaduais e locais precisarão de US $ 8,4 mil milhões. O CDC estima o total em cerca de US $ 6 mil milhões.» 

Estais a ver o governo do Dr. Costa, que nem as estatísticas da Covid consegue acertar, a administrar as vacinas em Janeiro com risco zero?

02/12/2020

Mitos (307) - Os amantes dos animais não são necessariamente melhores pessoas

 «"A nossa exigência é que, de uma vez por todas, se ponha fim à exploração animal. Ainda nos encontramos num deserto de brutalidade e também de sadismo. A vivissecção deve ser vista como uma atividade criminosa." Essas palavras, que tão facilmente poderiam vir da literatura da Animal Liberation Front (ALF), ou mesmo de qualquer uma das dezenas de organizações que hoje se opõem ao uso de animais para pesquisas médicas, vêm de um documento emitido pelo Partido Nazista em 1933. Adolf Hitler, além de ser um vegetariano dedicado e apaixonado por cães, se opôs ao uso de animais para experimentos e Goering proibiu a vivissecção na Prússia em agosto de 1933, ordenando que "pessoas que realizar vivissecções em animais serão deportados para campos de concentração ”.

Os amantes dos animais frequentemente acabam odiando as pessoas. É uma associação psicológica que conecta terroristas animais contemporâneos como a ALF a seus antepassados na Alemanha de Hitler. Os nazistas insistiram que a ideia de que os animais não tinham direitos era uma "tradição judaica". Em vez de usar animais, eles preferiram realizar experimentos em homens, mulheres e crianças vivos e não anestesiados. O sentimento continua vivo na Alemanha de hoje, onde um grupo de extrema direita usa o slogan: "Fim dos experimentos com animais! Use os turcos." A superioridade moral de fazer experiências com pessoas não é universalmente aceita dentro da ALF britânica, embora a posição seja um desenvolvimento lógico da visão, expressa pelo assessor de imprensa da ALF, de que "a única violência que condenamos é a violência contra animais".

Ainda assim, como este jornal noticia hoje, a ALF certamente concorda com Goering sobre a necessidade de se livrar dos vivisseccionistas. Os membros frequentemente afirmam que gostariam que "todos os vivisseccionistas morressem" e eles bombardearam carros e enviaram cartas-bomba para tentar garantir que alguns deles morressem. Como parte da campanha atual, eles deixam mensagens nas secretárias eletrônicas de pessoas conhecidas por fazer experiências em animais, dizendo: "Espero que você morra de câncer e sua esposa e filhos morram de câncer também" ou "Você deveria ter sido abortado como um feto. "

A decisão da ALF de visar estabelecimentos que usam animais em pesquisas médicas, em vez de fazendas e matadouros, não faz sentido, dado seu objetivo proclamado de reduzir o sofrimento animal: 800 milhões de animais são mortos na Grã-Bretanha anualmente para alimentação, em comparação com os 2,6 milhões usados ​​para pesquisa médica - todos os quais vivem e morrem em condições muito melhores do que os animais que comemos. Mas a campanha da ALF foi notavelmente bem-sucedida: obrigou ao fechamento de pelo menos duas empresas que criavam animais para uso em experimentos de laboratório e quase precipitou o fechamento do Huntingdon Life Sciences, um dos maiores centros de pesquisa médica.

Como todos os grupos terroristas de sucesso, a ALF depende do apoio de milhares de pessoas que comparecem às manifestações e, acima de tudo, doam dinheiro. Dada a maldade manifesta da organização, por que tantos a apoiam? A resposta é que a maioria deles não sabe que é a ALF que está apoiando. A ALF conhece seu amante dos animais: poucos que jogariam um quilo na lata para uma organização que promete acabar com a crueldade contra os animais dariam a qualquer coisa que tivesse a palavra "Frente" em seu nome. Portanto, a ALF muda seu nome para se adequar à ocasião. No momento, os protestos fora de Huntingdon Life Sciences estão sendo organizados por um grupo que se autodenomina Stop Huntingdon Animal Cruelty, que está conectado diretamente à ALF.
»



Deveria ser claro que se amar os animais não faz de nós necessariamente melhores pessoas, não amar os animais não faz de nós necessariamente piores pessoas. Como dizia o mesmo avô, simplesmente o cu não tem a ver com as calças.

01/12/2020

"Eleições faz de conta" mostram várias coisas...

TSF

... mostram os eleitores a preferirem o original à cópia, mostram as consequências indesejadas dos delírios da esquerdalhada com o fássismo e mostram o declínio lento e o declínio rápido a caminho da irrelevância.

30/11/2020

Crónica da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa (61) - Em tempo de vírus (XXXVIII)

Avarias da geringonça e do país seguidas de asfixias

A família socialista é grande e os lugares são poucos

O Dr. Santos Silva, ministro dos NE, parece gostar ainda mais de ajudar a família socialista do que malhar na direita. Segundo o jornal SOL tem estado a nomear para Bruxelas e as embaixadas filhos de figuras socialistas, como Silva Pereira e Lacerda Machado, incluindo uma filha do tudólogo Sousa Tavares, da família por afinidade.

Não consta que o Paddy da Web Summit seja da família, ainda assim, ele é tratado como se fosse. As cláusulas do contrato que permitiriam por força das contingências da pandemia reduzir o pagamento de 11 milhões à empresa do Paddy não foram invocadas. O Dr. Medina que usa a câmara de Lisboa como a rampa de lançamento do PS, que para isso serve pelo menos desde Sampaio, deve ter fica receoso do evento mediático emigrar para outras paragens - o Paddy já anunciou que a Web Summit terá em 2022 uma versão tropical no Brasil.

Temos estes princípios. Se não gostarem temos outros

Como aqui se lembra, «no espaço de um mês, então, António Costa apontou a ruína económica do país como um tempo de aprendizagem linguística, descartou a democracia parlamentar em defesa de um fundo abutre norte-americano e negociou um Orçamento do Estado com a abstenção do Partido Comunista. Como é capaz de tamanho contorcionismo sem lesões morais ou físicas é, para mim, um enigma. Mas talvez a proeza tenha mais que ver com a natureza da plateia do que com as capacidades do artista

Caro Sebastião Bugalho, não desvalorize as comprovadas capacidades plásticas do artista.

Não há vida para além do orçamento

Com a indispensável ajuda da abstenção comunista, paga com o nihil obstat ao congresso, lá foi aprovado o OE2021 depois de votadas mais de mil propostas de alteração, entre elas a «criação de grupo de trabalho para melhoramento do acesso no setor público à Procriação Medicamente Assistida», que foi uma fatia do queijo limiano do Dr. Costa em paga do voto da ex-deputada do PAN.

Dando razão ao adágio que socialistas (e comunistas) nunca assumem a responsabilidade por coisa nenhuma, o Dr. Leão teve uma saída de sendeiro e culpou o PSD pelas coligações negativas que custaram mais de 20 milhões o que, se fosse verdade, seria ridículo porque representaria menos de 0,02% dos 100 mil milhões da despesa orçamentada.

29/11/2020

CASE STUDY: Os erros do passado geram erros no futuro. O fecho da central de Sines é uma sequela das políticas socialistas da energia

«A central a carvão de Sines é a maior e a mais eficiente da Península Ibérica.

Com o custo atual do carvão no mercado internacional, a central de Sines está em condições de produzir eletricidade a menos de 40 euros/MWh.

Mesmo com as taxas de carbono agora aplicadas pelo Governo português, e os novos impostos sobre o carvão, o custo desta eletricidade fica muitíssimo abaixo dos 380 euros/MWh que os consumidores portugueses estão condenados a pagar até 2028 pelos 600 MW de potências fotovoltaicas intermitentes a quem o Governo Sócrates concedeu umas simpáticas FIT – feed-in tariffs.

Assim, é extraordinário que a proprietária desta central, que é a EDP, pretenda encerrá-la já em 2021, e conte para isso com o apoio entusiástico do ministro do Ambiente, Matos Fernandes, e do secretário de Estado da Energia, João Galamba.

Só que as razões pelas quais a EDP quer encerrar Sines, e assim deitar ao lixo centenas de milhões de euros, não têm nada a ver com a competitividade em mercado da respetiva eletricidade.

A EDP quer fechar a central de Sines porque esta tem de enfrentar as FIT concedidas pelo Governo Sócrates a 7000 MW de potências elétricas intermitentes, eólicas e fotovoltaicas, e que têm a capacidade legal de a expulsar do mercado.

Sim, a eletricidade produzida a menos de 40 euros/MWh pode ser expulsa do mercado para o consumidor ser obrigado a pagar 380 euros/MWh de eletricidade produzida através duma FIT duma central fotovoltaica!»

Continue a ler «Da central de Sines ao hidrogénio: um atentado à economia de Portugal» de Clemente Pedro Nunes, professor do IST e especialista em energia, a quem o analfabeto Galamba, em tempos valet de chambre do animal feroz, apelidou de «aldrabão» 

28/11/2020

Ser de esquerda é... (11)

... considerar que se um preto, a quem um país com 98% de brancos concedeu a nacionalidade, proclamar «nós temos é que matar o homem branco como sugeria o Fanon. O homem branco que nos trouxe até aqui tem de ser morto (...)  é preciso matar o homem branco, assassino, colonial e racista» isso é uma linguagem simbólica e aceitável, ou mesmo recomendável, e se um branco disser que um preto que faz essa proclamação insulta quem lhe deu abrigo e lhe deve ser retirada a nacionalidade, reenviando-o para o seu país natal onde pode contribuir para fazer sair os outros pretos da miséria a que as suas elites pretas os conduziram, isso é rácismo.

Nota: Em linguagem não contaminada, um indivíduo branco designar como "preto" um indivíduo preto é precisamente o equivalente a um indivíduo preto designar como "branco" um indivíduo branco.

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Podia estar a referir-se aos berloquistas e ao papagaio-mór do reino. E talvez esteja

«Isso é a legião dos fanáticos que estão certos de serem proprietários da verdade e de encarnarem as forças do Bem – o Bem, por si só, não procura compromisso com o Mal; o Bem procura extinguir o Mal. Os fanáticos, que por definição se sentem investidos de certezas e de verdades absolutas e luminosas, travam um combate sem regras contra as pessoas que têm uma maneira diferente de ver as coisas. Não é um exclusivo português nem seremos o país mais afetado por este fundamentalismo. A sociedade está hoje abaulada por vários fundamentalismos: com os animais, com a educação cívica – apareceu logo gente disposta a rasgar as vestes para defender os valores republicanos, achando que a educação cívica tem algum préstimo no que aos valores democráticos e republicanos diz respeito. Há sempre um pelotão de fanáticos a patrulhar as ruas, as consciências, a lei e as redes sociais. É assim.

(...) mas um político não é eleito para fazer macaquices para a plateia. Se o objetivo de um político é o de colher aplauso unânime então rendeu-se e está a trair o seu mandato. Um político eleito – sobretudo um deputado, mas não só – que viva para o aplauso e para adular os eleitores, e que só pense nisso e que só trabalhe para isso, traiu o seu mandato, as instituições e a República. É apenas uma pessoa que tem um desvio qualquer de personalidade, com uma insegurança e uma necessidade absoluta de aplauso. Não foi para isso que a República foi instituída.»

Sérgio Sousa Pinto em entrevista ao Jornal Económico

27/11/2020

De pé, ó vítimas da fome! De pé, famélicos da terra! Como o capitalismo salvou da fome vítimas do comunismo

O título deste post cita os dois primeiros versos de A Internacional, o hino comunista que a ministra da Saúde, ou do SNS que seria um rótulo mais apropriado, confessou trautear quando está ansiosa. Dado o estado do SNS, há razões para acreditar que a Dr.ª Temido trauteie o hino pelo menos um par de horas por dia.

Talvez não pareça, mas a referência àqueles dois versos ocorre naturalmente quando se sabe do episódio esquecido dos anos 20 da revolução russa relatado por Douglas Smith em «The Russian Job: The Forgotten Story of How America Saved the Soviet Union from Ruin».

«Já devastada por guerras e revoluções, em 1920-22 a Rússia foi atingida por secas e enfrentou uma das piores fomes de todos os tempos na Europa. Foi parcialmente auto-induzida: aterrorizados pelo Exército Vermelho e ameaçados com requisições e execuções, os camponeses russos reduziram drasticamente as terras cultivadas, semeando o mínimo necessário para sua própria sobrevivência.

Consciente de que comida significava poder, Vladimir Lenine abandonou o comunismo de guerra em favor de uma nova política económica que substituiu a requisição por impostos e fez algumas concessões ao capitalismo. Mas era tarde demais. No final de 1921, o vasto território ao longo do Volga sucumbiu à fome e ao canibalismo.

Tendo chegado ao poder com a promessa de fornecer pão e acabar com a guerra, os bolcheviques enfrentaram a perspectiva de serem varridos pela fome. Incapazes de alimentar seu próprio povo, os líderes da revolução proletária voltaram-se para o Ocidente em busca de ajuda. Maxim Gorky, um escritor bolchevique que outrora demonizou o capitalismo americano, apelou a “todo o povo europeu e americano honesto” para “dar pão e remédios”.

Vítimas do comunismo de joelhos e com fome
O apelo atingiu Herbert Hoover, principal fundador da American Relief Administration (ARA). O futuro presidente respondeu não por simpatia pela "tirania assassina" do regime bolchevique, mas pela fé na missão - e capacidade - da América de melhorar o mundo. Se as crianças estavam morrendo de fome, a América era obrigada a aliviar seu sofrimento. “Devemos fazer alguma distinção entre o povo russo e o grupo que tomou o governo”, argumentou Hoover.

A insistência da ARA em ter uma autonomia completa deixou o governo soviético suspeito, assim como a sua promessa de ajudar sem levar em conta "raça, credo ou status social". Afinal, o regime liquidou classes inteiras de cidadãos e nacionalizou não apenas a propriedade privada, mas a vida humana. Ainda assim, dada a escolha entre perder a face ou perder o país, os bolcheviques aceitaram as condições da ARA - enquanto colocavam a operação sob vigilância da polícia secreta.

O livro de Smith não é uma história política, entretanto. É principalmente uma reconstrução das vidas daqueles homens da ARA, muitos deles com histórico militar, que por mais de dois anos e meio assumiram as funções do governo civil na Rússia, alimentando cerca de 10 milhões de pessoas. Na região do Volga, onde os moradores eram levados pela fome a ferver e comer carne humana, a ARA organizou cozinhas e transporte, distribuiu alimentos e reconstruiu hospitais.

A miséria que encontraram na Rússia deixou-os nervosos ao ponto de entrar em colapso e desespero, mas também deu significado às suas carreiras. “É apenas prestando serviço que se pode ser feliz” , escreveu um oficial da ARA. “A ajuda dada pelos americanos nunca pode ser esquecida, e a história de sua gloriosa façanha será contada pelos avós aos seus netos”, disseram-lhes russos gratos.

No entanto, a duplicidade e paranóia do governo soviético assombrou a operação da ARA até o fim. Enquanto os líderes bolcheviques publicamente cobriam os americanos com elogios e agradecimentos, a polícia secreta instruiu as autoridades locais: "Sob nenhuma circunstância haverá grandes demonstrações ou expressões de gratidão feitas em nome do povo." Assim que o trabalho russo foi concluído, as autoridades começaram a apagar toda a memória da ajuda americana.

A edição da Grande Enciclopédia Soviética de 1950 descreveu a ARA como uma frente “para atividades de espionagem e destruição e para apoiar elementos contra-revolucionários”. Os livros didáticos russos modernos mal mencionam o episódio.»

26/11/2020

Dúvidas (294) - Porque se assanha o jornalismo de causas contra a Suécia?

Títulos de algumas das muitas notícias alarmistas recentes sobre a pandemia na Suécia.
Na verdade, como o gráfico seguinte mostra a mortalidade por Covid na Suécia é até das mais moderadas. 

Nos cornos da covid

No fim do dia, o mais importante não é a mortalidade por Covid mas o excesso de mortalidade em relação à média (por exemplo dos últimos 5 anos) que revela a eficácia dos sistemas de saúde, uma vez que é possível manter artificialmente baixa a mortalidade por Covid enquanto o sistema de saúde colapsa, como é o caso português.

Excess mortality during the Coronavirus pandemic (COVID-19)

O segundo diagrama compara esse excesso de mortalidade e, como se pode ver, desde Junho o excesso da Suécia é muito menor do que o de Portugal. 

Então porque se assanha o jornalismo de causas português contra a Suécia? A explicação mais óbvia é que, sendo o jornalismo de causas português esmagadoramente de esquerda, a esquerda aprecia pouco um Estado liberal que respeita a liberdade individual que tem inspirado as medidas do governo sueco contra a pandemia.

25/11/2020

O melhor piloto de F1 ou um cavaleiro sem cavalo é um peão


Os títulos dos jornais são encomiásticos e o desempenho de Lewis Hamilton é considerado superlativo. Será mesmo? Afinal a Fórmula 1 já se corre há 70 anos e no passado houve pilotos como Juan Manuel Fangio, Jim Clark, Jackie Stewart, Alain Prost e outros. E também não podemos ignorar que o piloto é só um componente do sistema, porventura o mais importante, ainda assim, apenas um componente.

Ao pensar nisso, lembrei-me de ter lido há algum tempo o resultado de uma análise estatística dos dados históricos dos Grandes Prémios desde 1950 para estimar a importância relativa do carro e do condutor para o sucesso, usando um modelo matemático, baseado num estudo de Andrew Bell, da Universidade de Sheffield, que converte ordens de chegada em pontos e ajusta essas pontuações com vários factores incluindo o desempenho anterior de outros pilotos na corrida. Em seguida, divide os pontos entre o carro/equipa, os pilotos e todos os outros factores. O diagrama que sintetiza as conclusões mostra que a partir dos anos noventa os carros/equipas tendem a ter mais importância nos resultados, nomeadamente nos seis últimos anos em que a Mercedes se superiorizou claramente a todos as outras escuderias.

Engineers, not racers, are the true drivers of success in motor sport

Corrigida a pontuação com o referido método, o ranking dos pilotos é completamente diferente e no topo lá temos os velhos Fangio, Clark e Prost, e o "fenómeno" desceu para um menos fulgurante sexto lugar.

24/11/2020

Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay

Antes de ir às bruxas, deixem-me dizer-vos que, no meu entender, é perfeitamente legítimo que os empresários e as empresas procurem influenciar as decisões de compra dos seus clientes, sejam eles consumidores, outras empresas ou mesmo o Estado. Os processos de influência é que podem ilegítimos ou mesmo ilegais e frequentemente são-no. Um dos remédios que costuma ser usado nos países menos corruptos é a transparência, por exemplo tornando legal e regulando o lobbying.

Se até num concursozeco a tentação para fintar as regras é grande, imagine-se num negócio que pode envolver facilmente a nível planetário centenas de milhões de euros, mais do que o PIB português - é só fazer as contas, como o Guterres, mais de 7 mil milhões de humanos a multiplicar por umas dezenas de euros que será o mínimo que custará uma vacina para o SARS-COV-2. 

Neste contexto como interpretar as seguintes notícias recentes?

Trump’s Vaccine Chief Has Vast Ties to Drug Industry, Posing Possible Conflicts

US vaccine tsar calls on White House to allow contact with Biden

PR firm hired by UK vaccine tsar linked to Dominic Cummings’ father-in-law 

[Não por acaso estas notícias são provenientes de países onde o quarto poder costuma ter independência em relação aos outros poderes.]

E, por falar em influenciar, devemos acreditar que, desta vez, não está a acontecer a promiscuidade vulgar entre negócios, partidos e aparelho de Estado? Sem falar da campanha permanente nos mídia ampliando e distorcendo os riscos e os efeitos da pandemia, que isso talvez possamos levar à conta do instinto do jornalismo esquerdóide tender a promover qualquer causa que possa justificar uma maior intervenção do Estado.

23/11/2020

Crónica da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa (60) - Em tempo de vírus (XXXVII)

Avarias da geringonça e do país seguidas de asfixias

O socialismo não foi possível num só país. Será possível numa só cidade?

A semana passada foi de grande afirmação socialista do Dr. Medina, o sucessor preferido pelo Dr. Costa. Na entrevista ao programa Vichyssoise (um grande nome) da Rádio Observador, o Dr. Medina fez duas pesadas ameaças: (1) ilegalização do Chega, contribuindo assim para a promoção do Dr. Ventura, que esfregou as mãos de contente; (2) lançar uma alternativa à UberEats, com o que conseguiria uma de duas coisas, a alegria da UberEats ou a tristeza dos contribuintes que terão de pagar a factura, ou ambas.

Contudo, o Dr. Medina não faz só ameaças. Ele cumpre-as. Por exemplo a Web Summit a propósito da qual irão ser pagos 11 milhões de euros para o Paddy cobrar as inscrições pela módica quantia variando de 219 a 999 euros para um evento virtual sem nenhum impacto na hotelaria e na restauração.

Investimento público, a autoestrada mexicana do PS

Como se pode ler aqui, a estória da autoestrada mexicana é um caso de redução de três faixas estreitas para duas faixas, anunciada como aumento de 50% da largura de cada faixa com apenas redução um terço do seu número, seguida da reposição das três faixas, anunciada como um aumento de 50% do seu número.

Desta vez foi o anúncio pelo Dr. Leão do crescimento homólogo de 36,5% até Outubro do investimento público. E porquê este crescimento milagroso? Ora, porque o crescimento realizado o ano passado foi inferior ao orçamentado e o investimento público «estimado para 2020 é metade do realizado em 2010».

«Estamos preparados»

Depois de 100 mil frascos do antiviral remdesivir comprados por 35 milhões de euros, ficámos a saber que o seu uso foi desaconselhado por peritos da OMS.

Como que a explicar porque razão o excesso de mortalidade em relação à média é três vezes maior do que a mortalidade por Covid, os hospitais de Santa Maria e Pulido Valente anunciaram a suspensão as «atividades não urgentes e não prioritárias» incluindo as cirurgias. E, por falar em excesso de mortalidade, que desde o início da pandemia é de quase 9 mil mortos, quase mais 6 mil do que a média morreram em casa. Guess why.

Quanto à app Stayaway Covid que o Dr. Costa queria tornar obrigatória, na última contagem dos 185 mil infectados, os médicos criaram 9 mil códigos e deste 1.651 foram inseridos pelos "utentes".

O Dr. Centeno do BdP é o que foi o Ronaldo das Finanças?

De uma vez cumprimentou-se pelo seu «trabalho de casa feito», de outra vez ameaçou que «os níveis de dívida tornam proibitivas intervenções massivas nos apoios sociais e à economia», o que, sendo verdade, passa ao lado dele próprio ser um dos maiores responsáveis por esses níveis ao dar prioridade à compra de votos dos funcionários públicos (35 horas, reposições, etc.) em alternativa a reduzir a dívida. Também avisou o governo e em particular o Dr. Pedro Nuno Santos com a sua TAP e a sua CP e o Dr. Galamba com os seus hidrogénios que «devemos evitar a todo o custo apoiar projetos empresariais inviáveis».

A difícil convivência do socialismo com a aritmética

O Dr. Costa dá o exemplo, garantindo que 68% dos contágios são no ambiente familiar quando se concluiu que em mais de 80% dos casos se desconhece a origem do contágio. O ministério da Saúde segue o exemplo e anuncia 477 surtos em escolas quando são apenas 68. Uns e outros, acompanhados em massa por inúmeros jornalistas de causas e luminárias do regime, consideram mais grave o 1/3 de morte por Covid do que os 2/3 do excesso de mortes em que o vírus está inocente mas não o SNS do qual o governo se declara «em defesa, sempre».

Terá o convívio na geringonça com o PCP contaminado o PS com o vírus das nacionalizações?

Se o convívio do socialismo com a aritmética é difícil, o convívio com o comunismo parece mais fácil. Sempre pela mão vanguardista do Dr. Pedro Nuno Santos, primeiro foi a TAP e agora pode seguir-se os CTT. Ele já havia concluído que o «interesse do povo não foi acautelado» e agora o vice-presidente da bancada parlamentar do PS anuncia que o governo está a negociar com o PCP o controlo dos CTT pelo Estado. No lugar do accionista privado, proporia ao Dr. Pedro que ficasse de borla com todo o negócio da distribuição de correio.

Não resisto a usar este exemplo de O Insurgente que compara o Portugal do Dr. Pedro e da sua TAP, a quem proporciona torrar 1,7 mil milhões de euros dos contribuintes, com uma Noruega, com o dobro do PIB per capita e um quarto da dívida pública per capita, cujo governo recusou uma ajuda financeira à Norwegian Air porque «não seria um uso responsável de fundos públicos».

A propósito do Dr. Pedro, uma espécie de berloquista a praticar uma espécie de entrismo, as facções socialistas começam a contar as espingardas em preparação para a sucessão do Dr. Costa o que deve ter inspirado o aviso da líder parlamentar do PS: quem quiser ser da esquerda radical, este não é o partido».

A família socialista tem imenso jeito para o negócio

A relação da grande família socialista com os negócios é outro exemplo de bom convívio. Sendo certo que todos se devem presumir inocentes até se provar a culpa, no caso de uma família com o passado desta seria quase aceitável mudar o paradigma para a presunção de culpa, como caso dos leilões de energia solar em 2019 e 2020 que a Comissão Europeia está a investigar.

22/11/2020

CASE STUDY: Trumpologia (71) - Os advogados do presidente Trump alegam que Biden ganhou as eleições graças às máquinas de votação e ao software de empresas venezuelanas ligadas a George Soros

Mais trumpologia.

Agora é oficial. A equipa jurídica do presidente Trump liderada por Rudy Giuliani apresentou na conferência de imprensa de quinta-feira passada uma abundante argumentação visando provar que as eleições foram fraudulentas. Para evitar distorções dos mídia vendidos a Biden e aos democratas, ou seja toda a imprensa, incluindo a Fox News que já se passou para o campo inimigo, cito a Breitbart, a única fonte reconhecida pela campanha do presidente Trump, que descreveu os nove pontos principais apresentados por Giuliani para fundamentar a fraude eleitoral.

Sem querer diminuir os outros pontos, o número 8 é uma extraordinária alegação, to say the least, que só por si explica os suores de Giuliani:
«As máquinas de votação e software são alegadamente propriedade de empresas com ligações ao regime venezuelano e ao doador de esquerda George Soros.  Sidney Powell argumentou que os votos dos EUA estavam sendo contados no exterior, e que as máquinas de votação Dominion e o software Smartmatic eram controlados por interesses estrangeiros, manipulando algoritmos para alterar os resultados. Powell observou especificamente que os proprietários da Smartmatic incluíam dois cidadãos venezuelanos, que ela alegou terem ligações com o regime de Hugo Chávez e Nicolas Maduro.»

21/11/2020

DIÁRIO DE BORDO: Há 49 anos


Do septeto de Mile Davis fazia parte Keith Jarret, um pianista notável de que estou agora a ouvir Expectations, gravado no ano seguinte, e por isso me lembrei. No quarteto de Ornette Coleman tocava o contrabaixista Charlie Haden, igualmente notável, que a certa altura dedicou uma peça aos movimentos nacionalistas de Angola, Moçambique e Guiné. Seguiu-se a distribuição de panfletos contra a guerra colonial e um grande charivari que a polícia de choque, devidamente apupada pelos espectadores, aproveitou para invadir o pavilhão e distribuir umas cacetadas.

CASE STUDY: Rabo de Peixe ou de como os pandeireiros do socialismo querem manter pobres os pobres

Já estive nos Açores várias vezes, em particular em S. Miguel, mas, que me recorde, nunca em Rabo de Peixe, uma vila agora elevada à categoria de campo de batalha pela esquerdalhada, a pretexto do acordo de incidência parlamentar que viabilizou um governo de direita incluir o Chega.

Fiquei a saber pelo podcast Contra-Corrente de José Manuel Fernandes, conhecedor de Rabo de Peixe, que é a vila de Portugal com maior percentagens de beneficiários do RSI com uma cultura enraizada de subsídio-dependência que se acentuou quando o governo de Guterres criou o RSI. 

De tal modo o RSI agravou o problema que, segundo JMF, no ano seguinte à sua introdução a natalidade em Rabo de Peixe duplicou porque o subsídio dependia também do número de filhos. Entretanto, enquanto a população residente em Portugal se tem mantido praticamente estável com tendência para diminuir, a população de Rabo de Peixe aumentou mais de 30% de 6.652 em 1991 para 8.866 em 2011.

É neste contexto que o acordo abrangendo PSD, CDS, PPM e Chega inclui o seguinte compromisso:

«Os partidos signatários comprometem-se, durante a atual legislatura, a criar condições de desenvolvimento económico, promoção da inclusão social, laboral, de competências pessoais, sociais e profissionais, quebrando o ciclo de pobreza, permitindo reduzir até ao final da legislatura, através da inserção social e laboral, o número de beneficiários do Rendimento Social de Inserção, em idade ativa, com capacidade de trabalho, aumentando a sua colaboração com a comunidade onde estão inseridos e fiscalizando de modo eficiente a sua atribuição, considerando-se para e para o efeito a atual situação económica da região.»

Face a este compromisso que jornalistas de causas e uma parte da comentadoria, verdadeiros pandeireiros do socialismo, instalados na maioria das redacções, anunciaram o fim do mundo, primeiro em Rabo de Peixe, depois nos Açores, e, quem sabe?, em todo o Portugal, reagindo com uivos de indignação e uma campanha de agitprop a uma medida que num país civilizado seria considerada inspirado nos princípios da social-democracia.

Como o cão de Pavlov salivava reagindo à campainha, a esquerdalhada berra reagindo a qualquer tentativa de "acabar com os pobres", porque, tal como Otelo Saraiva de Carvalho - o nosso coronel Tapioca falhado - a esquerda se quer acabar com alguma coisa são os ricos, ricos que na circunstância é uma classe média esmifrada por uma carga fiscal a que, ao contrário dos verdadeiros ricos, não consegue aliviar.

20/11/2020

O Reino Unido também tem um catavento mediático


«A programme to erect statues of Boris in every town and village in the land would also “create jobs” but that doesn’t make it a sensible thing to do.» 
Dominic Lawson on Boris’s plan for a ‘green industrial revolution’. 
«Something strange is going on in Westminster: nearly every minister and Tory MP has a spring in their step. It’s not (just) the vaccine breakthrough, or the magic money tree now bearing such fruit in the back garden of HM Treasury. The liberation-of-Paris feel in locked-down Westminster is inspired by the departure of Boris Johnson’s senior Vote Leave aides, Dominic Cummings and Lee Cain. Tories of all stripes seem to think they will now get what they want. (...)

‘There’s a vacuum so everyone is trying to get their philosophy out,’ explains a Tory MP. Every faction of the party blames their woes on Cummings and most think everything will now be better. But not all people in the party are optimistic. ‘I fear it’s King Charles I,’ says one weary backbencher. ‘We get rid of the Duke of Buckingham and then realise King Charles is the bigger problem.’

There has been no shortage of palace intrigue in No. 10 in recent days. After Cain’s appointment as chief of staff was blocked by figures who included the Prime Minister’s fiancée, Downing Street has seemed more like a comic opera than a place of high office. We have heard about Symonds being nicknamed ‘Princess Nut Nut’, to make fun of her allegedly demanding behaviour and demeanour; and we have heard claims that Cummings oversaw a macho culture of rule by fear. ‘It’s been excruciating,’ says a long-standing No. 10 aide. Now, days before the deadline for a Brexit deal with the EU, Cummings has gone. (...)

 ‘There are no disasters, just opportunities,’ the Prime Minister once said. ‘And, indeed, opportunities for fresh disasters.’ He became leader after the last Tory disaster and hired Cummings to rescue him. Now he just has himself.

Perhaps this is why so many in government now openly discuss who the next leader might be. ‘I’d give him 50/50 of making it to the next election,’ says a senior Tory. Johnson’s grand reset? The jury’s out.»

Boris in a spin: can the PM find his way again?Katy Balls na Spectator

19/11/2020

ARTIGO DEFUNTO: Uma coisa é o Dr. Cavaco fazer papel de "bom aluno", isso era vassalagem à Óropa. Outra coisa é o Dr. Costa fazer papel de "bom aluno", isso é prestígio na Óropa

Público

ACREDITE SE QUISER: A comissão de sábios do governo britânico que parece um blogue (fraquito)

O Scientific Advisory Group for Emergencies (SAGE) tem sido o órgão que aconselha o governo britânico na definição da estratégia de resposta à pandemia. Pois bem, acredite-se ou não, hoje a imprensa britânica está cheia de manchetes a denunciar que os membros do SAGE admitiram ter sido o modelo preliminar baseado em números não verificados da Wikipedia. 

Segundo o professor da Universidade de Liverpool Calum Semple, membro do NERVTAG, outro subcomité da SAGE, «muitos de nós leram a literatura para SARS e MERS, mas não havia nenhum especialista em particular que apenas focasse toda a sua vida em coronavírus humanos.» 

Foi desse modelo preliminar que resultaram as previsões em Março de 500 mil mortos (hoje o número acumulado era de 54 mil) bem como a sobrelotação do serviço público de saúde (NHS) que nunca aconteceu. (fonte)

No ponto em que as coisas estão, na melhor hipótese será uma desgarrada entre os amanhãs anunciados que cantarão e o apocalipse antecipado pela Trump News

Se tudo correr mal poderá ser uma espécie de guerra fria civil e o acelerar da decadência da que já foi uma das democracias mais avançadas do planeta e que teve perdedores com a integridade e a coragem de fazer discursos como este:

18/11/2020

Um Rio cada vez mais parecido com um socialista (9) - Podem agradecer-lhe ter criado o Chega e o IL

Outras parecenças.

«Quando Rio chegou a líder do PSD, a sua maior preocupação foi afastar-se da herança de Passos Coelho. Para isso, quis mostrar que o PSD não era um partido de direita. Mas confundiu o apelo a eleitores do centro com uma tentativa de purificação ideológica do partido. Ou seja, quis fazer do PSD um partido apenas “social democrata”, esquecendo que a vocação dos grandes partidos de poder é incluir várias famílias políticas e até militantes com tentações populistas, que existem em todos as famílias políticas. (...)

A questão central não é o PSD ter militantes como Ventura. Como disse, todos os partidos têm populistas e demagogos. Um populista no PSD, ou no CDS, está limitado pelas doutrinas, pela história e pelas heranças ideológicas. Ou seja, os partidos tradicionais servem de limites institucionais às tentações populistas dos seus militantes. O problema é deixar um populista talentoso, como Ventura, à solta a explorar os piores instintos dos eleitores mais insatisfeitos (e há muitos em Portugal). Como mostrou enquanto foi líder do PSD, Passos sabia unir toda a direita. Primeiro, uniu o partido. E depois, uniu o PSD e o CDS. Com ele na liderança do PSD, não teria havido o Chega nem, como diz um amigo meu, a IL. Rio deixou o PSD e a direita dividirem-se. Já terá percebido o erro que cometeu, porque agora sabe que é muito mais difícil lidar com uma direita dividida do que com um partido com várias tendências. (...)

Rui Rio preocupou-se tanto em afastar-se de Passos que permitiu o aparecimento de um partido radical à sua direita. Um dia, no futuro, os historiadores olharão para a segunda década do século XXI como aquela em que um líder moderado, sério e decente, foi afastado para abrir o caminho aos radicais.»

Com Passos, não havia o Chega, João Marques de Almeida no Observador 

Vacinas? É melhor esperarmos deitados

Há dezenas de vacinas Covid-19 nas várias fases de desenvolvimento (50 para ser mais preciso) e só na fase 3 de testes encontramos uma dezena, entre elas as sete seguintes: 

Fonte

Quando foram anunciados os resultados aparentemente promissores das duas vacinas mais avançadas, a BNT162 da Pfizer/BioNTech (anunciada com 90% de eficácia) e a mRNA-1273 (anunciada com 95% de eficácia) da Moderna, os governos, os jornais e as bolsas agitaram-se, e com eles excitaram-se muitos milhões de exemplares do H. s. sapiens, uns suspirando de alívio, outros ruminando teorias da conspiração e uma pequena minoria antecipando ganhos substanciais e, sem se darem conta, alimentando as teorias da conspiração - se alguém ganha dinheiro com isso fica logo completa a trindade do crime: motivo, meios e oportunidade.

Tal como as notícias da morte de Mark Twain, também estas reacções parecem grandemente exageradas a uma criatura portadora de um saudável cepticismo, algo bastante raro, no passado pela fé religiosa e no presente pela devoção às grandes causas que substituíram a religião. Desde logo porque a história das vacinas contra os vírus tem sido uma demonstração de outro pensamento famoso de Winston Churchill: «o sucesso é ir de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo».

Depois, quando se desce ao mundo real, se suspeita estarem a ser usados atalhos nos procedimentos científicos, por exemplo na avaliação do risco dos efeitos secundários, se sabe o caminho que aquelas duas vacinas ainda terão que percorrer, se antecipam as dificuldades para produzir os milhares de milhões de vacinas necessárias, os problemas logísticos para transportar, distribuir e administrar vacinas que precisam de ser mantidas a temperaturas (de -20º a -80º Celsius) que exigem equipamentos especiais, então toda esta excitação parece um poucochinho despropositada, como diria o Dr. Costa se não se sentisse obrigado a contar estórias ao povo.

17/11/2020

O comércio e a política internacionais abominam o vazio. O Novo Império do Meio acaba de o encher

South China Morning Post (*)

Aristóteles dizia que a natureza abomina o vazio, mas poderia dizê-lo igualmente em relação ao comércio e à política internacionais. Criado o vazio com a ordem executiva de Janeiro de 2017 de Donald Trump para os EUA abandonarem a Trans-Pacific Partnership (TPP), o Novo Império do Meio acaba de o preencher.

(*) O South China Morning Post é um jornal de Hong Kong em língua inglesa, propriedade do grupo Alibaba. Não sendo obviamente o órgão oficial do PCC, nele não se escreve nada que o PCC entenda que não deva ser escrito.

16/11/2020

The Woke Sheep Explained

For those who are not familiar with the politically correct newspeak, here is the meaning of "Woke" according to Google:

«Woke (/ˈwoʊk/ WOHK) is a political term originating in the United States referring to a perceived awareness of issues concerning social justice and racial justice. It derives from the African-American Vernacular English expression "stay woke", whose grammatical aspect refers to a continuing awareness of these issues.»

Crónica da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa (59) - Em tempo de vírus (XXXVI)

Avarias da geringonça e do país seguidas de asfixias

Temos estes princípios. Se não gostarem temos outros

Assinar um pacto para montar um geringonça com um partido comunista que nunca renegou o Gulag nem reconheceu os muitos milhões de vítimas causados pelo regime soviético e os seus satélites e com uma colecção de grupúsculos de inspiração trotskista, maoista e bombista, uns e outros apoiantes de regimes autocráticos como o cubano e o venezuelano, é uma demonstração do pragmatismo do Dr. Costa. Outra demonstração, neste caso de internacional-pragmatismo, é a negociação que o mesmo Dr. Costa fez com o autocrata húngaro Viktor Orban para efeitos do peditório a Bruxelas

Outra coisa completamente diferente é o PSD fazer um acordo parlamentar com o Chega nos Açores que mostra a rendição ao fascismo do Dr. Rio, o ex-putativo vice do Dr. Costa.

Boa Nova

«Não vão faltar vacinas para a gripe», anunciou a Dr.ª Temido, depois de trautear A Internacional.

O choque da realidade com a Boa Nova

Vinte e cinco dias depois do anúncio da Dr.ª Temido, a Dr.ª Graça Freitas veio dizer ser «óbvio (que) algumas pessoas vão ficar sem vacinas» (fonte).

Os anúncios dos aumentos do investimento público são um dos clássicos da governação do Dr. Costa. O truque é um achado: anuncia-se primeiro o aumento do investimento orçamentado comparado com a estimativa do realizado do ano; como o realizado de facto é muito inferior ao orçamentado, no ano seguinte volta a anunciar-se o aumento do investimento orçamentado por comparação com a estimativa do realizado do ano. Infalivelmente, todos os anos são anunciados aumentos, apesar a queda ou estagnação do investimento. Depois de cinco anos a coisa deveria ser evidente, mas pouca gente a vê. Do lado dos socialistas o silêncio absoluto só agora foi quebrado por um dissidente do costismo. Francisco Assis, nomeado recentemente presidente do Conselho Económico e Social, reconheceu no parlamento que o investimento público «estimado para 2020 é metade do realizado em 2010».

Não sei o que seria do Dr. Costa sem S. Ex.ª

Com o queixume do costume, S. Ex.ª promulgou as alterações da lei orgânica do BdP, que «ficaram aquém das expectativas», permitindo o livre trânsito do governo para a administração, trânsito inaugurado pelo Dr. Centeno.

Pro memoria (406) – gone with the wind (republicação e nova actualização)

 Há nove anos publiquei o seguinte post


Ao ler no Expresso a promoção de mais um futuro sucesso das empresas amigas do regime, levo sempre instintivamente a mão à carteira. Desta vez, com honras de uma chamada de meia primeira página do suplemento de Economia e um desenvolvimento noutra página completa, amplamente ilustradas com duas enormes fotos, é o projecto Windfloat da EDP – um gerador eólico Vestas montado numa estrutura sobre uma plataforma flutuante, a ser construída na Lisnave em Setúbal e destinada a ser ancorada ao largo da Póvoa do Varzim. O brinquedo custa 15 milhões segundo o Expresso ou 20 milhões segundo outras versões

Falece-me o tempo e a ciência para escalpelizar as razões da minha suspeição quanto ao sucesso desta inovação e sobretudo à sua viabilidade económica. Direi apenas que este projecto me reavivou a memória do projecto Pelamis, naufragado também ao largo da Póvoa do Varzim, em tempos uma das meninas dos olhos do ex-ministro Pinho (o dos corninhos) e agora enferrujando ao largo de S. Pedro de Moel, salvo erro. 

Por agora, registo para futura verificação. 

Há seis anos fiz o ponto de situação neste outro post:

«Até 2019, o parque eólico flutuante que o consórcio liderado pela EDP quer instalar ao largo de Viana do Castelo tem de estar ligado e a produzir energia de fonte renovável. O risco de falhar o prazo é o de o projecto Windfloat Atlantic, cujo custo estimado ronda os 115 milhões de euros, perder os fundos comunitários de 30 milhões atribuídos em 2012 pelo Programa NER300.» (fonte)

Repare-se o efeito Lockheed Tristar em todo o seu esplendor. Um projecto eventualmente inviável que custaria 15 ou 20 milhões há seis anos custará agora 115 milhões ou seis a oito vezes mais. À maneira habitual, provavelmente irão ser gastos ainda mais do que os 115 milhões para não perder os 30 milhões de fundos comunitários. Foi assim que uma parte significativa dos mais de cem mil milhões de subsídios comunitários pagos extorquidos aos contribuintes europeus, o equivalente a mais de 55% do PIB anual actual, foi delapidada.

Nove anos depois estamos aqui:

O brinquedo, que era para custar 15 ou 20 milhões há nove anos e 115 milhões há seis anos, ficou este ano por 125 milhões, financiados por 60 milhões pelo Banco Europeu de Investimento, por um subsídio de 30 milhões do programa europeu NER 300 e outro de €6 milhões do Fundo Ambiental). Resta dizer que o parque Windfloat disfrutará de um preço garantido de venda de energia de €140/MWh quando o preço atual de mercado está abaixo de €40/MWh. Apesar deste maná que os consumidores de electricidade pagarão, a Windfloat está a dever vários milhões as dezenas de empresas subcontratadas. (fonte)

15/11/2020

O poder da mente ou a espécie humana não suporta muita realidade

O email Checks and Balance de sexta-feira de John Prideaux, o editor americano da Economist, citava vários indicadores interessantes sobre a opinião pública nos EUA. Por exemplo, metade dos americanos declaram que nunca tomará vacina Covid 19, 86% dos republicanos acreditam que a vitória de Biden não foi legítima, um quinto dos democratas e dos republicados pensam que é legítimo usar a violência no caso de vitória do adversário. E citava também o caso das assistências às tomadas de posse de Obama em 2009 e de Trump em 2017 que na época me passou ao lado e por isso em resolvi aprofundar.

Vou descrever sumariamente esse último caso, não porque me interessem em especial os eventos e ainda menos os seus protagonistas em causa, mas porque me interessa sobretudo perceber como funciona a mente humana nos fenómenos políticos.

Fonte

Nas fotos acima comparam-se as audiências nas tomadas de posse de Obama (na esquerda) e de Trump (na direita). Estima-se que essas audiências tenham sido de 1,8 milhões e 800 mil, respectivamente, o que, sem surpresa, não impediu Donald Trump de reclamar que a sua inauguration tinha sido a maior da história.

Surpreendente foram os resultados do estudo de opinião de Brian Schaffner da Tufts e de Samantha Luks do YouGov incidindo sobre 1.388 eleitores. A metade desses eleitores foram-lhes apresentadas as duas fotos perguntando-lhes a qual delas se referia a cada uma das tomadas de posse. Deram respostas erradas 8% dos eleitores de Hillary Clinton, 21% dos eleitores que não votaram e 41% dos eleitores de Donald Trump. 

Ainda mais surpreendente foram as respostas da outra metade da amostra, a quem foram apresentadas e identificadas as fotos, à pergunta de qual das duas tinha mais pessoas. Deram respostas erradas 2% dos eleitores de Hillary Clinton, 3% dos eleitores que não votaram e 15% dos eleitores de Donald Trump, ou seja 1 em cada 7 eleitores de Trump "viu" mais pessoas na foto da posse de Trump.

Aditamento:

Apesar de, como escrevi, não estar de todo interessado no tema em si, mas antes na percepção dos factos enviesada pela ideologia, sempre acrescento que no próprio post do blogue ZeroHedge, citado no comentário de Tiago Rodrigues para contraditar as três fontes que citei, se escreveu a certa altura:

«Was Obama’s audience bigger? Probably, but it’s hard to tell from the photos. I think I can see a hint of white space still showing among Trump’s crowd in the far distance of the third photo … if I put a jeweler’s loop in one eye. I would imagine Obama’s inauguration was better attended because many people waited all their lives to see a Black president, and it took place on a beautiful sunny day. In fact, I would hope it was bigger because it was a major historical milestone. I find it impressive, therefore, that the crowd that gathered to watch the 44th White man to get inaugurated was almost as large as the nation’s first Black presidential inauguration in a city with a large Black population

Também pode ler-se que foram editadas as fotos oficiais da posse de Trump: no Guardian, na Reuters, no FactCheck.org e também pode ver-se este vídeo comparativo da Vox.

Podem igualmente ser lidas milhares de notícias, quase todas concluindo pela manipulação das fotos oficiais e pela menor audiência da posse de Trump.

Por fim, pode ler-se o fact check da Fox New, um jornal que sempre apoiou Trump, que concluiu «Trump overstates crowd size at inaugural».

Para colocar um ponto final neste tema, esclareço que não pretendo convencer ninguém porque não discuto matéria de fé. Pretende apenas confirmar para mim próprio que continuo agnóstico.

14/11/2020

De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva (45) - A audição da comunidade científica e os impactos da pandemia

Este post faz parte da série De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva.

A Frontiers, um editor de publicações científicas, promoveu em Maio e Junho um inquérito a 25 mil investigadores questionando-os se os políticos do seu país se aconselharam com a comunidade científica para desenhar as suas estratégias de resposta à pandemia. Os resultados desse inquérito estão representados no gráfico seguinte onde os países estão ordenados por ordem decrescente de audição dos cientistas.

Fontes: Economist  e worldometer

Não deveria ser surpreendente que os dois últimos países Brasil e Estados Unidos são precisamente aqueles em que os respectivos presidentes desvalorizaram o conselho científico e ignoraram os riscos da pandemia para a saúde pública, tratando a pandemia como um problema puramente político.

Ao gráfico acrescentei à direita duas colunas com a ordenação crescente dos 24 países em causa pelos números totais de mortos e de testes positivos por milhão de habitantes. Também não é surpreendente que na maioria dos países com menos mortes e menos infectados a comunidade científica considera que o governo a escutou.

Evidentemente que correlação não é causalidade e, quer a mortalidade, quer a transmissão da pandemia, dependem de inúmeros factores. Com esta reserva, é interessante constatar que os valores das correlações lineares entre as posições no ranking da aceitação do aconselhamento científico e as da mortalidade e das infecções são 0,60 e 0,61, mostrando uma correlação positiva muito significativa.

13/11/2020

Lost in translation (343) - No politiquês do Dr. Siza Vieira, ameaça à democracia é uma ameaça à ocupação do Estado Sucial pelo PS

«Particularmente num contexto em que já percebemos que a alternativa política e partidária que se pode configurar para alternar no poder — se estes três partidos não forem capazes de assegurar uma solução comum — é uma alternativa política que traz para o arco da governação um partido agora surgido que aposta em cavar as barreiras entre a sociedade portuguesa, protagonizando bandeiras, valores e princípios que seguramente o eleitorado que votou nos partidos da solução governativa anterior não se reconhecem e percebem a ameaça que isso constitui à democracia». 

Palavras do Dr. Siza Vieira a «acenar o papão do Chega», à boleia dos Açores, esquecendo que a alternativa política que o seu Chefe Dr. Costa trouxe para o arco da governação incluiu um partido comunista que nunca renegou o Gulap nem reconheceu os muitos milhões de vítimas causados pelo regime soviético e os seus satélites e trouxe ainda outro partido formado por grupúsculos de inspiração trotskista, maoista e bombista, uns e outros apoiantes de regimes autocráticos como o cubano e o venezuelano, e fê-lo percebendo bem a ameaça que isso constitui à democracia. Foi o preço a pagar para ele aceder e permanecer no poder encavalitado na geringonça.

12/11/2020

Ser de esquerda é... (10)

 ... imaginar que os portugueses têm um nível de vida mais baixo do que a média da UE porque têm salários mais baixos e que, em consequência, se aumentarmos os salários ficaremos menos pobres.  

Outros "Ser de esquerda é..."

Ocorreu-me este ser de esquerda esta manhã ao observar a recolocação de duas dúzias de pedras levantadas no passeio da rua onde moro a ser feita, durante quase uma hora, por uma equipa de cinco trabalhadores da câmara, trabalhando à vez, incluindo o motorista de um camião novinho em folha de cem mil euros. Também poderia dar este outro exemplo da mesma câmara de 5 operários e 3 motoristas em três viaturas a fazer uma obra que, com boa vontade, daria para 2 operários e um olheiro.

Estarão os golpes de estado a ficar fora de moda?

Fonte

Segundo o Center for Systemic Peace (CSP), desde o final da II Guerra Mundial tiveram lugar mais de 550 tentativas de golpes de estado e cerca de 200 foram bem sucedidos. Como o gráfico mostra, depois de um pico no final dos anos 70 e princípio dos anos 80, coincidindo com o auge da Guerra Fria, desde o princípio dos anos 90 as tentativas vêm diminuindo. No entanto, enquanto na década de 60 só um quarto dos golpes resultaram em regimes mais autoritários e mais desordem, na segunda década deste século metade dos golpes resultaram em mudanças para regimes mais autoritários, ou mais violência ou desordem.

11/11/2020

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (66) O clube dos incréus reforçou-se (XXII)

Outras marteladas e O clube dos incréus reforçou-se.

Recapitulando:

O intervencionismo do BCE, que copiou com atraso a Fed e o BoE, adoptando o alívio quantitativo e as taxas de juro negativas ou nulas, desde o «whatever it takes» do Super Mario há 6 anos, é parecido como terapêutica com a sangria dos pacientes praticada pela medicina medieval para tratar qualquer doença, incluindo a anemia.

As raras vozes dissonantes (temos citado algumas delas) não têm chegado para perturbar e muito menos abafar os salmos cantados pelo coro imenso dos prosélitos louvando a bondade das políticas de injecção de dinheiro e de juros artificialmente baixos dos bancos centrais.

Uma dessas raras vozes dissonantes no Portugal dos Pequeninos é a do economista Avelino de Jesus que, uma vez mais, aponta os riscos dessa política no contexto da pandemia. Eis um excerto de A pandemia, a crise e a política monetária.

«A natureza explosiva desta situação é enorme. Na verdade, em cima das distorções provocadas pela política monetária laxista que seguiu após 2008 de forma continuada, caiu nova vaga de política monetária da mesma natureza. Estão em causa distorções no investimento e no consumo que, no caso português, estranhamente, muitos viram como virtudes que permitiram a saída pós-troika, dopando e empolando artificialmente os sectores intensivos em trabalho do comércio, da restauração, do alojamento e do turismo, à custa da continuada baixa da produtividade e dos salários e da certa continuação de taxas de crescimento rastejantes da economia portuguesa.

A política económica nacional não monetária pós-pandemia não só não contrariou a política monetária, mas ainda a agravou com medidas no mesmo sentido. Os apoios aos sectores de trabalho intensivos não são apenas de agora (recorde-se, apenas como exemplo, a redução do IVA da restauração). A resposta à pandemia não traz novidades: o sentido é o mesmo e errado, os apoios às empresas obrigam à manutenção do emprego, impedindo ajustamentos estruturais nos sectores e no tecido empresarial e prolongando os baixos níveis de produtividade e de salários. (...)

A política monetária está a impedir os ajustamentos sectoriais e empresariais imprescindíveis, aumentando a acumulação de tensões nos mercados e piorando os efeitos destrutivos da queda de reequilíbrio que, inevitavelmente, ocorrerá mais à frente.

Aqueles que viam na política monetária apenas uma simples redução da capacidade de manobra do banco central têm aqui a resposta. Pior, o banco central ficou manietado, e tem – em vez uma simples redução de margem de manobra – como única solução praticável a fuga em frente, acelerando para o abismo e gerando uma tragédia económica de proporções muito acima daquela que a mera pandemia nos está a fazer penar.»

O efeito das estações na pandemia ou talvez a criatura dessa vez não estivesse totalmente errada

Eu sei, eu sei. É difícil descortinar alguma ideia com princípio, meio e fim numa verborreia pantagruélica, agressiva e insultuosa de tweets (talvez seja mais adequado chamar-lhes twits) e declarações teatrais. Ainda assim, uma pessoa com alguns neurónios a funcionar tem obrigação de não se deixar arrastar por discussões idiotas entre o clube dos seus devotos e o clube dos seus inimigos.

Isto para lembrar que em Março, no princípio da pandemia, comentei a aparente bullshit de Donald Trump ao afirmar com o seu ar enfatuado Coronavirus «dies with the hotter weather» e publiquei a imagem seguinte para ilustrar especulativamente a eventual correlação entre as estações e a progressão da pandemia.

Covid-19 Cumulative confirmed cases (Center for Systems Science and Engineering at Johns Hopkins University no dia 23-03-2020

Por coincidência a Economist publicou ontem o gráfico seguinte que parece confirmar a especulação.


Como então referi, não é caso para eleger Trump como uma autoridade científica. Ele que fala muito e contraditoriamente a propósito de tudo, sem uma linha de pensamento coerente, nem preocupações de verdade e rigor é sempre possível, uma vez ou outra, dizer algo com que uma pessoa racional fora daqueles dois clubes possa concordar.

10/11/2020

SERVIÇO PÚBLICO: A direita e a esquerda europeias não gostam dos americanos (da direita ou da esquerda)

«Com algumas notáveis excepções, como Tocqueville, Einstein, Kazan, Hitchcock ou Kissinger, os europeus nunca gostaram da América. Ainda menos dos americanos, que odeiam ou desprezam com a mesma intensidade.

Grande parte da direita europeia é ciumenta, não gosta da meritocracia, não preza a liberdade, não tem especial afecto pela tolerância nem pelo igualitarismo e despreza aquilo que considera ser a vulgaridade americana. Essa mesma direita acha que os americanos são boçais, dominadores e ignorantes. Ao lado dos americanos plebeus e sem maneiras, a direita europeia considera-se aristocrática. Democratas ou não, europeus de várias direitas como De Gaulle, Franco e Salazar, detestavam os americanos.

A maior parte da esquerda europeia detesta a América e os americanos. Estes seriam imperialistas, arrogantes, sem sofisticação cultural, barulhentos, racistas e violentos. A maior parte da esquerda europeia detesta o liberalismo em geral, o americano em particular. A esquerda europeia considera-se sofisticada e culta, despreza o que acredita ser a rudeza americana, condena a brutalidade dos americanos e critica asperamente a alegada inclinação para a violência e a pornografia de metade da América e o fanatismo religioso e ignorante de outra metade.

Direita e esquerda europeias não gostam do dinheiro, do liberalismo, da eficácia e do individualismo americanos. Esquerda e direita europeias detestam o facto de terem sido ajudados, defendidos e libertados pelos americanos nas duas grandes guerras. Esquerda e direita europeias adoram e cultivam, em segredo, quase tudo o que condenam publicamente nos americanos.»

Excerto de América, América! , António Barreto