Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

16/10/2026

Crónica da passagem de um governo (71b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 71a)

Como acabar com a ansiedade entre os funcionários públicos. Uma reforma inadiável

Segundo os especialistas, os hóspedes da vaca marsupial pública sofrem de ansiedade. Os especialistas não descobriram a razão, no entanto, pelo que é conhecido, e pelo aumento constante do seu número, não será certamente por burnout devido ao excesso de trabalho ou pela pressão para melhorarem as performances. Resta a hipótese de ser a angústia dos tempos mortos.

A essa luz, ganha sentido que a Administração Regional dos Açores tenha lançado um projecto-piloto (lá está, outro projecto-piloto) de redução do trabalho semanal de 35 para 32 horas e de cinco para quatro dias que teve imenso sucesso, na senda de uma iniciativa em grande escala que reduziu o horário para as 35 horas, sem impacto orçamental, garantiu à época o Dr. Centeno, além do aumento das despesas de saúde para o dobro em meia dúzia de anos e das filas de espera nos hospitais.

Os portugueses «vão ter razões para confiar no SNS»

Aguardando com ansiedade a redução para 32 horas e quatro dias estão os funcionários do SNS24 que no 1.º semestre atenderam 3,62 milhões de chamadas (3,11 milhões no mesmo semestre do ano passado), cujos “utentes” esperam em média 5 (cinco) vezes mais tempo do que no ano anterior, apesar do aumento do número “profissionais” de 3.700 para 5.400 e da introdução da IA - ou será por causa do aumento e da introdução? (Fonte) Feitas as contas, a coisa converte-se em 670 chamadas atendidas num semestre por cada “profissional”ou 5,6 por dia de trabalho numa semana de cinco dias ou ainda uma chamada atendida a cada hora e meia.

Enquanto não nos tornarmos «um líder mundial na IA» por que não…

Como explica o deputado do IL Carlos Guimarães Pinto, o aumento da validade do passaporte de 5 para 10 anos está há dois anos a ser estudado por um grupo de trabalho com uma dúzia de apparatchiks, em representação de igual número de áreas governamentais. Ó, Dr. Matias, ponha lá a IA a tratar disso.

Dizem, injustamente, que o governo do Dr. Montenegro não faz reformas. Tomai lá…

… nada mais injusto, a proposta de OE2027 prevê uma poupança de 107,5 milhões de euros de 2026 até 2029 da despesa resultante da reforma orgânica do Ministério da Educação, Ciência e Inovação, ou seja, uma redução de 27 milhões em média por cada ano desse período, equivalente a 0,23% dos 11,5 mil milhões da despesa orçamentada para 2027. É obra! Bendita Pátria que tais governantes tem!

(Continua)

14/10/2026

Crónica da passagem de um governo (71a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Take Another Plan. Será a Luft tansa?

Parece que a Lufthansa irá comprar metade (49,9%) da TAP por 1.201 milhões, de modo que os 100% valeriam 2.407 milhões. Como os governos do PS sepultaram lá 3.340 milhões, as perdas entre 2016 e 2025 a TAP totalizaram 1.481 milhões e os lucros nesses anos foram de 321 milhões, incluindo o 1.º semestre de 2026, os prejuízos líquidos atingiram 1.231 milhões, montante que adicionado às injecções de capital totalizou 4.571 milhões que agora se concluiu valerem 2.407 milhões. Daqui resultaria que num país normal o líder parlamentar socialista, Dr. Eurico Brilhante Dias, que felicitou o seu partido pelo Dr. Montenegro ter previsto num comício que o seu governo iria recuperar com a venda da TAP todo o dinheiro lá enterrado pelo governo PS, deveria pedir demissão com efeitos retroactivos à data em que produziu tal desconchavo.

Dito isto, a Endgültige Lösung für TAP (pun intended) podia ter sido pior. A cultura alemã de gestão empresarial, com todas as suas fraquezas, complementa e contém o avacalhamento gestionário lusíada e uma TAP luso-alemã poderá ser um operador rentável – na condição do governo não usar os seus 50,1% para fazer o que costumam fazer os governos portugueses.

Onde estava o Dr. Centeno durante a falência socrática do Estado sucial?

Possuído por uma ambição mal servida por talento e atacado por uma verborreia incontida, o Dr. Centeno desdobra-se em declarações faladas e escritas. Exemplo destas últimas foi o seu artigo com um título a puxar ao manifesto político («Montenegro destrona Sócrates»), onde acusa o governo do Dr. Montenegro de colocar em causa as “contas certas” e “demonstra” que é mais despesista do que o do Eng. Sócrates. Seria uma declaração no mínimo arrojada, já que o Animal Feroz levou o Estado sucial à bancarrota e o Dr. Montenegro “apenas” não faz as reformas indispensáveis e não reduz tanto a dívida pública como poderia. Porém, não havendo memória de algum dia, na qualidade de diretor-adjunto do Departamento de Estudos Económicos do BdP de 2004 a 2013 ou em qualquer outra ou como cidadão, ter apontado o dedo à governação socialista do Eng. Sócrates, a sua declaração, mais do que arrojada, é desavergonhada.

No Estado sucial não há conflito de interesses. Há interesses em conflito

Como se não fosse suficiente, o Dr. Centeno confirmou a sua tendência para iludir os conflitos de interesse, evidenciada quando pulou do ministério das Finanças para o Banco de Portugal, pulando agora do Banco de Portugal, onde ocupava o lugar de governador, para a administração de uma seguradora que é um braço financeiro do grupo bancário espanhol Abanca, grupo que havia comprado o banco EuroBic,m com a aprovação do Dr. Centeno durante o seu consolado no Banco de Portugal.

Chrystal Clear

No seu discurso de abertura da assembleia anual do FMI, a directora-geral Kristalina Georgieva avisou claramente os governos dos riscos que a economia mundial enfrentará e da necessidade imperiosa de uma «uma orientação prudentemente restritiva na política monetária», ou seja, cortem as despesas públicas, reduzam as dívidas e preparem-se para pagar juros mais elevados.

O futuro no Estado sucial é mais difícil de prever do que o passado na União Soviética (*)

Uma avaliação da sustentabilidade do sistema público de pensões num país normal seria feita por um modelo reconhecido, como o Overlapping Generations Model (ver aqui uma descrição resumida), e conduziria à constatação ululantemente óbvia que algures dentro de menos de uma geração o fundo de reserva estará esgotado como, sem gastar muito latim, foi constatado por um actuário que que sabe do que fala aqui citado. No mesmo sentido, o relatório «Reformar as Pensões em Portugal» do grupo de trabalho nomeado pelo governo conclui que a reserva é insuficiente e o sistema só será sustentável com uma reforma profunda.

E chegamos assim às projecções do governo no OE 2027 que sonha com um Fundo de Estabilização inesgotável que em 2070 atingirá 254 mil milhões de euros.

(*) Uma piada popular recorrente na URSS, citada, entre outros, pelo historiador soviético russo Natan Yakovlevich Eidelman. 

(Continua)

12/10/2026

Is this intended to build the Golden Trump Resort of Gaza? (2)

Sequel to (1)

 

Jared Kushner’s proposed recovery and reconstruction plan for Gaza faces major obstacles and currently appears disconnected from realities on the ground. Kushner announced a $2.45 billion recovery programme and spoke of a broader $71 billion reconstruction effort over ten years, to be overseen by the so-called Board of Peace.

However, conditions in Gaza remain extremely unstable. Large areas are under Israeli military control, infrastructure is devastated, reconstruction equipment is heavily restricted, and violence continues despite an earlier ceasefire. Hamas remains the de facto authority in many areas, although its control is weakening under Israeli military pressure and growing internal disorder.

The reconstruction initiative has struggled to secure sufficient funding and its implementation has been hindered by political and security constraints. Officials involved in the effort reportedly view Israeli policies as a major obstacle, while planned international stabilization forces and Palestinian administrative bodies have not been allowed to deploy as intended.

Looking ahead, political uncertainty further complicates prospects for recovery. Israeli politics remain polarized, debates over the future of Gaza continue, and attempts to bring Hamas into a political process face significant resistance. In conclusion, despite ambitious promises and large headline figures, meaningful reconstruction remains difficult while the underlying conflict and governance issues remain unresolved.

Source: Jared Kushner has a $2.45bn recovery plan for Gaza

11/10/2026

A ideologia não substitui inteligência e educação e não desculpa a ignorância

(Talvez Einstein nunca tenha dito isso) 

Parte da conversa, citada por Miguel Pinheiro, entre Jacob Rees-Mogg, um católico tradicionalista, culto, inteligente e diletante inglês, e Tucker Carlson, comentador político em vários jornais e televisões e adepto do MAGA, antes de ficar "atormentado" e se arrepender de ter apoiado Donald Trump.

«Tucker Carlson: O governo do Reino Unido está a punir e a proibir pessoas e ideias de que não gosta. A Rússia não está a fazer isso. Portanto, como é que…

Jacob Rees-Mogg: O quuuêêê? Não pode dizer isso. Na Rússia, estão a fazê-lo em força. Estão a espancar pessoas. Estão a prendê-las.

Tucker Carlson: A Rússia prendeu menos pessoas no último ano por publicações nas redes sociais do que o Reino Unido.

Jacob Rees-Mogg: Na Rússia, elas limitam-se a cair acidentalmente de janelas.

Noutro momento, expondo a sua iliteracia financeira e a sua devoção a Moscovo, Tucker atribui à Rússia um poder económico que ela simplesmente não tem.

Tucker Carlson: A Rússia tem uma economia muito maior do que a da Grã-Bretanha, creio que, basicamente…

Jacob Rees-Mogg: Não, não, não. Não tem uma economia maior do que a da Grã-Bretanha. Tem uma economia menor do que a da Grã-Bretanha. Tem é um poderio militar maior.

09/10/2026

A visão do Dr. João Costa do que é o mal maior explica a sua obra no ministério da Educação

Para quem não saiba, o doutor João Costa andou desde 2015 a circular pelo Ministério da Educação, primeiro como secretário de Estado e depois como ministro, de 2022 a 2024. O gráfico seguinte, representando os scores dos alunos portugueses nos testes PISA da OCDE, em que o traço vermelho assinala o ano em que a criatura iniciou a sua obra no Ministério da Educação, ilustra claramente os resultados do trabalho desenvolvido pelas equipas de que fez parte ou liderou.

(Fonte: OCDE, PISA 2025 Results, Volume I, Country Note Portugal)

Foi o mesmo doutor João Costa que publicou o artigo de opinião «As ingerências na Universidade Nova refletem um mal maior» onde descreve com larga soma de pormenores o processo kafkiano da eleição do reitor da Universidade Nova, processo sobre o qual não tenho opinião para além de o considerar kafkiano, como não tenho opinião sobre as personalidades envolvidas.

Ao contrário, tenho opiniões muito claras sobre a opinião do doutor João Costa de «o que se passa na NOVA é sintoma de um mal maior que atinge as instituições de ensino superior um pouco por todo o mundo», porque «nas últimas décadas, por todo o lado, passaram a imperar modelos de gestão empresarial». Em consequência, o doutor João Costa é especialmente crítico com a intervenção «ao jeito norte-americano» de entidades privadas externas na gestão das universidades.

Infelizmente, para os modelos do doutor João Costa, em qualquer ranking mundial das universidades, as americanas são as mais representadas, pelo menos enquanto a administração Trump não as transformar em megafones MAGA. Por exemplo, no ranking Times High Education as universidades americanas representam 7 das 10 primeiras classificadas e quase um terço do total do top 100; a universidade portuguesa mais bem classificada está no escalão 376-400. Pelas suas críticas, implicitamente, o doutor João Costa propugna o modelo prevalecente nas universidades portuguesas onde predomina a endogamia e quase 70% dos doutoramentos têm lugar na mesma universidade onde os doutorados leccionam e em dez faculdades essa percentagem sobe para 90%.

08/10/2026

Crónica da passagem de um governo (70b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 70a)

O Estado sucial mau pagador é o mesmo Estado sucial mau cobrador

Que o Estado sucial paga tarde e a más horas aos seus fornecedores é um facto antigo e bem conhecido. Menos conhecido e sobretudo menos falado é o Estado sucial ser um mau cobrador aos seus devedores, nomeadamente os contribuintes. É o que ficamos a saber ao ler o parecer à conta geral do Estado de 2025 do Tribunal de Contas que nos informa que existiam quase 30 mil milhões de euros, o equivalente a cerca de 10% do PIB desse ano, em cobrança coerciva, o que é equivalente é cerca de 45% da receita fiscal do ano, sendo que cerca de 40% é dívida incobrável e 60% desta dívida diz respeito a empresas que deixaram fiscalmente de existir.

O Estado sucial é mau pagador, mau cobrador e senhorio incompetente

Dos mais de 3000 imóveis propriedade de Segurança Social, quase 1000 estão devolutos, ocupados indevidamente ou sem contrato de arrendamento válido. Em 2025 o número de edifícios devolutos ou com a ocupação indevida aumentou 14% (fonte: parecer à conta geral do Estado do TdC). Isto já seria bastante grave se não existisse em Portugal uma séria carência na oferta de habitação. Nestas condições concretas, uma entidade pública gerir com semelhante desleixo um recurso escasso é algo do foro criminal.


O Estado sucial faz o bem sem olhar a quem

Ainda pela via do Tribunal de Contas, que, podemos especular, está a cobrar ao governo os conflitos sobre as suas competências, governo a quem acusou de «procurar denegrir a imagem do Tribunal perante a opinião pública», ficámos a saber que o governo torrou mais de meio milhão de euros em subsídios cujos propósitos e beneficiários não são conhecidos.

O SNS como lugar geométrico da cunha

Cada vez que se escarafuncha um organismo público, rapidamente se encontra uma cloaca de onde emanam odores a cunhas. Aconteceu mais uma vez com o caso das gémeas que espoletou uma investigação do DIAP onde se concluiu que a bolha político-mediática usa recorrentemente a via da cunha.

O governo evita uma «hecatombe social»

O alerta do Dr. Dominguinhos, presidente da Comissão Nacional de Acompanhamento de que se, com o fim do PRR, «a consequência for a devolução do dinheiro vamos ter uma hecatombe social», não caiu em orelhas moucas e foi escutado pelo Dr. Castro Almeida, ministro da Economia, que já convenceu o governo a aprovar um financiamento de 200 milhões para acabar as obras inacabadas até ao final de 2027, garantindo assim que não haverá um euro dos contribuintes europeus que não seja torrado.

Está a ser difícil distinguir as “contas certas” do Dr. Sarmento das do Dr. Centeno

As contas do 1.º semestre apresentaram um saldo orçamental positivo equivalente a 0,5% do PIB. Como o Conselho Económico e Social constatou, a coisa foi possível graças à «sobreorçamentação ou subexecução do investimento», por outras palavras, graças à autoestrada mexicana do investimento público.

Fonte

Onde ainda existe alguma diferença é no crescimento da despesa pública que está mais imparável com o Dr. Sarmento, como mostra o gráfico acima,

Em conclusão, a visível decomposição do PS-D…

… vai ser o terreno fértil, suspeito, para o socialismo de direita ou de esquerda chegarem ao poder, o que pode não ser muito pior e, com alguma sorte, pode ser uma cura para as ilusões de um eleitorado viciado no facilitismo e na procura de soluções mágicas.