Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

30/09/2020

SERVIÇO PÚBLICO: "A coisa mais perigosa sobre o coronavírus é a histeria" (7)

Este post é uma continuação de (1), (2), (3), (4), (5) e (6) e está relacionado com a série De volta à Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva.

Fonte: The Spectator

Em Inglaterra e País de Gales já se morre mais de gripe e pneumonia do que de Covid. Registe-se também que, diferentemente de Portugal onde há um excesso significativo de mortalidade não Covid devido à falta de resposta do SNS, por lá o HNS parece ter-se aguentado bem melhor porque o excesso total de mortalidade em relação à média é desde Junho pouco significativo. 

29/09/2020

De boas intenções está o inferno cheio (54) - Como desacreditar a escola pública e aumentar a desigualdade de oportunidades

 «No exame de acesso de Matemática A, a moda — ou seja, a nota que se repetiu mais vezes — foi 19. Em Física e Química A, do 11º ano, a moda foi 18. Olhando para as médias de acesso à Universidade, ficamos com a ideia de que o futuro do país está garantido. Os gestores portugueses serão, em breve, os melhores do mundo. Os economistas, idem. Temos uma medicina que não se compara a nada. Os juristas são tão extraordinários que a nossa Justiça rapidamente se tornará uma referência internacional. Cereja em cima do bolo, temos os melhores engenheiros aeroespaciais do mundo: em 10 anos, vamos a Marte e voltamos.

(Se tivermos em atenção que mais de metade dos professores universitários tem a avaliação máxima, de Excelente, somos obrigados a concluir que a academia portuguesa há de ser a melhor do mundo.)

Como, evidentemente, não somos todos uns génios, o que isto quer dizer é que os exames foram fáceis demais, não permitindo distinguir os bons alunos dos muito bons e dos excelentes. Isto tornou o acesso a alguns cursos numa autêntica lotaria. E numa tremenda injustiça para tantos jovens. Não consigo imaginar o que é estar na pele de um adolescente que desde o 10º ano só tira dezoitos, dezanoves e vintes, que nas provas de acesso não tem nenhuma nota abaixo de 18 e não consegue entrar no curso pretendido. Ou estar na pele de alguém que, ao longo de 3 anos, tirou 20 a tudo e que teve um azar no exame de Matemática, não conseguindo mais do que 16, e que por isso não entra no seu curso de sonho. Ao tornar o acesso ao superior numa lotaria, os exames foram um fracasso.»

Excerto de Mais um prego no caixão da escola pública, Luís Aguiar-Conraria no Expresso

A falta de exigência e de rigor e a cedência ao facilitismo está no ADN da esquerdalhada e reflecte-se nas políticas de educação que promovem, a pretexto de facilitar a vida aos mais pobres. Não é preciso ser um génio para perceber que o efeito é precisamente o contrário: o facilitismo agrava o handicap das origens sociais que dá vantagem aos jovens provenientes de famílias que dão importância ao ensino e estimulam a aprendizagem, comparativamente com os jovens de classes mais pobres que frequentemente não têm um ambiente familiar estimulante. Evidentemente que este resultado não tira o sono aos promotores do facilitismo por duas razões: (1) muitos deles inscrevem os seus rebentos em escolas privadas e (2) para quem vê o futuro dos jovens como funcionários de um Estado pantagruélico e omnipresente um diploma é suficiente e estar mal preparado não é um problema.

A longo prazo, esse facilitismo incentiva a optar pelo ensino privado as famílias que têm meios para isso, transformando gradualmente as escolas públicas em repositórios de jovens destinados a adultos falhados, sobretudo as escolas fora das zonas privilegiadas. O resultado final é o aumento das desigualdades, precisamente aquilo que se pretendia evitar.

Malhar em defuntos políticos e bajular quem tem popularidade e quem controla votos. Há quem lhe chame coragem

Ana Gomes sobre:

Cavaco Silva: «múmia paralítica»

Marcelo Rebelo de Sousa: «afectos foram úteis para desanuviar do estilo múmia paralítica»

António Costa: «desempenho de quadro de honra como governante»; «não precisava» de estar em comissões de honra, isto para quem disse de Vieira o que Maomé não disse do chouriço.

28/09/2020

ARTIGO DEFUNTO: "Material impreciso e pouco rigoroso"

O Código de Conduta dos jornalistas do Expresso

2. EXACTIDÃO

Deve haver o cuidado de não divulgar material impreciso ou pouco rigoroso, ao nível do texto ou da imagem, susceptível de induzir em erro ou distorcer os factos.

Os factos
Material impreciso e pouco rigoroso

Bruno Ciancio, diretor do Departamento de Emergência em Saúde Pública do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) em entrevista ao Expresso de 26-09-2020

Crónica da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa (52) - Em tempo de vírus (XXIX)

Avarias da geringonça e do país seguidas de asfixias

A raposa vai ficar no galinheiro a tomar conta dos ovos

O Expresso, pela pena de um dos ouvidos do Dr. Costa, informa-nos que «o governo vai criar comité para supervisionar obstáculos na aplicação dos fundos», presidido pelo Dr. Costa para «garantir autoridade política».

O Dr. Costa tem a paixão dos planos

O Eng. Guterres tinha a paixão da educação - deu no que deu. O Dr. Costa tem a paixão dos planos e está a dar no que já deu e vai dar: «Uma década para Portugal» (o relatório dos 12 sábios, entre eles o Dr Centeno, escalpelizado na série de posts dos amanhãs que cantam do PS), o Programa Eleitoral do PS, o programa de governo do PS, os múltiplos planos sectoriais e por último a Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030. Ainda a tinta deste último não secou e já o governo incluiu nas Grandes Opções do Plano a recuperação do estudo Porter pedido por Mira Amaral em 1994. Ora se há líquidos não miscíveis é a metodologia de Porter - uma abordagem microeconómica - e os devaneios poéticos macroeconómicos do Dr. Costa Silva.

O Dr. Pedro Nuno Santos é um verdadeiro socialista

Recordam-se da polémica do risco de infecção nos comboios (superlotados), risco negado pelo ministro dos comboios com amianto? Pois bem, foi publicado um estudo da Universidade do Porto a partir do qual o Dr. Santos, com a ajuda do diário de manhã, resolveu concluir «que não existe ligação direta entre as infeções da covid-19 e utilização do transporte ferroviário na Área Metropolitana de Lisboa. Como se conclui lendo o estudo, esta tese não é concluível do estudo, é antes uma espécie de facto alternativo.

O Zeppelin do Dr. Galamba

O Dr. Galamba, o criador do elefante branco da cor do hidrogénio verde, produziu há dias um pensamento: «a introdução do hidrogénio aumenta o valor económico de cada euro investido em eletricidade». Não entendem? Eu também não, mas entendo que, segundo as estimativas de Abel Mateus, o «hidrogénio verde vai aumentar fatura do gás em cerca de 20%», o que não admira porque só para começo de conversa o governo vai torrar 900 milhões. E também entendo que os gestores da Fusion Fuel, que têm um projecto para produzir hidrogénio verde em Sines, são também os gestores de duas empresas com várias acções judiciais e vários pedidos de insolvência.

«Estamos preparados»

Um estudo da Associação dos Administradores Hospitalares e da Ordem dos Médicos estima que com uma possível «segunda vaga da pandemia» até ao final do ano fiquem por fazer mais de 10 milhões de consultas nos centros de saúde e mais de 2,2 milhões nos hospitais e 214 mil cirurgias. Mesmo sem segunda vaga, os dados disponíveis até Agosto tornam essa estimativa muito plausível. Isso e os efeitos secundários do confinamento, sobretudo nos idosos, explica o excesso de óbitos não Covid em relação à média que as estatísticas evidenciam.

Cuidando da freguesia eleitoral / Um dia ainda vamos ser todos funcionários públicos

Em Junho já eram mais de 705 mil funcionários públicos, um aumento de 15 mil em 12 meses. A remuneração média mensal aumentou 3,3%. Enquanto isso, aumenta o desemprego e diminui o salário entre os párias que não foram abençoados com uma tença pública.

27/09/2020

"Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes"

Expresso de 22-09-2020

No último dos "Encontros fora da Caixa" promovidos pelo banco público que já custou aos contribuintes vários milhares de milhões de euros e pelo semanário de reverência Expresso, encontro que juntou umas dúzias de luminárias, entre as quais o escritor Gonçalo M. Tavares e o músico Pedro Abrunhosa, reflectiu-se sobre a salvação de Portugal pelo plano dos Costas para torrar 26 mil milhões de euros em dez anos, e produziram-se ideias, entre as quais a que o Expresso justamente destacou. Ditosa Pátria que tais Filhos tem.

Dúvidas (287) – Irá o Brexit consumar-se? (XIX) - Done? Undone yet!

O último post desta série tinha no título «Done» e o título deste oito meses depois é um exemplo de que o futuro é geralmente difícil de prever, salvo no caso da Rússia em que o passado é ainda mais imprevisível do que o futuro.

Porque está o Brexit a falhar em toda a linha, ao ponto do governo de BoJo propor ao parlamento uma violação do tratado que assinou em Janeiro com a UE?  Certamente porque uma reforma desta magnitude está a ser conduzida como uma questão eleitoral. Em primeiro lugar, porque o referendo convocado por Cameron foi um expediente para evitar perder as eleições para o UK Independence Party de Nigel Farage. Em segundo lugar, porque a campanha pelo Brexit foi promovida por todos os partidos com mentiras e meias verdades e os eleitores, nomeadamente os restos da classe operária que rejeitaram o esquerdismo de Corbyn, votaram no Brexit proposto pelos conservadores com base em premissas falaciosas. Em terceiro lugar, porque um referendo sobre uma questão complexa como esta é de legitimidade duvidosa porque a maioria dos eleitores não tem a informação fiável indispensável nem condições para avaliar as alternativas - é por isso que a democracia liberal assenta na representação e existem os parlamentos.

No passado, as grandes reformas no Reino Unido foram longamente discutidas e preparadas. As reformas mais importantes envolveram trabalhistas e conservadores durante décadas que recorreram intensamente uma instituição tipicamente britânica - o think-tank. A criação do Estado Social pelos trabalhistas no pós-guerra conduzida pelo governo trabalhista de Clement Attlee foi uma ideia e um projecto amadurecido entre as duas guerras. O beco sem saída do Estado Social trabalhista abriu a oportunidade à reforma conduzida pelo governo de Margaret Thatcher que adoptou as políticas liberais inspiradas por Friedrich Hayek e propostas pelo Centre for Policy Studies. Nada disto se passou, está a passar ou improvavelmente se passará no caso do Brexit onde o debate está sufocado pela demagogia. Não vai acabar bem e o Partido Conservador vai ser o primeiro a pagar a factura. Talvez então Boris Johnson perceba que está tão longe de ser Winston Churchill como Theresa May de ter sido Margaret Thatcher.

26/09/2020

Ser de esquerda é... (8)

... defender que "arte independente" é a arte que depende do Estado.

Dúvidas (320) - Também já tive essas dúvidas

«É possível uma democracia com uma sociedade fraca e dependente do Estado, e um Estado dependente de ajudas externas, ou por outra palavras: é possível uma democracia sem verdadeira autonomia dos cidadãos e da sua comunidade política? É possível uma democracia com um Estado ocupado há um quarto de século por um mesmo grupo partidário, sem perspectivas de alternância, a não ser em caso de catástrofe? É possível uma democracia onde o poder é sustentado por partidários confessos de ditaduras? É possível uma democracia com instituições minadas por suspeitas de amiguismo e de corrupção? É possível uma democracia onde décadas de estagnação económica e de constrangimentos financeiros tiraram qualquer relevância a propostas de governo alternativas? É possível uma democracia onde, por tudo isto que ficou dito, mais de 50% dos eleitores já não parecem acreditar que valha a pena votar? É possível uma democracia onde, com esse nível de abstenção, o governo pode perpetuar-se confiando apenas no voto fiel da minoria de clientes e beneficiários do poder, como nos regimes não democráticos do passado português?

E se uma democracia não é possível assim, como devemos chamar a um regime com estas características? Talvez que, por pudor ou à falta de melhor palavra, se lhe tenha de continuar a chamar “democracia”. »

Dúvidas que só podem ser retóricas porque Rui Ramos sabe muito bem qual é a resposta. Pela minha parte chamo-lhe, por enquanto, democracia asmática.

25/09/2020

SERVIÇO PÚBLICO: Recomendação de leitura

Mitos e falácias sobre o IRS em Portugal um artigo de Carlos Guimarães Pinto com rigor e uma clareza meridiana que desfaz as construções ideológicas que a esquerdalhada costuma fazer com o IRS e o seu papel no sistema fiscal.

Dúvidas (319) - Já estarão a faltar condecoráveis para S. Ex.ª precisar de os exumar?

Alguém pode explicar porque carga de água o prof Marcelo foi agora condecorar postumamente Ruben A., um escritor falecido há 45 anos, que já havia sido condecorado em 1973 com a Ordem do Infante, uma condecoração apropriada a um escritor que viveu e ensinou no estrangeiro? Sim, eu sei que é este ano o centenário do nascimento de Ruben A., mas, nesse caso, irá S. Ex.ª condecorar em cada ano os escritores que nasceram cem anos antes? Ainda para mais S. Ex.ª condecorou-o com a Ordem Militar de Sant'Iago da Espada que não parece ter nada a ver com o condecorado.

23/09/2020

CASE STUDY: Trumpologia (70) - Como e porquê o discurso de Donald Trump seduz os seus adeptos?

Mais trumpologia.

Tenho procurado entender como e porquê o discurso errático, contraditório, recheado de imprecisões ou mesmo mentiras puras e duras, de Trump seduz os seus adeptos. Eis uma das melhores respostas que encontrei (Donald Trump’s language offers insight into how he won the presidency):

«Toda a gente sabe como imitar Donald Trump. Na fala, adopta o seu timbre rouco, volume estridente e ritmo start-stop. Ao escrever, acrescenta “grandiosamente”, coloca em maiúsculas "frases substantivas emocionais" e termina tudo com um ponto de exclamação. Essas peculiaridades de enunciação e grafia tornam Trump fácil de imitar, mas não explicam facilmente o seu sucesso político. A maneira como ele constrói as frases, no entanto, oferece algumas postas sobre como ele conquistou a presidência.

A base da linguagem distinta de Trump é uma extrema confiança no seu próprio conhecimento. Como Steve Jobs - que inspirou seus colegas da Apple ao fazer o impossível parecer possível - o Sr. Trump cria seu próprio “campo de distorção da realidade”. Um de seus tropos característicos é “poucas pessoas sabem ...” Ele apresentou a natureza complexa dos cuidados de saúde, ou o facto de que Abraham Lincoln foi o primeiro presidente republicano, como verdades que são familiares apenas a alguns. Uma frase de efeito relacionada é “ninguém sabe mais sobre ... do que eu”. Os campos de especialização que Trump promoveu dessa forma incluem financiamento de campanha, tecnologia, políticos, impostos, dívida, infraestrutura, meio ambiente e economia.

Seus críticos muitas vezes atribuem isso ao narcisismo, mas uma explicação complementar é que também é um de seus pontos fortes - técnica de vendas. O Sr. Trump apresenta-se como estando na posse de informações raras. Ele é, portanto, capaz de fazer um acordo especial com um cliente “que muitas pessoas não conhecem”. Se você ficar tentado a levar sua empresa para um concorrente, ele irá lembrá-lo de que “ninguém sabe mais sobre” o que está em oferta do que ele.

22/09/2020

SERVIÇO PÚBLICO: "A coisa mais perigosa sobre o coronavírus é a histeria" (6)

Este post é uma continuação de (1), (2), (3), (4) e (5) e está relacionado com a série De volta à Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva.

Alguém pode explicar-me o racional da onda histérica que assola de novo este e outros países?

O número de infectados está a crescer? Qual é a admiração? Então não estão a fazer-se muito mais testes e esta pandemia não é considerada muito contagiosa? E qual é o problema? Se não há uma vacina, nem haverá antes de muito tempo, como se consegue a chamada imunidade de grupo que é a única forma eficaz de combater uma pandemia?  

Nos cornos da covid

As mortes estão a aumentar? Aumentar em relação a quê? No gráfico compara-se a taxa diária de óbitos de 20 países da UE tomando como base a população portuguesa e é visível a redução na maioria dos países da taxa diária em Setembro comparativamente com Abril. E ninguém se preocupa com o excesso de mortalidade não Covid resultante da falta de resposta dos serviços de saúde em consultas e cirurgias concentrados no que é actualmente uma causa secundaríssima de mortalidade?

21/09/2020

Crónica da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa (51) - Em tempo de vírus (XXVIII)

Avarias da geringonça e do país seguidas de asfixias

A «contradição íntima» do Dr. Costa

Foi assim que a ministra da Justiça se referiu ao apoio público ao presidente do Benfica, pela pertença do Dr. Costa, em parelha com o seu putativo sucessor Dr. Medina, à comissão de honra do Sr. Vieira, um candidato acusado de vários crimes e um dos maiores devedores ao Novo Banco e beneficiário de um perdão de 225 milhões.

O plano dos Costas, a derrota histórica das ideias ultraliberais e os amanhãs que cantarão

Numa das suas muitas apresentações da Estratégia para Plano de Recuperação Portugal 2020-2030, o Dr. Costa (Silva) anunciou a «derrota histórica que a realidade impôs a ideias ultraliberais» e postulou que «não é o mercado que nos vai salvar, é o Estado, são os serviços públicos». A um leigo, pode parecer ridículo atribuir a falência do Estado Sucial português às ideias ultraliberais porque se é certo a governação das últimas décadas já foi inspirada pelo comunismo, pelo esquerdismo infantil, pelo socialismo e pela social-democracia, não se encontra o menor vestígio de doutrinas liberais e, quanto ao mercado, tem sido uma espécie de resíduo do Estado Sucial. Porém, o paraministro Dr. Costa (Silva) não é um leigo, é um «engenheiro poeta», é «alguém que aceita fazer um plano destes», como observou Aguiar-Conraria.

Só alguém que aceita fazer tal plano se lembraria de deixar cair a bitola europeia, que só serviria para ligações baratas para exportação, e volta a apostar na alta velocidade Lisboa-Porto que é uma coisa inadiável para fazer reuniões de negócios, como alternativa ao Teams e ao Zoom. Também só alguém com o perfil do Dr. Costa (Silva) estaria capacitado para prever que «vamos piorar antes de melhorar». É certo quanto ao vamos piorar teve a ajuda de S. Ex.ª (ver secção seguinte) e quanto ao vamos melhorar teve a ajuda de todos os visionários que nas últimas décadas prognosticaram amanhãs que cantariam.

«Queda monumental»

Não sendo certo que o pessimismo seja suficiente, em todo o caso o Conselho das Finanças Públicas prevê uma queda do PIB de 9,3% este ano. Tem-se sido dito que o impacto das medidas da pandemia é mais forte em Portugal pelo maior peso do turismo. Também a produção automóvel, destinada em 86% à exportação, caiu este ano 32% até Agosto. O mesmo raciocínio levaria a concluir que a construção, que é um dos sectores menos dependentes da procura externa, deveria estar a cair menos do que na Europa. Na verdade, é o contrário: aumentou 0,2% na zona euro, caiu 0,1% na UE e caiu 4,3% em Portugal,

20/09/2020

Os Oscares esquizofrénicos do politicamente correcto e da ideologia do género

No dia 8 a Academy of Motion Picture Arts and Sciences que atribui os Oscares anunciou os Representation And Inclusion Standards for Oscars Eligibility que serão aplicáveis gradualmente a partir de 2022 e integralmente a partir de 2024, como condição para um filme poder ser premiado.

Os standards, de uma complexidade kafkiana, são organizados em quatro standards: A - Representação, tema e narrativas, B - Liderança criativa e equipa do projecto, C - Acesso e oportunidades e D - Desenvolvimento da audiência. 

Em todos os standards existem critérios de género (e deficientes cognitivos ou físicos) e de seis minorias e uma sétima «Outra raça ou etnia pouco representada» para incluir os bosquímanos do Kalahari.

No standard A, por exemplo, é preciso cumprir pelo menos um de três critérios: A1 - pelo menos um dos actores principais ou secundários significativos tem de pertencer um grupo étnico ou racial; A2 -  pelo menos 30% de todos os actores secundários têm de pertencer a pelo menos dois de quatro grupos minoritários e A3 - o enredo principal é centrado em um dos referidos grupos minoritários.

Nos grupos minoritários incluiu-se LGBTQ +. Imagino que o símbolo "+" signifique que a Academia possa ir adicionando novos géneros de entre os 112 "géneros", incluindo o meu favorito;
«Verangender: a gender that seems to shift/change the moment it is identified.»

19/09/2020

De volta à Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva (39) - Experiências fora da caixa (3)

Este post faz parte da série De volta à Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva e é uma continuação de Suécia - "É uma questão de liberdade, não de epidemiologia" e de Experiências fora da caixa (1) e (2).

Recapitulando: a Suécia adoptou uma abordagem desalinhada inspirada por uma valorização da liberdade de escolha estranha à cultura portuguesa. Por isso, apesar de ter registado um número de óbitos por milhão de habitantes (580) sempre inferior aos da Bélgica (857), Espanha (650) e Itália (590), a sua experiência foi geralmente vilipendiada pelos mídia portugueses que não apreciam liberdades. 

worldometer

A comparação dos 580 óbitos por milhão de habitantes com os 186 de Portugal é só uma parte da história porque o excesso em relação à média de mortalidade sueco já é inferior ao português, apesar das medidas serem muito menos drásticas. A evolução comparativa mostra o número de diário de novos casos mais estabilizado (comparar gráficos de cima) e o número de morte em decrescimento constante, ao contrário do caso português (gráficos de baixo), acresce que provavelmente a população sueca com imunidade adquirida é muito superior a portuguesa. Sem esquecer que o impacto na economia foi menos pesado na Suécia em que a variação homóloga do PIB no segundo trimestre foi de -7,7%, uma queda que é menos de metade dos -16.3% de Portugal.

18/09/2020

Maldição da tabuada (54) - Sair do armário não é desculpa para não saber fazer contas

Em entrevista ao semanário de reverência na sua edição diária, Bruno Bimbi, que foi o «principal assessor político do deputado federal Jean Wyllys, único parlamentar brasileiro assumidamente homossexual», argentino naturalizado brasileiro para escrever «O fim do armário», justifica o seu auto-exílio em Barcelona (onde, diz, encontrou muitas almas gémeas) com a vitória de Bolsonaro nas eleições presidenciais. Bolsonaro que, segundo Bimbi, «já matou mais de 130 mil pessoas na pandemia».

Se Bolsonaro já matou 635 pessoas por milhão de habitantes, poderemos dizer que o governo espanhol já matou 652 pessoas por milhão de habitantes e o governo belga (cujo anterior primeiro-ministro era gay) já matou 857 pessoas por milhão de habitantes?

O mundo visto pelo eco-lunatismo

«Movimento ecologista francês elegeu uns munícipes nas últimas eleições. Eis umas pérolas:

- Proposta "séria": eliminar as árvores de Natal;

- Proposta ainda mais "séria": eliminar o Tour de France. Razão: trata-se de um evento misógino e aquelas miúdas a dar um beijinho com um ramo de flores aos campeões representa claramente um atentado a dignidade da mulher;

- Uma munícipe não participou num evento organizado pela igreja católica por preferir marcar bem a laicidade do poder; no dia seguinte foi pôr a primeira pedra na construção de uma mesquita;

- Uma presidente lésbica disse que tinha muita sorte em ser como é pois assim garantia não ser violada ou morta por homens

De uma mensagem de AB

15/09/2020

CASE STUDY: Trumpologia (69) - "Na convenção os republicanos preferiram o presidente à realidade"

 Mais trumpologia.

A diferença entre a narrativa de Trump e a realidade é geralmente grande e desde a convenção republicana até às eleições irá certamente aumentar. Só o seu discurso de 70 minutos na Convenção Republicana conteve dezenas de falsidades, meias verdades e exageros, segundo o NYT que comentou cada um desses dislates. É claro que pode sempre dizer-se que isso são distorções dos mídias hostis, mas é uma tolice porque na maioria dos casos qualquer pessoa com dois neurónios não ocupados por teorias da conspiração constata isso. De resto, até os mídias amigos por vezes se desalinham, como a Fox News ao reportar os esqueletos que Michael Cohen desenterra no seu livro "Disloyal, A Memoir: The True Story of the Former Personal Attorney to President Donald J. Trump".

Como é possível que, com tudo isso, os republicanos, para não falar dos devotos de outros países, preferem o presidente à realidade, como escreveu a Economist, ignorando os seus dislates, as suas contradições e o desastre que tem sido a sua administração na resposta à pandemia? Para dar um exemplo trivial das contradições, Trump excita os instintos anti-elites do seu eleitorado demonizando os Ivy Leaguers não obstante o pelotão de trumpistas graduados numa das universidades de Ivy League que o rodeiam (ou rodearam), tais como Jared Kushner, Mike Pompeo, Wilbur Ross, Kris Kobach, Steve Bannon, Ron DeSantis, Kayleigh McEnany, etc.

A razão universal, como aqui referi, é a evolução natural ter conduzido o homo sapiens a um enviesamento da percepção da realidade que o leva a acreditar no que confirma as suas crenças e os seus pré-conceitos. Por isso, a partir do momento que um político ganha a confiança do seu eleitorado este tende a acreditar em tudo e isso é aproveitado por políticos manipuladores que apelam não à razão mas à emoção.

No caso de Donald Trump há razões em particular relacionadas com o seu discurso que podem ajudar a compreender a adesão dos seus adeptos. Um dia destes voltarei a este tema.

Entretanto, os ódios que procura suscitar (veja-se como provoca deliberadamente o áctivismo que funciona como o seu seguro de vida) exaltam ainda mais a fidelidade incondicional dos seus adeptos.

Forecasting the US elections
Apesar das sondagens o mostraram ainda como um provável perdedor, nada está decidido e frente a um candidato democrata fraco e incaracterístico pode bem recuperar até às eleições.

14/09/2020

Crónica da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa (50) - Em tempo de vírus (XXVII)

Avarias da geringonça e do país seguidas de asfixias

Quando se pensava que tinha sido atingido o limite do descaramento...

... o Dr. Costa mostra que para ele e seu putativo sucessor Dr. Medina não há limites e aparecem os dois na comissão de honra de Luís Filipe Vieira, um bonzo do regime que se candidata a sucessor de si próprio na presidência do Benfica. Para citar um constitucionalista, é o «primeiro-ministro a dizer que está tudo bem com uma pessoa que está com processos judiciais em curso» e foi um dos maiores devedores ao Novo Banco causando-lhe perdas de 225 milhões.

Para os amigos tudo, para os inimigos nada, para os outros cumpra-se a lei

Afinal a maior parte das perdas do Novo Banco (1.602 milhões ou 70% do total de 2.310 milhões até 2018) não resultam da venda de imobiliário (a tese mais conveniente para o governo) mas das imparidades resultantes dos créditos malparados em que «os 20 maiores grupos económicos representam cerca de 63%», segundo o relatório de auditoria (Observador). E quem são esses grupos? É um segredo de Polichinelo, entre eles encontram-se os empresários amigos como a Ongoing e Berardo.

No Estado Sucial não há conflito de interesse. Há interesses em conflito

O Dr. Centeno por proposta do Dr. Leão, seu sucessor na pasta e seu ex-secretário de Estado, foi nomeado governador do Banco de Portugal, onde é fiscalizado por um conselho de auditoria por ele escolhido e onde terá nas mãos os casos do Banif e do Novo Banco, as mesmas mãos onde já estavam como ministro das Finanças. Nestas circunstâncias, quem deveria o Dr. Centeno escolher para seu chefe de gabinete no BdP? Meu Deus! Que pergunta! O Dr. Álvaro Novo, seu ex-Secretário de Estado do Tesouro, pois claro. Quem mais?

A bazuca entupida ou a vassalagem falhada do Dr. Costa

Lembram-se do Dr. Costa ir prestar vassalagem a Orbán defendendo que Estado de Direito não deve ser critério para atribuir os fundos europeus com o propósito da Hungria não levantar ondas e deixar os carcanhóis da bazuca aliviarem os padecimento do Estado Sucial? Dois meses depois, Orbán «ameaça travar processo de constituição do fundo de recuperação europeu».

Sempre à frente

O Dr. Costa supera-se a si próprio. Não satisfeito com ter conseguido que sob a sua excelsa governação durante 5 anos o país ter sido um dos três ou quatro da UE cujas economias menos cresceram, consegue agora durante a pandemia que a economia portuguesa tenha tido a quarta maior queda do PIB. Melhor não é possível.

13/09/2020

Dúvidas (318) - Para que serve a disciplina de Cidadania?

Público
Se a foto não for uma resposta definitiva à dúvida, recorde-se que nessa disciplina os alunos podem ainda estudar a identidade de género em manuais com duas centenas de páginas, escolher um dos cento e doze géneros com que preferem identificar-se e interrogar-se sobre se a sua família está de acordo com o modelo berloquista.

O que fazer aos pais refractários? Por exemplo impedir que os seus filhos frequentem o ensino universitário, sugere uma juíza. Se o Dr. Salazar se tivesse lembrado de uma solução como esta para os filhos dos oposicionistas que não queriam que os seus rebentos frequentassem a Mocidade Portuguesa e a disciplina de Religião e Moral teria evitado que as universidades se enchessem de contestatários e o Estado Corporativo poderia ter sobrevivido mais uns tempos em vez de ter desabado e ser substituído por um Estado Sucial ocupado por filhos de oposicionistas, agora novos situacionistas.

ARTIGO DEFUNTO: Se uma imagem vale mais que mil palavras, duas imagens valem mais do que duas mil palavras ou o equivalente a uma página do semanário de reverência

Caderno Principal do Expresso de 12-09-2020

À esquerda, o contra-luz, a pose, o ar de respeitabilidade da líder de um partido que é uma salada trotskista-maoista temperada com identidade de género e que apoia regimes como o castrismo e chávismo. À direita, o fundo de populismo arruaceiro, a insinuação de saudação nazi e o título da peça «Autoridades seguem mais de uma dezena de extremistas do Chega», para o caso dos leitores não perceberem o simbolismo da foto.

12/09/2020

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Sérgio Sousa Pinto, um socialista desalinhado

Secção Idiotas Inúteis (*)

Já umas quantas vezes citei Sérgio Sousa Pinto, um dos poucos políticos socialistas que merecem atenção por boas razões, nos tempos que correm. Com um PS que, sob a batuta de Costa, é cada vez mais um partido sucialista infectado pelo esquerdismo berloquista com uma agenda alinhada com o politicamente correcto, Sousa Pinto só poderia ser, e é, um desalinhado. 

O seu último desalinhamento foi a assinatura do manifesto Em defesa das liberdades de educação que defende o respeito pela «objecção de consciência das mães e pais quanto à frequência da disciplina de Educação para a Cidadania e o Desenvolvimento». Que um manifesto com este propósito tenha suscitado um contra-manifesto a exigir a obrigatoriedade de uma disciplina onde se doutrinam alunos na ideologia do género em panfletos com duas centenas de páginas, os questionam sobre os modelos familiares e as suas preferências sexuais, mostra bem o ponto de submissão ao pensamento único a que chegaram as nossas elites esquerdistas.

Aceitemos que manifesto e contra-manifesto fazem parte da chamada guerra cultural gramsciana. O que é inaceitável é prosélitos de uma disciplina de "Educação para a Cidadania", exigirem a sua expulsão do PS e o insultarem com um «facho mofento». Isto diz tanto sobre a disciplina como sobre o autores dos insultos.

Por tudo isto, atribuo cinco afonsos a Sérgio Sousa Pinto pelo seu corajoso desalinhamento, e aos que o insultaram cinco bourbons e cinco chateaubriands, por não esquecerem nem aprenderem nada e confundirem o papel do Estado com o dos pais e o da instrução que compete à escola com a doutrinação, respectivamente.

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(*) Idiotas inúteis não se refere obviamente ao socialista desalinhado, mas antes aos socialistas alinhados e outros exemplares da esquerdalhada que insultaram o desalinhado. O nome desta secção foi inspirado nos compagnons de route, a quem os comunistas soviéticos chamaram idiotas úteis, que faziam a propaganda do regime soviético nos países democráticos, ignorando o despotismo e as atrocidades e parecendo ter mais fé no comunismo do que aqueles que o estavam a instalar na União Soviética.

11/09/2020

NÓS VISTOS POR ELES: S. Ex.ª e o nosso primeiro masturbam-se durante as reuniões? Pergunta uma emigrada em Houston

«The campaign for the Presidential election seems to have started in Portugal. It is absolutely appaling how the media carries Marcelo Rebelo de Sousa. This is not free press; it's a Public Relations machine. Then we have to put up with the public displays of affection between the Prime Minister and the President. Do they jack each other off during their meetings? If they don't, they sure look like they'd like to.»

10/09/2020

ACREDITE SE QUISER: «Board das grandes do PSI-20 pede mais nove mulheres»

Foi esse o título que o Jornal de Negócios escolheu para nos informar que «mantendo a dimensão da administração, todas estas cotadas [EDP, EDP Renováveis, Jerónimo Martins, Nos e Galp] vão precisar de contar com pelo menos mais um elemento do sexo feminino nos órgãos de administração para satisfazer as novas metas e, no caso da EDP Renováveis e da Galp, terão mesmo de se acrescentar duas mulheres, assim como no caso do conselho geral e de supervisão da EDP. Só nesta amostra, são então nove o total de novos membros do sexo feminino que poderão passar a ser incluídos na administração por força da lei.»

Estranhamente ainda não ouvi um lamento ou um grito de indignação dos áctivistas da identidade de género. Sexo feminino? Sexo? O que é feito dos géneros? Já não falo dos cento e doze géneros, mas ao menos o clássico LGBT ou o upgrade para os dez "géneros" LGBTIQQAAP (L = lesbian, G = gay, B = bisexual, T = transgender, I = intersex, Q = queer, Q = questioning, A = allies, A = asexual, P - pansexual).

Imaginem-se as oportunidades de nomeações para os órgãos suciais de representantes dos quatro géneros ou, vá lá, dos dez géneros...

Dúvidas (317) - Intoxicar não tenho a certeza, mas enlouquecer, enlouquece

Há uma poção, com o bem achado nome de Miracle Mineral Solution, MMS, que está a ser vendida online (pelos vistos até na Amazon) para tratar a Covid-19 e uma porção de outras maleitas como cancro, SIDA, autismo e hepatites. Ao que parece a poção é tóxica.

Curiosamente, a notícia do Observador é ilustrada pela foto acima que presumi teria alguma relação com a ingestão de MMS de onde, considerando que o Bill Gates, além do Windows e do Office, entre outros produtos de software, nunca produziu nenhuma vacina, deduzo que um dos efeitos secundários da MMS é produzir a demência dos seus consumidores.

09/09/2020

Mitos (307) - O contrário do dogma do aquecimento global (XXIV)

Outros posts desta série

Em retrospectiva: que o debate sobre o aquecimento global, principalmente sobre o papel da intervenção humana, é muito mais um debate ideológico do que um debate científico é algo cada vez mais claro. Que nesse debate as posições tendam a extremar-se entre os defensores do aquecimento global como obra humana – normalmente gente de esquerda – e os negacionistas – normalmente gente de direita – existindo muito pouco espaço para dúvida, ou seja para uma abordagem científica, é apenas uma consequência da deslocação da discussão do campo científico, onde predomina a racionalidade, para o campo ideológico e inevitavelmente político, onde predomina a crença.

Fonte

«Os incêndios no Ártico produziram mais emissões de carbono neste ano do que em qualquer ano já registado, de acordo com cientistas do Copernicus Atmosphere Monitoring Service (CAMS), uma agência da UE. Até agora, em 2020, milhões de hectares dentro do Círculo Polar Árctico foram incendiados, libertando 244 milhões de toneladas de dióxido de carbono na atmosfera, em comparação com 182 milhões de toneladas em todo o ano passado. (Antes de 2019, o recorde era de 110 milhões de toneladas em 2004.) Os números do Global Carbon Project, uma rede de cientistas, sugerem que os incêndios deste ano geraram mais emissões de carbono do que, digamos, a Malásia ou a Espanha queimando combustíveis fósseis em um ano inteiro .

Os especialistas temem que os incêndios possam ser uma evidência de um círculo vicioso das mudanças climáticas. Os incêndios florestais do Ártico - especialmente aqueles que queimam na zona rica em carbono entre a tundra e a floresta boreal - emitem uma ampla gama de poluentes, incluindo monóxido de carbono, óxidos de nitrogénio, compostos orgânicos voláteis e partículas sólidas de aerossol. Ao consumirem matéria orgânica, também liberam dióxido de carbono e metano, gases de efeito estufa que causam o aquecimento global. O CAMS estima as emissões de cada incêndio medindo sua “potência radiante”, a taxa de calor radiante gerado pelo incêndio e calculando a quantidade de biomassa queimada necessária para produzi-la. Incêndios maiores e mais quentes são um sintoma e uma causa da mudança climática, que está ocorrendo mais rapidamente no Ártico do que em qualquer outro lugar. Eles não apenas liberam grandes quantidades de gases de efeito estufa que aquecem o planeta mas também deixam cicatrizes escuras e fuligem, aumentando a quantidade de calor que a região absorve do sol.»

Este é mais um fenómeno indicia que estão em curso mudanças climáticas. É pouco sério negá-lo ainda que isso só por si não demonstre que essas mudanças se devem exclusivamente à acção humana. E é pouco inteligente transformar uma questão essencialmente científica em armas de arremesso ideológico. O contrário do dogma do aquecimento global não é outro dogma, é uma atitude inquisitiva e a dúvida cartesiana.

08/09/2020

CASE STUDY: O homo sapiens evoluiu para acreditar no que lhe dá jeito e isso dá muito jeito aos políticos em geral, e em particular aos mentirosos compulsivos

Toda a gente mente de vez em quando, os políticos em geral mentem frequentemente e alguns mentem tanto que eles próprios não conseguem distinguir a verdade da mentira. Isto é geralmente conhecido o que é menos conhecido é porque podem os políticos continuar a mentir sem pagarem um preço por essas mentiras, ou até mesmo porquê os seus devotos acreditam nelas e esperam que eles continuem. Nas minhas reflexões sobre este fenómeno lembrei-me do artigo You really can fool some of the people, all of the time (é de Outubro do ano passado e por isso algumas referências estão desactualizadas), que agora partilho com os visitantes. Aqui vai ele. 

«Em 2001, Jonathan Haidt , psicólogo da Universidade de Nova York, publicou um artigo na Psychological Review deliciosamente intitulado “The Emotional Dog and its Rational Tail”. Haidt argumentou que quando as pessoas tomam decisões morais, são influenciadas pela emoção, ou o que também pode ser denominado intuição. Eles podem pensar que estão avaliando as evidências, mas na verdade as suas decisões são tomadas instantaneamente. As razões que dão depois apenas reflectem essas emoções, como um cachorro abanando o rabo.

Outros têm opiniões semelhantes. “A razão é, e só deve ser, escrava das paixões”, escreveu David Hume, um filósofo do Iluminismo escocês, em 1739. Mas as lições do ensaio de Haidt são particularmente adequadas numa época em que a mentira passou a definir política mais do que o usual.

As ditaduras sempre foram construídas sobre mentiras: que Kim Jong Un é um semideus, que nada aconteceu em 4 de junho de 1989 na Praça Tiananmen. A União Soviética chamou o seu principal jornal de Pravda (“Verdade”). Isso era uma mentira, é claro.

Os políticos nas democracias sempre torturaram a verdade: negando casos e minimizando os efeitos nocivos das suas políticas. O que é novo é o grau em que os eleitores estão preparados para apoiar líderes que parecem deliciar-se com sua falsidade.

O primeiro acto notável de Boris Johnson foi ser demitido de um jornal por fazer uma citação. No entanto, ele é o primeiro-ministro da Grã-Bretanha. A Índia disse que derrubou um caça a jacto F-16 do Paquistão sobre a Caxemira em Fevereiro. Diante de uma eleição, Narendra Modi, o primeiro-ministro da Índia, disse que seu país deu uma lição ao Paquistão. Uma inspecção subsequente da aeronave do Paquistão por oficiais americanos mostrou que nenhuma estava faltando (a Índia manteve sua posição).

Quanto ao presidente Donald Trump, sites inteiros são dedicados à sua falta de verdade. Num deles, Glenn Kessler, do Washington Post , verifica os factos das declarações presidenciais e as pontuações dos prémios: três Pinóquios por “erros factuais significativos” e quatro por “whoppers” (as alegações de Trump sobre a Ucrânia e Hunter Biden encaixam-se na categoria whopper). Até 9 de Outubro, o presidente havia feito 13.435 declarações falsas ou enganosas durante o mandato. Em vez de lidar com o que é verdadeiro e o que é falso, o Twitter disse em 30 de Outubro que proibiria anúncios políticos (o Facebook até agora recusou o mesmo).

No entanto, sua duplicidade parece custar aos políticos pouco, ou nada, em apoio eleitoral. Pesquisas feitas pelo YouGov, um pesquisador, colocaram o Partido Conservador de Johnson na liderança da eleição marcada para Dezembro. O índice de aprovação de trabalho de Trump, de 43%, é baixo, mas apenas um ponto abaixo do que era quando ele assumiu o cargo. Ninguém dá como certo que ele perderá as eleições presidenciais do próximo ano.

Por que mentir não é mais prejudicial? Uma possibilidade é que mentir na escala trumpiana é tão incomum - tão frequente, desavergonhado e obviamente falsificado - que as pessoas não sabem como reagir. Nos testes, entre dois terços e três quartos das pessoas dizem que nunca mentem; a maioria dos demais afirma mentir menos de cinco vezes ao dia. É difícil compreender alguém que vai muito além da mentira normal e ocasional.

Outra explicação é que as pessoas confiam nos líderes em quem votaram, não importa o que essas pessoas digam. Um estudo recente realizado por dois pesquisadores da Universidade Brigham Young, Michael Barber e Jeremy Pope, investigaram se os eleitores são leais a um líder individual ou se apoiam líderes que representam as políticas e perspectivas que defendem. Como Trump abandonou muitas políticas republicanas tradicionais, como o apoio ao comércio livre e a suspeição da Rússia, os investigadores concluíram que é pessoal: aqueles que ainda se dizem republicanos apoiam Trump por ser quem ele é, não pelo que ele representa. E se a lealdade pessoal triunfa sobre a ideologia, então os eleitores podem apoiar um político, mesmo que ele não diga a verdade.

Na verdade, os partidários de Trump podem até apreciar as suas mentiras. Se você acredita que todos os políticos são mentirosos, os indignados com as falsidades de Trump são hipócritas. A ira de seus oponentes e jornalistas, como o Sr. Kessler, pelas suas mentiras é considerada principalmente como prova "of his cocking a snook at the swampy establishment".

07/09/2020

Crónica da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa (49) - Em tempo de vírus (XXVI)

Avarias da geringonça e do país seguidas de asfixias

O inferno está cheio de boas intenções

Com grande pompa, o governo pela boca do Dr. Costa anunciou a aplicação de rastreio StayAway Covid. Segundo o Expresso, a aplicação foi descarregada 535 mil vezes em três dias, ou seja uns 5% dos portugueses contando com criancinhas de colo e velhinhos. Numa amostra aleatória seria de esperar que cerca de 6%, a taxa actual de casos confirmados, desses 535 mil, ou cerca de 3 mil, inserisse o código de contágio na aplicação. Apenas 7 códigos foram inseridos. Seria de esperar outra coisa? Só por lunáticos que não façam a menor ideia de como funciona a cabeça dos portugueses.

Para os amigos tudo, para os inimigos nada, para os outros cumpra-se a lei

A DGS resistiu a revelar o parecer técnico para a festa do Avante e só o fez pressionada por S. Ex.ª que aproveita a oportunidade para marcar as suas distâncias ao governo e tentar recuperar alguns votos em fase de emigração. Isto foi para os amigos, mas não se pense que o governo é permissivo em relação a todos os eventos que envolvem muita gente. Nada disso, em Moura a GNR intervém em casamento e só na área de Lisboa a PSP já desfez 600 festas.

Quem diz amigos nas festas, diz amigos nas dívidas. Por exemplo os 35 grandes devedores do Novo Banco herdados do BES que no total representam perdas potenciais de 5,6 mil milhões, empresários amigos do regime cuja identidade não é relevada.

Milagre! A Dr.ª Graça desconfirmou 1.514 confirmados no dia 5...


06/09/2020

Um Rio cada vez mais parecido com um socialista (7) - Agora certificado pelo comentador do regime

Outras parecenças.

«O antigo líder parlamentar e antigo vice-presidente do PSD, José Pacheco Pereira, vai regressar ao partido como membro do Conselho Consultivo do Conselho Estratégico Nacional, o órgão que define a estratégia e que vai desenhar o próximo programa eleitoral do partido. Rui Rio recupera assim um militante que se manteve bastante crítico do próprio partido e chegou a participar no Congresso do PS no tempo em que Passos Coelho era o líder social-democrata.»  (Observador)

À primeira vista parece estranho, mas não é. Pelo contrário, o Dr. Rio mostra coerência. Se o Dr. Pacheco deu palco ao Dr. Costa no seu programa Quadratura do Círculo para fazer oposição a António José Seguro, o líder socialista de então, porque não poderá o Dr. Pacheco no seu programa a Circulatura do Quadrado ajudar o Dr. Rio, o actual líder do PS-D e candidato a vice-primeiro ministro socialista, a evitar um opositor?

ROAD TO SERFDOM: "The Covid trap: will society ever open up again?"

 «The great pandemic of 2020 has led to an extraordinary expansion of government power. Countries rushed to close their borders and half of the world’s population were forced into some sort of curfew. Millions of companies, from micropubs to mega corporations, were prohibited from carrying on business. In supposedly free and liberal societies, peaceful strollers and joggers were tracked by drones and stopped by policemen asking for their papers. It’s all in the name of defeating coronavirus; all temporary, we’re told. But it’s time to ask, just how temporary? As Milton Friedman used to warn: ‘Nothing is so permanent as a temporary government programme.’ (...)

These protectionist reactions to the Covid crisis are the result of a fundamental mismatch between our stone-age brains and the nature of the modern world. Instinctively rushing to put up or defend the perimeter and kill strangers made sense when the threat was a raiding band — but now?

H.L. Mencken once joked that the goal of much of practical politics is to keep the populace alarmed and hence clamouring for safety. He was referring to a human instinct. When we feel threatened, the danger often triggers a ‘fight or flight’ reaction, which makes us want to pick fights with scapegoats or foreigners or to hide behind walls or tariff barriers. And we start looking for the big man (or, in Scotland’s case, woman) to keep us safe. After that, few people want to be an outsider, a critic, a troublemaker. Those who protest against measures taken in the name of national safety are quickly shouted down. 

But now that we’ve engaged in this massive experiment of shutting down societies and economies, surely we need a frank discussion about its merits and about whether these instincts are appropriate in a complex global economy. The enemy, after all, is a virus, not a raiding band. We shouldn’t bat away outsiders but co-operate with them in accumulating knowledge and producing solutions. (...)

How extreme will this backlash against globalisation be? From the early days of the pandemic, nativist populists were quick to argue the only way to defeat the virus was to fundamentally undermine the liberal order. Steve Bannon, a historically minded nativist, understood that a total war against the virus could usher in a new isolationist era without trade and migration. ‘Take draconian action,’ he said on his podcast in March. ‘Shut it all down.’

Even if the Covid crisis does not mean the end of globalisation, it seems inevitable that we will see greater government powers and more protectionist tendencies throughout the western world. Perhaps Britain will end up with a Brexit deal a lot less globally minded than some of its advocates imagined. The pandemic may shuffle the UK alongside Europe into a revived 1970s-style industrial policy that will reduce competitive pressure, innovation and growth. We could end up with an expansion of government size and its ‘temporary’ powers may end up permanent. Cities may live under threat of lockdown for some time. As Robert Higgs noted in his classic 1987 analysis of government expansion, Crisis and Leviathan, there is a ratchet effect. After the crisis has passed, governments yield some of their new powers, but not all. New measures set a new precedent and create new powerful constituencies. Look, for example, at the arguments to keep the furlough scheme beyond October.

And this is likely to be the case even if politicians want to return to normal. But many don’t. Why would they? When Orbán took emergency powers in June, it was underreported that at the same time he got parliament to grant him powers to impose a state of emergency if he identifies another public health threat.

But hang on, you might say, we’re living in unprecedented times — as politicians love to tell us — and they call for unprecedented action. But this pandemic is small by historical standards. Even now, the global number of deaths from Covid-19 is still lower than from the Hong Kong flu of 1968. But there was no lockdown, no mass school closures, nor did we throw ancient civil and economic liberties overboard. What’s new, this time, is our reaction, not the virus. Sooner or later we will face a worse pandemic or another devastating crisis. What would we be willing to sacrifice then?»

The Covid trap: will society ever open up again? A ‘temporary’ expansion of government power is hard to reverse, Johan Norberg

05/09/2020

Bons exemplos (136) - Se um anunciante tentasse influenciar conteúdos, os directores dos jornais amigos do Dr. Costa convidavam-no para almoçar para perceberem melhor o que deveriam mandar os jornalistas de causas escrever

A Cop-op (Co-operative Group) é a maior cooperativa de consumo britânica com 4,6 milhões de sócios, gere uma cadeia de distribuição com mais de 3.700 locais onde vende produtos alimentares, de farmácia, seguros, serviços jurídicos e assistência funerária. A Cop-op publicava anúncios regularmente na Spectator, uma revista conservadora britânica, cujos conteúdos tentou influenciar sob ameaça de retirar a publicidade. Andrew Neil, presidente da Spectator, respondeu assim:  

«No need to bother, Co-op. As of today you are henceforth banned from advertising in The Spectator, in perpetuity. We will not have companies like yours use their financial might to try to influence our editorial content, which is entirely a matter for the editor.»

Freedom comes at a price. Many are willing to pay little and few are willing to pay much

  «The generation of the second world war had been prepared to risk life to preserve freedom. This generation is ready to risk freedom to preserve life

Tony Abbot, Former Australian PM

04/09/2020

Bons exemplos (135) - Os jornalistas de causas do Portugal dos Pequeninos não teriam lugar na BBC

«The top priority would be to "renew our commitment to impartiality", he said.
Impartiality is "the very essence of who we are" and is possible to achieve even in polarised times.
"It is not simply about left or right. This is more about whether people feel we see the world from their point of view. Our research shows that too many perceive us to be shaped by a particular perspective."
He added: "If you want to be an opinionated columnist or a partisan campaigner on social media then that is a valid choice, but you should not be working at the BBC."»
Tim Davie novo director geral da BBC.

De volta à Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva (38) - Nos EUA (e noutros países) morre-se muito mais com Covid do que por Covid (2)

Este post faz parte da série De volta à Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva e é uma continuação deste.  

Fonte: CDC
Não me parece necessária qualquer explicação para se compreender o quadro anterior e a citação. Uma vez mais se confirma que nos EUA, como em Inglaterra, na Itália e em muitos outros países, incluindo Portugal, a esmagadora maioria das mortes com Covid são de pessoas com outras doenças e a idade é um factor de risco (naturalmente associado a outras condições).

Estes dados, colocam mais uma vez, em causa as estratégias predominantes de resposta à pandemia.

O diagrama seguinte (do lado direito) evidencia a distorção da opinião pública americana a respeito do risco de mortalidade nos diferentes escalões etários.

Fonte: Economist

Repare-se como os americanos - e provavelmente cidadãos de outros países - bombardeados pela cobertura jornalística enviesada e os factos alternativos trumpianos - têm a percepção que a mortalidade é muito maior do que a real nos jovens e ao contrário nos idosos.De volta à Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva

03/09/2020

NOVA ENTRADA PARA O GLOSSÁRIO DAS IMPERTINÊNCIAS: "Mineração do guito europeu"

MINERAÇÃO DO GUITO EUROPEU

De minerar (figurativo, extrair minérios de uma mina, por exemplo Bitcoin Mining), guito (designação popular para dinheiro) e europeu (de Óropa). Designa a actividade a que se dedica com grande empenho o Dr. Costa e os socialistas.

Expressão usada pela primeira vez por Carlos Guimarães Pinto, ex-líder da Iniciativa Liberal, num podcast onde se discutia uma espécie de I have a dream, encomendado pelo Dr. Costa ao Dr. Costa Silva e denominado Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica. A Visão consiste essencialmente num enunciado de milagres que o Estado sucial administrado pelo Dr. Costa se propõe realizar como ersatz a tratar de coisas onde costuma falhar estrondosamente como a renovação do cartão de cidadão, fazer funcionar o Serviço Nacional de Saúde, acertar as contas públicas, gerir com um mínimo de competência as empresas públicas, prevenir a corrupção que infecta a administração pública, etc. (um gigantesco etc.)

A "nova esquerda" e o politicamente correcto visto por Roger Scruton

Para se entender a génese e os fundamentos filosóficos e teóricos do politicamente correcto, ou marxismo cultural, que hoje domina o discurso da extrema esquerda americana, infecta as faculdades de ciências sociais e influencia a esquerda europeia, é uma boa ideia ler Tolos, Impostores e Incendiários - Pensadores da Nova Esquerda que Roger Scruton, entretanto falecido, publicou em 2015 e que tem uma edição portuguesa de 2018 da Quetzal. Aqui vão alguns excertos. 

« … a primeira preocupação dos movimentos revolucionários da esquerda tem sido a captura da linguagem, mudar a realidade mudando a forma como a descrevemos e, consequentemente, como a entendemos. A revolução começa a partir de um ato de falsificação, igualmente exemplificado nas revoluções francesa e russa e nas revoluções dos campus contemporâneos.

(…)

… as guerras culturais acabaram na América com uma vitória quase universal da esquerda. muitos dos que foram considerados guardiões da cultura ocidental aproveitam qualquer argumento, mesmo fracassado, e qualquer corrente académica, mesmo que falsa, para denegrir a sua herança cultural. Entrámos num período de suicídio cultural, comparável ao que o Islão sofreu após a ossificação do Império Otomano.

(…)

Como consequência das guerras culturais, tudo isso foi profundamente alterado. Em lugar de objetividade, temos apenas «intersubjetividade» - noutras palavras, consenso. Verdades, significados, factos e valores são agora vistos como negociáveis. O curioso, no entanto, é que esse subjetivismo vago é acompanhado por uma vigorosa censura. Aqueles que colocam o consenso no lugar da verdade, em breve dão por si a distinguir a verdade do falso consenso. E, inevitavelmente, o consenso está «à esquerda». Porque é que isso há de ser assim, é uma questão a que tento responder neste livro.

Assim, o «nós» de Rorty exclui rigorosamente todos os conservadores, tradicionalistas e reacionários. Apenas liberais é que lhe podem pertencer; assim como apenas feministas, radicais, ativistas homossexuais e antiautoritários podem beneficiar da desconstrução; assim como apenas opositores do «poder» podem usar as técnicas de sabotagem moral de Foucault, e tal como apenas «multiculturalistas» podem servir-se da crítica de Said aos valores do iluminismo. A conclusão inescapável é que a subjetividade, o relativismo e o irracionalismo são defendidos não para acolher todas as opiniões, mas precisamente para excluir as opiniões de pessoas que acreditam em velhas autoridades e verdades objetivas. Este é o atalho para a nova hegemonia cultural de Gramsci: não para justificar a nova cultura contra a velha, mas para mostrar que não há espaço para nenhuma delas, de forma a que nada fique a não ser o compromisso político.

Por conseguinte, quase todos os que abraçam os «métodos» relativistas introduzidos nas humanidades por Foucault, Derrida e Rorty são adeptos ferrenhos de um código do «politicamente correto» que condena em absoluto o desvio em termos intransigentes. A teoria relativista existe para apoiar uma doutrina absolutista.»

02/09/2020

CASE STUDY: Os efeitos do ensino online nos estudantes mais pobres (2)

No post anterior sobre este tema citei dados dos EUA confirmando que os alunos mais pobres têm pior desempenho em cursos online do que nos presenciais e que por isso o fecho das escolas os afecta mais intensamente.

Também na Inglaterra a National Foundation for Educational Research (fonte) concluiu a partir de um inquérito a cerca de 3 mil directores e professores de 2.200 escolas dos ensinos básico e secundário que as crianças estão três meses atrasadas nos estudos após o confinamento, só concluíram cerca de 2/3 dos programas e que é improvável uma recuperação rápida.

Os alunos pobres foram mais afectados, alargando-se em 46% o learning gap, pela primeira vez desde 2007, e os rapazes foram mais atingidos do que as raparigas.

01/09/2020

Mitos (306) - A resposta da UE à crise Covid-19 foi melhor do que à crise financeira de 2008

Para se perceber a génese do mito em título é indispensável ter em consideração que resposta da UE à crise Covid-19 está a ser na vigência de um governo PS e que a resposta à crise financeira de 2008 foi durante o mandato na CE de Durão Barroso, por quem o neosituacionismo nutre um ódio de estimação, e o resgate de que o governo de Sócrates foi responsável obrigou a um programa que esse governo negociou, mas foi executado pelo governo PSD-CDS.

Para desmontar o mito vale a pena ler o testemunho de António Cabral, um economista funcionário  da Comissão Europeia entre 1988-2014, que acompanhou directamente a preparação e execução do resgate, publicado no Expresso de 29 de Agosto.

«A 9 de abril do corrente ano de 2020 o Eurogrupo, presidido pelo português Mário Centeno, e na sequência de um mandato do Conselho Europeu adotou uma proposta para “uma resposta global de política económica à pandemia da covid-19”. Ao apresentá-la ao mundo em conferência de imprensa, Mário Centeno considerou que “esta resposta contém propostas corajosas e ambiciosas, impensáveis ainda há algumas semanas. Todos nos podemos lembrar que na resposta à crise financeira da última década a Europa fez demasiado pouco e demasiado tarde (too little too late). Desta vez é diferente” . Em Lisboa, penso que por imposição estatutária, o secretário-geral-adjunto do PS não se poupou: aquele “foi um dia histórico da vida europeia” e “deu os parabéns ao primeiro-ministro e ao ministro das Finanças pelo contributo que deram para aquela decisão” (sic).

Recuperei o fôlego e fui ler a proposta do Eurogrupo, a ser enviada ao Conselho Europeu. Gostei bastante, são 23 parágrafos, cobrindo os diversos elementos que compõem a resposta, compreensiva, à pandemia. Para meu gosto contém welcomes a mais e ações a menos. Contei 11 welcomes, (expressão utilizada para saudar iniciativas de terceiros), ‘welcama-se’ a Comissão, o BCE, o BEI, etc., (ganda Eurogrupo, pá!). Apreciei em particular o parágrafo 16, onde consta o acordo — uma ação do Eurogrupo! — para os países do euro poderem recorrer aos fundos do Mecanismo de Estabilidade Europeu (MEE) para financiar os custos de saúde, diretos e indiretos, resultantes da pandemia (até um montante de 2% do PIB respetivo). Mais ainda, poderem fazê-lo sem qualquer condicionalidade, que não fosse o compromisso de utilizar esse financiamento para suportar custos com a saúde. Pareceu-me uma boa decisão, pois a situação humanitária então vivida (“estava a morrer gente em Espanha”) requeria uma resposta urgente, que assim estava dada pelo Eurogrupo. Contudo (infelizmente?) até à data nem Portugal nem nenhum outro país do euro tinham ainda recorrido ao MEE para este efeito! Os €240 mil milhões disponíveis no MEE (2% do PIB da área do euro) permaneciam, assim, dormentes. A crise humanitária, então muitas vezes utilizada com demagogia (understatement, não havia necessidade, que diabo...), como que desapareceu. Pois foi, começaram a surgir odores a dinheiro gratuito, para quê ter a maçada de pedir dinheiro emprestado?