Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

17/09/2019

Mitos (294) - Trump é o responsável pela guerra comercial com a China

Economist
«Uma imagem vale mais que mil palavras». Como falamos da China, Confúcio não poderia vir mais a propósito do diagrama que mostra claramente que a China tem tarifas persistentemente mais altas do que os EU e responde a cada aumento das tarifas americanas com novos aumentos. Em conclusão, Trump é responsável mas não é "o" responsável. Xi Jinping, o imperador chinês, é tão ou mais responsável.

ACREDITE SE QUISER: Prémio Sakharov para um perseguido... pela justiça

O Prémio Sakharov foi criado em 1985 pelo Parlamento Europeu para homenagear pessoas ou organizações pela sua dedicação à defesa dos direitos humanos e à liberdade. No passado receberam o prémio Mandela, Dubcek, Mães da Plaza de Mayo, Xanana Gusmão, Malala Yousafzai, Oposição democrática na Venezuela, entre muitos outros, que têm comum o terem lutado contra diversas formas de tirania e foram perseguidos por isso.

O Grupo da Esquerda Unitária no Parlamento Europeu, que inclui os comunistas do PCP e os berloquistas do BE, que não por acaso apoiam o regime chávista da Venezuela, pretende apresentar uma proposta para o Prémio Sakharov ser atribuído ao ex-presidente brasileiro Lula que foi julgado e condenado por corrupção pela justiça brasileira, juntamente com muitas dezenas de outros políticos de diversos partidos e empresários ligados ao chamado Lava Jato, um gigantesco esquema de corrupção que beneficiou o PT.

16/09/2019

Crónica da avaria que a geringonça está a infligir ao País (205)

Outras avarias da geringonça e do país.

«Os portugueses não gostam de maiorias absolutas». Nós gostamos

As duas sondagens divulgadas nos últimos dias (Expresso-ICS/ISCTE e SOL-Eurosondagem), apontam no mesmo sentido que é de uma maioria absoluta, respectivamente provável ou possível, com pequenas diferenças, salvo no que respeita ao próprio PS a que a primeira sondagem dá 42% e a segunda 38,3%.

Assim, na pior hipótese o PS estará perto da maioria absoluta e consegui-la-à escolhendo um entre pelo menos quatro partidos, incluindo o CDS que, retornado à época do táxi e com Cristas em risco de ser crucificada, estará disposto a quase tudo.

Temos estes princípios. Se não gostarem temos outros

Com a sua cintura de borracha, Costa andou a semana passada a anunciar em Trás-os-Montes a criação de programa um «Erasmus Interior», o mesmo programa que o PS tinha chumbado há 6 meses proposto pelo PSD.

Tão amigos que nós fomos

Resplandecente de rigor nas contas, o BE atira-se agora à falta dele no programa do PS e o tele-evangelista Louçã, retirado da primeira linha de combate, escreve no Expresso sob um surpreendente título de «Os saborosos milagres das contas do PS»: «As contas do PS demonstram que não haverá aumento relevante para a função pública, que algumas prestações sociais serão reduzidas, não se sabe como, que o programa de habitação não tem dinheiro suficiente e que o investimento público continuará medíocre»,

A frustração berloquista pelas "traições" de Costa é tão grande que, depois de quatro anos a engolirem sapos, ressuscitaram a campanha para reestruturação da dívida pública, agora sob o nome mais palatável de renegociação.

ARTIGO DEFUNTO: Desta vez foi demasiado, até para os padrões do semanário de reverência

O enviesamento do Expresso à esquerda em geral, com um foco especial no PS, é bastante visível em qualquer altura e, durante as campanhas eleitorais, sobretudo na campanha em curso, atinge proporções escandalosas a merecer ao semanário de reverência o epíteto de Acção Socialista que aqui em casa lhe costumamos atribuir.

Na edição deste fim de semana, a primeira página é um apelo aos eleitores hesitantes do PS («PS à beira da maioria teme desmobilização» e a página 8 do Caderno Principal é um must com uma peça titulada: «Costa esmaga Rio em toda a linha». Algumas páginas adiante, encontramos um par delas dedicadas ao Bloco (*) ilustradas com quatro fotos de Catarina Martins, cuidadosamente photoshopadas, uma delas a ocupar mais de meia página e a "notícia" de que fazem parte tem uma chamada de 1.ª página com mais uma foto da líder berloquista. Mais à frente, outra promoção do PS a pretexto do tema Educação com o título «PS promete tablets gratuitos» (um título a lembrar os tempos de Sócrates) .

Também no Caderno de Economia o tom geral é apologético-promocional com mais uma página inteira dedicada a um secretário de Estado cuja principal missão é promover a criação de mais alguns níveis na burocracia do Estado Sucial para alojar uns milhares de fregueses - uma operação a que estão a chamar descentralização e parece ser a obra principal que Costa quer deixar aos portugueses, uma sarna para se coçarem nas próximas décadas.

(*) Se o lóbi Acção Socialista é mais institucional e resulta da ligação ao PS como partido do regime, o lóbi BE resulta do peso da presença que o berloquismo tem nas redacções. A estes dois lóbis devemos acrescentar o lóbi marcelista, com os olhos e ouvidos de Ângela Silva em Belém.

15/09/2019

Encalhados numa ruga do contínuo espaço-tempo (89) - Um regime que se sente ameaçado pelos mortos é um regime zombie

«Convenhamos que estas fantasmagorias em torno de Salazar já cansam. Com a democracia quase a cumprir o número mágico dos 48 anos contabilizados pelo Estado Novo, esperava-se que o regime democrático se tivesse libertado de Salazar, que este fosse um capítulo fechado da História e não um antagonista sempre presente, apesar de morto há largas décadas, e de o seu projecto político ser circunscrito a um tempo. (...)

Esperava-se ainda mais que o regime democrático tivesse um discurso sobre si mesmo, os seus sucessos e falhanços, sem precisar da muleta do anti-salazarismo. (Note-se que nesse aspecto o Estado Novo foi muito mais rápido a deixar de invocar os desmandos da I República como fonte para a sua legitimação, centrando-se na sua própria obra.) Mas curiosamente não só isso não aconteceu como, das marchas populares às noivas de Santo António, quanto mais o país é dominado pela esquerda mais se regressa ao imaginário criado durante o Estado Novo. Nos debates e nas polémicas invoca-se o salazarento, o fascismo e o país “cinzento e triste”. Depois troca-se de roupa e vai-se para o parque da Bela Vista cantar essa espécie de hino do Portugal salazarista, o “Que saudades eu já tinha/Da minha alegre casinha/ Tão modesta como eu”, devidamente coreografados pelo presidente da República, primeiro ministro, presidente da Assembleia da República, a líder de extrema-esquerda Catarina Martins e o presidente da CML.

Com o regime democrático quase fazer 48 anos, os líderes da democracia portuguesa têm de ter projectos para o futuro e deixar de se esconder no passado

«O lugar do morto», Helena Matos no Observador

Dúvidas (282) - Não será um poucochinho exagerado? (4) Não, não é, e aqui vai a demonstração

Este post deve ser lido como uma autocrítica aos posts anteriores (1), (2) e (3) em que denegri o talento da investigação portuguesa, só porque a produção de patentes é poucochinha, como disse o nosso primeiro-ministro Costa a respeito da vitória do seu antecessor Seguro nas eleições europeias, antes da sua derrota nas eleições legislativas no ano seguinte.

Fui chamado à razão por este comentário de um leitor que iluminou a minha ignorância e citou o trabalho da investigação portuguesa que mereceu o Prémio Ig Nobel de Química em 2018, a saber:

CHEMISTRY PRIZE [PORTUGAL] — Paula Romão, Adília Alarcão and the late César Viana, for measuring the degree to which human saliva is a good cleaning agent for dirty surfaces.
REFERENCE: “Human Saliva as a Cleaning Agent for Dirty Surfaces,” by Paula M. S. Romão, Adília M. Alarcão and César A.N. Viana, Studies in Conservation, vol. 35, 1990, pp. 153-155.
WHO ATTENDED THE CEREMONY: The winners delivered their acceptance speech via recorded video.

Para limpar a minha folha, fiz uma pesquisa no site da Improbable Research, uma espécie de academia sueca alternativa, e encontrei mais os seguintes dois trabalhos de investigação que exemplificam como os cientistas portugueses são os melhores dos melhores e Portugal nesta área não fica atrás de ninguém:

Chemical Effect of Beer Marinades on Charcoal-Grilled Pork
Thursday, March 27th, 2014
Some chemists, or perhaps many chemists, or perhaps no chemists, may feel obligated to revise their views on certain effects of certain marinades on certain substances, if they read this study: “Effect of Beer Marinades on Formation of Polycyclic Aromatic Hydrocarbons in Charcoal-Grilled Pork,” (...) authors, at the Universidade do Porto, Portugal and the University of Vigo, Spain,

“An animal may have holes”
“An animal may have holes.” So says the report: “Animal enumerations on regular tilings in Spherical, Euclidean, and Hyperbolic 2-dimensional spaces,” Tomás Oliveira e Silva, July 25, 2013. The author, at the Departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Informática, Universidade de Aveiro, Portugal.

Qed

14/09/2019

O paradigma das campanhas eleitorais mudou

No Estado Novo as eleições eram uma mera formalidade, a Situação não precisava de apresentar obra feita para ganhar as eleições, ganhas à partida na secretaria, e os situacionistas tinham tença garantida.

No Estado Sucial pós-PREC as eleições são disputadas e os principais partidos candidatos a gerir o Estado Sucial batem-se não por visões ou políticas alternativas mas por ocuparem os lugares disponíveis e garantirem uma tença aos seus novos situacionistas.

Até à bancarrota do Estado Sucial, promovida pelos sociais-situacionistas do PS, a obra feita pelo governo incumbente e inaugurada com grande foguetório, era vista como um argumento eleitoral de peso. Foi assim com os governos de Cavaco Silva, com os de Guterres, antes da sua fuga do pântano, e com os de Sócrates, antes da sua fuga para frequentar Sciences Po e viver na sua maison à Passy, 16ème Paris.

Passos Coelho, talvez por falta de convicção e seguramente por falta de dinheiro, inaugurou um novo paradigma onde no lugar da obra feita se fazem promessas de amanhãs que cantam. Neste novo paradigma, na campanha para as eleições de 2015, Costa bateu irremediavelmente Passos Coelho, o que não evitando que perdesse as eleições evitou que Passos Coelho as ganhasse.

Na campanha em curso mantém-se o paradigma das promessas universais de amanhãs que cantam e, fruto de um marketing mix mais refinado, adicionou-se uma particularidade. Costa e os parceiros da geringonça apostam quase todas as fichas no eleitorado a que o falecido Medina Carreira chamou o Partido do Estado, funcionários públicos e pensionistas e respectivas famílias, o que por junto dá para vencer as eleições, e, depois de quatro anos a trazer ao colo esta freguesia, fazem-lhes agora promessas específicas para o seu segmento de mercado garantindo-lhes a continuação de um futuro radioso.

Assim, em síntese, em vez da obra feita, agora remetida para o nível autárquico, privilegia-se a freguesia eleitoral durante a governação, fazem-se promessas universais para o eleitorado em geral e promessas especiais para freguesia eleitoral.

ACREDITE SE QUISER: Depois do in itinere, o in coitum

«Um tribunal francês considerou um “acidente de trabalho” a morte de um funcionário que teve um enfarte durante um ato sexual - que aconteceu durante um encontro aquando de uma viagem de negócios à cidade Meung-sur-Loire, em França» (Observador)

Por cá ainda estamos no in itinere (risco de trajecto). «A Lei n.º 98/2009, de 4 de Setembro,  ... veio alargar o conceito de acidente de trabalho, ao estipular  (...) que se considera acidente de trabalho o ocorrido entre a residência habitual ou ocasional e as instalações que constituem o local de trabalho do sinistrado.» (Acórdão de 18-02-2016 do STJ)

13/09/2019

What it takes to the whatever it takes? More of the same

Pensei escrever sobre o anúncio pelo BCE do novo pacote de medidas para fazer face às ameaças de deflação e de recessão. Pensei melhor e, se sendo este anúncio mais do mesmo, para quê escrever um novo post e já tinha sido escrito há dois meses? Bastaria republicá-lo alterando link do vídeo da conferência. Aqui vai.

Com o «whatever it takes» de Mario Draghi há seis anos e as medidas que se seguiram como as TLTRO (operações de financiamento de médio longo prazo), as reduções sucessivas da taxa directora e o programa de aquisição de ABS (asset backed securities) emitidos por empresas privadas não financeiras e um programa de compra de covered bonds emitidas por entidades financeiras, o BCE salvou o Euro da desintegração

Foi uma medida equivalente à de um médico administrar uma dose de morfina a um paciente com fracturas múltiplas que caiu de um quinto andar. Passados seis anos, a continuação dessas medidas equivale ao paciente continuar a receber a sua injecção diária sem a qual já não consegue viver.

Não será por acaso que, com excepção da Irlanda e de Malta, por razões muito particulares, os países que mais cresceram nos últimos 10 anos estão todos fora da Zona Euro. No caso de Portugal, com uma taxa de poupança que é um terço da média da Zona Euro, taxas de juro próximas de zero são um incentivo irresistível a manter um dos mais elevados endividamentos públicos e privados da União Europeia e do mundo.

Não admira por isso que uma das boas novas regularmente anunciadas seja a dos leilões de dívida pública a taxas baixas, o que funciona como uma espécie de garantia de que tudo continuará na mesma. As consequências a longo prazo são bem conhecidas. Basta olhar para os últimos trinta anos com um crescimento anémico que nos deixa mais pobres em termos relativos e um endividamento cada vez mais pesado.

[Para aprofundar o tema: leiam-se os posts «Too big to fail» - another financial volcanic eruption in the making (1) e (2) e «Da próxima vez também não vai ser diferente» e a série «QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará?»]

Adenda: escrito a propósito da anunciada conferência de imprensa do BCE onde o pior que podia acontecer seria Draghi anunciar mais do mesmo. Agora que terminou, sabemos que aconteceu isso mesmo, mais do mesmo: uma provável descida dos juros e um novo programa de compra de activos. Veja-se o vídeo da conferência.

¿Por qué no te callas? (26) - Ele falou ontem sobre “Uma Década de Convergência com a União Europeia”

«O primeiro-ministro António Costa vai esta quinta-feita, 12 de setembro, ao International Club of Portugal (ICPT), numa intervenção sob o tema “Uma Década de Convergência com a União Europeia”.»  (Jornal Económico)

PIB per capita (PPS) português em percentagem da média UE28 na última década de 2009 a 2018 (Pordata):
82, 82, 77, 75, 76, 76, 77, 77, 76, 76

Como acertadamente perguntou um leitor «vai ser um encontro de ficção política?» Só pode ter sido.

Aditamento:

Ou, dito de outra maneira, para as duas últimas décadas, pelo economista Ricardo Reis
«With the the tied-for-3rd worst economic performance in the last 20 years (and 7th worst ever) you want to call Portugal an "economic miracle"?»

12/09/2019

Para vossa fruição aqui vai a melhor peça que já li no diário do semanário de reverência que parece o Acção Socialista

«Uma ida ao motel» assim se chama o conto de Bruno Vieira Amaral, conto que, como adverte o autor, «contém palavras que podem ferir a sensibilidade de alguns leitores» e do qual, por essa mesma razão, não posso citar as partes mais excitantes num blogue de gente séria e sisuda como este.

Se é assim, porquê fazer referência a uma peça quasi-pornográfica ainda para mais já publicada com outro nome («Motel pimba») pelo autor no Flanzine #8 e reproduzida no seu blogue há um par de anos?

Por que está bem escrita, ao contrário da maioria de outras peças na área da pornografia que o Expresso publica, por exemplo como muitas das assinadas por Ângela Silva, uma espécie de porta-voz do PR que escreve como se fosse o travesseiro da criatura, ou em geral, nesta fase da campanha eleitoral, artigos que seriam publicáveis no Acção Socialista, se por acaso o PS não dispusesse do semanário de reverência.

O império do Czar Putin começa a apresentar brechas

Vladimir, Czar de Todas as Rússias
Seja porque a Rússia, salvo episodicamente, nunca teve um regime genuinamente democrático e o povo russo não parece apreciar excessivamente a liberdade e aceita sem problemas de maior um déspota, seja por outras razões, até recentemente o futuro de Vladimir Putin, no poder há 19 anos como Czar de Todas as Rússias, alternando com o seu factótum Dmitri Medvedev, parecia rivalizar com o seu antecessor que mais tempo ocupou o trono - Estaline e os seus 30 anos no poder. 

São visíveis tímidos sinais de que algumas mudanças podem estar em curso comprometendo a longevidade de Putin no poder. Apesar da batota habitual que incluiu a proibição da participação de partidos da oposição nas eleições municipais de Moscovo, da repressão e das prisões, Rússia Unida, o partido pró-Putin, que tinha 40 dos 45 lugares perdeu 20 lugares para a oposição, incluindo 4 para o Yabloko, o único partido que se pode considerar oposição genuína. Por agora as mudanças, só se deram em Moscovo porque no resto da Rússia tudo ficou quase na mesma. Porém a história russa mostra que as grandes mudanças começaram em Moscovo, ou em São Petersburgo, que também já se chamou Leninegrado.  (Fonte)

11/09/2019

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (22) - Costa inspira o Chancellor of the Exchequer

Outros portugueses no topo do mundo.


Aos 15s, Sajid Javid, Chancellor of the Exchequer, o Ronaldo das Finanças de BoJo, declara solenemente virada a página da austeridade, inspirado em Costa e elevando-o a estradista de referência na Europa, no Império Britânico and beyond.

ACREDITE SE QUISER: Não apanhei um susto. Fiquei esmagado pelo estalinismo animalista

O artigo de José Manuel Fernandes «Fui ler o programa do PAN e apanhei um susto» deixou-me com curiosidade de saber se também apanharia um susto.

Não cheguei a apanhar um susto porque, esmagado pelas avassaladoras 1.106 medidas espalhadas pelas imensas 411 páginas, desisti logo na página 22 medida «3 Determinar como regra que todas as refeições nos eventos promovidos pela administração directa e indirecta do Estado são vegetarianas,...»


E daí saltei para a leitura sempre edificante da obra do jornalista de causas / militante / comentador / analista,  ex-comunista, ex-Plataforma de Esquerda, ex-Política XXI, ex-bloquista, ex-Livre, ex-Tempo de Avançar, ufa!, Daniel Oliveira, na circunstância um artigo com o curioso título «O #metoo chegou aos animais», onde descobri as Veganas que lutam contra a violação das galinhas pelos galos que acima reproduzo para vossa ilustração.

10/09/2019

Dúvidas (281) – Irá o Brexit consumar-se? (XVI) Ninguém sabe. Entretanto, temos excelentes cartunes, capas... e frases do speaker

Quote of the day
‘To deploy a perhaps dangerous phrase, I have also sought to be the backbenchers' backstop.’
John Bercow during his resignation speech as Speaker of the House of Commons


(Spectator)

CASE STUDY: Trumpologia (49) - A NOAA podia ter aplicado o princípio de Kahn

Mais trumpologia.

«Commerce Secretary Wilbur Ross threatened to fire top employees at the National Oceanic and Atmospheric Administration after the agency contradicted President Trump’s claim that Hurricane Dorian might hit Alabama, according to three people familiar with the discussion.

That threat led to NOAA’s release later of an unusual statement disavowing the agency’s own position that Alabama was not at risk.» (NYT)

O Donaldo a forjar mapas e a obrigar uma agência independente a distorcer o seu trabalho científico é uma espécie de um Josef Stalin eleito a mandar apagar as fotos dos que tinha mandado liquidar. Já vimos isto muitas vezes na história e em nenhuma acabou bem.

O inimigo do nosso inimigo não é necessariamente nosso amigo. Pode ser mais outro inimigo.

Alfred Kahn, um dos assessores económicos do presidente Carter, foi por este repreendido por ter-se referido publicamente em 1978 a uma possível depressão da economia americana. Na sua intervenção seguinte, Alfred Kahn disse que «we're in danger of having the worst banana in 45 years».

09/09/2019

Crónica da avaria que a geringonça está a infligir ao País (204)

Outras avarias da geringonça e do país.

«Os portugueses não gostam de maiorias absolutas». Nós gostamos

As sondagens da Eurosondagem costumam ser sondagens amigas. Ainda assim, as últimas, apontando para um novo aumento das intenções de voto no PS e colocando-o com 38,1%, à distância de quase 15 pontos percentuais do PSD-Rio, não mostram resultados substancialmente diferentes de outras sondagens.

De passagem, notemos que o PSD de Rio e o CDS de Cristas perderam na oposição e em conjunto mais de 7 pontos percentuais em relação à coligação nas eleições de 2015, apesar de se esforçarem imenso por ficar parecidos com o PS (ou talvez por isso mesmo).

A verificar-se a previsão do impacto das mudanças da distribuição de eleitores pelos distritos, a maioria absoluta poderá alcançada com uma percentagem menor do que no passado. Se assim for, teremos com maior probabilidade uma governação socialista por quatro anos ou até à próxima crise, o que primeiro ocorrer. Até lá, a oposição não socialista atravessará o deserto e deve aproveitar para se depurar da ganga socializante e preparar uma alternativa viável para governar libertando o país gradualmente da tutela estatizante que lhe foi impondo a esquerdalhada - supondo que o país quer ser libertado, o que é uma dúvida perfeitamente razoável.

Temos estes princípios. Se não gostarem temos outros

O debate entre os parceiros Costa e Catarina Martins na RTP foi mais uma demonstração da deriva programática de ambos. Pelo lado de Costa, a troca do combate à "austeridade neoliberal" pelas "contas certas" já tinha barbas e foi só confirmação. Pelo lado da líder do BE, foi uma relativa novidade o seu apego à rectitude fiscal em linha com a recente conversão à social-democracia revelada na entrevista do Observador. Contudo, essa deriva programática não é uma grande vitória de Passos Coelho, porque é puro oportunismo, como o passado recente mostra, e não parece nada que no futuro «as esquerdas terão uma enorme dificuldade para contestar as políticas orçamentais mais ortodoxas dos governos de direita», porque tudo indica que o farão com enorme facilidade, como agora.

08/09/2019

LASCIATE OGNI SPERANZA, VOI CH'ENTRATE: Vamos todos fingir que o problema não existe? Sim, vamos (3)

Continuação de (1) e (2)


A última vez que tratei do tema pensões foi a propósito de um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos que mostrou estar ameaçada a sustentabilidade do sistema de benefício definido da segurança social portuguesa. Nessa altura, segundo os números disponíveis, o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (FEFSS) atingia 18 mil milhões de euros, suficientes para pagar as pensões durante um período que estimei em pouco mais de 12 meses.

Algum tempo depois, relatório da Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO) referia que o saldo do FEFSS no final do ano passado era de 17.378,5 milhões de euros, um número em linha com o valor que eu tinha referido no post anterior, «sendo este montante suficiente para satisfazer compromissos de 15,65 meses em despesa com pensões do sistema previdencial de repartição". Valerá a pena lembrar que, em função do aumento das pensões, este montante cobrirá por cada vez menos tempo os compromissos com pensões?

Não foi preciso esperar mais do que uma semana para o agitprop socialista, preocupado com o impacto pré-eleitoral do «só dá para 15 meses de pensões», corrigir através do ministério do Trabalho a informação da UTAO, sendo que agora a «“Almofada” da Segurança Social ultrapassa pela primeira vez os 20 mil milhões de euros» - a diferença de 2,7 mil milhões resulta das transferências já em 2019. E pronto, vamos todos continuar a fingir que não há-de ser nada, e ninguém se lembrou de dizer, que se é certo que a almofada ultrapassou os 20 mM, o número de pensionistas em 2002 ultrapassou pela primeira vez 3 milhões e o ano passado já atingia quase 3,6 milhões.

Ora, como é fácil de antecipar, com uma população crescentemente envelhecida com a esperança de vida a aumentar, cada vez teremos mais reformados com pensões a serem financiadas por cada vez menos activos. Depois de meia dúzia de anos de vacas entremeadas a que com toda a probabilidade se seguirão vacas magras, não se pode esperar que a almoçada aumente e pode ter-se a certeza de que cada ano teremos mais pensionistas.

E pronto, a coisa resume-se a manobras de informação e contra-informação do aparelho socialista, com umas e outras a passarem por cima da oposição e ao lado dos quase 4 milhões de portugueses que se reformarão nos próximos 20 anos e acham que não têm de se maçar com estas miudezas desagradáveis enquanto houver concertos ao vivo.

Dúvidas (280) - Não será um poucochinho exagerado? (3) - Está tudo explicado. A investigação em Portugal está a cargo de zombies

Começou com a dúvida se «temos os melhores engenheiros nas escolas portuguesas, que estão entre os melhores do mundo, o que faz com que Portugal não fique atrás de nenhum outro país a nível mundial em matéria de tecnologia e inovação», como garantiu uma luminária presumivelmente inspirada por Belém, onde também se garantem coisas que a medíocre realidade não sustenta.

Continuou com outra dúvida, resultante da primeira, se temos os melhores e não ficamos atrás de nenhum outro país (hipérbole que, se tomada à letra, significaria que temos toda a gente atrás de nós), como explicar que os nossos 362,2 mil cientistas e engenheiros, ou 2,1% do total da UE, só produziram o ano passado 0,13% do número de patentes registadas na UE?

Chegado aqui, carregado de dúvidas, senti-me um pouco como um infiel rodeado de crentes fanáticos jurando que se nos explodirmos no meio de outros infiéis seremos recebidos no Jannah por 72 (setenta e duas) virgens, quantidade exagerada até para um apreciador de virgens.

Investigadores aguardando aprovação de financiamento
da Fundação para a Ciência e Tecnologia
Até que me cruzei com um escrito de António Feijó e Miguel Tamen, professores da Universidade de Lisboa, que, talvez por não serem engenheiros, fazem um diagnóstico do estado da investigação em Portugal, baseados num relatório recente da OCDE, que explica o magro resultado de tanto e tão notável talento. Aqui vai um excerto à guisa de teaser:

«Os domínios que a investigação privilegia resultam, em vez disso, do conjunto avulso de projectos que investigadores e unidades de investigação submetem com sucesso aos concursos que a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) abre. Sendo a FCT a única, ou a decisiva, instância de financiamento nacional da investigação, o resultado dos seus esforços escapa-lhe sempre. O controle do Estado sobre a investigação não é acompanhado por uma noção daquilo que se investiga, e muito menos por uma ideia daquilo que se devia investigar.

A situação só não é caótica por dizer respeito a um universo de investigadores e unidades relativamente pequeno, que tendem, sempre que se candidatam a financiamentos, a replicar a investigação que têm feito, ou sempre fizeram. Para além disso, o alarde público com que os candidatos decepcionados com os resultados dos concursos de financiamento em cada ano os acolhem, e que logo encontra eco mediático, invariavelmente leva a que financiamento suplementar, mesmo que escasso, lhes seja concedido; e assim, na periferia do sistema, continuam a proliferar zombies