Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

28/09/2020

Crónica da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa (52) - Em tempo de vírus (XXIX)

Avarias da geringonça e do país seguidas de asfixias

A raposa vai ficar no galinheiro a tomar conta dos ovos

O Expresso, pela pena de um dos ouvidos do Dr. Costa, informa-nos que «o governo vai criar comité para supervisionar obstáculos na aplicação dos fundos», presidido pelo Dr. Costa para «garantir autoridade política».

O Dr. Costa tem a paixão dos planos

O Eng. Guterres tinha a paixão da educação - deu no que deu. O Dr. Costa tem a paixão dos planos e está a dar no que já deu e vai dar: «Uma década para Portugal» (o relatório dos 12 sábios, entre eles o Dr Centeno, escalpelizado na série de posts dos amanhãs que cantam do PS), o Programa Eleitoral do PS, o programa de governo do PS, os múltiplos planos sectoriais e por último a Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030. Ainda a tinta deste último não secou e já o governo incluiu nas Grandes Opções do Plano a recuperação do estudo Porter pedido por Mira Amaral em 1994. Ora se há líquidos não miscíveis é a metodologia de Porter - uma abordagem microeconómica - e os devaneios poéticos macroeconómicos do Dr. Costa Silva.

O Dr. Pedro Nuno Santos é um verdadeiro socialista

Recordam-se da polémica do risco de infecção nos comboios (superlotados), risco negado pelo ministro dos comboios com amianto? Pois bem, foi publicado um estudo da Universidade do Porto a partir do qual o Dr. Santos, com a ajuda do diário de manhã, resolveu concluir «que não existe ligação direta entre as infeções da covid-19 e utilização do transporte ferroviário na Área Metropolitana de Lisboa. Como se conclui lendo o estudo, esta tese não é concluível do estudo, é antes uma espécie de facto alternativo.

O Zeppelin do Dr. Galamba

O Dr. Galamba, o criador do elefante branco da cor do hidrogénio verde, produziu há dias um pensamento: «a introdução do hidrogénio aumenta o valor económico de cada euro investido em eletricidade». Não entendem? Eu também não, mas entendo que, segundo as estimativas de Abel Mateus, o «hidrogénio verde vai aumentar fatura do gás em cerca de 20%», o que não admira porque só para começo de conversa o governo vai torrar 900 milhões. E também entendo que os gestores da Fusion Fuel, que têm um projecto para produzir hidrogénio verde em Sines, são também os gestores de duas empresas com várias acções judiciais e vários pedidos de insolvência.

«Estamos preparados»

Um estudo da Associação dos Administradores Hospitalares e da Ordem dos Médicos estima que com uma possível «segunda vaga da pandemia» até ao final do ano fiquem por fazer mais de 10 milhões de consultas nos centros de saúde e mais de 2,2 milhões nos hospitais e 214 mil cirurgias. Mesmo sem segunda vaga, os dados disponíveis até Agosto tornam essa estimativa muito plausível. Isso e os efeitos secundários do confinamento, sobretudo nos idosos, explica o excesso de óbitos não Covid em relação à média que as estatísticas evidenciam.

Cuidando da freguesia eleitoral / Um dia ainda vamos ser todos funcionários públicos

Em Junho já eram mais de 705 mil funcionários públicos, um aumento de 15 mil em 12 meses. A remuneração média mensal aumentou 3,3%. Enquanto isso, aumenta o desemprego e diminui o salário entre os párias que não foram abençoados com uma tença pública.

27/09/2020

"Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes"

Expresso de 22-09-2020

No último dos "Encontros fora da Caixa" promovidos pelo banco público que já custou aos contribuintes vários milhares de milhões de euros e pelo semanário de reverência Expresso, encontro que juntou umas dúzias de luminárias, entre as quais o escritor Gonçalo M. Tavares e o músico Pedro Abrunhosa, reflectiu-se sobre a salvação de Portugal pelo plano dos Costas para torrar 26 mil milhões de euros em dez anos, e produziram-se ideias, entre as quais a que o Expresso justamente destacou. Ditosa Pátria que tais Filhos tem.

Dúvidas (287) – Irá o Brexit consumar-se? (XIX) - Done? Undone yet!

O último post desta série tinha no título «Done» e o título deste oito meses depois é um exemplo de que o futuro é geralmente difícil de prever, salvo no caso da Rússia em que o passado é ainda mais imprevisível do que o futuro.

Porque está o Brexit a falhar em toda a linha, ao ponto do governo de BoJo propor ao parlamento uma violação do tratado que assinou em Janeiro com a UE?  Certamente porque uma reforma desta magnitude está a ser conduzida como uma questão eleitoral. Em primeiro lugar, porque o referendo convocado por Cameron foi um expediente para evitar perder as eleições para o UK Independence Party de Nigel Farage. Em segundo lugar, porque a campanha pelo Brexit foi promovida por todos os partidos com mentiras e meias verdades e os eleitores, nomeadamente os restos da classe operária que rejeitaram o esquerdismo de Corbyn, votaram no Brexit proposto pelos conservadores com base em premissas falaciosas. Em terceiro lugar, porque um referendo sobre uma questão complexa como esta é de legitimidade duvidosa porque a maioria dos eleitores não tem a informação fiável indispensável nem condições para avaliar as alternativas - é por isso que a democracia liberal assenta na representação e existem os parlamentos.

No passado, as grandes reformas no Reino Unido foram longamente discutidas e preparadas. As reformas mais importantes envolveram trabalhistas e conservadores durante décadas que recorreram intensamente uma instituição tipicamente britânica - o think-tank. A criação do Estado Social pelos trabalhistas no pós-guerra conduzida pelo governo trabalhista de Clement Attlee foi uma ideia e um projecto amadurecido entre as duas guerras. O beco sem saída do Estado Social trabalhista abriu a oportunidade à reforma conduzida pelo governo de Margaret Thatcher que adoptou as políticas liberais inspiradas por Friedrich Hayek e propostas pelo Centre for Policy Studies. Nada disto se passou, está a passar ou improvavelmente se passará no caso do Brexit onde o debate está sufocado pela demagogia. Não vai acabar bem e o Partido Conservador vai ser o primeiro a pagar a factura. Talvez então Boris Johnson perceba que está tão longe de ser Winston Churchill como Theresa May de ter sido Margaret Thatcher.

26/09/2020

Ser de esquerda é... (8)

... defender que "arte independente" é a arte que depende do Estado.

Dúvidas (320) - Também já tive essas dúvidas

«É possível uma democracia com uma sociedade fraca e dependente do Estado, e um Estado dependente de ajudas externas, ou por outra palavras: é possível uma democracia sem verdadeira autonomia dos cidadãos e da sua comunidade política? É possível uma democracia com um Estado ocupado há um quarto de século por um mesmo grupo partidário, sem perspectivas de alternância, a não ser em caso de catástrofe? É possível uma democracia onde o poder é sustentado por partidários confessos de ditaduras? É possível uma democracia com instituições minadas por suspeitas de amiguismo e de corrupção? É possível uma democracia onde décadas de estagnação económica e de constrangimentos financeiros tiraram qualquer relevância a propostas de governo alternativas? É possível uma democracia onde, por tudo isto que ficou dito, mais de 50% dos eleitores já não parecem acreditar que valha a pena votar? É possível uma democracia onde, com esse nível de abstenção, o governo pode perpetuar-se confiando apenas no voto fiel da minoria de clientes e beneficiários do poder, como nos regimes não democráticos do passado português?

E se uma democracia não é possível assim, como devemos chamar a um regime com estas características? Talvez que, por pudor ou à falta de melhor palavra, se lhe tenha de continuar a chamar “democracia”. »

Dúvidas que só podem ser retóricas porque Rui Ramos sabe muito bem qual é a resposta. Pela minha parte chamo-lhe, por enquanto, democracia asmática.

25/09/2020

SERVIÇO PÚBLICO: Recomendação de leitura

Mitos e falácias sobre o IRS em Portugal um artigo de Carlos Guimarães Pinto com rigor e uma clareza meridiana que desfaz as construções ideológicas que a esquerdalhada costuma fazer com o IRS e o seu papel no sistema fiscal.

Dúvidas (319) - Já estarão a faltar condecoráveis para S. Ex.ª precisar de os exumar?

Alguém pode explicar porque carga de água o prof Marcelo foi agora condecorar postumamente Ruben A., um escritor falecido há 45 anos, que já havia sido condecorado em 1973 com a Ordem do Infante, uma condecoração apropriada a um escritor que viveu e ensinou no estrangeiro? Sim, eu sei que é este ano o centenário do nascimento de Ruben A., mas, nesse caso, irá S. Ex.ª condecorar em cada ano os escritores que nasceram cem anos antes? Ainda para mais S. Ex.ª condecorou-o com a Ordem Militar de Sant'Iago da Espada que não parece ter nada a ver com o condecorado.

23/09/2020

CASE STUDY: Trumpologia (70) - Como e porquê o discurso de Donald Trump seduz os seus adeptos?

Mais trumpologia.

Tenho procurado entender como e porquê o discurso errático, contraditório, recheado de imprecisões ou mesmo mentiras puras e duras, de Trump seduz os seus adeptos. Eis uma das melhores respostas que encontrei (Donald Trump’s language offers insight into how he won the presidency):

«Toda a gente sabe como imitar Donald Trump. Na fala, adopta o seu timbre rouco, volume estridente e ritmo start-stop. Ao escrever, acrescenta “grandiosamente”, coloca em maiúsculas "frases substantivas emocionais" e termina tudo com um ponto de exclamação. Essas peculiaridades de enunciação e grafia tornam Trump fácil de imitar, mas não explicam facilmente o seu sucesso político. A maneira como ele constrói as frases, no entanto, oferece algumas postas sobre como ele conquistou a presidência.

A base da linguagem distinta de Trump é uma extrema confiança no seu próprio conhecimento. Como Steve Jobs - que inspirou seus colegas da Apple ao fazer o impossível parecer possível - o Sr. Trump cria seu próprio “campo de distorção da realidade”. Um de seus tropos característicos é “poucas pessoas sabem ...” Ele apresentou a natureza complexa dos cuidados de saúde, ou o facto de que Abraham Lincoln foi o primeiro presidente republicano, como verdades que são familiares apenas a alguns. Uma frase de efeito relacionada é “ninguém sabe mais sobre ... do que eu”. Os campos de especialização que Trump promoveu dessa forma incluem financiamento de campanha, tecnologia, políticos, impostos, dívida, infraestrutura, meio ambiente e economia.

Seus críticos muitas vezes atribuem isso ao narcisismo, mas uma explicação complementar é que também é um de seus pontos fortes - técnica de vendas. O Sr. Trump apresenta-se como estando na posse de informações raras. Ele é, portanto, capaz de fazer um acordo especial com um cliente “que muitas pessoas não conhecem”. Se você ficar tentado a levar sua empresa para um concorrente, ele irá lembrá-lo de que “ninguém sabe mais sobre” o que está em oferta do que ele.

22/09/2020

SERVIÇO PÚBLICO: "A coisa mais perigosa sobre o coronavírus é a histeria" (6)

Este post é uma continuação de (1), (2), (3), (4) e (5) e está relacionado com a série De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva.

Alguém pode explicar-me o racional da onda histérica que assola de novo este e outros países?

O número de infectados está a crescer? Qual é a admiração? Então não estão a fazer-se muito mais testes e esta pandemia não é considerada muito contagiosa? E qual é o problema? Se não há uma vacina, nem haverá antes de muito tempo, como se consegue a chamada imunidade de grupo que é a única forma eficaz de combater uma pandemia?  

Nos cornos da covid

As mortes estão a aumentar? Aumentar em relação a quê? No gráfico compara-se a taxa diária de óbitos de 20 países da UE tomando como base a população portuguesa e é visível a redução na maioria dos países da taxa diária em Setembro comparativamente com Abril. E ninguém se preocupa com o excesso de mortalidade não Covid resultante da falta de resposta dos serviços de saúde em consultas e cirurgias concentrados no que é actualmente uma causa secundaríssima de mortalidade?

21/09/2020

Crónica da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa (51) - Em tempo de vírus (XXVIII)

Avarias da geringonça e do país seguidas de asfixias

A «contradição íntima» do Dr. Costa

Foi assim que a ministra da Justiça se referiu ao apoio público ao presidente do Benfica, pela pertença do Dr. Costa, em parelha com o seu putativo sucessor Dr. Medina, à comissão de honra do Sr. Vieira, um candidato acusado de vários crimes e um dos maiores devedores ao Novo Banco e beneficiário de um perdão de 225 milhões.

O plano dos Costas, a derrota histórica das ideias ultraliberais e os amanhãs que cantarão

Numa das suas muitas apresentações da Estratégia para Plano de Recuperação Portugal 2020-2030, o Dr. Costa (Silva) anunciou a «derrota histórica que a realidade impôs a ideias ultraliberais» e postulou que «não é o mercado que nos vai salvar, é o Estado, são os serviços públicos». A um leigo, pode parecer ridículo atribuir a falência do Estado Sucial português às ideias ultraliberais porque se é certo a governação das últimas décadas já foi inspirada pelo comunismo, pelo esquerdismo infantil, pelo socialismo e pela social-democracia, não se encontra o menor vestígio de doutrinas liberais e, quanto ao mercado, tem sido uma espécie de resíduo do Estado Sucial. Porém, o paraministro Dr. Costa (Silva) não é um leigo, é um «engenheiro poeta», é «alguém que aceita fazer um plano destes», como observou Aguiar-Conraria.

Só alguém que aceita fazer tal plano se lembraria de deixar cair a bitola europeia, que só serviria para ligações baratas para exportação, e volta a apostar na alta velocidade Lisboa-Porto que é uma coisa inadiável para fazer reuniões de negócios, como alternativa ao Teams e ao Zoom. Também só alguém com o perfil do Dr. Costa (Silva) estaria capacitado para prever que «vamos piorar antes de melhorar». É certo quanto ao vamos piorar teve a ajuda de S. Ex.ª (ver secção seguinte) e quanto ao vamos melhorar teve a ajuda de todos os visionários que nas últimas décadas prognosticaram amanhãs que cantariam.

«Queda monumental»

Não sendo certo que o pessimismo seja suficiente, em todo o caso o Conselho das Finanças Públicas prevê uma queda do PIB de 9,3% este ano. Tem-se sido dito que o impacto das medidas da pandemia é mais forte em Portugal pelo maior peso do turismo. Também a produção automóvel, destinada em 86% à exportação, caiu este ano 32% até Agosto. O mesmo raciocínio levaria a concluir que a construção, que é um dos sectores menos dependentes da procura externa, deveria estar a cair menos do que na Europa. Na verdade, é o contrário: aumentou 0,2% na zona euro, caiu 0,1% na UE e caiu 4,3% em Portugal,

20/09/2020

Os Oscares esquizofrénicos do politicamente correcto e da ideologia do género

No dia 8 a Academy of Motion Picture Arts and Sciences que atribui os Oscares anunciou os Representation And Inclusion Standards for Oscars Eligibility que serão aplicáveis gradualmente a partir de 2022 e integralmente a partir de 2024, como condição para um filme poder ser premiado.

Os standards, de uma complexidade kafkiana, são organizados em quatro standards: A - Representação, tema e narrativas, B - Liderança criativa e equipa do projecto, C - Acesso e oportunidades e D - Desenvolvimento da audiência. 

Em todos os standards existem critérios de género (e deficientes cognitivos ou físicos) e de seis minorias e uma sétima «Outra raça ou etnia pouco representada» para incluir os bosquímanos do Kalahari.

No standard A, por exemplo, é preciso cumprir pelo menos um de três critérios: A1 - pelo menos um dos actores principais ou secundários significativos tem de pertencer um grupo étnico ou racial; A2 -  pelo menos 30% de todos os actores secundários têm de pertencer a pelo menos dois de quatro grupos minoritários e A3 - o enredo principal é centrado em um dos referidos grupos minoritários.

Nos grupos minoritários incluiu-se LGBTQ +. Imagino que o símbolo "+" signifique que a Academia possa ir adicionando novos géneros de entre os 112 "géneros", incluindo o meu favorito;
«Verangender: a gender that seems to shift/change the moment it is identified.»

19/09/2020

De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva (39) - Experiências fora da caixa (3)

Este post faz parte da série De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva e é uma continuação de Suécia - "É uma questão de liberdade, não de epidemiologia" e de Experiências fora da caixa (1) e (2).

Recapitulando: a Suécia adoptou uma abordagem desalinhada inspirada por uma valorização da liberdade de escolha estranha à cultura portuguesa. Por isso, apesar de ter registado um número de óbitos por milhão de habitantes (580) sempre inferior aos da Bélgica (857), Espanha (650) e Itália (590), a sua experiência foi geralmente vilipendiada pelos mídia portugueses que não apreciam liberdades. 

worldometer

A comparação dos 580 óbitos por milhão de habitantes com os 186 de Portugal é só uma parte da história porque o excesso em relação à média de mortalidade sueco já é inferior ao português, apesar das medidas serem muito menos drásticas. A evolução comparativa mostra o número de diário de novos casos mais estabilizado (comparar gráficos de cima) e o número de morte em decrescimento constante, ao contrário do caso português (gráficos de baixo), acresce que provavelmente a população sueca com imunidade adquirida é muito superior a portuguesa. Sem esquecer que o impacto na economia foi menos pesado na Suécia em que a variação homóloga do PIB no segundo trimestre foi de -7,7%, uma queda que é menos de metade dos -16.3% de Portugal.