Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

06/08/2026

BELIEVE IT OR NOT! The Trump Administration admitted that it had withheld federal money in retaliation against its political rivals

«In a court filing earlier this month, a government lawyer did something radical: He laid out the truth in plain English.

The surprise was not just the honesty from a chronically dishonest administration but also the substance: The Trump administration admitted that it had withheld federal money in retaliation against its political rivals. The disclosure, first reported by The New York Times on Friday, is part of a lawsuit from a group of researchers in California whose grants were canceled. In lieu of turning over documents to the plaintiffs in discovery, an Energy Department attorney acknowledged in a filing that decisions about which grants might be terminated had been “based solely” on a goal of political retribution. “With one exception, the 284 terminated grants had a recipient location and/or at least one place of performance in a state that awarded its electoral votes to Kamala Harris in the 2024 election and has two Democratic-caucusing Senators (‘Blue State’ grants),” the filing stated, contradicting previous public statements by officials.

04/08/2026

Crónica da passagem de um governo (61b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 61a)

Insanidade é fazer a mesma coisa repetidamente e esperar resultados diferentes (1) - Aumentando a procura e reduzindo a oferta

No segundo trimestre, a utilização da garantia do Crédito Jovem voltou a acelerar e atingiu 56% da verba prevista, tendo financiado a compra de 40 mil casas desde o lançamento do programa em 2025, e representando cerca de um terço do crédito à habitação (fonte). Entretanto, o crédito para construção continuou a desacelerar nos últimos meses.

Insanidade é fazer a mesma coisa repetidamente e esperar resultados diferentes (2) - Os prejuízos são normais o que é extraordinário são os lucros

A tributação dos “lucros extraordinários das petrolíferas, que rendeu 8 milhões de euros em 2023 ao Dr. Costa, ou seja, menos de um quinto da receita prevista, tributação que o Dr. Montenegro classificou em 2022 como demagógica quando estava na oposição, foi aprovada pelo governo na passada quinta-feira sob a forma de uma taxa extraordinária de 33% sobre o excedente superior a 20% da média dos lucros de 2024 e 2025.

O governo devia entregar ao Dr. Neves a construção do novo hospital de Lisboa…

O novo hospital de Lisboa anda por aí há 23 anos e o Dr. Neves mostrou uma notável iniciativa ao despachar os 200 bidons de solventes encalhados no parque da PJ mandados destruir pelo MP, poupando assim os custos dessa operação e dando ao Sr. Carvalho, o empreiteiro amigo, a possibilidade de realizar uns dinheiros com o material, retribuindo a construção do tanque-piscina e de outras benfeitorias no seu monte alentejano.

É claro que tudo isto é censurável e inadmissível no passado de um ministro de um Estado decente. Acontece, porém, que talvez o Estado sucial do Portugal dos Pequeninos não seja um Estado decente e, se for assim, tudo isto é ridículo. É sobretudo ridículo num país em que a chico-esperteza é uma qualidade muito apreciada («fiz no interior desta propriedade o que milhões de portugueses fazem legalmente todos os dias nas suas casas», desculpa-se o ministro), tanto quanto é cultivada a hipocrisia da indignação postiça a clamar a cabeça do homem.

… e usar o exemplo do Dr. Neves para calar o Tribunal de Contas

O Dr. Matias, ministro da Reforma, nos intervalos da promoção do país como um potencial «líder mundial na IA», que tem feito campanha para retirar ao Tribunal de Contas o seu papel de empata nas decisões públicas, com grande protesto e indignação deste, tem agora à sua disposição o argumento definitivo. O TdC considerou conforme um contrato da PJ com a empresa do amigo empreiteiro do Dr. Neves (fonte).

AI Fast Track”. «O homem sonha, a obra nasce»

O mesmo Dr. Matias, agora que a liderança mundial na IA já está a caminho, prepara mais uma iniciativa grávida de trendy buzzwords com «um protocolo com entidades de referência do ecossistema, com vista a permitir uma operacionalização célere e eficaz … para atrair investigadores e profissionais altamente qualificados em áreas de IA críticas».

A ficção do Investimento Directo Estrangeiro (IDE)

Na retórica oficial, o IDE é a chave para o crescimento rápido de uma economia descapitalizada como a portuguesa. No mundo real, quase metade (46%) do IDE em 2025 é constituído por imobiliário vendido pelos seus proprietários portugueses que trocam activos imobiliários por liquidez ou por activos financeiros dos quais uma parte significativa irá desaguar no consumo.

O que ele não garante é fazer mais com o mesmo ou fazer o mesmo com menos
 
O INEM, pela boca do seu presidente, desmente que serão suprimidas 100 ambulâncias e garante que «não haverá redução de meios ou da capacidade de resposta». Só não garante a redução do «número de passos intermédios existentes em toda a cadeia. A chamada passa pelo 112, segue para o CODU, depois para as centrais dos bombeiros e destas para as equipas, até que possam iniciar a marcha para o local», redução que provavelmente permitiria fazer mais com o mesmo ou fazer o mesmo com menos.

03/08/2026

Crónica da passagem de um governo (61a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Caos é o que a comentadoria e o jornalismo de causas quiserem

Caos é, por exemplo, dos 290 mil exames ainda haver 170 exames sem classificação ou 15 mil pedidos de reapreciação muito incentivada pelos sindicatos.

Mais um prego para o caixão do Dr. Fernando Alexandre

A partir do próximo ano lectivo, a proibição do uso de ‘smartphones’ nas escolas será alargada até ao 9.º ano, medida que, entre outros efeitos, se espera que melhore o aproveitamento escolar e a socialização nas escolas. Se da maior socialização resultar um aumento do bullying, lá teremos o Dr. Alexandre a ser acusado de promover o caos nas escolas, depois de ter sido acusado de censurar a promoção da identidade de género no programa de Cidadania e Desenvolvimento.

A «hecatombe social» do Dr. Dominguinhos

Perante a proximidade do fim do PRR e o atraso para aplicar os respectivos dinheiros da bazuca, o Dr. Dominguinhos, presidente da respectiva Comissão Nacional de Acompanhamento, alerta que «se a consequência for a devolução do dinheiro vamos ter uma hecatombe social», hecatombe que desde S. Bento até ao Edifício Berlaymont toda a gente teme tanto como os beneficiários, pelo que, com toda a probabilidade, serão feitos os “ajustes” indispensáveis para isso não acontecer, como por exemplo considerar como executados para efeitos de financiamento uma percentagem de conclusão abaixo dos actuais 90% (qual, logo se vê).

Apesar dos “ajustes”, à cautela, o ministro da Economia garante que «nenhum euro do PRR será devolvido a Bruxelas».

Afinal, a bazuca serviu para alguma coisa…

Pelo menos serviu para contratar um número de funcionários a acrescentar aos 767 mil, que ninguém sabe ao certo qual seja, e que poderá andar pelos 1.295 autorizados por um despacho em 2021, e que agora «o fim do PRR ameaça deixar desempregados trabalhadores que o Estado contratou», lamenta, compungido, o semanário de reverência.

Canários na mina de carvão

mais liberdade

Segundo as projeções da CE, Portugal será um dos países mais impactados pela mudança radical da política orçamental devido ao fim do PRR e à dependência da economia portuguesa dos fundos europeus. Em 2027, Portugal deverá passar para uma política orçamental restritiva, registando um dos maiores arrefecimentos orçamentais da Zona Euro, apenas superado pela Bulgária e Grécia.

Take Another Plan. Como transformar 3.340 milhões de euros em menos de 2.000 milhões

Segundo uma avaliação financeira encomendada pelo jornal ECO, a TAP poderá valer entre 1.948 e 2.073 milhões de euros, depois lá terem sido enterrados 3.340 milhões de euros de ajudas com o dinheiro dos contribuintes.
 
(Continua)

02/08/2026

CASE STUDY: Perceberam mal. O que falta não são diplomas, é know-how. Now, how?

A valorização do canudo é um caso particular da valorização dos títulos que domina há séculos a cultura, isto é, o conjunto de valores, de crenças, de normas, de costumes, de conhecimentos e de símbolos, do Portugal dos Pequeninos. Daí a atribuir-se ao canudo propriedades mágicas na atribuição de estatuto social vai um pequeno passo, e daqui a imaginar-se que o "atraso" resulta da escassez de canudos vai outro passo mais pequeno, que os governos socialistas (do PS e do PS-D), com destaque para o programa «Novas Oportunidades», criado pelo governo do Sr. Eng. José Sócrates, que foi uma espécie de fábrica de diplomas que dariam acesso a 143 cursos profissionais, de aprendizagem e de ensino artístico especializado que o governo ofereceu aos candidatos que terminassem a equivalência ao 9.º ano de escolaridade que o programa atribuiu.

O resultado foi, em matéria de diplomas, a redução do nosso desalinhamento em relação à UE: dos 25 aos 29 anos, apenas 13,5% possuem escolaridade inferior ao ensino secundário e 44,4% concluíram o ensino superior. Não obstante, a escolaridade entre os empregadores é verdadeiramente um desastre, com mais de 40% só com o ensino básico, e isso é uma parte da explicação da baixa produtividade do trabalho.

O problema real não é a falta de diplomas, é a falta de competências, o saber como fazer.


O gráfico acima, extraído do trabalho de Óscar Afonso «Portugal tem mais diplomas, mas falta capital humano», publicado há dias, coloca-nos em 34.º lugar na proficiência média (*) em numeracia e literacia dos 38 países da OCDE.

Perante este handicap o que fazem as nossas elites merdosas? Autoelogiam-se dentro da respectiva bolha, dão graxa à plebe e exaltam as exageradas, e muitas vezes imaginadas, realizações do Portugal dos Pequeninos, que é outra maneira de se autoelogiarem.

_______________

(*) «A proficiência dos adultos em resolução adaptativa de problemas é avaliada através do PIAAC, um programa internacional da OCDE que mede a proficiência dos adultos em competências-chave de processamento de informação. A resolução adaptativa de problemas envolve a capacidade de atingir objetivos em situações dinâmicas, onde uma solução não está imediatamente disponível.»

31/07/2026

TIROU-ME AS PALAVRAS DE BOCA: O Portugal dos Pequeninos é «um Estado corporativista, com traços claros de capitalismo de compadrio» (andamos a dizer isso aqui há 23 anos e noutros sítios há mais tempo)

Portugal está preso num sistema de compadrio, com justiça lenta, reguladores capturados e um Estado que falha aos cidadãos, é, «em larga medida, um Estado corporativista, com traços claros de capitalismo de compadrio», onde a proximidade entre poder político e grandes grupos económicos continua a condicionar a concorrência, a produtividade e o crescimento económico.

James A. Robinson, Prémio Nobel da Economia em 2024, co-autor com Daron Acemoglu de «Porque Falham as Nações».

30/07/2026

Dúvidas (369) - O assalto ao gabinete do Dr. Ventura e as trapalhadas do Dr. Neves, serão uma espécie de Reichstagsbrand e de Untermensch no Portugal dos Pequeninos?

O grau zero da democracia em Lisboa 2026 e em Berlim 1933

«Assim está o meu Gabinete esta manhã na Assembleia da República. Alguém estava à procura de alguma coisa e não se coibiu de agir dentro do próprio Parlamento. Não sei ainda se foi roubado algum documento ou não, mas atingimos o grau zero da nossa democracia. (...) desapareceram dois lotes de documentos e duas 'pens' com informação relativa a dois assuntos diferentes». Um dos lotes de documentos estava guardado «numa das pastas que estavam em cima da primeira mesa e referia-se à Comissão Parlamentar de Inquérito ao ministro da Administração Interna». (fonte)

29/07/2026

SERVIÇO PÚBLCO: Os Sete Saberes para a Educação do Futuro, de Edgar Morin

Edgar Morin (1924-2026)

  1. O erro e a ilusão: o conhecimento não é um espelho fiel da realidade; a mente humana pode falhar e ser enganada pelas nossas ideias e sentidos.
  2. O conhecimento pertinente: para que uma informação seja útil, ela precisa estar ligada ao seu contexto, unindo as partes ao todo e o todo às partes.
  3. A condição humana: precisamos lembrar quem somos nós, seres ao mesmo tempo físicos, biológicos, psíquicos, culturais, sociais e históricos.
  4. A identidade terrena: todos os humanos partilham o mesmo destino no planeta Terra, que hoje está ligado e globalizado.
  5. Enfrentar as incertezas: o futuro é incerto; a educação deve ensinar a navegar pelas surpresas e mudanças sem buscar apenas regras fixas.
  6. A compreensão: aprender a entender os outros, superando o ódio e as barreiras entre pessoas de culturas diferentes.
  7. A ética do género humano: a responsabilidade de cuidar da humanidade, unindo a nossa liberdade com o respeito pela comunidade global.
Era para ser um R.I.P. há dois meses, quando morreu Morin, e ficou na gaveta até que me ocorreu em plena campanha de agitprop e vacuidades a pretexto da bagunça da digitalização e da incapacidade de pensar e agir nas matérias do que haveria de ser um elevador social e uma alavanca para desenvolver o Portugal dos cada vez mais Pequeninos e é um sistema de criação de empregos e um campo de batalhas político-doutrinárias.

You can't fool all of the people all the time (16) - Oklahoma withdrew and joined the remaining 45 states.

Other "You can't fool all of the people all the time."

28/07/2026

Crónica da passagem de um governo (60b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 60a)

«Empresa Financeiramente Apoiada Continuamente (pelo) Estado Central». Até ao lavar dos cestos ainda é vindima

Em Julho de 2020, depois do governo do Dr. Costa pela mão do Dr. Caldeira Cabral ter feito o favor de comprar a EFACEC à Dr.ª Isabel dos Santos, o Dr. Siza Vieira começou a tentar vendê-la anunciando todos os meses que a venda iria ter lugar e lá torrando mais uns milhões e mais garantias. Cinco anos depois, o Tribunal de Contas estimou que a festa iria ficar por 564 milhões, dos quais seriam recuperáveis uns 400 milhões. Isso foi antes da Mutares – a empresa alemã que comprou a EFACEC - ter exigido à Parpública o pagamento de responsabilidades financeiras no âmbito do mecanismo de compensação que podem atingir até 80 milhões de euros.

Se o Estado “lucrasse com a guerra” seria a única actividade lucrativa do Estado

O líder socialista Dr. Carneiro teve uma epifania e, a propósito do aumento dos preços dos combustíveis, acusou o Governo de «lucrar com os sacrifícios dos portugueses», no que foi prontamente desmentido pelo Dr. Leitão Amaro, que garantiu que «o Estado não lucra com a guerra». Com discussões desta elevação, ficámos a saber que governo e oposição estão atentos à opinião pública devidamente galvanizada pelas incontáveis páginas de jornais e dezenas de minutos dos telejornais dedicados a este tormentoso assunto.

Não. O Estado não falhou. O Estado fez o que costuma fazer

O ministro da Educação admitiu que o “Estado falhou na digitalização das avaliações para explicar por que muita coisa correu mal num processo em que a única coisa que correu bem foi o agitprop dos poderes fácticos instalados, apoiado pela comentadoria e multiplicado pelo jornalismo de causas para aproveitar o que correu mal para tentar correr com um ministro que meteu o pau no vespeiro com algumas medidas. Por exemplo, flexibilizou o processo de contratação dos profs pelas escolas, simplificou a substituição de profs, mobilizou profs aposentados e fora da profissão, reduziu a burocracia, digitalizou processos, concentrou funções administrativas, aumentou a autonomia das escolas, proibiu os telemóveis nos primeiros ciclos; reduziu a carga ideológica do programa de Cidadania e Desenvolvimento, alterou o RJIES do ensino universitário que obrigará as universidades e  a reverem os seus estatutos, mexeu na investigação fundindo a FCT e a ANI na AI2 com uma gestão mais empresarial e independente.

É sempre possível ficar pior do que está

mais liberdade

As trapalhadas do Dr. Luís Neves e as teorias da conspiração

A inegável gravidade das acções agora expostas do Dr. Neves quando pousado na Judite só é claramente ultrapassada pelo ridículo da pequenez das trafulhices e não é preciso comparar com a multiplicação do património de Donald Trump desde que tomou posse, basta comparar com a multiplicação do património do Sr. Eng. Sócrates. É por essa e por muitas outras que o nosso torrãozinho natal também é conhecido por "Portugal dos Pequeninos".

«Pagar a dívida é ideia de criança»?

Banco de Portugal

O endividamento total da economia (Estado, empresas não financeiras e famílias) continuou a crescer muito acima do PIB nominal e aumentou 6,4 mil milhões em Maio, dos quais 2,9 mil milhões do sector público. Vem a propósito registar que, no primeiro trimestre, dívida pública da UE aumentou para 82,9% do PIB e Portugal está muito bem classificado no quinto lugar com 91%.

27/07/2026

Crónica da passagem de um governo (60a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
A bazuca de pólvora seca. Desta vez também não foi diferente

Para quem tivesse dúvidas, o PRR - a bazuca do Dr. Costa - , que até agora despejou mais de 13 mil milhões, vinha condicionada à adopção de centenas de medidas e reformazitas, teve o destino que tiveram grande parte dos donativos que os contribuintes europeus (nomeadamente os alemães) nos têm vindo a conceder com os resultados conhecidos que, para simplificar, se reduzem em grande parte a projectos inviáveis que o dinheiro grátis tornou viáveis e a  alimentar o consumo de bens duradouros (*). Quanto às centenas de medidas e reformazitas (que deram origem a seis “reprogramações”) foram sendo “ajeitadas”: 112 das 117 investimentos previstos há três anos forem modificados e só 28 das 44 reformas não foram alteradas.

(*) Vem a propósito lembrar que as vendas de veículos ligeiros no 1.º semestre aumentaram 10,5%, o dobro do aumento na UE (recorde-se que a taxa de motorização no Portugal dos Pequeninos já está acima da média da UE). Sendo certo que correlação não é causação, pedi a um chatbot estimativas do coeficiente de Pearson (uma medida estatística para medir o grau de relação linear entre duas variáveis) entre os valores anuais da entrada de fundos europeus nos últimos 30 anos e o volume anual de vendas de veículos ligeiros em Portugal (com um atraso de 1-2 anos) que estimou valores no intervalo 0,65-0,80 o que se considera uma correlação moderada-forte.

O que começa mal é difícil acabar bem

O SIRESP é um zingarelho que suporta o sistema de comunicações de segurança e emergência (o mesmo que falhou rotundamente nos incêndios de 2017), gerido por uma empresa pública com o mesmo nome, criada pelo Dr. Costa como MAI, com a ajuda do seu amigo Dr. Lacerda Machado, que custou até agora mais de 700 milhões de euros. Actualmente, a NOS fornece o suporte de comunicações utilizado pelo SIRESP. Foi responsabilizada pelas suas falhas no ano passado, e o seu presidente lava as mãos do assunto, explicando que não teve qualquer intervenção no desenho do sistema, que tem inúmeras deficiências e limitações de cobertura e deveria ser suportado pelas redes comerciais existentes, como acontece em muitos países.

É preciso ser muito saudável para resistir a tanta doença (continuação)

Segundo o Relatório sobre Emprego e Formação, no ano passado o número de baixas por doença dos 5,3 milhões de empregados em Portugal aumentou 8,4% para quase 1,6 milhões, das quais se estima em meio milhão as “autobaixas” em que o trabalhador se declara incapaz para trabalhar. Se imagina que a maioria dessas baixas foi dos velhotes, imaginou mal – metade dessas baixas foi de jovens entre os 25 e 39 anos, os quais, contudo, representam apenas cerca de 30% do total.

O Dr. Ventura hesita entre o Estado Novo e o Estado Socialista

Copiando Andy Burnham, novo primeiro-ministro e o líder do Partido Trabalhista mais esquerdista desde o trotskista Jeremy Corbyn, o Chega anunciou que vai propor ao parlamento a eliminação do IVA sobre a eletricidade a partir de 2027. Nem Burnham nem o Dr. Ventura explicaram onde vão espremer os contribuintes para compensar a receita fiscal perdida (umas centenas de milhões de euros no caso do Dr. Ventura).

(Continua)

25/07/2026

JD Vance, Trump's running mate, the righteous hypocrate, from Never Trump to Ever Trump and beyond (4)

Sequel to (1), (2), (3)

«Why is a smart man spending so much time saying stupid things? The simplest explanation is that Vance believes his voters are stupid. Or as Vance himself told Rogan last week: “There’s a real populism that I’m very much a fan of because I think you should be responsive to people, but there’s, like, a faux populism of: The way that I’m going to appeal to people is by assuming that they’re idiots and acting like they’re idiots.”

This is admission by analysis. All politicians pander, but the best of them do it with some finesse. Vance, who struggles through the most basic photo ops, is not one of the best; his two successful elections are both testaments to Trump’s political muscle. In 2022, when he was a U.S. Senate candidate, I included Vance in a round-up of very intelligent Republicans who were clumsily pretending to be fools for electoral purposes. Vance seems to have doubled down on the strategy since then, but each new incident just offers more evidence of his dripping disdain for voters’ intelligence.

This may not be the wisest political strategy, H. L. Mencken notwithstanding. Vance’s approval ratings have been underwater for more than a year, and the Never Trump pollster Sarah Longwell recently conducted a focus group with Trump voters and found that Vance has left them cold. Either way, Vance’s performance plays as tragicomedy: comic because he’s so bad at it, but tragic because of who Vance was not that long ago. Much has been made of his critique of Trump in his 2016 Atlantic essay, and although his flip-flop on the president is astonishing, he has also reversed himself on a more fundamental view of politics.

In that essay, he criticized the demagogic tendency to condescend to people in so-called flyover country, where he grew up—to view them as yokels who could be easily manipulated with simplistic talking points and grievance plays. The harms that Trump identified, Vance wrote, “demand serious thought and measured action—from governments, yes, but also from community leaders and individuals.” Trump, he argued, was cynically co-opting those harms for his own gain and doing Americans a disservice. That Vance was right; this Vance doesn’t seem to care.»

J. D. Vance Isn’t a Fool. Why Does He Act Like One?, David A. Graham, The Atlantic

24/07/2026

Cada macaco no seu galho

Enviaram-me o meme aqui ao lado, ironizando as dificuldades de expressão de Jorge Jesus, novo seleccionador nacional e contrastando o seu conhecido défice de verbo com um salário várias vezes superior ao do Dr. Montenegro, a quem sobeja o verbo.

Achei o meme irritante por a piada se fundar em vários equívocos e preconceitos muito frequentes entre a intelectualidade merdosa do nosso Portugal dos Pequeninos que considera o futebol uma actividade imprópria de gente com status e vê os seus profissionais, geralmente gente pouco ilustrada, provenientes de uma casta inferior, ignorando serem os poucos profissionais cujo desempenho se faz em muitos casos num mercado internacional aberto e competitivo, com muito maior frequência do que qualquer outra profissão.

A piada só teria graça se Jorge Jesus fosse pago para fazer discursos, como muitos políticos cuja actividade se reduz a isso. Por exemplo, como o Dr. António Costa que disse de uma só vez uma pletora de alarvidades, como  “poder-lhe-dizia” (“podia dizer-lhe”), “competividade” (“competitividade”), “era o que eu estou” (“era o que eu estava”), “pulação” (“população”),  “protividade” (“produtividade”), “mobilição” (“mobilização”), “precalidade” (“precaridade”) (Cfr aqui). 

Diferentemente, Jorge Jesus é pago para conseguir resultados como os alcançados em vários clubes de Portugal, Brasil, Turquia e Arábia Saudita: Benfica (10 títulos), Al-Hilal (6 títulos), Flamengo (5 títulos), Sporting CP (2 títulos), Al-Nassr (1 título), Fenerbahçe (1 título).

23/07/2026

TIROU-ME AS PALAVRAS DE BOCA: O Portugal dos Pequeninos e o neoliberalismo que é afinal a economia de compadrio

«Há uma fraude intelectual no centro do debate político português, e é esta: a ideia de que Portugal é, ou alguma vez foi, uma economia liberal entregue à selva dos mercados. Sempre que algo corre mal — os salários baixos, a emigração, a habitação, a pobreza — a culpa é atribuída ao “neoliberalismo”, ao “mercado”, ao “capitalismo selvagem”. É uma mentira, e das mais consequentes que contamos a nós próprios, porque o diagnóstico errado garante o tratamento errado. O doente não morre de excesso de liberdade. Morre da sua ausência. (...)

No capitalismo de mercado, enriquece-se servindo melhor o cliente do que o concorrente. Ninguém está protegido, o consumidor é o árbitro e a falência é a sanção sagrada que liberta o capital mal empregue para quem o emprega melhor.

Na economia de compadrio é tudo ao contrário: O Estado escolhe os vencedores, os subsídios vão para os amigos, as normas são escritas para matar os pequenos e blindar os grandes já instalados e o lucro não vem do cliente, vem do lobbying. Deixa de se ganhar criando valor e passa a ganhar-se comprando um favor.»

Excerto de O Estado-empresário: Cinco séculos a fazer o mesmo, Pedro Santa Clara

22/07/2026

Crassus fits Donald better than Caligula (2) - They both should have listened to omens, curses, and advice from allies

As remembered by a Reader of The Economist «it would be more appropriate to compare Mr Trump to another Roman leader, Marcus Licinius Crassus.»

For those who don't know or have forgotten, as Crassus left Rome for his campaign in 55 BC, a tribune named Ateius Capito staged a ritual, burning incense and pronouncing dreadful curses upon Crassus for launching an unprovoked war.  When his army crossed the Euphrates River into enemy territory, a sudden thunderstorm ripped through the camp, destroying boats and blowing away the military standards. Crassus dismissed it and refused the advice of the King of Armenia, who urged him to take a mountainous route where the enemy cavalry would be useless. Instead, Crassus trusted an Arab guide who was secretly a double agent for the Parthians, leading the Romans directly into the open desert.

The Parthians deployed thousands of horse archers. Crassus ordered his men into a tight defensive square (the testudo), expecting the enemy to run out of arrows. Surena had anticipated this. He brought a vanguard of 1,000 baggage camels loaded with millions of extra arrows. The Parthian archers continuously reloaded, maintaining an unstoppable, hours-long hail of arrows that pierced Roman shields and hands.

Crassus's son, Publius, was killed in a desperate counter-charge. Utterly demoralized and surrounded, the Roman lines collapsed. Crassus was killed during botched peace negotiations after the battle. Around 20,000 Roman soldiers died, and 10,000 were captured. According to a famous legend recorded by the historian Dio Cassius, the Parthians poured molten gold down Crassus's throat after his death as a symbol of his insatiable avarice. 

Rome viewed eastern nations as "barbaric" and naturally inferior. To have over 30,000 Roman citizens slaughtered or captured by the Parthian Empire shattered their national pride. The defeat triggered a deep-seated public fear in Rome that the Parthians would launch a counter-invasion of Syria or the wider Roman East. Crassus had been the financial and political buffer between Julius Caesar and Pompey the Great. The loss of his army collapsed the First Triumvirate, removing the final obstacle to the civil war that destroyed the Roman Republic.

Karl Marx observes in his 1852 essay, The Eighteenth Brumaire of Louis Bonaparte, that significant historical events and figures occur twice: the first time as grand, genuine struggles (tragedy), and the second time as empty, ridiculous caricatures of the original (farce).

[Story told with the help of Gemini]

21/07/2026

Crónica da passagem de um governo (59b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 59a)

A almofada dá para dormir por dois anos e picos. Depois logo se vê

O Instituto de Gestão de Fundos de Capitalização da Segurança Social anunciou com grande alegria que o FEFSS está prestes a atingir os 50 mil milhões, o que será suficiente para pagar as pensões durante 28 meses. Qualquer tuga com menos de 70 anos deveria ficar preocupado porque os fundos privados portugueses de pensões só representam cerca de 20 mil milhões e abrangem cerca de 1,2 milhões de pessoas. É claro que sempre os governos portugueses poderão objectar que, aqui ao lado, em Espanha, as reservas só chegam para um mês de pensões ou que na Bélgica só chegam para 3 anos e esquecerão cuidadosamente (eles e o Dr. Sousa Tavares) que as reservas totais dos Países Baixos são suficientes para 30 anos de pensões.

Take Another Plan. Mme Ourmières-Widener está de volta

Em retrospectiva, Mme Ourmières-Widener, foi apresentada pelo Dr. Pedro Nuno como uma experiente gestora internacional que salvaria a TAP e acabou a ser despedida com alegada justa causa pelo seu envolvimento na renúncia/demissão da Dr.ª Alexandra Reis, renúncia/demissão que fora aprovada pelo Dr. Pedro Nuno (via WhatsApp) e que a IGF considerou ilegal. Mme Ourmières-Widener está a pedir em tribunal uma indemnização de 5,9 milhões e deu um primeiro passo para ganhar a acção porque o STJ decidiu que o diferendo deveria ser resolvido por um tribunal cível e não por um tribunal administrativo como a TAP defendia.

Portugal no topo da OCDE

mais liberdade

A economia pode ter caído quatro lugares no ranking europeu do PIB per capita em PPC mas está no topo da rigidez laboral na OCDE, de onde resultará certamente estar igualmente no topo da “precariedade”, que é a irmã gémea do emprego vitalício.

Amália, um chatbot genuinamente patriota

Os primeiros testes públicos do chatbot Amália, que, segundo o Dr. Montenegro, é um LLM e cujo financiamento total atingirá 7 milhões de euros (e que, segundo o modelo Gemini do Google, não deveria custar mais do que um sexto disso), mostram-no mais vulnerável a “alucinações” do que o Dr. Montenegro, o que não é dizer pouco. Entretanto, ficou a saber-se que uma equipa de linguistas está a usar o Amália na “identificação de narrativas dominantes em artigos noticiosos de natureza manipuladora” e na “deteção de técnicas de persuasão em conteúdos jornalísticos”. Os serviços do Secretariado Nacional de Informação do Estado Novo teriam dado um grande préstimo ao Amália.

É nestas alturas de enrascanço que os instintos socialistas se tornam irreprimíveis 

A  ministra do Ambiente ameaça fixar as «margens máximas em qualquer uma das componentes comerciais que formam o preço de venda ao público». E por que não a ministra da Saúde mandar retirar nas horas de ponta 3 graus à temperatura medida pelos termómetros para diminuir a afluência às urgências dos hospitais?

20/07/2026

Crónica da passagem de um governo (59a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
No melhor pano cai a nódoa mais visível

A bagunça das classificações dos exames nacionais do secundário é vergonhosa porque o que falhou são coisas que qualquer organização medianamente apetrechada e provida de gente competente resolveria sem problemas. Ainda assim, para dizer uma verdade simples e certamente impopular, seria disparatado concluir daí que deveria demitir-se ou ser demitido um ministro que em dois anos fez mais sem grandes alaridos do que o resto do governo (ver aqui o relato de João Duque). Seja como for, o atraso de alguns dias é uma gota de água no oceano dos atrasos sistemáticos no Estado sucial que nalguns casos se medem por décadas.

Então porquê tanta agitação? Simples, meu caro Watson. Porque o que o ministro fez interessa a poucos (os pais que se interessavam e têm dinheiro já inscreveram os filhos nas escolas privadas) e desagrada a muitos, a começar pelos exércitos de profs pastoreados pela Fenprof e açulados pelo Stop, que querem esperar sossegados pela reforma, e a acabar nos profs das universidades adeptos da endogamia e nos “investigadores” adeptos dos subsídios. Exagero? Nem por isso, veja-se a alegria com que os profs a quem o jornalismo de causas dá voz incitam os alunos a pedir revisão das provas na esperança de que a multiplicação dos pedidos prolongue a bagunça.

Teoria da relatividade

Não vou comparar o atraso de alguns dias na publicação das classificações dos exames com o atraso de muitas décadas do novo aeroporto de Lisboa (cuja capacidade estaria esgotada em 2007 ou 2008) nem mesmo compararei com os 23 anos do novo hospital de Lisboa, comparo apenas com a autorização ambiental da central solar Fernando Pessoa cujo processo de avaliação demorou três anos e anda por aí desde 2024.

Miudezas no Portugal dos Pequeninos

O Dr. Luís Neves, ministro da Administração Interna, até recentemente o único ministro estimado pelo PS, nos seus anos à frente da Polícia Judiciária (Judite), soube-se agora, envolveu-se numa série de indescritíveis trapalhadas menores que vão desde um tanque-piscina ilegal até obras no seu retiro alentejano feitas por um empreiteiro amigo com contratos com a Judite e um atrelado com produtos suspeitos (ler aqui a estória).

Não é preciso que algo mude para ficar tudo na mesma

Ao arrepio da larga maioria do jornalismo de causas e da comentadoria, quase metade (48%) dos eleitores preferem que o governo do Dr. Montenegro se arraste até ao fim do mandato e consideram que o actual titular e o desafiante Dr. Carneiro se equivalem na mediocridade com vantagem para o primeiro (fonte)

O salário único (excepto o dos apparatchiks) a caminho do socialismo

mais liberdade

Há um ministro que parece já ter percebido o lado B dos "centros de dados"

Já o escrevi várias vezes: a estratégia de fornecer energia eléctrica abundante e barata produzida em "fazendas" de painéis solares chineses a centros de dados com chips produzidos em Taiwan a processarem dados do resto do mundo com software desenvolvido nos EUA, tem várias consequências, desde logo o aumento do stress da rede eléctrica. Por agora, só o Eng. Pinto Luz, ministro das Infraestruturas, parece ter percebido que esses investimentos assim, sem mais, arriscam a que o Portugal dos Pequeninos seja «quase a lixeira da Europa».

(Continua)

18/07/2026

Trumpism at its finest: accusing China of trying to manipulate the 2020 elections while he himself tries to manipulate the 2026 elections

If he knows that these doctrines are not true, he is a
demagogue; if he believes his own lies, he is an idiot.

«(Wednesday night) President Trump delivered a rare prime-time speech, but his address fell well short of the hype. Purportedly, the president was going to make a major statement about election integrity, but in reality, the speech was dense and hoarsely delivered. As my colleagues report, he provided no evidence to back up his long-standing lie that the 2020 election was stolen. The White House also released four tranches of documents meant to support the speech, but Trump’s claims were a farrago of recycled information, misrepresentations of evidence, and tendentious claims based on materials too heavily redacted to parse. Major news networks, apparently concerned that Trump would mislead, declined to air the address live.

So why even deliver it? The speech was a sign of desperation. Trump spoke now not only to distract from his sputtering Iran war and its effects on the economy, but also because his attempts to concretely interfere with the 2026 election thus far have almost all failed. As his opportunities to change the rules of the game before November slip away from him, the president is falling back on one of the few tools he has left: attempting to sow chaos and doubt among Americans.»

Trump’s Plan for November Is Failing, The Atlantic

17/07/2026

Mitos (355) - O contrário do dogma do aquecimento global (XXXIV) - O Paradoxo de Crutzen e a Lei de Morton

Outros posts desta série

Em retrospectiva, que o debate sobre o aquecimento global, principalmente sobre o papel da intervenção humana, é muito mais um debate ideológico do que um debate científico é algo cada vez mais claro. Que nesse debate as posições tendam a extremar-se entre os defensores do aquecimento global como obra humana – normalmente gente de esquerda – e os outros – normalmente gente de direita – existindo muito pouco espaço para dúvida, ou seja, para uma abordagem científica, é apenas uma consequência da deslocação da discussão do campo científico, onde predomina a racionalidade, para o campo ideológico e inevitavelmente político, onde predomina a crença.

Nós aqui fazemos o possível para não ficar entalados entre o ruído da histeria climática que, levada às suas últimas consequências, conclui que o homo sapiens sapiens tem de ser erradicado para salvar o planeta, e o ruído das teorias da conspiração que consideram que o único problema sério com o ambiente é a histeria climática.

Negar os factos do progressivo aquecimento global exige cada vez mais uma fé quase religiosa (ver, por exemplo, os gráficos do post anterior desta série), fé que tem vindo a ser substituída pela fé contrária nos efeitos miraculosos das medidas defendidas pelo áctivismo ambiental, apesar dos avisos de há vinte anos do Prémio Nobel da Química Paul Crutzen que no seu ensaio «Albedo enhancements by stratospheric sulfur injections: a contribution to resolve a policy dilemma?» chamava a atenção para o paradoxo do ar limpo em que a redução da poluição atmosférica poderia aumentar o aquecimento global por via da redução do albedo (capacidade de reflexão da radiação solar pela superfície terrestre).

Pois bem, parece que é isso que está a acontecer: a redução dos poluentes atmosféricos, como o dióxido de enxofre (SO₂) e a fuligem, que, por um lado, reduzem a chuva ácida que mata milhões de pessoas anualmente e, por outro, têm o efeito de reflectir a luz solar e, assim, reduzir o aquecimento global.

Voltarei a este assunto e, entretanto, alinhavo, por agora, duas conclusões não sobre o clima, mas sobre a mente humana. A primeira, é que estamos, mais uma vez, perante um exemplo da Lei das «consequências imprevistas da acção social intencional» enunciada por Robert K. Merton em 1936.  A segunda é que estamos perante outro exemplo da difícil convivência do mundo real em geral, e da ciência em particular, com cérebros ideológicos (Leor Zmigrod, "The Ideological Brain") saturados com doses maciças de convicções inabaláveis alimentadas nas últimas décadas pelas redes sociais e há séculos pelo jornalismo de causas. E acrescento uma previsão: os que têm negado o aquecimento global vão passar a atribuir o inexistente aquecimento global às medidas para o mitigar. 

15/07/2026

Proposta Modesta Para Evitar que os Áctivistas Desperdicem Acções e Indignações (14) - Áctivistas pró e anti-xenofobia ide manifestar-vos na África do Sul

 Outras propostas modestas

PBS News

Áctivistas de todas as tendências, nomeadamente especialistas em xenofobia, tendes agora mais oportunidade soberana de combater a discriminação contra os imigrantes que tanto vos indigna, reservai já o vosso voo para Joanesburgo. O desafio é extensivo aos áctivistas xenófobos que podem aproveitar a oportunidade para estágios com o movimento anti-migrações March & March. Boa viagem.

14/07/2026

Crónica da passagem de um governo (58b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 58a)

Mais um exemplo de montar a “transição digital” em cima do imobilismo medieval

Em síntese, que admito ser simplista, a bagunça das classificações dos exames nacionais do secundário resulta de deixar tudo na mesma e criar uma superestrutura “moderna” sobre processos antiquados, altamente centralizados, da responsabilidade de serviços artríticos. Digna de estudo psiquiátrico é a reacção das lideranças governativas tentando instilar optimismo e chutar o problema para a frente, em contraste com as lideranças de oposição acusando a falha do governo de «insensibilidade atroz».

O Dr. Matias teve uma nova epifania

Para nos entreter enquanto não nos tornarmos «um líder mundial na IA», o Dr. Matias, ministro das Reformas, num intervalo da sua louvável campanha épica para retirar ao Tribunal de Contas o seu papel de empata nas decisões públicas, em concorrência desleal com os 11 governos que andam há 23 anos a empatar o novo hospital de Lisboa, produziu uma vibrante declaração de princípios, ou mais exactamente, de fins. Segundo ele, a reforma do Estado «consiste em resolver problemas dos portugueses». Peço desculpa por discordar, mas a reforma do Estado consiste em resolver problemas do Estado que dificultam aos portugueses resolver os seus próprios problemas.

E se em vez de nos tornarmos «um líder mundial na IA», nos tornarmos um líder nos apagões (continuação)

Já o escrevi, a estratégia proposta pelo Dr. Matias de fornecer aos grandes operadores de centros de dados energia eléctrica abundante e barata produzida em "fazendas" de painéis solares chineses, terá como consequência aumentar o stress da rede eléctrica até ao ponto de rutura do sistema, como concluiu o Relatório de Monitorização da Segurança de Abastecimento do Sistema Elétrico da Direção-Geral de Energia e Geologia. No meio do silêncio ensurdecedor das luminárias deste país apenas a voz de Miguel Stilwell se fez ouvir sobre o risco de «socialização do custo da energia» resultante da proliferação dos centros de dados (apud Bruno Faria Lopes).

Canários na mina de carvão

Apesar dos esforços do governo secundados pela imprensa amiga de animar os animal spirits keynesianos, depois de um primeiro trimestre com crescimento nulo, para o segundo as previsões das pitonisas de serviço variam entre 0,2% e 0,4% o que, em seguida à estagnação do 1.º trimestre, não é muito animador. A queda em Maio do índice de produção industrial também não é uma boa notícia. Só o turismo continua a crescer – e também a compra de automóveis, uma consequência imprevista, mas habitual, dos fundos da bazuca, suspeito.

Do lado do comércio externo até Maio também não há motivos de celebração com a queda de 0,2% das exportações, o aumento de 3,5% das importações e o agravamento de 14,4 mil milhões do défice (fonte),

Estamos a crescer mais do que a Óropa, já dizia o Dr. Costa e com ele o Dr. Castro Almeida

A maioria dos políticos parecem pensar que faz parte do seu papel infantilizar o eleitorado, dando boas notícias e praticando um optimismo de pacotilha (foi o Animal Feroz quem disse que um político é um profissional do optimismo, quando deveria dizer que é um profissional da aldrabice). O ministro da Economia, Dr. Castro Almeida, também parece praticar este mantra quando diz à SIC Notícias «que Portugal está a crescer pouco, mas está a crescer bastante acima da média europeia», como se fizesse algum sentido um país que tem um PIB per capita que é menos de metade dos países mais ricos e onde a produção da AutoEuropa (um investimento da VW), que em Portugal representa 1% do PIB, representaria no seu país de origem 130 vezes menos, crescesse abaixo desses países.

13/07/2026

Crónica da passagem de um governo (58a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
A meritocracia do Estado sucial é uma espécie de caquistocracia

A CReSAP é uma entidade criada pelo governo de Passos Coelho para avaliar os candidatos a nomeações para cargos públicos. Foi completamente ignorada durante os consolados do Dr. Costa cujos governos enxamearam o aparelho do Estado sucial com gente incompetente ou/e corrupta. Em entrevista ao Expresso, o actual presidente da CReSAP revela que 85% a 90% dos nomeados já estavam no cargo em regime de substituição, um expediente pelo qual, ainda que cumprindo as formalidades de avaliação, se colocava o escolhido de confiança numa situação de vantagem da qual saía nomeado com naturalidade.

 Com estas práticas, ninguém deveria ficar surpreendido por, nos últimos dois anos, 15 diretores distritais da Segurança Social com ligações conhecidas ao PS terem sido substituídos pelos homólogos do PSD (fonte).

O que tem de ser tem muita força. Uma medida errada pode ter duas consequências indesejadas

Em vez de simplificar os processos kafkianos de licenciamento e criar incentivos fiscais à construção de novas habitações (agora tardia e timidamente aprovados), ou seja, em vez de aumentar a oferta, o governo aprovou medidas como a Garantia Jovem para aumentar a procura (até o FMI ao longe percebeu o disparate e recomendou o fim desses apoios).

Uma das consequências, como acentuei na crónica da semana passada, foi o aumento em dois anos de quase 60% das novas operações de crédito à habitação o que determinou o aumento do endividamento das famílias.

mais liberdade

Outra consequência foi o aumento no 1.º trimestre de 17,8% do preços das casas, o maior aumento da UE. O resultado inevitável é o aumento do défice de novas construções e, inevitavelmente, o aumento dos que os preços de mercado reflectiram como um termómetro reflecte o aumento da febre.

Adicionalmente à simplificação dos processos de licenciamento e dos incentivos fiscais à construção de novas habitações, o governo poderia fazer algo muito mais simples, como promover o arrendamento das cerca de 250 mil fogos fora do mercado de venda ou arrendamento e, já agora, descongelar as rendas de cerca de 250 mil contratos, retirando aos senhorios o papel de substituto da segurança social.

Quem fala assim não é gago

Não são todos os dias que um presidente do Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana diz no parlamento «se há uma coisa da qual se pode acusar o Estado português é de gerir mal o seu património», explicando aos deputados ignaros que os imóveis que foram vendidos não tinham qualquer aptidão para habitação, coisa que os governos socialistas não perceberam durante quase uma década ao tentarem resolver o défice de habitação com os edifícios públicos.

(Continua)

12/07/2026

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Câmara de Almada, um caso notável de incompetência individual e sistémica

Alfredo Martirena
Secção Res ipsa loquitur

A Dr.ª Inês de Medeiros, com um nome próprio acompanhado de seis apelidos, dois advérbios e um hífen, é um membro característico das elites de esquerda bem-pensante (também poderia ser das elites de direita, que vinha a dar ao mesmo), actriz de cinema, deputada pelo PS, é há 9 anos presidente da Câmara de Almada, onde chegou, sucedendo a uma dezena de vereações comunistas, sem qualquer experiência ou vocação para gerir o que quer que seja e com notável pesporrência.

Durante sete anos produziu inúmeras declarações, sendo uma das mais notáveis sobre a água, e ignorou olímpicamente a crescente degradação da rede de água, que tem uma das mais elevadas taxas de perda e serve um concelho com um consumo per capita muito superior à média, concelho que, segundo a Dr.ª de Medeiros, estaria «assente sobre uma reserva quase inesgotável de água de grande qualidade» (apud Helena Matos). O que faz uma criatura bem-pensante quando a realidade da falta de água lhe entra pelo gabinete e os protestos dos munícipes pelos ouvidos? Procura rapidamente um culpado pelas consequências da sua negligência (o governo, Bruxelas) e alega a universal falta de meios (neste caso, os omnipresentes fundos generosamente providenciados pelos contribuintes europeus).

Concedo à Dr.ª Inês de Saint-Maurice Esteves de Medeiros Victorino de Almeida cinco urracas pela sua inacção na presidência, quatro bourbons por nada ter apreendido nem esquecido, cinco pilatos por lavar as mãos do assunto, apesar da falta de água, e três chateaubriands por imaginar que não faltaria a água em Almada, apesar do rio passar ao lado da cidade e não a atravessar. (avaliação contínua)

11/07/2026

Thought of the day: best deal ever


If you think this cartoon is inspired by Donald Trump, it is. But think again and look around you.

10/07/2026

De volta ao patriotismo tudológico a cavalo da ignorância pesporrente

Faz um tempo zurzi o patriotismo tudológico a cavalo da ignorância pesporrente do Dr. Tavares, que então investiu contra «os holandeses, os novos-ricos da Europa, actuando como gauleiters da Alemanha» tentando diminuir a Holanda para enaltecer o Portugal dos Pequeninos. Lembrei-me desse episódio ao cruzar-me com mais um exemplo de realizações notáveis dos holandeses, a acrescentar aos vários que então citei. 


Trata-se da ASML, o único fabricante mundial de máquinas de fotolitografia por ultravioleta extremo (EUV) cujos sistemas de precisão permitem produzir em massa os chips mais avançados, indispensáveis para a inteligência artificial, smartphones e data centers. As máquinas da ASML permitem imprimir circuitos com menos de 2 nanómetros (*) de largura para aplicações de IA da próxima geração.


É uma empresa espantosamente bem-sucedida, que em 2025 facturou mais de € 30 mil milhões e prevê facturar € 40 mil milhões este ano com cerca de 42 mil empregados de 140 nacionalidades. É a empresa europeia com maior valor de mercado - quase 700 mil milhões de euros ou mais do dobro do PIB português. É tão inovadora que a administração americana exigiu que, para continuar a operar nos EUA, a ASML não exportasse as suas máquinas para a China porque isso comprometeria a vantagem tecnológica americana, cada vez menor.

__________
(*) Equivalente a um milionésimo de milímetro; as células humanas têm, em média, um diâmetro entre 10 mil e 30 mil nanómetros, pelo que na largura de um circuito impresso da ASML caberiam de 5 mil a 10 mil células humanas. 

08/07/2026

07/07/2026

Crónica da passagem de um governo (57b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 57a)

O Dr. Miranda critica o Dr. Matias

Num qualquer Talk on Competition & Regulation, o Dr. Miranda, que, recorde-se, é o ministro de Estado e das Finanças deste governo, queixou-se que a falta de competitividade (ou “competividade”, de acordo com o Dr. Costa, agora a repousar em Bruxelas) resulta de «constrangimentos importantes» e apontou o dedo às «elevadas barreiras à entrada» e aos «encargos regulatórios e administrativos excessivos».

A verdade é uma coisa muito escorregadia ou o governo e o TdC a ensaiarem Così è (se vi pare) de Pirandello

Com umas décadas de atraso, Lisboa está a ser palco do Teatro do Grotesco, com o ministro da Reforma do Estado a desmentir o TdC depois do TdC ter desmentido o ministro em seguida ao TdC ter desmentido a versão do ministro.

Sim, os erros estatísticos do INE sobre a população residente são uma vergonha, mas vejamos a coisa pelo lado positivo

Agora que está em curso a negociação em Bruxelas do Quadro Financeiro Plurianual (QFP) 2028-2034, em que se desenhava uma redução relativa do donativo para os pobrezinhos do Portugal dos Pequeninos, a descida do PIB per capita até dá jeito para justificar uma maior fatia.

Pensamentos mágicos
  • Pensamento mágico (1)
Criar um “fundo soberano” para gerir uma riqueza que não se tem (leitura recomendada para desenvolver a ideia: «O fundo soberano dirigista do ‘mágico’ Montenegro» de Óscar Afonso).
  • Pensamento mágico (2)
Construir um Innovation District no espaço da antiga refinaria de Matosinhos, onde serão criados 100 mil empregos e que terá impacto anual na economia portuguesa de dois mil milhões de euros, durante 30 anos. Vá-se lá saber por quê, ocorreu-me o estudo (aqui evocado) do Dr. Augusto Mateus para o governo socialista do Animal Feroz em que o aeroporto de Beja iria constituir uma «plataforma logística para a carga a receber e a expedir de/para a América e África, incluído o transporte de peixe, utilizando aviões de grande porte e executando em Beja o transhipment para aviões menores para a ligação com os aeroportos europeus».
  • Pensamento mágico (3)
O Dr. Montenegro, que garante que «não está a festejar nada», anunciou que o financiamento total do modelo Amália atingirá 7 milhões de euros. Questionado o modelo Gemini da Google para estimar o custo total real e razoável de replicar ou manter um modelo como o Amália, obtive a seguinte resposta:
«Se uma empresa ou entidade privada quisesse desenvolver hoje o mesmo modelo, de forma otimizada e comercialmente viável, o custo real de mercado situar-se-ia entre 450.000 € e 850.000 € para o desenvolvimento, acrescido de um custo operacional contínuo (infraestrutura) que varia conforme a escala de utilização.» E pronto, that’s it.
«Pagar a dívida é ideia de criança»?

Os excedentes orçamentais (que, recorde-se, são, na sua maioria, resultados de erros de previsão, atrasos no pagamento das despesas, ou, no final do ano, manobras orçamentais) estão a passar a défices, como no período até Maio que atingiu 1.762 milhões de euros, desta vez porque a despesa pública subiu quase 10%.

BdP

É claro que em Maio a dívida pública na ótica de Maastricht aumentou 1,7 mil milhões para 288,7 mil milhões.