Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

29/05/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (85)

Outras avarias da geringonça.

«“Trata-se de uma grande vitória para Portugal”. Quem disse isto? Não, não foi este mês de Maio de 2017. A declaração é do ex-primeiro-ministro José Manuel Durão Barroso, a 28 de Abril de 2004, quando anunciou a saída de Portugal do Procedimento por Défices Excessivos (PDE) em que tinha entrado em 2002.» Recordou Helena Gameiro, a propósito do embandeiramento em arco que assaltou os prosélitos mais excitáveis da geringonça e que curiosamente, mas não estranhamente, deixou Costa a fazer exercícios de prudência.

Prosélitos que distraidamente se embeveceram com «o Ronaldo do ECOFIN» de Schaüble a propósito de Centeno, boutade que é a confirmação de que o governo socialista suportado pela geringonça está a adoptar as políticas que combateu, o que seria positivo se não fosse uma deriva absolutamente oportunista a deixar cair na primeira curva.

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Há elogios que são enxovalhos para quem os ouve vindos de onde vêm

Quando se tornou conhecido que o execrável Schaüble apelidou Centeno de «o Ronaldo do ECOFIN», os tambores do jornalismo de causas socialistas rufaram exaltando o momento. Dias mais tarde reincidiram e foram mais longe. Desta vez, segundo a imprensa apologética, Schaüble teria dito ser Centeno «uma estrela no Ecofin». Não perceberem que se Schaüble estivesse a falar a sério isso seria pior para a reputação de um ministro das Finanças e de um governo de um partido que fez o seu caminho a defender políticas antagónicas às de Schaüble, do que se Schaüble estivesse a gozar com Centeno.

Mas nem toda a gente estava distraída. Por exemplo, o ex-embaixador socialista Seixas da Costa que escreveu este artigo no JN, reproduzido no seu blogue e amplificado pelo eterno pastorinho da economia dos amanhãs que cantam Nicolau Santos na câmara de eco do Expresso Curto. Leia-se o primeiro parágrafo que aqui no (Im)pertinências não teríamos dificuldade em subscrever:

«Só alguma saloiíce lusitana é que acha que a “teoria económica” da Geringonça é vista com admiração nos círculos preponderantes no Eurogrupo. É claro que eles podem achar curiosos os resultados obtidos, mas ninguém os convence minimamente de que tudo não decorre de um acaso pontual. Para eles, trata-se apenas de um "desenrascanço" conjuntural, fruto de alguma acalmia dos mercados, do efeito das políticas temporalmente limitadas do BCE, do salto das exportações (que entendem nada ter a ver com a ação do governo), do surto do turismo (por azares alheios e sorte nossa, como o “milagre do sol”), bem como do "pânico" de PCP e BE em poderem ver Passos & Cia de volta, desta forma “engolindo sapos” e permitindo ao PS surpreender Bruxelas com o seu seguidismo dos ditâmes dos tratado. Ah! Eles também constatam que a política de estímulo do consumo acabou por não ser o “driver” anunciado do crescimento. E que tudo o que foi feito está muito longe das imensas reformas que eles consideram indispensáveis, nomeadamente no regime laboral e nas políticas públicas mais onerosas para o OGE (Saúde, Educação, Segurança Social, Fiscalidade), por forma a promover uma redução, significativa e sustentada, da dívida. É assim uma grande e indesculpável ingenuidade estar a dar importância à "boca" do cavalheiro alemão!»

Nem mais!

Então, porque disse Schaüble o que disse, seja lá o que for que tenha dito? Conhecendo alguma coisa da cultura alemã (trabalhei com alemães uns 15 anos) arriscaria concluir que Schaüble estaria apenas a tentar incentivar o que lhe pareceu um comportamento menos irresponsável do que ele terá receado de um governo de socialistas apoiado por comunistas e bem-pensantes do radical chic.

28/05/2017

Mitos (255) - Os presidentes republicanos são melhores para a economia


Mitos (254) - O terrorismo está a aumentar (II)

Este post é um complemento deste outro a propósito de um comentário de um leitor via email, do qual extraio a seguinte passagem:

«(...) ninguém diz que o terrorismo na Europa está a aumentar, isso é uma distorção por parte dos meios de comunicação, um exemplo clássico da falácia do espantalho… o que nós dizemos é que o terrorismo islâmico na Europa está a aumentar, o que é totalmente diferente!

O próprio gráfico em si, concebido propositadamente para fazer passar uma determinada narrativa, é um exemplo acabado da velha máxima de que é possível mentir às pessoas recorrendo a estatísticas.»

Não creio que o gráfico tenha o propósito de passar uma narrativa, como se pode confirmar lendo o artigo de onde foi extraído e analisando um segundo gráfico que evidencia ser o terrorismo jihadista o mais mortífero desde 2001.


Seja como for, o meu post anterior faz parte de uma longa série, iniciada aqui há 7 anos com o propósito de desmontar narrativas ou, como agora se diz, factos alternativo e pós-verdade. Tem sido, com outro nome, uma espécie de fact check que só recentemente o Observador vulgarizou em Portugal. Neste caso e em concreto, o mito que pretendi desmitificar foi, como o título indica, «o terrorismo está a aumentar» - o terrorismo em geral, entenda-se - e a este respeito os factos não deixam dúvidas. Acrescento que também se pode concluir não ser até agora o terrorismo jihadista de inspiração religiosa mais mortífero do que foi o terrorismo de inspiração nacionalista do IRA ou do Euskadi.

27/05/2017

SERVIÇO PÚBLICO: A democracia liberal é uma criatura muito frágil



The Signs of Deconsolidation, Roberto Stefan Foa, Yascha Mounk

CAMINHO PARA A SERVIDÃO: O socialismo costista acabou com a vida para além do défice

«O plano é claro: viabilizar o regime português, não através da iniciativa dos cidadãos em Portugal, mas das transferências europeias, confiando na velha complacência de Bruxelas. Daí, a obsessão com o défice, que é a grande contrapartida exigida pela Comissão. E daí, também, que tenha desaparecido aquela vida toda que antigamente havia para além do défice.»

Excerto de «Já não há vida para além do défice» um artigo de Rui Ramos no Observador cuja leitura integral se recomenda vivamente.

26/05/2017

Pro memoria (343) - Costa e a redução da dívida da câmara de Lisboa

A narrativa

«Num debate quinzenal pontuado pela troca de argumento em torno dos méritos herdados de anteriores executivos, o primeiro-ministro lembrou a líder centrista que "em 2009 estava a reduzir em 40% a dívida herdada na câmara de Lisboa" governada por Carmona Rodrigues, actual apoiante da candidatura de Assunção Cristas à autarquia da capital.» (Negócios)

Os factos

A dívida foi reduzida à custa de
  • 286 milhões pagos em 2012 pelo governo PSD-CDS pela compra há mais de 70 anos dos terrenos do aeroporto, 20 anos antes de Costa ter nascido, e pela «compra» dos terrenos da Expo, uns 20 anos antes de Costa ter aterrado na câmara;
  • venda de 500 milhões do património municipal;
  • transferência da dívida para as empresas municipais;
  • extorsão de taxas e taxinhas aos lisboetas e empresas com sede em Lisboa que por habitante é mais de 80% superior à do Porto.
Ainda assim a dívida por habitante em Lisboa é 1.338 € (2,7 vezes a do Porto).

Ver os vários posts que o (Im)pertinências dedicou ao milagre da dívida de Costa em Lisboa, nomeadamente:
O mandato de Costa na câmara de Lisboa foi uma espécie de ensaio de soluções miraculosas e um estágio de preparação para S. Bento.

ACREDITE SE QUISER: «Um incendiário nomeado bombeiro chefe»

O «nosso» Guterres não quis deixar de parabenizar os novos guardiões dos direitos da mulher

25/05/2017

Mitos (254) - O terrorismo está a aumentar

Economist

CONDIÇÃO MASCULINA: Precisamos de homens. Não precisamos de criaturas efeminadas com pénis (3)

Este post pode ser considerado uma sequela deste e deste.

«De acordo com as palavras do Chefe do Estado-Maior do Exército, são os fins-de-semana em casa, e não as exigências físicas e psicológicas do treino, que estão a provocar o grande número de desistências do curso deste ano, fazendo com que dos 57 militares iniciais restem neste momento apenas 17. Estamos por isso a falar de homens de barba rija, capazes de sobreviver uma semana no mato apenas com uma fita na cabeça e um corta-unhas, mas que não conseguem superar a prova da mamã aos Domingos à noite. (...)

A expressão (“MAMA SUME!”), adoptada pela unidade a partir do grito de uma tribo africana, significa qualquer coisa como “aqui estamos, prontos para o sacrifício”. Acredito profundamente no poder motivacional deste lema, e desconfio até que seja depois de o ouvirem que muitos mancebos se sentem com vontade de ingressar no quartel da Carregueira. E não é por alguns o interpretarem erradamente como “MAMÃ, SUMO!” que vou mudar de opinião.»

Lido no Blasfémias

24/05/2017

Centeno foi «além da troika». Volta Schäuble, estás perdoado

Schaüble chama a Centeno "o Ronaldo do ECOFIN"

(Fonte: o diário da manhã DN)

«O Ronaldo do ECOFIN» é como quem diz o Centeno a ir além da troika é o Cristiano a marcar golos? Alguém se lembra dos tempos em que Wolfgang Schäuble, o ministro das Finanças alemão, era diabolizado como um neoliberal empedernido? Alguém se lembra dos tempos em que a obsessão do défice era uma infâmia antipatriótica?

Criminosos a quem emprestaram um pretexto

Manchester suicide bomber moved from gangs to radical Islam

Salman Abedi, a student at University of Salford, was born in UK to Libyan parents

(Financial Times)

Muitos dos soldados do Islão fundamentalista são meros criminosos, potenciais ou de facto, alguns deles recrutados nas prisões, reciclados por ideólogos fanáticos que lhes emprestaram uma causa, isto é um pretexto para exercerem a violência arbitrária sob a forma de terrorismo.

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (151) - Ética republicana


Nomeações recentes de apparatchiks socialistas com currículos notáveis:
  • Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e Fiscais - Ricardo Rodrigues, advogado e ex-vice presidente do grupo parlamentar socialista, que há 7 anos "tomou posse" por "acção directa" de dois gravadores de jornalistas da revista Sábado e com eles abandonou a entrevista por o estarem a questionar sobre o "caso de pedofilia" (CM e Expresso); 
  • Conselho de Fiscalização do Sistema Integrado de Informação Criminal - António Gameiro, deputado e presidente da distrital de Santarém do PS, condenado pelo tribunal (decisão confirmado pela Relação) a restituir 45.000 euros que reteve de uma venda em que foi procurador de uma cliente. (O Ribatejo)
(Lido aqui)

23/05/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (84)

Outras avarias da geringonça.

Até um dos mais contumazes adeptos da geringonça concedeu que o tão celebrado crescimento da economia de 2,8% no 1.º trimestre ficou a dever-se às exportações e ao investimento e não à receita da Mouse School of Economics que faria o crescimento brotar do consumo resultante do aumento do rendimento pelas políticas de reversão. Também é prudente lembrar que a última vez que a economia cresceu num trimestre 2,8% foi em 2007, era governo o animal feroz, e nos trimestre seguintes a coisa foi minguando, voltou a crescer quase a esse nível em 2010 um pouco antes da bancarrota no 2.º trimestre de 2011.

Ainda que o investimento tenha tipo um papel no crescimento do 1.º trimestre devemos saber que, segundo dados do Eurostat (citados aqui), o investimento total em 2016 em Portugal foi o mais baixo da UE com excepção da Grécia e em 20 anos caiu mais de 10% em percentagem do PIB, tendo sido o quarto com maior descida. Não deveria surpreender ninguém que o mais elevado índice de investimento em 2016 seja o da Irlanda onde o investimento nos últimos 20 anos foi o segundo que mais cresceu.

ARTIGO DEFUNTO: Factos alternativos