Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

23/03/2026

Pro memoria (146) - Os cortes no orçamento federal anunciados pelo Sr. Musk pareciam ser um bocadinho magalómanos... e estão a ser

Continuação de Os cortes no orçamento federal anunciados pelo Sr. Musk podem ser um bocadinho magalómanos e de Os cortes no orçamento federal anunciados pelo Sr. Musk podem ser um bocadinho magalómanos... e o défice pode ainda aumentar

Recordemos que o Sr. Musk garantiu em plena campanha eleitoral em 2024 num comício MAGAlómano no Madison Square Garden que iria cortar um terço do orçamento federal anual de US$ 7 biliões, o equivalente a US$ 2,3 biliões (2.300.000.000.000). 

Consumado o divórcio Musk-Trump, passado um ano e meio desde o anúncio e apenas cinco meses do ano fiscal de 2026 iniciado em Outubro e ainda sem a despesa militar decorrente do ataque ao Irão ao fim da 3.ª semana estimada em cerca de USD 20 mil milhões (o governo pediu ao Congresso um reforço do orçamento militar de USD 200 mil milhões), os dados oficiais mostram uma dívida federal em constante crescimento que já ultrapassou a do ano fiscal anterior.
Treasury.gov

Nas palavras do Committee for a Responsible Federal Budget «No matter what metric one chooses to examine our fiscal trajectory, we are clearly headed in the wrong direction. Gross debt is now $39 trillion; debt held by the public recently surpassed $31 trillion for the first time; deficits are approaching $2 trillion; and deficits as a share of the economy are twice as large as the 3% goal many economists and bipartisan policymakers believe we ought to be targeting.?»

22/03/2026

DIÁRIO DE BORDO: Peter Hegseth e Aziz Nasirzadeh, semelhanças e diferenças

Descubra as diferenças

«The war in Iran is protected by God», disse Peter Hegseth, o secretário de Estado da Defesa, perdão, secretário de Estado da Guerra, em entrevista ao programa 60 Minutes Overtime da CBS News. 

Dei comigo a pensar que o general de brigada Aziz Nasirzadeh, o homólogo de Peter Hegseth no Irão, poderia ter dito, em nome de Alá, algo equivalente sobre o ataque ao seu país pela tropa comandada pelo seu homólogo.

E daí a dúvida. Afinal, quais são as diferenças entre Pete Hegseth e Aziz Nasirzadeh? Ocorreram-me várias, por exemplo, Hegseth foi acusado e julgado por assédio sexual, o que seria impossível acontecer a Aziz Nasirzadeh, talvez por boas e, certamente, por más razões. Porém, a maior diferença é que Aziz Nasirzadeh e o seu chefe Supremo Aiatollah Ali Khamenei estão mortos desde o dia 28 de Fevereiro em consequência de um ataque ordenado por Pete Hegseth e o seu chefe, e estes ainda estão vivos.

De volta à Mota-Engil e aos "fundos-abutre"

Faz um tempo, comentei aqui a ridícula conclusão de uma peça do Expresso com o título "Quem são os 'fundos abutres' que investem quase €300 milhões para a bolsa nacional se afundar?" (*) de que existe um enorme risco de uns fundos afundarem uma bolsa na qual controlam menos de 0,5% da capitalização bolsista de 11 empresas portuguesas.

Algum tempo depois, à mesma conclusão chegou o artigo «Mota-Engil foi a “vítima perfeita para um fundo abutre”, diz administrador financeiro». Já agora, recorde-se que a Mota-Engil teve como presidente executivo durante vários anos o Dr. Jorge Coelho, ministro de vários governos socialistas e eminência parda do PS e do regime. Desta vez, o abutre foi identificado como o Muddy Waters Capital Domino Master Fund que, apenas com uma posição curta de 0,65% que reduziu para 0,57%, teria segundo o artigo alcançado o milagre de afundar as cotações da Mota-Engil em quase 40%.

O passo seguinte foi uma entrevista ao Expresso do presidente da Mota-Engil em que este acusou o Muddy Waters de "manipulação do mercado" por deter posições a descoberto de 0,65% do capital, no qual a família Mota perdeu em 2021 a maioria por ter vendido aos chineses da CCCC (+)  China Communications Construction Company -, venda determinada pelas dificuldades da Mota-Engil de pagar a dívida pantagruélica ao Novo Banco, herdada por este do BES. 

Desta vez, o tiro saiu pela culatra porque um ano depois dessa entrevista a Muddy Waters «moveu um processo de difamação no tribunal federal do Texas contra Carlos Mota dos Santos». É um exagero. Não havia necessidade - se o ridículo fosse mortal, a "difamação" teria morto a Mota-Engil.
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(*) Os "fundos abutres" praticam o short selling ou venda a descoberto que consiste em vender um activo esperando comprá-lo mais tarde a uma cotação menor, o que só faz sentido para o fundo se tiver expectativas que o activo em causa está sobreavaliado. Em mercados evoluídos, considera-se que esta prática reduz o risco para os investidores e aumenta a liquidez e a estabilidade dos mercados.

(+) A Mota-Engil foi mais um dos "centros de decisão nacional" vendidos a estrangeiros devido ao endividamento de públicos e privados e à descapitalização da economia portuguesa.

20/03/2026

Khamenei May Be Gone, thank you Bibi and thank you Don, but (4) - He now knows that "complex societies" with zero capacity can inflict huge damage

Continuation of (1), (2), (3)

«Although President Donald Trump says he has “destroyed 100% of Iran’s Military Capability”, the 0% that remains is playing havoc with the global economy by choking off 10-15% of its oil supply.» (Source)

Yes, Mr Trump was right when derided «interventionalists» for «intervening in complex societies that they did not even understand themselves».


«Vexed by negative coverage, Mr Trump is describing critical media outlets as “Corrupt and Highly Unpatriotic”. On March 15th he said he was “thrilled” to hear that his Federal Communications Commission might review the broadcast licences of those that peddle “FAKE NEWS”

19/03/2026

Bons exemplos (144) - Leitura recomendada aos membros actuais e futuros dos governos do Portugal dos Pequeninos

Não desconhecendo a diferença entre intenções e realizações e acreditando que sem boas intenções não há boas realizações (as opiniões dividem-se a este respeito), recomendaria aos membros dos governos actuais e futuros a leitura integral da mensagem aos funcionários da administração pública inglesa (que lá, não por acaso, se chama Civil Service) de Antonia Romeo, recentemente nomeada Secretária do Gabinete e Chefe do Serviço Civil, mensagem da qual à guisa de teaser extraio alguns trechos.

«The Civil Service has deep skills and expertise, but we need to continue to modernise and innovate. I have spent much of the past five years talking to civil servants across the country about what they want from the Civil Service. What you have told me is that you want to change the things that get in the way of you doing your jobs. You want us to be more productive, to do things differently. You want to be proud of what you achieve. Civil Service modernisation needs to embrace your ideas and have innovation at its core.

I have given my career to public service because I care passionately about the country and the importance of democracy. No one will be a stronger advocate of the Civil Service than I am. I will stand up strongly for the Civil Service and I will work with you all to maintain and build trust in our institution. In 25 years I have seen civil servants respond to huge challenges with creativity, resilience, and determination. I know what we can achieve together.

Finally, my commitment to you as your Cabinet Secretary is to provide the energy, direction and support you need to excel. I will always take pride in what we do. You do some of the hardest jobs in the country - and you do them because they are hard, not in spite of them being hard.

That is the heart of public service. Every single person in the country, every day, depends on our work. That should be a matter of pride for us all, and something we should all carry with us.»

17/03/2026

Crónica da passagem de um governo (41b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 41a)

Será mais uma manifestação de reverência pelo semanário de referência?

Concedo que, à parte considerações ideológicas, o jornalismo do Expresso é provavelmente o de melhor qualidade do Portugal dos Pequeninos com um grau de independência não muito vulgar, o que não é dizer muito porque o jornalismo de Portugal dos Pequeninos é de fraca qualidade e está muitas vezes ao serviço de alguém. Em consequência, as “notícias” do Expresso, por vezes opinião travestida, são importantes para credibilizar qualquer governo, de onde os governos PS terem movido as suas melhores influências para retribuírem a boa-vontade, como nestas manobras de lease-back com o Novo Banco. Menos do que os governos PS e com menos sucesso (veja-se o escarafunchar da moradia e da Spinumviva do Dr. Montenegro), também os governos PSD tentaram aliciar as boas-vontades. É neste contexto que pode ser vista a decisão da CMVM de dispensar de uma OPA a compra de uma participação na Impresa pelos herdeiros do falecido Sr. Burlesconi, sem dar opção aos accionistas minoritários, como aqui explica o jornal Eco.

A gigafábrica de IA, mal não fará (Marcos 16:18)

À míngua de reformas, o Dr. Matias, ministro da Reforma do Estado, gasta o seu talento a anunciar gigafábricas de IA e, mostrando o que está a fazer no governo, arregimentou spin doctors que enchem as páginas dos jornais com gigabytes de conversa fiada sobre o tema. Não se trata só da Gigafábrica de IA em Sines (por agora só uma candidatura aos dinheiros de Bruxelas), as gigafábricas irão multiplicar-se por todo o país (por agora só Abrantes).

Afinal, o que são gigafábricas? Para quem pense que albergarão batalhões de cientistas e técnicos altamente especializados, contribuindo assim para a retenção de talentos, pense outra vez. Por exemplo em Sines, prevê-se um investimento pantagruélico de 18 mil milhões de euros que serão gastos principalmente em hardware made in Taiwan, sistemas de refrigeração made in Germany, kms de fibra óptica, tudo para consumir e equivalente a mais de metade do consumo total do país, energia que será produzida em resmas de painéis solares fabricados na China e espalhadas pelo Alentejo e outros lugares pitorescos. Não serão batalhões de técnicos, serão umas poucas centenas, nem serão altamente especializados - esses estarão noutros países -, serão engenheiros electrotécnicos, programadores, administrativos, etc., indispensáveis para manter a funcionar um supercomputador com milhares de GPU da Nvidia.

E isto é mau? Claro que não, mas não nos façam de atrasados mentais. É muito bom para um país que tem milhares de Km2 vazios, centenas de dias por ano de sol e um clima agradável para os técnicos estrangeiros e não consegue fazer melhor.

Canários na mina de carvão

Não vou escrever sobre os factores exógenos, pelos quais pouco se pode fazer além de rezar para que os Srs. Bibi & e o seu ajudante Donaldo se cansem ou os aiatolas se rendam, o estreito de Ormuz não fique fechado por muito mais tempo e o barril de petróleo não chegue aos USD200, enquanto os tugas compram mais uns popós, sem esquecer os Porsches que se vendem como pãezinhos quentes.

Por agora, já tivemos o comboio de tempestades do qual pode resultar um défice de 0,8% do PIB e, ainda antes do tsunami petrolífero, a semana passada as emissões de OT a 7 anos e a 9 anos fizeram-se com yields mais elevadas 29 e 12 pontos-base, respectivamente, do que as yields das últimas emissões dos mesmos prazos.

16/03/2026

It's too much, even for someone like Mr. Trump

Crónica da passagem de um governo (41a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Subsidiar os preços em vez de apoiar as famílias

Face aos aumentos dos preços do petróleo resultantes do fecho do estreito de Ormuz (onde a frota de Albuquerque chegou no princípio do século XVI e os portugueses lá construíram o Forte de Nossa Senhora da Conceição) em resposta à cruzada dos Srs. Bibi & Trump, o governo decidiu uma vez mais subsidiar os combustíveis através de uma dedução no ISP. Dito de outro modo, em vez de subsidiar as famílias mais vulneráveis (como fez o governo trabalhista inglês), o governo decidiu que a redução de receita fiscal devida à dedução no ISP seria compensada por todos os contribuintes, mesmo os que não precisam e em média gastam mais combustíveis.

Aversão ao risco

A aversão ao risco é uma das características da cultura do Portugal dos Pequeninos como este blogue vem há décadas lembrando (por exemplo no post DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: aversão ao risco é o que nos sobeja).

mais liberdade

A coisa é tão doentemente acentuada que as sociedades de capital de risco, criadas no princípio da década de 90, que pretendiam imitar o venture capital, se dedicaram na maioria do casos a fazer exactamente o contrário financiando empresas quase falidas. Não admira que, como o diagrama mostra o capital de risco tenha um peso muito menos significativo do que na média das UE, que já de si não é um bom exemplo.

Pensamento milagroso, desta vez vai ser diferente?

Incentivando a fatal aversão ao risco dos portugueses em geral e dos empresários em especial, o governo anunciou que vai despejar a fundo perdido quase mil milhões generosamente oferecidos pelos contribuintes europeus para financiar a inovação. Naturalmente, as “ajudas à inovação” vão ser dadas a projectos aprovados pelos nossos venture capitalists que são os apparatchiks do Banco Português de Fomento que geriu um sistema de garantia mútua que até ao final de 2020 registou perdas por pagamento de garantias de 881,08 milhões e desde 2012 até 2024 registou perdas de 124 milhões nas cerca de 300 startups em que participou.

Boa Nova. Uma reformazita

Arriscando estar a deitar foguetes antes da festa, festejo a iniciativa do governo de podar o Instituto de Emprego e Formação Profissional de ramos inúteis eliminando estruturas e chefias infectadas pelo parkinsonismo (o de C. Northcote Parkinson e não o de James Parkinson).

(Continua)

14/03/2026

CASE STUDY: Um imenso Portugal (67) - Um Brasil igual ao Chile e mais do que Alemanha

Outros imensos Portugais

Com um défice orçamental nominal de 8-9%, o rácio da dívida pública do Brasil de Lula da Silva tem vindo a crescer de 62% em 2010, sendo actualmente quase o dobro da média dos rácios dos países latino-americanos, e o FMI estima que em 2030 atingirá 99%.  

Por coincidência, 62% em 2010 era aproximadamente o rácio da dívida portuguesa antes de José "Animal Feroz" Sócrates, amigo do peito de Lula da Silva, ter iniciado em 2005 o caminho para a bancarrota. Por outra infeliz coincidência, o rácio do Brasil, estimado pelo FMI para 2030, de 99% está próximo dos 98% de Portugal registados em 2023.

Uma das maiores ameaças ao equilíbrio fiscal é o sistema de segurança social cujas pensões, que representam actualmente 10% do PIB, representarão em 2050 uma percentagem mais elevada do que a da Alemanha e da média da OCDE, países muito mais envelhecidos do que o Brasil. Com uma estrutura etária semelhante à Chile ou do México, os gastos com pensões do Brasil já atingem em percentagem do PIB o nível do Japão.

Diferentemente do que di Lampedusa prescreveu para a Sicília, no caso do Brasil (e de Portugal) é  preciso que muito mude e nada fique na mesma.