Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

13/09/2026

CASE STUDY: O Estado liberal dinamarquês é uma boa solução para os dinamarqueses

Pedro Santa Clara, uma mente liberal na academia portuguesa - uma espécie não protegida mais rara do que o lince da Serra da Malcata num ambiente hostil -, publicou há dias no jornal Eco o artigo «Muito mais liberais do que nós», onde descreve com compreensível admiração o sistema político dos países nórdicos, em especial o dinamarquês. 

Cito, a seguir, uma curta amostra da sua argumentação e remeto para a leitura integral do artigo. 

«A Dinamarca não tem salário mínimo legal. O despedimento faz-se por carta, com aviso prévio, sem tribunal. A maioria dos funcionários públicos tem um contrato igual ao do sector privado. A idade da reforma sobe automaticamente com a esperança de vida desde 2006 e o parlamento votou em maio de 2025 fixá-la em 70 anos para quem nasceu depois de 1970. Dois terços da despesa pública são decididos e executados pelos municípios e não pelo governo central. O IVA é de 25% sobre tudo, sem taxa reduzida para o restaurante nem para a eletricidade. O orçamento teve um excedente de 2,9% do PIB em 2025 e a dívida pública é de 28% do PIB. A Suécia aboliu o imposto sucessório em 2004 e o imposto sobre a fortuna em 2007, e desde 1992 paga a escola que os pais escolherem, pública ou privada, com fins lucrativos ou sem eles. (...)

O consumo final das administrações públicas, que é a medida do que o Estado produz diretamente em escolas, hospitais, tribunais e polícias, é de 26,5% do PIB na Suécia e 23% na Dinamarca. Em Portugal é 16,9%. Em contrapartida, Portugal gasta 13% do PIB em pensões, contra 8 a 9% na Dinamarca e 7 a 8% na Suécia, e passou uma década a pagar juros que os nórdicos não tinham. O Estado nórdico é uma máquina de produzir serviços de qualidade. O Estado português é uma máquina de transferir dinheiro de uns bolsos para outros, com uma comissão elevada pelo caminho.»

Subscreveria sem dificuldade a demonstração de Pedro Santa Clara da superioridade do modelo nórdico para oferecer aos cidadãos uma sociedade livre e próspera. Só não subscrevo a conclusão implícita de que esse modelo é viável num Portugal dos Pequeninos, e não subscrevo por considerar qualquer característica atávica dos portugueses, mas porque os portugueses são eles e a sua circunstância, como notou Ortega y Gasset em relação ao eu.

A circunstância dos portugueses são séculos de história que caldearam uma cultura colectivista e avessa ao risco, como constatou o modelo 6-D de Geert Hofstede (recorrentemente citado neste blogue) e destilaram elites medíocres, como o próprio Pedro Santa Clara implicitamente reconhece num outro artigo (A oferta de estadistas), em que descreve o sistema político português e constata a sua incapacidade para gerar líderes que escapem ao estigma da mediocridade. 

Sendo assim, perguntarão, como é que se chega lá? E eu respondo, não sei se, e não sei como. Não está escrito em parte alguma que todas as nações tenham de ser sempre livres e prósperas e o que não faltam são exemplos de Estados mais ou menos falhados entre os cerca de 200 existentes. Não sei como se chega e suspeito que não se chega com recurso ao pensamento milagroso, por exemplo.  

11/09/2026

As habilidades hermenêuticas do Dr. Centeno

Expresso

mais liberdade

Por que diabo o Dr. Centeno disse o que disse, aparentemente uma barbaridade imprópria de sair da boca de um sábio das finanças públicas, sem receio de ser incinerado na praça pública? Ora, porque o Dr. Centeno sabe que o Eurostat e a Comissão Europeia utilizam o conceito de Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), usado no quadro acima, onde se enquadra a maioria dos fundos que Portugal recebe, conceito que é diferente dos critérios do ministério das Finanças e da contabilidade pública nacional, em que o "Investimento Público" abrange verbas classificadas como capital financiadas diretamente pelos impostos, tais como: 
  • Aquisição de equipamento militar, como fragatas, aeronaves ou sistemas de defesa;
  • Bens de equipamento comuns: veículos, computadores, sistemas informáticos ou equipamentos hospitalares;
  • Subsídios e entradas de capital a empresas públicas: transferências financeiras que o Estado faz para recapitalizar ou cobrir o plano de investimentos de empresas públicas.
E é assim que o Dr. Centeno, abusando das subtilezas da hermenêutica contabilística, obscurece os factos relevantes que (1) são a dependência maioritária dos dinheiros de Bruxelas do investimento do Estado em capital público criador de riqueza e (2) os expedientes que usou durante anos no OE e nas contas públicas para esconder o facto de estar a reduzir o investimento público por trás da aparência de o estar a aumentar (ver o post Investimento público, a autoestrada mexicana do PS).

10/09/2026

Crónica da passagem de um governo (66b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 66a)

Canários na mina de carvão

[Recordo que nas minas de carvão se usavam canários que são muito sensíveis ao monóxido de carbono e ao metano para alertar os mineiros de um perigo iminente.]

Aparentemente está tudo a correr bem na mina. Até uma jornalista íntegra e profissional como Helena Garrido, não sente o cheiro do metano (o monóxido de carbono não tem odor). Estamos a crescer, o desemprego é historicamente baixo, os salários crescem acima da inflação, a dívida pública continua a diminuir e as contas públicas estão equilibradas e, cereja no topo do bolo, a Fitch subiu a notação de A para A+. Até poderia ter celebrado a redução do défice da balança comercial de bens (como este jornal) e não o fez, eventualmente porque olhou para o comportamento do conta corrente e viu esta evolução da balança corrente

Trading Economics

Depois vêm as más notícias. A pior de todas é que a produtividade do trabalho – o indicador crucial que reflecte a capacidade do país criar riqueza – é a quarta mais baixa da UE e voltou a cair no 2.º trimestre

Expresso

A segunda pior é que, se é certo que a dívida pública tem vindo a diminuir, tudo aponta para os juros irem aumentar, como as pessoas mais atentas já perceberam (A subida dos juros vai doer, O acerto de contas chegou) e os mercados já anteciparam, e mostram as yields da dívida colocada nos últimos dias que aumentaram face à últimas emissões 29 (prazos 8,7 e 3,4 anos) e 55 (prazo 8 anos) pontos base. (fonte)

Com o metano a vazar na mina, a gerência acende uma fogueira para aquecer os mineiros

E o que faz o governo para mitigar os riscos externos e internos que ameaçam a economia portuguesa? Ora, faz o que sabe fazer. Em plena orgia de oratória, a propósito das trapalhadas do Dr. Neves, o Dr. Montenegro anuncia o bodo aos pobres com uma descida de IRS e uma gratificação de Natal aos pensionistas. Isto é coisa de pobres com pouca vergonha, o Sr. Trump, que é rico sem vergonha, prometeu USD 5.000 a cada adulto se o seu partido ganhar as eleições intercalares.

09/09/2026

Crónica da passagem de um governo (66a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Coisas que me assombram (1)

O mesmo Ministério Público que correu a abrir um inquérito aos atrasos na digitalização dos exames do secundário empurrou durante semanas com a barriga para a frente a abertura do inquérito às trapalhadas do Dr. Neves. E, tanto quanto se saiba, não foi por pensar que as trapalhadas do tanque-piscina, das obras de 15 mil euros e das outras miudezas, todas por junto, não valeriam o esforço de uma Justiça caquética que anda há mais de uma década a investigar e julgar o Sr. Eng. Sócrates e a sua golpada, a maior desde Alves dos Reis (com um apartamento em Paris em vez de um banco comercial).

Coisas que me assombram (2)

A mesma Inspeção Geral das Atividades em Saúde que abriu uma investigação ao Hospital Garcia de Orta, reconhecido como um dos hospitais onde faltam obstetras, por ter fechado a consulta de IVG (o nome woke de aborto), não se deu ao trabalho de investigar o que se passou com um doente crónico de 70 anos com sinais de AVC que só foi observado 23 horas depois de ter entrado no Hospital Amadora-Sintra com pulseira amarela (atendimento máximo em 1 hora).

Coisas que me assombram (3)

(3a) Para que precisa uma urgência pediátrica de um hospital, na circunstância, o de Dona Estefânia, de 9 (nove) chefes e 
(3b) por que se demitem en masse os 9 (nove) chefes «exclusivamente» das «funções de coordenação e chefia», isto é, das funções para as quais foram nomeados chefes. (fonte)

Governo e oposição encharcam-se em gasolina (alguém poderia acender um fósforo?)

O aumento do preços dos combustíveis é provavelmente uma das poucas coisas sobre as quais governo e oposição nada podem fazer, para além de obrigar os contribuintes a pagar mais impostos para terem combustíveis uns cêntimos mais baratos. Pois é precisamente um dos temas em que o governo e a oposição socialista mais se têm engalfinhado, a propósito do dinheiro que o governo do Dr. Montenegro estaria a ganhar «à custa do sacrifício dos portugueses» e do dinheiro que o governo do Dr. Costa «se fartou de ganhar dinheiro à custa da subida dos preços» (ver aqui um sumário da discussão mais estúpida desde Dona Maria II). É uma mistura inextricável de desfaçatez e ignorância.

O desastre de uma década de políticas educacionais woke e a lei de Merton

Não deveria ter surpreendido ninguém, mas, como sempre, neste Reino de Pacheco nunca se antecipam as consequências do que se faz. Os resultados do PISA 2025 (o Programa Internacional de Avaliação de Alunos da OCDE, trienal, para avaliação do desempenho escolar, realizado desde 2000) caíram como uma bomba. Um recuo de duas décadas no desempenho em Leitura e Matemática.

O Dr. João Costa o último dos ministros de Educação do Dr. Costa mostrou o máximo de seriedade que se pode esperar de um ministro socialista e disse que «não descarta responsabilidades» e remeteu as soluções para «os países [se sentarem] à mesa», se fosse religioso, invocaria o Espírito Santo.

Não vou desenvolver a coisa (o outro contribuinte diz que vai escrever um post sobre esta desgraça educacional e outras) e apenas saliento mais uma aplicação da lei de Merton ou das consequências indesejadas: o facilitismo foi um dos álibis do woke para proteger os pobres e não é que o PISA 2025 revela que os alunos pobres estão quatro anos atrasados em relação aos outros…
 
(Continua)

08/09/2026

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (82) - "Quem é capaz, faz, quem não é, ensina" (II)

Outros portugueses no topo do mundo. Outro "Quem é capaz, faz, quem não é, ensina"

O ano passado, seis escolas de gestão portuguesas atingiram boas posições no ranking mundial do Financial Times de formação de executivos. Este ano, cinco dessas seis escolas (menos a FEP) foram classificadas no ranking Masters in Management 2026 do FT

Financial Times

Tem de se concordar que, para um Portugal dos Pequeninos representando 0,13% da população e 0,28% do PIB nominal mundial, não é coisa pouca ter 5 mestrados em gestão entre os 100 melhores. 

Esse resultado é atingido por um país em que as empresas estão longe de ser um modelo de gestão (com aquelas notáveis excepções que se contam pelos dedos das mãos ou, vá lá, com benevolência, pelos dedos das mãos e dos pés) e a administração pública é o locus privilegiado da incompetência de gestão. Não encontro, por isso, outra explicação além da de George Bernard Shaw «Those who can, do; those who can’t, teach». Com esta ironia não pretende diminuir o mérito de umas dezenas de profs que, ao arrepio do conformismo endémico, não se rendem à cacistocracia dominante.

06/09/2026

LASCIATE OGNI SPERANZA, VOI CH'ENTRATE: Vamos todos fingir que o problema não existe? Sim, vamos (13) - A leveza insustentável do sistema público de pensões (IX)

Continuação de (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10), (11), (12)

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As projecções de Luís Portugal, que conhece bem o tema, num cenário razoavelmente optimista, confirmam que os 42 mil milhões do FEFSS cobrem cerca de um quarto das responsabilidades da Segurança Social por pensões e não dão para mandar cantar um cego, como dizia minha avó. Se adicionarmos as responsabilidades da CGA, que há anos não tem contribuições e é financiada pelo OE, o buraco assume profundidades abissais, como aqui andamos há mais de duas décadas a escrever (ver etiqueta pensões).