Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

17/02/2026

Crónica da passagem de um governo (37b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 37a)

Os portugueses «vão ter razões para confiar no SNS»

Seria estúpido atribuir ao governo do Dr. Montenegro responsabilidades pelo essencial dos problemas do SNS, como têm feito, explícita ou implicitamente, a oposição e a comentadoria afecta. O governo é apenas responsável pela falta de medidas ou por medidas erradas para resolver esses problemas, o que não é pouco.

Um indício dessa falta ou inadequação de medidas são os montantes crescentes da despesa com a saúde, sempre insuficientemente financiadas, como revela um balanço provisório de 2025 da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) que, apesar de um aumento dos “rendimentos operacionais”, ou seja verbas atribuídas pelo OE 2025 aos hospitais, mostra prejuízos de 2,7 mil milhões com vários indicadores a continuarem negativos, como um decréscimo das intervenções cirúrgicas, do número de partos e das urgências e de um aumento das listas de espera de consultas e cirurgias, não obstante o aumento do número de médicos e enfermeiros (fonte: relatório Desempenho do SNS Dezembro 2025).

Quem também se queixa por o número de doentes transferidos para o sector privado terem vindo a diminuir, apesar das listas de espera estarem a aumentar, é a Associação Portuguesa de Hospitalização Privada (APHP), cujo presidente afirma que «as listas de espera são tidas como um instrumento de remuneração dos profissionais do SNS», o que parece ser verdade.

O Dr. Montenegro deveria agradecer ao Dr. Carneiro

Sob a pressão interna da coligação de viúvos do Eng. Sócrates e do Dr. Costa com o berloquismo e o geringoncismo socialistas, o Dr. Carneiro faz apelos ao recém-eleito PR (o Tozé, odiado por essa coligação) para empurrar o Dr. Montenegro a negociar com o PS. Empurrão que, se for atendido, sugere que o Tozé não tem afinal as qualidades de independência que o cargo requer e, se não for, sugere que o Dr. Carneiro é um líder fraco expondo-o à coligação.

Para resolver uma oferta insuficiente aumenta-se a procura

A Mouse School of Economics, cujas recomendações inspiraram a governação socialista, foi substituída pela São Caetano School of Economics cujos ensinamentos nos dizem que para responder uma oferta insuficiente se deve aumentar a procura. E foi inspirado nesses ensinamentos que o governo lançou o Programa Crédito Habitação Jovem do qual resultou um considerável aumento dos empréstimos para compra de habitação pelo escalão etário 18 e 35 anos que no ano passado representaram 60% dos 39,3 mil milhões de novos empréstimos com as previsíveis consequências no nível de preços.

Canários na mina de carvão

Mais alguns pios dos canários: se por um lado o emprego aumentou o ano passado (ver A economia do pastel de nata tem o melhor desempenho este ano), por outro, a produtividade do trabalho estima-se que terá diminuído o ano passado 1,3%, as exportações de bens aumentaram 0,5% e as importações subiram 4%, de onde o défice da balança comercial aumentou 3,8 mil milhões.
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BlogoEscola. Princípio de Peter vs. Efeito de Halo

[Esta nova secção propõe-se mitigar o risco de infecção das mentes dos visitantes deste blog pelo vírus da tendência para o bitaite de alguns comentários.]

O efeito de halo no domínio da psicologia, que citei no post anterior, foi enunciado em 1920 pelo psicólogo Edward Lee Thorndike para designar o viés cognitivo que leva as pessoas a projectar uma imagem de outra pessoa baseada nas percepções das suas performances num domínio para outros domínios. Por exemplo, concluir-se que a Dr.ª Maria Lúcia Amaral sendo uma jurista emérita deveria ser uma ministra competente.

Diferentemente, o princípio de Peter no domínio da gestão foi enunciado cinco décadas depois em 1969 por Laurence J. Peter e formalizou a observação de que os empregados são promovidos na hierarquia de uma organização com base no seu sucesso em cargos anteriores até atingirem um nível de incompetência. Por exemplo, um excelente escriturário do MAI ser sucessivamente promovido até director dos Serviços de Gestão Orçamental e Financeira do MAI.

16/02/2026

Crónica da passagem de um governo (37a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Ferrovia 2020 2027 Um dia

O Dr. Costa foi para a Óropa e deixou o Ferrovia 2020 com 37 mil dias de atraso no total dos troços. Agora o Tribunal de Contas vem concluir que, decorridos 10 anos do seu lançamento, a grau de realização física global está em 65%. Num país em que o governo diz ter «todas as condições para se tornar um líder mundial na IA» não se consegue cumprir um plano que usa tecnologias da revolução industrial (é uma boutade).

Um país opaco não é transparente

Segundo o índice de percepção da corrupção de 2025 da Transparência Internacional, o nosso Portugal dos Pequeninos desceu mais uma posição no ranking para 46.º com um score inferior ao dos EUA, o que, nos tempos que correm, não é dizer pouco. Ao mesmo tempo, o MP voltou a escarafunchar a moradia do primeiro-ministro, desta vez por suspeita de benefícios fiscais indevidos. Por isso, ou bem o Dr. Montenegro é um evasor fiscal ou bem o MP tem uma agenda política ou bem ambos desempenham os respectivos papéis.

Mais uma vítima do efeito de halo

A Dr.ª Maria Lúcia Amaral é considerada uma jurista muito competente. Como juíza do Tribunal Constitucional foi o único juiz que, contra a corrente, não chumbou sistematicamente todas as medidas negociadas pelo PS do Eng. Sócrates (nunca é demais lembrar) para que o governo de Passos Coelho cumprisse o Memorando da troika. Mais tarde, foi eleita provedora da Justiça e posteriormente foi convidada e aceitou (e não devia) a nomeação como ministra da Administração Interna, cargo que desempenhou mal no geral e ainda pior na comunicação, e por isso foi triturada pela oposição. Demitiu-se há dias na pior altura, em plena crise das tempestades, e constitui mais um exemplo de que não se deve projectar o desempenho de uma pessoa num domínio para outro.

Outra vítima do efeito de halo ou será um beneficiário dos “esquemas”?

É difícil encontrar uma razão para um enfermeiro, ainda que dotado de uma graduação em Gestão de Projectos, sem qualquer conhecimento ou experiência profissional do domínio da energia, ser nomeado para a coordenação da EMER 2030, um zingarelho para acelerar o licenciamento de projetos de energias renováveis.

Enquanto esperamos que o Portugal dos Pequeninos tenha «todas as condições para se tornar um líder mundial na IA», por que não…

mais liberdade

… simplificar a imensa burocracia que é um obstáculo à inovação e à iniciativa empresarial (que é pouca mesmo sem esses obstáculos).

Mudam-se os tempos e os governos, não se mudam as vontades

Há dois anos, o actual ministro das Finanças, Dr. Miranda Sarmento, criticou, e bem, o governo do Dr. Costa por emitir Certificados Especiais de Dívida de Curto Prazo (CEDIC) para fabricar uma descida do rácio de dívida pública, visto que as emissões de CEDIC não são consideradas pela UE nesse rácio. Dois anos depois, o mesmo Dr. Miranda Sarmento, faz uma emissão maciça de 22 mil milhões de euros que se fosse pela via normal das OT aumentaria mais de 7 pontos percentuais ao rácio e confirmaria que a dívida excessiva continua a ser um problema do Estado sucial.

Cada macaco no seu galho. O BdP e as tempestades

O Dr. Álvaro Santos Pereira, “o Álvaro” governador do BdP, de quem havia boas razões para ser julgado como uma pessoa provida de bom senso e menos propensa ao bullshit do seu antecessor Dr. Centeno, resolveu fazer o papel do outro produzindo juízos críticos sobre as falhas da resposta do governo às tempestades, o que tem tanto sentido como o presidente da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil produzir bitaites sobre a supervisão bancária.

(Continua)





14/02/2026

Duvidas (386) - Tem a certeza de que não trocou emails com o Jeffrey?

Por força da lei aprovada em Novembro, o Departamento americano  de Justiça publicou em 30 de Janeiro mais de 3 milhões de páginas de documentos relativos ao caso Epstein, um volume de informação impossível de ler em pouco tempo. 

Um grupo de engenheiros de software  usando uma ferramenta de IA, identificaram os arquivos contendo emails e em 11 de Fevereiro tinha processado 4 milhões de e-mails. A revista Economist usando esses dados identificou cerca de 500 pessoas que surgiam com mais frequência e usando um modelo de IA de linguagem (LLM) atribuiu um score de "alarme" para cada cadeia de emails.

Analisando os emails de pessoas que não faziam parte dos empregados e colaboradores de Epstein foram identificadas 500 pessoas com maior número de emails. Concluiu-se que as mensagens tinham a seguinte repartição: cerca de 19% com financiadores; 10% com cientistas ou médicos; 8% com pessoas da mídia, entretenimento ou relações públicas; 7% com tecnólogos; 6% com advogados, políticos, académicos e outros empresários; e 5% com magnatas imobiliários. 

Fonte

Algumas dessas pessoas estão identificadas no quadro acima e entre elas individualidades conhecidas fora dos EU, como Ariane de Rothschild (CEO do Grupo Edmond de Rothschild), Noam Chomsky (um célebre filósofo muito apreciado nos meios esquerdistas), Steve Bannon (o Rasputine de Trump) e Bill Gates e Elon Musk que não carecem de apresentação. Entre as personalidades não incluídas no quadro encontram-se bilionários como Peter Thiel (uma eminência parda com quem o vice JD Vance trabalhou) e Ehud Barak (ex-primeiro-ministro israelita).

12/02/2026

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (79) - Vestindo o Coelhinho Mau e tomando antidepressivos

Outros portugueses no topo do mundo.

Enquanto aguarda que o resto do mundo partilhe a epifania do Dr. Matias de que o nosso torãozinho natal tem «todas as condições para se tornar um líder mundial na IA», a tendência patriótica do nosso jornalismo de causas procura sucedâneos. Esta semana encontraram o Super Bowl onde o Coelhinho Mau, um artista porto-riquenho, produziu uma performance que excitou multidões e irritou um certo número de criaturas que logo o quiseram crucificar, não percebendo que essa é a melhor maneira de promover a herói, um artista irritante.
 
[Este episódio pode ser visto como mais um exemplo de que os EU com a sua democracia defeituosa se afastam, cada vez mais, do padrão das democracias liberais, nas quais não passa pelo bestunto das autoridades punirem o mau gosto, deixando à opinião pública o encargo de o julgar e criticar.]

E foi assim que, onde os devotos do MAGA viram motivos de condenação, o nosso jornalismo de causas patriótico encontrou razões de celebração patriótica ao descobrir que a camisola que o Coelhinho Mau usou no Super Bowl foi fabricada em Santo Tirso (ainda que por uma empresa espanhola).

Num outro registo, o mesmo jornalismo poderia celebrar e, incompreensivelmente, não o fez, o número um do ranking europeu da depressão crónica e o número dois do ranking de consumo de antidepressivos da OCDE (fonte) .

11/02/2026

PUBLIC SERVICE: Bring Jimmy Lai Home

«On Monday, Jimmy Lai, the heroic freedom fighter and my dear friend, was sentenced to 20 years in prison by a Hong Kong court. He’s 78. This amounts to a life sentence.

For more than three decades, Jimmy has been a leading voice in the struggle for a free, democratic Hong Kong. Chinese control over Hong Kong has steadily increased since Britain ceded the territory in 1997.»

"Jimmy Lai’s Sentence Tests the Free World", Natan Sharansky, The Free Press

Bring Jimmy Lai Home

10/02/2026

Um vencedor e vários derrotados

[ADVERTÊNCIA: Este post não é leitura recomendável aos espíritos providos de um cérebro ideológico e é absolutamente desaconselhável às mentes desprovidas de senso de humor. A todos recomenda-se ler este post Cum grano salis.] 

O Dr. Seguro que multiplicou as intenções de voto por dez, duplicando o número de votos da 1.ª volta e obtendo mais de 3,4 milhões de votos na 2.ª volta, incluindo mais de três quartos dos eleitores com mais escolaridade, passando a ser o político mais votado de sempre, é incontestavelmente o vencedor das eleições presidenciais.

Entre os candidatos derrotados, que são todos os outros, destaca-se o mais derrotado de todos, o Dr. Ventura, porque perdeu as eleições, apesar de ter obtido mais 400 mil votos da 1.ª para a 2.ª volta, e principalmente porque lhe faltaram mais de 300 mil votos para realizar o seu propósito de ter mais votos do que AD o que, segundo ele, o transformaria no novo líder da direita. Em vez disso, teve de contentar-se com 1.ª posição na demagogia e no número de entrevistas - en passant, deveria reconhecer que o seu discurso de vítima da imprensa "do sistema" só reforça a sua 1.ª posição no ranking da demagogia.

Além dos candidatos, devemos adicionar aos derrotados o Dr. Montenegro que colocou todas as fichas no cavalo errado e tentou esconder-se em S. Bento. 

Quanto aos partidos, todos foram derrotados. Em primeiro lugar, principal e obviamente, a AD porque o seu candidato não chegou à 2.ª Volta. O PS porque a vitória do Dr. Seguro foi contra as principais facções socialistas, desde o costismo e o socratismo (parcialmente sobrepostos) até ao berloquismo e geringoncismo (parcialmente sobrepostos). O Chega porque foi humilhantemente derrotado pelo seu presidente que teve mais 340 mil votos que o seu partido.

E agora? Agora, reconheça-se que ter uma criatura cinzenta, pouco afirmativa e ideologicamente incaracterística, não será o melhor dos resultados. Em todo o caso, foi o único candidato que percebeu a diferença entre ser PR e ser primeiro-ministro e reconheça-se também que é menos mau fazer de Belém um local desinteressante do que fazer de Belém um centro de manobras e de conspiração, como nos últimos dez anos, ou fazer dos próximos cinco anos um centro de comícios, de ruído, demagogia e agitprop. Otto Eduard Leopold von Bismarck-Schönhausen, se por cá andasse, lembrar-nos-ia que «a política é a arte do possível, a ciência do relativo, a arte da aproximação».