Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

06/04/2026

You can't fool all of the people all the time (13) - A kind of reversed Rufus T.

Other "You can't fool all of the people all the time."

YouGov

Rufus T. by Groucho | Donald T. by himself

Rufus T. Firefly, played by Groucho Marx, is an eccentric dictator who wants to be president of Freedonia in the Marx Brothers' movie Duck Soup. Rufus says through Groucho's mouth in his inaugural speech as Prime Minister of Freedonia, "Those are my principles, and if you don't like them... well, I have others."

Unlike Rufus, Mr. Trump would say, "Today these are my principles that you should like. Tomorrow they will be others, and you should like them too."

That's why it's much harder to be a devotee of Donald Trump than to be a fan of Groucho Marx, and that's why we should admire the former more than the latter.

05/04/2026

DIÁRIO DE BORDO: A democracia não tem proprietários

Não fora a circunstância improvável de, muitos anos atrás, me ter cruzado com o Dr. Jorge Miranda, que então me pareceu um convicto democrata e uma pessoa decente, não teria o incómodo de comentar a sua entrevista ao Sofá do Parlamento, da qual li um resumo no Observador.

Nessa entrevista, o Dr. Jorge Miranda parte de alguns factos indesmentíveis, como o Chega defender (ou ter defendido, porque o Dr. Ventura ainda está na fase de desenhar o seu produto) a castração química ou a prisão perpétua, a que poderia ter acrescentado várias opiniões fundamentadas (que não referiu e eu acrescento) como, por exemplo, o ideário do Chega (por princípio) e do Dr. Ventura (por conveniência) ser em muitos aspectos indistinguível de uma espécie de socialismo estatista de direita, ou os comportamentos de um número significativo dos seus membros serem mais censuráveis, segundo os seus declarados princípios, do que os comportamentos tão veementemente censurados nos outros partidos.

Desses factos e dessas opiniões, estas mais subjacentes do que expressas, o Dr. Jorge Miranda extraiu, porém, conclusões e consequências, a meu ver inaceitáveis, que comprometem as suas convicções democráticas. Ao não reconhecer ao Chega o direito de designar juízes para o Tribunal Constitucional e pretender limitar a sua participação numa revisão da Constituição, limites que ele, aliás, não define, parecendo deixar a definição aos Pais de Constituição, o Dr. Jorge Miranda retira aos 1,4 milhões de eleitores do Chega o direito de se deixarem alinear pela demagogia e hipnotizar por um tribuno de opereta, o que, mesmo estas se escolhas não abonem o discernimento desses eleitores, é incompatível com os princípios de uma democracia liberal que esperava serem por ele partilhados.

04/04/2026

Mr. Trump not doing what he said he would do is grounds for resignation, and doing exactly what Mr. Trump ordered could be grounds for being fired.

In recent weeks, the Trump administration has suffered two losses: Joe Kent, the director of the National Counterterrorism Center, who resigned, and Pam Bondi, who was fired.

«When Joe Kent,  (...) in protest of the Iran war, he blamed everyone except the person who launched it. In his resignation letter, addressed to President Trump, Kent portrays the president as a passive figure manipulated by others—“high-ranking Israeli officials” and “influential members of the American media”—rather than the most powerful person imposing his will upon the world. Again and again, Kent casts Trump, a two-term president, as someone swept up in events rather than driving them.

“I support the values and the foreign policies that you campaigned on in 2016, 2020, 2024, which you enacted in your first term,” Kent writes. “Until June of 2025, you understood that the wars in the Middle East were a trap that robbed America of the precious lives of our patriots and depleted the wealth and prosperity of our nation.” The alleged shift, Kent claims, was due to an Israeli and media-driven “misinformation campaign that wholly undermined your America First platform” and “was used to deceive you.”» (The Atlantic)

«President Donald Trump is reorganizing his cabinet just in time for spring cleaning. After weeks of rumors, he removed Attorney General Pam Bondi on Thursday afternoon. (...) 

Bondi seemed to keep to one simple rule during her time in office: Do exactly as Trump says. When the president named a list of enemies to target—including former FBI director James Comey and New York attorney general Letitia James—Bondi sprang into action, making sure charges were filed on each in just over a month. While past attorneys general have stressed their independence, Bondi looked happy to play the loyalist.That may have been what Trump wanted, but not what he needed (...). Bondi’s efforts to please Trump ended up backfiring, for the administration and for her. » (The Free Press)

03/04/2026

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (80) - Os satélites e a saga dos cacilheiros

Outros portugueses no topo do mundo.

Sucumbindo ao complexo de Eduardo Lourenço (*) , o Expresso, aka semanário de reverência, descreveu tão entusiasticamente a colocação em órbita de quatro satélites portugueses (+) Camões, Agustina, Pessoa e Saramago «que reforçam a chamada constelação Lusíada» e mais dois «um da Força Aérea e outro do Centro de Engenharia e Desenvolvimento (CEiiA), ambos pertencem à constelação do Atlântico» que dois dias depois deixou a missão Artemis II da NASA ao nível da travessia do Tejo por um dos novos cacilheiros eléctricos (-).

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(*) Em homenagem ao escritor e filósofo português que identificou o «sentimento de fragilidade íntima inconsciente e a correspondente vontade de a compensar com o desejo de fazer boa figura, a título pessoal ou colectivo»,

(+) Os seis luso-satélites correspondem a 0,044% dos 13.700 satélites que se estima já tenham sido lançados, ou menos de 1/3 dos 18 satélites que competeriam aos 0,125% da quota mundial de tugas.

(-) Quem já esteja esquecido, pode ler aqui um resumo da saga dos cacilheiros eléctricos, saga que, em boa verdade, é um feito mais notável do que a colocação em órbita pelo Falcon 9 do Dr. Musk dos seis satelitezitos.

01/04/2026

Khamenei May Be Gone, thank you Bibi and thank you Don, but (6) - GREAT, PREDICTABLE, UNFORESEEN, BEAUTIFUL CONSEQUENCES

Continuation of (1), (2), (3), (4), (5)

«FOR HALF a century the Middle East’s petro-monarchies have cast themselves as reliable suppliers of low-cost petroleum. The third Gulf war, now in its fifth week, has shattered that image. With the Strait of Hormuz largely closed, 15% of the world’s oil cannot reach its customers. All Gulf states have slashed output and seen export proceeds plunge.

All bar one. As its tankers keep plying the strait (see chart 1), Iran is now earning nearly twice as much from oil sales each day as it did before American and Israeli bombs started falling on February 28th. It may be pummelled on the battlefield, but the regime is winning the energy war.

Working out how many barrels the world’s greatest sanctions-dodger exports is hard. Its tankers are more furtive than ever, commercial providers of satellite imagery have paused their updates for the region and electronic scrambling has thrown a fog across the Gulf. But a source with knowledge of Iran’s oil accounting, who spoke to The Economist on condition of anonymity, confirms the country is currently exporting 2.4m-2.8m barrels of oil and petroleum products per day (b/d), including 1.5m-1.8m b/d of crude. That is the same, if not more, than it did on average last year. It also sells at much higher prices.

Moreover, Iran’s oil machine has adapted in ways that make it more resilient to strikes and sanctions. Most of the proceeds are now going to the Islamic Revolutionary Guard Corps (IRGC), the regime’s elite fighting force. And China is playing an active role in allowing the money to flow. Iran’s war chest is buried deep in Asia, safe from Israeli ordnance.»

31/03/2026

Crónica da passagem de um governo (43b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 43a)

A reforma do século. O governo reconhece que o Estado sucial é uma máquina kafkiana

A semana passada vários secretários de Estado produziram um despacho que dispensa os «cidadãos e agentes económicos» de apresentarem à Administração Pública documentos que já tenham sido apresentados. É uma reforma extraordinária, à altura de um país que virá ser «um líder mundial na IA», como nos garante o ministro da Reforma do Estado. Suspeito que ocorra um pequeno quid - o “organismo” a quem deveriam ser apresentados os documentos não os obtenha e o cidadão ou o agente económico conclua que é mais simples e rápido apresentá-los de novo.

Então não estamos a crescer mais do que a Óropa?

Estamos a crescer mais do que a Europa foi durante anos o mantra do Dr. Costa, como se não fosse normal um país relativamente pobre crescer mais do que os países relativamente ricos para não perder a esperança de um dia os alcançar.

Fonte

Ainda que se saiba, como lembra Borges de Assunção, que o PIB per capita de 2000 (85%) estava "inchado" pelo endividamento público e privado dessa época e não era sustentável, a verdade é que o PIB per capita de 2025 está ainda mais "inchado" pelo endividamento público

O saque fiscal. Dois exemplos

mais liberdade


Desta vez vai ser diferente?

Fonte

O valor actual da dívida pública total de 69,2 mil milhões em 2000 seria em 2025 a preços actuais de 116 mil milhões. A dívida efectiva em 2025 é 275 mil milhões, ou seja 2,4 vezes mais elevada. O valor actual da dívida pública a não residentes em 2000 seria em 2025 de 57 mil milhões. A dívida efectiva não residentes em 2025 (incluindo BCE) é 190 mil milhões, ou seja 3,3 vezes mais elevada. Devemos mais em termos absolutos e em termos relativos e sobretudo devemos mais a não residentes. Se tudo correr bem, não haverá problemas, porém, como a História mostra abundantemente, nem sempre tudo corre bem.
 
(Continua)

30/03/2026

Crónica da passagem de um governo (43a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Boa Nova

Em 2025 o governo gastou na Defesa mais 1,6 mil milhões do que em 2024 e atingiu o objectivo da NATO de 2% do PIB. Dr. Trump tome nota e Dr. Putin cuide-se.

Choque da realidade com a Boa Nova

E como foi alcançado o milagre? O semanário de reverência explica com grande ingenuidade que «o Governo foi buscar €2 mil milhões de euros a outros ministérios (e às) pensões dos militares, que alguns Estados-membros têm dentro dos seus ministérios da Defesa, representam cerca de 1.200 milhões de euros em Portugal». Imagino que se o governo aposentasse os 21.500 tropas que ainda estão no activo somaria um ponto percentual e ficaria mais próximo da meta.

O dinheiro do Estado, segundo o Dr. Cavaco

O Dr. Cavaco, que reivindica para si ter chefiado o governo mais reformador de Portugal (não sem razão, pela falta de reformas dos outros governos), escreve um artigo no Expresso exortando o governo a introduzir mais reformas com o título «O dinheiro do Estado não cai do céu».

Dame Tatcher, que um dia disse numa conferência do partido Conservador «there is no such thing as public money. There is only taxpayers’ money», diria hoje ao ler o Expresso «There is no salvation for a country where the self-proclaimed most reformist prime minister assures that the money belongs to the State».

Por falar em dinheiro do Estado…

Jornal de Negócios

A receita total do Estado, isto é, o dinheiro extorquido aos contribuintes, voltou a aumentar 0,2 pontos percentuais o ano passado, o que permitiu ao Dr. Miranda Sarmento – o Professor Pardal, como lhe chamou carinhosamente o Dr. Centeno -, anunciar o “brilharete” de um excedente orçamental de 0,7% do PIB.

Se o governo excluir os ignorantes as universidades podem fechar

O governo pretende exigir níveis mínimos de literacia, numeracia e inglês no acesso à universidade, o que acarreta o risco de exclusão, lembram avisadamente os estudantes e, digo eu, dependendo desses mínimos, pode levar ao fecho das universidades.

Take Another Plan. A arte de adiar até a coisa passar de inadiável a virtualmente impossível

No passado, foram vários os anúncios de que a TAP seria privatizada, o que na cabeça dos anunciantes seria vender uma quota minoritária a um benfeitor distraído. O primeiro anúncio foi, salvo erro, do falecido Dr. Jorge Coelho que só não vendeu a TAP à Swissair porque esta, entretanto, faliu. Um dos mais recentes foi o anúncio do Dr. Costa que admitiu em 2023 privatizar a TAP «na totalidade» depois de a ter renacionalizado oito anos antes.
 
Já com viagem marcada para Bruxelas, o Dr. Costa não teve tempo e deixou a missão para o Dr. Montenegro que a foi cozinhando em fogo lento até que o Dr. Bibi convenceu o Dr. Trump que ele poderia ganhar o Nobel da Paz se levasse a cabo um BIG AND BEAUTIFUL BOMBING do Irão. Bombing que ambos sabem quando começaram, não fazendo ideia de quando terminam, e está a ter uma série de consequências previsíveis, mas imprevistas, das quais poderá resultar o adiamento sine die da venda de uma quota minoritária.

(Continua)