Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

06/10/2026

Crónica da passagem de um governo (70a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
O Dr. Montenegro não se poupa a tentar resolver os grandes problemas nacionais

E foi assim que interveio no momentoso quid pro quo entre Cristiano Ronaldo, um jogador em fim de carreira que já foi um dos melhores do mundo, e o Sr. Jorge Jesus, um seleccionador cuja ignorância da língua portuguesa não o impede de obter bons resultados. E ainda teve tempo de telefonar ao Sr. Proença, presidente da Federação e antigo árbitro bem-sucedido, dizem, mas que falhou na arbitragem entre o CR7 e Jesus.

A tragédia dos alunos sem professor é uma comédia de baixas e de imobilidade

Para não me repetir, remeto para o item "Afinal quantos professores temos?", onde concluí que não se sabe quantos professores existem, sendo certo que durante o consolado costista o número de alunos se reduziu em cem mil, redução parcialmente compensada pela invenção de novas disciplinas.

Como as baixas no presente ano lectivo só na primeira semana ultrapassaram os dois mil professores e os milhares de professores do Norte que não estão a dar aulas não estão disponíveis para vir para o Sul, só por milagre se evitariam os 664 horários por preencher na região de Lisboa (fonte)

Deve um ministro responder pelos erros de uma plataforma?

Já se sabia há mais de dois meses e está agora claro que a causa principal dos atraso na avaliação da provas está os erros da Plataforma de Classificação e Supervisão (PCS), desenvolvida por uma empresa Blat seleccionada por um instituto com autonomia administrativa (Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação - EduQA).

O Estado sucial português é o garante do direito ao aborto nos PALOP

Segundo a DGS, mais de quatro em cada dez IVG (o nome politicamente correcto do aborto) foram de mulheres estrangeiras, e mais de metade destas provenientes dos PALOP.

Não é o turismo que é de mais, é o resto que é de menos

O Dr. Machado, secretário de Estado do Turismo, estima que o turismo vai crescer este ano 2,5%, e ultrapassar 32 milhões de turistas e 125 milhões de dormidas. Dizem os detractores do turismo que este crescimento aumenta a dependência de um sector muito volátil com qualificações e salários baixos que manterão baixa a produtividade do trabalho. Os detractores esquecem que, com a prevista redução futura dos dinheiros de Bruxelas, é preciso encontrar um sucedâneo que evite ter de fazer reformas.

Primeiro estranha-se, depois entranha-se

A CReSAP é uma entidade criada pelo governo de Passos Coelho para avaliar os candidatos a nomeações para cargos públicos. Foi completamente ignorada durante os consolados do Dr. Costa, cujos governos enxamearam o aparelho do Estado sucial com gente incompetente ou/e corrupta. Pelos vistos, o governo actual está a seguir o mesmo caminho, nomeando 85% a 90% dos quadros que já ocupavam o cargo em regime de substituição, isto quando não fazem como o Dr. Pinto Luz que nomeou o seu chefe de gabinete para presidente do Instituto de Mobilidade e Transportes.

É por isso que o preço da gasolina é uma questão nacional

Como se vê no gráfico seguinte, o aumento do preço dos combustíveis está a dificultar o uso do automóvel pelos pobres que constituem quase 90% da população. 

mais liberdade

Entretanto, os neoliberais entendem que o aumento do preço dos combustíveis é apenas o resultado do aumento do preço das matérias-primas devido ao bloqueio de um quinto da produção mundial que passava, e agora não passa, pelo Estreito de Ormuz. Em consequência, dizem os neoliberais, é um problema que não se resolve com subsídios directos ou indirectos (o nome politicamente correcto de tirar dinheiro a uns para dar a outros) mas com o ajuste da procura à oferta, como o estão a fazer os consumidores ignorantes destas subtilezas (o consumo de combustíveis reduziu-se 10,3% em resposta ao aumento de 6,3%).

(Continua)

05/10/2026

CASE STUDY: Um imenso Portugal (68) - Banco Master, um imenso BES

Outros imensos Portugais

Para quem não tenha reparado, Daniel Vorcaro do Banco Master, está a ser considerado o grande vencedor das eleições de ontem no Brasil, já que 13 dos eleitos são citados nas investigações relacionados com o escândalo do seu banco considerado «a maior fraude bancária na história brasileira». Entre esses eleitos encontramos Jaques Wagner (PT-BA) e Rui Costa (PT-BA), para o Senado,  Hugo Motta (Republicanos-PB), Antonio Rueda (União Brasil-RJ) e Nikolas Ferreira (PL-MG), para a Câmara dos Deputados, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) apurado em primeiro lugar para a segunda volta das presidenciais.

Tal como no caso do BES, as cumplicidades não ficaram pelo partido no poder. Para citar só um caso, Daniel Vorcaro comprou literalmente o juiz Alexandre de Morais do Supremo Tribunal Federal, um apoiante de Lula da Silva e do PT.

04/10/2026

"You can't fool all of the people all the time" (20) - Robot portrait of a Trump supporter: male, old, white, and poorly educated

Other "You can't fool all of the people all the time."

Back to the 19th century mercantilism

«In his second administration, Donald Trump has injected the federal government deep into private markets and undermined the independence of government agencies and institutions. Most notably, he repeatedly and publicly pressured the Federal Reserve to lower interest rates. In a sharp departure from the traditional US model, and the model of economic government that has prevailed in the United States for centuries, Trump’s administration has acquired equity stakes in more than 30 American firms, and has even taken control of large swathes of the Venezuelan economy. 

Until the 19th century, Trumpian-style mercantilism was widely regarded as sound economic policy. That changed after Adam Smith’s powerful refutation of mercantilism revolutionized economic thinking. When private sector producers compete with one another, Smith argued, an “invisible hand” generates benefits that none intend, resulting in the production of goods and services that constitute the true “wealth of nations.”»

By Anne O. Krueger  (*)
___________
Anne Krueger is an American economist, World Bank Chief Economist from 1982 to 1986, and deputy managing director of the International Monetary Fund (IMF) from 2001 to 2006.

03/10/2026

Um dia como os outros na vida do estado sucial (45) - O SNS24 para amigos e correlegionários

Observador

Tenho um amigo que herdou uma fortuna, nunca teve seguro de saúde e sempre se tratou no SNS. Quando um dia, atormentado pelo custo crescente do meu seguro de saúde e pela qualidade minguante do hospital privado que frequentava, lhe perguntei qual era o milagre, respondeu-me com grande honestidade, isso que escreveu o Miguel Pinheiro por outras palavras: "é preciso ter cunhas".

02/10/2026

Ricardo Reis, Too Candid for the IMF and Too Fiercely Independent for Trumpism

 «The prestigious position might have been awarded this summer to Ricardo Reis of the London School of Economics. But his occasionally blunt media comments reportedly cost him the job. According to the Financial Times, the offending remarks included some orthodox criticisms of President Donald Trump’s tariffs, which he said would raise prices and reduce efficiency. In response, the IMF “categorically” denied that “any candidate was disqualified because of their academic views on the detrimental impact of tariffs…It is not credible to suggest we would object to views that our own research has confirmed and publicised.”

Tariffs are not, however, the only targets Mr Reis has hit. In his column for Expresso, a Portuguese newspaper, he once described Mr Trump as a “protofascist”, albeit institutionally constrained. He later suggested that the president likes tariffs partly because of the exemptions he can grant. “Anyone who wants to pay less has to convince Trump with flattery, business deals with his family, gifts…For someone who sees the presidency as a way to enrich himself personally, or even simply to be flattered, tariffs are an excellent tool.” Last year a column entitled “Gringos on the pampas” marvelled at the Trump administration’s willingness to lend to Argentina. The Peronist left, which could reclaim power at the next election, “proudly never pay what they owe”, he wrote.

As an academic, he is entitled to such views. But as an IMF appointee, they might have caused a fuss. America, after all, is the fund’s biggest shareholder; Argentina its biggest borrower.

Mr Reis will not, then, go to Washington, where he would have formed a dynamic Bretton Woods duo with Michael Kremer, a Nobel-prizewinner nominated this week to be chief economist of the World Bank. His influence will instead remain indirect and intellectual. His research sheds light on several of the fund’s preoccupations, such as fiscal limits, the monetary mystique of central banks and the network of currency swap lines between them.»

Ricardo Reis was too frank for the IMF

30/09/2026

Lost in translation (376) - O preço dos combustíveis e o "fosso" entre Portugal e Espanha

Jornal Económico

Abismado por a Espanha ter "agravado o fosso", cheguei a admitir que Don Sánchez, com as suas posições antissemitas, teria obtido um desconto dos xeiques árabes. Perante a angustiante dúvida, perguntei a um chatbot o que significaria o título da peça e recebi a seguinte resposta: 

«O governo do PSOE de Don Sánchez vai extrair dos contribuintes espanhóis mais 12 mil milhões de euros para subsidiar os preços dos combustíveis e o governo do PS-D do Dr. Montenegro só extrairá 1,3 mil milhões de euros dos contribuintes até ao final de 2026. 
No entanto, convirá ter em conta que, apesar dos preços a que ambos compram os combustíveis serem aproximadamente os mesmos, enquanto Don Sánchez arrecada 142 mil milhões de euros por ano com o Impuesto sobre la Renta de las Personas Físicas, o Dr. Montenegro só extrai 15 mil milhões de euros por ano do Imposto sobre o Rendimento de Pessoas Singulares. 
Em qualquer caso, trata-se essencialmente do mesmo, convencer os contribuintes que a redução do preço dos combustíveis é o equivalente ao milagro de la multiplicación de los panes / milagre da multiplicação dos pães.  
Não esqueças que o milagre favorece quem come mais pão.» 

28/09/2026

Crónica da passagem de um governo (69b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 69a)

O governo do Dr. Montenegro não faz reformas, faz engordas

O dinheiro dos contribuintes europeus canalizado pelo PRR – a bazuca do Dr. Costa - serviu também para contratar um batalhão de 1.300 funcionários que «o fim do PRR ameaça deixar desempregados trabalhadores que o Estado contratou», e que o ministro da Economia já prometeu fazer «o possível» para os manter como utentes da vaca marsupial pública na companhia dos restantes 767 mil.

O Dr. Montenegro ou o Dr. Sarmento deveria seguir a sugestão do Dr. Centeno…

… «explicando onde é que o Governo vai cortar 12 mil milhões de euros para cumprir metas europeias», uma vez que o governo está a contar com um excedente da Segurança Social que não existe e as contas públicas têm um «défice profundo». O Dr. Centeno está carregado de razão, apenas faltou dizer que o Dr. Montenegro e o Dr. Sarmento estão a contar com um inexistente excedente que o Dr. Costa e ele próprio contaram.

Vale a pena acrescentar que chegaram tarde as preocupações de “contas certas” de um Dr. Centeno que garantiu que a reversão para 35 horas não teria impacto orçamental (o aumento da despesa pública em Saúde duplicou entre 2015 e 2025) e converteu o investimento público na autoestrada mexicana do PS.

Take Another Plan. SATA, uma TAP açoriana

Recordemos, uma vez mais, que a SATA, a companhia regional de aviação dos Açores, assinou em 2016 um contrato de leasing de um avião Airbus A330 que custou até 2023 mais de 40 milhões de euros, com o avião estacionado desde 2019 no aeroporto Sá Carneiro, por custar mais caro mantê-lo a operar. Entretanto, a SATA recebeu ajudas de 453 milhões de euros e só em 2023 a comissão de inquérito do parlamento açoriano se deu conta. Descobriu-se mais tarde que a SATA estava tecnicamente falida, ninguém parece saber qual o montante exacto do passivo e procura-se desde 2024 um candidato privado para comprar o mono.

Como se fosse pouco, o governo dos Açores, que tem usado o dinheiro dos contribuintes para sustentar o elefante branco da SATA, aumentou as taxas aeroportuárias ao ponto da Ryanair ter decidido terminar há 6 meses a sua operação iniciada em 2015, que deu um importante contributo para o crescimento do turismo açoriano. Resultado: desde Abril o turismo para os Açores caiu 8% e teve menos 100 mil turistas.

“O acerto de contas chegou” (*)

Trading Economics

Como mostram os gráficos, as yields das obrigações a 10 anos do Tesouro português e do Tesouro americano (e de muitos outros), que vinham a crescer desde o início do ataque americano ao Irão, estão a atingir máximos de uma década. O Dr. Centeno deveria ter também pedido ao Dr. Montenegro ou ao Dr. Sarmento para explicarem como é que vão ser pagos os juros crescentes das próximas emissões e como vai ser compensada a redução resultante do aumento das yields do valor de mercado de 25 mil milhões de euros das OT que fazem parte do  Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social.

(*) Ricardo Reis, um pouco antes de não ser nomeado economista-chefe do FMI.