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07/01/2026

Could Europe take on Russia without American help? Once bitten, twice shy

 «IMAGINE THIS scenario: in the half-light of a March morning in 2027, Russian armoured units cross the Latvian border near Rezekne, seize the rail station and turn south toward Daugavpils, Latvia’s second city, half of whose population is ethnically Russian. Capitalising on the fruits of a malign influence campaign, their aim is to seize a sliver of territory on the pretext that “Russian-speaking communities” require Moscow’s protection. Russian troops rapidly build fixed positions and deploy mobile air defences, while their president, Vladimir Putin, still basking in the glow of newly acquired lands in the Donbas, waits for NATO to decide how to respond.

In Washington, the response is what the Europeans had feared. President Donald Trump informs them that America will not fight a European war over a slice of Latvia that, he claims, is basically Russian anyway. Russia is just too powerful to fight and, as in Ukraine, will just grind it out. Besides, Mr Trump argues, European weakness practically invited this incursion in the first place. He calls for “peace” on social media, but will send no troops, no heavy lift and no fighter jets—though Europeans are welcome to purchase American weapons.

The fictional land-grab in Latvia invites NATO to think the previously unthinkable: can the alliance, without America, contain and then repel a Russian advance?

07/12/2025

Dúvidas (363) – Quem é realmente Alexis Tsipras? (4)

[Continuação de (1), (2) e (3)]

Alexis Tsipras foi o líder do Syriza, um partido esquerdista grego e primeiro-ministro entre 2015 e 2019 que foi evoluindo do esquerdismo infantil para a social-democracia colorida, como se evidencia nos posts anteriores.

Yanis Varoufakis é um lunático, esquerdista e pedante de uma vaidade doentia, a propósito de que se escreveram no (Im)pertinências vários posts (como este, aquele ou aqueloutro), que foi ministro das Finanças dos governos de Tsipras.

Mais um exemplo do caminho que Tsipras percorre do obscurantismo esquerdista para a luz da racionalidade é o relato que faz num livro a publicar em breve sobre a sua experiência de 2015-2019, que a respeito de Varoufakis o Guardian classifica como «um dos maiores assassinatos de carácter da memória grega moderna» e que me pareceria melhor classificado como uma autópsia à falta de carácter de Varoufakis.

24/10/2025

Put the Blame on Mame. The rise of the boo-reaucrats (some of them are begging autocrats)

«(...) The ritual scapegoating of the European Union, a foggy realm of incomprehensible acronyms, is the oldest trick in modern continental politics. Aren’t “Brussels” the unaccountable lot who regulate industry into an early grave, badger governments about their debt levels, then give Trumpians whatever they want on trade? Treating the EU as a ghoulish bogeyman has been somewhat in abeyance ever since Britain overdosed on the idea, much to its cost. But the old spirit is haunting Europe once again. A look at the upcoming political agenda suggests that a lot more Brussels-bashing may soon be upon us. Boo! (...)

For that is the really spooky thing about Brussels-bashing. Politicians decry decisions made by the EU as if they were edicts handed down by some foreign power. But given that national governments form the backbone of the EU, “blaming Brussels” is akin to a ventriloquist haranguing his own puppet for being foul-mouthed. In truth many of the continent’s thorniest challenges, from succouring Ukraine to cutting carbon emissions and dealing with Mr Trump, can now only be handled at the level of 27 countries at least trying to act as one. That is a scary thought for many politicians. Heaping blame on the ghosts found in a drizzly Belgian city is more comfortable than looking closer to home.»

“Brussels” is the phantom menace Europe loves to blame

11/09/2025

CASE STUDY: EU-MERCOSUR Partnership Agreement. Uma no cravo, outra na ferradura

Por um lado, a Comissão Europeia promove um acordo de parceria com a Mercosur contrariando a tendência inaugurada pela administração Trump de restrições ao comércio internacional, por outro sucumbe às pressões dos agricultores, nomeadamente dos agricultores franceses, sempre prontos à tomada da Bastilha com as suas marchas de tractores, no sentido de adoptar medidas proteccionistas que retiram uma boa parte do potencial do acordo. 

Leia-se o anúncio do acordo com o sugestivo título OPENING OPPORTUNITIES FOR EUROPEAN FARMERS que a CE publicou há dias, de onde extraio os seguintes excertos que apresentam o acordo com um propósito imaginário do título, acordo cujo interesse é sobretudo da abertura dos mercados sul-americanos aos produtos europeus em troca da abertura dos mercados europeus aos produtos agrícolas sul-americanos, aproveitando as vantagens competitivas de cada uma das zonas económicas. 

«The EU-Mercosur agreement will open unprecedented access to the countries of Mercosur for European farmers and food producers. Mercosur countries are growing and dynamic markets, with high barriers to entry. Providing EU farmers and agri-food producers with greater access to these markets will give them a first-mover advantage and a more secure position in years to come. At the same time, the agreement will shield Europe’s farmers from undue market pressure. (...)

The EU will grant very limited access to its market to imports of agri-food products. For sensitive products like beef, poultry or sugar, in particular, access to the EU market will be permanently limited through gradually implemented quotas. Moreover, a bilateral safeguard clause can be applied in case increased imports from Mercosur cause - or even only threaten to cause - serious injury to the relevant EU sectors. For the first time, this safeguard clause also covers imports under tariff rate quotas.

The deal will have limited impact on the EU beef market and will not generate further deforestation in Mercosur. The agreement does not give duty-free access to Mercosur beef. It will allow 99,000 tonnes of Mercosur beef to enter the EU market with a 7.5% duty. 55% of the quota will consist of fresh or chilled meat and 45% of lower-value frozen meat.»

26/07/2025

UE, cada vez menos um gigante económico e cada vez mais um anão político e militar

As poucas dezenas de democracias plenas e sociedades prósperas existentes no planeta encontram-se na sua maioria na Óropa, o que permite a qualquer cidadão europeu dizer quase tudo o que lhe passar pela cabeça sem consequências desagradáveis, disfrutar de um nível de vida que faz inveja a quase todo o resto do mundo, com excepção dos Estados Unidos que pagam por isso um preço elevado, desde uma saúde pública deficiente, uma esperança de vida vários anos inferior à média europeia, uma sociedade dividida e pouco coesa, uma democracia problemática com um score muito inferior ao da média da UE e, last but not the least, um governo por uma criatura instável sofrendo de narcisismo patológico com uma corte que o bajula, tolerado pelos tecnogarcas que fingem acreditar nas suas baboseiras enquanto tentam extrair vantagens.

É claro que a Óropa tem imensos problemas como o envelhecimento, uma imigração que a irresponsabilidade dos governos deixou atingir o limiar de uma séria ameaça à coesão social e tem sido pasto dos vários nativismos (em todo o caso a uma escala não maior do que a dos EU, ao contrário da lenda), uma competitividade sufocada pela obsessão regulamentadora (em todo o caso não muito maior do que a dos EU [*]), e, sobretudo, não conseguiu criar até agora um mercado verdadeiramente único, nomeadamente na área dos serviços, o que não deixa de ser o resultado expectável para uma entidade supranacional que não é um verdadeiro Estado e tem no seu seio dezenas de Estados e nacionalidades que no passado não muito longínquo se combateram ferozmente.

Fonte

Por tudo isso, para uma criatura que aprecie a liberdade e o bem-estar, viver na Óropa é a quase todos os títulos mais agradável do que viver nos Estados Unidos, só que a felicidade não está garantida e no horizonte não se vislumbram políticas para resolver os problemas que afligem a UE. Veja-se por exemplo o quadro financeiro plurianual 2028-34 que apesar de ter aumentado de 1,2 biliões para 1,8 biliões continua a representar uma percentagem anual ridícula de 1,15% do Rendimento Nacional Bruto da UE e o pouco que representa irá ser aplicado, provavelmente e como de costume, para fazer felizes os agricultores, sobretudo franceses, e construir autoestradas. Os 50 mil milhões anuais para a competitividade (menos de 7% do que Mario Dragui estimou serem necessários) são insuficientes e arriscam-se a ser torrados em projectos para dar brilho aos governos. É um pouco mais do muito mesmo.

________________

[*] Um exemplo, o caos inerente ao sistema americano de supervisão bancária, por coincidência descrito esta semana no Expresso por Willen H. Buiter, um economista que o conhece muito bem.

02/05/2025

Dúvidas (352) – Irá o Brexit reverter-se? (I)

Dúvidas já resolvidas sobre se o Brexit iria consumar-se 

Em retrospectiva, a decisão do governo conservador britânico de David Cameron de submeter a um referendo a saída da UE tinha um propósito e uma premissa. O propósito era não perder as eleições para o UKIP de Nigel Farage que fazia uma campanha para a saída. A premissa era que o eleitorado britânico acabaria por recusar a saída. O propósito foi conseguido, à custa de demagogia e distorção dos factos e dos números que não ficou atrás do UKIP e teve um resultado inesperado que foi a aprovação do Brexit.

As consequências ruinosas do Brexit para o Reino Unido (ver este post) são hoje visíveis para toda a gente que disponha de informação objectiva, com a possível excepção dos portadores de alucinação psicótica, e constituem um case study de subordinação dos interesses nacionais aos desígnios de uma clique.

Seja como for, não será o Brexit um fait accompli? Em boa verdade é tão accompli como era a adesão do Reino Unido à União Europeia, e no entanto o Brexit aconteceu. E aconteceu, segundo esta análise baseada nos dados do British Election Study muito à custa dos velhotes, dos quais cerca de dois terços morreram desde 2020. Como a aprovação do Brexit em 2016 foi por uma margem muito curta (51,9% a favor e 48,1% contra) um hipotético novo referendo aprovaria muito provavelmente a re-adesão à UE.

17/04/2025

Dúvidas (350) - Europa é diferente dos EU? E qual é o problema? (II)

Continuação de (I)

«O problema da Europa é que não tem um apego absolutista à liberdade de expressão. Veja-se como os juízes na Romênia e na França descarrilaram as carreiras de políticos de extrema direita, que se convenceram (com poucas evidências) de que foi sua ideologia, e não sua violação da lei, que os colocou em apuros. No entanto, para muitos europeus, a ideia de que a liberdade de expressão está ameaçada parece estranha. Os europeus podem dizer quase tudo o que quiserem, tanto na teoria como na prática. As universidades europeias nunca se tornaram focos de policiamento da expressão por uma raça de guerreiros culturais ou de outra. Pode expressar-se uma opinião controversa em qualquer campus europeu (fora da Hungria, pelo menos) sem medo de perder seu mandato ou sua bolsa. Nenhum centro de detenção aguarda estudantes estrangeiros que têm opiniões erradas sobre Gaza; as agências de notícias não são processadas por entrevistar políticos da oposição. Os escritórios de advocacia não são obrigados a curvar-se aos presidentes como penitência por terem trabalhado para os seus inimigos políticos.»

O que acontece com a Europa é que está a enfrentar uma crise demográfica. Está evitando um declínio acentuado na população apenas reforçando sua força de trabalho com imigrantes, alguns dos quais se integraram mal. Essa imigração mostra o apelo do modo de vida europeu; para aqueles que vêm em busca de refúgio da guerra, mostra a generosidade dos europeus (às vezes equivocada). E embora os europeus ocasionalmente façam uma demonstração de repressão aos migrantes ilegais, eles geralmente dependem dos legais para colher suas colheitas.

O problema da Europa é que sua economia está permanentemente presa no marasmo, um pesadelo global. E não é de admirar. Os europeus aproveitam o mês de Agosto, reformam-se no auge e passam mais tempo a comer e a socializar com as suas famílias do que os habitantes de qualquer outra região. Estranhamente, as pesquisas mostram que as pessoas em países ricos e pobres valorizam esse tempo de lazer; de alguma forma, os europeus conseguiram obter dos seus empregadores para que lhes dessem uma fatia maior. Mesmo quando estavam diminuindo o PIB perdendo tempo brincando com seus filhos, os habitantes da Europa também conseguiram manter a desigualdade relativamente baixa enquanto ela aumentava em outros lugares nos últimos 20 anos. Ninguém na Europa ficou a semana passada a olhar para sua carteira de ações, receando se ainda poderia mandar seus filhos para a universidade. Os europeus não têm ideia do que é "falência médica". Ah, e nenhum líder da UE jamais lançou sua própria criptomoeda.

O problema da Europa é que é ingénua, o único bloco comercial global apegado a normas morais. Insiste em cumprir os decretos da Organização Mundial do Comércio, digamos, ou fazer sua parte para reduzir as emissões de carbono. Não é um lugar que exige que aliados venham rastejando até ele implorando por "favores" nos direitos aduaneiros.

O problema da Europa é que é como um museu ao ar livre, o continente de ontem. Seu modelo é mesmo sustentável? Uma boa pergunta - uma que pressupõe que vale a pena defender o modelo europeu. É um lugar abençoado com cidades onde se pode caminhar, longa esperança de vida e crianças vacinadas que não precisam ser treinadas para se esquivar de atiradores nas escolas. O reino de Carlos Magno é um lugar de muitas falhas, muitas delas duradouras. Mas, à sua maneira, os europeus criaram um lugar onde lhes são garantidos os direitos ao que os outros anseiam: vida, liberdade e procura da felicidade.»

Excerto de The thing about Europe: it’s the actual land of the free now

16/04/2025

Dúvidas (349) - Europa é diferente dos EU? E qual é o problema? (I)

«O problema da Europa é ser excessivamente regulamentada. Imensa burocracia e impostos punitivos significam que não há empreendimentos empresariais de triliões de dólares na França ou na Alemanha que se igualem à Amazon, Google ou Tesla. Mas isso não é tudo que falta à Europa. Também ausentes do continente estão os broligarcas que se sentam em cima desses gigantes, alguns dos quais controlam melhor o poder do que a realidade. Portanto, não há Rasputins europeus injetando incontáveis milhões em campanhas políticas, obtendo um lugar de destaque nas posses dos líderes ou em seus próprios departamentos governamentais recém-criados para administrar. Infelizmente, existem poucos unicórnios na Europa e muito pouca inovação. Dito isso, não há absolutamente nenhum executivo de tecnologia gabando-se nas redes sociais de passar seus fins de semana alimentando pedaços do estado no "triturador de madeira".

O problema da Europa é que é indecisa, lenta demais para agir. Toda crise requer várias cimeiras dos líderes nacionais da União Europeia, muitas vezes discutindo até tarde da noite. Os processos enfadonhos de governo por consenso podem atrasar a UE: foram necessários quatro dias e quatro noites de negociação para chegar a um acordo sobre o último orçamento de sete anos do bloco, em 2020. Por outro lado, o aparelho de estado europeu não fecha arbitrariamente a cada poucos anos quando não é alcançado o acordo político sobre o financiamento, deixando milhões de funcionários públicos em licença e serviços básicos indisponíveis por dias ou semanas. A regra de consenso também significa que os tweets petulantes de um político equivocado - tarifas de 125% sobre a China - não fazem os mercados de globais de acções ficarem de pernas para o ar. O topo da UE não é eleito e, às vezes, não presta contas. Ainda assim, eles não ousariam ser fotografados jogando uma partida de golfe depois de terem encolhido as poupanças de milhões de seus compatriotas.

O problema da Europa é que ela se aproveita da defesa, não gastando o suficiente nas forças armadas para se defender sozinha das ameaças. Isso continuará a ser verdade por muito tempo, mesmo que os orçamentos de defesa sejam aumentados na maior parte do continente. Mas também reflete uma compreensão diferente do que significa "defesa". Por um lado, ninguém na Europa - fora da Rússia, pelo menos - está sugerindo que invadirá outros países. Não há piadas em Bruxelas sobre transformar um vizinho relutante no "nosso 28.º estado" (pelo contrário, muitos dos vizinhos da UE estão desesperados para se juntar ao clube). Os vice-presidentes europeus também não voam sem serem convidados para lugares que procuram anexar, sob o pretexto de que seu cônjuge quer assistir a uma corrida de trenós. A Europa pode ter economizado na recolha de informações, mas os seus vários líderes conhecem a identidade do agressor que iniciou os combates na Ucrânia (dica: não é a Ucrânia). Muitos deles anteciparam as armadilhas de invadir o Iraque há algum tempo.»

Excerto de The thing about Europe: it’s the actual land of the free now

(Continua)

19/02/2025

"Europe has successfully put tariffs on itself". Put the Blame on Mame

In 1946, Allan Roberts and Doris Fisher composed the song "Put the Blame on Mame" for the film Gilda, masterfully performed by Rita Hayworth with the singing voice of Anita Kert Ellis. The song satirized the plight of a woman who was blamed for America's misfortunes, from the Chicago fire to the San Francisco earthquake.

Europeans are now composing the “Put the Blame on US” version to avoid taking responsibility for decades of inaction and for not being prepared for the many foreseeable consequences of the national interest version of Trumpist paranoia.

The following text is an excerpt from the Financial Times article "Forget the US — Europe has successfully put tariffs on itself" by Mario Draghi, a European out of step with Brussels' immobility.

«Recent weeks have provided a stark reminder of Europe’s vulnerabilities. The eurozone barely grew at the end of last year, underlining the fragility of the domestic recovery. And the US began imposing tariffs on its major trading partners, with the EU next in its sights. This prospect casts further uncertainty over European growth given the economy’s dependence on foreign demand.

Two major factors have led Europe into this predicament — but they can also lead it out again if it is prepared to undergo radical change.

The first is the EU’s long-standing inability to tackle its supply constraints, especially its high internal barriers and regulatory hurdles. These are far more damaging for growth than any tariffs the US might impose — and their harmful effects are increasing over time.

The IMF estimates that Europe’s internal barriers are equivalent to a tariff of 45 per cent for manufacturing and 110 per cent for services. These effectively shrink the market in which European companies operate: trade across EU countries is less than half the level of trade across US states. And as activity shifts more towards services, their overall drag on growth becomes worse.

At the same time, the EU has allowed regulation to track the most innovative part of services — digital — hindering the growth of European tech firms and preventing the economy from unlocking large productivity gains. The costs of complying with GDPR, for example, are estimated to have reduced profits for small European tech firms by up to 12 per cent.

Taken together, Europe has been effectively raising tariffs within its borders and increasing regulation on a sector that makes up around 70 per cent of EU GDP.»

19/12/2024

Dúvidas (344) - O que podemos esperar das reacções ao acordo UE-Mercosur?

Há poucos dias a presidente da Comissão Europeia anunciou entusiasticamente a conclusão, depois de 25 anos de negociações, do Acordo de Parceria UE-Mercosur como «o mais abrangente de sempre no que respeita à proteção de produtos alimentares e bebidas da EU: mais de 350 produtos da UE estão protegidos por uma indicação geográfica. Além disso, as normas sanitárias e alimentares europeias continuam a ser intocáveis. Os exportadores do Mercosul terão de respeitar rigorosamente estas normas para aceder ao mercado da UE. Esta é a realidade de um acordo que permitirá às empresas da UE poupar 4 mil milhões de euros em direitos de exportação por ano.»  Palavras cuidadosamente estudadas para salientar umas consequências e omitir outras. 

Que este acordo seja um passo certo no caminho certo para aprofundar o comércio internacional no interesse dos países signatários é objectivamente pouco questionável, pelo menos desde Adam Smith, por muito que dentro de alguns países europeus os respectivos agricultores o vejam como uma ameaça que do ponto de vista dessas classes é também inquestionável. Como reagirão essas classes a este acordo?

O texto seguinte que foi escrito em Fevereiro, muito antes do anúncio da conclusão do acordo, prenunciava já realisticamente as prováveis reacções.  

«Em toda a Europa, uma revolta dos camponeses está se formando. Da Bélgica à Alemanha, Holanda, Polônia, Roménia e Espanha, os agricultores estão em pé de guerra. Um sector acostumado a privilégios exorbitantes - afinal, cerca de um terço do orçamento da UE vai para subsídios à política agrícola comum - os viu escapar. É, em muitos aspectos, uma história familiar, de uma casta privilegiada sentindo seu status em declínio. Pois o que é a Europa senão uma tentativa de manter as coisas como eram antes em um mundo em mudança? (....)

09/10/2024

The single market for financial services seen from Berlin

«(...) using a bank account opened in one EU country while living in another is surprisingly troublesome, even if both use the euro. In theory Europeans, like their American cousins, live in one large single market, free to contract services from business based anywhere in the bloc. In practice payment systems sometimes accept only cards issued by local banks—and good luck getting your Finnish bank to fund a Spanish mortgage. Finance is where the European ideal of a seamless union often falls shortest.

The limits of the European single market were sharply exposed this month as UniCredit, an Italian bank, has made moves to take over Commerzbank, a German rival. A proposed transaction that should have been of interest only to finance wonks—UniCredit and Commerzbank are the EU’s 10th- and 17th-biggest lenders, respectively—devolved into an ugly nationalist mêlée. Olaf Scholz, the German chancellor, took time out of his geopolitical agenda at United Nations meetings in New York to thunder against “hostile” Italian bankers on the prowl. Just two weeks ago the EU released a much-hyped report by Mario Draghi, a former Italian prime minister, proposing to juice economic growth in Europe by deepening its single market. A resounding nein has put paid to his plans before most people were done reading its 400 pages.

European chauvinism has long had a way of derailing businessmen’s best-laid takeover plans. In 2005 France fended off a bid for Danone, a yogurt-maker, on the grounds that it was strategically vital. But that would-be buyer was American. Surely takeovers by firms from other EU countries should be treated more sympathetically, the better to build European champions with the critical mass to compete globally? Apparently nicht. Because Commerzbank lends to Mittelstand firms and exporters, the German establishment has put it on an economic pedestal; some see it as a national treasure they would rather close down than hand over to grubby Italians. (This is rather amusing to finance aficionados—including your columnist, a former banking correspondent—who recall when the lender was dubbed “Comedybank”, thanks to its knack for losing money in a dazzling array of hare-brained lending decisions.) UniCredit’s stake was in part bought straight from the German authorities, who bailed out Commerzbank in 2008. In contrast UniCredit is well run and more profitable than its target, thanks in part to a German unit it already owns. (...)
»

11/07/2024

A Social-Democracia está cumprida e aborrece. As coisas desmoronam-se e o centro não se aguenta

...
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
...
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity. 

The Second Coming, William Butler Yeats

«O que aconteceu que levasse agora uma grande parte da Europa a rebelar-se, enjeitando a social-democracia e, a avaliar pelo exemplo francês (mas outros exemplos houve já num tempo recente) a sentir-se atraída pelos extremos? Porque a Social-democracia se esgotou, quero dizer, porque se cumpriu. 

Logicamente, já não mobiliza quase ninguém. A extrema-esquerda oferece 'amanhãs que cantam', sonha com uma sociedade igualitária independentemente das capacidades e habilitações de cada um. A extrema-direita agita a bandeira do nacionalismo e uma espécie de regresso à Europa das nações semelhante à que se desenhou e vingou na sequência da Paz de Vestfália em 1648. A miragem da sociedade igualitária, sem ricos, sem hierarquias é, continua a ser, uma utopia atractiva que congrega multidões na rua e desafia a polícia 'burguesa'. Em suma: é um combate que desperta emoções, desencadeia movimento, agitação. A inundação das ruas parisienses pelos adeptos da 'França Insubmissa' ilustra isto mesmo: partir montras e incendiar carros e caixotes de lixo dá gozo, é entusiasmante. 

No outro extremo, à direita, os riscos de cerceamento dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos não amedronta os adeptos. Na sua maioria são xenófobos e racistas, convencidos de que a miscigenação da França degrada a pureza da raça francesa e branca. Sonham com a restauração da grandeza passada da França tal como De Gaulle a via: independente de todos os Estados, em especial dos Estados Unidos da América, da Nato e de quaisquer outras agremiações que pudessem embaraçar a França na afirmação da sua inigualável e insuperável 'grandeur'.

De tal maneira o Centro social-democrata está subalternizado, que os seus problemas específicos mal foram abordados. E no entanto eles são muitos e graves. A começar por saber se a França e a Europa serão capares de crescer economicamente para fazer face às despesas crescentes que o Estado Social custa, um tema que, comas hostes sideradas coma luta entre os dois extremos, constituiu nas eleições francesas um assunto de terceira ordem. Somos mimados e estamos mal habituados. Demos o Estado Social como garantido, e com este desleixo desvalorizámos desferimos um enorme golpe na Democracia. A Social-Democracia está cumprida e aborrece

 Fátima Bonifácio, historiadora, no jornal Sol

27/06/2024

A teoria da conspiração da fuga de Costa para a Óropa era uma premonição


Há cinco anos citei num post a peça "Verdade escondida aos portugueses: António Costa já manobra nos bastidores para ir para Bruxelas", que admiti poder ser mais uma teoria da conspiração. À cautela, porém, sabendo o que a casa gasta, acrescentei que, tratando-se do Portugal dos Pequeninos governado por gente, como a que então nos governava, cujos antecessores fugiram, um do pântano para o olimpo das Nações Unidas e outro da bancarrota e da polícia para a Sorbonne, concluí que à cautela era melhor acolher o que então poderia não passar de uma teoria da conspiração e mais tarde poderia ser uma boa premonição.

Podia ser uma premonição e tudo agora indica que fosse, quando se sabe que os grupos Liberais, Socialistas e PPE chegaram o acordo sobre os nomes para os presidentes da Comissão Europeia e do Conselho Europeu e entre eles encontramos o Dr. Costa que há anos se andava a pôr a jeito. 

A esta luz fica explicado o mistério de uma demissão por razões triviais, demissão que agora se vê ter sido um pretexto para saltar do comboio antes da estação para não perder a oportunidade. Só não foi um golpe perfeito porque S. Ex.ª não aceitou substituí-lo pelo Dr. Centeno, se tivesse aceite teria sido um expediente win-win, assim foi apenas win-lose.

06/06/2024

DIÁRIO DE BORDO: Dia D - O princípio do fim do III Reich e talvez a última vez que os ianques salvaram a Óropa de si própria (republicação)

Há 79 anos as forças aliadas (tradução: americanos e ingleses e alguns canadianos, australianos et al.) desembarcaram em
Omaha Beach para salvar a Europa de si própria (créditos: WSJ)

Há também a versão alternativa da inutilidade e perversidade do Dia D que entre outras coisas prejudicou os portugueses ao parar as tropas soviéticas na Europa Oriental, impedindo a substituição do regime salazarista por uma democracia popular e privando-nos das alegrias do socialismo real.

04/05/2024

Uma esperada e merecida derrota esmagadora do partido anteriormente conhecido como Conservador

Fonte

Para ajudar a perceber a génese da hecatombe vejam-se os posts da etiqueta Brexit. E não, o problema não está no Brexit, o problema está no processo e os processos são verdadeiramente o que mais importa numa democracia. Como escrevi em tempos, a decisão do governo conservador britânico de David Cameron de submeter a um referendo a saída da UE tinha como propósito não perder as eleições para o UKIP de Nigel Farage que fazia uma campanha para a saída e a premissa de que o eleitorado britânico acabaria por recusar a saída. O propósito foi conseguido, à custa de demagogia e distorção dos factos e dos números que não ficou atrás do UKIP e teve um resultado inesperado que foi a aprovação do Brexit. O que se passou a seguir confirmou que o Brexit não resolveu nenhum problema e criou outros, o que já foi percebido pela maioria do eleitorado.

30/04/2024

CASE STUDY: Imigração ilegal, uma prioridade transversal a toda a Europa

Bruxelas deveria prestar mais atenção às prioridades dos cidadãos europeus, em particular à imigração ilegal que como mostram as sondagens Ipsos para a Euronews publicadas há dias é um tema importante para quase 60%. 

euronews

E em todos os Estados membros, salvo Finlândia e Roménia, o combate à imigração ilegal é prioritário para a maioria. Para os portugueses, diferentemente do que a esquerda e os governos do PS têm propalado, a prioridade deste tema está acima média europeia é a terceira maior a seguir à Holanda e à Alemanha.

euronews

Considerando as tendências políticas, a importância do combate à imigração ilegal é mais alta, como seria de esperar, ao centro e à direita, no entanto, mesmo à esquerda é importante para a maioria da população.

euronews

23/03/2024

Pobrezinhos e bem agradecidos

Estudo da Ipsos para Euronews mostra que os portugueses são os que mais aprovam a adesão à UE. E para as europeias de junho mantém-se a tendência destas legislativas.

Uma esmagadora maioria de portugueses (82%) considera que a adesão à União Europeia foi uma decisão boa e apenas 4% dizem que foi má. (Fonte)

Um desafio para as bazófias anti-europeístas: um difícil equilibrismo entre rosnar para gaúdio dos fiéis sem morder a mão que os portugueses esperam que continue a entregar fundos para torrar no Portugal dos Pequeninos.

24/02/2024

Viram-se gregos para lá chegar

Desde que o Syriza e o seu líder foram mandados para casa pelos eleitores (recordemos que para o Dr. Costa de 2015 «Vitória do Syriza é um sinal de mudança que dá força para seguir a mesma linha») a Grécia desapareceu dos radares dos mídia portugueses e não se encontra uma notícia, um comentário, uma referência.

Porquê? Pelas razões do costume. As redacções estão ocupadas por jornalistas de causas e de serventuários (jornalistas cujas causas são apenas as relacionadas com as suas carreiras) que esperam que o silêncio faça esquecer os desastres da esquerda grega e os sucessos do actual governo.

Recapitulando:      

As eleições do ano passado foram ganhas pela Nova Democracia com a mesma percentagem (quase 40%) das eleições anteriores, com 146 lugares, perdendo 12 lugares. O Syriza, o Berloque de Esquerda grego, obteve 32% dos votos e 71 lugares, perdendo 15. O Pasok, a versão grega do PS, obteve 8% dos votos e 41 lugares, tendo ganho 19.

O primeiro-ministro grego desde 8 de Julho de 2019, reeleito em 24 de Maio do ano passado, e líder da Nova Democracia Kyriakos Mitsotakis, antes de se dedicar à política em exclusivo frequentou Harvard e formou-se em estudos sociais, recebendo o Prémio Hoopes e sua tese foi publicada como um livro intitulado «The Pitfalls of Foreign Policy»; frequentou mais tarde Stanford e Harvard, foi consultor da McKinsey em Londres e desempenhou vários cargos na área financeira e foi nomeado em 2003 pelo Fórum Económico Mundial como um líder global do futuro.

Faz lembrar o CV do Dr. Costa ou do Dr. Pedro Nuno ou mesmo de qualquer outro primeiro-ministro do Portugal dos Pequeninos. É claro que isto e o resto não puderam deixar de fazer diferença e para citar apenas alguns acontecimento recentes, o governo grego criou uma comissão para supervisionar a aplicação dos fundos europeus liderada pelo prémio Nobel da Economia Christopher Pissarides, que evitou acrescentar novos elefantes brancos à manada criada pelos governos anteriores do Pasok e os que lhes sucederam e está a introduzir reformas importantes nos vários níveis de governação, no sistema de saúde e no ordenamento do território.

08/01/2024

Lost in translation (369) - O diabo do Dr. Costa explicado às criancinhas

No seu discurso de despedida no congresso socialista onde foi entronizado o seu sucessor, o primeiro-ministro cessante disse uma frase enigmática cujo sentido profundo escapou ao jornalismo de causas e aos exegetas do regime.

«O diabo não veio por uma razão muito simples: é que o diabo é a direita, e os portugueses não devolveram o poder à direita.»

E também me escapou, pelo que tive de usar o ChatGPT 5.0 para descodificar o pensamento do Dr. Costa. A resposta foi acompanhada por um link para a notícia da saída antecipada de M Michel da CE com uma foto.


«A declaração do Dr. Costa, primeiro-ministro português, parece ser uma afirmação política e retórica. Ele está utilizando uma expressão simbólica para representar a oposição política, referindo-se à "direita" como "o diabo", a qual não veio por uma razão muito simples: os portugueses não são parvos. Os portugueses querem o PS para torrar o dinheiro dos contribuintes europeus enquanto houver dinheiro.
Quando acabar, os portugueses chamarão a direita para criar de novo condições para o PS governar, e assim sucessivamente. Entretanto, o Dr. Costa estará na Óropa este ano ou, na pior hipótese, em Belém a partir de 2026.»

14/12/2023

Those who can, do; those who can’t, regulate

Thierry Breton, Commissioner for Internal Market

(Anand Sanwal, CBINSIGHTS newsletter)

Those who can, do; those who can’t, regulate, George Bernard Shaw would say if he were still alive and interested in artificial intelligence.