Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

17/04/2026

PUBLIC SERVICE: Facts and Opinions

«In public discourse, we spend a great deal of collective energy debating the accuracy of facts. We fact-check politicians, monitor social media for misinformation, and prioritise data-driven decision-making in our workplaces. This focus is vital; the distinction between truth and falsehood is the bedrock of a functioning society.

However, by focusing so intently on factual accuracy, we risk overlooking another fundamental distinction: the difference between a fact and an opinion.

A statement of fact is relatively easy to verify: it is either true or not. But a claim’s objectivity – is it a verifiable objective statement or a subjective expression of belief? – is far more complex. This is why our minds process and encode opinions in a fundamentally different way to facts.

The stakes of objectivity

Objectivity is not a mere linguistic nuance; it lies at the foundation of important policy and legal debates. For instance, in defamation lawsuits against US media figures like Tucker Carlson and Sidney Powell, legal defences have hinged on whether statements could “reasonably be interpreted as facts” or were merely “opinions.” Similarly, social media platforms have struggled with whether to fact-check posts labelled as opinions, a policy that has recently complicated efforts to combat climate change denialism.

The distinction matters because it frames how we disagree. When a claim is clearly an opinion – for instance, “the current administration is failing the working class” – one may agree or disagree, but we understand that there is room for disagreement and neither side is inherently right nor wrong.

However, a factual statement – “The official US poverty rate was 10.6% in 2024” – leaves little room for debate. It necessitates the existence of a source, and an objectively correct response.

As a result, beliefs about claim objectivity can stifle receptiveness to conflicting perspectives. This, in turn, fuels interpersonal conflict and drives political polarisation.

16/04/2026

Dúvidas (366) - Qual o efeito na natalidade das políticas de promoção da natalidade? (II)

Continuação de (1)

Em retrospectiva: uma das bandeiras do nativismo é o aumento da natalidade para combater a "Grande Substituição", uma modalidade das míticas ameaças externas a que todos os ideários autocráticos recorrem. O governo húngaro de Viktor Orbán foi um dos que mais apostaram na engenharia demográfica e gastou 6% do PIB da Hungria com vários incentivos, incluindo uma isenção vitalícia do imposto sobre o rendimento das mães com mais de um filho.

Fonte

Confirmando que a engenharia social da direita é tão inútil como a de esquerda (e às vezes mais nociva), os resultados das políticas de promoção da natalidade da Hungria (e da Polónia até há dois anos) para evitar o que a extrema-direita magiar chamou nemzethalal (extinção nacional) - o equivalente à "Grande Substituição" (Grand Remplacement, Great Replacement) - não estão à altura das expectativas do pensamento milagroso nativista.

________________

Post scriptum (ou post mortem)

Este post era para ser publicado durante a vigência do governo de Viktor Orbán. Provavelmente continuará a ter actualidade, uma vez que o novo governo húngaro de Péter Magyar parece adoptar as mesmas políticas. Mesmo assim, não me digam que é mais do mesmo (ainda que possa ser). Ao menos é uma questão de higiene porque, como escreveu Eça, ainda que um governo não tenha de cair - porque não é um edifício, tem de sair com benzina - porque é uma nódoa!

15/04/2026

JD Vance should suggest to D Trump that he read Thucydides' History of the Peloponnesian War, or, given DT's illiteracy problems, ask Marco Rubio for a summary

For some time now, I've been drawing parallels between the evolution of the United States under Trump and the decline and defeat of Athens, as recounted by Thucydides.

Since I read the History of the Peloponnesian War quite a while ago and my memory isn't what it used to be, I asked Gemini's AI to summarize the reasons for Athens' decline and defeat. Here's the summary.

«According to Thucydides, the primary reason for Athens' defeat was not a lack of resources or military skill, but internal political instability and the rise of demagogues following the death of Pericles.

In his analysis, Thucydides highlights a few critical factors:

Leadership Vacuum: After Pericles died, he was replaced by ambitious leaders (like Alcibiades) who were more interested in personal glory and power than the safety of the city.

Internal Factionalism: The Athenian citizens became divided. Constant infighting led to inconsistent decision-making, where the assembly would approve a plan one day and abandon it—or punish its generals—the next.

The Sicilian Expedition: Thucydides views this disastrous military campaign as the ultimate consequence of bad leadership. Athens overextended its reach due to hubris and greed, and the internal bickering at home meant the expedition wasn't properly supported, leading to the total loss of their fleet.

Essentially, Thucydides argues that Athens "destroyed itself" through domestic discord rather than being simply overcome by Spartan strength.»

14/04/2026

Crónica da passagem de um governo (45b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 45a)

Hoje Há Conquilhas Amanhã Não Sabemos

Comecemos pelas boas notícias. A guerra de Bibi-Trump contra o que resta dos Aiatolas parece estar a desviar o turismo do Médio Oriente para os destinos europeus e, inevitavelmente, para o nosso Portugal dos Pequeninos onde os hotéis estão a registar um aumento significativo das reservas. É claro que o aumento da dependência de uma actividade com elevada sazonalidade e volatilidade e com mão de obra pouco qualificada não é uma boa notícia a longo prazo, mas quem é que quer saber disso?

Canários na mina de carvão
[Lembrete: nas minas de carvão usavam-se canários que são muito sensíveis ao monóxido de carbono e ao metano para alertar os mineiros de um perigo iminente.]

Não nos iludamos. Não foi a guerra de Bibi-Trump contra os Aiatolas que criou a vulnerabilidade da economia portuguesa. A guerra é apenas mais uma circunstância incontrolável para a qual estamos mal preparados para enfrentar e que, por enquanto, só tem efeitos sobre a inflação que em Março aumentou para 2,7% (INE).

Multiplicam-se os sinais de que as coisas se podem complicar. Em Fevereiro, ainda antes do fecho do estreito de Ormuz, o défice da balança comercial de bens aumentou € 489 milhões, principalmente devido à redução de 26% das exportações de produtos industriais. Dirão os optimistas – ou seja, os pessimistas mal informados – que isso não interessa porque o turismo na balança de serviços mais do que compensa esse défice. Pois é, plus ça change, plus c'est la même chose, diria o Jean-Baptiste.

Outra vez em Fevereiro, antes da guerra, o Índice de Volume de Negócios na Indústria do INE (fonte), que havia tido uma redução de 1,9% em Janeiro, apresentou uma nova redução homóloga nominal de 4,8%, e o emprego que havia caído 0,1% no mês anterior diminui 0,2%. Enquanto isso, as remunerações subiram 4,8% e 5,1% nos dois primeiros meses do ano e, que se saiba, não ocorreu nenhum milagre e a produtividade continua como estava. Plus ça change.

Quem não deve não teme, diz o povo. Os dirigentes têm medo de decidir, diz o Dr. Montenegro

Não vale a pena discutir que o visto prévio só faria sentido se o Tribunal de Contas fosse um órgão administrativo e não de fiscalização, como é. Percebe-se, por isso, que o governo tenha aprovado a dispensa do visto prévio. Que o tenha feito apenas para contratos até € 10 milhões é que se percebe com mais dificuldade. Ainda se percebe menos a justificação do primeiro-ministro de que os dirigentes têm medo de decidir, dirigentes que têm a ousadia de planear em diapositivos do PowerPoint um projecto de dezenas de milhões de euros como o Ferrovia 2020.

E não se percebe de todo que se limite o visto prévio do TdC e de seguida se limitem as responsabilidades dos gestores públicos à negligência grosseira e ao dolo, isto é, aos casos de incompetência terminal e crime.

No Estado sucial do Portugal dos Pequeninos, a Justiça é surda, mas não é cega

mais liberdade

Extraordinário não é 55% dos portugueses não terem confiança no sistema judicial. Extraordinário é ainda haver 45% dos portugueses que têm alguma confiança.

Um peão socrático na Provedoria de Justiça

O Provedor de Justiça «defende as pessoas prejudicadas por atos ou omissões injustos ou ilegais da administração ou outros poderes públicos ou que vejam os seus direitos fundamentais violados». E quem mais adequado ao cargo do que o Dr. Tiago Antunes, ex-secretário de Estado do Eng. Sócrates, agora proposto pelo PS e aceite pelo PSD e Chega, que garante não «fazer fretes a ninguém» e ter «total independência», garantia atestada por ter sido um dos suportes do Simplex e o Câmara Corporativa dois blogues criados para promoção do Animal Feroz agora a ser vítima de um julgamento.

13/04/2026

Crónica da passagem de um governo (45a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Uma organização que representa 8% dos trabalhadores rejeita uma reforma laboral pífia

Agora é oficial, depois de 8 (oito) meses de negociações e 53 (cinquenta e três) reuniões, a UGT, uma organização de sindicatos maioritariamente controlada pelo Partido Socialista, com pouco mais de 400 mil sócios, menos de 8% dos trabalhadores portugueses, diz “não” a uma tímida reforma da lei laboral.

Eu diria mesmo mais, que empresariado é este?

«Quem chegar a Portugal por estes dias vai perguntar que raio de classe empresarial tem o país: quando as coisas correm bem, as empresas registam lucros e distribuem-nos pelos acionistas (alguns deles com bolsos bem fundos…). Quando as coisas dão para o torto, pedem ao contribuinte que os ajudem a manter as margens.» Escreveu Camilo Lourenço e eu assino por baixo.

Sindicatos, empresariado e governo, a mesma luta

Colocando-se ao nível dos sindicatos e do empresariado, o governo votou em Bruxelas a favor da tributação dos lucros extraordinários das empresas energéticas, uma medida que já tinha sido adoptada pelo Dr. Costa em 2022 e que o Dr. Montenegro então classificou, e bem, de demagógica.

Take Another Plan. "Resultados sólidos", disse o TEBV (Tratador do Elefante Branco Voador)

Ainda pelo estreito de Ormuz circulava o jet fuel, os lucros da TAP já tinham caído 70% em 2024 e voltaram a cair 90% em 2025 para 4,1 milhões, equivalentes a pouco mais de um por mil dos mais de 3 mil milhões de impostos que o Dr. Costa e o Dr. Pedro Nuno injectaram no elefante branco. Que o comunicado do CEO classificasse como “sólidos” esses resultados microscópicos, talvez suficientes para pagar as indemnizações dos processos em tribunal, e o contexto como “desafiante”, dá uma boa ideia do ponto a que chegámos.

O especialista em aviação Pedro Castro faz uma boa síntese do processo de privatização em curso quando diz que o vencedor será o operador que «melhor ignorar no que se está a meter e que achar que ter um Estado disfuncional como parceiro maioritário, sem prazo para isso terminar.».

Re-forma dos transportes rodoviários, Montenegro way. A ave que nada e grasna deixa de se chamar pato

Se há uma empresa que se destaca para pior no universo das empresas públicas, a CP é uma das mais sérias candidatas ao título de elefante branco público. Admito que a sua “re-forma” pudesse assumir diversas formas, uma das poucas que não me ocorreria seria manter tudo na mesma e reclassificá-la como «entidade de mercado para efeitos estatísticos» com as principais consequências de que «as contas da CP deixam de ser consolidadas no Setor das Administrações Públicas, e deixa de contar diretamente para o défice público».

(Continua)

12/04/2026

Pro memoria (147) - Se o Fidesz não vencer as eleições de hoje não será por Viktor Orbán não ter feito por isso

«As eleições de 2010 colocaram, na prática, Viktor Orbán acima da lei: passou a poder alterar a Constituição à vontade, o que fez 12 vezes durante o seu primeiro ano no cargo. Logo no início, eliminou a exigência de uma maioria de quatro quintos para rever a Lei Fundamental. Menos de um ano após o início do mandato, apresentou uma nova Constituição, com centenas de novas leis, muitas com impacto no sistema eleitoral. A Constituição de 2011 reduziu para metade o número de deputados, medida amplamente bem acolhida, uma vez que o anterior Parlamento, com 394 membros, era considerado dispendioso. No entanto, tal implicava redesenhar todas as circunscrições eleitorais do país, e a Constituição nada dizia sobre como esse processo deveria ser conduzido.

Em vez de elaborar o novo mapa de forma transparente, o Governo desenhou os círculos eleitorais à porta fechada. A resultante Lei CCIII/2011 passou a incluir os limites exatos de cada um, e foi aprovada rapidamente como “lei cardinal”, só podendo ser alterada mediante nova maioria parlamentar de dois terços. Os limites das circunscrições foram radicalmente redesenhados. Académicos como Kim Lane Scheppele, da Universidade de Princeton, têm argumentado que o Executivo de Orbán utilizou o redimensionamento eleitoral para concentrar áreas com tendência para a oposição em circunscrições maiores, ao mesmo tempo que dividia áreas favoráveis ao Fidesz em vários círculos, ou seja, vários deputados em potencial, reduzindo o número de mandatos desfavoráveis ao partido no poder.

Outra alteração instituiu o chamado “círculo de compensação do vencedor”, uma especificidade húngara. No sistema anterior a Orbán, os votos atribuídos aos candidatos derrotados nas circunscrições eram somados aos das listas partidárias, numa tentativa de equilibrar o número de votos obtidos por cada partido com a sua representação parlamentar. Por exemplo, se o candidato do Partido X obtivesse 400 votos num determinado círculo e o candidato do Partido Y obtivesse 200 votos, os votos “perdidos” — ou seja, os 200 dados ao candidato derrotado do Partido Y — seriam acrescentados à lista partidária do Partido Y, como forma de repor a proporcionalidade. Este mecanismo de “compensação dos perdedores” é comum em sistemas eleitorais mistos, nos quais os eleitores votam separadamente em candidatos e em partidos.

Orbán introduziu a chamada “compensação dos vencedores”. Neste modelo, qualquer voto que não seja estritamente necessário para eleger um candidato num círculo eleitoral é considerado “perdido”, mesmo que tenha sido atribuído ao vencedor. Utilizando o exemplo acima, com um resultado de 400 contra 200 votos, os 200 votos seriam transferidos para a lista do Partido Y, como anteriormente, mas também 199 votos seriam transferidos para a lista do Partido X, uma vez que o seu candidato apenas precisava de 201 para vencer, tendo obtido 199 sufrágios excedentários.»

11/04/2026

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (81) - Adamastor, o supercarro português (II)

Outros portugueses no topo do mundo. Continuação de Adamastor, o supercarro português

O Adamastor, o supercarro português petit nom Furia, pretende circular na estrada e «acelerar a 300 km/h para as Arábias e correr nas 24h de Le Mans». Duvidando por regra da megalomania lusitana compensatória do complexo de Eduardo Lourenço e da viabilidade de produzir o protótipo com €17 milhões, questionei há dois anos o ChatGPT e a resposta confirmou o meu cepticismo

Como agora foi anunciada a fase de testes na estrada, voltei a questionar desta vez o Use.AI que apresentou as seguintes estimativas que não dissiparam o meu cepticismo: 
  • Le Mans-level homologation: realistically $25–30M+ total.
  • Chances of full recovery: modest (~20–40%) unless you achieve strong branding or external investment.
_______________
A sort of Disclaimer:
Por causa da minha obsessão, digamos assim, de desfazer estes equívocos das supostas realizações grandiosas dos nacionais, já fui aconselhado a consultar um psiquiatra e até me insultaram. No entanto, ninguém me deu a oportunidade de explicar que o meu propósito não é denegrir a alma lusitana, o meu propósito quixotesto, concedo, é contribuir modestamente para os naturais do Portugal dos Pequeninos se livraram da megalomania envergonhada do complexo de Eduardo Lourenço, trocando as fantasias irrrealistas e o pensamento milagroso pelos propósitos ambiciosos, mas realizáveis. Propósito que, admito, pode ser uma manifestação de megalomania envergonhada.