Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

23/01/2021

ARTIGO DEFUNTO: Contando estórias sobre o fecho da central de carvão de Sines

Um dia destes o Jornal Eco noticiou o fecho da central a carvão de Sines numa peça com o título «O adeus a uma das centrais a carvão mais poluentes da Europa». Lá pelo meio da peça, que era uma espécie de entrevista a um funcionário pré-reformado da EDP, escrevia-se «a central a carvão da EDP também há de ser lembrada como a instalação com maior peso nas emissões de carbono em Portugal: em 2018, foi a 17ª central térmica a carvão e a 22ª instalação com maiores emissões de dióxido de carbono da União Europeia

Não sei se foi apenas ignorância do jornalista ou se foi uma encomenda para justificar o fecho por razões mais ou menos inconfessáveis de uma central que segundo Clemente Pedro Nunes, professor do IST e especialista em energia era «a maior e a mais eficiente da Península Ibérica».

Segundo Clemente Pedro Nunes as verdadeiras razões para fechar a central são:

«A EDP quer fechar a central de Sines porque esta tem de enfrentar as FIT concedidas pelo Governo Sócrates a 7000 MW de potências elétricas intermitentes, eólicas e fotovoltaicas, e que têm a capacidade legal de a expulsar do mercado.

Sim, a eletricidade produzida a menos de 40 euros/MWh pode ser expulsa do mercado para o consumidor ser obrigado a pagar 380 euros/MWh de eletricidade produzida através duma FIT duma central fotovoltaica!

E, sem clientes, o que pode fazer a central de Sines?

Ou para, funcionando num regime de para-arranca ruinoso, ou reduz a operação, deixando de fornecer eletricidade à rede até chegarem de novo as “horas de ponta”.

Em qualquer dos casos, o resultado é também um desastre em termos do aumento das emissões de CO2.

Até 2019, a central de Sines beneficiava dum CMEC, que é um mecanismo contratual que garante que quem dele beneficie tem sempre uma rentabilidade muito atrativa, através duma compensação no final do ano.

Assim, a EDP não estava preocupada porque tinha a certeza de que, no final do ano, iria sempre ter um lucro garantido, mesmo que a respetiva exploração tivesse pesadas perdas devido à concorrência desleal das FIT.

A partir de 2019, e já sem os CMEC, a EDP passou a perder dinheiro com a central de Sines, “massacrada” pelas FIT concedidas às potências elétricas intermitentes.

O que se devia fazer era corrigir o disparate das FIT atribuídas às potências intermitentes.

Ou seja, negociar a alteração das FIT para que estas não tenham o “poder de destruir quem produz eletricidade em regime de mercado”.

Em circunstâncias normais, seria isso que a EDP deveria ter solicitado ao Governo.

Mas como a EDP foi, desde 2005, a grande defensora das FIT atribuídas a potências elétricas intermitentes, não podia vir agora destruir a base da sua campanha mediática.»

22/01/2021

De volta à Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva (48) - Qual a eficácia e o fundamento científico das medidas de confinamento?

Este post faz parte da série De volta à Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva.

Foi publicado há duas semanas no European Journal of Clinical Investigation pela equipa do prof. Ioannidis um novo paper Assessing Mandatory Stay‐at‐Home and Business Closure Effects on the Spread of COVID‐19, sobre os efeitos da adopção do confinamento doméstico e do fecho de empresas incidindo sobre Inglaterra, França, Alemanha, Irão, Itália, Países Baixos, Espanha, Coreia do Sul, Suécia e EUA. 
 
As conclusões são sentido do efeito líquido dessas medidas mais restritivas adicionalmente às medidas menos restritivas (como no caso da Suécia e Coreia do Sul que não adoptaram o confinamento doméstico obrigatório e do fecho compulsivo de empresas) não ter sido significativo no número de casos e que, em consequência, reduções da mesma amplitude poderiam ter sido alcançadas com medidas menos restritivas.

Em Dezembro foi realizado em Barcelona um teste envolvendo cerca de mil pessoas que foram divididas em dois grupos um de 463 pessoas que assistiram a um concerto numa sala com capacidade para 1.600 pessoas, e um grupo de controlo com 496 pessoas que não entraram na sala. Ambos os grupos foram submetidos a um teste rápido. O primeiro grupo assistiu a um espectáculo de cinco horas sem distanciamento mas usando máscaras FFP2 e gel desinfetante nas mãos. Uma semana depois foi feito um segundo teste que identificou dois casos positivos no grupo de controlo e nenhum nos participantes do espectáculo.

Segundo apurou Pedro Almeida Vieira do blogue Nos cornos da covid, nos registos da Ordem dos Médicos não existe em Portugal «não há sequer UM ÚNICO médico na especialidade de electrofisiologia clínica e... de EPIDEMIOLOGIA.» De onde surgirão então luminárias que têm vindo a perorar do alto da sua sapiência?

21/01/2021

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (193) - Da bancarrota financeira à bancarrota moral

«Olhe-se apenas para a vergonha que estamos a passar na Europa por causa do inconcebível caso José Guerra. As notícias falam por si. "Metade do Parlamento Europeu contesta nomeação de José Guerra". "No Parlamento Europeu, PPE, Liberais e Verdes acusam o governo de António Costa de tentar corromper o Estado de Direito". E há mais. Assim de repente e sem esforço de memória, aqui ficam mais alguns casos só dos últimos meses: magistrados e PJ a vigiar jornalistas, o caso SEF e a inconcebível proteção de Cabrita, o desnorte da CNE. Há mais, mas não quero deixar o leitor atordoado. E, se recuássemos até 2015, com Tancos pelo meio, os casos ocupariam uma edição inteira deste jornal. O histórico é brutal e diz-nos que a inação por compadrio e a ação por nepotismo do PS está a destruir a própria dignidade do Estado. O PS levou o Estado à bancarrota financeira. O PS, através destes sucessivos casos, está a levar o Estado à bancarrota moral.»

O PS está a destruir o Estado, Henrique Raposo no Expresso

O que seria do Dr. Ventura sem a ajuda do jornalismo de causas?

Por exemplo com a ajuda de títulos dramáticos como 


Como se o Dr. Ventura fosse uma espécie de Mao Tsé-Tung fascista a arregimentar camponeses para a Longa Marcha, quando em boa verdade a criatura pretende ampliar a sua freguesia eleitoral recrutando entre os esquecidos do Estado sucial e os desprezados pelos urbanitas e áctivistas obcecados com estúpidas causas fracturantes como a identidade do género ou a eutanásia, enquanto tentam travestir o preconceito ancestral em rácismo. Aliás ele explica isso com alguma clareza:
«À medida que aumenta o brutal ataque contra nós por um sistema que já não consegue nem sabe lidar connosco, não compreendem que o nosso exército vai aumentado dia após dia, engrossando, de comunistas a católicos, de todas as raças, etnias e religiões, que vão aumentando esta enorme massa de gente que quer mudar Portugal. Nós somos o exército popular português.»

20/01/2021

DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (110) - Pregando a importância de manter a distância de segurança

Outras preces

Nem só o Estado é amigo do empreendedor (15) - A maldição do jornalismo promocional, o epílogo e a moral da estória (parte II)

Outras maldições do jornalismo promocional.

Em retrospectiva:

A Maló Clinic é um dos casos de sucesso mediático de empreendedores com amigos nos jornais, nomeadamente e não por acaso, no semanário de reverência que algum tempo antes da queda se referia, em tom encomiástico, a «Maló, o dentista global»:
«Não quis ser dentista, mas hoje orgulha-se do império criado. Aos 48 anos, Paulo Maló é dono do maior grupo dentário mundial, com clínicas nos quatros continentes»
Sete anos e quase 100 milhões de dívidas depois (mais de 3 vezes a facturação que não ultrapassa 30 milhões), o Grupo Maló Clinic foi adquirido pelo fundo Atena Equity Partners e está em Processo Especial de Revitalização a ver se lhe perdoam uma parte das dívidas.

Epílogo: «Contribuintes perdem trinta milhões com perdões à Malo Clinic»

Actualização: 

A Maló Esthetics foi mais um dos empreendimentos acarinhados pelo jornalismo promocional, neste caso abandonado à sua má sorte por Paulo Maló, o dentista global como o baptizou o Expresso no tempo em que tudo parecia correr bem. Depois de vários anos a perder dinheiro entrou agora em falência.

Moral da estória: 

O complexo político-empresarial socialista facilita com atalhos e subsidia com o dinheiro dos contribuintes, o jornalismo promocional promove e no final os sujeitos passivos voltam a financiar a «revitalização».

19/01/2021

Dúvidas (299) - Estarão os portugueses a ser vítimas da Síndrome de Estocolmo?

A melhor ministra segunda a sondagem da Intercampus

O caminho da servidão e da pobreza

Expresso

O gráfico acima mostra PIB per capita dividido pelo número médio de horas trabalhadas em cada país, ou seja o Produto Interno Bruto por residente no país gerado em média por hora de trabalho. É um indicador (há outros) da produtividade do trabalho e mostra bem como somos um dos seis países com menor produtividade entre os 36 membros da OCDE. Pior de tudo, temos vindo a ser ultrapassados pelos países da Europa de Leste, salvo a Hungria a Letónia, sobreviventes do colapso do comunismo, o que parece preferível a ser vítima do socialismo do Dr. Costa e dos seus antecessores. E, como se fosse pouco, as nossas liberdades estão cada vez mais ameaçadas por um Estado tentacular.

Como quase toda a gente perceberá (com excepção das luminárias lunáticas), não produzimos pouco porque os salários são baixos, os salários são baixos porque produzimos pouco.  Em consequência, a coisa não se resolve com o mantra vamos aumentar os salários.

Como chegámos aqui? Um ano de socialismo de cada vez. Como sairemos aqui? Isso é uma estória muito comprida. A engordar o Estado, a ocupá-lo com apparatchiks e a combater os "privados", a receita da esquerda, é que não vamos lá com certeza.

18/01/2021

BLOGARIDADES: A diferença entre as urgências normais e as urgências na emergência pandémica é que agora não se podem empilhar doentes nos corredores

«A fila de ambulâncias no hospital de Torre Vedras indigna muita gente, indicando que o protocolo covid impede que doentes sejam devidamente empilhados em macas nos corredores, longe da vista, no tempo em que isso não nos incomodava. Agora incomoda. Essencialmente, tal acontece porque “o dever de confinamento”, uma figura constitucional tão válida como “o princípio da equidade” não se aplica a repórteres, só a vendedores de sapatos.»

(Lido no Blasfémias, um blogue de extrema-direita, segundo o Dr. Pacheco Pereira, o intelectual oficial do socialismo)

Crónica da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa (68) - Em tempo de vírus (XLV)

Avarias da geringonça e do país seguidas de asfixias

O Portugal sucialista é um paraíso onde só há milagres

Primeiro foi o grande milagre português na guerra contra a pandemia de que falou S Ex.ª in illo tempore. O primeiro milagre acabou em catástrofe e tem sido preciso inventar uns milagres mais pequeninos tais como, para falar só da semana passada, uma inauguração de mais uma TAR pelo Dr. Fernandes, «Governo dá até 2,4 euros em janeiro para pagar conta da luz», «Abrunhosa paga mudanças a 77 famílias para o interior», e a Fonseca dá 42 milhões à Cóltura incluindo € 438,81 a cada "artista".

O problema do Portugal sucialista é que ainda existem “privados”

Como é sabido, o colapso do SNS tem origem nos "privados". Não perdem pela demora. A ministra do SNS, depois de 10 meses a recusar qualquer cooperação com os "privados", avisou «não hesitaremos em lançar mão da requisição civil». Para o caso dos "privados" não ouvirem, a candidata berloquista Dr.ª Marisa Matias, que tal como a ministra do SNS também trauteia o hino Internacional, exorta à «requisição de todos os meios disponíveis (...) Tem de ser agora e já vai tarde». Por alguma razão inexplicável, o furor contra os "privados" não abrange o seu uso através da ADSE pela freguesia eleitoral.

No Estado Sucial não há conflito de interesse. Há interesses em conflito

Para quem tivesse dúvidas sobre o mérito do nomeado pelo Dr. Costa para presidente do Tribunal de Contas, veio agora a saber-se que o Dr. José Tavares «foi uma espécie de conselheiro permanente do Governo de José Sócrates entre 2008 e 2010 para superar a recusa do visto prévio daquele tribunal a cinco contratos de subconcessões rodoviárias»

«Estamos preparados»

Já se sabia que o código para usar a app StayAway Covid foi dado a menos de 3% dos infectados e destes apenas um quarto o introduziu na app. Sabe-se agora que 60% dos que instalaram a app já a desinstalaram e que em 87% dos casos não é conhecida a origem da infecção.

Dos inúmeros hospitais de campanha anunciados (centenas de notícias só nos meses de Março e Abril) fala-se agora apenas do hospital de campanha do Estádio Universitário que está fechado por falta de médicos e enfermeiros. Falta de médicos e enfermeiros? Então o governo não ia contratar mais 4.200 profissionais de saúde e médicos reformados, apesar de haver 515 médicos por 100 mil habitantes, o terceiro maior índice na UE que tem uma média de apenas 378, 716 enfermeiros por 100 mil habitantes em que estamos em 16.º lugar e estaríamos muito melhor se os enfermeiros não emigrassem aos magotes.

17/01/2021

Dúvidas (298) - Alguém pode explicar porquê o SARS-Cov-2 só infecta os "géneros" azul e cor-de-rosa?

Fonte: DGS

Confesso que não tinha pensado nisso até receber hoje uma mensagem a perguntar porquê só dois "géneros" estão a ser infectados. Sim, porquê dos 112 "géneros" identificados (até hoje) só figuram nas estatísticas de infectados da DGS os géneros azul e cor-de-rosa?

Trocando o radicalismo pela diversidade, diversidade que talvez esteja a tornar-se uma ideia conservadora

«Putting diversity ahead of ideology has interesting consequences for a centrist like Mr Biden. Take the nomination of Lloyd Austin, a retired general and board member of Raytheon. Ordinarily you might have expected a backlash from the party’s left wing, which does not much like the revolving door between the federal government and large defence contractors, and worries about keeping civil-military relations tilted towards the civil end of the hyphen. Yet because Mr Austin is African-American, and will be the first black person to hold this job in American history, the criticism from the Democratic left was muted.

Because the Democratic Party places so much value on diversity, being non-white and/or female can work as a kind of ideological body armour that saves the wearer from friendly fire. This in turn means that the incoming president has been able to pick a team that is more centrist than would otherwise be the case. It helps that African-Americans, to whom Mr Biden owed his victory in the primary, tend to be a moderating force in the party, anchoring Democrats in the ideological centre now in the way that organised labour once did.

Conservatives looking at the process might lament the outbreak of woke, diverse nonsense as an organising principle of the incoming administration, but might also be pleasantly surprised that there are no Democratic socialists anywhere near the levers of executive power. Yet those two things are closely related.

This might be pushing the argument too far, but I sometimes wonder whether diversity, a notion conservatives are meant to loathe, is on its way to becoming a conservative idea. Pretty much all of America’s large companies have embraced it as a core principle in their hiring and promoting, suggesting it is hardly a radical notion. In politics, conservatives have often been concerned with the problem of how to establish order. When a country is as diverse as America, it is hard to see how government retains the consent of the governed, a necessary ingredient in that order, if it looks completely different from the country it is governing. In a place as diverse as America, a diverse government ought to be a stabilising, moderating force.»

John Prideaux, US editor da Economist na newsletter Checks and Balance: A cabinet that looks like America

16/01/2021

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOTAS: O radicalismo dos putos mimados ou o esquerdismo infantil ao colo do esquerdismo senil

 «Há um outro aspecto que contribuí decisivamente para este radicalismo: a tentativa de uma revolução social promovida por miúdos mimados pela abundância com uma ambição desmedida de impor novos valores e de mudar a sociedade cortando com o passado.

Ao contrário do habitual, este não é uma revolução organizada, nem passa pelas armas ou por assassinatos. Já não é a violência das FP25 nem os atentados sangrentos que ocorriam em toda a Europa. Os adeptos das revoluções sangrentas nos países desenvolvidos parecem ter percebido que não era esse o caminho para impor as suas ideias. Basta pensar que as FP-25 se integraram num partido com representação parlamentar, o Bloco de Esquerda.

As armas agora são a subversão dos costumes e o ataque a valores morais e a hábitos culturais. São o desvirtuamento da herança portuguesa e o revisionismo da história por uma “polícia” da linguagem. Mas esta tentativa de revolução continua a ter os mesmos objectivos: a luta sem tréguas contra a democracia liberal e a liberdade económica.

Esta revolução social é um perigo porque visa eliminar a economia descentralizada de mercado e colocar o Estado a controlar a sociedade, manipulando-o para enfraquecer a democracia liberal e instalar uma sociedade socialista. Os livros que a defendem não deixam dúvidas sobre as ambições de poder e sobre a intolerância, a imposição de comportamentos e as tendências totalitárias da abordagem neomarxista a que recorre.»

Os miúdos mimados pela abundância, Ricardo Pinheiro Alves no Jornal Eco

15/01/2021

Lost in translation (347) - Quando o sujeito é o governo, os verbos dar e pagar são conjugados no pretérito perfeito simples como extorquiu e esmifrou

«Governo dá até 2,4 euros em janeiro para pagar conta da luz», titula o Jornal Eco.

«Abrunhosa paga mudanças a 77 famílias para o interior», titula o Expresso, referindo-se a uma ministra semiclandestina de quem só o semanário de reverência dá conta da existência (especulo que o spin doctor da ministra tenha bons contactos com o semanário). 

Lost in translation (346) - Eles queriam significar que mais de metade dos portugueses considera que o PSD ficaria mais bem servido sob a liderança de Pedro Passos Coelho

Segundo uma sondagem do Jornal de Negócios «quase metade dos portugueses considera que o PSD ficaria mais mal servido sob a liderança de Pedro Passos Coelho».

Se a sondagem tivesse incidido sobre os jornalistas de causas que pululam na redacções, seguramente uma maioria esmagadora deles rezaria para o Dr. Rio continuar a liderar o PSD, por muitas razões entre as quais PPP ter sido o último líder de direita, chamemos-lhe assim para simplificar, a ganhar as eleições e ser um dos poucos líderes da direita, da esquerda ou do centro a quem não foram encontrados episódios obscuros.

SERVIÇO PÚBLICO: A censura pelas redes sociais a Donald Trump não é um problema de Donald Trump. É um problema do controlo da liberdade de expressão pelos tecno-magnates

A censura do bullshit de Donald Trump no Twitter, Facebook e YouTube foi acolhida com geral satisfação por banda da esquerda e o silêncio envergonhado da direita e do centro. Houve a excepção óbvia dos devotos de Trump, cultores impenitentes da doutrina Somoza, tal como quase toda a esquerda e parte da direita, que certamente aplaudiriam a censura se tivesse como alvo um dos seus ódios de estimação. Houve ainda a reacção de Angela Merkel que considerou ilegítimo entidades privadas decidirem o que deve ou não ser publicado nas redes sociais e pouco mais. 

A reacção que li até agora mais estruturada, desfulanizando a questão e colocando-a no plano legal e da regulação da publicação de informação na Web, foi a de Niall Ferguson, um historiador escocês que ensina em Harvard, Oxford e Stanford. O seu artigo The tech supremacy: Silicon Valley can no longer conceal its power na Spectator é de leitura absolutamente recomendável. Aqui vai numa tradução semiautomática.

«"Para ver o que está à frente do nariz é precisa de uma luta constante", observou George Orwell. Falava não da vida quotidiana, mas da política, onde é "muito fácil a parte ser maior do que o todo ou para dois objetos estarem no mesmo lugar simultaneamente". Os exemplos que deu no seu ensaio de 1946 incluíam o paradoxo de que "durante anos antes da guerra, quase todas as pessoas esclarecidas eram a favor de fazer frente à Alemanha: a maioria deles também era contra ter armamento suficiente para tornar tal posição eficaz".

A semana passada proporcionou uma analogia quase perfeita. Durante anos antes das eleições de 2020, quase todos os conservadores americanos eram a favor de enfrentar as grandes tecnológicas: a maioria deles também era contra a alteração das leis e regulamentos suficientes para tornar tal posição eficaz. A diferença é que, ao contrário da ameaça alemã, que era geograficamente remota, a ameaça de Silicon Valley estava literalmente à frente dos nossos narizes, dia e noite: nos nossos telemóveis, nos nossos tablets e nos nossos portáteis.

Escrevendo nesta revista há mais de três anos, alertei para um confronto entre Donald Trump e Silicon Valley. "As redes sociais ajudaram Donald Trump a tomar a Casa Branca", escrevi. Silicon Valley não vai deixar que aconteça de novo. A conclusão do meu livro The Square and the Tower foi que as novas plataformas de rede online representavam um novo tipo de poder que representava um desafio fundamental ao poder hierárquico tradicional do Estado.

Pelas plataformas de rede, refiro-me ao Facebook, Amazon, Twitter, Google e Apple, ou FATGA para abreviar — empresas que estabeleceram um domínio sobre a esfera pública não visto desde o auge da Igreja Católica pré-Reforma. As FATGA tiveram origens suficientemente humildes em garagens e dormitórios. Já em 2008, nenhuma delas poderia ser encontrada entre as maiores empresas do mundo em capitalização bolsista. Hoje, ocupam o primeiro, terceiro, quarto e quinto lugares no topo da liga , um pouco acima das suas congéneres chinesas, Tencent e Alibaba.

O que aconteceu foi que as plataformas de rede transformaram a web mundial originalmente descentralizada numa esfera pública oligárquica e hierárquica da qual ganhavam dinheiro e cujo acesso controlavam. Que as inclinações originais e superficialmente libertárias dos fundadores destas empresas se desmoronariam rapidamente sob pressão política da esquerda também era perfeitamente óbvia, se alguém se desse ao trabalho de olhar um pouco para além do seu nariz.

14/01/2021

O vento da pandemia continua a enfunar as velas do PS, mas passou de brisa forte para aragem

É claro que podemos sempre acreditar religiosamente nas sondagens ou desvalorizá-las com base numa qualquer teoria da conspiração. No entanto, porque é o único instrumento de que dispomos para avaliar as intenções de voto, a visão mais racional é o uso das sondagens à luz da dúvida cartesiana, avaliando a credibilidade de quem as encomendas e de quem as faz, a sua metodologia, a dimensão da amostra e comparando resultados com outras sondagens. 

Tudo isto para dizer que as últimas sondagens conhecidas da Intercampus para o JN e o Correio da Manhã mostram em relação a Fevereiro do ano passado alterações com algum significado, por exemplo o PS a crescer 5 pp para 38%, e foram comentadas (por exemplo aqui e aqui), fora do contexto da pandemia que em Março mudou as regras do jogo. 

Porém, quando colocamos as últimas sondagens no contexto da evolução dos últimos 12 meses, como no gráfico seguinte, as conclusões são outras.

Fonte: Marktest

As conclusões são outras e, no que respeita ao PS, são em substância as que referimos no post anterior: depois de quase ter chegado à maioria em Maio (na sondagem da Pitagórica atingiu os 44,8%) desce para os 38-39% e aí continua, diferentemente da maioria de outros partidos de governo, que melhoraram nas sondagens e os respectivos governo subiram nas taxas de aprovação. 

De onde se poderia concluir que passada a pandemia o PS poderá cair significativamente. Contudo, a incapacidade do PSD do Rui Rio de mobilizar os descontentes que à direita tem vindo a reforçar as hostes do Chega e do IL, poderá significar um prolongamento da vida do governo PS pendurado nos comunistas.