Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
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15/12/2023

In the New Middle Kingdom, cinema in general is politics by other means, and in particular it is another means to glorify President Xi

 «The Communist Party wants to use film as an ideological tool: it has tightened its control over the country’s movie industry, demanding that storytellers “eulogise the party, the motherland, the people”. Films must be made with “ethics and warmth” and offer a “trustworthy, lovable and respectable image of China”.

In short, the party wants more movies like “Creation of the Gods I: Kingdom of Storms”, the winner of the Golden Rooster for Best Feature Film this year. The fantasy epic dramatises the battles of kings and spirits in ancient China. State-affiliated film groups say it is an example of how movies can promote cultural self-confidence in line with Xi Jinping Thought, the philosophy of China’s leader, which every schoolchild is required to study. (...)

The Communist Party wants to use film as an ideological tool: it has tightened its control over the country’s movie industry, demanding that storytellers “eulogise the party, the motherland, the people”. Films must be made with “ethics and warmth” and offer a “trustworthy, lovable and respectable image of China”.

In short, the party wants more movies like “Creation of the Gods I: Kingdom of Storms”, the winner of the Golden Rooster for Best Feature Film this year. The fantasy epic dramatises the battles of kings and spirits in ancient China. State-affiliated film groups say it is an example of how movies can promote cultural self-confidence in line with Xi Jinping Thought, the philosophy of China’s leader, which every schoolchild is required to study. (...)

In the past, indie films made without state approval could be shown only at private screenings within China and at international festivals. But in 2016 China passed a new law requiring all films to obtain permits, regardless of whether their makers planned to distribute them abroad, in Chinese cinemas or online. Anyone involved in producing a film without a permit could be fined and banned from the industry. That has made it much harder for independent film-makers to find actors, crew and financial backers.

As a result, most of China’s top actors, directors and producers have chosen the more straightforward option. Many are prepared to self-censor, or to lend their talents to the party’s propaganda efforts, if it means their work gets a nationwide release. (...)»

Excerpt from «Two film awards reveal the battle for the future of Chinese cinema»

27/01/2023

Ao cederem ao áctivismo de género, os artistas do "teatro independente" negaram a profissão de actor

Uma espécie de continuação desta Estória e Moral.
 
Quando o “Teatro do Vão”, uma companhia de "teatro independente" (*), aceitou substituir um actor que representava o papel de Lola, uma personagem apelidada de "trans" com cromossomas XY, que se assume como mulher (com cromossomas XX), na peça de Samuel Adamson "Tudo sobre a minha mãe", inspirada no filme de Almodóvar com o mesmo nome, por um áctivista de género que se representava a si próprio, essa companhia assumiu que o "teatro", isto é, a arte de representar em palco, deixou de existir e foi substituído por uma manifestação de promoção do desvio sexual e os actores foram substituídos por manifestantes.

(*) O que no Portugal dos Pequeninos se costuma chamar "Teatro Independente" é o teatro quem o Estado sucial diz «toma lá dinheiro e faz qualquer coisa», como em tempos disse António Feio.

26/09/2021

Como uma ideologia ultraminoritária controla cada vez mais a produção artística (por exemplo, um teatro "nacional") e jornalística (por exemplo o semanário de reverência)

«Pedro Penim estreia hoje uma peça que discute o fim da família, “algo tão utópico quanto o fim do capitalismo”. Em “Pais & Filhos”, em cena no São Luiz, Turgueniév mistura-se com as teorias pós-coloniais e queer e a vontade de Penim de ser pai, que partilha com o marido. É o último espetáculo antes de rumar ao Teatro Nacional.» (de uma entrevista a Pedro Penin na Revista do Expresso de 24-09)

Pedro Penin, o criador do pot-pourri de Ivan Turgueniév com teorias pós-coloniais e queer, está a caminho da direcção do Teatro Nacional D. Maria para substituir Tiago Rodrigues, o criador da peça Catarina e a beleza de matar fascistas.

Com meio milhão de eleitores em 9,3 milhões de eleitores recenseados, a esmagadora maioria urbanitas, o berloquismo, a corrente política que mais abertamente adopta a chamada ideologia do género e promove a sexualidade alternativa, representa 5,4% da opinião pública, digamos assim. Segundo os escassos dados disponíveis (pouco confiáveis, por várias razões) a percentagem de adultos que se declaram não heterossexuais varia entre os dois por cento e dez por cento.

Que uma ultraminoria de áctivistas consiga impor as suas ideias à boleia da barriga de aluguer do socialismo, é mais um indício da derrota por culpa própria da direita conservadora na frente cultural, direita que a maioria das vezes contrapõe ao "progressismo" cultural ideias fossilizadas defendidas por grunhos com discursos primários que apelam ao pior dos piores.

26/09/2020

Ser de esquerda é... (8)

... defender que "arte independente" é a arte que depende do Estado.

23/01/2020

De como o Mosquito de João Nuno Pinto é um exemplo a posteriori para o Otto e mezzo de Fellini

O realizador João Nuno Pinto confessou ao Público que Mosquito, o seu segundo filme, apresentado ontem na abertura do festival de Roterdão, «é uma forma de me redimir por ser filho de colonizadores».

Devemos relevar este propósito redentor de expiar a culpa dos pais colonizadores, por várias razões. E uma delas é que o mesmo jornal, precisamente no mesmo dia, anunciava que Fellini «vai estar no centro da programação da 13.ª edição da Festa do Cinema Italiano, que terá lugar de 1 a 9 de Abril».

Não será preciso explicar quem foi Federico Fellini, e não deveria ser indispensável lembrar que é italiano, nascido em Rimini,  o que faz dele um descendente dos colonizadores romanos da Lusitânia. Por coincidência, foi no fórum de Rimini que Júlio César apelou às legiões depois de ter atravessado o Rubicão.

A morte de Viriato, um herói da luta anticolonial, de José de Madrazo
É aqui que entra o Mosquito, João Nuno Pinto e a sua superioridade moral e da sua obra sobre um Fellini que em nenhum do seus filmes expiou a culpa das legiões romanas pela ocupação da Lusitânia, o massacre e escravização dos lusitanos, o que deveria e poderia muito bem tê-lo feito, por exemplo no auto-biográfico Otto e mezzo, em vez de celebrar as abundantes bundas e gloriosas tetas, como fez em muitos dos seus filmes, por exemplo em Amarcord, aqui devidamente evocado pelo outro contribuinte.

25/10/2019

Um dia como os outros na vida do estado sucial (39) - Conflito de interesses ou interesses em conflito? - Epílogo

Continuação daqui e dali.

Recapitulando:

Em Fevereiro do ano passado um comunicado da CT da RTP denunciava que se «mantém há 3 anos como administrador, o proprietário de uma produtora e de um canal concorrente da própria empresa, o Dr. Nuno Artur Silva, dono da empresa “Produções Fictícias” e do “Canal Q”»

Mais tarde foi produzido um «abaixo-assinado enviado ao primeiro-ministro, ao ministro da Cultura, à administração da RTP e ao presidente do conselho geral independente da empresa pública de rádio e televisão» por «mais de 200 figuras da cultura e dos media (que) questionam saída de Nuno Artur Silva» (NAS) muitas delas fornecedores de produtos da cóltura.

A semana passada NAS escreve sobre a compra da Média Capital (dona da TVI) pelo grupo Cofina que «pode vir a ser no futuro próximo a maior ameaça à democracia portuguesa», por outras palavras o que já tinha sido defendido pela Impresa do Dr. Balsemão.

Poucos dias depois NAS foi nomeado secretário de Estado do Cinema, Audiovisual e Media, atingindo-se assim o que se pensaria ser inultrapassável em matéria de conflito de interesses.

Novos desenvolvimentos:

Anteontem, NAS, que toma posse como secretário de Estado do Cinema, Audiovisual e Media no próximo sábado, informou que vendeu a sua empresa Produções Fictícias a duas pessoas, sendo o novo sócio maioritário seu sobrinho. O contrato foi assinado 3 dias antes do anúncio público da sua nomeação.

E pronto, cá temos confirmado o que já sabíamos: (1) no Estado Sucial português não há conflito de interesses, só há interesses em conflito e (2) a família socialista é muito mais do que uma família no sentido estrito. É uma famiglia no sentido napolitano. Além disso, para quem tivesse dúvidas, ficou claro que a família socialista não deixa por isso de continuar a ser também uma família em sentido estrito.

23/10/2019

Um dia como os outros na vida do estado sucial (38) - Conflito de interesses ou interesses em conflito? - Parte II

Continuação daqui.

Em Fevereiro do ano passado um comunicado da CT da RTP denunciava que se «mantém há 3 anos como administrador, o proprietário de uma produtora e de um canal concorrente da própria empresa, o Dr. Nuno Artur Silva, dono da empresa “Produções Fictícias” e do “Canal Q”»

Os factos conhecidos indiciavam um conflito de interesses entre as qualidades de administrador da RTP e de proprietário de empresas produtoras. Nuno Artur Silva (NAS) alegou na altura «que a lei não o “obriga” a vender as “Produções Fictícias” desde que a RTP não mantenha com esta produtora quaisquer negócios». É o argumento clássico nesta matéria dos conflitos de interesse: não é ilegal.

Entretanto foi produzido um «abaixo-assinado enviado ao primeiro-ministro, ao ministro da Cultura, à administração da RTP e ao presidente do conselho geral independente da empresa pública de rádio e televisão» por «mais de 200 figuras da cultura e dos media (que) questionam saída de Nuno Artur Silva» muitas delas fornecedores de produtos da cóltura e, portanto, em situação de potencial conflito de interesses ao defenderem não haver conflito de interesses na permanência de outro fornecedor.

Se a situação de então já tinha tudo para ser a caldeirada em que as gentes do PS se costumam envolver, verificou-se mais uma das clássicas leis de Murphy que nos diz que a coisa nunca está tão má que não possa piorar. E piorou com a posição de NAS a semana passada sobre a compra da Média Capital (dona da TVI) pelo grupo Cofina que segundo ele «pode vir a ser no futuro próximo a maior ameaça à democracia portuguesa», se conjugada com «o nível elevado de abstenção, com a reconfiguração da direita portuguesa e, sobretudo, com a eleição do deputado do Chega». Posição que por outras palavras já tinha sido tomada pela Impresa do Dr. Balsemão. E o golpe de misericórdia nos conflitos de interesse foi dado quando o homem foi nomeado secretário de Estado do Cinema, Audiovisual e Media.

Confirma-se assim que no estado sucial português não há conflito de interesses. Há apenas interesses em conflito. E conclui-se que a família socialista é muito mais do que uma família no sentido estrito. É uma famiglia no sentido napolitano.

14/03/2019

Lost in translation (318) - Vou à Bienal representar a geringonça e a mim própria, disse a artista

«Se estivesse o PSD ou o CDS no governo não aceitaria representar o país na conhecida exposição internacional de arte» informou-nos Leonor Antunes, a artista escolhida para representar Portugal na Bienal de Veneza, esclarecendo que «as pessoas irão a Veneza ver a exposição da Leonor Antunes e não o Pavilhão de Portugal.» (fonte)

06/04/2018

Encalhados numa ruga do contínuo espaço-tempo (81) - O «teatro independente» 153 anos depois

Registemos as palavras da actriz-encenadora Maria João Luís, demonstrativas do direito divino dos «artistas independentes» ao subsídio dos contribuintes, que à SIC disse não poder preencher o formulário a pedir o subsídio porque não sabe «como é que vai ser o espectáculo [...] daqui a dois ou três anos. Como é que posso dizer quais são os actores que vão entrar, o porquê daqueles actores, se eu ainda não sei o que vou fazer? Tenho a ideia do projecto, mas não tenho de saber o que é que vai ser».

E passemos a um episódio de há 153 anos recordado por Pedro Sousa Carvalho no Jornal Eco:

«A discussão a que estamos a assistir sobre o financiamento da Cultura e do Teatro faz lembrar uma outra, tida em 1866, e contada por Camilo Castelo Branco. 

“A Queda dum Anjo” de Camilo Castelo Branco conta a história de Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, um deputado da província que chegou à capital para ser deputado no Parlamento. Um dia, em Lisboa, Calisto foi à ópera ver Lucrécia Bórgia e ficou chocado com o espetáculo que qualificou de tripúdio. E mais chocado ficou quando descobriu que o Estado subsidiava o Teatro de S. Carlos com vinte contos de réis anuais.

No dia seguinte, quando chegou ao Parlamento, estava um deputado do Porto a discursar e a reclamar mais um subsídio para o lírico Teatro de S. João. Foi então que Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda resolveu pedir a palavra para fazer um daqueles discursos, cheios de arrebiques de retórica, para explicar a sua tese de que o Teatro não deveria ter dinheiros públicos. Este é um excerto da intervenção de Calisto:
“Eu sou de um país, Sr. presidente, em que se pede ao povo o subsídio literário para pagar com ele as tramoias da Lucrécia Bórgia. Eu sou de um país pobríssimo em que a vaia da Nação exangue sofre cada ano a sangria de algumas dúzias de contos para sustentar comediantes, farsistas, funâmbulos e dançarinas impudicas!”»
Após 153 anos, os Calistos actualmente estacionados no parlamento ficaram incapazes de tomar as suas distâncias em relação ao «teatro independente» e o governo socialista, secundado por comunistas e berloquistas, transforma-se no público que os artistas são incompetentes para atrair, borra-se de medo e cede às chantagens dos agentes cólturais com o dinheiro dos contribuintes.

04/04/2018

A mentira como política oficial (41) - A arte de furtar o corpo à indignação dos «artistas»

Há mais de uma década que aqui no (Im)pertinências definimos «teatro independente» como o teatro que depende do estado; o teatro a quem o estado diz «toma lá dinheiro e faz qualquer coisa» (A. Feio). Por extensão, o conceito pode aplicar-se a qualquer outra arte «independente» cujo público é um qualquer júri a quem pagam para dar pareceres.

O rigor desta definição já foi muitas vezes confirmado e está a sê-lo uma vez mais com esta manifs de «artistas» cobrando de Costa o seu oportuno e interessado apoio durante a caminhada para S. Bento.

Vem a propósito relevar mais uma das costumeiras mentiras de Costa furtando o corpo à reacção dos «artistas» e tirando o tapete ao seu secretário de Estado da Cultura que em conferência de imprensa se descoseu assim:
«Desde que anunciou o reforço de 1,5 milhões de euros no Museu Nacional de Arte Antiga o primeiro-ministro está completamente a par daquilo que se passa. Portanto, não percebo porque é que ele possa ter ficado surpreendido».

09/02/2018

Um dia como os outros na vida do estado sucial (35) - Conflito de interesses ou interesses em conflito?

Segundo comunicado da CT, «a RTP mantém há 3 anos como administrador, o proprietário de uma produtora e de um canal concorrente da própria empresa, o Dr. Nuno Artur Silva, dono da empresa “Produções Fictícias” e do “Canal Q”»

É certo que a CT da RTP, nem o esquerda.net que o cita, estão acima de qualquer suspeita em matéria de credibilidade. Contudo, o comunicado refere diversos factos e situações que apontam para o conflito de interesses entre as qualidades de administrador da RTP e de proprietário de empresas produtoras do Dr. Nuno Artur Silva que em sua defesa «tem alegado que a lei não o “obriga” a vender as “Produções Fictícias” desde que a RTP não mantenha com esta produtora quaisquer negócios». É o argumento clássico nesta matéria dos conflitos de interesse: não é ilegal.

Também tive algumas dúvidas até ter conhecimento do «abaixo-assinado enviado ao primeiro-ministro, ao ministro da Cultura, à administração da RTP e ao presidente do conselho geral independente da empresa pública de rádio e televisão» por «mais de 200 figuras da cultura e dos media (que) questionam saída de Nuno Artur Silva» muitas delas fornecedores de produtos da cóltura e, portanto, em situação de potencial conflito de interesses ao defenderem a permanência de outro fornecedor.

Uma vez mais se constata que no estado sucial português não há conflito de interesses. Há apenas  interesses em conflito.

03/12/2017

BELIEVE IT OR NOT: Poop art

Poop art: the beauty of the microbiome

Instead of flushing, Billy Apple annotated his soiled sheets of pink toilet paper with their dates of issue: July 8th, 9th and 11th 1970. “Excretory wipings” was intended for the Serpentine Gallery in London, but then put into storage. For scientists studying the microbiome—the unique combination of 30trn-50trn bacteria in each human body—such troves are gold dust. Comparing them with samples taken from Mr Apple last July, scientists at Auckland University gained a unique insight into the long-term development of a single subject’s internal ecosystem. Despite significant changes in diet, habits and habitat (Mr Apple moved from New York to New Zealand) 45% of the bacteria were unchanged. This suggests that a person’s genes actively select and maintain “core members” of the microbiome throughout a lifetime. Unfortunately there are unlikely to be any comparable studies for a while. As Mr Apple said: “Who the hell keeps their tissues for 46 years unless it’s an artwork?”

The Economist Espresso

09/06/2017

DIÁRIO DE BORDO: Somos todos Cannes? E se Oscar Wilde não tivesse razão?

Um dos filmes mais aplaudidos, com o prémio da melhor actriz, no festival de Cannes, uma reunião da cinefilia decadente bem-pensante, foi «Aus dem nichts» (Fora de nada).

O tema central - um atentado terrorista - não podia ser mais actual num festival de cinema em França, palco recente de vários atentados do terrorismo islâmico, e num filme produzido e localizado na Alemanha onde o mesmo terrorismo constitui uma séria ameaça. Se estavam à espera de um ataque bombista por terroristas islâmicos a pacíficos cristãos, esqueçam. Deveriam esperar um ataque bombista por terroristas nazis a pacíficos muçulmanos. Passo a palavra ao crítico do Público in loco:

«Uma alemã (Diane Kruger) perde o marido, de origem turca, e o filho num ataque bombista perpetrado por um grupo de extrema-direita. Mas a decisão do julgamento não lhe permite fechar o trabalho de luto e ela decide fazer justiça pelas próprias mãos. O cineasta Fatih Akim, alemão de origem turca, não esconde que a sua empatia está com a personagem de Katja, porque ela é o corpo daquilo que pode estar adormecido em cada um de nós – o justiceiro – e, segundo o próprio realizador, “deve continuar adormecido”».

E assim se vê que Oscar Wilde, de quem dizem ter dito «a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida», pode muito bem ter-se enganado.

24/12/2016

ACREDITE SE QUISER: «Um insignificante episódio burocrático»

Inês Pedrosa, jornalista e escritora de causas, enquanto «responsável pela Casa Fernando Pessoa (CFP), decidiu adjudicar vários contratos de fornecimento de serviços com um valor de cerca de dez mil euros, sem consulta a quaisquer outros fornecedores, a um amigo com o qual partilhava a sua habitação. Eram as próprias facturas emitidas por esse prestador de serviços que continham como endereço de contacto a morada de I.P. Além disso, vários outros contratos de valor mais elevado, embora nominalmente adjudicados a terceiros, foram depois executados pelo mesmo prestador de serviços.» (ler aqui a estória contada por José António Cerejo)

Até aqui nada de muito surpreendente. Afinal o nepotismo é uma doença nacional endémica. Mais surpreendente é a carta aberta de desagravo em que 38 luminárias das artes independentes pretendem limpar da folha de Inês Pedrosa o que classificam como «um insignificante episódio burocrático».

28/02/2016

Exemplos do costume (38) – Como encenar manifs

Qualquer observador mais ou menos atento notará que invariavelmente a descrição das manifs pelo jornalismo de causas depende das causas e, o que ainda é mais fácil de notar, tratando-se de imagens, fotos e sobretudo filmes, qualquer operador de meia tijela sente-se um Eisenstein usando o ângulo, o plano e enquadramento e a técnica de montagem para fabricar um produto agitprop à altura da causa.

Já por várias vezes apresentámos no (Im)pertinências exemplos dessa arte e vamos dar mais um, documentado por Helena Matos no Blasfémias. Trata-se de um fotograma de um vídeo de TV (ou de uma foto «oficial» de causas) e de uma foto amadora (suponho) tirada à distância, ambos do ministro da Cultura João Soares a perorar para os manifestantes da «Cultura em Luta» nas escadarias do parlamento. Enquanto no primeiro se pode imaginar (é essa a ideia) milhares de criaturas a assistir à peroração na segunda vê-se perfeitamente que as «mais de 50 estruturas culturais» estão representadas por uma multidão composta por 20 ou 30 criaturas.

09/05/2015

Dúvidas (95) – Será a arte a continuação da política por outros meios?

Abriu hoje a Bienal de Veneza. Okwui Enwezor, um escritor e crítico nigeriano que caiu nas graças dos meios da arte politicamente correcta, é o curador do show principal «Todos os futuros do Mundo» com a presença de 136 artistas de 53 países com obras «denunciando» a finança internacional e a globalização.

Uma das mais importantes manifestações de «arte» decorrerá durante 7 meses com a participação de actores que lerão em voz alta os 4 volumes de «O Capital» de Karl Marx, incluindo as notas de pé de página.

04/05/2015

Como funciona a mente de um artista independente (2)

SOL – E como são as condições hoje?

Luís Represas – As câmaras municipais, que são as nossas maiores contratadoras, não têm meios para conseguirem contratar-nos. Nem é para ganharmos muito, é para conseguirmos tocar com as formações com os músicos que nós queremos. Estamos a condicionar o nosso trabalho à disponibilidade financeira dos contratadores. E se se cobrasse...

Miguel Ângelo - O preço de uma bica ou um euro por pessoa...

Luís Represas - Juntamente com os patrocinadores, as câmaras teriam muito mais conforto para fazer face às despesas, Se isto fosse feito desde o princípio ninguém estranharia. Se hoje for feito as pessoas dirão “malandros, mais um imposto”.

Entrevista de Miguel Ângelo e Luís Represas à revista Tabu do jornal SOL.

Ao menos não lhes dá vontade de rir como à Margarida Gil.

21/04/2015

SERVIÇO PÚBLICO: Serviço público? Qual serviço? Qual público? (3)

Outras dúvidas semelhantes: aqui, aliacolá e acoli.

«Foi com apreensão que comecei a ler a entrevista ao DN do novo administrador da RTP para os "conteúdos", que declara a televisão pública "irrelevante há muito tempo". Por instantes, cheguei a pensar que o Sr. Nuno Artur Silva fosse outro portador de uma visão "economicista" do mundo, esse vírus malévolo que faz depender o sucesso do lucro e o dinheiro que se gasta do dinheiro que se tem. Ou um daqueles cínicos que, fundamentados em simples factos, acham que a RTP não se distingue da concorrência excepto pelo meio de financiamento. Felizmente, nada estava tão longe da verdade.

Ao longo da entrevista, percebe-se que a irrelevância decretada pelo Sr. Nuno Artur Silva diz respeito à falta de investimento da RTP no "audiovisual português", no "cinema português" e na "produção de ficção". Não só é um alívio como calha bem. Em primeiro lugar, porque o Sr. Nuno Artur Silva vem de fundar e dirigir uma empresa especializada nos ramos acima - embora a ética decerto impeça confusões. Em segundo lugar, porque se há coisa que pode distinguir qualquer estação televisiva são as fitas e fitinhas nacionais: mais nenhum canal na Terra as transmite.

Terminei a entrevista em êxtase. Além de garantir a continuidade de O Preço Certo, o Sr. Nuno Artur Silva promete que "muita coisa vai mudar" na RTP. Até ver, mudaram os salários dos administradores. Adivinhem em que sentido.»

«O preço certo», Alberto Gonçalves no DN

01/04/2014

SERVIÇO PÚBLICO: Serviço público? Qual serviço? Qual público? (2)

Outras dúvidas semelhantes: aqui, ali e acolá.

Se me é permitido, acrescento ainda uma outra dúvida: o programa Voice Portugal, que tem tudo para ser uma âncora de audiências, como dizem os marketeiros a propósito de certas lojas dos shoppings, é aquilo que os prosélitos da RTP consideram serviço público para inducar o povo ignaro e lhe inculcar no bestunto uns rudimentos de cóltura?


11/05/2012

SERVIÇO PÚBLICO: O cinema independente não depende dos espectadores (3)

[Sequela de (1) e (2)]

Ontem em frente ao parlamento em S. Bento juntou-se uma multidão de gente que se supõe ligada ao cinema independente para exigir ao governo o saque de mais impostos para subsidiar a projecção do imaginário dos portugueses.

Exagero meu? Nem por isso. A associação dos realizadores entende, pela pena de um deles, que está em causa «a capacidade dos portugueses, através dos filmes e do seu cinema, sonharem, se confrontarem com os seus fantasmas, fruindo na sua vida uma experiência mais rica e intensa, através das suas emoções e da projecção do seu imaginário».

E quantos portugueses fruem a projecção do seu imaginário proporcionada por estes cineastas manifestantes? Em vários dos filmes saídos desses crânios, menos do que o número de manifestantes – ver este post, por exemplo. De onde se poderia concluir que se todos esses manifestantes, mais os amigos, a família e as namoradas e namorados, vissem regularmente todos os filmes portugueses as audiências médias aumentariam significativamente.

Por isso, seria muito mais adequado substituir na frase bombástica acima a palavra «portugueses» por «cineastas» e, nesse caso, tudo ficaria mais claro. Os manifestantes foram lá tratar da sua vidinha, tentar olear a máquina que esportula os portugueses para eles sonharem e se confrontarem com os seus fantasmas, ou simplesmente se masturbarem com as suas criações para as quais o povo português se borrifa.