Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

04/08/2026

Crónica da passagem de um governo (61b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 61a)

Insanidade é fazer a mesma coisa repetidamente e esperar resultados diferentes (1) - Aumentando a procura e reduzindo a oferta

No segundo trimestre, a utilização da garantia do Crédito Jovem voltou a acelerar e atingiu 56% da verba prevista, tendo financiado a compra de 40 mil casas desde o lançamento do programa em 2025, e representando cerca de um terço do crédito à habitação (fonte). Entretanto, o crédito para construção continuou a desacelerar nos últimos meses.

Insanidade é fazer a mesma coisa repetidamente e esperar resultados diferentes (2) - Os prejuízos são normais o que é extraordinário são os lucros

A tributação dos “lucros extraordinários das petrolíferas, que rendeu 8 milhões de euros em 2023 ao Dr. Costa, ou seja, menos de um quinto da receita prevista, tributação que o Dr. Montenegro classificou em 2022 como demagógica quando estava na oposição, foi aprovada pelo governo na passada quinta-feira sob a forma de uma taxa extraordinária de 33% sobre o excedente superior a 20% da média dos lucros de 2024 e 2025.

O governo devia entregar ao Dr. Neves a construção do novo hospital de Lisboa…

O novo hospital de Lisboa anda por aí há 23 anos e o Dr. Neves mostrou uma notável iniciativa ao despachar os 200 bidons de solventes encalhados no parque da PJ mandados destruir pelo MP, poupando assim os custos dessa operação e dando ao Sr. Carvalho, o empreiteiro amigo, a possibilidade de realizar uns dinheiros com o material, retribuindo a construção do tanque-piscina e de outras benfeitorias no seu monte alentejano.

É claro que tudo isto é censurável e inadmissível no passado de um ministro de um Estado decente. Acontece, porém, que talvez o Estado sucial do Portugal dos Pequeninos não seja um Estado decente e, se for assim, tudo isto é ridículo. É sobretudo ridículo num país em que a chico-esperteza é uma qualidade muito apreciada («fiz no interior desta propriedade o que milhões de portugueses fazem legalmente todos os dias nas suas casas», desculpa-se o ministro), tanto quanto é cultivada a hipocrisia da indignação postiça a clamar a cabeça do homem.

… e usar o exemplo do Dr. Neves para calar o Tribunal de Contas

O Dr. Matias, ministro da Reforma, nos intervalos da promoção do país como um potencial «líder mundial na IA», que tem feito campanha para retirar ao Tribunal de Contas o seu papel de empata nas decisões públicas, com grande protesto e indignação deste, tem agora à sua disposição o argumento definitivo. O TdC considerou conforme um contrato da PJ com a empresa do amigo empreiteiro do Dr. Neves (fonte).

AI Fast Track”. «O homem sonha, a obra nasce»

O mesmo Dr. Matias, agora que a liderança mundial na IA já está a caminho, prepara mais uma iniciativa grávida de trendy buzzwords com «um protocolo com entidades de referência do ecossistema, com vista a permitir uma operacionalização célere e eficaz … para atrair investigadores e profissionais altamente qualificados em áreas de IA críticas».

A ficção do Investimento Directo Estrangeiro (IDE)

Na retórica oficial, o IDE é a chave para o crescimento rápido de uma economia descapitalizada como a portuguesa. No mundo real, quase metade (46%) do IDE em 2025 é constituído por imobiliário vendido pelos seus proprietários portugueses que trocam activos imobiliários por liquidez ou por activos financeiros dos quais uma parte significativa irá desaguar no consumo.

O que ele não garante é fazer mais com o mesmo ou fazer o mesmo com menos
 
O INEM, pela boca do seu presidente, desmente que serão suprimidas 100 ambulâncias e garante que «não haverá redução de meios ou da capacidade de resposta». Só não garante a redução do «número de passos intermédios existentes em toda a cadeia. A chamada passa pelo 112, segue para o CODU, depois para as centrais dos bombeiros e destas para as equipas, até que possam iniciar a marcha para o local», redução que provavelmente permitiria fazer mais com o mesmo ou fazer o mesmo com menos.

03/08/2026

Crónica da passagem de um governo (61a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Caos é o que a comentadoria e o jornalismo de causas quiserem

Caos é, por exemplo, dos 290 mil exames ainda haver 170 exames sem classificação ou 15 mil pedidos de reapreciação muito incentivada pelos sindicatos.

Mais um prego para o caixão do Dr. Fernando Alexandre

A partir do próximo ano lectivo, a proibição do uso de ‘smartphones’ nas escolas será alargada até ao 9.º ano, medida que, entre outros efeitos, se espera que melhore o aproveitamento escolar e a socialização nas escolas. Se da maior socialização resultar um aumento do bullying, lá teremos o Dr. Alexandre a ser acusado de promover o caos nas escolas, depois de ter sido acusado de censurar a promoção da identidade de género no programa de Cidadania e Desenvolvimento.

A «hecatombe social» do Dr. Dominguinhos

Perante a proximidade do fim do PRR e o atraso para aplicar os respectivos dinheiros da bazuca, o Dr. Dominguinhos, presidente da respectiva Comissão Nacional de Acompanhamento, alerta que «se a consequência for a devolução do dinheiro vamos ter uma hecatombe social», hecatombe que desde S. Bento até ao Edifício Berlaymont toda a gente teme tanto como os beneficiários, pelo que, com toda a probabilidade, serão feitos os “ajustes” indispensáveis para isso não acontecer, como por exemplo considerar como executados para efeitos de financiamento uma percentagem de conclusão abaixo dos actuais 90% (qual, logo se vê).

Apesar dos “ajustes”, à cautela, o ministro da Economia garante que «nenhum euro do PRR será devolvido a Bruxelas».

Afinal, a bazuca serviu para alguma coisa…

Pelo menos serviu para contratar um número de funcionários a acrescentar aos 767 mil, que ninguém sabe ao certo qual seja, e que poderá andar pelos 1.295 autorizados por um despacho em 2021, e que agora «o fim do PRR ameaça deixar desempregados trabalhadores que o Estado contratou», lamenta, compungido, o semanário de reverência.

Canários na mina de carvão

mais liberdade

Segundo as projeções da CE, Portugal será um dos países mais impactados pela mudança radical da política orçamental devido ao fim do PRR e à dependência da economia portuguesa dos fundos europeus. Em 2027, Portugal deverá passar para uma política orçamental restritiva, registando um dos maiores arrefecimentos orçamentais da Zona Euro, apenas superado pela Bulgária e Grécia.

Take Another Plan. Como transformar 3.340 milhões de euros em menos de 2.000 milhões

Segundo uma avaliação financeira encomendada pelo jornal ECO, a TAP poderá valer entre 1.948 e 2.073 milhões de euros, depois lá terem sido enterrados 3.340 milhões de euros de ajudas com o dinheiro dos contribuintes.
 
(Continua)

02/08/2026

CASE STUDY: Perceberam mal. O que falta não são diplomas, é know-how. Now, how?

A valorização do canudo é um caso particular da valorização dos títulos que domina há séculos a cultura, isto é, o conjunto de valores, de crenças, de normas, de costumes, de conhecimentos e de símbolos, do Portugal dos Pequeninos. Daí a atribuir-se ao canudo propriedades mágicas na atribuição de estatuto social vai um pequeno passo, e daqui a imaginar-se que o "atraso" resulta da escassez de canudos vai outro passo mais pequeno, que os governos socialistas (do PS e do PS-D), com destaque para o programa «Novas Oportunidades», criado pelo governo do Sr. Eng. José Sócrates, que foi uma espécie de fábrica de diplomas que dariam acesso a 143 cursos profissionais, de aprendizagem e de ensino artístico especializado que o governo ofereceu aos candidatos que terminassem a equivalência ao 9.º ano de escolaridade que o programa atribuiu.

O resultado foi, em matéria de diplomas, a redução do nosso desalinhamento em relação à UE: dos 25 aos 29 anos, apenas 13,5% possuem escolaridade inferior ao ensino secundário e 44,4% concluíram o ensino superior. Não obstante, a escolaridade entre os empregadores é verdadeiramente um desastre, com mais de 40% só com o ensino básico, e isso é uma parte da explicação da baixa produtividade do trabalho.

O problema real não é a falta de diplomas, é a falta de competências, o saber como fazer.


O gráfico acima, extraído do trabalho de Óscar Afonso «Portugal tem mais diplomas, mas falta capital humano», publicado há dias, coloca-nos em 34.º lugar na proficiência média (*) em numeracia e literacia dos 38 países da OCDE.

Perante este handicap o que fazem as nossas elites merdosas? Autoelogiam-se dentro da respectiva bolha, dão graxa à plebe e exaltam as exageradas, e muitas vezes imaginadas, realizações do Portugal dos Pequeninos, que é outra maneira de se autoelogiarem.

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(*) «A proficiência dos adultos em resolução adaptativa de problemas é avaliada através do PIAAC, um programa internacional da OCDE que mede a proficiência dos adultos em competências-chave de processamento de informação. A resolução adaptativa de problemas envolve a capacidade de atingir objetivos em situações dinâmicas, onde uma solução não está imediatamente disponível.»

31/07/2026

TIROU-ME AS PALAVRAS DE BOCA: O Portugal dos Pequeninos é «um Estado corporativista, com traços claros de capitalismo de compadrio» (andamos a dizer isso aqui há 23 anos e noutros sítios há mais tempo)

Portugal está preso num sistema de compadrio, com justiça lenta, reguladores capturados e um Estado que falha aos cidadãos, é, «em larga medida, um Estado corporativista, com traços claros de capitalismo de compadrio», onde a proximidade entre poder político e grandes grupos económicos continua a condicionar a concorrência, a produtividade e o crescimento económico.

James A. Robinson, Prémio Nobel da Economia em 2024, co-autor com Daron Acemoglu de «Porque Falham as Nações».

30/07/2026

Dúvidas (369) - O assalto ao gabinete do Dr. Ventura e as trapalhadas do Dr. Neves, serão uma espécie de Reichstagsbrand e de Untermensch no Portugal dos Pequeninos?

O grau zero da democracia em Lisboa 2026 e em Berlim 1933

«Assim está o meu Gabinete esta manhã na Assembleia da República. Alguém estava à procura de alguma coisa e não se coibiu de agir dentro do próprio Parlamento. Não sei ainda se foi roubado algum documento ou não, mas atingimos o grau zero da nossa democracia. (...) desapareceram dois lotes de documentos e duas 'pens' com informação relativa a dois assuntos diferentes». Um dos lotes de documentos estava guardado «numa das pastas que estavam em cima da primeira mesa e referia-se à Comissão Parlamentar de Inquérito ao ministro da Administração Interna». (fonte)

29/07/2026

SERVIÇO PÚBLCO: Os Sete Saberes para a Educação do Futuro, de Edgar Morin

Edgar Morin (1924-2026)

  1. O erro e a ilusão: o conhecimento não é um espelho fiel da realidade; a mente humana pode falhar e ser enganada pelas nossas ideias e sentidos.
  2. O conhecimento pertinente: para que uma informação seja útil, ela precisa estar ligada ao seu contexto, unindo as partes ao todo e o todo às partes.
  3. A condição humana: precisamos lembrar quem somos nós, seres ao mesmo tempo físicos, biológicos, psíquicos, culturais, sociais e históricos.
  4. A identidade terrena: todos os humanos partilham o mesmo destino no planeta Terra, que hoje está ligado e globalizado.
  5. Enfrentar as incertezas: o futuro é incerto; a educação deve ensinar a navegar pelas surpresas e mudanças sem buscar apenas regras fixas.
  6. A compreensão: aprender a entender os outros, superando o ódio e as barreiras entre pessoas de culturas diferentes.
  7. A ética do género humano: a responsabilidade de cuidar da humanidade, unindo a nossa liberdade com o respeito pela comunidade global.
Era para ser um R.I.P. há dois meses, quando morreu Morin, e ficou na gaveta até que me ocorreu em plena campanha de agitprop e vacuidades a pretexto da bagunça da digitalização e da incapacidade de pensar e agir nas matérias do que haveria de ser um elevador social e uma alavanca para desenvolver o Portugal dos cada vez mais Pequeninos e é um sistema de criação de empregos e um campo de batalhas político-doutrinárias.

You can't fool all of the people all the time (16) - Oklahoma withdrew and joined the remaining 45 states.

Other "You can't fool all of the people all the time."

28/07/2026

Crónica da passagem de um governo (60b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 60a)

«Empresa Financeiramente Apoiada Continuamente (pelo) Estado Central». Até ao lavar dos cestos ainda é vindima

Em Julho de 2020, depois do governo do Dr. Costa pela mão do Dr. Caldeira Cabral ter feito o favor de comprar a EFACEC à Dr.ª Isabel dos Santos, o Dr. Siza Vieira começou a tentar vendê-la anunciando todos os meses que a venda iria ter lugar e lá torrando mais uns milhões e mais garantias. Cinco anos depois, o Tribunal de Contas estimou que a festa iria ficar por 564 milhões, dos quais seriam recuperáveis uns 400 milhões. Isso foi antes da Mutares – a empresa alemã que comprou a EFACEC - ter exigido à Parpública o pagamento de responsabilidades financeiras no âmbito do mecanismo de compensação que podem atingir até 80 milhões de euros.

Se o Estado “lucrasse com a guerra” seria a única actividade lucrativa do Estado

O líder socialista Dr. Carneiro teve uma epifania e, a propósito do aumento dos preços dos combustíveis, acusou o Governo de «lucrar com os sacrifícios dos portugueses», no que foi prontamente desmentido pelo Dr. Leitão Amaro, que garantiu que «o Estado não lucra com a guerra». Com discussões desta elevação, ficámos a saber que governo e oposição estão atentos à opinião pública devidamente galvanizada pelas incontáveis páginas de jornais e dezenas de minutos dos telejornais dedicados a este tormentoso assunto.

Não. O Estado não falhou. O Estado fez o que costuma fazer

O ministro da Educação admitiu que o “Estado falhou na digitalização das avaliações para explicar por que muita coisa correu mal num processo em que a única coisa que correu bem foi o agitprop dos poderes fácticos instalados, apoiado pela comentadoria e multiplicado pelo jornalismo de causas para aproveitar o que correu mal para tentar correr com um ministro que meteu o pau no vespeiro com algumas medidas. Por exemplo, flexibilizou o processo de contratação dos profs pelas escolas, simplificou a substituição de profs, mobilizou profs aposentados e fora da profissão, reduziu a burocracia, digitalizou processos, concentrou funções administrativas, aumentou a autonomia das escolas, proibiu os telemóveis nos primeiros ciclos; reduziu a carga ideológica do programa de Cidadania e Desenvolvimento, alterou o RJIES do ensino universitário que obrigará as universidades e  a reverem os seus estatutos, mexeu na investigação fundindo a FCT e a ANI na AI2 com uma gestão mais empresarial e independente.

É sempre possível ficar pior do que está

mais liberdade

As trapalhadas do Dr. Luís Neves e as teorias da conspiração

A inegável gravidade das acções agora expostas do Dr. Neves quando pousado na Judite só é claramente ultrapassada pelo ridículo da pequenez das trafulhices e não é preciso comparar com a multiplicação do património de Donald Trump desde que tomou posse, basta comparar com a multiplicação do património do Sr. Eng. Sócrates. É por essa e por muitas outras que o nosso torrãozinho natal também é conhecido por "Portugal dos Pequeninos".

«Pagar a dívida é ideia de criança»?

Banco de Portugal

O endividamento total da economia (Estado, empresas não financeiras e famílias) continuou a crescer muito acima do PIB nominal e aumentou 6,4 mil milhões em Maio, dos quais 2,9 mil milhões do sector público. Vem a propósito registar que, no primeiro trimestre, dívida pública da UE aumentou para 82,9% do PIB e Portugal está muito bem classificado no quinto lugar com 91%.