Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

12/02/2026

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (79) - Vestindo o Coelhinho Mau e tomando antidepressivos

Outros portugueses no topo do mundo.

Enquanto aguarda que o resto do mundo partilhe a epifania do Dr. Matias de que o nosso torãozinho natal tem «todas as condições para se tornar um líder mundial na IA», a tendência patriótica do nosso jornalismo de causas procura sucedâneos. Esta semana encontraram o Super Bowl onde o Coelhinho Mau, um artista porto-riquenho, produziu uma performance que excitou multidões e irritou um certo número de criaturas que logo o quiseram crucificar, não percebendo que essa é a melhor maneira de promover a herói, um artista irritante.
 
[Este episódio pode ser visto como mais um exemplo de que os EU com a sua democracia defeituosa se afastam, cada vez mais, do padrão das democracias liberais, nas quais não passa pelo bestunto das autoridades punirem o mau gosto, deixando à opinião pública o encargo de o julgar e criticar.]

E foi assim que, onde os devotos do MAGA viram motivos de condenação, o nosso jornalismo de causas patriótico encontrou razões de celebração patriótica ao descobrir que a camisola que o Coelhinho Mau usou no Super Bowl foi fabricada em Santo Tirso (ainda que por uma empresa espanhola).

Num outro registo, o mesmo jornalismo poderia celebrar e, incompreensivelmente, não o fez, o número um do ranking europeu da depressão crónica e o número dois do ranking de consumo de antidepressivos da OCDE (fonte) .

11/02/2026

PUBLIC SERVICE: Bring Jimmy Lai Home

«On Monday, Jimmy Lai, the heroic freedom fighter and my dear friend, was sentenced to 20 years in prison by a Hong Kong court. He’s 78. This amounts to a life sentence.

For more than three decades, Jimmy has been a leading voice in the struggle for a free, democratic Hong Kong. Chinese control over Hong Kong has steadily increased since Britain ceded the territory in 1997.»

"Jimmy Lai’s Sentence Tests the Free World", Natan Sharansky, The Free Press

Bring Jimmy Lai Home

10/02/2026

Um vencedor e vários derrotados

[ADVERTÊNCIA: Este post não é leitura recomendável aos espíritos providos de um cérebro ideológico e é absolutamente desaconselhável às mentes desprovidas de senso de humor. A todos recomenda-se ler este post Cum grano salis.] 

O Dr. Seguro que multiplicou as intenções de voto por dez, duplicando o número de votos da 1.ª volta e obtendo mais de 3,4 milhões de votos na 2.ª volta, incluindo mais de três quartos dos eleitores com mais escolaridade, passando a ser o político mais votado de sempre, é incontestavelmente o vencedor das eleições presidenciais.

Entre os candidatos derrotados, que são todos os outros, destaca-se o mais derrotado de todos, o Dr. Ventura, porque perdeu as eleições, apesar de ter obtido mais 400 mil votos da 1.ª para a 2.ª volta, e principalmente porque lhe faltaram mais de 300 mil votos para realizar o seu propósito de ter mais votos do que AD o que, segundo ele, o transformaria no novo líder da direita. Em vez disso, teve de contentar-se com 1.ª posição na demagogia e no número de entrevistas - en passant, deveria reconhecer que o seu discurso de vítima da imprensa "do sistema" só reforça a sua 1.ª posição no ranking da demagogia.

Além dos candidatos, devemos adicionar aos derrotados o Dr. Montenegro que colocou todas as fichas no cavalo errado e tentou esconder-se em S. Bento. 

Quanto aos partidos, todos foram derrotados. Em primeiro lugar, principal e obviamente, a AD porque o seu candidato não chegou à 2.ª Volta. O PS porque a vitória do Dr. Seguro foi contra as principais facções socialistas, desde o costismo e o socratismo (parcialmente sobrepostos) até ao berloquismo e geringoncismo (parcialmente sobrepostos). O Chega porque foi humilhantemente derrotado pelo seu presidente que teve mais 340 mil votos que o seu partido.

E agora? Agora, reconheça-se que ter uma criatura cinzenta, pouco afirmativa e ideologicamente incaracterística, não será o melhor dos resultados. Em todo o caso, foi o único candidato que percebeu a diferença entre ser PR e ser primeiro-ministro e reconheça-se também que é menos mau fazer de Belém um local desinteressante do que fazer de Belém um centro de manobras e de conspiração, como nos últimos dez anos, ou fazer dos próximos cinco anos um centro de comícios, de ruído, demagogia e agitprop. Otto Eduard Leopold von Bismarck-Schönhausen, se por cá andasse, lembrar-nos-ia que «a política é a arte do possível, a ciência do relativo, a arte da aproximação».

09/02/2026

Crónica da passagem de um governo (36)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
O Estado sucial à luz do pensamento mágico

A consultora Deloitte considera plausível «atingir reduções de custos de 10%” se a tecnologia (Inteligência Artificial) for aplicada “de forma massiva”. O quid está nos “ses”. A começar pela aplicação “massiva” por governos que circulam na autoestrada mexicana do investimento - o presente governo, por exemplo, executou no ano passado apenas 2/3 do investimento orçamentado - e a continuar pela tendência até agora mostrada por todos os governos para desperdiçarem recursos construindo metaforicamente aquedutos para regar desertos. Por isso, embora se perceba, o marketing da Deloitte é perigoso se alguém acreditar que o governo vai reduzir uns 13 mil milhões à despesa.

Mudam-se os tempos e os governos, não se mudam as vontades

«O irmão do chefe de gabinete de Montenegro foi nomeado consultor coordenador. Há um ano era estagiário e vai ganhar 4.400 euro. … Chefe de gabinete desconhecia nomeação do irmão.» (fonte) As justificações de gabinete do Dr. Gonçalo Mateus parecem suficientes para dar um lugar de estagiário ao nomeado; para consultor coordenador, nem por isso. Talvez porque o Amália ainda está na fase karaoke.

O que seria do PIB sem o turismo?

mais liberdade

Não fora o turismo, a economia estaria estagnada e os brilharetes dos excedentes orçamentais seriam transformados em défices estruturais.

No Estado sucial do Portugal dos Pequeninos os riscos não se gerem, ingerem-se

[À guisa de introdução, leia-se este post.] Os riscos evitam-se, mitigam-se, transferem-se ou financiam-se.

Dois exemplos de falhas na mitigação na resposta do governo às tempestades: (1) uma vez mais, a ineficácia sistemática do SIRESP que custou até agora mais de 700 milhões de euros; (2) a descoordenação entre governo, autarquias, Protecção Civil e Forças Armadas que, entre outras consequências, atrasou uma semana o estado de prontidão e a intervenção da tropa.

A transferência para seguradores na esfera privada é residual em Portugal, como se vê no quadro seguinte.


Quanto ao financiamento dos riscos catastróficos através de um fundo, como o gerido em Espanha pelo Consorcio de Compensación de Seguros, há muito que em Portugal se fala da criação de um Fundo Sísmico. Um estudo da APS de 2006 apresentava um modelo de cobertura do risco sísmico por meio de um fundo público; depois disso, constituíram-se grupos de trabalho e comissões, produziram-se “relatórios preliminares” e, mais recentemente, em 2023, o governo do Dr. Costa encarregou a ASF de conceber um novo modelo. Como habitualmente, na mente dos governantes o problema ficou resolvido com a publicação de um despacho que deu à ASF um ano para preparar mais um “relatório preliminar”.

Boa Nova (mais uma)

A semana passada, no intervalo da passagem da Kristin para o Leonardo, o ministro das Finanças garantiu «que avança este ano a criação do Fundo Nacional para Catástrofes e Sismos». Esperai sentados.

08/02/2026

Trumponomics' unintended consequences (1)

"The dollar is the world’s reserve currency, bestowing key advantages upon us. But none of this is our birthright. It must be earned, and re-earned,” said one Fed official in 2010, as the European sovereign-debt crisis was unfolding. “We ought not to be dismissive of the threats to our privileged position in the world.” That official was a younger Mr Warsh. As he prepares to lead the world’s most important central bank, the dollar looks more vulnerable than at any time in recent history. (The Economist)


Trading Economics

Trading Economics

Here are some examples of how the economic press reported on the performance of Trump's policies:

07/02/2026

UGT propõe ao governo a redução do PIB. Imagina-se que a CGTP não queira ficar atrás

A UGT, uma central sindical afecta ao PS e ao PSD, mais ao primeiro do que ao segundo, apresentou ao governo como contraproposta ao pacote laboral a redução do horário semanal para 35 horas, a semana de quatro dias, o aumento das férias para 25 dias e o aumento das indemnizações por despedimento.
Se admitirmos que da contraproposta da UGT resultaria uma redução de 5% do número de horas trabalhadas e como a produtividade por hora trabalhada não seria alterada, a produtividade por pessoa empregada (actualmente 76% da média da UE, a sexta mais baixa da UE) desceria aproximadamente os mesmos 5%, de onde resultaria uma redução comparável do PIB a paridades do poder de compra.

06/02/2026

A economia do pastel de nata tem o melhor desempenho este ano? (5)

Continuação de (1), (2), (3) e (4)

Além dos poucos comentadores assinalados nos posts anteriores que questionaram o faux pas da Economist, provavelmente a melhor revista de economia e finanças, que atribuiu o primeiro lugar do seu ranking à economia portuguesa, a saber Óscar Afonso (jornal Sol), José Paulo Soares (jornal Eco), Daniel Bessa (Expresso), João Duque (Expresso), Luís Aguiar-Conraria (Expresso) e Luís Mira Amaral (Expresso), acrescento agora o professor de Economia da UP Freire de Sousa.
 
No seu artigo «Quando os primeiros podem ser os últimos», publicado também no Expresso, Freire de Sousa deu-se à maçada de preparar um ranking alternativo com três dos cinco indicadores da Economist (os de natureza mais estrutural) onde a economia portuguesa cai do primeiro lugar do ranking da Economist para o penúltimo, apenas acima da Grécia. 
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Duas notas de rodapé:
  • Relevo, outra vez, que cinco dos seis comentadores desalinhados da euforia geral escreveram no Expresso, um semanário que, apesar da sua frequente reverência aos poderes fácticos, mostra, apesar disso, alguma independência e qualidade de opinião que não são frequentes na generalidade da imprensa;
  • Registo também que Freire de Sousa, apesar de assinar há quatro décadas a Economist, não deixou de apontar criticamente a falha, mostrando não dispor de um cérebro ideológico, algo raro nos tempos dos "factos alternativos" e do primado da devoção acrítica pelos seus criadores.