Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

04/06/2026

Lost in translation (374) - Greve geral significa uma greve parcial dos funcionários públicos


Ontem, tivemos mais outra greve dita geral envolvendo pouco mais do que os ocupantes da vaca marsupial pública, alguns dos quais também se manifestaram contra o que chamaram pacote laboral, pacote cuja putativa adopção não teria quaisquer efeitos relevantes sobre esses ocupantes com empregos vitalícios protegidos do stress da concorrência. A esmagadora maioria das "vítimas" do pacote, os trabalhadores do sector privado, dos quais só em cada quinze está sindicalizado, continuaram a trabalhar nas empresas ou em teletrabalho suportando o desconforto da escassez de transportes públicos paralisados pelos ocupantes das referida vaca e a indisponibilidade dos serviços públicos nomeadamente das escolas e dos hospitais públicos.

O impacto da greve geral foi tão ridiculamente insignificante que a CGTP, spin-off do Partido Comunista para as greves dos funcionários públicos, publicou no seu site uma lista de 66 páginas com 990 entidades afectadas pela greve, a saber:
  • 24 Empresas privadas com "produção parada" do milhão e meio de Micro e PME que existem em Portugal;
  • 215 organismos públicos encerrados dos cerca de 4.200 organismos públicos existentes;  
  • 15 organismos públicos com serviços mínimos;
  • A restante miscelânia de entidades, com taxas de adesão à greve de 45% a 100%, dos quais quase todas são organismos públicos, entre eles:
    • Cerca de 200 organismos ligados a câmaras municipais;
    • Cerca de 270 escolas e creches;
  • Com dificuldade, lá se conseguem encontrar algumas micro e PME, lista que inclui alguns  departamentos de empresas privadas (por exemplo a loja de Eiras da Auchan, um posto de abastecimento da BP, Lidl de Alcochete e de Tondela, o Posto logístico da Sonae na Azambuja e outra miudezas). 
A única novidade nas manifs com layout e slogans do século XIX, onde se viam cartazes a reclamar "pão" e a protestar porque o "custo de vida aumenta", foi a sua parasitagem por áctivistas (provavelmente os mesmos áctivistas das mudanças climáticas) que usaram a violência e provocaram a resposta, por vezes violenta, da polícia.

____________

Alteração do entrada do Glossário das Impertinências:

Greve geral (sindicalês)

Uma greve de muitos empregados do Estado, devidamente protegidos das agruras do mundo real, cujos "direitos" não são afectados, e de alguns trabalhadores de empresas privadas; greve convocada quando o governo não é de esquerda, por sindicatos que representam menos de um sexto dos trabalhadores, que reclamam ter mobilizado a maioria dos trabalhadores, greve geralmente com impacto limitado que é convocada para a véspera de um feriado, sexta-feira ou segunda-feira, acompanhada de manifs com cartazes do século XIX e parasitada por áctivistas violentos.

03/06/2026

BREAKING NEWS: At first it seems strange, then it becomes ingrained

«A convicted Jan. 6 rioter who later said that he regretted his participation in the U.S. Capitol attack has been hired by the Trump administration to work inside a Pentagon office that manages highly classified military operations, according to four people familiar with the matter.

The appointment of Elias Irizarry, who was 19 at the time of the riot in 2021, to a post in the Defense Department’s Special Operations and Low Intensity Conflict office has raised alarm internally among staff who question how anyone convicted in the assault on American democracy could be trusted for such a sensitive role in the U.S. government, these people said. All spoke on the condition of anonymity, citing a fear of retaliation.» Washington Post

At first glance, it seems strange that the Trump Administration would appoint someone convicted of breaking into the Capitol to work in counterterrorism at the U.S. Department of Defense. However, appointing such a person to combat terrorism makes as much sense as hiring a hacker to combat cyber intrusion, which is a normal procedure in the computer industry.

«President Trump lashed out at Israeli Prime Minister Benjamin Netanyahu over Israel's escalation in Lebanon in an expletive-laden call ("You're fucking crazy") on Monday, two U.S. officials and a third source briefed on the call told Axios.» Axios

It may also seem strange that Mr. Trump insulted Mr. Netanyahu, but the truth is that his democrat predecessor, Roosevelt, once said of the dictator Somoza, "He may be a son of a bitch, but he's our son of a bitch."

Unfortunately, not everyone, even among his devotees, understands these subtleties, and that's why President Trump's net approval rating continues to fall.

02/06/2026

Crónica da passagem de um governo (52b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 52a)

Boa Nova. Os alicerces das reformas do Dr. Matias estão prontos até ao verão

O Dr. Matias pode não ter jeito para fazer reformas, mas ninguém lhe pode negar um talento excepcional para fazer anúncios, como se lê nos artigos encomendados pela sua equipa aos jornalistas amigos. Por exemplo, este artigo com o título «Estado: Alicerces da reforma estão construídos até ao verão» que nos garante que «a rentrée será feita num novo quadro» e nos informa que o governo já extinguiu ou fundiu 35 entidades e reduziu 300 cargos dirigentes, mas não nos esclarece o que foi feito dos dirigentes.

A FA vai reformar os F16 e pretende substituí-los por F35

A Força Aérea já fez saber que para substituir os F16 prefere os F35. A 180 milhões a peça, o pretendido lote de 28 ficaria por uns 5 mil milhões, lote que, desconfio, daria para a primeira semana de guerra. Ora aqui está um tema que o ministério das Reformas poderia tomar a seu cargo e estudar uma solução alternativa mais adequada aos países em via de subdesenvolvimento. Por exemplo, seria muitíssimo mais barato encomendar à Ucrânia uns milhares de drones, incluindo assistência técnica, pelo preço de um F35.

Boa Nova. Crescimentos de 3,5 ou 4% ao ano

O Dr. Montenegro considerou que Portugal «tem capacidade para crescer 3,5 ou 4 por cento ao ano de forma consecutiva» e «vale a pena criar instrumentos» para o conseguir.

Choque da Boa Nova com a realidade

O Portugal dos Pequeninos cresceu nos últimos 10 anos a uma taxa média de 2,25%, nos últimos 3 anos cresceu em média 2,4%, e a economia estagnou no 1.º trimestre, apesar do aumento do investimento devido nos processadores do centro de dados de Sines, ainda antes dos impactos da guerra do Golfo Pérsico, a CE baixou as suas previsões deste ano para 1,7%, e as perspectivas para 2027 não são muito diferentes.

O desempenho medíocre dos últimos anos foi apesar de circunstâncias irrepetíveis, como os 15 mil milhões já recebidos do PRR e um crescimento insustentável do turismo. Esgotadas essas circunstâncias irrepetíveis, o Dr. Montenegro vem dizer-nos que o crescimento poderá ser uma e meia ou duas vezes maior do que o conseguido, quando começarem a ser reembolsados os empréstimos do PRR, equivalentes a quase 28% dos montantes recebidos. Qual é o milagre que tem no bolso um Dr. Montenegro que até agora não fez uma reforma com impacto no crescimento potencial?

Serão os imigrantes os canários na mina de carvão da economia portuguesa?

Não se deve dar crédito a conclusões apressadas, baseadas em entrevistas do jornalismo de causas a meia dúzia de pessoas, segundo as quais os imigrantes começam a sair de Portugal em massa. Ainda assim, a informação de que mil TVDE estão parados em Lisboa por falta de motoristas, na sua maioria imigrantes, deve significar algo.

E o que vão fazer os chuis depois de libertos das tarefas administrativas?

Por um lado, o governo fala em aumentar os efectivos policiais no quarto país da UE com mais polícias por 100 mil habitantes, por outro, o mesmo governo quer libertar os polícias do trabalho administrativo.

01/06/2026

Crónica da passagem de um governo (52a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Enquanto esperamos que o Portugal dos Pequeninos tenha «todas as condições para se tornar um líder mundial na IA», por que não…

… lançar os concursos para a concessão de exploração do lítio, há dez anos a serem estudados?

O Dr. Passos Coelho tem razão. Um político não deve ser um “prostituto sem carácter

É por isso que o Dr. Passos Coelho deveria ter concorrido à eleição deste fim de semana para escolher o líder do PSD em alternativa a deixar o Dr. Ventura saltar-lhe para o colo.

O Dr. Montenegro também tem razão. Governar é uma maratona

É por isso que há profissionais que correm a maratona em duas horas e amadores que precisam de quatro horas e até há quem faça um passeio durante a prova e nunca termine.

.. e ao km 10 está a alcançar o pior dos dois mundos: não toma medidas impopulares e fica impopular…

A sondagem do Barómetro da Aximage para o DN já mostrava a queda do PSD e dias depois a sondagem Expresso/SIC confirmava que o PS tem mais quatro pontos percentuais de intenções de voto do que a AD e a direita perdeu a maioria, também porque o PUAV (Partido Unipessoal do Dr. Ventura) perdeu cinco pontos percentuais o que prenuncia o megafone do Dr. Ventura a subir os decibéis e a ajustar a pauta ao que ele imagina está nas meninges dos que ele imagina constituem o seu eleitorado.

O pior de tudo para o Dr. Montenegro é que a sua avaliação é negativa e até desceu nos simpatizantes do PSD, os quais, ainda assim, lhe deram nas eleições para presidente uma maioria africana de 95%. Pelo menos esses parecem felizes.

Mais tentáculos do polvo socialista “imergiram” e, uma vez mais o ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor

Continuando a tradição criativa de baptizar as operações, desta vez a Judiciária chamou “imergente” à operação em que investiga e detém por suspeita de «crimes de prevaricação e participação económica em negócio, envolvendo a adjudicação de diversos contratos por parte de câmaras municipais e juntas de freguesia», cinco quadros do PS e entre eles Duarte Moral, diretor de comunicação do Dr. Carneiro, e a sua (do Dr. Moral) mulher, envolvendo contratos no total de 2 milhões incluindo com uma empresa do próprio Dr. Moral. Por não inesperada coincidência, o Dr. Moral, já havia sido assessor do Dr. Costa quando este presidiu à Câmara de Lisboa.

Dois dias antes da “imergência” do caso do Dr. Moral, a mesma Judiciária fez buscas na empresa Águas de Gaia, no âmbito da operação "Águas Turvas" (lá está, a Judite no seu melhor) que envolve a gestão do ex-presidente socialista Eduardo Vítor Rodrigues que perdeu o mandato no ano passado condenado peculato e também a gestão do Dr. Filipe Menezes do PSD (lá está, o Bloco Central a funcionar)

Take Another Plan. Por falar em polvo, a TAP é um operador verdadeiramente internacional

Já sabíamos há muito que, pela mão do Dr. Lacerda Machado, o “melhor amigo de sempre” do Dr. Costa, que esteve envolvido no SIRESP, na compra dos helicópteros Kamov, na reversão da privatização da TAP, na resolução do caso dos lesados do BES, no acordo do CaixaBank com Isabel dos Santos, no caso dos lesados do Banif e na tentativa de solução do crédito malparado da banca, a TAP comprou a VEM que o Dr. Lacerda Machado disse o ano passado no parlamento foi o melhor "negócio dos últimos 50 anos".

Ficámos agora a saber que entre 2015 e 2023 dois funcionários da TAP e um da venezuelana Plus Ultra, estão envolvidos num caso que envolve também o Dr. Zapatero (lá está, a solidariedade socialista) de um esquema de furto de peças à TAP e a várias companhias de aviação portuguesas que lhes rendeu quase 8 milhões de euros de vendas a vários operadores, incluindo a TAP (fonte).

(Continua)

30/05/2026

Dúvida (368) - Um bicho que se parece com um pato, nada como um pato e grasna como um pato, pode ser um ornitorrinco? (2)

Ceci n'est pas un canard
Outras dúvidas sobre o bicho: (1)

Já confessei o meu espanto por se poder concluir que Viktor Orbán é um democrata e a Hungria sob a sua batuta era uma democracia plena, que as acções erráticas de Donald Trump escondem uma estratégia coerente e que a defesa da redução da idade da reforma pelo Dr. Ventura é uma estratégia sofisticadíssima para atrapalhar o PSD.

Acrescento a esse espanto outro, não menos intrigante. Como é possível que luminárias da comentadoria doméstica se indignem justamente com a corrupção que grassa em partidos moderados e, ao mesmo tempo, mais do que fazerem vista grossa, silenciem, limpem a folha ou mesmo exaltem a administração Trump, provavelmente a governação mais corrupta do mundo ocidental desde os Founding Fathers?

Como explicar que pessoas inteligentes e cultas conseguem imaginar que um bicho que se parece com um pato, nada como um pato, grasna como um pato, acasala com patas, não é um pato, é um mamífero que põe ovos? Do ponto de vista da psicologia evolucionista, a melhor explicação que encontrei foi a de Leor Zmigrod no seu The Ideological Brain; e, do ponto de vista da ciência política, a melhor referência que encontro é o que baptizámos neste blogue como doutrina Somoza, que pode ser resumida como «He may be a son of a bitch, but he's our son of a bitch», juízo (ou piada?) atribuído a Franklin D. Roosevelt.

29/05/2026

Is this intended to build the Golden Trump Resort of Gaza?

Fonte

Golden Trump Resort of Gaza

O balão de hidrogénio do Dr. Galamba ou mais um elefante branco que se perdeu pelo caminho (7)

O Dr. Galamba, uma espécie de apoderado do Animal Feroz, ex-secretário de Estado da Energia e ex-ministro das Infraestruturas de governos socialistas, que «frequentou um doutoramento em Filosofia Política na London School of Economics» (não perguntem o que é frequentar um doutoramento), anunciou há seis anos uma «mega fábrica de hidrogénio em Sines» em parceria com a Holanda. Nos anos seguintes, essa megafábrica de hidrogénio e as outras foram-se gradualmente evaporando, como fui relatando em (2), (3), (4), (5), (6). 

Faltava a "mega fábrica" da Galp - o parque eólico com 19 turbinas em Odemira para alimentar projeto de hidrogénio verde. Já não falta. A Galp comunicou há dias à Câmara de Odemira a sua desistência do projecto.

Entretanto, o Dr. Galamba, sem surpresa para quem dispõe de tal currículo, é candidato à presidência da APREN - Associação Portuguesa de Energias Renováveis.

28/05/2026

The news of Mr. Trump's reputation as a great negotiator is more exaggerated than the news of Mark Twain's death while he was still alive

«Donald Trump’s reputation and political career were built on his dealmaking prowess, yet the president keeps demonstrating that he is a terrible negotiator.

Repeatedly over the past nine years, Trump has gotten rolled by counterparts during high-stakes exchanges. North Korea, Russia, Russia again, China, and China again have gotten the better of the United States. Trump has had to slink back to Washington without much to show except empty talk about friendship with whatever dictator has just run circles around him. He’s had some success in brokering agreements when acting as a third party (though not nearly as much as he pretends) but much less luck when his own government is a participant. The one glaring exception came when he was effectively negotiating with himself, getting his own administration to set up a $1.8 billion slush fund for his political allies.

The newest example of Trump’s artlessness is Iran. Let’s review the past few days: Trump posted on Saturday that he was close to striking a deal with Tehran that would end the war he started earlier this year and reopen the Strait of Hormuz. As the outlines of the agreement began to emerge, it looked both incomplete and bad: Trump had postponed discussing the hardest issues—matters, such as nuclear weapons, that led him to go to war—in exchange for opening the strait, which was open before Trump started the war. Hawkish Trump allies promptly criticized the deal, and despite histrionic pushback from Trump aides, the president had begun backing off claims of an imminent agreement by Sunday. “If I make a deal with Iran, it will be a good and proper one, not like the one made by Obama,” he posted. “Our deal is the exact opposite, but nobody has seen it, or knows what it is. It isn’t even fully negotiated yet.” Yesterday, in a sign that a deal might not be near at all, the U.S. military conducted what it called “self-defense strikes” against Iranian targets—directly contradicting the administration’s previous claims about having wiped out any threats to the United States in Iran.»

David A. Graham, The Atlantic

27/05/2026

Crónica da passagem de um governo (51b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 51a)

Boa Nova

O Dr. Seguro já promulgou as medidas fiscais para promover a construção de habitação (redução do IVA) e do arrendamento (redução do IRS e do IRC). Não se esperem milagres porque a fiscalidade é apenas uma das variáveis da equação e algumas das outras variáveis permanecem inalteradas, como seja a absurda burocracia camarária, diligentemente promovida por resmas de apparatchiks, que envolve os licenciamentos, a que se escapa apenas com os lubrificantes habituais: luvas e cunhas de amigos e/ou do partido.

Quanto aos programas de apoio à construção de habitação, estamos conversados. Por exemplo, o Programa de Apoio ao Acesso à Habitação “1.º Direito”, lançado pelo Dr. Costa e o Dr. Pedro Nuno no início de 2023, dois anos depois, estava contratualizada mais de 90% da primeira tranche do dinheiro disponível e só tinham sido entregues menos de 10% das casas previstas. Três anos depois tinham sido entregues 12% das casas.

«Pagar a dívida é ideia de criança»?

Segundo a nota de informação estatística do BdP, em Março o endividamento da economia aumentou 5,4 mil milhões de euros, dos quais 1,7 mM do sector público, 2,2 mM das empresas privadas não financeiras e 1,6 mM das famílias.

Não ajuda muito constatar que as taxas da dívida pública estão a aumentar (a emissão de BT a 12 meses da semana passada foi com uma yield 0,3 pontos percentuais acima da emissão do mesmo prazo há dois meses) e irão continuar no contexto que se avizinha.

Os portugueses «vão ter razões para confiar no SNS»

Há várias causas para a doença de que sofre o SNS, das quais não é provável que faça parte a falta de dinheiro que continua a ser arremessado sobre os problemas: a despesa total com medicamentos aumentou 15,8% para 4,4 mil milhões de euros, dos quais os hospitais públicos aumentaram 11,2% para 2,5 mM; no 1.º trimestre deste ano, a despesa com medicamentos dos hospitais voltou a aumentar 7,6%. (fonte)

Take Another Plan. «Ser sócio do Estado na TAP? “Jamais”!”»

As palavras em título são de João Tovar Jalles, um economista que Harry Truman talvez considerasse ter uma só mão (*), para sumarizar o absurdo de esperar que um investidor privado torrará dinheiro indefinidamente na TAP com o Estado a mandar. Como que a dar-lhe razão por antecipação, o presidente do Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil (SPAC), avisou que poderá haver «um problema na estabilidade laboral» se a Lufthansa for accionista da TAP e sabemos que até agora todos os governos têm levado muito a sério os “avisos” dos pilotos.

Canários na mina de carvão

É cada vez mais ruidoso o coro dos canários a que são surdas as luminárias domésticas sempre tão concentradas nos seus inchados egos. A CE baixou as suas previsões de crescimento para 1,7%, com um défice de 0,1%, antecipa a perda de quota de mercado das exportações portuguesas, alerta para o impacto no turismo, que representa 1/6 da economia, da eventual escassez e da escalada dos preços do jet fuel, e do risco de "estaglação" (inflação a coexistir com um crescimento baixo ou nulo).
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(*) «Give me a one-handed Economist. All my economists say 'on one hand...', then 'but on the other...», disse um dia exasperado o presidente americano.

25/05/2026

Crónica da passagem de um governo (51a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Enquanto esperamos que o Portugal dos Pequeninos tenha «todas as condições para se tornar um líder mundial na IA», por que não…

… pedir ao Claude IA da Anthropic para ajudar os “técnicos” do MAI a desentropiar a implementação do Entry/Exit System (EES) para controlo dos passaportes que começou a funcionar em Outubro do ano passado, teve de ser suspenso em Dezembro e voltou a funcionar em Abril multiplicando as filas de espera nos aeroportos. 

O governo tentou chutar o problema para Bruxelas que já fez saber que os problemas não resultam do EES mas da sua implementação em Portugal. (fonte)

… enquanto isso, é aconselhável estar atento aos próximos passos dos tecnogarcas…

Face aos custos crescentes e ao impacto ambiental das quantidades pantagruélicas de energia consumidas pelos centros de dados usados pela IA, que o Dr. Matias anseia por acolher em Sines, para processar esses dados e para dispersão de quantidades igualmente pantagruélicas de calor produzidas pelos processadores, o Sr. Elon Musk e outros tecnogarcas estão a pensar em lançar centros de dados no espaço para resolver os problemas de potência e arrefecimento.

Take Another Plan. Festeja-se a redução dos prejuízos

O Avante da família Azevedo informa-nos num título celebratório que os «prejuízos da TAP caíram 63% para 39,9 milhões de euros no primeiro trimestre». As perdas continuam, apesar dos 3,2 mil milhões injectados com dinheiro dos contribuintes, a maior parte dos quais nunca assentaram o seu rabito num assento da TAP. Se isto foi no primeiro trimestre, em que ainda não se sentiram os efeitos das aventuras do Sr. Trump no Irão, podemos imaginar o que se seguirá.

O Dr. Montenegro está a alcançar o pior dos dois mundos: não toma medidas impopulares e fica impopular…

Segundo a sondagem do Barómetro da Aximage para o DN, apenas 23,2% dos inquiridos votariam agora na coligação AD que tem menos 10,2 pontos percentuais de intenções de voto do que o PS e menos 0,3 pontos percentuais do que o Chega.

… em parte isso pode dever-se à falta de memória dos portugueses

mais liberdade


Os portugueses parecem não ter ficado agradecidos ao Dr. Montenegro por lhes ter diminuído os impostos, do mesmo modo que não ficaram agradecidos ao Dr. Passos Coelho por os ter feito sair do resgate tornado inevitável pelo Eng. Sócrates que continua a viver tranquilamente dos rendimentos provenientes da Operação Marquês, já esqueceram o Dr. Costa que levou os impostos ao pináculo em 2023, como se pode ver no gráfico.

O Estado sucial pagador do fraque...

O facto de, apesar da redução, continuar a cobrar abundantes impostos não torna o Estado sucial melhor pagador aos seus fornecedores a quem deve há mais de 90 dias 337 milhões de euros, mais 42% do que no ano passado (fonte).

… é o mesmo Estado sucial cobrador do fraque

No final do ano passado segundo a Conta Geral do Estado, os impostos por cobrar voltaram a aumentar e quase atingiram os 30 mil milhões de euros, dos quais cerca de 40% é considerada dívida incobrável.

Contas certas à custa de um futuro incerto

O Conselho das Finanças Públicas parece ser a única instituição a dar-se conta que os tão celebrados excedentes da execução orçamental se devem por inteiro aos Fundos de Segurança Social que são reservas para fazer face às responsabilidades pelas pensões futuras que, o mais tardar por volta de 2028, deixarão de ser cobertas pelas contribuições para a SS, e são tratados como se fossem receitas correntes.

(Continua)

24/05/2026

Donald Trump's ceasefire, or whatever it is, shows how America has changed

«If Operation Epic Fury has truly ended, following the announcement of a two-week ceasefire on April 7th, it will have lasted nearly as long as Operation Desert Storm, the campaign to expel Saddam Hussein’s Iraqi forces from Kuwait in 1991. A comparison of the two wars shows how much America has changed.

Back then, President George H.W. Bush sought approval from Congress and the UN Security Council before opening fire. This time round, Donald Trump did not bother with such formalities. Bush, who died in 2018, patiently persuaded 41 other countries to join America’s military coalition. Mr Trump started the war with one ally, Israel. He did not consult other allies, but then demanded they help when things got hard, and denounced them as “COWARDS” when they proved reluctant.

The elder Bush laid out a clear, limited objective: reversing one country’s seizure of another. Mr Trump offered a shifting array of goals, from destroying Iran’s missiles and nuclear programme to regime change.

Bush, who did not have access to social media, chose his words carefully. His terse response to Iraq’s invasion of Kuwait in 1990 was “This will not stand.” Mr Trump has been more verbose and less measured. “Open the Fuckin’ Strait, you crazy bastards, or you’ll be living in Hell—JUST WATCH! Praise be to Allah,” he posted on Truth Social on April 5th.

The 41st president declared victory only after he had won, and in his victory address praised American soldiers and allies—but not himself. Mr Trump declared victory early and often. “We won. In the first hour it was over,” he boasted on March 11th. Despite being over in the first hour, it lasted nearly six more weeks, snuffed out hundreds of lives and made humanity measurably poorer.

On the morning of April 7th Mr Trump vowed to wipe out Iranian civilisation if the regime did not meet his terms. For ten and a half hours, the world wondered how seriously to take this astounding threat. Then he backed down, citing progress in negotiations. The next day he sounded cheerful. “This could be the Golden Age of the Middle East!!!” he posted on Truth Social, adding: “Big money will be made.”

The liberation of Kuwait from the Middle East’s most torture-happy despot marked a high point of American power—a unipolar moment after the end of the cold war. It also pushed Bush’s approval rating at home to nearly 90%. Democrats as well as Republicans applauded. Mr Trump’s war has been less well-received.»

Donald Trump’s ceasefire shows how America has changed

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This text is part of an article that was published on April 9th, and since then, Mr. Trump has proclaimed victory several times, threatened to annihilate Iran, and announced imminent agreements. There is a chasm between the US with a president like George H.W. Bush and the US with a cheerleader like Donald Trump.

22/05/2026

CASE STUDY: A IN sai mais barata do que a IA

«Em Fevereiro, a Cortical Labs, uma startup australiana, anunciou que um programador havia ensinado um de seus "computadores biológicos" - feito de 200.000 células cerebrais humanas montadas em um chip de silício - a jogar "Doom", um clássico jogo de tiro em primeira pessoa. A empresa já havia ensinado um grupo de neurónios a jogar o muito mais simples "Pong". No entanto, suas ambições são muito maiores do que os videogames. Espera que os neurónios, embalados em "computadores biológicos" supereficientes e encaixados em racks em data centers convencionais, um dia ocupem seu lugar ao lado dos chips de silício carregados de transistores que definiram a computação convencional nos últimos meio século.

No coração do sistema de Cortic está uma matriz de milhares de pequenos electrodos, sobre os quais estão os neurónios criados a partir de células-tronco retiradas de um doador humano. A matriz permite que um computador convencional capte a actividade elétrica gerada por esses neurónios e os estimule com actividade eléctrica própria. Os neurónios são mantidos vivos até seis meses por tubos e bombas que fornecem oxigênio e nutrientes, e removem resíduos celulares como o dióxido de carbono. Tudo está embalado em uma caixa projetada para caber nos racks padrão de servidores usados em data centers comerciais.

Os neurónios oferecem várias vantagens em relação à electrónica na computação, diz Hon Weng Chong, chefe da Cortical. Eficiência é uma delas. Modelos modernos de inteligência artificial consomem energia em milhões de watts. Esse consumo de energia tornou-se uma das maiores barreiras ao crescimento do sector. Os neurónios, por outro lado, consomem pouca energia: um cérebro humano típico, composto por quase 90 bilhões deles, consome cerca de 20 watts.

Sofisticação é outra. Os transistores de que são construídos os computadores são pequenos interruptores que podem estar em dois estados: ligado ou desligado. Os neurónios são mais complexos. O comportamento deles depende de vários factores, incluindo a voltagem através da membrana celular e de quanto tempo não recebem sinais de outros neurónios. Arquitecturas de computadores existentes também armazenam informações em locais distantes do processamento real. A Micron, grande fabricante de chips de memória, estima que até metade do orçamento energético de um processador de IA convencional é gasto para transferir dados. Também causa engarrafamentos, pois os dados são trocados de um lado para o outro. Cérebros misturam dados e processamento lado a lado, minimizando tais questões logísticas.»

Why a startup is teaching human brain cells to play “Doom”

21/05/2026

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (81) - "Quem é capaz, faz, quem não é, ensina"

Outros portugueses no topo do mundo.

Seis escolas de gestão portuguesas atingiram boas posições no ranking mundial do Financial Times de formação de executivos. Está a ser um acontecimento muito festejado, com razão, visto que entre as noventa escolas do ranking encontramos seis portuguesas, o que corresponde a 6,7% das escolas do ranking, um excelente resultado para um país que representa apenas 0,13% da população e 0,29% do PIB nominal mundial.


Como é que tão excelente resultado nas escolas de gestão se explica num Portugal dos Pequeninos que é um desastre em matéria de gestão das empresas e, sobretudo, do Estado? Uma vez mais, só me ocorre a explicação de George Bernard Shaw na sua peça "Man and Superman": «Those who can, do; those who can’t, teach».
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A posição das universidades portugueses no ranking das 90 é a da primeira coluna (#).

19/05/2026

Crónica da passagem de um governo (50b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 50a)

Lost in translation

Uma auditoria do IGF aos Regimes Fiscais de Ex-Residente e Residente Não Habitual concluiu que «a despesa fiscal do regime de RNH registou um acréscimo significativo de 2019 a 2024, respetivamente, de 619,7 milhões de euros (M€) para 1.741 M€, em linha com o aumento do número de beneficiários (41.229 para 128.958)».

Essa conclusão foi traduzida pela imprensa doméstica como «Residentes não habituais ‘custam’ 1,7 mil milhões aos cofres do Estado». Se assim fosse, para não custarem esses milhões ao Estado sucial seria preferível dar-lhes guia de marcha para regressarem aos seus países, poupando assim esses milhões ao Estado sucial, levando consigo os investimentos que fizeram e deixando de pagar os impostos que pagaram.

A flexibilidade segundo o Dr. Centeno chama-se rigidez

Em crónica anterior já citei o Dr. Centeno que numa conferência garantiu, que o «mercado de trabalho não tem défice de flexibilidade», emprestando a sua suposta autoridade de economista do trabalho às teses da UGT, ou, mais exactamente, do PS.


Por coincidência, o economista João Tovar Jalles comentou num artigo recente a confusão dos conceitos e publicou os gráficos acima, os quais, mais do que as palavras, mostram um mercado de trabalho português mais protegido e, em consequência, com mais contratos a prazo e mais desemprego jovem, desfazendo as fantasias do Dr. Centeno.

A palavra-chave aqui é “nominal”

O Volume de Negócios nos Serviços (VNS) registou no 1.º trimestre um crescimento nominal homólogo de 2,1%, o que seria uma boa notícia, não fora a inflação que fez do crescimento uma queda de -1,5% (INE).

Pensamento positivo

O Dr. Miranda Sarmento, que prometeu um novo bónus das pensões este ano «se houver margem orçamental», é o mesmo que admite que a dívida pública no final do ano represente 85% ou 86% do PIB, apesar de no final do 1.º trimestre andar pelos 91% e a conjuntura internacional não mostrar perspectivas cor-de-rosa.

O Dr. Montenegro tem concorrência socialista à esquerda e à direita…

O Dr. Carneiro faz o que entende lhe compete como opositor socialista e leva da UGT ao colo, o Dr. Ventura vai para além da oposição socialista de esquerda e acrescenta o aumento das férias à redução da idade de reforma em troca de um acordo no Código do Trabalho.

… e, não obstante, almeja uma maioria absoluta para o que pretende dilatar Portugal

Pelo menos foi o que disse na apresentação da sua candidatura a líder do PS-D sob a bandeira originalíssima «Fazer Portugal Maior»

18/05/2026

Crónica da passagem de um governo (50a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
O governo do Dr. Montenegro continua a obra de ampliação do Estado sucial

O Dr. Montenegro está a mostrar-se um sucessor à altura do Dr. Costa que recebeu 655 mil funcionários públicos do “neoliberalismo” (que, por sua vez, herdou 730 mil do socialismo socrático) e aumentou esses efectivos para mais de 740 mil. O Dr. Montenegro está a continuar a expansão e só no primeiro trimestre deste ano acrescentou mais uns milhares ao pletórico aparelho atingindo 767 mil utentes da vaca marsupial pública.

O Estado sucial-pulicial

O consenso no seio do governo sobre o aumento dos efectivos policiais não podia ser mais completo. Já sabíamos que o Dr. Luís Neves atribuiu o desgoverno das polícias e a incompetência das respectivas chefias à falta de efectivos, falta que deve ser dos poucos problemas que as polícias portuguesas não têm (cfr. a série de posts Vivemos num estado policial?). Ficámos agora a saber que o próprio Dr. Montenegro prometeu aos autarcas alfacinhas e tripeiros mais 400 polícias e o comandante-geral da GNR já anunciou que vai exigir 1.800 militares para a reactivação da Brigada de Trânsito extinta em 2007 para optimização de meios e eficiência administrativa. 

O Estado sucial já está no futuro

Todas as projecções confiáveis apontam para a insustentabilidade do sistema português de Segurança Social dentro de uma dúzia de anos, isto é, por volta de 2038 as contribuições deixam de ser suficientes para cobrir as despesas com pensões e, a partir daí, outra meia dúzia de anos depois, o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social poderá ficar esgotado. 

Com a Caixa Geral de Aposentações (CGA) – a segurança social dos funcionários públicos – não será preciso esperar tanto tempo. As despesas com pensões pagas pela CGA. que cresceu mais de 7% o ano passado (fonte Conta Geral do Estado), vão exigir que os montantes transferidos do OE, que em 2024 já foram superiores a 7 mil milhões de euros, terão de ser uma vez mais aumentados.

A prioridade do governo é antecipar a insustentabilidade da SS

É nesse contexto que ganham sentido as promessas do ministro das Finanças que, parecendo ter mais juízo do que o Dr. Matias, afinal talvez não tenha, ao prometer um novo bónus das pensões este ano «se houver margem orçamental», fazendo depender da gestão de tesouraria a antecipação de um longo prazo insustentável.

O Dr. Matias e a IA

Na falta de reformas com impacto efectivo na máquina burocrática do Estado sucial com os seus referidos 767 mil utentes, que consome 43% do que o país produz, dos quais mais de 86% são despesa primária, o Dr. Matias, ministro Adjunto e da Reforma do Estado, esfalfa-se a falar dia sim, dia sim na IA, que para ele parece cada vez mais consistir na construção de centros de dados para consumir resmas de MW produzidos por resmas de painéis solares fabricados na China que alimentam resmas de processadores desenhados nos EUA e fabricados em Taiwan para armazenar resmas de dados europeus. É um desperdício de inteligência natural.

A Inteligência Artificial de Sines não é ficção científica, é apenas ficção

Se não fosse a retórica do Dr. Matias não ter aparentemente limites, diria que teria atingido o ápice com a sua grandiloquente afirmação numa qualquer das inúmeras conferências onde derrama as suas visões de que «hoje Sines é um polo tecnológico de ponta. Hoje já é produzida Inteligência Artificial em Sines, não é ficção científica».

(Continua)

17/05/2026

Small facts that can help someone understand the big ones


Listing some trivial facts that help to understand why a government with the most powerful army in the world has been unable to win in Vietnam, Iraq, Afghanistan and, after 11 weeks, not only failed to defeat the ayatollahs of Iran, but also managed the feat of granting them control of one of the most important areas on the planet.

It is said that a Japanese soldier imprisoned in WWII, when asked which were the best armies fighting in the jungle, replied: the Japanese and the Australians. When asked about the Americans, he said that the Americans didn't know how to fight in the jungle; they destroyed the jungle.

Eighty years later, the same mindset leads Americans to raze entire city blocks and use multimillion-dollar missiles to shoot down $50,000 drones, and inspires the army of their Israeli disciples to destroy tens of thousands of homes and kill tens of thousands of civilians, only to have to do it repeatedly soon.

Donald Trump once criticized the «interventionists» for «intervening in complex societies that they did not even understand themselves», which was an avant la lettre good explanation for his own failure to anticipate that the ayatollahs would be willing to let themselves and their people be killed.

16/05/2026

Javier Milei ganhou uma batalha. Ganhar a guerra é outra coisa e, a ser possível, levará algum tempo (3)

Continuação de (1), (2)

Já o escrevi e repito: uma criatura com instintos liberais vê com natural simpatia os esforços de Javier Milei para pôr em prática políticas visando emagrecer o Estado dinossáurico argentino e dar aos argentinos liberdade para viverem as suas vidas sem o jugo de uma "casta" extractiva. Também escrevi que a política é a arte do possível e acrescento que o possível para um governo democrático é um possível mais limitado do que o possível numa autocracia. 

E o possível na Argentina está chocar de frente com uma economia a tropeçar (o PIB caiu 2,6% em Fevereiro, a inflação subiu 3,4% em Março e o desemprego continua a aumentar) e os escândalos a crescerem, como o da criptomoeda $LIBRA promovida por Milei que se suspeita ter recebido pagamentos como consultor dos promotores, uma criptomoeda que um desastre para a maioria dos seus detentores (uma minoria "bem informada" vendeu antes do descalabro), ou o escândalo do chefe de gabinete Adorni a ser investigado por corrupção.

Fonte

Por tudo isto, a queda abissal da taxa de aprovação de Milei não é surpreendente. O que é uma surpresa para quem o imaginava com fortes convicções liberais é estar a fazer o que fazem os regimes autocráticos: inventar um inimigo.


É possível que a imprensa argentina esteja infestada pelo jornalismo de causas, acontece um pouco por todo o lado, mas os factos são os factos e as mentiras combatem-se com factos. A invenção de um inimigo por Milei não é original; quase todos os governos, com pouca consideração, to say the least, pela liberdade de expressão e pela democracia, a usam.

15/05/2026

ARTIGO DEFUNTO: A ecoansiedade e os delírios do jornalismo de causas

Para me poupar a citar excertos do artigo “Será que a zona onde vivemos continuará habitável?”: Quatro em cada 10 jovens hesitam ter filhos por causa das alterações climáticas, cito o resumo gerado por AI que segundo o Expresso reza assim:

«Estudo revela que quatro em cada dez jovens portugueses hesitam em ter filhos devido às alterações climáticas. A ecoansiedade, definida como medo crónico de catástrofe ambiental, surge como determinante nas decisões reprodutivas. 

Investigação do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto mostra que jovens com motivos ambientais apresentam três vezes mais ecoansiedade.»

Quanto ao primeiro estudo «Young People's Voices on Climate Anxiety, Government Betrayal and Moral Injury: A Global Phenomenon», foi publicado em 2021 na revista Lancet Planetary Health, é da autoria de uma equipa cujos membros publicaram um único paper - o paper em causa - e foi financiado pela AVAAZ, uma ONG que se define como «the campaigning community bringing people-powered politics to decision-making worldwide» e tem como fundadores vários notórios ideólogos do áctivismo online.

Esquecendo a óbvia falta de credibilidade dos "investigadores" e da entidade financiadora (é assim como militantes da CDU fazerem um estudo financiado pela CDU sobre a falência do capitalismo), o certo é que o estudo não revela uma especial preocupação dos jovens portugueses pelos supostos impactos das mudanças climáticas já que em relação à "ameaça à segurança familiar" se preocupam tanto quanto a média dos jovens dos 10 países considerados, e quanto "hesitação sobre ter filhos" preocupam-se menos.

Quanto ao segundo estudo, a conclusão é perfeitamente tautológica e não careceria de estudos: é claro que «jovens com motivos ambientais» teriam forçosamente de ser mais ecoansiosos, seja lá o que isso for. 

Pordata
Daí concluir, como o faz uma "investigadora" citada no artigo, que a baixa de fertilidade é consequência da ecoansiedade é uma conclusão audaciosa. Pela razão simples de que, como o diagrama mostra para Portugal (em outros países ocidentais a evolução é semelhante) a baixa da fertilidade precedeu em décadas as preocupações ambientais, baixa que toda a gente com juízo sabe ter resultado da "igualização" das mulheres e foi tornada possível pela acessibilidade dos anticoncepcionais e tornada inevitável pela entrada maciça das mulheres no mercado de trabalho.

14/05/2026

You can't fool all of the people all the time (14) - Mr. Trump is hitting rock bottom in every area

Other "You can't fool all of the people all the time."

YouGov

Inflation, employment, foreign policy, immigration, or crime - take your pick.

Men or women, young or old, white or black, illiterate or with a doctorate - take your pick.


What's hard to understand for a creature with a modicum of mental sanity isn't why the net approval rating is so low. What's hard to understand is why it isn't lower.

13/05/2026

SERVIÇO PÚBLICO: Desfazendo o mito do efeito milagroso dos fundos europeus

«... os fundos europeus, longe de promoverem convergência, funcionam como uma «pílula envenenada» para países receptores, incluindo Portugal. Estas transferências sustentam um Estado ineficiente, alimentam clientelismo político, e distorcem a alocação de recursos para sectores não-transacionáveis. Ao reduzirem a pressão para reformas estruturais, os fundos perpetuam a baixa produtividade e o atraso económico. Décadas de apoios não geraram convergência real com a Europa rica. Terminar com os fundos de coesão traria benefícios substanciais a longo prazo, tanto para os contribuintes líquidos como para os próprios beneficiários.»

Nuno Palma anunciando o seu novo livro: «O Vício dos Fundos Europeus», no Portugal no longo prazo, em mais «Uma obra de demolição de alguns dos mitos mais populares no Portugal dos Pequeninos»

12/05/2026

Crónica da passagem de um governo (49b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 49a)

Esta reforma laboral não resolveria a falta de competitividade e de produtividade, mas mal não faria (Marcos 16:18)

Morreu na praia o acordo com a UGT, que representa 7% trabalhadores do sector privado, e a CGTP, que praticamente só representa os trabalhadores com emprego vitalício, não chegou a embarcar.

«O governo quer dar aumentos salarias de 6,2% para 111 mil trabalhadores do privado com retroativos a março»

É este o título para parolos do Jornal Eco (com títulos assim deveria mudar de nome para jornaleco) para noticiar o expediente que se repete todos os anos das “portarias de extensão", expediente pelo qual os contratos colectivos negociados pelos sindicatos que representam um décimo ou menos dos trabalhadores influenciam 90% dos contratos de trabalho, em empresas e sectores sem condições para pagarem a bitola das maiores empresas e continuarem competitivos.

A bazuca do Dr. Montenegro é maior do que a do Dr. Costa

mais liberdade

Enquanto esperamos que o Portugal dos Pequeninos tenha «todas as condições para se tornar um líder mundial na IA», por que não…

… clarificar as dúvidas sobre aplicação do IVA de 6% na construção que fizeram cair os licenciamentos em 16% em Janeiro e Fevereiro; licenciar parques autónomos de baterias que limitariam as consequências dos apagões; antecipar os 10 anos previstos para a operacionalidade completa do SIRESP que é um dispositivo que anda por aí há mais de 10 anos, em cujo lançamento esteve envolvido o Dr. Costa e o seu melhor amigo Dr. Lacerda Machado.

Incompetência até a gastar o dinheiro da Óropa

O Portugal 2030, que é uma espécie de herança do Portugal 2020 que não foi cumprido, só está executado a 18% (a menor percentagem da UE), encaminhando-se assim para se transmutar num Portugal 2040.

Canários na mina de carvão

O piar dos canários ouve-se cada vez mais. O emprego parece ter atingido o seu ápex e começou a cair enquanto a taxa de desemprego está a subir (fonte INE); a dívida pública aumentou 0,5 mil milhões de euros em março e atingiu 91,0% do PIB no primeiro trimestre do ano (fonte BdP.

Hoje há conquilhas, amanhã logo se vê (os tugas não estão a ouvir os canários)

Surdos ao piar dos canários, os particulares contraíram novos empréstimos num montante que ultrapassou pela primeira vez 4 mil milhões de euros num mês, o valor mais elevado desde 2003 (fonte BdP), e compraram quase 100 veículos até Abril, outro recorde, desta vez desde 2005.

11/05/2026

Crónica da passagem de um governo (49a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Os portugueses «vão ter razões para confiar no SNS»

Dados do SNS citados pelo Expresso mostram a continuação da degradação do SNS que é cada vez mais da responsabilidade do Governo da AD. Ainda assim, não faz sentido branquear as enormes responsabilidades da governação socialista nessa degradação por via da gestão ideológica da Dr. ª Marta Temido. Mais 20 mil médicos e 53 mil enfermeiros e muito mais horas extraordinárias não foram suficientes para compensar a reversão para 35 horas e a incompetência de gestão que o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares sacode com grande desvergonha ao descartar-se: «as causas são todas responsabilidade do governo». Um dos hospitais que mais se degradou foi o Hospital de Loures, em tempos uma PPP bem-sucedida.

O Dr. Centeno pode ter saído do governo e do BdP mas o narcisismo sonso não saiu dele

Como explicar que a «ideia que está a amadurecer» do seu livro de memórias tenha sido com imensa antecedência e muito desvelo revelada pelo semanário de reverência não em uma, mas em duas peças, uma no caderno principal e outra no caderno de economia (este, uma espécie de resumo, sem link)? Aguardo ansiosamente as suas memórias na esperança de que nos revelem o desdobramento de personalidade que permitiu ao Dr. Centeno, ministro, nomear o Dr. Centeno governador.

(Quase) Todos os políticos são mentirosos, mas há uns mais mentirosos do que outros

Em Novembro de 2023, o Dr. Costa demitiu-se jurando que o seu amigo Dr. Lacerda Machado (ler aqui uma breve resenha sobre essa amizade) nunca lhe tinha falado sobre o projeto Start Campus. Não é verdade que se apanha mais depressa um mentiroso do que um coxo porque a verdade levou três anos para emergir das escutas divulgadas pela TVI e CNN Portugal que revelam o Dr. Costa a dizer ao seu melhor amigo e padrinho de casamento, na véspera de Natal de 2022: «Já sei que foste lá dar boas notícias ao Vítor.» 

O óbvio ululante. Eu diria mesmo mais

No seu relatório sobre Portugal, o FMI aconselha a reversão das «isenções do imposto sobre o rendimento das pessoas singulares específicas para jovens que aumentam os custos fiscais e introduzem distorções, sem evidência clara de eficácia na contenção da emigração juvenil» e «não são sujeitas a critérios de rendimentos, ao mesmo tempo que impulsionam a procura e contribuem para agravar os desequilíbrios». (fonte) Já o tinha dito várias vezes nestas crónicas.

O novo MAI mostra a sua costela socialista

O Dr. Luís Neves não se tem cansado de atribuir o desgoverno das polícias e a incompetência das respectivas chefias à falta de efectivos, que deve ser um dos poucos problemas que as polícias portuguesas não têm (no caso de dúvida, cfr. a série de posts Vivemos num estado policial?)

As rotundas do governo

Um dos expediente dos autarcas para mostrar obra feita é construírem rotundas inúteis em cruzamentos em que a esmagadora maioria do tráfego é num único sentido, rotundas que são muito mais visíveis e muitíssimo mais baratas do que reparar os quilómetros de estrada em mau estado que por elas atravessam. À falta de rotundas, o Dr. Miguel Pinto Luz anunciou o «início do serviço fluvial em junho entre o Seixal e o Barreiro» ao fim de semana, iniciativa que é coisa para servir prá aí uma dúzia de pessoas.

Na ausência do PCP, o Chega assusta o patronato?

Pelo menos foi o que o JE escreveu: «foi a proposta do Chega de reduzir a idade de reforma em troca de um acordo no Código do Trabalho que assustou a CIP» e levou a ceder «em toda a linha à UGT»

Por que não resistem os governos ao show-off?

O governo PS-D/CD-S não resistiu e o ministro das Finanças já confirmou que vai “melhorar e calibrar” as medidas do governo PS em 2022, nessa altura classificadas como demagógicas pelo Dr. Montenegro, para tributar os “lucros extraordinários das petrolíferas. Bem pode o Dr. Pardal “melhorar e calibrar” os 5 milhões de euros de 2023, ou seja, 10% da receita que o governo do Dr. Costa previa.

Boa Nova. O exército já pode comprar as lagartas de um tanque Leopard

Talvez na esperança de facturar pelo menos os 5 milhões de euros, o governo autorizou o Exército a gastar até 2,2 milhões de euros para comprar viaturas especiais, o que é menos de um décimo do custo de um tanque Leopard 2A8.

(Continua)

10/05/2026

Dúvida (367) - Um bicho que se parece com um pato, nada como um pato e grasna como um pato, pode ser um ornitorrinco?

Ceci n'est pas un canard
Distraidamente, não comentei as reacções à derrota eleitoral do Fidesz de pessoas geralmente tidas como conservadoras que se reclamam democratas (alguns até se dizem liberais), concluindo que essa derrota demonstraria que, afinal, Viktor Orbán era um democrata e a Hungria uma democracia plena.
 
Nunca pensei que a Hungria governada pelo Fidesz já fosse uma ditadura - era mais uma democracia avariada. Porém, isso não era por causa de Viktor Orbán e do Fidesz; era, apesar deles, que tudo fizeram para se perpetuarem no poder, como aqui se exemplificou, e disso extraírem vantagens.

Concluir que Viktor Orbán era um democrata e a Hungria uma democracia plena é parecido com concluir que as acções erráticas de Donald Trump escondem uma estratégia coerente que escapa aos não iniciados ou, para dar um exemplo doméstico, é parecido com concluir que a defesa da redução da idade da reforma pelo Dr. Ventura não é um oportunismo irrealista de um demagogo e antes resulta de uma estratégia sofisticadíssima para encostar ao PSD à parede promovendo as ideias do PS e assim chegar à maioria. 

Como explicar que pessoas inteligentes e cultas conseguem imaginar que um bicho que se parece com um pato, nada como um pato, grasna como um pato, acasala com patas, não é um pato, é um mamífero que põe ovos? Não me ocorre explicação melhor do que a de Leor Zmigrod no seu The Ideological Brain.

09/05/2026

Zugzwänge para Vladimir (continuação)

Continuação daqui

...  a invasão da Ucrânia a que chamou pudicamente "operação especial", que era para durar uma semana e já vai, se não estou enganado, em 218 semanas...

«Russia's internal expectations for the war were remarkably short. Documents found inside Russian tanks described how the "special military operation" would conclude in just ten days. Ukraine also captured "flagship" tanks — the kind used in parades — along with military parade uniforms, suggesting that Russia expected to stage a victory parade in Kyiv after a swift campaign. Wikipedia

The broader picture painted by the evidence is even more striking. After the invasion began, Ukrainian and Western analysts assessed that Putin seemed to have believed Russian forces would be capable of seizing Kyiv within days, leading to the conclusion that "taking Kyiv in three days" had been the original goal. This narrative was reinforced by statements from Aleksandr Lukashenko and Margarita Simonyan, editor-in-chief of Russian state broadcaster RT. The Security Service of Ukraine also released a video showing a captured Russian soldier claiming his unit had been sent into Ukraine with food supplies for only three days. Wikipedia

Russia's invasion plan involved defeating Ukraine within ten days and capturing or killing its government, followed by "mopping up" operations, establishing filtration camps, setting up occupation regimes, and eventually annexing territory. Wikipedia

Three days after the invasion began, the Russian state news agency RIA Novosti mistakenly published a pre-written article called "Russia's Coming and the New World," prepared in anticipation of a quick Russian victory, which announced that "Ukraine had returned to Russia." Wikipedia

Of course, none of this came to pass. By April 2022, the invasion's initial goal of a rapid victory via decapitation had failed, with Ukraine pushing back the northern arm of the invasion and preventing the capture of Kyiv. The war has now dragged on for over three years, becoming the largest conflict in Europe since World War II. Wikipedia»

Resposta do Claude Sonnet 4.6. da Anthropic à pergunta «When Russia invaded Ukraine, what was the Russian government's prediction for the duration of the so-called "special operation"?»

08/05/2026

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Zugzwänge para os compadres Vladimir e Donald

Secção Tiros nos pés

Já várias vezes evoquei (aqui, acolá e acoli, por exemplo) o Zugzwang, do alemão zug (jogada) e zwang (compulsão), que é a situação no xadrez em que, em consequência das jogadas anteriores, um jogador é obrigado a fazer a jogada seguinte da qual sairá em pior situação.

Volto a fazê-lo desta vez para caracterizar a situação em que se colocaram no tabuleiro internacional os compadres Vladimir Putin e Donald Trump, o primeiro com a invasão da Ucrânia a que chamou pudicamente "operação especial", que era para durar uma semana e já vai, se não estou enganado, em 218 semanas, e o segundo com o Great and Beautiful Bombardment (GBB) dos aiotolás, que era para durar o que Bibi achasse necessário, e já vai em 6 semanas e vários anúncios de Total and Complete Victory

Quanto a Vladimir Putin, as coisas vão de mal a pior e, segundo um ex-alto funcionário do governo russo, enfrenta uma situação de perfeito Zugzwang, situação que, com os mesmos critérios, tomo a liberdade de atribuir a Donald Trump e, já agora, ao seu ajudante, o secretário de Estado da Guerra, Pete Hegseth.

É assim que, não sem algum Schadenfreude, concedo o máximo de cinco Zugzwänge (plural de Zugzwang) ao primeiro e quatro ao segundo (o quinto poderá ser atribuído em breve). A Pete Hegseth não atribuo nenhum - é apenas um secretário.