Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
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Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

27/06/2017

ARTIGO DEFUNTO: O suicídio de Passos e a arte do agitprop. Aprendam como se faz (2)

Continuação daqui.

Às 11:00 a mesma pesquisa Google de ontem já se tinha multiplicado por 6 e ainda a procissão ia no adro.


Se de uma maneira geral a máquina de agitprop da geringonça funciona muito bem, há casos de excelência. Veja-se a secção de Opinião de um dos diários da manhã:


Qual destes opinion dealers usou a sua argúcia argumentativa para expor as tretas do Costa sobre o incêndio de Pedrogão Grande? Eu perguntaria mesmo mais: qual destes opinion dealers usou a sua argúcia argumentativa para expor quaisquer tretas do Costa?

Vivemos num estado policial? (12) - Sim, vivemos. E talvez por isso os polícias nunca são suficientes

Outros casos de polícia: (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10) e (11).

Recapitulando:

Segundo o relatório da OCDE divulgado em Fevereiro, Portugal «tem 432 polícias por 100 mil habitantes, um valor que torna a polícia portuguesa 36% mais bem equipada do que as polícias na média dos países europeus» (jornal Eco).

Segundo os números divulgados pelo SOL, 10% dos 21 mil polícias são sindicalistas de 13 sindicatos diferentes e faltaram em 2015 23 mil dias por actividades sindicais. 600 dos 2.100 sindicalistas são dirigentes e cada um tem direito a 4 dias de folga por mês, os restantes 1.500 são delegados sindicais e podem ter 12 horas de folga por mês. As folgas não usadas acumulam-se como «créditos» para o mês seguinte. Dirigentes e delegados sindicais não podem ser transferidos de local de «trabalho» sem acordo expresso.

Não obstante,

Esta aparente abundância de meios não impediu que, segundo o presidente da Associação dos Profissionais da Guarda (APG) disse ao diário do regime, «em cada um dos três concelhos afectados pelo incêndio que há mais de uma semana matou 64 pessoas no centro do país (apenas existiam) dois homens e um carro patrulha».

Assim, a "estrada da morte" não foi cortada por “falta de meios”, titulou o diárioParêntesis: em que ficamos? Costa disse que a GNR lhe tinha dito que não cortaram a estrada «porque a ameaça naquele local surgiu de forma repentina e inusitada».

E porque só existiam dois homens e um carro patrulha? Segundo o presidente da APG porque, por exemplo, «o posto da GNR de Pedrógão Grande, que tem 15 militares, quando deveria ter o “dobro”. No fim-de-semana do incêndio, entre militares de folga e de férias, restavam dois agentes em patrulha e um no posto».

E se fossem o "dobro" quantos teríamos no fim de fim-de-semana do incêndio? Aí segundo a aritmética do presidente da APG teríamos quatro agentes em patrulha e dois no posto. Seria esse dispositivo suficiente para cortar N236?

Não, segundo um general de GNR ouvido pelo outro diário do regime que disse «para garantir o completo bloqueamento destes pontos seriam precisos 20 homens com viaturas, principalmente motos. Mas como se anda aos pares, seriam quase 15 patrulhas (5 motos e 10 carros), ou seja, 25 homens", »

Agora sim, estamos em condições de estimar o efectivo necessário no posto de Pedrógão Grande para bloquear a N236 naquele fim-de-semana fatídico: 75 agentes = 25 agentes x 15 agentes/5 agentes.

Não admira por isso que como confessou o presidente da APG «alguns militares estão a ter acompanhamento psicológico e estão mesmo de baixa, encontrando-se “tremendamente afectados” pelo que aconteceu».

Sound bites e nevoeiro informativo

20-02-2017
  • «Portugal antecipa pagamento de 1,7 mil milhões de euros ao FMI» Observador
24-02-2014
29-04-2017
  • «Tesouro quer antecipar pagamento de 6500 milhões ao FMI em 2018» (Público)
17-05-2017
  • «Governo antecipa pagamento de 7200 milhões até 2019 ao FMI» (Público)
  • «Governo prevê antecipar pagamento de €7200 milhões ao FMI em 2018 e 2019» (Expresso)
24-05-2017
  • «FMI. Portugal pede para antecipar pagamento de 10 mil milhões de euro» (Sol)
29-05-2017
  • «Centeno diz que reembolso antecipado ao FMI "não é para concluir" nesta legislatura» (Porto Canal)
16-06-2017
  • «Governo vai antecipar pagamento de mil milhões de euros ao FMI até ao final do mês» (Negócios)
  • «Portugal quer antecipar o pagamento até final deste mês de mil milhões de euros de divida que tem para com FMI.» (RTP)
  • «Governo vai antecipar pagamento de mil milhões de euros ao FMI até ao final do mês» (Sábado)
  • «Portugal quer antecipar pagamento de €10 mil milhões ao FMI» (Expresso)

26/06/2017

ARTIGO DEFUNTO: O suicídio de Passos e a arte do agitprop. Aprendam como se faz

Nos últimos 10 dias, Costa, ministros e dirigentes do PS disseram dezenas de mentiras, meias-mentiras, meias-verdades, omitiram verdades e contradisseram-se inúmeras vezes só a propósito do incêndio de Pedrógão Grande. Com excepção de um pequeníssimo número de comentadores desalinhados, foi precisa uma lupa para encontrar na imprensa um exercício de fact checking a esse respeito.

Num episódio relativamente raro de diarreia verbal, Passos Coelho disse com indesculpável ligeireza que houve «pessoas que puseram termo à vida em desespero» na sequência do incêndio de Pedrógão Grande. Parece que não houve.


Poucas horas depois desta argolada, a máquina da geringonça pôs-se em marcha e um dilúvio de fact checking inundou as páginas online dos jornais desacreditando Passos Coelho. Às 20:00 uma pesquisa Google mostrou aquele número espantoso de ocorrências - ainda que expurgado de redundâncias e de posts de blogues (em todo o caso alguns deles ao serviço do agitprop), restam centenas de referências na imprensa.

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (89)

Outras avarias da geringonça.

Para refrescar as memórias apagadas pelo jornalismo de causas, convirá recordar que o Lacerda Machado, amigo que Costa encarregou de negociar a reversão da reprivatização e de seguida nomeou administrador da TAP, é o mesmo Lacerda Machado administrador da Geocapital (com os dinheiros de Stanley Ho) que detinha 65% da VEM (Varig Engenharia e Manutenção) em parceria com a TAP que detinha 35%, parceria negociada em 2005 com o governo Sócrates. E era o mesmo Lacerda Machado que quando se comprovou que a VEM era um negócio falhado usou uma cláusula do contrato que ele tinha empandeirado ao governo para forçar a TAP a comprar em 2007 os 65% da Geocapital ficando a TAP desde então a suportar os prejuízos  (ver aqui um resumo). E é o mesmo Lacerda Machado que fez parte da equipa que Costa como ministro da Administração Interna nomeou para renegociar o contrato do SIRESP, sistema que tem uma história de falhanços, o último dos quais no incêndio de Pedrógão Grande (ver aqui um resumo e ver aqui a história). E foi o mesmo Lacerda Machado que o mesmo Costa encarregou de negociar os helicópteros Kamov para combate aos incêndios florestais, frequentemente inaptos para voar, que segundo as contas do Expresso até Abril do ano passado tinham custado 348 milhões de euros ou 35 mil euros por hora de voo.

Dúvidas (201) - Quem é o Sebastião Pereira? Tem carteira profissional?

Perguntam patrioticamente as agências MadreMedia e Lusa

E eu pergunto mesmo mais: quem é Javier Martín que escreve no El País?; quem é Aitor Hernández-Morales que escreve no El Espanõl? Têm carteira profissional?

Não seria preciso esta manifestação de estupidez corporativa para ficarmos a saber que um bom número de gente empregada nos jornais, além de estar atrelada à geringonça, confirmado pelo que escreveram sobre o incêndio de Pedrógão Grande, sofre disso mesmo: estupidez corporativa. Tenham vergonha e não façam de Portugal uma espécie de Venezuela ou Turquia, como escreveu a Silvia Román que o Sindicato dos Jornalistas despudoradamente cita.

25/06/2017

Dúvidas (200) - E os riscos de depender da banca portuguesa?

Na 5.ª coluna sua coluna da página 5 do Caderno de Economia do semanário de reverência, Nicolau Santos, o admirador de Baptista da Silva, nosso pastorinho favorito da economia dos amanhãs que cantam e promotor das doutrinas da Mouse School of Economics, publica um artigo com o sonoro título «Riscos de depender da banca espanhola», vituperando a presença crescente dos bancos espanhóis com o fortis ratio «durante a crise em Portugal (de 2002) os bancos espanhóis deixaram de comprar as emissões de dívida da República Portuguesa como cortaram o crédito às empresas públicas».

Considerando que resgate de 2011 pela troika se tornou indispensável essencialmente pelo crescimento da dívida pública e pela dívida das empresas públicas (nem toda ela contabilizada como dívida pública), crescimento entusiasticamente suportado pelos bancos portugueses, não seria mais apropriado a contrario sensu escrever um artigo com o título «Riscos de depender da banca portuguesa»?

ARTIGO DEFUNTO: Se quisermos saber o que se passou no incêndio de Pedrógão Grande é melhor catar na imprensa portuguesa o que escapou às malhas

Continuação daquidali e dacolá.

Por entre as frestas do controlo quase sem falhas dos mídia ocupados pelo jornalismo acolitado à geringonça, escapam algumas informações divergentes da versão oficial. Leia-se este artigo do Expresso Diário de 23-06, também publicado na última página do caderno principal da versão em papel, que contraria frontalmente a versão oficial sobre as origens do incêndio.

«Daniel foi ouvindo em silêncio, ao longo dos dias, as explicações para o incêndio que atingiu Pedrógão Grande. Logo no domingo, António Costa foi o primeiro a falar de trovoada seca, após duas horas de reunião no Comando Nacional de Operações de Socorro da Autoridade Nacional da Proteção Civil, mas afirmou que ainda era "prematuro tirar ilações". Depois surgiu a declaração do diretor nacional da Polícia Judiciária, perentória: "A PJ, em perfeita articulação com a GNR, conseguiu determinar a origem do incêndio e tudo aponta muito claramente para que sejam causas naturais. Inclusivamente encontrámos a árvore que foi atingida por um raio", disse Almeida Rodrigues. Seguiram-se dias de confirmações e desmentidos: os populares a dizer que não houve trovoada, os bombeiros a falar de mão criminosa, o Laboratório Científico da PJ a voltar ao terreno, o IPMA a confinrar os trovões, a recuar depois para ponderação, a afirmar outra vez que houve raios no céu, ali, em Escales Fundeiros, aldeia de Pedrógão Grande com pouco mais de 40 habitantes, onde tudo começou.

24/06/2017

CASE STUDY: O império de Bezos é muito mais do que a Amazon

Fonte: MarketWatch
Esquecendo as outras compras menores da Amazon e os investimentos das duas holdings pessoais (JB Investments e Bezos Expeditions) ficam as seguintes aquisições mais importantes:

ARTIGO DEFUNTO: Se quisermos saber o que se passou no incêndio de Pedrógão Grande (e nos outros) é melhor ler a imprensa espanhola

Continuação daqui e dali.

«El cártel español del fuego amañó contratos de extinción de incendios en Portugal

El gobierno luso pagó hasta tres veces más de lo que realmente costaba el servicio contratado.

Según la declaración de los propios investigados, sus años de mayor actividad en Portugal fueron 2006 y 2007, pero el sumario del caso investiga adjudicaciones en el país vecino hasta 2015, año en el que se lanza el operativo y se dictan las primeras detenciones.»

(El Español)

22/06/2017

Por vezes o declínio é mesmo o declínio, dizem eles. E o que diremos nós?

Não é só a nossa classe política que se vem degradando. Leia-se aqui o que escreve o jornalismo inglês de referência (não, não é de reverência) sobre a classe política deles e em particular sobre os seus líderes:

«IT HAS been impossible to watch the general election without being haunted by a single question-cum-exclamation: surely Britain can do better than this? The best performer in the campaign, Jeremy Corbyn, the Labour leader, is a 68-year-old crypto-communist who has never run anything except his own mouth. Theresa May, the Tory leader, tried to make the election all about herself and then demonstrated that there wasn’t much of a self to make it about. As for Tim Farron, the Liberal Democrats’ leader, he looked more like a schoolboy playing the part of a politician in an end-of-term play than a potential prime minister.

(...)

Yet sometimes decline really is decline. Both Mrs May and Mr Corbyn want to extend the already considerable powers of the government, Mr Corbyn massively so. And both promise to lead Britain out of the European Union, a fiendishly complicated operation. Unfortunately, both candidates have demonstrated that they are the flawed captains of flawed teams. Mrs May broke the first rule of politics: don’t kick your most faithful voters in the teeth for no reason. Mr Corbyn has stood out in part because his team is so mediocre. Diane Abbott, his shadow home secretary, stepped down the day before the election citing ill health, after a succession of disastrous interviews.»

ARTIGO DEFUNTO: Se quisermos saber o que se passou no incêndio de Pedrógão Grande é melhor ler a imprensa espanhola (continuação)

Continuando a demonstração definitiva de como os mídia portugueses estão controlados pelos partidos da geringonça e a maioria dos jornalistas portugueses estão ao seu serviço e aproveitando os links deixados por um leitor neste comentário:


Enquanto omitem os factos que mostram a descoordenação total na resposta do governo ao incêndio, vão enchendo o vazio com as tretas de Marcelo que, à boa maneira de jurista, faz como aquele que, tendo como a única ferramenta um martelo, imagina todos os problemas como pregos, e exorta os órgãos legislativos a ejacularem com urgência resmas de leis para resolver os resultados das más políticas florestais que têm um século e os problemas de descoordenação do governo da geringonça na utilização dos meios, misturando tudo isso num caldo de afectos equívocos engrossado pelo nevoeiro informativo.

E o que dizer do parlamento que numa hora aprovou cinco propostas para reforma florestal que estavam na gaveta há dois meses? Com gente desta só é possível ter um simulacro de democracia, uma democracia asmática.

21/06/2017

Dúvidas (199) - Para que serve a política?

«Os oligarcas não querem que se “faça política” com a tragédia. Mas se não “fizermos política” com a morte evitável de 64 pessoas, para que serve a política? Só para festejar vitórias na Eurovisão?»

Rui Ramos no Observador

ARTIGO DEFUNTO: Se quisermos saber o que se passou no incêndio de Pedrógão Grande é melhor ler a imprensa espanhola

É a demonstração definitiva de como os mídia portugueses estão controlados pelos partidos da geringonça e a maioria dos jornalistas portugueses estão ao seu serviço. Enquanto isso Costa passeia a sua virgindade nos mídia e diz que o problema dos incêndios florestais levará uma década ou mais para resolver. Ninguém lhe pergunta o que ele fez há mais de uma década, enquanto foi entre 2005 e 2007 precisamente ministro de Estado e da Administração Interna de Sócrates, nem se teria sido preciso uma década para evitar a completa descoordenação dos meios existentes ao dispor do governo.

«Enquanto continua o trabalho de extinção, crescente indignação contra as autoridades para notícias que revelam falhas de coordenação graves  nas primeiras horas do fogo. Erros, que de acordo com sobreviventes, pode ter matado dezenas de pessoas.

Para a "rodovia da morte"

Maria de Fátima estava retornando de Coimbra no sábado quando soube que um incêndio afetou a área onde seu pai, um residente de Pedrógão Grande vive. "Quando liguei para me disse que era verdade que o fogo tinha cercado-los completamente e eles estavam em perigo , " ele diz Fátima disse à imprensa portuguesa. "Eu tenho que chegar à cidade e encontrar meu pai, mas quando nós tentamos para deixar a área e tomar o IC8 [a estrada que passa perto da área], a Guarda Nacional Republicana (GNR) ter cortado".

De acordo com Fátima, quando perguntou aos agentes da GNR, por onde deveriam sair da área, disseram-lhe que a Estrada Nacional 236 estava livre de perigo. Ao passar por esta via, no entanto, ela encontrou um cenário apocalíptico.

"A fumaça era tão densa que não se via absolutamente nada, tudo o que ficou para fora eram as chamas por entre as árvores", lembra Fátima. "Nós batemos em algo que estava no meio da estrada, e de repente um carro atrás colidiu com o nosso, e nosso pegou logo fogo. Queríamos sair do carro, mas também o calor era tão intenso que não sabíamos se seríamos capazes de sobreviver lá fora. "

(...)

"Eu não quero ver um político andando por aí, dando condolências. Eles deveriam ter estado aqui quando precisamos deles, eles e a GNR, eu deveria ter cortado as estradas e alertado sobre o que tinha de ser feito. Eles poderiam ter salvo muitas pessoas ...".

Por enquanto, a GNR não esclarece se os agentes espalhados pela na área no sábado cometeram o erro grave de que são acusados, mas o corpo policial prometeu abrir uma investigação para determinar o que falhou nos momentos cruciais.

Falta de informação

Entre os testemunhos de sobreviventes outra queixa frequente é a falta de informação por parte das autoridades, e o pânico que não viveu por não se saber se era necessário evacuar a área ou, caso contrário, esperar por ajuda.»

Excerto de «Los supervivientes del incendio acusan a las autoridades: “Nos arrastraron hacia la muerte”» de El Español

NÓS VISTOS POR ELES: A inoperância na luta contra os incêndios


Para contrariar a nossa tendência congénita para olhar para o umbigo e para a oscilação bipolar entre vermo-nos como o povo eleito e sentirmo-nos uns desgraçadinhos, deveríamos obrigar-nos a ler todos os dias ao pequeno-almoço uma avaliação das nossas obras feita pela estranja.

Para o pequeno-almoço de hoje aqui vai um excerto em portinhol do artigo de opinião com o elucidativo título «La inoperancia de Portugal en la lucha contra los incendios» que o jornal El Mundo publicou sobre os incêndios de Pedrógão Grande:

«Ontem, Portugal foi atingido por um terrível incêndio que causou mais de 60 mortes. É a tragédia com mais mortos em um único fogo em quase um quarto de século no mundo, um facto que revela as dimensões de um evento que revelou a ineficácia e a alarmante falta de recursos do Estado Português para lidar com incêndios florestais. Um flagelo que assola todos os anos com especial virulência o país vizinho, sem que as medidas proporcionadas sejam tomadas para combatê-lo.

A Polícia judiciária portuguesa acredita que uma tempestade eléctrica é a causa mais provável do incêndio, cuja rápida disseminação foi devida a "condições climáticas desfavoráveis", especialmente pela combinação de altas temperaturas e ventos fortes. Dezenas de moradores da região que circunda o município de Pedrógão Grande ficaram presos em um inferno de chamas e muitos deles pereceram queimados em veículos em que estavam tentando fugir. Outros morreram carbonizados em plena rua. As autoridades portuguesas, completamente ultrapassadas, mobilizam mais de 700 efectivos. Um dispositivo claramente insuficiente para controlar, conter e, finalmente, para apagar um incêndio de proporções tão devastadoras.

Não é aceitável que, no século XXI, num país da União Europeia um incêndio florestal possa causar um número tão elevado de mortes. Especialmente tendo em conta a história dos últimos anos. O que mostra este terrível episódio é que, hoje, Portugal não está preparado para lidar com o fogo. Nem tem realizado trabalho preventivo adequado, nem sequer dispõe de um dispositivo ideal para controlar, conter e extinguir incêndios, o que revela não só a ineficácia de suas equipes, mas uma preocupante ausência de meios. A crise e o resgate reduziram significativamente a capacidade de investimento do executivo Português. Mas isto não é razão para ignorar uma ameaça tão séria e preocupante como a do fogo, cujas consequências dramáticas excedem os danos ambientais.»