Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

24/09/2017

ARTIGO DEFUNTO: Jornalismo de "referência" é o jornalismo de causas adoptado pelo jornal que se diz de referência (5)

Continuação de (1), (2), (3) e (4)

Na página 2 do caderno de Economia do Expresso podemos encontrar a "notícia" aqui ao lado, de onde um leitor distraído concluiria que o STJ «recusou» a entrega de documentos pedidos pela CPE, legitimando assim a golpada da geringonça para esconder os podres da Caixa.

Uma leitura do acórdão do STJ esclarece-nos que não houve recusa nenhuma porque este tribunal se limitou a constatar que:

(1) devido à referida golpada, a CPE consumiu o prazo para a sua existência de onde «parece dever concluir-se, em primeira linha, por exigência legal, que a comissão parlamentar de inquérito, requerente neste processo, se encontra extinta»;

e

(2) «A extinção da requerente – não havendo lugar à habilitação desta, nem se devendo prefigurar que a mesma se haja fundido no Plenário -, tornando impossível a continuação da lide, determina a extinção da instância.»



Na página 26 do caderno principal do mesmo semanário já não se trata só de jornalismo de causas, neste caso da causa «barriga de aluguer».

Trata-se da promoção da «colocação de um útero no mercado de arrendamento» por muito que o Expresso escreva o contrário e informe que a renda monetária neste caso é zero.

DIÁRIO DE BORDO: a passarada que me visita (30)

Rabirruivo-preto também conhecido por carvoeiro ou pisco-ferreiro (Phoenicurus ochruros)
Foto de Aves de Portugal, porque os marotos que me visitam pousam mas não gostam de posar

23/09/2017

NÓS VISTOS POR ELES: Se queremos perceber para onde vamos é melhor ler a imprensa estrangeira

Durante a semana, três artigos da imprensa financeira internacional foram várias vezes citados pelas câmaras de eco da geringonça como fazendo referências laudatórias aos feitos do governo de Costa a propósito do upgrade da notação da S&P.

Marcus Ashworth da Bloomberg, num artigo com um título («Portugal Is Investment Grade in Name Only») que é um bom resumo, explica que se mantém a «carga insustentável da dívida» principal razão do downgrade de há cinco anos, e que a melhoria dos yields das obrigações «é muito mais devida à sua relativa escassez, do que de qualquer transformação económica súbita». E insinua aquilo que muita gente sabe, mas poucos comentam publicamente: o rating da DBRS, uma agência que «não tem a mesma relevância para os investidores» do que as três maiores, existiu para o BCE poder aplicar o seu programa de alívio quantitativo a Portugal.

Mehreen Khan do FT no artigo «Portugal’s comeback is the eurozone’s socialist success story», cujas partes mais apetitosas foram abundantemente citadas, atribui o sucesso da recuperação principalmente «às perspectivas brilhantes da eurozona e da economia global» e aos «frutos das reformas dolorosas do mercado de trabalho do governo anterior de centro-direita». E conclui que a maior lição que os outros partidos socialistas europeus podem tirar do PS é «Timing is everything».

Tony Barber, o editor para Europa do FT, no artigo com o título igualmente significativo «Portugal reforms not gone far enough to ensure financial solidity», lembra que os enormes desafios que Portugal de enfrentar com «um governo socialista minoritário, apoiado no Parlamento pela extrema esquerda» e acrescenta que para os empresários portugueses «o governo está mais inclinado a satisfazer as medidas de luta contra a austeridade do que a reformas destinadas a melhorar a eficiência do sector público e a incentivar o investimento. A questão é se os problemas de Portugal tornarão inevitável um segundo resgate».

A partir dos trechos citados nos jornais domésticos e dos comentários dos opinion dealers alguém poderia entender o que de facto escreveu esta gente?

22/09/2017

O (IM)PERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: A esquerdalhada e a sua liberdade de expressão

«Ben Shapiro, um jovem jornalista judeu conservador com uma voz extremamente irritante, com posições anti-trump, tendo há anos como desporto preferido bater nos liberais (leia-se, nos EUA, socialistas) foi convidado a fazer um discurso na meca da liberdade de expressão: a universidade de Berkeley.

Foram precisos gastar US$ 600.000 para medidas de segurança (julgo que orçamento anual normal da Berkeley para segurança rondará os US$ 300.000), autorizar a polícia a poder usar spray irritante (primeira vez desde há vinte anos), chamar 700 polícias para manter a ordem, ter bombeiros e ambulâncias de prevenção, levantar barreiras de controle, prender nove manifestantes, quatro dos quais queriam introduzir armas no recinto, etc.

Há cinquenta anos, foram precisas duras manifestações para esquerdistas lançarem, e bem, o movimento para o Free Speech. Agora são preciso polícias para controlar e bloquear esquerdistas que querem impedirem o Free Speech.

A esquerda adora a liberdade de expressão. Só tem uma condição: a expressão tem que ser de esquerda.»

(De um email do Agent Provocateur)

COMO VÃO DESCALÇAR A BOTA? (12) - Estes já começaram a descalçá-la, antes que se faça tarde

Outras botas para descalçar.


O trilema de Žižek acima representado é evidentemente apenas tendencial. Haverá sempre alguns socialistas (ou comunistas) que serão honestos e inteligentes. Talvez seja o caso dos economistas Paulo Trigo Pereira, deputado do PS, Ricardo Cabral, Luís Teles Morais e Joana Andrade Vicente, que apresentaram um estudo defendendo premissas orçamentais distintas das do orçamento que governo está a negociar com o PCP e o BE.

À primeira vista (e à segunda) o estudo não se afasta do pensamento dominante na Mouse School of Economics, designadamente no que respeita à fé nas propriedades miraculosas da despesa pública e da sua multiplicação, fé tão profunda que resistiu à constatação do desastre das políticas socialistas: um crescimento anual médio de 1% nos últimos 10 anos culminado pelo resgate de 2011, não obstante o elevado investimento público, que aliás este governo socialista reduziu em 2016 para metade.

Nesse sentido, podemos até concluir que o estudo retoma a "pureza" da doutrina socialista abandonada pelo pragmatismo sem princípios nem rumo da mistela de perdões fiscais, aumento de impostos, redução do investimento e cativações adoptada pela dupla Costa-Ronaldo das Finanças para conseguir a quadratura do círculo da sobrevivência da geringonça, mantendo felizes, até ver, Bruxelas, comunistas e berloquistas.

O que verdadeiramente afasta o estudo da mistela é o vértice inferior esquerdo do  trilema de Žižek e a denúncia da «alquimia» orçamental:
«Não é possível, ao mesmo tempo, descongelar carreiras, aumentar emprego público, fazer actualizações salariais, pagar a fornecedores da Saúde e reduzir impostos. Isto não é possível, é do domínio da alquimia.»

21/09/2017

DIÁRIO DE BORDO: A difícil convivência da esquerdalhada com a realidade

Go, go, go, said the bird: human kind / Cannot bear very much reality.
T. S. Eliot, Burnt Norton (No. 1 of Four Quartets)

«É natural que entre os discursos de fim-de-semana das jovens Mortágua, da líder Catarina e do carismático Jerónimo e a realidade as diferenças se tendam cada vez mais a acentuar. Nesse quadro a única expectativa que me parece razoável é admitir que no campo da evolução da ilusão até à realidade ou da demagogia até à seriedade, a juventude dispõe sempre de algum avanço sobre quantos já levam um tempo de vida mais provecto

Excerto de «António Costa vs BE e PCP», Francisco Assis no Público

«A única coisa verdadeiramente grave em tudo isto — e a razão pela qual continuamos sujos mesmo tendo saído do lixo — é o desfasamento entre a realidade e a narrativa sobre essa realidade, que conduz a uma série de avaliações demagógicas sobre aquilo que nos tem acontecido. Sim, as previsões da direita falharam naquilo que ao diabo diz respeito. Só que as previsões da esquerda também falharam quanto à receita para sair da crise. Portugal está a crescer e a baixar o défice em condições que a própria esquerda garantiu que nunca cresceria: com o investimento público mais baixo da História e sem qualquer reestruturação da dívida.»

«Como sair do lixo e continuar sujo», João Miguel Tavares no Público

Mitos (263) - O contrário do dogma do aquecimento global (XVII)

Outros posts desta série.

Em retrospectiva: que o debate sobre o aquecimento global, principalmente sobre o papel da intervenção humana, é muito mais um debate ideológico do que um debate científico é algo cada vez mais claro. Que nesse debate as posições tendam a extremar-se entre os defensores do aquecimento global como obra humana – normalmente gente de esquerda – e os negacionistas – normalmente gente de direita – existindo muito pouco espaço para dúvida, ou seja para uma abordagem científica, é apenas uma consequência da deslocação da discussão do campo científico, onde predomina a racionalidade, para o campo ideológico e inevitavelmente político, onde predomina a crença.

O paper «Emission budgets and pathways consistent with limiting warming to 1.5 °C» publicado há dias no nature geoscience por uma equipa internacional de 10 investigadores na maioria europeus, concluiu que, apesar de o aquecimento global ainda se estar a verificar, as previsões do aumento da temperatura global podem ter sido indevidamente exageradas, sendo ainda possível atingir o objectivo do Tratado de Paris de limitar o aumento da temperatura global «bem abaixo» de 2° C acima do nível pré-industrial.

20/09/2017

SERVIÇO PÚBLICO: A ideologia do género é a continuação de um projecto totalitário por outros meios

«A Assembleia da República discute um projeto-lei do Bloco de Esquerda que permite a mudança de sexo aos 16 anos e, no caso de os pais se oporem a esta ideia, possibilita que os menores possam intentar judicialmente contra estes. A agenda política do BE é a seguinte: promover a ambiguidade da identidade sexual e considerar normal aquilo que, na maioria dos casos, é patológico. Convém alertar as pessoas para os perigos desta aberração legislativa, pois os deputados não sabem de medicina, nem tão-pouco de psiquiatria. Os casos de perturbação de identidade sexual (disforia de género) são complexos e levam por vezes os jovens ao suicídio, pelo que este assunto deve ser tratado com uma enorme prudência. Considerar que estes casos se resolvem com um pacote legislativo, é uma visão simplista, redutora e perigosa deste problema.

A estratégia por detrás desta mutação social, que agora se pretende implementar pela via legislativa, é fazer crer que a a ideologia de género é cientificamente correta. As teses desta ideologia são apresentadas como um dado científico consensual e indiscutível, mas isto é absolutamente falso. A natureza tem regras, cabe à ciência compreendê-las e descodificá-las. Portanto, compete à ciência elaborar as teorias que ajudem a desvendar a realidade e não o contrário, como acontece na ideologia do género: elaborou-se uma teoria e para a validar procura-se alterar a realidade.

As consequências deste conflito estão à vista. Nunca como hoje se baralhou e confundiu tanto a mente de crianças e adolescentes. E isto não tem nada a ver com liberdade, mas com uma doutrinação promovida por alguns partidos que se apoderaram ideologicamente do Estado e que desejam proceder à reeducação das massas. Neste contexto, esta proposta legislativa não poderia ser mais tirânica: os pais são expulsos do processo educativo, os psiquiatras e psicólogos são totalmente desvalorizados, sendo-lhes retiradas competências, e os menores passam a ser “propriedade” do Estado que, no plano educativo e legislativo, lhes impõe um novo sistema de valores baseado na ideologia do género. »


Excerto de «A estratégia para acabar com os rapazes e as raparigas», Pedro Afonso no Observador

SERVIÇO PÚBLICO: A geringonça pode gripar

«Até agora, a aposta de António Costa em formar governo com o apoio da extrema-esquerda parlamentar tinha--se revelado um enorme sucesso. No parlamento, esses partidos nunca vacilaram no seu apoio ao governo, que em contrapartida os presenteou com a aceitação de medidas radicais de efeitos desastrosos, como o regresso ao congelamento de rendas ou o imposto Mortágua. Por seu lado, Marcelo Rebelo de Sousa abstinha-se de exercer o que quer que se parecesse com um freio ou contrapeso, nunca suscitando sequer a intervenção do Tribunal Constitucional. António Costa conseguia, assim, ter um controlo absoluto do Estado sem ter vencido as eleições.

E esse controlo estendeu-se mesmo à própria sociedade. O PCP paralisou completamente as tradicionais reivindicações sindicais, que constituíam uma dor de cabeça para qualquer governo, e o Bloco também assegurou o apoio das redacções de jornais em que tem influência. O governo não apenas dispunha do apoio de uma maioria e de um Presidente como gozava ainda de uma paz política e social sem precedentes, por muitas asneiras que fizesse. Foi assim que graves descoordenações, como a morte de 65 pessoas num incêndio florestal ou um roubo de material de guerra, passaram praticamente incólumes na imprensa, enquanto uma simples subida do rating da dívida era objecto de manchetes eufóricas.

Mas começam agora a surgir os primeiros sinais de falhanço desta solução de governo».

Excerto de «A geringonça numa encruzilhada», Luís Menezes Leitão no jornal i

19/09/2017

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: A nível nacional como a nível local

A nível nacional:

jornal Eco


jornal Eco

A nível local:

Não é que as câmaras controladas pelos outros partidos se recomendem, mas o certo é que oito das dez autarquias mais endividadas são do PS. (Público)

DIÁRIO DE BORDO: O Céu visto da Terra (17)

[Outros céus vistos de outras terras - este Céu não é um céu nem é visto da Terra mas fica em boa companhia]

Saturno fotografado em Outubro de 2016 pela sonda Cassini da NASA que nele mergulhou na 6.ª feira passada

18/09/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (101)

Outras avarias da geringonça.

Comecemos pela celebração da saída do lixo que para Costa representa «a viragem da página da austeridade que nos permitiu também agora virar a página do lixo». Que Costa tenha sido capaz de celebrar como um grande feito a melhoria do rating por uma agência que ele há dois anos considerava «lixo» com «uma gente que já demonstrou não ser minimamente credível, fiável» só confirma que o seu descaramento está à altura da sua ignorância. De facto, o upgrade da notação da S&P para BBB- (o nível mais baixo de investimento) significa que a dívida portuguesa passou em 15 de Setembro para o mesmo nível que tinha em 29-03-2011, com o resgate à vista. Como o outlook é estável isso significa adicionalmente que a S&P não prevê a curto prazo uma melhoria.