Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

28/04/2026

Crónica da passagem de um governo (47b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 47a)

O peditório da restauração, o Álvaro e o príncipe Vassíli (continuação)

Mais cedo o “Álvaro” metesse o pau no ninho de vespas, neste caso no peditório da restauração, mais cedo as vespas começariam a escarafunchar as suas cuecas que neste caso assumem a forma de aplicação das poupanças, investimento que, com quatro meses de atraso em relação à compra de acções de duas empresas portuguesas, mas apenas uma semana depois do Álvaro ter metido o pau no ninho, foi “denunciado” pelo jornalismo de causas anticapitalistas que habita a redacção do Avante da família Azevedo.

«O SNS é um tesouro». Quanto mais precisam menos têm

O diagrama mostra que à medida que passamos das classes médias-altas (A+B) para as classes baixas, é maior a dependência exclusiva do SNS e maior a probabilidade de doença e não, não estou a sugerir que a utilização do SNS causa a pobreza. 

mais liberdade

Estou a constatar que a pobreza conduz à dependência de um serviço estatal cada vez mais degradado, ou, sabendo-se que os pobres que trabalham em empresas com seguros de saúde podem optar e optam pela saúde privada, para ser mais rigoroso, direi que são cada vez os mais pobres e os mais velhos que não têm alternativa ao SNS.

A UGT como só representa 8% dos trabalhadores compensa com a representação dos partidos e o Dr. Centeno, que nunca teve de fazer despedimentos, debita bitaites

mais liberdade

O diagrama ilustra algo óbvio para qualquer criatura que não tenha as meninges contaminadas pelo pensamento milagroso: a estagnação de produtividade com o aumento dos salários é o caminho certo para a pobreza relativa. Para sair desse caminho muita coisa tem de mudar a começar pelos empresários, mas, já que estamos a tratar da lei laboral, algumas modificações serão indispensáveis e uma delas é aumentar a flexibilidade do emprego que permita aos empresários reduzir o pessoal sem fechar a empresa e despedir toda a gente, em alternativa a optarem pela “precariedade” e recorrerem maciçamente aos contratos a prazo. É neste contexto que devemos olhar para as posições de sindicatos, que representam sobretudo funcionários públicos e trabalhadores com emprego vitalício e são dirigidos por gente ao serviço de partidos que ocultam informação.

É claro que também se pode aderir às visões de criaturas como o Dr. Centeno que numa conferência garantiu, do alto da sua ciência como economista do trabalho, que nunca dirigiu uma empresa sujeita à concorrência em que tivesse de tomar decisões de despedimento, que o «mercado de trabalho não tem défice de flexibilidade». Ou então ler o que escreveu com muito mais realismo o Conselho das Finanças Públicas sobre o mercado de trabalho no seu relatório «Perspetivas Económicas e Orçamentais 2026-2030»:
«Para a resiliência do mercado de trabalho contribui a elevada proporção de empresas que ainda identificam a dificuldade em contratar pessoal qualificado como um fator limitativo da atividade, fomentando a retenção de mão-de-obra (labour hoarding) perante choques adversos que se assumem ser maioritariamente temporários.»

27/04/2026

Crónica da passagem de um governo (47a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
O Dr. Matias ainda não percebeu que não é por invocar o Altíssimo que o milagre acontece

Quando falava na AI Summit 2026 na quarta-feira, o ministro da Reforma lá voltou com o seu mantra «Portugal tem condições únicas para atrair a indústria do futuro da inteligência artificial» o que até poderia não ser um disparate se ele quisesse referir que as condições de Portugal são raríssimas de tão fraquinhas.

Terá o Dr. Matias tido uma epifania percebendo por que não acontece o milagre?

Nessa mesma conferência, o Dr. Matias também deu indícios de que anda a ler o (Im)pertinências que já aqui escreveu que «a transformação digital no Estado sucial dos Pequeninos não é em vez de, é em cima de» e disse:
«Não vale a pena digitalizar aquilo que é complexo, não vale a pena digitalizar aquilo que é antiquado… a criar uma camada de burocracia digital em cima da burocracia física».
Louvado seja o Senhor, Dr.

Se há “reformas” que nunca deixaram de se fazer são as reformas por idade

Como as dos 900 polícias que o Dr. Luís Neves anunciou irão ser aposentados este ano ao mesmo tempo que nos tranquilizou com o anúncio de 1.400 (= 600 + 800) novos agentes que entrarão mitigando a gravíssima carência de pessoal do Estado sucial policial.

O Dr. Tiago diz que o “cancelaram”

O Dr. Tiago Antunes, ex-secretário de Estado do Eng. Sócrates e suporte do Simplex e do Câmara Corporativa, dois blogues criados para promoção do Animal Feroz, foi proposto para Provedor de Justiça pelo PS e aceite pelo PSD e o Chega. Não passou no parlamento e queixou-se ao Expresso «fui vítima de cancelamento». O semanário de reverência com a simpatia que os amigos do Eng. Sócrates sempre lhe merecem, ofereceu-lhe 1.100 (mil e cem) palavras em metade de uma "broadshit" para se lamentar.

«Pagar a dívida é ideia de criança»?

BdP
«Palavras para quê? É um artista português!»

O peditório da restauração, o Álvaro e o príncipe Vassíli

O sector da restauração que com o Dr. Costa foi bafejado por uma descida do IVA inútil para aumentar a procura (foi absorvida pelo aumentos dos preços) e muito útil para melhorar as margens dos “restauradores”, voltou ao peditório queixando-se de uma crise que consiste em ter crescido «desde 2019, … 69% em termos nominais e 25% em termos reais», como salientou o governador do BdP Dr. Santos Pereira, o “Álvaro”, incorrendo num crime de lesa peditório severamente punido pela opinião pública. E é este o quid da questão porque o Álvaro está a gastar preciosa munição, melhor usada nas guerras que são de sua conta ou, como escreveu alguém, não seguindo o conselho do príncipe Vassíli a quem Tolstói pôs na boca sábias palavras sobre a «influência … um capital que é preciso guardar bem para que não desapareça».


(Continua)

25/04/2026

Mitos (354) - O dia em que o Estado Novo começou a ser substituído pelo Estado novo

Por falta de tempo e porque os 25 de Abril tendem a ser todos iguais, republico o post do ano passado que ainda me parece actual.

Tivemos os 48 anos de Estado Novo que, sendo uma ditadura sonsa e beata, não deixou de ser uma ditadura encalhada no tempo, tentando endoutrinar as crianças e os jovens com a Mocidade Portuguesa e organizar os adultos com a Legião Portuguesa, com uma polícia política que vigiava e punia uma oposição fraca quase resumida ao Partido Comunista e garantia que do simulacro de eleições saísse sempre o mesmo resultado. Um Estado Novo que nos manteve numa miséria pacata, onde para usar um isqueiro era preciso ter uma licença (as fábricas de fósforos eram propriedade de eminências do regime) e só nos anos 60 com a adesão à EFTA (European Free Trade Association) se iniciou um período de crescimento interrompido pelo golpe militar. Uma ditadura que tentou, contra as tendências da história, manter um império colonial que nunca chegou a ser império e consumiu as energias de uma geração numa guerra impossível de ser vencida.

Uma ditadura que não sobreviveu quase cinco décadas sem a adesão das elites, dos situacionistas e dos oportunistas (alguns deles viraram a casa) e com a passividade, mansidão e conformidade de um povo traumatizado pela incompetência, violência e instabilidade da 1.ª República. Uma ditadura que se desfez como um castelo de cartas com um simples golpe militar, cuja génese deve mais ao sindicalismo militar e menos à ideologia e aos grandes princípios, golpe militar cavalgado pela única força política organizada.

O Estado Novo e o Estado novo vistos por
João Abel Manta
Com o mesmo povo, gradualmente menos passivo e menos conformado, chegámos ao PREC de onde quase saiu uma ditadura pior do que a do Estado Novo, tivemos a reforma agrária e as nacionalizações que expropriaram o "capitalismo monopolista", desmantelou-se o sector financeiro, hoje quase totalmente controlado por capital estrangeiro, a indústria foi reduzida a microempresas e PME e a uma ou outra sobra das grandes empresas industriais. Foi construído um Estado sucial pletórico, que faliu três vezes nos últimos 50 anos, controlado pelos novos situacionistas e povoado  por um número de funcionários (780 mil) que é o dobro da soma dos "servidores do Estado" (200 mil) com os mobilizados para a guerra colonial (170 mil). As Forças Armadas foram reduzidas a uma tropa pelintra, desmoralizada, mal equipada e incapaz de defender o país. O ensino público foi gradualmente infectado por ideologias neo-marxistas a um grau que rivaliza com a endoutrinação no ensino do Estado Novo mas fica longe do seu grau de exigência técnica. A qualidade do pessoal político degradou-se e a maioria dos ministros do regime actual não teriam por incompetência técnica lugar num governo do Dr. Salazar ou do Dr. Marcelo. O resultado é um país ultrapassado pelos países saídos das ruínas do império soviético, com uma economia pouco competitiva de baixa produtividade, endividado e dependente dos dinheiros europeus.

No final ficámos com o arbítrio mais livre e, em consequência, com menos desculpas, o que só por si é positivo.

23/04/2026

NPD. Confirmed diagnosis (2) - Dear devotees of Mr. Trump, you have been warned

Exactly four months ago, I wrote about Mr. Trump's narcissistic personality disorder and added that this is not a matter within Mr. Donald Trump's private domain. The syndrome of exacerbated narcissism leads the subject to choose his team not based on competence, but on their ability to flatter him and make decisions, not in the national interest, but according to whims and his need to be constantly flattered. In the case of the President of a State, once an uncontested world power that commands the second-largest nuclear arsenal, this syndrome is particularly dangerous.

It has now come to light that Chief of staff Susie Wiles «was concerned aides were giving the President a rose-colored view of how the war was being perceived domestically, telling Trump what he wanted to hear instead of what he needed to hear.»

But things got so out of control, and the escape from reality went so far that the former yes-men «kept the president out of the room as they got minute-by-minute updates because they believed his impatience wouldn’t be helpful, instead updating him at meaningful moments, a senior administration official said.»

Therefore, we have to agree with The Atlantic when it wrote: «A president whom aides do not view as reliable and steady is a danger in any situation, but the war in Iran has brought many of these issues to the fore. In the lead-up to the war, which Trump launched without consulting Congress, making a case to the American people, or assembling allies, many of his aides believed that Trump was not taking seriously the risks and trade-offs involved, according to Jonathan Swan and Maggie Haberman of The New York Times. (The fact that these aides have voiced none of these concerns publicly but said enough privately that the comments leaked later does not speak well for the Cabinet’s judgment or courage.)»

22/04/2026

Um Serviço de Desenvolvimento de Identidade de Género pode ser uma espécie de clínica do Dr. Mengele (6) - Atropelados pela realidade

Continuação de (1), (2), (3), (4), (5)

«Duas notícias recentes sugerem que médicos que prescrevem procedimentos de transição irreversíveis para adolescentes devem levar a ameaça legal a sério. A primeira foi uma indemnização de $2 milhões para um único paciente em Nova York em 30 de janeiro.

O caso dizia respeito a uma mulher chamada Fox Varian. Após uma infância difícil, a Sra. Varian começou a sofrer de depressão e ansiedade. Ela também foi diagnosticada com autismo. Com 15 anos, ela se identificava como rapaz. A sua psicóloga teria alertado a sua mãe de que ela corria risco de suicídio se não fizesse a cirurgia.

Em Dezembro de 2019, aos 16 anos, a Sra. Varian passou por uma mastectomia dupla. Longe de melhorar, sua saúde mental piorou. Em 2022, ela decidiu fazer a detransição. No ano seguinte, ela entrou com uma acção por erro médico contra a sua psicóloga e o seu cirurgião. Foi o primeiro processo desse tipo movido por um detransicionador a ser apresentado a um júri americano. "Eu tinha 16 anos e estava realmente, realmente mentalmente doente, obviamente", disse a Sra. Varian ao tribunal, segundo o Free Press. O júri concedeu a ela $1,6 milhão por dor passada e futura e $400.000 por custos médicos futuros.

21/04/2026

Crónica da passagem de um governo (46b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 46a)

Mal não fará (Marcos 16:18), mas assim não vamos lá

Já o escrevi, os centros de dados recorrentemente anunciados com investimento de milhões de euros usarão resmas de megawatts produzidos em incontáveis hectares cobertos por painéis solares fabricados na China e contribuirão com dúzias de empregos semi-qualificados. O anúncio pela AWS European Sovereign Cloud da Amazon descrito pomposamente pelo Expresso como «uma nova infraestrutura europeia de computação em nuvem concebida para responder às exigências de soberania digital da União Europeia» não é excepção.

O governo merece todas as críticas, menos as estúpidas

O Dr. Montenegro foi incinerado pela oposição durante o debate quinzenal que teve lugar no parlamento na semana passada à pala da inflação em geral e do aumento dos combustíveis em particular, acusado de insensibilidade por não derramar mais subsídios, ou seja, por não espremer uns portugueses com impostos para dar a outros. O Dr. Ventura destacou-se nas baboseiras esmerando-se a apresentar a diferença de preços da gasolina entre Elvas e Badajoz à vista, mostrando um desvelo pelo socialismo que faria inveja ao Dr. Sánchez, responsável pelo milagre dos preços de Badajoz.

É indispensável saber quem são os clientes das empresas dos políticos. Os doadores dos partidos é segredo de Estado

A Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECPF) vai passar a retirar das lista de doações aos partidos os dados pessoais que identifiquem os doadores.

«Pagar a dívida é ideia de criança», dizia o Eng. Sócrates

O governo do Dr. Montenegro parece estar a seguir o conselho do Animal Feroz. Segundo o relatório da UTAO as amortizações das OT têm vindo a ser chutadas para a frente e o período 2026-2039 irá exigir um grande volume de reembolsos.

Canários na mina de carvão

As más notícias multiplicam-se e as boas notícias não são notícias, são pensamento milagroso para aliviar o povo. O BdP já tinha reduzido a previsão de crescimento de 2,3% para 1,8%. O CFP tirou agora 0,2 pontos percentuais à estimativa de crescimento, subiu a da inflação para 2,9% e prevê um défice nas contas públicas. O FMI prevê um crescimento de apenas 1,9% e a inflação a subir de 2,1% para 3,1% e um défice de 0,1%. E pronto, é o que há.