Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
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06/06/2024

DIÁRIO DE BORDO: Dia D - O princípio do fim do III Reich e talvez a última vez que os ianques salvaram a Óropa de si própria (republicação)

Há 79 anos as forças aliadas (tradução: americanos e ingleses e alguns canadianos, australianos et al.) desembarcaram em
Omaha Beach para salvar a Europa de si própria (créditos: WSJ)

Há também a versão alternativa da inutilidade e perversidade do Dia D que entre outras coisas prejudicou os portugueses ao parar as tropas soviéticas na Europa Oriental, impedindo a substituição do regime salazarista por uma democracia popular e privando-nos das alegrias do socialismo real.

06/06/2023

DIÁRIO DE BORDO: Dia D - O princípio do fim do III Reich e talvez a última vez que os ianques salvaram a Óropa de si própria (republicação)

Há 79 anos as forças aliadas (tradução: americanos e ingleses e alguns canadianos, australianos et al.) desembarcaram em
Omaha Beach para salvar a Europa de si própria (créditos: WSJ)

Há também a versão alternativa da inutilidade e perversidade do Dia D que entre outras coisas prejudicou os portugueses ao parar as tropas soviéticas na Europa Oriental, impedindo a substituição do regime salazarista por uma democracia popular e privando-nos das alegrias do socialismo real.

18/05/2023

A conversa da decadência dos Estados Unidos é um bocadinho exagerada

Fonte

«Em 1990, os Estados Unidos representavam um quarto da produção mundial, a taxas de câmbio de mercado. Trinta anos depois, essa participação está quase inalterada, mesmo com a China ganhando peso económica. O domínio dos Estados Unidos sobre o mundo rico é surpreendente. Hoje, representa 58% do PIB do G7, em comparação com 40% em 1990. A paridade de poder de compra, apenas os petroestados super-ricos e os centros financeiros desfrutam de um rendimento per capita mais alto. Os rendimentos médios têm crescido muito mais rapidamente do que na Europa Ocidental ou no Japão. Também ajustados pelo poder de compra, eles ultrapassam US$ 50 mil no Mississippi, o estado mais pobre dos Estados Unidos – mais do que na França.» (Fonte)

11/06/2022

Dúvidas (337) - Entre a imperfeição das democracias e a perfeição das tiranias, o que escolher?

Era uma vez um@ comunista, mas poderia ser um@ esquerdista, um@ fundamentalista islâmic@, um@ ultranacionalista ou um@ antiglobalista, que um dia chega a sua casa e encontra a namorad@ / companheir@ / mulher / marido / espos@ na sua própria cama com um ser que menstrua/provid@ de pénis. Indignad@, sai de casa e vai manifestar-se em frente à embaixada americana.

As embaixadas americanas são dos poucos locais onde é possível um@ esquerdista partilhar o espaço de manifestação com direitistas, ainda que em dias diferentes (e diferentes ocupantes da Casa Branca). São como um lugar de peregrinação para as legiões de inimigos da liberdade.

06/06/2022

DIÁRIO DE BORDO: Dia D - O princípio do fim do III Reich e talvez a última vez que os ianques salvaram a Óropa de si própria (republicação)

Há 73 anos as forças aliadas (tradução: americanos e ingleses e alguns canadianos, australianos et al.) desembarcaram em Omaha Beach para salvar a Europa de si própria (fonte: WSJ)

14/04/2022

CASE STUDY: A atracção pelos tiranos e pela tirania (1)

A aceitação de Putin (podia ser de outro qualquer tirano), ou a devoção nos casos extremos, é mais um exemplo de como a distinção clássica direita-esquerda é em muitos casos inadequada. No caso de Putin, como de outros, encontramos devoção e aceitação da criatura à direita e à esquerda. 

À esquerda é mais a aceitação, ditada geralmente por razões tácticas - o inimigo (Putin) do meu inimigo (Ocidente, Estados Unidos) é meu amigo - e à direita é mais devoção por razões ideológicas - pátria, autoridade e moral, que supõem inspiram o tirano, contra o que chamam o globalismo, a anarquia e a devassidão, que acreditam contaminam o Ocidente, ou a América para ser mais preciso, e inspiram os seus líderes fracos e corruptos. O que há de comum entre uns e outros? A recusa das liberdades, ou mesmo o ódio às liberdades, e em consequência a recusa da democracia liberal como regime político.

Num caso como noutro, para dar um módico de racionalidade e justificar a aceitação ou a devoção pelo tirano e pela tirania, é indispensável construir uma realidade paralela baseada em factos alternativos, isto é, distorções dos factos reais, na melhor hipótese, ou mentiras puras e duras, o mais das vezes. No caso da direita, em que há uma adesão mais emocional e autêntica, e por vezes uma identificação com o tirano e o seu culto pessoal, as teorias da conspiração têm um papel insubstituível.

Na esquerda portuguesa, o PCP é um bom exemplo de construção de uma realidade paralela baseada em factos alternativos. Para poupar no latim, remeto os leitores para o dossier «SOBRE A SITUAÇÃO NA UCRÂNIA - ELEMENTOS PARA A COMPREENSÃO» no site do PCP, seguido da leitura do artigo de opinião de Fernanda Câncio «Os "15 mil mortos no Donbass" e outros factoides do PCP» (sim, essa antiga amiga ou namorada do Eng. Sócrates, que assim resgata alguns dos seus maus passos com o animal feroz), artigo em que, a propósito de uma conversa no Twitter do ex-deputado do PCP Miguel Tiago, Câncio autopsia a versão comunista dos antecedentes e da génese da invasão da Ucrânia pelo exército russo.

(Continua) 

22/08/2021

A esquerdalhada nunca se engana no lado. Mais do que apreciar os talibãs, odeia os Estados Unidos, o Ocidente, a liberdade e a democracia liberal

«Ao longo da semana, formal ou informalmente, surgiram por aí inúmeras manifestações de relativização ou simpatia face aos talibãs. Do PCP ao BE, passando pelas zonas menos envergonhadas do PS actual, não se pouparam esforços para celebrar a derrota do “neoliberalismo” e a tomada de Cabul pelas forças “progressistas” (cito um candidato autárquico). E não, não estamos a falar de um daqueles movimentos patetas que prescrevem a virgindade antes do casamento. Trata-se dos talibãs, os bons e velhos talibãs das barbas e do surro, das castrações públicas e da escravização das mulheres, dos genocídios literais e simbólicos, que de resto já retomaram as tradições que os celebrizaram.        

Não há nada de novo. Se de um lado temos um psicopata a degolar infelizes e do lado oposto um infeliz degolado, os comunistas nunca se baralham na escolha. Lembram-se da última vez em que os comunistas hesitaram a decidir entre o totalitarismo e a democracia? Aconteceu há oitenta anos e apenas porque puderam opor-se a um regime assassino em prol de um regime assassino similar. Caso os nazis não tivessem violado o pacto germano-soviético, os comunistas negariam hoje o Holocausto com a ênfase com que negam o Holodomor, o Gulag e a bestialidade que calhar.»

Os talibãs de trazer por casa, Alberto Gonçalves no Observador

08/05/2021

De como a crítica de cinema de causas faz de uma house-less por escolha uma homeless por fatalidade


Nomadland, o filme de Chloé Zhao, uma cineasta chinesa expatriada nos EUA e excomungada no seu país, conta a história de um grupo de pessoas a quem a crise de 2008 mudou as suas vidas que escolheram vaguear pelos EUA, trabalhando em empregos ocasionais e encontrando-se regularmente. Citando a síntese do IMBD centrada na personagem principal: 

«Following the economic collapse of a company town in rural Nevada, Fern (Frances McDormand) packs her van and sets off on the road exploring a life outside of conventional society as a modern-day nomad.»

No Portugal dos Pequeninos, e noutros lados, a crítica de cinema de causas - um ramo da esquerdalhada com pretensões cinéfilas - escreveu sobre o filme como se este fosse um panfleto denunciando as misérias do capitalismo americano. O propósito é desde logo denunciado pelo título da tradução portuguesa a que foi acrescentado «Sobreviver na América». Por falar em misérias, a proverty line para um americano isolado é $12,760, o equivalente em termos nominais a 3/4 do ganho médio anual de um trabalhador português.

Na verdade, o filme tem mais a ver com a opção por uma vida errante e livre de pessoas como Fern, a personagem principal protagonizada por Frances McDormand, uma actriz que é boa no seu pior e excelente no seu melhor. Isso é evidente na resposta de Fern à pergunta da pequena Makenzie «My mom says that you're homeless, is that true?»: «No, I'm not homeless. I'm just house-less. Not the same thing, right?»

10/11/2020

SERVIÇO PÚBLICO: A direita e a esquerda europeias não gostam dos americanos (da direita ou da esquerda)

«Com algumas notáveis excepções, como Tocqueville, Einstein, Kazan, Hitchcock ou Kissinger, os europeus nunca gostaram da América. Ainda menos dos americanos, que odeiam ou desprezam com a mesma intensidade.

Grande parte da direita europeia é ciumenta, não gosta da meritocracia, não preza a liberdade, não tem especial afecto pela tolerância nem pelo igualitarismo e despreza aquilo que considera ser a vulgaridade americana. Essa mesma direita acha que os americanos são boçais, dominadores e ignorantes. Ao lado dos americanos plebeus e sem maneiras, a direita europeia considera-se aristocrática. Democratas ou não, europeus de várias direitas como De Gaulle, Franco e Salazar, detestavam os americanos.

A maior parte da esquerda europeia detesta a América e os americanos. Estes seriam imperialistas, arrogantes, sem sofisticação cultural, barulhentos, racistas e violentos. A maior parte da esquerda europeia detesta o liberalismo em geral, o americano em particular. A esquerda europeia considera-se sofisticada e culta, despreza o que acredita ser a rudeza americana, condena a brutalidade dos americanos e critica asperamente a alegada inclinação para a violência e a pornografia de metade da América e o fanatismo religioso e ignorante de outra metade.

Direita e esquerda europeias não gostam do dinheiro, do liberalismo, da eficácia e do individualismo americanos. Esquerda e direita europeias detestam o facto de terem sido ajudados, defendidos e libertados pelos americanos nas duas grandes guerras. Esquerda e direita europeias adoram e cultivam, em segredo, quase tudo o que condenam publicamente nos americanos.»

Excerto de América, América! , António Barreto

03/07/2020

Mitos (305) - O racismo, a mortalidade violenta e a violência policial são um problema nos EUA muito mais grave do que na maioria dos países

The killing of George Floyd has sparked global soul-searching
É claro que depende de quais os países com que se comparam os EUA, mas os factos mostram que só por má-fé se pode dizer que o racismo e a violência constituem um problema muito mais grave do que na maioria dos países. Outra coisa é a percepção do racismo e da violência que têm uma presença muito mais frequente e intensa no cinema e nos mídia americanos - e consequentemente no cinema visto e nos mídia de outros países - do que o racismo e a violência de origem nacional na maioria dos países.

31/05/2020

Mitos (304) - As falhas americanas no combate à pandemia são grandemente exageradas pelo jornalismo de causas

Quem lê a imprensa portuguesa é induzido a pensar que o combate à pandemia nos EUA está nas mãos de um louro louco a twitar sentado na Resolute Desk do Oval Office. É certo que há uma criatura loura que parece louca e consome o seu tempo a twitar, mas não está nas suas mão o combate à pandemia, como se pode confirmar pelo testemunho da portuguesa Rita Carreira que anda por lá há 25 anos. 

«Fico constantemente impressionada com a rapidez com que as coisas podem acontecer nos EUA. Iniciámos o lockdown em 16 de Março e em 25 de Março a lei CARES (Coronavirus Aid, Relief, and Economic Security) foi aprovada no Senado e dois dias depois foi assinada pelo presidente. Os subsídios começaram a ser pagos em Abril e hoje, 28 de Maio, a Federal Reserve de Chicago divulgou um documento de trabalho analisando a propensão marginal ao consumo de uma amostra de indivíduos que os receberam.

Podemos ver como o FED acompanha de perto a economia, sem dúvida essa velocidade foi influenciada pela recuperação longa e moderada da Grande Recessão e pela timidez do Congresso em gastar o suficiente em política fiscal para responder a esse desafio. Desta vez, o presidente do FED fez as suas rondas de relações públicas e aproveitou todas as oportunidades para encorajar o Congresso a não relaxar.

A Europa ainda está a debater o que fazer. A política monetária não é um obstáculo, mas os governos arrastam os pés e mostram completa falta de solidariedade. Cada país seguiu sua própria resposta à crise médica, mesmo que o fracasso em um país acabasse a influenciar outros países. Mesmo agora, não existe uma única entidade na UE dirigindo a resposta médica.

Estou um pouco enojada com a obsessão portuguesa de apontar as falhas dos EUA ao lidar com o Covid-19. Nova York tornou-se um ponto de foco porque a Itália era um ponto de foco: 75% dos casos nos EUA vieram da Itália e a maioria acabou em Nova York. E se somarmos todos os dados da União Europeia, isso envergonhará os EUA? Eu acho que não. Os europeus afirmam que seus cuidados de saúde são muito melhores do que os americanos e, no entanto, não apenas não conseguiram conter a pandemia em seus próprios países, mas também acabaram sendo a causa de grande parte do problema para os Estados Unidos.»

Alguns números actualizados até hoje:

              Infectados  Óbitos    Infectados(/1M) Mortos(/1M)  
EU/EEA & UK . 1.391.619 .. 164.236 ... 2.681.3 ...... 316,5
USA ......... 1.803.135 .. 104.910 ... 5.450,3 ...... 317,1

12/05/2020

NÓS VISTOS POR ELES: Os portugueses cumprem os padrões que exigem dos outros?

Expresso

Só faltou dizer que é por causa do Trump. Será assim? Podemos perguntar a Rita Carreira que vive e trabalha nos EUA há 25 anos. Eis o que ela nos conta da sua experiência:

«São muitos os portugueses que me perguntam se estou bem nos EUA. Eles falam comigo como se a minha vida estivesse em perigo. E hoje alguém me enviou um artigo do Expresso dizendo que pessoas de ascendência portuguesa estavam a ter problemas para conseguir ajuda nos EUA porque não sabiam falar inglês. Acho isso muito estranho porque quando marco uma consulta no médico, por exemplo, me perguntam em que idioma eu gostaria de comunicar. Hospitais e polícias têm uma rede de voluntários que podem falar línguas estrangeiras e ajudar em caso de emergência. Eu sei porque, quando eu morava em Stillwater, OK, eu era a intérprete voluntária de língua portuguesa.

Há menos de duas semanas, enquanto falava com uma amiga russa que mora em Houston, TX, ela reclamou comigo que, no centro comunitário que frequentava, eles tinham informações em espanhol. Ela achou que tudo deveria estar em inglês. Eu disse-lhe que os EUA não têm uma língua oficial; na verdade, se ela fosse para Chinatown, os nomes das ruas estariam em chinês. Se você for para East Providence, RI, há nomes de rua em português. Nos EUA, você pode passar sem falar inglês, se quiser. Muitas pessoas fazem isso.

Quando comecei meu emprego actual, uma das minhas colegas de trabalho era brasileira e ela estava a passar alguns meses nos EUA para se familiarizar com o negócio americano. A nossa empresa contratou alguém, uma pessoa americana, para a conduzir e levá-la a lugares como o banco para ela abrir uma conta, o escritório de Segurança Social, etc., ainda que ela falasse um inglês perfeito. Sim, há pessoas aqui que ganham a vida honestamente ajudando os outros a navegar na burocracia.

Mesmo quando eu vim para os EUA como uma estudante de intercâmbio, quase 25 anos atrás, um dos assistentes do Study Abroad Office levou-me ao campus para arranjar um quarto numa residência, comprar um plano de refeições, inscrever-me para as aulas, abrir uma conta de estudante, inscrever-me para fazer o TOEFL (exame de proficiência em língua inglesa), etc. Nessa altura, no meu dormitório, havia estudantes voluntários que nos acompanhavam pelo campus para nos mostrar onde estavam nossas aulas. É assim que a América funciona. Há muitas pessoas dispostas a ajudar os outros e o sistema é baseado em pessoas que se ajudam umas às outras.

Mas vamos virar a mesa e ver se os portugueses cumprem os padrões que exigem dos outros. É prática comum em Portugal facilitar a vida de ucranianos ou alemães, por exemplo? Hospitais e escritórios do governo oferecem acesso a tradutores e intérpretes? E como se está a sair a comunidade de expatriados em Portugal com esta pandemia?»

Esclarecimento a esta pergunta: a Rita Carreira (que não conheço) escreve em português e inglês. Ao contrário da maioria dos posts em português, o post que citei está redigido em inglês que traduzi usando a tradução automática "brasileira" da Microsoft que não está propriamente formatada para as especificidades do português falado pelos 4% de falantes portugueses que residem neste país. Fiz algumas ligeiras adaptações sem me esforçar muito porque acho que é igual ao litro. O que verdadeiramente importa é mostrar que estão erradas duas ideias generalizadas no Portugal dos Pequeninos: uma sobre os EUA e outra sobre o direito divino que julgamos ter a que os outros nos tragam ao colo, dispensando-nos de dar corda aos sapatos e fazer pela vida.

16/04/2020

Dúvidas (299) - Como conseguem sem um Trump?

worldometer (às 14:30)
É uma pergunta estúpida? Talvez seja. É uma pergunta pertinente aos jornalistas de causas que fazem títulos e artigos a anunciar o Great American Disaster.

10/01/2020

ARTIGO DEFUNTO: Todas as causas são boas para o jornalismo de causas lusitano exorcizar os seus ódios de estimação


Qualquer notícia nos mídia portugueses (e noutros, mas trato agora dos portugueses) que envolva os Estados Unidos é objecto de uma distorção raramente subtil e frequentemente grosseira. Sobretudo nos períodos em que os Estados Unidos são presididos por alguém que a esquerda residente nas redacções não gosta e, por via de regra, a esquerda não gosta dos presidentes republicanos e apenas tolera os presidentes democratas. Barack Obama é um caso especial porque a sua negritude bloqueou as meninges dos jornalistas de causas.

Um exemplo recente desse tratamento é o caso da execução de Qassem Soleimani, o comandante da Força Quds da Guarda Revolucionária iraniana, e das suas sequelas. Quanto à execução, os mídia portugueses adoptaram na generalidade uma abordagem próxima da propaganda dos aiatolás, só por vergonha não lhe chamaram mártir (o semanário de reverência até usou a expressão) e poucos cuidaram de saber do currículo de Soleimani como líder responsável de assassinatos em massa.

Quanto à retaliação do Irão, quase todos a justificaram e glorificaram, caindo no ridículo de não perceberem que os aiatolás escolheram com pinças alvos inócuos e imediatamente após os ataques com mísseis anunciaram que não pretendiam escalar. Além disso, sabe-se agora pelo New York Times, um dos jornais que mais encarniçadamente escrutina Trump (escrutinar é um understatement, o verbo adequado seria combater) que o ataque do Irão com mísseis foi conhecido da administração americana com três horas de antecedência, tudo apontando para uma deliberada fuga dos serviços secretos iranianos para dar tempo aos americanos se protegerem.

Percebeu-se claramente que a retaliação era para consumo interno tentando salvar a face do despotismo clerical e que as alegadas mortes de 80 "terroristas" americanos não passavam de bazófia. Contudo, o jornalismo de causas atribuiu à versão dos aiatolás ao mesma credibilidade do que a de Trump que negou ter havido vítimas. Estupidamente, visto qualquer pessoa com um resíduo de lucidez percebe que enquanto os aiatolás podem contar as estórias mais mirabolantes que serão repercutidas pela imprensa iraniana, Trump seria devorado pela generalidade dos mídia americanos se a sua estória estivesse mal contada.

Na sua ânsia de vilipendiar Trump, o jornalismo doméstico de causas passou ao lado do seu erro estratégico ao aprovar a execução de uma peça importante mas secundária no jogo com o Irão, inviabilizando a aproximação Arábia Saudita-Israel e dando aos aiatolás, apertados pelo descontentamento popular, um mártir para entreter o povo iraniano.

OBSERVAÇÃO:
Reparo agora que os últimos quatro post são sobre o enviesamento dos mídia portugueses. Não deve ser por acaso, pois não?

06/06/2019

DIÁRIO DE BORDO: Dia D - O princípio do fim do III Reich e talvez a última vez que os ianques salvaram a Óropa de si própria

Há 70 anos as forças aliadas (tradução americanos e ingleses e alguns canadianos, australianos et al.) desembarcaram em Omaha Beach para salvar a Europa de si própria (fonte: WSJ)
De vez em quando, perguntam-nos porque escrevemos Óropa em vez de Europa. Nunca explicámos até hoje, que é uma data importante para a Óropa e para os Estados Unidos de quem o Dr. Soares foi amigo quando precisou por estar cercado no PREC pelos comunistas. Óropa é uma homenagem ao falecido Dr. Soares porque era assim que ele dizia com a sua pronúncia peculiar.

30/05/2017

DIÁRIO DE BORDO: Consequências talvez indesejadas

Desapontada com o desapego de Trump pelo artigo 5.º do tratado da NATO (*) e a pressão para que todos os sócios do clube paguem a sua parte na festa, Angela Markel disse no domingo num comício em Munique que «estão a ficar para trás os tempos em que podíamos contar com outros».

Haverá quem tenha concluído dessas palavras que a Óropa iria tomar conta de si e disfarce mal o regozijo por pensar ver-se livre do abraço do urso do outro lado do Atlântico. Quem assim pensa, deverá pensar outra vez, por várias razões que a história ilustra, para além da óbvia (Trump é apenas o 45.º presidente americano e até pode vir a ser impugnado): (1) o abraço do urso do outro lado dos Urais é muito mais sufocante; (2) numa Europa amante da paz entregue a si própria e sofrendo das fantasias do softpower a «questão alemã» voltará à agenda e (3) last but not least para quem já está empenhado, a festa não é barata,

 Artigo 5
As Partes concordam em que um ataque armado contra uma ou várias delas na Europa ou na América do Norte será considerado um ataque a todas, e, consequentemente, concordam em que, se um tal ataque armado se verificar, cada uma, no exercício do direito de legítima defesa, individual ou colectiva, reconhecido pelo artigo 51.° da Carta dias Nações Unidas, prestará assistência à Parte ou Partes assim atacadas, praticando sem demora, individualmente e de acordo com as restantes Partes, a acção que considerar necessária, inclusive o emprego da força armada, para restaurar e garantir a segurança na região do Atlântico Norte.

16/12/2016

Curtas e grossas (42) - O azar e o providencialismo invertido

«Talvez as crianças, as mulheres e os homens de Aleppo tenham apenas tido azar: o azar de estarem a ser bombardeados pela ditadura de Assad com a ajuda da Rússia de Putin, em vez de serem atacados, por exemplo, por Israel com o apoio dos EUA. Se fosse este o caso, não faltariam moções, votos, marchas. Mas não se trata apenas daquela velha duplicidade de critério que, desta vez, até um autor do radicalismo reconheceu.

(...)

E numa espécie de providencialismo invertido, muitos ocidentais estiveram convencidos de que o célebre “imperialismo americano” era o único obstáculo à paz e à harmonia no planeta: sem os EUA, não haveria na terra nem ditaduras, nem guerras, nem, a acreditar no falecido Hugo Chávez, terramotos.»

«O mundo que está a nascer em Aleppo», Rui Ramos no Observador

07/11/2014

SERVIÇO PÚBLICO: As armas químicas inexistentes de Sadham afinal sempre existiam? (2)

Recapitulando: há vários mitos relacionados com a segunda intervenção no Iraque da coligação liderada pelos Estados Unidos. O ano passado tratámos do mito das 120 mil mortes causadas pela intervenção que afinal serão menos de 14 mil e admitimos a «ficção de inexistentes armas de destruição maciça» para justificar a intervenção.

Entretanto, a ficção foi posta em dúvida, pelo menos quanto às armas químicas, porque foram encontradas abundantes provas da sua existência, segundo as conclusões do New York Times o mês passado (ver artigo The Secret Casualties of Iraq’s Abandoned Chemical Weapons).

Entretanto, o Pentágono confirmou agora que desde 2003 mais de 600 soldados americanos tiveram uma exposição a armas químicas (ver artigo More Than 600 Reported Chemical Exposure in Iraq, Pentagon Acknowledges do NYT) . Contudo, essas armas eram dos anos 80, estavam inactivas e em degradação. De onde se pode concluir que o móbil próximo da intervenção no Iraque continua com pouca sustentação e as armas químicas existentes seriam sobretudo perigosas para o exército de Sadham.

16/10/2014

SERVIÇO PÚBLICO: As armas químicas inexistentes de Sadham afinal sempre existiam

Há vários mitos relacionados com a segunda intervenção no Iraque da coligação liderada pelos Estados Unidos. O ano passado tratámos do mito das 120 mil mortes causadas pela intervenção que afinal serão menos de 14 mil.

Nesse mesmo post, admitimos a «ficção de inexistentes armas de destruição maciça» para justificar a intervenção. Pois bem, afinal a ficção é um mito e, pelo menos quanto às armas químicas, foram encontradas abundantes provas da sua existência, segundo as conclusões do New York Times assim sumarizadas na sua newsletter sobre o tema:

«From 2004 to 2011, American and American-trained Iraqi troops repeatedly encountered, and on at least six occasions were wounded by, chemical weapons remaining from years earlier in Saddam Hussein’s rule, an investigation by The New York Times has found.

The American government withheld word about the chemical weapons from both the troops it sent into harm’s way and from military doctors.

The United States had gone to war with Iraq declaring that it had to destroy an active weapons of mass destruction program, but instead, American troops found the remnants of long-abandoned programs built in close collaboration with the West — often in territory that is now controlled by the Islamic State.»

The Secret Casualties of Iraq’s Abandoned Chemical Weapons, um bem documentado artigo de C. J. Chivers, no NYT

Fonte: C. J. Chivers, no NYT (ver link acima)

24/03/2013

Mitos (104) – As vítimas da intervenção no Iraque

A semana passada, a propósito do décimo aniversário da intervenção da coligação liderada pelos EU no Iraque, a imprensa portuguesa divulgou o número de mortes de iraquianos estimado em 120 mil pelo Iraq Body Count. Entre outros, os seguintes jornais trataram o assunto: Expresso, Público, Diário de Notícias, Sábado.

Para sermos rigorosos, devemos considerar serem menos de 14 mil as mortes devidas às acções directas da guerra - as verificadas no 1.º ano da intervenção. Os restantes 90% são mortes causadas pelos conflitos políticos e religiosos internos, nomeadamente resultantes das rivalidades chitas-sunitas.

Contudo, se queremos considerar todas aquelas 120 mil mortes como provocadas pela intervenção, teremos que considerar igualmente que nos 23 anos anteriores a brutalidade do regime de Sadam Hussein, apeado por essa intervenção, foi responsável por 500 mil mortes só do lado iraquiano na guerra de 8 anos Iraque-Irão, a ocupação e libertação do Kuwait causou cerca de 100 mil mortes e o gulag iraquiano montado pelo regime pode ter atingido cerca de 200 mil (estimativas do prémio Pulitzer John Burns, publicadas no NYT antes da intervenção). A ser assim, a intervenção no Iraque teria causado uma média de 12 mil mortes por ano contra uma média de 35 mil nos 23 anos anteriores.

Evidentemente esta contabilidade mórbida não pode justificar a posteriori uma intervenção militar cujo móbil foi baseado na ficção de inexistentes armas de destruição maciça. Mas, querendo-se ir por aí, como o anti-americanismo disfarçado de anti-bushismo gosta de ir, terão que contar-se as vidas poupadas pelo fim de um regime por quem esse anti-americanismo sempre nutriu mal disfarçadas simpatias.