«(...) É claro que reformas deste tipo não teriam qualquer hipótese de aprovação no parlamento. Mesmo que o PSD as desejasse (o que não estaria assegurado), encontra-se entalado entre dois partidos, o Chega e o PS, avessos a reformas liberais e que defendem mais intervenção do estado na economia e na sociedade. A resposta de PPC a um impasse deste tipo é confiar no povo. O político reformista deve apresentar e advogar a sua agenda perante os eleitores sempre, em eleições ou fora delas. Deve apresentar as suas propostas com coragem, sem compromisso ou calculismos. Os consensos que muitos advogam são frequentemente bissetrizes que nada mudam, simulacros de reformas que reduzem a pressão para as verdadeiras alterações estruturais. Insistir sempre. Se não for possível, ouça-se o povo.
Gosto! Mas ... e se o povo não quiser reformas? E se o povo
preferir a quietude anestesiante do declínio gradual à agitação transformadora?
Afinal foi o povo que deu ao Chega e ao PS o poder bloqueador que atualmente
detêm.
É que as reformas têm sempre ganhadores e perdedores.
Esperam os reformistas que os benefícios dos ganhadores sobrelevem as perdas
dos perdedores - isto é, que as reformas sejam um jogo de soma positiva - e que
existam mecanismos redistributivos que permitam a compensação daqueles
prejudicados. Em jargão de economista, esperam que as reformas representem uma
melhoria potencial à Pareto. O problema complica-se quando consideramos a
dimensão intergeracional. Os benefícios das reformas podem levar muito tempo a
manifestar-se e os maiores ganhadores podem vir a ser aqueles que hoje ainda
são muito jovens ou mesmo ainda não-nascidos - ou seja, segmentos com pouca voz
eleitoral ou sem ela Em contrapartida, os eleitores mais velhos, com as vidas
resolvidas, são aqueles expostos a maiores riscos e para quem o up side das reformas
é menos óbvio. Vê-se assim que em sociedades envelhecidas como a portuguesa, em
que a idade mediana são 47 anos e 25% da população tem mais de 65 anos,
conseguir maiorias eleitorais reformistas é tremendamente difícil.
O reformador arrisca-se, assim, a ser como o escuteiro que queria praticar a sua boa ação diária levando uma velhinha a atravessar a rua. Só que ela não o queria fazer.»