Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

30/12/2005

TRIVIALIDADES: parabéns filhas, mas não podeis deitar-vos em cima dos louros

O Expresso publica no seu último número de 2005 uma importantíssima sondagem onde nos dá conta, com título na 1.ª página («Um milhão de portugueses são homossexuais»), que 9,9% dos inquiridos na sondagem são bichas.

Antes de felicitar a bicharia por serem tão numerosas, terei que dar com o pau no Expresso, em sentido figurado, entenda-se. Um semanário de referência politicamente correcto não pode fazer uma bacorada politicamente incorrecta logo no título. Título que deveria ser «Um milhão de portugueses e portuguesas são homossexuais» ou, talvez melhor, «Um milhão de portuguesas e portugueses são homossexuais» ou, ainda melhor, «Um milhão de pessoas em Portugal são homossexuais».

Não quero regatear felicitações, nem mesmo ensombrar um acontecimento tão festivo, mas, em nome da objectividade estatística, terei que vos lembrar, filhas, que ainda tendes que converter à causa muitos mais portuguesas e portugueses para atingirdes os pináculos da concorrência, a saber:

Olhem, filhos, tendes um longo caminho à vossa frente até chegardes perto dos hipertensos, ou mesmo dos reumáticos e artríticos. Por agora, contentai-vos em fazer concorrência às varizes e ao prurido.

Declaração de interesse: o Impertinências é um blogue desalinhado, desconforme, herético, heterodoxo e HOMOFÓBICO, o que na circunstância significa que acha que ser bicha não é diferente de ser hipertenso, com vantagem para os hipertensos que não nos maçam com paradas.

BREIQUINGUE NIUZ: quizajero!

«Jerónimo de Sousa, acusou hoje a candidatura de Cavaco Silva de "pretender fazer um ajuste de contas com o 25 de Abril" (e) advertiu que, caso o seu adversário ganhe as eleições a 22 de Janeiro, "é o projecto democrático que está em causa"». (Público)

O camarada Jerónimo tem pouca confiança na democracia. Ela resistiu a todas as tentativas do seu partido instalar a ditadura do proletariado e o regime soviético. Se mais duma centena de milhar de aguerridos e fanáticos militantes, acolitados pelos seus compagnons de route e outras centenas de milhar de penduras no comboio do progresso não conseguiram esse feito, vai ser o professor Cavaco e umas dúzias de admiradores que vão conseguir? Ná, cá pra mim o camarada tá a exagerar um nico.

ESTÓRIAS E MORAL: isso é lá com vocês?

Estórias
A propósito disto, alguns títulos dos 2 últimos dias:

Moral
«O apaziguador é aquele que alimenta o crocodilo com a esperança de ser o último a ser comido.» (Winston Churchill)

SERVIÇO PÚBLICO: «isso é lá com vocês»

Numa entrevista ao semanário alemão Die Zeit, Michael Scheuer, agente da CIA durante 22 anos, afirma que o programa de transferência de prisioneiros («rendition program») para terceiros países «amigos» começou ainda nos tempos de Bill Clinton.

Michael Scheuer conta que no Outono de 1995 Bill Clinton, Sandy Berger (NSA) e o conselheiro de terrorismo Richard Clark deram instruções à CIA para «destruir» a Al-Qaeda. Quando perguntaram ao presidente o que deveria ser feito com as pessoas que a CIA capturasse, Clinton respondeu «That's up to you».

Michael Scheuer acusa de hipocrisia os europeus por criticarem o governo americano pelas acções que os beneficiam, porque toda a informação relevante obtida é transmitida à Espanha, Itália, Alemanha, França e Inglaterra.

Certamente que se aos governos destes últimos países tivesse sido feita a mesma pergunta que a Clinton, teriam respondido em coro «isso é lá com vocês».

(fontes: DN, YAHOO! e Davids MEDIENKRITIK)


«That's up to you»

29/12/2005

ESTÓRIA E MORAL: «incidente homofóbico»

Estória
Lynette Burrows, uma inglesa que escreve sobre direitos das crianças, participou num debate na rádio sobre a nova lei das uniões civis (civil partnerships act), inaugurada por Elton John e o seu namorado. Durante a discussão, defendeu que os homossexuais não deveriam poder adoptar crianças, argumentado que entregar um rapaz para adopção a dois homossexuais seria tão arriscado como entregar uma menina a dois homens heterossexuais que a quisessem adoptar. «It is a risk. You would not give a small girl to two men», concluiu.

Uma das pessoas que assistia ao programa apresentou queixa na polícia. Esta no dia seguinte informou Lynette Burrows que tinha sido participado contra si um «homophobic incident».
(news.telegraph via Dissecting Leftism)

Moral
Agora já não é proibido ser homossexual. Passará a ser obrigatório? (alguém perguntou, mas não tomei nota)

28/12/2005

BLOGARIDADES: bomba inteligente mata (simbolicamente) psicopata

«... por vezes, penso no soldado que descobriu Saddam Hussein naquele buraco em Ti Ki e nas angústias que deve ter sentido por não poder resolver o assunto logo ali. Agora temos um doido varrido a gritar com as testemunhas porque não o tratam por Presidente do Iraque. É nestas alturas que penso como a loucura está associada à maldade. Não, com certeza, nem sempre, mas falo, sobretudo, da psicopatia ou da sociopatia.»
O que diria o doutor Prado Coelho? Pois, talvez que estas palavras ocultam o desejo recalcado, o ímpeto reprimido, a vontade semântica de resolver o assunto in situ. Repressão auto-infligida que conduz inescapavelmente ao trespasse simbólico, à ponte desconstruída por um processo identitário do self para a persona intuída do soldado desconhecido. Um self sem salvação, nem ressurreição, nem redenção. Um self pleno de subjectividade racional, singular, patriarcal e eurocêntrica, onde reside, afinal, um foco de tensões entre retrocesso e progresso. Um self polimórfico criador de subjectividades que anseiam ripostar ao centro, desconstruindo-se para o efeito.

Que dirá o meu self? Poderia ter sido a notícia do ano, se a Charlotte por lá andasse nessa altura.

SERVIÇO PÚBLICO: que pasa?

Não se pense que a climatologia de causas só é praticada por ambientalistas politicamente correctos, por colectivistas sobreviventes da queda do muro de Berlim e outros especímenes da grande tribo dos melancias, verdes por fora e vermelhos por dentro.

Longe disso. A climatologia de causas é praticada com igual fervor por muitos conservadores, novos e velhos, e, pasme-se, até por alguns liberais.

De comum têm a crença na «Lei» de Meier: se os factos não confirmarem a teoria, devem-se descartar os factos. Os primeiros (melancias) procuram produzir previsões catastróficas e assustadoras que arrebanhem as massas ignaras e as atrelem à carroça ambientalista. Os segundos procuram produzir previsões tranquilizantes de passarinhos a chilrear em verdes prados que sosseguem as massas ignaras e as atrelem à carroça no pasa nada.

27/12/2005

DIÁRIO DE BORDO: o misterioso professor Cavaco Silva

Misterioso, mas não para o Impertinências que esteve num ano lectivo, antes do doutoramento em York do doutor Cavaco, 2 horas por semana, a ver o rigor mortis da sua expressão corporal, facial e mental. O seu pensamento económico e político é o fruto do casamento dos planos de fomento com a doutrina dominante na época - o social-colectivismo nas suas diferentes encarnações, das quais o professor preferiu a social-democrata. Trata-se de uma pessoa séria, responsável, competente, trabalhadora e que, presumo, raramente mente (a não ser quando tem a boca cheia com bolo-rei), porque faz uma gestão cuidada dos seus silêncios. Vou votar nele por razões de que não me orgulho.

Como é possível que uma pessoa tão previsível seja misteriosa para os sociais-colectivistas de direita e de esquerda, que o vêem como um perigoso liberal, e para alguns liberais, que sonham ser ele um dos seus, ainda que social-travestido para não assustar o eleitorado?

Exagero? Talvez não. O que proporia um liberal para garantir a desejável permanência a longo prazo das empresas estrangeiras a operar em Portugal? Reduzir os impostos? Criar incentivos financeiros? Simplificar a burocracia? Lubrificar o funcionamento dos tribunais? Melhorar as infra-estruturas vitais para o investimento estrangeiro? Flexibilizar as leis laborais? Melhorar a qualidade e incentivar o ensino técnico-profissional?

Podemos discutir horas sobre qual o mix de medidas mais adequado, mas certamento nenhuma criatura, mesmo só ligeiramente contaminada pelo pensamento liberal, se lembraria de propor a «criação de uma secretaria de Estado para acompanhar a vida das empresas estrangeiras a actuar em Portugal».

CASE STUDY: o liberalismo segundo a Pluma Caprichosa

Sou um leitor compulsivo da coluna Pluma Caprichosa que a doutora Clara Ferreira Alves alimenta todas as semanas na Única do Expresso. É a minha inclinação sado-maso. É um misto de atracção, pela impertinência, e repulsa, por aquele lunatismo residente em que se consome a nossa intelectualidade.

A semana passada a doutora Clara escreveu em tom patético sobre os cortes de verba, ou o envelope financeiro, para escrever em europês, do Pousal na Malveira, instituição da Santa Casa da Misericórdia que abriga os «que não conseguem caminhar pela vida fora sem a muleta da acção social e da solidariedade», que é para isso «que o Estado existe e tem de continuar a existir».

A que se deve, segundo a doutora Clara, a «recentragem» das verbas (dialecto solidariedês)? A uma confusão de prioridades do governo que administra o estado napoleónico-estalinista? À insaciável voracidade do «monstro» do professor Cavaco que consome todos os recursos do país? À incompetência da trituradora que desperdiça o dinheiro dos impostos esportulados aos contribuintes?

Nada disso. «O Pousal é a prova de que o liberalismo que quer retirar o Estado disto tudo é, apenas, a teorização da estupidez e da força bruta de quem é válido e se julga imortal.» Traduzindo do intelectualês, para a doutora Clara o liberalismo é uma avaria do colectivismo que o impede de cumprir a sua missão assistencial. Começámos no patético e acabamos no lunático, as usual.

26/12/2005

SERVIÇO PÚBLICO: há barragens e barragens

«A Direcção-Geral de Geologia e Energia deu quinta-feira "luz verde" para que a EDP possa construir duas novas barragens em Portugal.
Enquanto esteve na oposição o PS foi contra a decisão do anterior governo de avançar com a construção das barragens.
Depois de quinta-feira ter sido anunciado o parecer da Direcção-Geral de Geologia e Energia, José Sócrates disse em declarações recolhidas pela rádio TSF que o Governo manteve a decisão do anterior executivo para não causar "instabilidade" aos grandes projectos.
Em Junho de 2004, quando era deputado na oposição, o actual ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, declarou que a decisão do Governo, então liderado por Durão Barroso, (de avançar com as barragens), era "claramente contra o Ambiente"
.» (Diário Económico)

Por falar em ambiente, o que é feito da co-incineração?

TRIVIALIDADES: o que fazem os portugueses no seu longo horário de trabalho! (2)

Agora que o meu chefe saiu para uma reunião (diz ele), posso voltar à vaca fria, para acrescentar que estudo de mercado da empresa britânica Mori, permite compreender porque fazem o que fazem os portugueses no horário de «trabalho». Vejamos algumas conclusões:
  • «Três quartos dos portugueses entrevistados pela empresa de estudos de mercado consideram que a tecnologia, como o uso de correio electrónico e dos telemóveis, ajuda a aproveitar melhor o tempo
  • «Um em cada cinco portugueses gostaria de ter melhores equipamentos no emprego, pois acreditam que isso ajudaria a aproveitar ainda mais o tempo
É por essas, e por outras, que o plano tecnológico está condenado a ser um sucesso.

TRIVIALIDADES: o que fazem os portugueses no seu longo horário de trabalho?

«Portugal ocupa o terceiro lugar no «ranking» dos países que mais horas trabalham na União europeia a 15. Cada português trabalhou, em média, 1718 horas em 2004, mais 64 horas que a média europeia» (Jornal de Negócios)
Como explicar que, apesar de trabalharem mais horas, os portugueses têm a produtividade mais baixa da UE15? Elementar, meu caro Watson. Os portugueses só aparentemente trabalham mais horas. Os portugueses estacionam mais horas no local de «trabalho». Alguns utentes da vaca marsupial pública apenas estacionam os casacos sobresselentes enquanto vão tratar da vidinha. Se o chefe pergunta por eles, o colega do lado, solidário, esclarece que ele deve ter ido ao WC, porque deixou o casaquinho na cadeira.
Mas que fazem os portugueses enquanto estacionados nos locais de «trabalho»?




Esquerda e direita, têm (quase) o mesmo horário. A diferença a este respeito reside apenas
(Desculpem. Vou ter que interromper porque vem aí o meu chefe.)

25/12/2005

LA DONNA E UN ANIMALE STRAVAGANTE: uma prenda de Natal pós-moderna

Suspeito que a cronista Ana Anes que assina uma crónica no caderno Vida de O Independente não é a mocinha com um look equívoco, cuja foto encima a coluna, mas um marmanjo mulherengo, machista e, em consequência, misógino, dedicado a denegrir o mulherio.

Leio assiduamente a crónica, com o nome programático «Sete anos de mau sexo», com a atenção e cuidado que uma dissecção requer. Semana após semana, perpassa pela crónica um bem estudado e fingido ódio ao macho, que à primeira vista poderia parecer eflúvio de mulher mal amada, para dizer a coisa com a contenção que a quadra natalícia espera de mim, mas que uma análise desconstorcionista revela provir de uma criatura do género masculino com um projecto. E que projecto! O que a criatura quer induzir nas nossas meninges é a ideia que a mulher moderna emancipada aborda a relação com o outro género, e em particular com o sexo propriamente dito, de acordo com os paradigmas e os comportamentos dum estereotipo masculino, que hoje já só se encontra num resíduo do género, ou seja do que resta depois de expurgada as tendências BGT, metrossexuais e outras tribos, e dos últimos vestígios de homo vulgaris predominante no século passado.

Na sua última crónica, o marmanjo que se faz passar por Ana Anes visa na aparência diminuir a competência masculina para executar a cunilíngua - a autoridade de Paretto é invocada para demonstrar que «80 por cento dos homens fazem m... como os São Bernardo lambem as vítimas perdidas na neve». Mas só na aparência, porque a aplicação da análise descontorcionista revela, uma vez mais, que o seu propósito é mostrar que as mulheres emancipadas queimaram o talento junto com os sutiãs na década de 60, e só lhes restou nas décadas seguintes mimarem os homens, fumando, chutando, emborrachando-se, falando patoá de tasca, engatando e comportando-se na cama segundo o que julgam ser o cânone do macho, hoje caído em desuso.

Mas a estratégia de ocultação do marmanjo cai desamparada quando insinua que Ana Anes, no role model de mulher emancipada, preferiria uma cunilíngua como «prenda jeitosa de Natal» a «jóias» ou a «um casaquito do Cavalli», ou um banal «fim de semana numa pousada». Esta, só mesmo um marmanjo a fazer de gaja se lembraria de inventar.

23/12/2005

DIÁRIO DE BORDO: A cada um o seu natal (2)


aqui expliquei, no ano passado, nesta altura, que o respeitinho é muito bonito.

Santo Natal e um beijinho (Lapa, Boavista e classe A em geral)

Bom Natal e dois bejinhos (Telheiras, Antas e classe B em geral)

Feliz Natal e três beijinhos (resto da maralha).

BREGUINGUE NIUZ: velho é uma coisa, velhaco é outra

«Mário Soares manifestou-se esta sexta-feira indignado pela empresa austríaca Betandwin estar a utilizar os nomes dos candidatos à Presidência da República no seu site de apostas e espera que a Comissão Nacional de Eleições "não fique de braços cruzados" perante esta situação.» (Diário Digital)

Desconhece-se se o doutor Soares já pediu à Comissão Nacional de Eleições que não fique de braços cruzados em relação a um certo candidato presidencial que nas eleições autárquicas apelou à boca das urnas, perante os mídia, ao voto no seu filho.

COMENTÁRIO impertinente, censurável e politicamente incorrecto: é preciso que os eleitores digam ao doutor Soares que ele não é dono do regime, muito menos do país, e que estamos todos saturados dum velho mau, arrogante e ressabiado, e por isso vamos fazer o possível por o enviar para a casa, ler e escrever as memórias.

ESCLARECIMENTO pertinente: velho não é ofensa; o meu Pai é um velho com mais 14 anos do que o doutor Soares, mas não é velhaco, como ele, nem mau, nem arrogante, nem ressabiado.

ESCLARECIMENTO etimológico: diz-me um sujeito com cóltura que a origem de velhaco é vecchio. Pois será, mas, nos dias de hoje, um velho é uma pessoa idosa e um velhaco é um patife.

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: «mau, arrogante e ressabiado»

Secção Frases Assassinas
«Poderia escrever trinta linhas sobre a inqualificável atitude de um velho mau, arrogante e ressabiado, mas não me apetece», escreveu o Nortadas (lido em O Insurgente), que não precisou de escrever mais porque está lá tudo nessa frase.

Cinco bourbons para o doutor Soares, que sempre foi mau e arrogante, e duas urracas por recentemente acrescentar a esses predicados o ressaibo.

Estão a ver? Ele não tem cultura. Se eu lhes dissesse o que eles me diziam dele...

22/12/2005

SERVIÇO PÚBLICO: as pirâmides do estado napoleónico-estalinista (7) - o factor x

Já falei do factor 7% de margem para contingência no projecto da Ota, do factor 700% das obras do aeroporto de Pedras Rubras, e doutros factores aleatórios como o das SCTUs.

Aproveitando a boleia do blasfemo Gabriel, chegou agora a vez de falar das pirâmides do Euro 2004 cujas contas o Tribunal das ditas só agora consegue produzir. A este caso é aplicável o factor x, x no intervalo [0,54 ; 2,62[. (1)

O factor x, nas pirâmides do Euro 2004, segundo o Blasfémias
(astigmáticos, premi a imagem)


Notas de rodapé:
(1) Note-se, e não é um pormenor, que este intervalo é fechado à esquerda e aberto à direita.
(2) Ocorreu-me que a nota (1) poderia ser interpretada no sentido de ser vedado à esquerda fazer implodir os orçamentos. Nada mais falso. Sem desprimor para a nossa direita, que é igualmente competente a torrar o dinheiro dos contribuintes, o fechado e o aberto aqui são no sentido puramente matemático. Assim, aqueles números, sendo provisórios, como todos os números no nosso país que só valem o que valem, e que hoje podem estar certos e amanhã errados, só podem aumentar à medida que o tempo passa e os inspectores do Tribunal de Contas tiram os lápis das orelhas e os afiam, depois de mais uma repousante sesta.

SERVIÇO PÚBLICO: as pirâmides do estado napoleónico-estalinista (6)

A entrevista ao Semanário Económico do professor José Manuel Viegas, um especialista em transportes do IST e confesso adepto do TGV (versão «T deitado»), acrescenta razões de preocupação às já conhecidas. Vou citar duas que têm sido pouco referidas.

Do lado do financiamento, o professor Viegas revela que os subsídios disponíveis (o «envelope financeiro», no dialecto europês) para as Redes Transeuropeias são menores do que os previstos nos estudos dos consultores financeiros, em pelo menos 40%. Boas notícias para os contribuintes europeus, más notícias para os contribuintes portugueses.

Do lado dos benefícios esperados a coisa mais excitante que o professor Viegas consegue imaginar é que, segundo ele, o impacto anual no PIB será triplo do previsto (0,3%), «desde que o tempo poupado seja aproveitado para ganhos de produtividade», acrescenta. Se já é difícil descobrir donde o TGV poderia extrair 0,3% de ganhos de produtividade, não se vê como menos 1,5 hora no trajecto Lisboa-Porto terá virtualidades de poupar um astronómico número de muitas dezenas de milhões de horas por ano a algumas dezenas de milhar de tristes que fazem a deprimente viagem para poder ter um impacto daquela magnitude na produtividade. A menos que viajassem ininterruptamente 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Vamos esquecer as horas na viagem para Madrid, porque essas não são a deduzir, mas a aumentar ao tempo que quem viaja hoje em negócios gasta de avião de Pedras Rubras ou da Portela a Barajas e vice-versa.

21/12/2005

TRIVIALIDADES: o trabalho nas pirâmedes decorre a bom ritmo

SERVIÇO PÚBLICO: do alto destas pirâmides 20 anos de estórias vos contemplam

Quereis saber onde está o dinheiro dos vossos impostos (e dos impostos dos trouxas alemães, ingleses, etc.)? Pois ficai sabendo que as sobras do sustento dos utentes pendurados nas tetas da vaca marsupial pública foram aplicadas em várias pirâmides.

Falando da pirâmide Euro 2004, o que sobrou depois de pagar à legião que circulou à volta da pirâmide foi enterrado em betão e jaz em 10 estádios e na sua vizinhança. O Tribunal de Contas conseguiu agora acabar de somar das parcelas que conhece - hádem aparecer mais, como diria o estradista Coelho. Tudo por junto, a coisa atinge o estratosférico valor de mil milhões de euros.

1.000.000.000 euros

BLOGARIDADES: post de aceitação

Ganhou a Rainha assíria com um pequeno avanço, que foi grande per capita. E pode-se falar de ex aequo dos acidentais, dos blasfemos e dos fugitivos.

O Impertinências teve um honroso 5.º lugar e só não ficou melhor classificado porque os insurgentes fizeram batota - cada vez que os meus filhos lá foram votar apareceu uma enigmática mensagem em estrangeiro «We're sorry, you've already voted in this poll!»

Como dizia o meu pai, assim também eu. Em qualquer caso, tenho que aceitar o resultado, provando-se que as eleições foram limpas (nisto o doutor Soares é o meu mestre).

A sério, todos os blogues nomeados são tão bons que é difícil a escolha. Aliás, eu teria votado em todos eles se não tivesse sido forçado a usar todos os votos no Impertinências. Não por mim, mas para não deixar envergonhados os insurgentes, que distraidamente nomearam o Impertinências.

Estou a referir-me aos blogues da secção «De Direita», melhor chamada «De Direito». Dos outros, da secção «De Esquerda», melhor chamada «Sinistra», não posso falar com conhecimento de causa. Na verdade só conheci o Blogue de Esquerda, que julgava extinto, no dia que anunciou o seu passamento futuro. E travei conhecimento nestas circunstâncias sempre trágicas em que se deposita um post na urna com o corpo ainda quente.

Post (scriptum):
Estou a publicar este post ainda antes dos resultados oficiais, mas fiz uma sondagem à boca das urnas e, nestas coisas, nunca me engano e raramente tenho dúvidas.

20/12/2005

DIÁRIO DE BORDO: a inverosímil demonização

Disse Maria João Avilez, na Sic Notícias, no meio de trivialidades para poupar a imensa falta de vergonha do seu amigo doutor Soares, que os ataques dele ao professor Cavaco Silva foram tão descabelados e tão longe da visão que as pessoas comuns têm deste último, que retiram toda a credibilidade até às críticas certeiras que Soares terá feito.

Para quem se julga um «animal político» podemos dizer que a sua prestação foi uma besteira? Para quem se julga um estadista e que ultimamente só tem feito quilómetros podemos dizer que foi promovido a «estradista»?

DIÁRIO DE BORDO: o pior do melhor levou a melhor contra o melhor do pior

Que é que se pode dizer dum debate em que o doutor Soares mostrou o melhor do seu pior e o professor Cavaco Silva mostrou o pior do seu melhor? Pode-se dar-se como adquirido que votar no doutor Soares será contribuir para o regime extrair o melhor do seu pior e votar no professor Cavaco será contribuir para o regime extrair o pior do seu melhor.

Mas que fazer se o regime não consegue produzir um candidato que extraia dele o melhor do seu melhor? Votar no menos pior, pois claro.

Parece um jogo de palavras? É um jogo de palavras. Mas que dizer dum regime em que os dois candidatos melhor colocados para vencer não conseguem fazer um debate melhor do que este?

BLOGARIDADES: rendo-me, tende piedade



Persistência é uma qualidade que se reconhece desde logo aos Replicantes (eles chamam-se a si próprios Replicadores, mas só deixo de lhe chamar Replicantes, quando deixaram de me enviar emails).

Juro que passo frequentá-los se tirarem a grafonola e mudarem a cor de defunto para uma cor decente. Se mudarem para rosa-choque só lá voltarei se fizerem um coming out hetero.

SERVIÇO PÚBLICO: estatísticas de causas (2)

Quando aqui fiz referência às estórias contadas na síntese de conjuntura do INE, já sabia que era só uma questão de pouco tempo para o «Instituto Nacional de Sensações» (Semiramis) ser obrigado a admitir uma realidade muito diferente dos delírios do 3.º trimestre.

Menos de um mês depois, no seu Destaque do dia 9, já o INE (ou INS) chora as desacelerações do PIB, do consumo privado e do investimento. O melhor que o INE (ou INS) conseguiu para exaltar as nossas deprimidas meninges foi a miséria de um ponto base de melhoria do saldo negativo da Balança de Bens e de Serviços de -8.6% para -8,5% (e, havemos de confirmar, a redução das importações foi nos bens de investimento).

Nem mesmo com estatísticas de causas a coisa se compõe. Ainda faltará muito tempo para esta gente desenfiar a cabeça da areia das fantasias?

19/12/2005

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: a batota do fanático moralista

Secção Tiros nos Pés
No dia 13 os Marretas meteram-se com o camarada Louçã por ele ter cobrado ao doutor Cavaco não ter desempregados na lista de apoiantes, quando a sua própria lista também não os tinha.

Nos dias seguintes a candidatura do fanático moralista foi a correr desencovilar desempregados para compor a lista e fazer o penso no pé atingido pelo tiro do fanático lui-même.

Tiveram azar. Meteram-se com o Waldorf que não lhes perdoou. Foi ao cache do Google e desmontou a batota neste post.

Comparando a lista do dia 13 com a lista actual encontramos nesta os seguintes desempregados, entretanto empregados como apoiantes do fanático moralista: Carlos Veiros, Daniel Pacheco, Elísia Godinho, João Couteiro, Manuel Silvestre, Óscar Barbosa, Ricardo Silva e Rogério Oliveira

Distribuição de prémios: 4 afonsos para o Waldorf que não foi nas cantigas, e para o colectivo dos apoiantes do fanático moralista 3 ignóbeis (por que sim), 4 chateaubriands (por que não?) e 5 bourbons pela cambada continuar igual a si própria.

PUBLIC SERVICE: the angry generation had turned into aged generation and got Alzheimer

«There are no hard distinctions between what is real and what is unreal, nor between what is true and what is false. A thing is not necessarily either true or false; it can be both true and false.»
(Harold Pinter in his acceptance speech for the Nobel; here, via Dissecting Leftism)

TRIVIALIDADES: ianques perdem a liderança

«Segundo a edição de ontem do “The New York Times”, a Agência Nacional de Segurança, a entidade responsável pela vigilância das comunicações no estrangeiro, terá, desde o início de 2002, realizado escutas e interceptado mensagens electrónicas de centenas, ou mesmo milhares, de cidadãos norte-americanos e estrangeiros residentes no país.» (Público)

Grande coisa. O nosso «gato constipado» tem 8.000 sob escuta ainda antes do plano tecnológico.

18/12/2005

BLOGARIDADES: das duas, três, ou quatro

«Mas supondo que quem não usa preservativo está consciente dos perigos da SIDA, falta explicar porque é que está disposto a arriscar a vida pelo preço de um preservativo. Das duas uma, ou as pessoas que não usam preservativo estão conscientes do perigo da SIDA mas atribuem um preço extraordinariamente baixo à própria vida, ou não estão conscientes dos perigos da SIDA e a redução do preço não terá qualquer impacto.» (Blasfémias)

Ou das duas, três e, precisamene porque conscientes dos perigos, as pessoas excitam-se com o risco (diz-se que certas correntes homossexuais praticam uma espécie de roleta russa do sexo). Ou das três, quatro. Em minha opinião, quase sempre, trata-se de simples depreciação das possíveis consequências futuras face à comodidade e «naturalidade» imediatas de não usar preservativo.

A ser assim, a opção usar/não usar não seria muito diferente dos mecanismos mentais de escolha que nos levam a desconsiderar, por exemplo, fazer uma entrega extraordinária no fundo de pensões em vez de comprar um écran de plasma, mesmo que saibamos da ameaça de insustentabilidade da segurança social que paira sobre as nossas cabeças.

Não parece fácil acomodar estas especulações, por sinal aparentemente bem realistas, com o Homo Liberalensis, que poderá ser como o Abominável Homem das Neves, que se supõe existir, mas que ninguém nunca viu.

Sendo certo que oferecer preservativos deve ter um efeito na opção de os usar semelhante a entregar um formulário de PPR a quem já encomendou o écran de plasma.

DIÁRIO DE BORDO: vice-versa

O melhor que se pode esperar dum político não liberal é que reconheça que lhe convém o mercado para corrigir o estado.

BREIQUINGUE NIUZ: a antiguidade é um posto

«O ministro do Ambiente, Nunes Correia, viu esta semana anulado o concurso que o promoveu a professor catedrático do Instituto Superior Técnico há sete anos. O concurso foi impugnado por um dos professores preteridos, que alegou não ter Nunes Correia a antiguidade necessária para o posto. ... Nunes Correia pretende agora "recorrer da sentença" e afirma ... "estes processos administrativos são o pão-nosso de cada dia no mundo académico, onde existe um clima muito competitivo (1.ª página do Expresso)

O professor Nunes Correia não explica, mas nós percebemos, que a competição pela antiguidade se faz esperando que o tempo passe depressa.

16/12/2005

SERVIÇO PÚBLICO: raio X do fanático moralista

Leia-se aqui a notável dissecção que Pacheco Pereira, ao seu melhor nível, fez no Público, do pensamento político oculto do fanático moralista professor Francisco Louçã.

SERVIÇO PÚBLICO: vão-se os anéis ficam os dedos

Se a eficiência média das câmaras municipais fosse igual à das câmaras mais eficientes (que, presume-se, não terá um nível estratosférico), os serviços que as autarquias prestam às populações custariam menos 43%, segundo um estudo do ISEG publicado no JN.

Se as autarquias vão torrar em 2006 os 2,3 mil milhões de euros de impostos do estado transferidos para os municípios, acrescidos das receitas municipais e do aumento líquido do endividamento, poupar 43% dessa grana todos os anos no período 2008-2013 permitiria pagar as ligações Porto-Lisboa e o troço português Lisboa-Madrid do TGV que o governo projecta construir nesse período. Em alternativa, o governo poderia pagar uma semana de férias no nordeste brasileiro a todos os funcionários públicos durante esses seis anos, o que vinha a dar quase no mesmo.

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: mudar de ideias pode ser sinal de inteligência

Secção Universos paralelos
«A economia portuguesa tem três prioridades para melhorar, afirmou Félix Ribeiro, que as identificou de imediato: "Atrair investimento directo estrangeiro. Atrair investimento directo estrangeiro. Atrair investimento directo estrangeiro".
Para este economista, sub-director-geral do Departamento de Prospectiva e Planeamento do Ministério do Ambiente, Ordenamento do Território e Desenvolvimento Regional, o sucesso de qualquer pequena economia aberta, como a portuguesa, depende da sua capacidade de afirmação nos mercados internacionais.
» (DE)

30 anos atrás, Félix Ribeiro teria gritado em coro com o major Tomé «os ricos que paguem a crise». 30 anos depois o major Tomé continua a sonhar com a tomada do palácio de Inverno e a ter pesadelos com a queda do quartel da Ajuda.

Atribuição de prémios: 3 afonsos para o doutor Félix Ribeiro e 5 bourbons para o major Tomé.

DIÁRIO DE BORDO: «nunca me engano e raramente tenho dúvidas», ou vice-versa

Porquê votar Cavaco Silva?

Sete certezas, por ordem decrescente de importância:
  • Francisco Louçã, o fanático moralista
  • Mário Soares, o «musgo viscoso»
  • Garcia Pereira, o perdido no passado
  • Jerónimo de Sousa, o perdido no futuro
  • Gonçalo da Câmara Pereira, o perdido no presente
  • Carmelinda Pereira, a alienígena
  • Manuel Alegre, o épico
Sete dúvidas, por ordem alfabética:
  • Botelho Ribeiro
  • José Maria Martins
  • Luís Filipe Guerra
  • Manuel Vieira
  • Manuela Magno
  • Mário Nogueira
  • Nelson Magalhães

15/12/2005

BREIQUINGUE NIUZ: a geminação do Terreiro do Paço e da praça Tiananmen

«O Ministério da Justiça português, representado pelo secretário de Estado Adjunto e da Justiça, José Conde Rodrigues, e o Ministério da Justiça da República Popular da China celebraram na passada sexta-feira, 9 de Dezembro, a assinatura de um acordo de auxílio judiciário mútuo em matéria penal e a assinatura de um memorando de entendimento sobre cooperação no domínio da Justiça.» (Nota de Imprensa do ministério da Justiça - via Grande Loja)

O acordo abrange «a entrega temporária de pessoas que se encontram detidas para fins de realização de acto de investigação».


Terreiro do Paço e Tiananmen, duas praças, uma só justiça?

BREIQUINGUE NIUZ: exclusão, desperdício e atraso

Desistir do TGV teria, segundo o engenheiro Sócrates revelou aos presentes no Centro de Congressos de Lisboa, «custos de exclusão, que acentuariam a periferia, de desperdício de fundos comunitários alocados ao projecto de alta velocidade ferroviária e custos de progresso tecnológico. Em suma custos de atraso».

1.ª conclusão: ó irlandeses, preparem-se para voltar a semear batatas;

2.ª conclusão: o «desperdício dos fundos comunitários» (dos quais 1% têm origem portuguesa) é mais preocupante do que o desperdício dos fundos nacionais (dos quais 100% têm origem portuguesa).

14/12/2005

ESTÓRIA E MORAL: cuidando da vidinha

Estória
Acabadinho de sair do governo, o ex-chanceler alemão Gerhard Schroeder, em risco de ficar no desemprego, aceitou a caridosa oferta do consórcio Gazprom para ser o seu novo presidente. O Gazprom, que é controlado pelo estado soviético do senhor Putin, prepara-se para oferecer ao senhor Schroeder um salário que «reflicta o seu calibre», escreveu o Financial Times a que cheguei via Blasfémias.

Moral
Não é que a esquerda tenha piores costumes do que a direita, é mais a diferença chocante de expectativas entre a alegada superioridade moral da esquerda e a sua miserável prática.

BLOGARIDADES: honni soit qui mal y pense?

Se não consigo imaginar a Joana do Semiramis a fazer de Eduardo III de Inglaterra, consigo ver a doutora Filomena Mónica no papel de Condessa de Salisbury.

O que não tenho dúvidas é que, se estivesse à época na corte de Eduardo III, ao ver caídas as ligas da Condessa de Salisbury, não me teria rido mais do que me diverti a ler a malícia do post «A Ana e a Márcia ou uma história triste de um sector com nichos de mercado diferentes».

A alusão da Joana à coisa flácida de que os intelectuais da estória terão pendurada revela uma crueldade muito saudável em relação à espécie. Confesso ainda mais fácil de imaginar essa flacidez, quando olho para os especímenes que conheço, do que ver a doutora Filomena Mónica no papel de Condessa de Salisbury.

Serão estas as da doutora Mónica?

13/12/2005

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: uns são filhos e os outros enteados

Secção Perguntas impertinentes
A propósito do assassinato dum polícia em Lagos, no último domingo, por um assaltante em fuga, o Sindicato dos Profissionais da Polícia emitiu um comunicado informando que «tudo fará para responsabilizar o Estado, e por conseguinte o Governo, por mais esta morte violenta de um polícia, a quarta apenas este ano». (PortugalDiário)

Pode parecer, à primeira vista, um exagero de sindicalistas, mas, reflicta-se um pouco. Porque manda o governo os polícias saírem das esquadras, ao frio e à chuva? Porque lhes atribui missões perigosas? Porque os manda darem o peito às balas de meliantes, enquanto os outros funcionários ficam no quentinho e o maior risco que enfrentam é a incompreensão da sua delicada missão pelos utentes do estado napoleónico-estalinista?

Em suma, porque são filhos uns e os outros enteados?

É por isso que atribuo 3 merecidos bourbons aos polícias-sindicalistas (ou sindicalistas-polícias) por continuarem iguais a si próprios, ousando lutar pela igualdade de direitos adquiridos ou a adquirir.

CASE STUDY: um projecto multicultural e anticapitalista de "educação matemática"

Encontrei na minha torre de tombo privada uma paródia de «Exame final de matemática na C+S da Damaia» que alguém me enviou há um par de anos. Na altura pensei que fosse apenas um exercício de humor. Depois de conhecer a "educação matemática" do Professor Matos, do Centro de Investigação em Educação da Faculdade de Ciências, já não tenho a certeza.

ESCOLA SECUNDÁRIA DA DAMAIA

EXAME FINAL DE MATEMÁTICA

Nome: ___________________________ Turma: ______ Gang: __________

1. O Joãozinho tem uma metralhadora AK-47 com carregador de 80 balas. Por cada rajada Joãozinho gasta 13 balas. Quantas rajadas poderá disparar até descarregar a arma?

2. José comprou 10 gramas de cocaína pura que misturou com bicarbonato de sódio na proporção de 4 partes de cocaína por 6 de bicarbonato. A seguir vendeu 6 gramas dessa mistura ao Joaquim por 160,00 e 16 gramas ao Bruno a 42,50 cada grama. Quem é que comprou mais barato? Bruno ou Joaquim? Com quantas gramas de mistura ficou José? Quanta cocaína contem essa mistura? Qual é a taxa de diluição da mistura?

3. Rui é chulo e tem 3 prostitutas a trabalhar para ele. Cada uma delas cobra 32.50 ao cliente, dos quais 20.00 entrega ao Rui. Quantos clientes terá que atender cada prostituta para poder comprar ao Rui a sua dose diária de crack no valor de 100.00?

4. Januário comprou 200 gramas de heroina que pretende revender com um lucro de 20% à custa da mistura com giz. Qual é a quantidade de giz que terá que adicionar?

5. Guilherme recebe 100.00 por cada BMW roubado, 25.00 por cada carro japonês e 50.00 por cada 4X4. Como já roubou 2 BMW e 3 4X4, quantos carros japoneses terá que roubar para receber o total de 400.00?

6. Raul está na prisão há 6 anos por assassínio pelo qual recebeu a quantia de 5 000.00. A mulher dele está a gastar esse dinheiro à taxa de 50.00 / mês. Com quanto dinheiro ficará Raul quando sair da prisão daqui a 4 anos? Questão suplementar: a quantos anos será condenado por ajustar as contas com "Aquela p... que estoirou o meu dinheiro todo"?

12/12/2005

O IMPERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: a idade não conta, o que conta é o estado de espírito

«No telejornal da sexta-feira passada mostravam o Mário Soares a passear pelas ruas de ... (Águeda? Braga? pouco importa).
Entre beijos com bigode e abraços a cheirar a vinho novo, o passeio decorria com normalidade.
Até que se ouve alguém de longe a gritar o slogan que mais se adapta a este candidato: "Pantufas, Chichi, Cama!"
Qual Liberdade, Igualdade, Fraternidade! Pantufas, Chichi, Cama é que é!
»
(email de AB, amigo, detractor e uma língua viperina, nem sempre por esta ordem)

O Impertinências nunca usou o argumento da idade. Se o fizesse, seria no sentido oposto ao que está subjacente ao slogan citado pelo meu amigo AB. Explico-me: as razões porque não recomendo o voto no doutor Soares ficam ligeiramente enfraquecidas quando se tem em conta a sua idade.

SERVIÇO PÚBLICO: as pirâmides do estado napoleónico-estalinista (5) - o factor 7

Por falar dos tais 7% de margem para contingência no projecto da Ota, alguém se lembra que o custo da ampliação do aeroporto das Pedras Rubras, orçamentado em 45 milhões de euros, inchou 7 vezes subindo para o estratosférico valor de 300 milhões de euros (cá está o factor 7 = 300:45).

Contudo, o factor 7 não tem aplicação universal. É o caso dos encargos do Estado com as SCUTs que, segundo o Tribunal de Contas, vão ser superiores a 17 mil milhões de Euros, mas já ninguém se lembra da estimativa inicial.

Para se ter uma ideia do que pode significar empenhar as pratas da família para ter um aeroporto que custará n vezes a estimativa inicial e durará 20 ou 30 anos, ponham-se as coisas neste contexto:

(Semanário Económico)

Nota:
Este post é uma sequela da série «Há vida para além da Ota», ampliada com outras pirâmides: o TGV, a refinaria de Sines, e as que a estratégia socrática do mais do mesmo ainda pode inventar. Anteriores episódios, por ordem cronográfica inversa:

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: "educação matemática"

Secção George Orwell
«Está numa comunicação de João Filipe de Matos, um dos dirigentes do Centro de Investigação em Educação da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e director da sua "Revista de Educação". Este académico, responsável pela formação de professores, parte de um princípio claro, recorrendo a uma citação: «nas sociedades capitalistas, a escola justifica e produz desigualdades». Por isso, defende que - e cito para que não restem dúvidas - "a disciplina de matemática deve ser urgentemente eliminada dos currículos do ensino básico". Matos prefere que se ensine - volto a citar - "educação matemática". Ou seja, o professor tem uma religião e quer impô-la. E o seu mandamento é que nada se deve ensinar, salvo ensinar a aprender.
O mesmo responsável dá exemplos delirantes. Se o casal Silva quer ir do Campo Grande ao Parque das Nações, com os seus dois filhos, e a viagem de autocarro custa um euro por bilhete, quanto irá pagar?
Ora a resposta normal seria quatro euros. Mas isso é matemática antiga, cheia de mitos a que Matos quer pôr um fim. Ao cabo de vários argumentos sociais, ecológicos e políticos, Matos acha que quatro é muito, porque deveria haver desconto.
Eu sei que para a maioria dos leitores o professor Matos parece fruto da minha imaginação. Mas não é.
»
Só pode ser imaginação do jornalista Henrique Monteiro ("Quem nos liberta desta cruz?", Expresso de 10-12). Não há ninguém tão idiota que escreva uma comunicação dessas. Mesmo sendo um académico. Pois não?

Cinco chateaubriand não chegariam para premiar tais besteiras, se é que o professor Matos não é uma criação do jornalista, caso em que este levaria com cinco ignóbeis pela sua perversidade.

11/12/2005

DIÁRIO DE BORDO: Pássaro Vermelho com Azul


(Pássaro Vermelho com Azul, CR, 1992)

BLOGARIDADES: uma escovadela no ego é sempre bem vinda

Ainda que sejam só os insurgentes a pensar isso, é bom para o ego impertinente ficar na companhia de acidentais, fugitivos, blasfemos E da rainha assíria.
Para não desapontar a benevolência dos insurgentes, já fui lá votar no Impertinências. Como se perguntava aquela menina do anúncio do leitinho, «se eu não gostar de mim, quem é que vai gostar?».

10/12/2005

SERVIÇO PÚBLICO: o futuro da Óropa e dos escombros do Império Soviético

«Um dia milhões de homens partirão do hemisfério sul em direcção ao hemisfério norte. Eles não irão como amigos, eles irão conquistá-lo. E a conquista será conseguida pelos seus filhos. Os úteros das nossas mulheres dar-nos-ão a vitória.» (Palavras premonitórias do presidente argelino Houari Boumedienne num discurso na Assembleia Geral da ONU em 1974)

Antevisão da Óropa e dos escombros do Império Soviético

09/12/2005

TRIVIALIDADES: demasiado humano


Segundo a equipa do doutor Florian Raible do European Molecular Biology Laboratory, o «genoma deste verme é quase tão complexo como o genoma humano, sugerindo que ... geneticamente as pessoas e os vermes são iguais».

Eu sempre soube disso - bastou-me ver os jotas.

08/12/2005

DIÁRIO DE BORDO: locais


DIÁRIO DE BORDO: o Meirelles não é nenhum Eisenstein

Com actores como Ralph Fiennes ou Rachel Weisz, com um script baseado em Le Carré, porque terá um realizador com algum talento feito de O Fiel Jardineiro (uma tradução equívoca para The Constant Gardener) uma xaropada piegas e panfletária?

Para quê inserir, com a subtileza de um martelo, o discurso incendiário de Tessa Quayle sobre o Iraque, encharcar todo o filme com versões infatilizadas das teorias conspiratórias de Le Carré, fazendo das personagens estereótipos sem espessura? Meirelles tem desculpas? Tem pelo menos uma má desculpa, chamada Jeffrey Caine, um argumentista banal capaz de estragar o melhor Le Carré, quanto mais o pior.

Não fosse o talento de Fiennes, acompanhado, a uma distância respeitosa, por Rachel Weisz, e O Fiel Jardineiro seria um misto de telenovela mexicana com um policial série B.

É possível fazer dum panfleto um filme genial? É sim senhor. Mas é preciso um génio (pelo menos).

07/12/2005

CONDIÇÃO MASCULINA: discriminação positiva (com dedicatória)

Condição masculina é «onde se trata da decadência, e das suas origens, do macho humano e em particular do macho lusitano» e «tem por lema o silogismo: se Deus quisesse que os machos fossem iguais às fêmeas só tinha feito caracóis

Hoje o tema é a distribuição dos prémios Pfizer de 2005 na Investigação básica e na Investigação Clínica, em que as marmanjas abarbataram 21 dos 32 prémios e menções honrosas atribuídos, deixando para os pobres marmanjos apenas alguns dos restantes 11. Alguns, porque nem todos (vá lá, não me puxem pela língua).

No estado em que estão as coisas, é incontornável, impõe-se uma ejaculação do órgão legislativo fixando uma quota mínima de 50% para o género masculino, devidamente certificado. Deverá ser aplicada a todos os prémios a atribuir no Continente e na R.A. dos Açores, salvo naturalmente nos prémios que pela sua natureza já são reservados aos homens - competições de pesca, street races e similares.

As marmanjas laureadas empalmando os marmanjos


Post (scriptum):
Este post é dedicado a RMR, uma detractora habitual do Impertinências que escreveu umas palavras simpáticas, escovando o ego do Impertinente, coisa a que não se pode ficar indiferente, nos dias que correm.

RMR também se queixa da pouca importância que aqui se tem dado às aleivosias & dislates do doutor Mário, mas, entenda-se, que é o respeitinho pela idade e a falta de vontade de colaborar no massacre. Estou a poupá-lo para a reforma.

06/12/2005

CASE STUDY: os limites da auto-regulação na Web - as broncas da Wikipedia

O Abrupto tem uma parcela de razão quando sublinha os limites ao anarco-voluntarismo subjacente às iniciativas como a Wikipedia. «Demagogia utópica» parece exagerado e deslocado, porque pressupõe um propósito que julgo faltar à Wikipedia, como a muitos desse tipo de projectos que são o resultado da interacção essencialmente espontânea de milhares de pessoas.

O NY Times, citado pelo Abrupto, usa o lamentável caso de John Seigenthaler para demolir a credibilidade da Wikipedia (como quase todos os mídia fazem em relação aos blogues e outras iniciativas que saem do círculo da nomenclatura jornalística). Começa pelo título «Snared in the Web of a Wikipedia Liar», continua na legenda da foto «FALSE WITNESS How true are "facts" online?» e termina no texto, todo ele construído para desacreditar a Wikipedia. Acontece que a Wikipedia, com todas as suas falhas e com os riscos inerentes ao seu processo descentralizado de produção, sem «edição», contém imensa informação útil e frequentemente rigorosa que é impensável encontrar nos jornais, com quem aliás a Wikipedia não concorre, como não concorrem os blogues. Se os mídia receiam a produção de ideias e informação descentralizada e multiforme online não deve ser pela concorrência que lhes fazem. Receio que seja mais por desvendarem aos olhos dos internautas distraídos a falta de qualidade e de profissionalismo recorrentes no jornalismo de causas.

Pode ler-se aqui uma referência mais técnica e mais neutra (por ter menor potencial conflito de interesses) do que a do artigo do NY Times, onde se cita também Jimmy Wales, um dos fundadores da Wikipedia.

Por várias razões, incluindo o facto de ter um acesso gratuito, não pode esperar-se da Wikipedia que seja uma Britannica.

05/12/2005

SERVIÇO PÚBLICO: há vida para além da Ota? (4)

Ainda se falou pouco dos riscos de derrapagem do projecto da Ota, que deveriam ser razoavelmente evidentes para qualquer alma com um módico de memória do que costuma ser a obra pública neste país.

A gestão privada do projecto não põe os contribuintes ao abrigo dum extorsão complementar a título de custos da incompetência no planeamento e gestão do projecto. Tudo depende de quais os riscos que ficarão do lado do concedente - o estado napoleónico-estalinista.

Para começar, é prudente ficar de pé atrás. Leia-se, por exemplo, a entrevista a O Independente do doutor Vítor Gonçalves Lopes do banco Efisa (o mesmo que propõe que os passageiros da Portela sejam esportulados duma taxa para pagar a Ota), que nos revela que o projecto Ota tem previstos para contingências 193 milhões de euros, ou seja uns astronómicos 7 por cento, que ele garante a Parsons (*) ter considerado suficientes com um grau de confiança de 95%.

Não sei se ria, se chore. Há uns anos tive a oportunidade de constatar que o responsável pela gestão dum projecto de construção de 80 km de auto-estrada não só não sabia qual a margem que estava prevista, como desconhecia os próprios conceitos de contingency margin e float period. Sabendo-se que as obras públicas em Portugal, à custa de cambão, suborçamentação, trabalhos a mais, alterações ao caderno de encargos e outros expedientes, costumam derrapar pelo métodos dos múltiplos, a margem que tranquiliza o doutor Lopes deve deixar aterrados os contribuintes.

(*) Talvez esses parâmetros sejam adequados para os projectos em que Parsons tem participado, mas só por milagre seriam realistas aqui. Vejam-se as suas referências nos projectos de aviação para se perceber que apenas o aeroporto de Atenas lhes poderia acender o desconfiómetro.

04/12/2005

LA DONNA E UN ANIMALE STRAVAGANTE: parir e pastorear bebés é para fêmeas beta

Na sua Crónica Feminina na Única desta semana, a escritora Inês Pedrosa ironiza sobre o «mau hábito que as mulheres adquiriram de privilegiar o seu projecto pessoal de vida em vez de parirem e pastorearem, a tempo inteiro, rebanhos de bebés gordinhos», hábito que tem, como reconhece, uns pequenos inconvenientes, como a insustentabilidade da Segurança Social, entre outros bem mais graves.

A ironia de Inês Pedrosa e a ideia que lhe subjaz é um exemplo dum dos feitos mais extraordinários na guerra dos géneros que devemos levar a crédito do machismo mais ou menos encapotado. É sem dúvida extraordinário que um magote de atrasados mentais tenha conseguido enfiar nas meninges ultra-inteligentes das elites feministas que parir e pastorear bebés gordinhos é uma actividade talvez adequada para «domésticas» mas imprópria para fêmeas alfa.

Ainda mais surpreendente é a solução que Inês Pedrosa vê para este pequeno incómodo de encontrar quem lhe pague a reforma. Reconhecendo que, além desse inconveniente, as sociedades europeias decadentes também têm um problema de integração dos imigrantes, ainda mais aflitivo a curto prazo, como o churrasco das bagnoles veio lembrar, Inês Pedrosa encontra neste problema a oportunidade para resolver o outro. Por baixo do patoá politicamente correcto, encontramos a solução: o «sangue novo que vem de outros continentes», ou, dito de outro modo, parir e pastorear rebanhos de bebés (gordinhos ou, sobretudo, magrinhos) pode não ser uma boa ideia para as nossas mulheres que têm um «projecto pessoal» mas é uma actividade perfeitamente recomendável para as outras.

Se a primeira ideia é digna do melhor machismo, a segunda está à altura do pior racismo.

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: importa-se de repetir? (CORRECÇÃO)

Secção Insultos à inteligência
Na 3.ª feira passada dei aqui uns prémios ao doutor Cadilhe que, segundo o Diário Económico e o Jornal de Negócios, teria proposto a redução do Estado «a um quarto ou um terço da sua actual dimensão». A coisa, dita assim, acendeu-se-me o desconfiómetro. Mesmo tratando-se do «melhor ministro das Finanças depois do 25 de Abril» (o que não é grande diploma), pareceu-me demasiado dislate. E daí acrescentar à cautela que «ainda há esperança que a culpa seja dum estagiário da Lusa com problemas de audição», sendo a Lusa a fonte comum aos dois diários.

Os jornalistas do Semanário Económico que, por ser semanário, têm um pouco mais de tempo para elaborar as asneiras, transferiram o despautério do doutor Cadilhe para o doutor estagiário da Lusa que escrevinhou reduzir «a um quarto ou um terço da sua actual dimensão» em vez de reduzir «entre um quarto e um terço». Eventualmente o estagiário da Lusa faz parte da geração que não sabe a tabuada, para a qual o intervalo [0,25 ; 0,33] não faz grande diferença do intervalo [0,66 ; 0,75], ou cuja iliteracia não distingue entre «reduzir a» e reduzir de».

Tenho por isso que pedir desculpas ao doutor Cadilhe pelos chateaubriands e pela ameaça de ignóbeis, que são transferidos para o estagiário da Lusa. Fica o doutor Cadilhe apenas com os 3 pilatos, por ter lavado as mãos pela sua participação no generoso contributo que o 1.º governo do professor Cavaco deu para o engrandecimento do «monstro».

É justo que o Impertinências também leve com 2 chateaubriands por ter exagerado no juízo que fez do doutor Cadilhe.

01/12/2005

ARTIGO DEFUNTO: Ghandi e Che vistos ao espelho




«Os herdeiros de Ghandi e Guevara: revolucionários pacíficos da Europa»

(Capa de Der Spiegel de 7-11, vista em Davids MEDIENKRITIK - Politically incorrect observations on reporting in the German media)

HISTÓRIA E MORAL: guerra e paz

História
Shimon Peres, 82 anos, fundador há 60 anos do partido Trabalhista, Prémio Nobel da Paz de 1994, anunciou que decidiu «apoiar Ariel Sharon por que ele é o único que pode promover uma coligação pela paz».

Moral
Para fazer a paz é preciso estar preparado para fazer a guerra.

DIÁLOGOS DE PLUTÃO: tive um sonho

- Pensa que haverá segunda volta, ou não?
- Tenho a certeza que haverá segunda volta.
- Porque diz isso?
- Tive uma revelação. O camarada Trotsky apareceu-me num sonho com o picador de gelo cravado no crânio e disse: "Anacleto, conto contigo em Belém".
- Refere-se ao picador de Catherine Tramell?
- Não. Não era esse o nome do assassino mandado por Stalin.

30/11/2005

ESTÓRIA E MORAL: eu, lagarto, me confesso

Estória
Lagarto congénito, confesso-me irritado quando um clube de futebol, principalmente aquele porque tenho simpatia, tenta fazer acordos com o fisco para escapar a pagar 2,7 milhões de euros. Mas não espero que o estado napoleónico-estalinista se comporte como uma pessoa de bem e, por estar habituado, já não me irritarei se a direcção do clube e a administração da SAD dos lagartos não vierem a ser presas sem caução, como deveriam, e se, como prémio de inadimplência, o fisco lhes vier a perdoar o todo ou a parte dos 2,7 milhões de euros.

Moral
Entradas de leão, saídas de carneiro.

SERVIÇO PÚBLICO: há vida para além da Ota? (3)

Bom, depende.

Para se perceber melhor, nada como ler o dilema das cadeiras pelo blasfemo jcd. O post «Justa causa» explica como fazer a bota bater com a perdigota.

Se o Impertinências estivesse dentro das calças do engenheiro Sócrates (vade retro satanas!) mandava os ministros e os seus ajudantes lerem 100 vezes o post do jcd, amanhã dia da Restauração, sob pena de serem defenestrados como dom Miguel de Vaz com Selos.

29/11/2005

SERVIÇO PÚBLICO: o polvo fáctico

«Nós hoje vivemos em Portugal uma situação perversa. Nesse aspecto somos dos piores países da Europa. E isto porque quem financia a actividade partidária, a actividade dos dirigentes partidários são, normalmente, os empreiteiros. Financiam as campanhas e financiam a vida privada de muitos dirigentes partidários, que fazem desta vida política a sua profissão. Não sabem fazer mais nada. Profissionalizaram-se na política e da política depende a sua sobrevivência.

Sejamos mais claros: muitos promotores imobiliários financiam a vida política e partidária para que depois os políticos, financiados por eles, e que estão no aparelho de Estado, na Administração Central ou local, façam a gestão pública não em função do interesse da população mas em função do interesse de quem os sustenta, como bom dever de gratidão.

E muitos planos directores municipais não passam de bolsas de terreno que são elaborados em função de quem é o proprietário dos terrenos. E isto é justo? É justo que se faça o planeamento do país em função de interesses privados? É evidente, que quando estes interesses são assumidos como interesse colectivo faz-se o que se quer, e muitas das vezes na administração o que se faz, ilegitimamente, passa a legítimo, com bons gabinetes de advogados. Naturalmente que tudo é muito bem formatado, muito bem embrulhado. É assumido como público um interesse que afinal não é mais do que privado. E hoje na área do urbanismo há uma aliança perversa entre promotores imobiliários, alguns arquitectos de uma pseudo-esquerda e que por serem de uma pseudo-esquerda vêm branquear projectos imobiliários que são autênticas aberrações, e escritórios de advogados. E é esse tripé que manda hoje, como sempre mandou neste país. Alguns arquitectos que vêm tentar limpar a face do negócio e escritórios de advogados que conseguem formatar juridicamente todos estes embrulhos, isto é uma "santa aliança perversa".»
(Excertos duma entrevista esclarecedora de Paulo Morais, ex-vereador da CM Porto, a O Primeiro de Janeiro, via Grande Loja do Queijo Limiano)

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: importa-se de repetir?

Secção Insultos à inteligência
«O economista Miguel Cadilhe propôs segunda-feira a redução do Estado "a um quarto ou um terço da sua actual dimensão", através de rescisões amigáveis de contratos com funcionários públicos», escreve o Diário Económico. Apesar de conhecer os efeitos do ressaibo na mente humana, custou-me a acreditar que o doutor Cadilhe pudesse ter dito esta insensatez. Mas deve ter dito mesmo, porque o Jornal de Negócios usa as mesmas palavras.(*)

O primeiro governo do professor Cavaco Silva, a que pertenceu o doutor Cadilhe, deu um importante contributo para a pletora do estado napoleónico-estalinista e a engorda da vaca marsupial pública. Talvez para se resgatar da incontornável responsabilidade, o doutor Cadilhe vem prestar um mau serviço à causa do emagrecimento do «monstro», como lhe chamou o professor Cavaco Silva (ele próprio, recorde-se, com imensas culpas no cartório).

Reduzir o Estado "a um quarto ou um terço da sua actual dimensão", ainda que o doutor Cadilhe esteja a pensar a 10 anos, é uma proposta irresponsável porque significaria o colapso social dum país com uma cultura colectivista enraizada até às entranhas e metade da população dependente mais ou menos directamente do Estado. Um estado mínimo, como esse saído das meninges do doutor Cadilhe, que faria as delícias do Impertinências, note-se, não se encontra à face da terra. Alguém que quisesse sabotar qualquer arremedo de reforma do «monstro», açulando na populaça os pavores da mudança, não faria melhor. Nem nos piores delírios do anarco-liberalismo se congeminam propostas destas.

Por esta merece o doutor Cadilhe 3 pilatos, 5 chateaubriands (mais outra como esta e leva também uns ignóbeis).

(*) Ainda há esperança que a culpa seja dum estagiário da Lusa com problemas de audição.

SERVIÇO PÚBLICO: há vida para além da Ota (2)

(Fonte: NAER - Perguntas frequentes)

Perguntas infrequentes:
  • Se 42,5% dos passageiros da Portela são residentes, as projecções de tráfego têm em consideração que o crescimento deste segmento é muito inferior ao dos não residentes?
  • Se 65,4% dos 42,5% residem no NUT Lisboa e Vale do Tejo, e destes provavelmente mais de 80% residem na zona metropolitana de Lisboa, qual é o racional para fechar a Portela e construir um aeroporto que em 20 ou 30 anos terá a sua capacidade esgotada e exigirá a construção dum novo aeroporto?
  • Se «a questão que se coloca é saber se, com tal base de tráfego, se consegue disponibilizar e viabilizar uma infra-estrutura aeroportuária complementar capaz de oferecer condições de serviço e preço que convençam os transportadores em causa a preferir essa infra-estrutura ao aeroporto actual» porque não se fizeram os estudos para lhe responder?

28/11/2005

MOMENTOS HOMOFÓBICOS: o doutor Oliveira e «os devassos pinguins»

O doutor Daniel Oliveira na sua coluna «Choque e Pavor» do Expresso indigna-se com o documentário «A Marcha dos Pinguins» que, segundo ele, é um míssil subtil dirigido pelos conservadores à mente frágil do povo, inculcando-lhe valores retrógrados como a defesa do casamento monogâmico, do sexo heterossexual e de outros próprios das sociedades decadentes.

O doutor Oliveira não brinca em serviço e, munido do parecer do «bloguer» americano (americano! ouviram bem?) Andrew Sullivan, demonstra como a esperança dos conservadores é infundada. Se o pinguim de serviço não se apressa, conta-nos, quando chega a altura da queca, a pinguim espera 24 horas e procura outro parceiro - a ciência do «bloguer» não chegou para perceber que, se as meninges do povo são manipuladas pelos conservadores à custa de documentários (franceses! quelle dommage!), as hormonas da pinguim são manipuladas pela selecção natural que lhe armadilhou os genes para proteger a espécie.

Mas o argumento definitivo chega no parágrafo seguinte com o casal de pinguins gay do zoo de NY, que até adoptaram um ovo.

Aguardo, ansioso, que o doutor Oliveira nos apresente os seus próximos episódios pinguim: a pinguim que faz desmanchos, o pinguim que chuta.

27/11/2005

SERVIÇO PÚBLICO: road map to nowhere

«Manuel Pinho decidiu contratar uma equipa de Harvard para controlar o Plano Tecnológico.»

«Os professores de Harvard ... vão ver um País com vários exemplos extraordinários de aplicações tecnológicas (via verde, Multibanco, utilização de telemóveis, penetração do Cabo, etc.) e vão perceber que quase todos estes exemplos partiram de empresas privadas. Vão, depois, perceber que muitas destas aplicações foram feitas em parceria com Universidades públicas. Mas também vão ver que a maior parte do Estado está um pouco a leste (*) da tecnologia, que não facilita a sua utilização e que, acima de tudo, não faz o ‘road map’ para que isso passe a ser uma prioridade do País. E essa era a ideia do Plano Tecnológico.»


(*) «muitos anos depois António Guterres ainda não sabia o que era um “@”»
(Aviso a Harvard, Ricardo Costa, DE)

ARTIGO DEFUNTO: «já demos a volta», escreveu ele

Como era previsível, o jornalismo de causas veio em socorro das estatísticas de causas, nas páginas do caderno de Economia do semanário de referência. A começar pelo exaltante título «Já demos a volta», o jornalista de serviço à causa dá o melhor de si próprio para transformar o vapor dos sinais catados na síntese de conjuntura do INE em algo capaz de injectar optimismo nas nossas meninges deprimidas.

O esforço é mais notório no comércio externo. Onde a mente delirante do articausista imagina uma «inversão do ciclo», as estatísticas de comércio externo do INE mostram que o défice da balança comercial até Julho aumentou 13,7% e o défice do comércio extracomunitário aumentou 32,9% até Setembro.

Vários outros artigos alinham pelo tom entusiástico e fretista do «Já demos a volta», com um destaque especial para o «Vamos ser a horta da Europa», que nos descreve um idílico «projecto para a costa alentejana que prevê uma megaprodução em estufas de hortofrutícolas e plantas ornamentais». Se for parecido com o projecto do senhor Thierry Rousseau, cujos restos de plástico ainda devem ser visíveis na costa alentejana, o engenheiro Sócrates pode pedir a assessoria do professor Cavaco que ainda se deve lembrar de lá ter ido inaugurar a gigantesca fraude em que o seu governo embarcou.

26/11/2005

LOG BOOK: the pessimistic liberal

«He (Peter Drucker) was too sensitive to the thinness of the crust of civilization to share the classic liberal faith in the market, but too clear-sighted to embrace the growing fashion for big-government solutions. The man in grey-flannel suit held out more hope for the mankind than either the hidden hand or the gentlemen in Whitehall.»
(Trusting the teacher in grey-flannel suit)

25/11/2005

DIÁRIO DE BORDO: sólido bom senso

Finalmente há uma criatura que fala de sexo na Bloguilha com um sólido bom senso. Sem Marx, sem o doutor Spock, sem Cristo, sem Reich, sem Freud, até mesmo sem Hayek. Apenas sólido bom senso.

DIÁRIO DE BORDO: teorias da conspiração

Lê-se (via o ex-jaquinzinho e actual blasfemo jcd) e não se acredita. O senhor António Varela, empresário ligado à aviação pelo «seu Citation X ... apreendido na Venezuela com cocaína a bordo» (fretado pela Air Luxor), trabalha há 10 anos com o grupo Espírito Santo, compra uma área de 650 hectares na zona do eventual aeroporto da Ota a 10 euros, que valem segundo ele agora 250 euros por m2 e talvez 500 dentro de 5 anos, acreditou «sempre que o aeroporto da Ota seria irreversível», ouviu falar duma «reunião secreta entre autarcas e empresários da zona do Oeste com Mário Lino», na qual não participou por falta de tempo e dá uma entrevista ao Correio da Manhã em que conclui filosoficamente que «o cidadão comum gosta muito de criar teorias da conspiração».

Eu que sou um cidadão comum, mas não gosto de criar teorias da conspiração, estou sem teoria nenhum à mão para explicar esta prática.

Post (scriptum)
Há exactamente 30 anos teve sucesso uma conspiração que fez abortar outra conspiração que visava transformar Portugal numa república de sovietes (no Alentejo seriam kolkhozes). Eles ainda andam por aí.

24/11/2005

SERVIÇO PÚBLICO: há vida para além da Ota?

«Este esclarecimento implica que se afastem fantasmas e destruam mistificações. O fantasma frequentemente evocado pelos críticos é que este elefante-branco representa uma ruina para os cofres públicos – logo mais impostos no futuro. A mistificação, ao invés, é que tudo é privado – logo, a nação valente não tem com que se preocupar.

Mas tem. Tem porque, aqui sim, há vida além do défice orçamental. Ou, para ser mais rigoroso, a morte pode estar desorçamentada.

Um dos cenários, praticamente dado como certo, é a privatização da ANA ser feita para financiar o projecto, explicando o Citigroup que assim se evita a utilização de recursos públicos. E o banco Efisa, entre as três principais conclusões, enfatiza que o novo aeroporto não implica qualquer esforço por parte do Orçamento de Estado.

Evidentemente que só pode ser brincadeira. A ANA é uma empresa 100% detida pelo Estado, é um monopólio, beneficia de uma renda natural de um mercado protegido. É, está claro, um recurso público. E se for entregue como parte do negócio é você, caro leitor, quem obviamente está a pagar.

Pode não implicar o recurso a qualquer dotação do OE, como sugere o Efisa. Ok, a viabilidade do projecto, segundo este banco, é parcialmente garantida por uma sobretaxa a cobrar aos passageiros da Portela.

É um contra-senso, uma aberração. O nosso aeroporto já é pouco competitivo e muitas companhias fogem de Lisboa para destinos com custos aeroportuários mais baixos. Pôr a Portela a financiar a Ota é uma emenda que piora o soneto.

Que adianta uma gigantesca infra-estrutura de transporte para dotar de competitividade o território, se o esforço para construi-la significa a morte das companhias que transportam e a repulsa dos turistas a transportar?

Um novo aeroporto não é um fim em si mesmo. O país já entende que ele é necessário e que até se pode viabilizar. Mas só se deixará convencer na certeza de, uma vez construído, o aeroporto tenha turismo para receber e aviação comercial para operar. Não há estudos de impacto sobre isto. Afinal, sobre a razão de a Ota existir.»


(Sérgio Figueiredo, no Jornal de Negócios de hoje)

BLOGARIDADES: ora essa!

«Imagino que nas cabecinhas mais desgovernadas se comece a cogitar o apelo para que a Igreja Católica comece a aceitar quotas, quotas de homossexuais, quotas de inimigos da Igreja, quotas de crentes de outras religiões e um lugarzinho nos arquivos do Vaticano para o Dr. Fernando Rosas.» (imaginado pelo marinheiro VLX do Mar Salgado, a propósito dos justos protestos da bicharia e dos amigos da bicharia pela Igreja não aceitar nos seminários bichas que saíram dos armários)

E porque não? Ora essa! Eu, que também tenho uma cabecinha às vezes desgovernada, pergunto-me e porque não? E, já agora, porque não o Berloque de Esquerda começar a aceitar quotas de fassistas e squinédes? Por acaso até era bom para a diversidade ver umas bandeiras com cruzes suásticas bafejadas pelos eflúvios dos charros.

SERVIÇO PÚBLICO: estatísticas de causas

Partilhei do espanto da Joana sobre a síntese de conjuntura do INE, organismo que com o «açambarcamento pelo PS das chefias» acentuou a sua vocação de contador de estórias para ajudar a embalar economistas com o remanso que só se encontra nos «humanistas».

Partilhei, até que percebi que o script que o INE escreveu tem fins terapêuticos - melhorar a auto-estima dos portugueses, com a preciosa ajuda do jornalismo de causas que se esmerará a ampliar os eflúvios do INE e transformá-los em certezas sólidas como rocha para gáudio do povo. Não estamos a falar de quaisquer estatísticas, falamos de estatísticas de causas, produzidas, como escreve a Joana, por um «Instituto Nacional de Sensações (ou de Palpitações)».

Nova entrada para o Glossário das Impertinências

Estatísticas de causas
Estatísticas produzidas por um «Instituto Nacional de Sensações (ou de Palpitações)» para alegria dos economistas de fé e animação do povo. As estatísticas de causas dão razão, com uns bons 150 anos de atraso, a Benjamim Disraeli, primeiro ministro de SM da rainha Victoria. «There are lies, there are damned lies, and there are statistics», escreveu ele premonitoriamente, mesmo sem ter tido a oportunidade de conhecer a produção do INS.

23/11/2005

DIÁRIO DE BORDO: vai chamar pai a outro (2)

«One way to describe libertarianism is that we believe in the separation of family and state as strongly as the American Civil Liberties Union believes in the separation of church and state. In contrast, both the Left and the Right view government as a substitute parent. As pointed out by George Lakoff in Moral Politics, the Left wants government to be a nurturant parent and the Right wants government to be a strict parent. Libertarianism does not want the government to act as a parent.»
(de Arnold Kling, citado por John Ray, como sequela desta Breiquingue Niuz)

22/11/2005

CASE STUDY: o tamanho interessa?

A avaliar pelo interesse recente dos jornais de referência (como o Correio da Manhã) e da Bloguilha pelo tema (vários blogonautas tocaram na coisa, ainda que sem aprofundarem), e pela quantidade que o Impertinências recebe de spam a propor a ampliação do equipamento, o tamanho interessa e muito.

Até há poucas décadas, o tamanho só parecia interessar ao género masculino, que sempre teve um fixação no coiso. O género feminino, por falta de interesse ou por vergonha, não costumava manifestar-se a este respeito. Seja porque perdeu a vergonha, seja porque foi contaminado pelas obsessões masculinas (como frequentemente acontece, a tribo dominada costuma adoptar os valores da tribo dominante), seja lá pelo que for, o mulherio começou a ter voz activa na métrica do equipamento. Pelo menos é o que diz o spam que recebo, insinuando que a minha girl friend, ou sweety, ou simplesmente wife está ansiosa pela ampliação do atributo. Temos, contudo, que reconhecer que as opiniões se dividem - por exemplo a da esposa do senhor Fernando Silva (1) «não gostou muito. Quando (o) viu, disse que era um exagero».

Mas se alguém pensa que este tema faz parte das matérias triviais que nem mesmo chegam a interessar os humanistas, desengane-se. Isto não é matéria do Trivium, nem mesmo matéria do Quadrivium (apesar da métrica), isto é matéria da filosofia da história.

Só um exemplo bastará para se perceber a relevância do tamanho do equipamento. Em 1999, segundo umas versões, ou 1987, segundo outras, o pénis de Napoleão, que foi cortado no dia seguinte à sua morte pelo seu médico pessoal, foi vendido num leilão da Christie ao urologista John Lattimer que pagou por ele USD 4.000 (ou USD 3.000, de acordo com outros). Preço que, à primeira vista, até poderia ser considerado barato, face à importância histórica do proprietário do artefacto, mas que em boa verdade saiu ao doutor Lattimer por uma exorbitância de quase mil dólares por centímetro (em repouso). (2)

Apesar, da insignificância do instrumento, ou talvez por isso mesmo, podemos levantar várias questões relevantes para a França e para a Europa social.

Tivesse Bonaparte sido um bem dotado, ou pelo menos tivesse o criador sido um pouco mais generoso (3) na atribuição do pedúnculo, teria Napoleão o tempo, a oportunidade e a energia para devotar-se à glória da República e à sua própria, invadindo a Europa, espalhando código civil, liberté, etc., e deixando as sementes donde germinariam séculos mais tarde, o doutor Soares, o doutor Freitas e até, porque não?, o doutor Anacleto Louçã? Ou, pelo contrário, solicitado pelas suas inúmeras amantes (4), teria Napoleão gasto nas manobras de cama as energias que, à falta de boas razões, acabou por usar nas manobras nos campos de batalha?

Tivesse Bonaparte um membro viril à altura de Maria Josefina (que, recorde-se, procurou em inúmeros amantes talvez um ersatz para o minguado equipamento do seu famoso marido), teriam hoje os franceses as suas bagnoles calcinadas pelos magrebinos?

Tivesse Bonaparte um coiso que não o envergonhasse nas casernas, teria hoje M. le président Chirac os delírios que têm, imaginando, na solidão do seu gabinete do Eliseu, que está à frente duma superpotência? (5)

São algumas das muitas e relevantes questões que se podem levantar a propósito de algo que, pelos vistos, pouco se levantava. (6)

Notas de rodapé
(1) O senhor Fernando Silva não se chama Fernando Silva e por isso não sei se devemos dar-lhe crédito. É, de certa maneira, um problema semelhante ao dos blogonautas anónimos, que tem justamente preocupado e ocupado várias luminárias da Bloguilha. Como de resto já tinha preocupado Camilo Castelo Branco que à coisa se referiu como «angústia represada que só pode extravasar os sobejos do seu fel em uma carta anónima».
(2) Segundo o doutor Lattimer a relíquia teria 4,1 cm e «poderia», segundo as suas palavras, «poderia» sublinhe-se, atingir o máximo de 6,6 cm em estado de excitação.
(3) Bastaria o criador ter bafejado Napoleão com um pouco da opulência que concedeu a
Rasputine.
(4) Desirée Clary, Pauline Fourès, Leonor Dernelle de la Plaigne, Marie Louise, só para citar algumas e mostrar um pouco de erudição.
(5) Sem querer fazer humor com coisas tristes, M. le président mais facilmente poderia imaginar, dadas as circunstâncias que preside a uma superimpotência.
(6) Não há evidência histórica sobre se, neste caso, «pouco» significaria «infrequente» ou meramente «inextenso».