Pedro Santa Clara, uma mente liberal na academia portuguesa - uma espécie não protegida mais rara do que o lince da Serra da Malcata num ambiente hostil -, publicou há dias no jornal Eco o artigo «Muito mais liberais do que nós», onde descreve com compreensível admiração o sistema político dos países nórdicos, em especial o dinamarquês.
Cito, a seguir, uma curta amostra da sua argumentação e remeto para a leitura integral do artigo.
«A Dinamarca não tem salário mínimo legal. O despedimento faz-se por carta, com aviso prévio, sem tribunal. A maioria dos funcionários públicos tem um contrato igual ao do sector privado. A idade da reforma sobe automaticamente com a esperança de vida desde 2006 e o parlamento votou em maio de 2025 fixá-la em 70 anos para quem nasceu depois de 1970. Dois terços da despesa pública são decididos e executados pelos municípios e não pelo governo central. O IVA é de 25% sobre tudo, sem taxa reduzida para o restaurante nem para a eletricidade. O orçamento teve um excedente de 2,9% do PIB em 2025 e a dívida pública é de 28% do PIB. A Suécia aboliu o imposto sucessório em 2004 e o imposto sobre a fortuna em 2007, e desde 1992 paga a escola que os pais escolherem, pública ou privada, com fins lucrativos ou sem eles. (...)
O consumo final das administrações públicas, que é a medida do que o Estado produz diretamente em escolas, hospitais, tribunais e polícias, é de 26,5% do PIB na Suécia e 23% na Dinamarca. Em Portugal é 16,9%. Em contrapartida, Portugal gasta 13% do PIB em pensões, contra 8 a 9% na Dinamarca e 7 a 8% na Suécia, e passou uma década a pagar juros que os nórdicos não tinham. O Estado nórdico é uma máquina de produzir serviços de qualidade. O Estado português é uma máquina de transferir dinheiro de uns bolsos para outros, com uma comissão elevada pelo caminho.»
Subscreveria sem dificuldade a demonstração de Pedro Santa Clara da superioridade do modelo nórdico para oferecer aos cidadãos uma sociedade livre e próspera. Só não subscrevo a conclusão implícita de que esse modelo é viável num Portugal dos Pequeninos, e não subscrevo por considerar qualquer característica atávica dos portugueses, mas porque os portugueses são eles e a sua circunstância, como notou Ortega y Gasset em relação ao eu.
A circunstância dos portugueses são séculos de história que caldearam uma cultura colectivista e avessa ao risco, como constatou o modelo 6-D de Geert Hofstede (recorrentemente citado neste blogue) e destilaram elites medíocres, como o próprio Pedro Santa Clara implicitamente reconhece num outro artigo (A oferta de estadistas), em que descreve o sistema político português e constata a sua incapacidade para gerar líderes que escapem ao estigma da mediocridade.
Sendo assim, perguntarão, como é que se chega lá? E eu respondo, não sei se, e não sei como. Não está escrito em parte alguma que todas as nações tenham de ser sempre livres e prósperas e o que não faltam são exemplos de Estados mais ou menos falhados entre os cerca de 200 existentes. Não sei como se chega e suspeito que não se chega com recurso ao pensamento milagroso, por exemplo.