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05/12/2005

SERVIÇO PÚBLICO: há vida para além da Ota? (4)

Ainda se falou pouco dos riscos de derrapagem do projecto da Ota, que deveriam ser razoavelmente evidentes para qualquer alma com um módico de memória do que costuma ser a obra pública neste país.

A gestão privada do projecto não põe os contribuintes ao abrigo dum extorsão complementar a título de custos da incompetência no planeamento e gestão do projecto. Tudo depende de quais os riscos que ficarão do lado do concedente - o estado napoleónico-estalinista.

Para começar, é prudente ficar de pé atrás. Leia-se, por exemplo, a entrevista a O Independente do doutor Vítor Gonçalves Lopes do banco Efisa (o mesmo que propõe que os passageiros da Portela sejam esportulados duma taxa para pagar a Ota), que nos revela que o projecto Ota tem previstos para contingências 193 milhões de euros, ou seja uns astronómicos 7 por cento, que ele garante a Parsons (*) ter considerado suficientes com um grau de confiança de 95%.

Não sei se ria, se chore. Há uns anos tive a oportunidade de constatar que o responsável pela gestão dum projecto de construção de 80 km de auto-estrada não só não sabia qual a margem que estava prevista, como desconhecia os próprios conceitos de contingency margin e float period. Sabendo-se que as obras públicas em Portugal, à custa de cambão, suborçamentação, trabalhos a mais, alterações ao caderno de encargos e outros expedientes, costumam derrapar pelo métodos dos múltiplos, a margem que tranquiliza o doutor Lopes deve deixar aterrados os contribuintes.

(*) Talvez esses parâmetros sejam adequados para os projectos em que Parsons tem participado, mas só por milagre seriam realistas aqui. Vejam-se as suas referências nos projectos de aviação para se perceber que apenas o aeroporto de Atenas lhes poderia acender o desconfiómetro.

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