Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

09/02/2026

Crónica da passagem de um governo (36)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
O Estado sucial à luz do pensamento mágico

A consultora Deloitte considera plausível «atingir reduções de custos de 10%” se a tecnologia (Inteligência Artificial) for aplicada “de forma massiva”. O quid está nos “ses”. A começar pela aplicação “massiva” por governos que circulam na autoestrada mexicana do investimento - o presente governo, por exemplo, executou no ano passado apenas 2/3 do investimento orçamentado - e a continuar pela tendência até agora mostrada por todos os governos para desperdiçarem recursos construindo metaforicamente aquedutos para regar desertos. Por isso, embora se perceba, o marketing da Deloitte é perigoso se alguém acreditar que o governo vai reduzir uns 13 mil milhões à despesa.

Mudam-se os tempos e os governos, não se mudam as vontades

«O irmão do chefe de gabinete de Montenegro foi nomeado consultor coordenador. Há um ano era estagiário e vai ganhar 4.400 euro. … Chefe de gabinete desconhecia nomeação do irmão.» (fonte) As justificações de gabinete do Dr. Gonçalo Mateus parecem suficientes para dar um lugar de estagiário ao nomeado; para consultor coordenador, nem por isso. Talvez porque o Amália ainda está na fase karaoke.

O que seria do PIB sem o turismo?

mais liberdade

Não fora o turismo, a economia estaria estagnada e os brilharetes dos excedentes orçamentais seriam transformados em défices estruturais.

No Estado sucial do Portugal dos Pequeninos os riscos não se gerem, ingerem-se

[À guisa de introdução, leia-se este post.] Os riscos evitam-se, mitigam-se, transferem-se ou financiam-se.

Dois exemplos de falhas na mitigação na resposta do governo às tempestades: (1) uma vez mais, a ineficácia sistemática do SIRESP que custou até agora mais de 700 milhões de euros; (2) a descoordenação entre governo, autarquias, Protecção Civil e Forças Armadas que, entre outras consequências, atrasou uma semana o estado de prontidão e a intervenção da tropa.

A transferência para seguradores na esfera privada é residual em Portugal, como se vê no quadro seguinte.


Quanto ao financiamento dos riscos catastróficos através de um fundo, como o gerido em Espanha pelo Consorcio de Compensación de Seguros, há muito que em Portugal se fala da criação de um Fundo Sísmico. Um estudo da APS de 2006 apresentava um modelo de cobertura do risco sísmico por meio de um fundo público; depois disso, constituíram-se grupos de trabalho e comissões, produziram-se “relatórios preliminares” e, mais recentemente, em 2023, o governo do Dr. Costa encarregou a ASF de conceber um novo modelo. Como habitualmente, na mente dos governantes o problema ficou resolvido com a publicação de um despacho que deu à ASF um ano para preparar mais um “relatório preliminar”.

Boa Nova (mais uma)

A semana passada, no intervalo da passagem da Kristin para o Leonardo, o ministro das Finanças garantiu «que avança este ano a criação do Fundo Nacional para Catástrofes e Sismos». Esperai sentados.

08/02/2026

Trumponomics' unintended consequences (1)

"The dollar is the world’s reserve currency, bestowing key advantages upon us. But none of this is our birthright. It must be earned, and re-earned,” said one Fed official in 2010, as the European sovereign-debt crisis was unfolding. “We ought not to be dismissive of the threats to our privileged position in the world.” That official was a younger Mr Warsh. As he prepares to lead the world’s most important central bank, the dollar looks more vulnerable than at any time in recent history. (The Economist)


Trading Economics

Trading Economics

Here are some examples of how the economic press reported on the performance of Trump's policies:

07/02/2026

UGT propõe ao governo a redução do PIB. Imagina-se que a CGTP não queira ficar atrás

A UGT, uma central sindical afecta ao PS e ao PSD, mais ao primeiro do que ao segundo, apresentou ao governo como contraproposta ao pacote laboral a redução do horário semanal para 35 horas, a semana de quatro dias, o aumento das férias para 25 dias e o aumento das indemnizações por despedimento.
Se admitirmos que da contraproposta da UGT resultaria uma redução de 5% do número de horas trabalhadas e como a produtividade por hora trabalhada não seria alterada, a produtividade por pessoa empregada (actualmente 76% da média da UE, a sexta mais baixa da UE) desceria aproximadamente os mesmos 5%, de onde resultaria uma redução comparável do PIB a paridades do poder de compra.

06/02/2026

A economia do pastel de nata tem o melhor desempenho este ano? (5)

Continuação de (1), (2), (3) e (4)

Além dos poucos comentadores assinalados nos posts anteriores que questionaram o faux pas da Economist, provavelmente a melhor revista de economia e finanças, que atribuiu o primeiro lugar do seu ranking à economia portuguesa, a saber Óscar Afonso (jornal Sol), José Paulo Soares (jornal Eco), Daniel Bessa (Expresso), João Duque (Expresso), Luís Aguiar-Conraria (Expresso) e Luís Mira Amaral (Expresso), acrescento agora o professor de Economia da UP Freire de Sousa.
 
No seu artigo «Quando os primeiros podem ser os últimos», publicado também no Expresso, Freire de Sousa deu-se à maçada de preparar um ranking alternativo com três dos cinco indicadores da Economist (os de natureza mais estrutural) onde a economia portuguesa cai do primeiro lugar do ranking da Economist para o penúltimo, apenas acima da Grécia. 
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Duas notas de rodapé:
  • Relevo, outra vez, que cinco dos seis comentadores desalinhados da euforia geral escreveram no Expresso, um semanário que, apesar da sua frequente reverência aos poderes fácticos, mostra, apesar disso, alguma independência e qualidade de opinião que não são frequentes na generalidade da imprensa;
  • Registo também que Freire de Sousa, apesar de assinar há quatro décadas a Economist, não deixou de apontar criticamente a falha, mostrando não dispor de um cérebro ideológico, algo raro nos tempos dos "factos alternativos" e do primado da devoção acrítica pelos seus criadores.

05/02/2026

Is this the Ayatollahs' Revolutionary Guard cracking down protesters?


No, it's Donald Trump's ICE militia cracking down protesters in Minneapolis.

Is this in Teeran?


No. It's in Minneapolis.

04/02/2026

SERVIÇO PÚBLICO: Desfazendo equívocos em comentários ao post de ontem

Trata-se de dois comentários aos itens «Um novo pletórico peditório, desta vez o das tempestades» e «Uma Boa Nova, ou talvez não» da Crónica da passagem de um governo (35b) publicada ontem.

PRIMEIRO COMENTÁRIO

As «Duas sugestões» têm subjacente a confusão sobre os conceitos relacionados com o tratamento dos riscos: mitigação, evitação, transferência e financiamento – ver “ A Risk Management Standard”. Neste caso, não podendo evitar-se, os riscos poderão ser mitigados (enterrar os cabos eléctricos, melhorar o sistema de drenagem de águas pluviais, limitar a construção nas linhas de água, poda e abate de árvores, etc.), poderão ser transferidos (para seguradoras que por sua vez as transferirão para os mercados internacionais de resseguro) ou financiados (ver abaixo o Consorcio de Compensación de Seguros espanhol).

Bibliografia (um exemplo entre dezenas, no que respeita à gestão de riscos a nível estatal, e entre milhares no que respeita à gestão de riscos empresariais): “Diretrizes de Gestão dos Riscos de Catástrofes” da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho.
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Em Espanha (e não, não é na Suíça) existe uma estrutura de resposta a catástrofes através do Sistema Nacional de Proteção Civil, que inclui planos específicos para vários riscos como sismos e tempestades.

A resposta é estruturada da seguinte forma:
  • Plano Nacional de Redução do Risco de Desastres: Reforçado recentemente para antecipar ameaças derivadas das alterações climáticas e coordenar a resposta estatal.
  • Planos de Riscos Especiais: Existem diretrizes nacionais específicas (Planos Especiais) para gerir riscos como sismos, inundações, maremotos e incêndios florestais.
  • Hierarquia de Resposta:
    • Territorial: As comunidades autónomas e municípios têm os seus próprios planos para emergências locais.
    • Nacional: O Estado intervém quando a emergência é declarada de "interesse nacional", coordenando todos os recursos públicos.
    • Unidade Militar de Emergências (UME): Uma força militar especializada criada especificamente para intervir rapidamente em catástrofes naturais graves em todo o território espanhol.
Também em Espanha (e não, não é na Suíça) existe o seguro público de catástrofes naturais que é gerido pelo Consorcio de Compensación de Seguros, uma entidade pública que compensa danos por riscos extraordinários (inundações, sismos, tempestades). Para ter acesso ao Consorcio, é indispensável dispor de um seguro privado (casa, carro, empresa) com os prémios pagos.

Em Portugal temos o peditório nacional e estamos há décadas a chutar a bola para a frente à espera criar uma solução semelhante limitada ao risco sísmico.
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«Nunca em Portugal Continental tinha havido ventos superiores a 150 km/hora.»

Segundo a página “Extremos climatológicos Portugal” do IPMA, em 13-10-2018 foi registada na Figueira da Foz  uma rajada de vento de 176,4 km/h.
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SEGUNDO COMENTÁRIO

«O que interessa é sempre o valor da dívida em percentagem do PIB».
Infelizmente há muitas outras coisas que interessam.  
Na véspera do resgate pela troika em 2011, a dívida pública do Estado Português era cerca de 163 mil (equivalente a 208 milhões de euros a preços actuais) e 94,0% do PIB. Catorze anos depois, no final de 2025, a dívida pública era de 274 mil milhões (mais 66 mil milhões do que em 2011 a preços actuais) e 89,7% do PIB (menos 4,3 pontos percentuais), rácio que era o sexto mais elevado da UE, posição do ranking onde o crescimento da produtividade se deveria situar para garantir que continuaremos a comprar popós no futuro e podemos financiar um Fundo de Catástrofes e não apenas um Fundo Sísmico.
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MORAL DA ESTÓRIA

Precisamos de persistência para resolver os problemas que têm solução, de paciência para conviver com os que não têm e inteligência para distinguir uns dos outros (Ditado chinês) .
Precisamos também de conhecimento para evitarmos o recurso aos palpites e bitaites, uma patologia que no Portugal dos Pequeninos infecta desde analfabetos até doutorados.

03/02/2026

Crónica da passagem de um governo (35b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 35a)

Um novo pletórico peditório, desta vez o das tempestades

Uma tempestade proporciona uma oportunidade para as lamentações, as acusações e performances dos passa-culpas e culmina num peditório e lamento dos subsídios sempre insuficientes, subsídios que os pedintes nunca chegam a perceber que não saem dos bolsos do governo, mas dos bolsos dos contribuintes. Várias tempestades multiplicam as oportunidades dos pedintes e as demonstrações de caridade das autoridades que, desta vez, se desdobraram em 14 medidas que somam 2,5 mil milhões, que é um número para encher o olho que mistura subsídios com créditos.
 
No final não se fará nada para planear as respostas e mitigar os danos no futuro e ficará tudo na mesma. E não, isto não é coisa deste governo, é coisa de todos os governos, é coisa do desporto nacional de chutar a bola para o lado ou para a frente inspirada numa cultura de improviso e desenrascanço.

[Contava-se nalgumas empresas alemãs com quem trabalhei que cada uma delas deveria ter um português numa redoma com uma legenda “partir em caso de emergência” para as raríssimas situações em que os alemães não teriam nada preparado, um português sairia da redoma para lidar com uma situação que para ele seria trivial e igual a qualquer outra.]

Canários na mina de carvão

A estimativa rápida do INE confirma uma baixa do crescimento do PIB de 2,1% em 2024 para 1,9% em 2025, abaixo das previsões do governo (2,0%), ou seja, descemos um degrau no mesmo patamar de crescimento medíocre, numa trajectória de queda nos últimos 3 anos (3,1%, 2,1%, 1,9%). Sem o crescimento do turismo e os dinheiros do PRR já estaríamos em recessão. Para alcançarmos a França, um país não particularmente dinâmico, se crescêssemos um ponto percentual acima, precisaríamos de quatro décadas para atingir o mesmo PIB per capita.

INE

Os canários piariam ainda mais alto se acrescentarmos os resultados de um inquérito a 1500 empresários da indústria, que antecipa uma queda acentuada do emprego nos próximos meses, e que a indústria do calçado, uma das mais competitivas desde que se começou a focar no calçado de qualidade, está a começar a ser ameaçada pelos produtores asiáticos que já dominam o mercado do calçado barato e estão a entrar no upper market, a preços que não deixarão de ser muito mais baixos do que os portugueses. Se a tudo isto acrescentarmos o impacto das tempestades em milhares de empresas, o retrato não fica bonito.

Como no passado, os empresários e os consumidores, embalados pelos cânticos governamentais, não ouvirão o piar dos canários e continuarão, como se não houvesse amanhã, a comprar os seus popós cuja venda aumentou 18% em termos homólogos, em cima de um parque automóvel existente que nos coloca na metade superior do ranking europeu, aquela metade em que o crescimento da produtividade deveria situar-se para garantir que continuaremos a comprar popós no futuro.

Uma Boa Nova, ou talvez não

A dívida pública em percentagem do PIB reduziu-se de 93,6% em 2024, para 89,7% em 2025.

Dívida pública: nota de informação estatística — dezembro de 2025 (BdeP)

Essa é a boa notícia. A má notícia é que o valor da dívida líquida e da dívida bruta aumentaram quase 4 mil milhões e a redução da dívida bruta no último trimestre atingiu quase 20 mil milhões para melhorar a fotografia.