Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

07/04/2026

Crónica da passagem de um governo (44a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Take Another Plan. A notícia da privatização da TAP é um bocadinho exagerada. O segredo está no “N”

Anda por aí uma certa euforia por ainda haver dois putativos interessados (Lufthansa e Air France-KLM) na privatização da TAP, ou melhor na compra de 49,9% do capital, que apresentaram uma NBO (Non-Biding Offer).

Take Another Plan. SATA, uma TAP das Ilhas

Recordemos que a SATA, a companhia regional de aviação dos Açores, assinou em 2016 um contrato de leasing de um avião Airbus A330 que custou até 2023 mais de 40 milhões de euros, com o avião estacionado desde 2019 no aeroporto Sá Carneiro, por custar mais caro mantê-lo a operar. Entretanto, a SATA recebeu ajudas de 453 milhões de euros e só em 2023 a comissão de inquérito do parlamento açoriano se deu conta. Descobriu-se mais tarde que a SATA estava tecnicamente falida, ninguém parece saber qual o montante exacto do passivo e procura-se um candidato privado para comprar o mono, querendo dizer um benemérito que, como é sabido, fora do Estado sucial é coisa que não existe.

De volta à actualidade, a privatização da SATA que já estava comprometida com anulação do concurso de privatização ficou agora ainda mais comprometida com o aumento do preço do jet fuel, risco que inexplicavelmente a SATA não tinha coberto, com um contrato hedge, por exemplo.

Para o Estado sucial todo o empresário é suspeito

Deve ser este princípio que inspira a Entidade para a Transparência a investigar «os titulares de cargos políticos e de altos cargos públicos que sejam donos de sociedades em pelo menos 50%» e a pedir-lhes a lista de clientes.

O governo devia aprender com os erros dos outros…

… e em vez de anunciar dia sim, dia não novos subsídios para compensar o aumento dos preços (como fez o governo do Eng. Sócrates e outros, com os resultados que se conhecem) ou a redução indiscriminada do IVA, deveria apoiar quem realmente precisa.

Oremos para que o choque fiscal estimule a oferta de habitação (3)

E se, como sugere o economista Luís Cabral, o IMT, que incide sobre as transações imobiliárias e ao torná-las mais onerosas torna-se um travão à fluidez do mercado de habitação, fosse eliminado ou drasticamente reduzido e o IMI fosse tornado progressivo?

O mistério da bitola ibérica. «Quem tem a bitola certa nunca se perde nos trilhos da vida»

Não vou elaborar sobre a bitola ibérica porque já o fiz inúmeras vezes (por exemplo, aqui bitola e ali), vou apenas registar que, mais uma vez a Infraestruturas de Portugal (IP) pela boca do seu presidente que disse «temos de continuar a construir em bitola ibérica e no fim, até 2040, reavaliamos».

Se o governo excluir os ignorantes as universidades podem fechar. Depois dos estudantes, os professores manifestam-se

A semana passada parabenizei os estudantes por se oporem à exigência de níveis mínimos de literacia, numeracia e inglês no acesso à universidade, o que conduziria à exclusão, impedindo que os iletrados excluídos recebessem o prémio salarial por ser diplomado a que têm direito.

mais liberdade

Acrescento agora a parabenização dos seus professores, cujo Conselho de Reitores também se opõe porque o projecto do governo tem «critérios generalizantes, requisitos e padronizações que violam o princípio da proporcionalidade». Com tais alunos e professores podemos dormir descansados que as universidades estão protegidas da exclusão dos ignorantes e continuarão a ter a sua devida proporção.

(Continua)


06/04/2026

You can't fool all of the people all the time (13) - A kind of reversed Rufus T.

Other "You can't fool all of the people all the time."

YouGov

Rufus T. by Groucho | Donald T. by himself

Rufus T. Firefly, played by Groucho Marx, is an eccentric dictator who wants to be president of Freedonia in the Marx Brothers' movie Duck Soup. Rufus says through Groucho's mouth in his inaugural speech as Prime Minister of Freedonia, "Those are my principles, and if you don't like them... well, I have others."

Unlike Rufus, Mr. Trump would say, "Today these are my principles that you should like. Tomorrow they will be others, and you should like them too."

That's why it's much harder to be a devotee of Donald Trump than to be a fan of Groucho Marx, and that's why we should admire the former more than the latter.

05/04/2026

DIÁRIO DE BORDO: A democracia não tem proprietários

Não fora a circunstância improvável de, muitos anos atrás, me ter cruzado com o Dr. Jorge Miranda, que então me pareceu um convicto democrata e uma pessoa decente, não teria o incómodo de comentar a sua entrevista ao Sofá do Parlamento, da qual li um resumo no Observador.

Nessa entrevista, o Dr. Jorge Miranda parte de alguns factos indesmentíveis, como o Chega defender (ou ter defendido, porque o Dr. Ventura ainda está na fase de desenhar o seu produto) a castração química ou a prisão perpétua, a que poderia ter acrescentado várias opiniões fundamentadas (que não referiu e eu acrescento) como, por exemplo, o ideário do Chega (por princípio) e do Dr. Ventura (por conveniência) ser em muitos aspectos indistinguível de uma espécie de socialismo estatista de direita, ou os comportamentos de um número significativo dos seus membros serem mais censuráveis, segundo os seus declarados princípios, do que os comportamentos tão veementemente censurados nos outros partidos.

Desses factos e dessas opiniões, estas mais subjacentes do que expressas, o Dr. Jorge Miranda extraiu, porém, conclusões e consequências, a meu ver inaceitáveis, que comprometem as suas convicções democráticas. Ao não reconhecer ao Chega o direito de designar juízes para o Tribunal Constitucional e pretender limitar a sua participação numa revisão da Constituição, limites que ele, aliás, não define, parecendo deixar a definição aos Pais de Constituição, o Dr. Jorge Miranda retira aos 1,4 milhões de eleitores do Chega o direito de se deixarem alinear pela demagogia e hipnotizar por um tribuno de opereta, o que, mesmo estas se escolhas não abonem o discernimento desses eleitores, é incompatível com os princípios de uma democracia liberal que esperava serem por ele partilhados.

04/04/2026

Mr. Trump not doing what he said he would do is grounds for resignation, and doing exactly what Mr. Trump ordered could be grounds for being fired.

In recent weeks, the Trump administration has suffered two losses: Joe Kent, the director of the National Counterterrorism Center, who resigned, and Pam Bondi, who was fired.

«When Joe Kent,  (...) in protest of the Iran war, he blamed everyone except the person who launched it. In his resignation letter, addressed to President Trump, Kent portrays the president as a passive figure manipulated by others—“high-ranking Israeli officials” and “influential members of the American media”—rather than the most powerful person imposing his will upon the world. Again and again, Kent casts Trump, a two-term president, as someone swept up in events rather than driving them.

“I support the values and the foreign policies that you campaigned on in 2016, 2020, 2024, which you enacted in your first term,” Kent writes. “Until June of 2025, you understood that the wars in the Middle East were a trap that robbed America of the precious lives of our patriots and depleted the wealth and prosperity of our nation.” The alleged shift, Kent claims, was due to an Israeli and media-driven “misinformation campaign that wholly undermined your America First platform” and “was used to deceive you.”» (The Atlantic)

«President Donald Trump is reorganizing his cabinet just in time for spring cleaning. After weeks of rumors, he removed Attorney General Pam Bondi on Thursday afternoon. (...) 

Bondi seemed to keep to one simple rule during her time in office: Do exactly as Trump says. When the president named a list of enemies to target—including former FBI director James Comey and New York attorney general Letitia James—Bondi sprang into action, making sure charges were filed on each in just over a month. While past attorneys general have stressed their independence, Bondi looked happy to play the loyalist.That may have been what Trump wanted, but not what he needed (...). Bondi’s efforts to please Trump ended up backfiring, for the administration and for her. » (The Free Press)

03/04/2026

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (80) - Os satélites e a saga dos cacilheiros

Outros portugueses no topo do mundo.

Sucumbindo ao complexo de Eduardo Lourenço (*) , o Expresso, aka semanário de reverência, descreveu tão entusiasticamente a colocação em órbita de quatro satélites portugueses (+) Camões, Agustina, Pessoa e Saramago «que reforçam a chamada constelação Lusíada» e mais dois «um da Força Aérea e outro do Centro de Engenharia e Desenvolvimento (CEiiA), ambos pertencem à constelação do Atlântico» que dois dias depois deixou a missão Artemis II da NASA ao nível da travessia do Tejo por um dos novos cacilheiros eléctricos (-).

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(*) Em homenagem ao escritor e filósofo português que identificou o «sentimento de fragilidade íntima inconsciente e a correspondente vontade de a compensar com o desejo de fazer boa figura, a título pessoal ou colectivo»,

(+) Os seis luso-satélites correspondem a 0,044% dos 13.700 satélites que se estima já tenham sido lançados, ou menos de 1/3 dos 18 satélites que competeriam aos 0,125% da quota mundial de tugas.

(-) Quem já esteja esquecido, pode ler aqui um resumo da saga dos cacilheiros eléctricos, saga que, em boa verdade, é um feito mais notável do que a colocação em órbita pelo Falcon 9 do Dr. Musk dos seis satelitezitos.

01/04/2026

Khamenei May Be Gone, thank you Bibi and thank you Don, but (6) - GREAT, PREDICTABLE, UNFORESEEN, BEAUTIFUL CONSEQUENCES

Continuation of (1), (2), (3), (4), (5)

«FOR HALF a century the Middle East’s petro-monarchies have cast themselves as reliable suppliers of low-cost petroleum. The third Gulf war, now in its fifth week, has shattered that image. With the Strait of Hormuz largely closed, 15% of the world’s oil cannot reach its customers. All Gulf states have slashed output and seen export proceeds plunge.

All bar one. As its tankers keep plying the strait (see chart 1), Iran is now earning nearly twice as much from oil sales each day as it did before American and Israeli bombs started falling on February 28th. It may be pummelled on the battlefield, but the regime is winning the energy war.

Working out how many barrels the world’s greatest sanctions-dodger exports is hard. Its tankers are more furtive than ever, commercial providers of satellite imagery have paused their updates for the region and electronic scrambling has thrown a fog across the Gulf. But a source with knowledge of Iran’s oil accounting, who spoke to The Economist on condition of anonymity, confirms the country is currently exporting 2.4m-2.8m barrels of oil and petroleum products per day (b/d), including 1.5m-1.8m b/d of crude. That is the same, if not more, than it did on average last year. It also sells at much higher prices.

Moreover, Iran’s oil machine has adapted in ways that make it more resilient to strikes and sanctions. Most of the proceeds are now going to the Islamic Revolutionary Guard Corps (IRGC), the regime’s elite fighting force. And China is playing an active role in allowing the money to flow. Iran’s war chest is buried deep in Asia, safe from Israeli ordnance.»

31/03/2026

Crónica da passagem de um governo (43b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 43a)

A reforma do século. O governo reconhece que o Estado sucial é uma máquina kafkiana

A semana passada vários secretários de Estado produziram um despacho que dispensa os «cidadãos e agentes económicos» de apresentarem à Administração Pública documentos que já tenham sido apresentados. É uma reforma extraordinária, à altura de um país que virá ser «um líder mundial na IA», como nos garante o ministro da Reforma do Estado. Suspeito que ocorra um pequeno quid - o “organismo” a quem deveriam ser apresentados os documentos não os obtenha e o cidadão ou o agente económico conclua que é mais simples e rápido apresentá-los de novo.

Então não estamos a crescer mais do que a Óropa?

Estamos a crescer mais do que a Europa foi durante anos o mantra do Dr. Costa, como se não fosse normal um país relativamente pobre crescer mais do que os países relativamente ricos para não perder a esperança de um dia os alcançar.

Fonte

Ainda que se saiba, como lembra Borges de Assunção, que o PIB per capita de 2000 (85%) estava "inchado" pelo endividamento público e privado dessa época e não era sustentável, a verdade é que o PIB per capita de 2025 está ainda mais "inchado" pelo endividamento público

O saque fiscal. Dois exemplos

mais liberdade


Desta vez vai ser diferente?

Fonte

O valor actual da dívida pública total de 69,2 mil milhões em 2000 seria em 2025 a preços actuais de 116 mil milhões. A dívida efectiva em 2025 é 275 mil milhões, ou seja 2,4 vezes mais elevada. O valor actual da dívida pública a não residentes em 2000 seria em 2025 de 57 mil milhões. A dívida efectiva não residentes em 2025 (incluindo BCE) é 190 mil milhões, ou seja 3,3 vezes mais elevada. Devemos mais em termos absolutos e em termos relativos e sobretudo devemos mais a não residentes. Se tudo correr bem, não haverá problemas, porém, como a História mostra abundantemente, nem sempre tudo corre bem.
 
(Continua)