Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

22/08/2017

ACREDITE SE QUISER: Energia renovável não é necessariamente sinónimo de carbono neutro

Segundo a Agência Internacional de Energia para 2015 (Renewables Information - Overview 2017), a produção solar e eólica em conjunto representa apenas um quinto da geração de electricidade definida como renovável, contra mais de 70% proveniente de energia hidroeléctrica. Do restante, os biocombustíveis (como a combustão de pellets de madeira ou a queima de metano) representam mais do que os painéis solares.

Por isso, quando o jornalismo de causas ecológicas escreve sobre energias renováveis deveria mostrar fotos de barragens e turbinas em vez de "florestas" de painéis solares e parques eólicos. E deveria esclarecer que devido à decomposição anaeróbia de algas e outras matérias vegetais nas barragens, as centrais hidroeléctricas podem ser grandes emissores de metano, um gás com efeito de estufa várias vezes mais potente que o dióxido de carbono. E deveria mostra que, sendo certo que a queima de metano de resíduos agrícolas deixa uma pegada negativa de carbono, se a floresta de onde provém não for regenerada essa queima pode ser mais poluente do que a de carvão.

Em conclusão, «energia renovável» não é necessariamente sinónimo de carbono neutro. (Fonte: Why Renewable Energy Is Not As Clean As You Think»

21/08/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (97)

Outras avarias da geringonça.

O know-how do governo na produção de estatísticas de causas está-lhe tão natureza que até em matérias em que a aldrabice é facilmente verificável não resiste a aldrabar. Os recordes de desgraças neste Verão em matéria dos incêndios que o governo propalou terem sido batidos para se desculpabilizar pelo fracasso, tais como o mês de Julho mais quente, a maior área ardida, o maior número de ocorrências num só dia, mais reacendimentos, mais fogos postos e falhas do SIRESP,  foram todos aldrabados, segundo o fact-checking do Expresso, a quem nesta circunstância desalinhada temos de dar crédito.

E como a aldrabice contamina todas as áreas, não se estranha que a acusação que o governo de Costa tem feito ao de Passos Coelho quanto à execução dos fundos comunitários é mais uma mistificação porque, como o Negócio mostra aqui, a comparação do QREN da responsabilidade do governo anterior com o Portugal 2020 da responsabilidade do actual, quer nas taxas de compromissos, quer nos níveis de execução, quer nos atrasos, é desfavorável ao governo de Costa.

20/08/2017

Curtas e grossas (49) - Os novos marxistas trocaram o motor da história - a jihad em vez da luta de classes

«Agora que os amanhãs já não cantam a Internacional a caminho de uma sociedade sem classes, a fúria da rua árabe e toda aquela litania da colonização, as cruzadas e tudo o que mais lembrar, configuram-se como o anúncio do admirável mundo novo que mais uma vez se anuncia: uma sociedade em que as comunidades substituíram os cidadãos; as minorias impõem as suas particulares circunstâncias como regras e os revolucionários se tornaram reguladores dos ressentimentos.»

Do lado de dentro da janela, Helena Matos no Observador

Manifestações de paranóia/esquizofrenia (24) - O eucalipto do tudológo é um pinheiro

No post anterior escrevi que a esquerdalhada esquizofrénica vêm exigindo medidas de combate ao eucalipto com a colaboração dos telejornais que mostram quase sempre imagens dos mortíferos eucaliptos que representam menos de 13% da área total ardida.

Uma floresta de eucaliptus tavarensis
A este propósito, leia-se o que João Soares, um especialista na floresta, disse em entrevista ao jornal SOL:

«O eucalipto não é infestante?
De todo. A prova disso é que ele está cá há 150 anos e a gente não o conhece fora dos sítios onde foi plantado. Mas como é uma indústria de capital intensivo, que cheira mal e tem grandes lucros gerou- se uma psicose, que tem uma origem ideológica. O Miguel Sousa Tavares vai para a televisão com uma fotografia da estrada [de Pedrógão Grande] onde morreram aquelas pessoas e diz: 

'Como vêem nesta fotografia, foi o eucalipto que passou o fogo'. 

O que está na fotografia são pinheiros. São pinheiros! Não quer dizer que se fossem eucaliptos aquelas pessoas não morressem também, mas a pouca-vergonha com que se usa a mentira é inenarrável. O país insiste em não produzir coisa nenhuma. Aqui temos a mais-valia de pegar numa plantinha ou uma semente, fazer uma árvore e chegar ao papel, com valor acrescentado de 80 ou 90%, que se exporta e concorre · com o mercado nacional, sem nenhum dano irreversível.»

Miguel Sousa Tavares, levado pelo seu culto da tudologia, imaginando que o fervor substitui o conhecimento, acrescentou mais um dislate à longa lista das suas indignações mediáticas.

19/08/2017

BREIQUINGUE NIUZ: Costa vai casar outra vez


  • «Foi de António Costa, como ministro da Administração Interna, a decisão de apostar tudo num sistema de combate aos incêndios focado em extinguir rapidamente as ignições e que desvalorizou a reforma da floresta. É essa opção que, neste ano quente e de imensa acumulação de combustível nas matas, mostra não ser capaz de evitar tragédia atrás de tragédia.

18/08/2017

Cuidado com o que desejas

«Grupo de esquerda anticapitalista e separatista Arran ocupou este sábado (12-08) uma praia na cidade de Barcelona em protesto contra o turismo em massa» (Observador)

Menos de um semana depois, um atentado reclamado pelo Estado Islâmico faz mais de uma dezena de mortos e mais de uma centena de feridos. Um dos efeitos possíveis do atentado pode resolver o «problema» da esquerda anticapitalista e separatista - o turismo em massa.

ESTÓRIA E MORAL: Em vez de usar esfregonas e baldes é preferível fechar a torneira

Estória

Em Agosto do ano passado chegaram a Itália provenientes da Líbia 21.294 pessoas. Nas duas primeiras semanas de Agosto deste ano chegaram apenas 2.080 ou seja uma redução de 80%, redução que já em Julho tinha sido de 51%.

Porquê? Segundo o Economist Espresso, dois factores contribuíram para essa significativa redução. O governo italiano impôs restrições às ONG que realizam missões de salvamento, acusando algumas de colaborarem com os traficantes que transportavam as pessoas e, principalmente, uma guarda-costeira líbia melhor treinada e equipada que dificulta a acção dos traficantes e retorna as pessoas a terra.

Moral

Em vez de usar esfregonas e baldes é preferível fechar a torneira.

[Às criaturas que me julguem insensível ao sofrimento dos refugiados direi que a maioria não são refugiados mas migrantes económicos e que para ajudar todos a Europa se arrisca a não ajudar nenhuns e a alimentar a xenofobia. Às criaturas da esquerdalhada e do politicamente correcto que improvavelmente passem por aqui e tenham vontade de me insultar, direi: ide catar-vos.]

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: É preciso ganhar dinheiro para pagar o preço da independência

«Sem informação livre e sem verdadeira liberdade opinativa o estatuto  dos cidadãos numa democracia fica em crise. E quem não sabe não pode escolher bem. Tudo isto vem a propósito do estado actual da comunicação social portuguesa. Jornais, televisão e  rádio  vivem uma  quase unanimidade em matéria de louvaminhas à gerigonça e ao actual Governo, destacando-se todos no panegírico ao “génio político” do primeiro-ministro. Essa atitude não decorre apenas do facto da maioria dos jornalistas serem de “esquerda”, ou odiarem Pedro Passos Coelho. Tem sobretudo a ver, julgo eu, com as manifestas dificuldades económicas em que vivem, em particular a imprensa e os canais televisivos privados.

A experiência diz-nos que quando o dinheiro falta a isenção e a independência vão minguando. O cemitério da comunicação social está repleto de valorosos baluartes da independência jornalística. Por outras palavras: para falar alto ao poder é necessário ter suficiente folga financeira. E isto é tanto mais verdade num país como Portugal, onde o poder político vive em conúbio com o poder financeiro ou pelo menos tem como ele uma especial relação de cumplicidade. Isso  coloca a generalidade dos órgãos de comunicação social na posição em que não gostam de ser vistos: de mão estendida! 

Imprensa, rádio e televisões estrangulados ou dependentes de ajuda financeira  não ajudam à liberdade de imprensa. Talvez por isso alguns projectos jornalísticos exclusivamente digitais, provavelmente menos condicionados financeiramente, sejam os únicos (ou quase) a resistir a esta vaga de ilusionismo que nos pinta o país em tons de rosa, quando essa não é, infelizmente, a cor da floresta depois de arder…»

«Ilusionismo», Ricardo Leite Pinto no Económico

17/08/2017

Here comes the same lengalenga again


Depois da trovoada seca, do downburst, da seca, do aquecimento global retornaram à velha lengalenga. De onde podemos concluir que as mãos criminosas estão quase todas a norte do Tejo e a lenda do bom povo que aí habita esconde resmas de pirómanos.

Fonte ICNF
Se o leitor tiver a pachorra indispensável e interesse em ver a coisa a uma luz diferente das lengalengas mediáticas e das narrativas branqueadoras de responsabilidades, pode ler alguns da dúzia de posts que o (Im)pertinências dedicou em mais de 10 anos a este tema - por exemplo este.

Uma mão só lava a outra se houver sabão

Entendamo-nos, considerar Donald Trump um mau presidente para os Estados Unidos e um péssimo presidente americano para o mundo não implica considerar que tudo o que defende é errado ou condenável e não implica considerar que os seus detractores têm razão por direito divino quando se lhe opõem; por outro lado, considerar que muitos dos seus detractores defendem ideias erradas ou condenáveis não implica dar razão a Trump quando se lhes opõe.

Vem isto a propósito dos incidentes de Charlottesville em cuja génese se encontra mais um episódio da estupidez revisionista da história: a tentativa de remover do Emancipation Park uma estátua de Robert E. Lee, um herói da Guerra de Secessão, general do exército dos Estados Confederados, que por acaso não era esclavagista e por acaso defendia a integridade da União e até foi escolhido pelo presidente Lincoln para comandar o exército da União; confrontado com a secessão da Virgínia, não aceitou e escolheu o Estado onde nasceu.

É claro que isso justifica e legitima a manifestação contra a remoção da estátua. É igualmente claro que a contra-manifestação, começando por ter legitimidade perde-a a partir do momento em que uma facção dos contra-manifestantes, a Antifa ou "activistas anti-fascistas" se manifestaram violentamente com bastões e líquidos coloridos contra os "supremacistas brancos", segundo o testemunho insuspeito de repórteres do New York Times. E é ainda mais claro que tudo isto não pode justificar a violência dos manifestantes e muito menos um acto extremo como o atropelamento deliberado por um "neo-nazi"de contra-manifestantes de que resultou a morte de um deles. E, já agora, repare-se como os mídia na sua maioria utilizam os adjectivos para instilar nas meninges qual o lado certo (anti-fascistas) e o lado errado (supremacistas brancosneo-nazis) dispensando-se de mais argumentos.

Face a esta situação compreende-se que Trump, mostrando por uma vez algum senso, tenha tentado evitar tomar partido e resistido a condenar os "supremacistas brancos". Já não se percebe e não se desculpa que a incapacidade de Trump para lidar com situações complexas como esta e com as pressões que naturalmente foi sujeito o tenha levado a perder a distância, a tomar partido limpando a folha do alt-rigth e atacando a alt-left que é uma espécie de alt-right de esquerda que inspirou a contra-manifestação. (NYT, NYT)


É possível que as coisas não fiquem por aqui porque continua a fúria de remoção de símbolos históricos a quem a esquerdalhada americana pretende julgar pelos padrões da sua vulgata e colar rótulos que nem hoje fazem sentido quanto mais no século XIX. O episódio mais recente é o da remoção retratada na imagem das estátuas de Robert E. Lee (outra vez) e de um outro general e herói sulista Thomas Jonathan "Stonewall" Jackson. (NYT)

Esta onda de imbecilidade que ameaçar submergir os Estados Unidos seria comparável a uma outra onda, que esperemos não venha a ser formada pelos pamonhas locais da esquerdalhada, e que levaria entre nós a desmantelar, entre muitas outras estátuas e monumentos, a Fonte Luminosa (porque foi um símbolo do salazarismo e, já agora, onde Mário Soares iniciou o ataque a comunistas e esquerdistas), o Cristo-Rei (porque uma parte da hierarquia católica colaborou com o salazarismo), o monumento a Gomes da Costa em Braga (porque comandou o golpe de estado que acabou com a baderna da 1.ª república), as dezenas de estátuas de colonialistas como Afonso de Albuquerque ou o Monumento ao Esforço Colonizador Português (Foz do Douro), sem esquecer o derrube de todos os padrões dos descobrimentos espalhados por esse mundo.

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Biopsia ao maior e mais agressivo carcinoma no tecido político-económico do regime

Secção Res ipsa loquitur

Se é verdade que o Público faz demasiadas vezes o papel de intendente do regime e porta-voz da esquerdalhada, seria injusto não reconhecer que tem lá gente de qualidade, com um módico de independência e desatrelados das corporações que governam o país.

Por isso, deve relevar-se o excelente trabalho (mais de compilação e sistematização do que de investigação, esclareça-se) no artigo «Suspeitas de gestão danosa na antiga PT» de Cristina Ferreira que faz uma biopsia ao maior e mais agressivo carcinoma no tecido político-económico do regime. (Se fosse mauzinho diria que o artigo deve ter sido lido alguma satisfação pelos Azevedos donos do jornal a quem o duo Sócrates-Ricardo Salgado e a sua cambada furaram a OPA.)

Quatro afonsos para Cristina Ferreira.

16/08/2017

Lost in translation (296) - "Consenso nacional" é o que o Costa quiser (2)

Ainda sobre as indignações de António Costa a respeito dos aproveitamentos políticos perante tragédias desta natureza, Manuel Carvalho recorda no seu comentário de hoje no Público, com o título muito apropriado «Sua Santidade, o Governo», «que o PS da oposição (e ainda mais o fervoroso Bloco) fez sempre exactamente a mesma coisa que o PSD e o CDS fazem agora em torno dos incêndios: exploram as feridas abertas pela tragédia para desgastar quem manda. Foi precisamente o que fez o actual secretário de Estado das Florestas e então deputado do PS, Miguel Freitas, em Novembro de 2013, quando acusou Governo de Passos Coelho de se “tentar desresponsabilizar” pela falta de uma “estratégia integrada” no combate aos fogos desse Verão que provocaram a morte de nove pessoas e a maior destruição da floresta nacional desde 2005. Foi também o que fizeram o Bloco e o PCP sempre que os relatos dos incêndios subiam de tom e colocavam, como agora, o país em estado de alarme.»

Eu diria mesmo mais, como Manuel Carvalho, «era o que faltava que num país democrático que vive um dos seus momentos mais dramáticos em anos se limitasse a cantar em coro a partitura do Governo.»

DIÁRIO DE BORDO: O extraordinário do ordinário

Uma semana na vida de Paterson, poeta do quotidiano e motorista de autocarros acidental, ou vice versa, na cidade de Paterson, vista pela câmara inspirada de Jarmush