Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

17/08/2026

Crónica da passagem de um governo (63)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Os portugueses «vão ter razões para confiar no SNS»

Devia ser evidente para qualquer governo ou para qualquer pessoa com um neurónio que, num país com ¼ de velhos (65+ anos) e quase dois idosos por cada jovem (0-14 anos) teria de existir uma procura crescente de serviços médicos. Em vez de aumentar a oferta, o Dr. Costa reverteu o horário dos funcionários públicos de 40 para 35 horas, reversão apadrinhada pelo Dr. Marcelo. Iniciou-se então uma espiral de queda da capacidade de resposta do SNS e da administração pública em geral e o aumento da despesa pública que, no caso da Saúde, duplicou entre 2015 e 2025.

Uma boa parte dessa procura acrescida deveria ter sido encaminhada para os médicos de família (MF) cujo número tem vindo a diminuir, apesar das promessas do Dr. Costa primeiro (ver A novela dos médicos de família) e do Dr. Montenegro a seguir. O resultado é que de 760 mil “utentes” sem MF em 2016, dez anos depois, passou-se para 1,6 milhões, mais do dobro.

O que faz um tuga com um know-how refinado em 900 anos a fintar as várias modalidades de Estado, desde Dom Afonso Henriques? Ora, o que haveria de fazer? Recorre às cunhas e aos expedientes. As cunhas permitem às pessoas bem relacionadas fintarem as filas que separam os doentes dos médicos. Quem não dispõe de cunha, na falta de MF o que, em consequência, aumenta a procura de consultas nos hospitais, vai às urgências onde se amontoam dezenas ou centenas de “utentes”, todos devidamente apetrechados da pulseira multicor do protocolo de Manchester, onde esperam pacientemente várias horas e são objecto do tratamento jornalístico habitual (ver aqui e ali, por exemplo).

Chafurdar em coisas de merda, disse ele, e diria eu com ele

Não é frequente concordar com o Dr. Ascenso Simões, um conhecido apparatchik socialista que inclui no seu currículo a defesa de uma condecoração para o Eng. Sócrates, uma dúzia de anos depois da maior obra deste homem que foi ter falido o Estado sucial. A última vez (e talvez a primeira) que concordei com ele foi quando disse ao Observador que «a moderação de Pedro Nuno Santos era completamente falsa». Volto agora a concordar quando, a propósito das polémicas férias do Dr. Montenegro, postulou «temos de dar importância ao que tem importância e não chafurdar em coisas de merda».

À atenção do Dr. Matias com sua saga para Portugal ter «todas as condições para se tornar um líder mundial na IA»

A legislação laboral inglesa, como a portuguesa, contém uma disposição chamada «interim relief» (providência cautelar) que permite a um juiz compelir uma empresa a reintegrar um empregado despedido, ainda que legalmente, ou a pagar-lhe uma indemnização. Até recentemente, o número de casos apresentados aos tribunais andava pelas poucas dezenas por ano, devido à complexidade da lei e aos elevados honorários dos advogados. Com a banalização da IA, muitos trabalhadores despedidos estão a usá-la com sucesso para preparar petições a contestar o despedimento, o que está a multiplicar por 100 o número de casos que inundam os tribunais e a levar estes (que não usam a IA) à paralisia e as preocupações ao governo inglês, que a respeito da IA está a fazer, como o Dr. Matias, muitos anúncios e pouca obra. Processos semelhantes estão a ser usados por um número crescente de cidadãos para contestar os licenciamentos emitidos pelas autoridades locais e as multas de estacionamento, ou para reclamar benefícios ou subsídios sociais.

Insanidade é fazer a mesma coisa repetidamente e esperar resultados diferentes. Ou talvez não…

… ou talvez seja apenas uma manobra de diversão para iludir a falta de solução dos problemas que não têm solução real, como é o caso do aumento do preço dos combustíveis, cuja solução é meramente ilusória e cuja génese, mais uma vez, a ERSE não conseguiu comprovar que residisse em supostas manobras obscuras dos operadores do mercado português dos combustíveis rodoviários.

16/08/2026

ARTIGO DEFUNTO: Comparar a beira da estrada com a Estrada da Beira

Semanário de reverência

É difícil superar a falta de senso de comparar o valor actual do FERSS, que se estima possa pagar dois anos de pensões, no segundo país mais envelhecido da UE, cujos fundos privados de pensões representam apenas cerca de 20 mil milhões e abrangem cerca de 1,2 milhões de pessoas, com cinco vezes o custo estimado do novo aeroporto Luís de Camões.

É assim parecido com comparar o custo do aeroporto de Schiphol, cujo custo de substituição se estima em cerca de 30 mil milhões de euros, com as reservas totais dos fundos de pensões dos Países Baixos, um país com uma população 1,6 vezes a portuguesa, mais jovem (menos 5 anos de idade mediana e menos 5 pontos percentuais de idosos), fundos que são suficientes para 30 anos de pensões e cujo valor atinge um total superior a 900 mil milhões ou 13 vezes o total os fundos portugueses. 

Já agora, a jornalista, com um mestrado em economia pelo ISEG, situou a estimativa do custo do novo aeroporto em menos de 10 mil milhões. No lugar dela, teria feito outras estimativas, por exemplo: 
  • Custo estimado da construção (em 2024) 7,9 a 8,9 mil milhões
  • Custo estimado das grandes obras de acessibilidade 5,5 mil milhões
  • Custo total estimado 13,4 a 14,4 mil milhões
  • Coeficiente médio de derrapagem das grandes obras públicas em Portugal 1,3 a 1,35
  • Custo total provável 17,4 a 19,4 mil milhões
  • Dois exemplos de derrapagem:
    • Centro Cultural de Belém, o custo final triplicou o orçamentado;
    • Aeroporto de Berlim: os 5 anos planeados escorregaram para 14 anos; o custo triplicou.
  • O meu palpite do custo total final do Aeroporto Luís de Camões: 20 a 30 mil milhões

14/08/2026

SERVIÇO PÚBLICO: Startups no Portugal dos Pequeninos

Número de startups

Número de unicórnios

Com uma população de 11,4 milhões de habitantes, cerca de 1,54% dos 743 milhões da população total da Europa, Portugal tem 995 startups, uma percentagem de cerca de 2% das startups da Europa, e quatro unicórnios (startups com valor superior a USD mil milhões). 

O valor do ecosistema português (o valor total económico criado pelo ecosistema nos últimos 20 anos), cresceu 7,2% nos 12 meses terminados em Abril e é estimado em USD 32,5 mil milhões e no ranking global situa-se no 15.º lugar na Europa (entre a Áustria e Chipre) e no 31.º mundial.

Ranking mundial de Portugal por sector de actividade

A posição no ranking mundial por sector de actividade mostra que, sem surpresa, as startups portuguesas estão melhor colocadas nos sectores menos sofisticados tecnologicamente, com destaque para o comércio electrónico e o retalho que representam 10% do total de startups e tem um unicórnio. 

Em conclusão, o Portugal dos Pequeninos, estando longe dos delírios de grandeza do governo e dos sonhadores como o Eng. Moedas, não está mal posicionado neste domínio, talvez um pouco melhor do que no resto. 

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Fonte: Startup Blink 

13/08/2026

"You can't fool all of the people all the time" (17) - Oklahoma is gone, Idaho and West Virginia are next

Other "You can't fool all of the people all the time."


It is easy to understand why the net approval rate has been falling. What is hard to understand is that more than a third of Americans still approve.

11/08/2026

Crónica da passagem de um governo (62b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 62a)

Não é o turismo que é de mais, é o resto que é de menos


Em 2025, o turismo registou um crescimento nominal de 5,3% no PIB e de 5,5% no Valor Acrescentado Bruto (VAB, que mede o valor da produção líquida dos consumos intermédios). O VAB directo e indirecto gerado pelo Turismo foi de 30,4 mil milhões de euros equivalentes a 11,4% do VAB nacional e o contributo para o PIB foi de 36,2 mil milhões de euros ou 11,8% do PIB nacional. O contributo para o crescimento real do PIB nacional foi de 0,3 pontos percentuais equivalente a quase 1/3 do crescimento que se ficou em 1,9% o ano passado. (fonte Conta Satélite do Turismo para Portugal)

Se a isto acrescentarmos o crescimento de 10,6% do emprego no turismo, que passou a representar mais de um décimo do emprego total, percebe-se que o turismo é uma actividade essencial para a economia do Portugal dos Pequeninos não se afundar ainda mais. Sem o turismo e sem os 17 mil milhões que recebemos do PRR nos últimos quatro anos, já teríamos fechado a loja, o que nos leva a concluir que, não se sabendo o que vai ser o futuro, ainda assim podemos concluir que, com o turismo a desacelerar e o impacto do fim do PRR nas finanças públicas, o futuro não será igual ao passado.

Hoje há cadelinhas, amanhã não sabemos

mais liberdade


Enquanto o Dr. Montenegro se priva das férias para exaltar o «bom momento» e exortar «o país para crescer ainda mais» (fonte), o país sobe ao topo da UE dos custos estimados com o envelhecimento.

Durante a espera para o Dr. Matias nos tornar «um líder mundial na IA», por que não resolvermos problemas infinitamente mais simples?

Como seja o entupimento de 237 das 404 conservatórias do registo civil que viram os dias totais de atraso aumentarem de 40.947 para 46.289. Já agora, o Dr. Matias poderia pôr a acção onde põe a boca e ajudar com as ferramentas de IA o seu colega ministro da Justiça a desentupir o seu ministério.

E, se não for pedir muito, bem poderia o Tribunal Constitucional usar essas ferramentas para suprir a alegada insuficiência dos seus mais de 100 funcionários administrativos incapazes de notificar os titulares de cargos públicos faltosos, como o Dr. Luís Neves que nunca chegou a apresentar a declaração de rendimentos.

Caos é o que a comentadoria e o jornalismo de causas quiserem

Não faz sentido negar as falhas do ministério da Educação no processo dos Exames Nacionais do Ensino Secundário e, já agora, do ministro que revelou as insuficiências de que, quase sem excepção, os políticos domésticos padecem, resultantes do défice que infecta a maioria dos portugueses que têm como missão gerir seja lá o que for.

Não é inútil perceber a manipulação dos números e o empolamento das falhas que rodeou o tratamento noticioso e opinativo, como, por exemplo, a comparação do número de candidaturas na 1.ª fase do ensino superior deste ano com as dos anos de 2024 e 2025 que, segundo a versão corrente, estaria a diminuir. Remeto para o que escreveram Henrique Pereira dos Santos e Aguiar-Conraria desmontando as falácias e chamo a atenção para os últimos resultados, que apontam para mais de 60 mil candidaturas e um aumento de quase 11 mil em relação ao ano anterior.

10/08/2026

Crónica da passagem de um governo (62a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Marcação dois homens a um homem

No futebol o método defensivo mais usado é a marcação homem a homem. Para o PS na oposição, o método ofensivo é a marcação de dois homens a um homem, sendo este último o actual ministro das Finanças, Dr. Miranda Sarmento, e os dois primeiros os seus antecessores nas Finanças, o Dr. Medina e o Dr. Centeno. Como quase não vejo televisão, se não fosse Luís Marques, não teria reparado que os dois antecessores dispõem de púlpitos nas televisões (o Dr. Medina às segundas na CNN e o Dr. Centeno às sextas-feiras no Now) onde, saberão eles com que propósito, praticam regularmente tiro ao Professor Pardal, alcunha que o Dr. Centeno botou ao que viria a ser seu sucessor no ministério.

«Pagar a dívida é ideia de criança»?

Como se pode ver no gráfico do BdP, na vigência do governo do Dr. Montenegro, a dívida pública bruta não se reduziu e até aumentou 6,5%, aumento que o governo justificou com as amortizações da dívida a vencer-se, o que seria compensado com o aumento dos depósitos em bancos, mas não foi compensado porque a dívida líquida aumentou mais de 2 mil milhões de euros desde a tomada de posse.

BdP

Canários na mina de carvão

Apesar do retrato optimista do governo, desvalorizando a evolução das finanças públicas que viram o excedente de 2 mil milhões no primeiro semestre do ano passado transformar-se num défice de 212,6 milhões no mesmo período deste ano, o certo é que o défice da balança comercial se agravou em Junho em 1,1 mil milhões, sem esquecer que as variáveis fundamentais como da produtividade não só não melhoraram, como pioraram com a revisão da população activa com os números da imigração.

mais liberdade

O diagrama acima mostra o ano em que o actual valor do PIB per capita a PPP da economia portuguesa foi alcançado por outros países da UE e reflecte um atraso já antes da revisão da população que agora inevitavelmente se agravou.

Se a situação não é brilhante depois de quatro anos a receber quase 80% dos 22 mil milhões do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), o que segue não será mais agradável quando se antecipa que Portugal será o terceiro país da UE, depois da Grécia e da Bulgária, a ter maior impacto do fim do PRR nas finanças públicas (ver diagrama publicado a semana passada)

Ferrovia 2020 2027 Um dia

Decorridos 10 anos do seu lançamento, o grau de realização física global do Ferrovia 2020 está em 65% com 40 mil dias de atraso total nos troços. A linha de alta velocidade Évora-Elvas, com um investimento de 460 milhões, anunciada como pronta, está vazia e continua à espera de ser certificada, é apenas um exemplo notório.

(Continua)



09/08/2026

It just have to avoid being defeated itself

Read on Quora

No, the ayatollahs would only be confident they could defeat the US if they were stupid. They are confident they only need to avoid defeat. As simple as that, but beyond the level of understanding of a guy who suffers from hubris syndrome and paranoid narcissism.

ARTIGO DEFUNTO: O título também poderia ser "Dois em cada três membros são funcionários públicos ou pessoas pouco dotados de iniciativa"

Expresso

Diz a anedota: notícia é um jornalista morder um cão e não o contrário. 

O facto do título do semanário de reverência, mas podia ser outro qualquer jornal, salientar os membros com pendor empresarial significa que os jornalistas de causas que o habitam acham esse facto singular e, ao contrário, achariam trivial que, por exemplo, todos os membros do governo dependessem do Estado sucial do Portugal dos Pequeninos. 

É todo um programa de vida.