Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
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Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
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» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

14/07/2026

Crónica da passagem de um governo (58b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 58a)

Mais um exemplo de montar a “transição digital” em cima do imobilismo medieval

Em síntese, que admito ser simplista, a bagunça das classificações dos exames nacionais do secundário resulta de deixar tudo na mesma e criar uma superestrutura “moderna” sobre processos antiquados, altamente centralizados, da responsabilidade de serviços artríticos. Digna de estudo psiquiátrico é a reacção das lideranças governativas tentando instilar optimismo e chutar o problema para a frente, em contraste com as lideranças de oposição acusando a falha do governo de «insensibilidade atroz».

O Dr. Matias teve uma nova epifania

Para nos entreter enquanto não nos tornarmos «um líder mundial na IA», o Dr. Matias, ministro das Reformas, num intervalo da sua louvável campanha épica para retirar ao Tribunal de Contas o seu papel de empata nas decisões públicas, em concorrência desleal com os 11 governos que andam há 23 anos a empatar o novo hospital de Lisboa, produziu uma vibrante declaração de princípios, ou mais exactamente, de fins. Segundo ele, a reforma do Estado «consiste em resolver problemas dos portugueses». Peço desculpa por discordar, mas a reforma do Estado consiste em resolver problemas do Estado que dificultam aos portugueses resolver os seus próprios problemas.

E se em vez de nos tornarmos «um líder mundial na IA», nos tornarmos um líder nos apagões (continuação)

Já o escrevi, a estratégia proposta pelo Dr. Matias de fornecer aos grandes operadores de centros de dados energia eléctrica abundante e barata produzida em "fazendas" de painéis solares chineses, terá como consequência aumentar o stress da rede eléctrica até ao ponto de rutura do sistema, como concluiu o Relatório de Monitorização da Segurança de Abastecimento do Sistema Elétrico da Direção-Geral de Energia e Geologia. No meio do silêncio ensurdecedor das luminárias deste país apenas a voz de Miguel Stilwell se fez ouvir sobre o risco de «socialização do custo da energia» resultante da proliferação dos centros de dados (apud Bruno Faria Lopes).

Canários na mina de carvão

Apesar dos esforços do governo secundados pela imprensa amiga de animar os animal spirits keynesianos, depois de um primeiro trimestre com crescimento nulo, para o segundo as previsões das pitonisas de serviço variam entre 0,2% e 0,4% o que, em seguida à estagnação do 1.º trimestre, não é muito animador. A queda em Maio do índice de produção industrial também não é uma boa notícia. Só o turismo continua a crescer – e também a compra de automóveis, uma consequência imprevista, mas habitual, dos fundos da bazuca, suspeito.

Do lado do comércio externo até Maio também não há motivos de celebração com a queda de 0,2% das exportações, o aumento de 3,5% das importações e o agravamento de 14,4 mil milhões do défice (fonte),

Estamos a crescer mais do que a Óropa, já dizia o Dr. Costa e com ele o Dr. Castro Almeida

A maioria dos políticos parecem pensar que faz parte do seu papel infantilizar o eleitorado, dando boas notícias e praticando um optimismo de pacotilha (foi o Animal Feroz quem disse que um político é um profissional do optimismo, quando deveria dizer que é um profissional da aldrabice). O ministro da Economia, Dr. Castro Almeida, também parece praticar este mantra quando diz à SIC Notícias «que Portugal está a crescer pouco, mas está a crescer bastante acima da média europeia», como se fizesse algum sentido um país que tem um PIB per capita que é menos de metade dos países mais ricos e onde a produção da AutoEuropa (um investimento da VW), que em Portugal representa 1% do PIB, representaria no seu país de origem 130 vezes menos, crescesse abaixo desses países.