Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

27/07/2026

Crónica da passagem de um governo (60a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
A bazuca de pólvora seca. Desta vez também não foi diferente

Para quem tivesse dúvidas, o PRR - a bazuca do Dr. Costa - , que até agora despejou mais de 13 mil milhões, vinha condicionada à adopção de centenas de medidas e reformazitas, teve o destino que tiveram grande parte dos donativos que os contribuintes europeus (nomeadamente os alemães) nos têm vindo a conceder com os resultados conhecidos que, para simplificar, se reduzem em grande parte a projectos inviáveis que o dinheiro grátis tornou viáveis e a  alimentar o consumo de bens duradouros (*). Quanto às centenas de medidas e reformazitas (que deram origem a seis “reprogramações”) foram sendo “ajeitadas”: 112 das 117 investimentos previstos há três anos forem modificados e só 28 das 44 reformas não foram alteradas.

(*) Vem a propósito lembrar que as vendas de veículos ligeiros no 1.º semestre aumentaram 10,5%, o dobro do aumento na UE (recorde-se que a taxa de motorização no Portugal dos Pequeninos já está acima da média da UE). Sendo certo que correlação não é causação, pedi a um chatbot estimativas do coeficiente de Pearson (uma medida estatística para medir o grau de relação linear entre duas variáveis) entre os valores anuais da entrada de fundos europeus nos últimos 30 anos e o volume anual de vendas de veículos ligeiros em Portugal (com um atraso de 1-2 anos) que estimou valores no intervalo 0,65-0,80 o que se considera uma correlação moderada-forte.

O que começa mal é difícil acabar bem

O SIRESP é um zingarelho que suporta o sistema de comunicações de segurança e emergência (o mesmo que falhou rotundamente nos incêndios de 2017), gerido por uma empresa pública com o mesmo nome, criada pelo Dr. Costa como MAI, com a ajuda do seu amigo Dr. Lacerda Machado, que custou até agora mais de 700 milhões de euros. Actualmente, a NOS fornece o suporte de comunicações utilizado pelo SIRESP. Foi responsabilizada pelas suas falhas no ano passado, e o seu presidente lava as mãos do assunto, explicando que não teve qualquer intervenção no desenho do sistema, que tem inúmeras deficiências e limitações de cobertura e deveria ser suportado pelas redes comerciais existentes, como acontece em muitos países.

É preciso ser muito saudável para resistir a tanta doença (continuação)

Segundo o Relatório sobre Emprego e Formação, no ano passado o número de baixas por doença dos 5,3 milhões de empregados em Portugal aumentou 8,4% para quase 1,6 milhões, das quais se estima em meio milhão as “autobaixas” em que o trabalhador se declara incapaz para trabalhar. Se imagina que a maioria dessas baixas foi dos velhotes, imaginou mal – metade dessas baixas foi de jovens entre os 25 e 39 anos, os quais, contudo, representam apenas cerca de 30% do total.

O Dr. Ventura hesita entre o Estado Novo e o Estado Socialista

Copiando Andy Burnham, novo primeiro-ministro e o líder do Partido Trabalhista mais esquerdista desde o trotskista Jeremy Corbyn, o Chega anunciou que vai propor ao parlamento a eliminação do IVA sobre a eletricidade a partir de 2027. Nem Burnham nem o Dr. Ventura explicaram onde vão espremer os contribuintes para compensar a receita fiscal perdida (umas centenas de milhões de euros no caso do Dr. Ventura).

(Continua)

25/07/2026

JD Vance, Trump's running mate, the righteous hypocrate, from Never Trump to Ever Trump and beyond (4)

Sequel to (1), (2), (3)

«Why is a smart man spending so much time saying stupid things? The simplest explanation is that Vance believes his voters are stupid. Or as Vance himself told Rogan last week: “There’s a real populism that I’m very much a fan of because I think you should be responsive to people, but there’s, like, a faux populism of: The way that I’m going to appeal to people is by assuming that they’re idiots and acting like they’re idiots.”

This is admission by analysis. All politicians pander, but the best of them do it with some finesse. Vance, who struggles through the most basic photo ops, is not one of the best; his two successful elections are both testaments to Trump’s political muscle. In 2022, when he was a U.S. Senate candidate, I included Vance in a round-up of very intelligent Republicans who were clumsily pretending to be fools for electoral purposes. Vance seems to have doubled down on the strategy since then, but each new incident just offers more evidence of his dripping disdain for voters’ intelligence.

This may not be the wisest political strategy, H. L. Mencken notwithstanding. Vance’s approval ratings have been underwater for more than a year, and the Never Trump pollster Sarah Longwell recently conducted a focus group with Trump voters and found that Vance has left them cold. Either way, Vance’s performance plays as tragicomedy: comic because he’s so bad at it, but tragic because of who Vance was not that long ago. Much has been made of his critique of Trump in his 2016 Atlantic essay, and although his flip-flop on the president is astonishing, he has also reversed himself on a more fundamental view of politics.

In that essay, he criticized the demagogic tendency to condescend to people in so-called flyover country, where he grew up—to view them as yokels who could be easily manipulated with simplistic talking points and grievance plays. The harms that Trump identified, Vance wrote, “demand serious thought and measured action—from governments, yes, but also from community leaders and individuals.” Trump, he argued, was cynically co-opting those harms for his own gain and doing Americans a disservice. That Vance was right; this Vance doesn’t seem to care.»

J. D. Vance Isn’t a Fool. Why Does He Act Like One?, David A. Graham, The Atlantic

24/07/2026

Cada macaco no seu galho

Enviaram-me o meme aqui ao lado, ironizando as dificuldades de expressão de Jorge Jesus, novo seleccionador nacional e contrastando o seu conhecido défice de verbo com um salário várias vezes superior ao do Dr. Montenegro, a quem sobeja o verbo.

Achei o meme irritante por a piada se fundar em vários equívocos e preconceitos muito frequentes entre a intelectualidade merdosa do nosso Portugal dos Pequeninos que considera o futebol uma actividade imprópria de gente com status e vê os seus profissionais, geralmente gente pouco ilustrada, provenientes de uma casta inferior, ignorando serem os poucos profissionais cujo desempenho se faz em muitos casos num mercado internacional aberto e competitivo, com muito maior frequência do que qualquer outra profissão.

A piada só teria graça se Jorge Jesus fosse pago para fazer discursos, como muitos políticos cuja actividade se reduz a isso. Por exemplo, como o Dr. António Costa que disse de uma só vez uma pletora de alarvidades, como  “poder-lhe-dizia” (“podia dizer-lhe”), “competividade” (“competitividade”), “era o que eu estou” (“era o que eu estava”), “pulação” (“população”),  “protividade” (“produtividade”), “mobilição” (“mobilização”), “precalidade” (“precaridade”) (Cfr aqui). 

Diferentemente, Jorge Jesus é pago para conseguir resultados como os alcançados em vários clubes de Portugal, Brasil, Turquia e Arábia Saudita: Benfica (10 títulos), Al-Hilal (6 títulos), Flamengo (5 títulos), Sporting CP (2 títulos), Al-Nassr (1 título), Fenerbahçe (1 título).

23/07/2026

TIROU-ME AS PALAVRAS DE BOCA: O Portugal dos Pequeninos e o neoliberalismo que é afinal a economia de compadrio

«Há uma fraude intelectual no centro do debate político português, e é esta: a ideia de que Portugal é, ou alguma vez foi, uma economia liberal entregue à selva dos mercados. Sempre que algo corre mal — os salários baixos, a emigração, a habitação, a pobreza — a culpa é atribuída ao “neoliberalismo”, ao “mercado”, ao “capitalismo selvagem”. É uma mentira, e das mais consequentes que contamos a nós próprios, porque o diagnóstico errado garante o tratamento errado. O doente não morre de excesso de liberdade. Morre da sua ausência. (...)

No capitalismo de mercado, enriquece-se servindo melhor o cliente do que o concorrente. Ninguém está protegido, o consumidor é o árbitro e a falência é a sanção sagrada que liberta o capital mal empregue para quem o emprega melhor.

Na economia de compadrio é tudo ao contrário: O Estado escolhe os vencedores, os subsídios vão para os amigos, as normas são escritas para matar os pequenos e blindar os grandes já instalados e o lucro não vem do cliente, vem do lobbying. Deixa de se ganhar criando valor e passa a ganhar-se comprando um favor.»

Excerto de O Estado-empresário: Cinco séculos a fazer o mesmo, Pedro Santa Clara

22/07/2026

Crassus fits Donald better than Caligula (2) - They both should have listened to omens, curses, and advice from allies

As remembered by a Reader of The Economist «it would be more appropriate to compare Mr Trump to another Roman leader, Marcus Licinius Crassus.»

For those who don't know or have forgotten, as Crassus left Rome for his campaign in 55 BC, a tribune named Ateius Capito staged a ritual, burning incense and pronouncing dreadful curses upon Crassus for launching an unprovoked war.  When his army crossed the Euphrates River into enemy territory, a sudden thunderstorm ripped through the camp, destroying boats and blowing away the military standards. Crassus dismissed it and refused the advice of the King of Armenia, who urged him to take a mountainous route where the enemy cavalry would be useless. Instead, Crassus trusted an Arab guide who was secretly a double agent for the Parthians, leading the Romans directly into the open desert.

The Parthians deployed thousands of horse archers. Crassus ordered his men into a tight defensive square (the testudo), expecting the enemy to run out of arrows. Surena had anticipated this. He brought a vanguard of 1,000 baggage camels loaded with millions of extra arrows. The Parthian archers continuously reloaded, maintaining an unstoppable, hours-long hail of arrows that pierced Roman shields and hands.

Crassus's son, Publius, was killed in a desperate counter-charge. Utterly demoralized and surrounded, the Roman lines collapsed. Crassus was killed during botched peace negotiations after the battle. Around 20,000 Roman soldiers died, and 10,000 were captured. According to a famous legend recorded by the historian Dio Cassius, the Parthians poured molten gold down Crassus's throat after his death as a symbol of his insatiable avarice. 

Rome viewed eastern nations as "barbaric" and naturally inferior. To have over 30,000 Roman citizens slaughtered or captured by the Parthian Empire shattered their national pride. The defeat triggered a deep-seated public fear in Rome that the Parthians would launch a counter-invasion of Syria or the wider Roman East. Crassus had been the financial and political buffer between Julius Caesar and Pompey the Great. The loss of his army collapsed the First Triumvirate, removing the final obstacle to the civil war that destroyed the Roman Republic.

Karl Marx observes in his 1852 essay, The Eighteenth Brumaire of Louis Bonaparte, that significant historical events and figures occur twice: the first time as grand, genuine struggles (tragedy), and the second time as empty, ridiculous caricatures of the original (farce).

[Story told with the help of Gemini]

21/07/2026

Crónica da passagem de um governo (59b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 59a)

A almofada dá para dormir por dois anos e picos. Depois logo se vê

O Instituto de Gestão de Fundos de Capitalização da Segurança Social anunciou com grande alegria que o FEFSS está prestes a atingir os 50 mil milhões, o que será suficiente para pagar as pensões durante 28 meses. Qualquer tuga com menos de 70 anos deveria ficar preocupado porque os fundos privados portugueses de pensões só representam cerca de 20 mil milhões e abrangem cerca de 1,2 milhões de pessoas. É claro que sempre os governos portugueses poderão objectar que, aqui ao lado, em Espanha, as reservas só chegam para um mês de pensões ou que na Bélgica só chegam para 3 anos e esquecerão cuidadosamente (eles e o Dr. Sousa Tavares) que as reservas totais dos Países Baixos são suficientes para 30 anos de pensões.

Take Another Plan. Mme Ourmières-Widener está de volta

Em retrospectiva, Mme Ourmières-Widener, foi apresentada pelo Dr. Pedro Nuno como uma experiente gestora internacional que salvaria a TAP e acabou a ser despedida com alegada justa causa pelo seu envolvimento na renúncia/demissão da Dr.ª Alexandra Reis, renúncia/demissão que fora aprovada pelo Dr. Pedro Nuno (via WhatsApp) e que a IGF considerou ilegal. Mme Ourmières-Widener está a pedir em tribunal uma indemnização de 5,9 milhões e deu um primeiro passo para ganhar a acção porque o STJ decidiu que o diferendo deveria ser resolvido por um tribunal cível e não por um tribunal administrativo como a TAP defendia.

Portugal no topo da OCDE

mais liberdade

A economia pode ter caído quatro lugares no ranking europeu do PIB per capita em PPC mas está no topo da rigidez laboral na OCDE, de onde resultará certamente estar igualmente no topo da “precariedade”, que é a irmã gémea do emprego vitalício.

Amália, um chatbot genuinamente patriota

Os primeiros testes públicos do chatbot Amália, que, segundo o Dr. Montenegro, é um LLM e cujo financiamento total atingirá 7 milhões de euros (e que, segundo o modelo Gemini do Google, não deveria custar mais do que um sexto disso), mostram-no mais vulnerável a “alucinações” do que o Dr. Montenegro, o que não é dizer pouco. Entretanto, ficou a saber-se que uma equipa de linguistas está a usar o Amália na “identificação de narrativas dominantes em artigos noticiosos de natureza manipuladora” e na “deteção de técnicas de persuasão em conteúdos jornalísticos”. Os serviços do Secretariado Nacional de Informação do Estado Novo teriam dado um grande préstimo ao Amália.

É nestas alturas de enrascanço que os instintos socialistas se tornam irreprimíveis 

A  ministra do Ambiente ameaça fixar as «margens máximas em qualquer uma das componentes comerciais que formam o preço de venda ao público». E por que não a ministra da Saúde mandar retirar nas horas de ponta 3 graus à temperatura medida pelos termómetros para diminuir a afluência às urgências dos hospitais?

20/07/2026

Crónica da passagem de um governo (59a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
No melhor pano cai a nódoa mais visível

A bagunça das classificações dos exames nacionais do secundário é vergonhosa porque o que falhou são coisas que qualquer organização medianamente apetrechada e provida de gente competente resolveria sem problemas. Ainda assim, para dizer uma verdade simples e certamente impopular, seria disparatado concluir daí que deveria demitir-se ou ser demitido um ministro que em dois anos fez mais sem grandes alaridos do que o resto do governo (ver aqui o relato de João Duque). Seja como for, o atraso de alguns dias é uma gota de água no oceano dos atrasos sistemáticos no Estado sucial que nalguns casos se medem por décadas.

Então porquê tanta agitação? Simples, meu caro Watson. Porque o que o ministro fez interessa a poucos (os pais que se interessavam e têm dinheiro já inscreveram os filhos nas escolas privadas) e desagrada a muitos, a começar pelos exércitos de profs pastoreados pela Fenprof e açulados pelo Stop, que querem esperar sossegados pela reforma, e a acabar nos profs das universidades adeptos da endogamia e nos “investigadores” adeptos dos subsídios. Exagero? Nem por isso, veja-se a alegria com que os profs a quem o jornalismo de causas dá voz incitam os alunos a pedir revisão das provas na esperança de que a multiplicação dos pedidos prolongue a bagunça.

Teoria da relatividade

Não vou comparar o atraso de alguns dias na publicação das classificações dos exames com o atraso de muitas décadas do novo aeroporto de Lisboa (cuja capacidade estaria esgotada em 2007 ou 2008) nem mesmo compararei com os 23 anos do novo hospital de Lisboa, comparo apenas com a autorização ambiental da central solar Fernando Pessoa cujo processo de avaliação demorou três anos e anda por aí desde 2024.

Miudezas no Portugal dos Pequeninos

O Dr. Luís Neves, ministro da Administração Interna, até recentemente o único ministro estimado pelo PS, nos seus anos à frente da Polícia Judiciária (Judite), soube-se agora, envolveu-se numa série de indescritíveis trapalhadas menores que vão desde um tanque-piscina ilegal até obras no seu retiro alentejano feitas por um empreiteiro amigo com contratos com a Judite e um atrelado com produtos suspeitos (ler aqui a estória).

Não é preciso que algo mude para ficar tudo na mesma

Ao arrepio da larga maioria do jornalismo de causas e da comentadoria, quase metade (48%) dos eleitores preferem que o governo do Dr. Montenegro se arraste até ao fim do mandato e consideram que o actual titular e o desafiante Dr. Carneiro se equivalem na mediocridade com vantagem para o primeiro (fonte)

O salário único (excepto o dos apparatchiks) a caminho do socialismo

mais liberdade

Há um ministro que parece já ter percebido o lado B dos "centros de dados"

Já o escrevi várias vezes: a estratégia de fornecer energia eléctrica abundante e barata produzida em "fazendas" de painéis solares chineses a centros de dados com chips produzidos em Taiwan a processarem dados do resto do mundo com software desenvolvido nos EUA, tem várias consequências, desde logo o aumento do stress da rede eléctrica. Por agora, só o Eng. Pinto Luz, ministro das Infraestruturas, parece ter percebido que esses investimentos assim, sem mais, arriscam a que o Portugal dos Pequeninos seja «quase a lixeira da Europa».

(Continua)