Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

20/05/2018

Pro memoria (377) - Cinquenta anos depois, no lugar dos soixante-huitards, os seus netos

La plage sous la pavée

Tudo começou no dia 2 de Maio de 1968 na universidade de Nanterre, num subúrbio de Paris, propagou-se no dia seguinte à Sorbonne no Quartier Latin, no coração de Paris. A partir daí incendiou a França durante todo o mês.

A causa próxima foi o descontentamento que lavrava nas universidades atulhadas de alunos, com anfiteatros com capacidade para algumas centenas cheios de milhares, um ensino massificado sem qualidade, intoxicado de política, focado nas humanidades, sociologias, sem qualquer selecção, onde todos os alunos com um bac (diploma do secundário) em qualquer área de qualquer lycée se podiam inscrever em qualquer curso de qualquer universidade - no limite um aluno de la Terminale littéraire - Langues anciennes poderia inscrever-se num curso de física - e onde a maioria dos alunos desistia após meia dúzia de ano sem aproveitamento. Tudo isto em contraste com as Grandes Écoles altamente elitistas onde eram formada a nomenclatura de la République - para dar um exemplo, os Énarques da École nationale d'administration (ENA) constituem desde sempre o núcleo duro da maior parte dos governos.

Cinquenta anos depois, é difícil encontrar diferenças significativas nas universidades franceses de 2018. O foco actual da luta estudantil contra as tímidas reformas de Macron é a égalité pour l'accès à l'université, ou seja, qualquer aluno com um qualquer bac poderá continuar inscrever-se em qualquer curso de qualquer universidade sem quaisquer condições de selecção e frequentá-la por quantos anos lhe aprouver. Ou seja, manter a receita para o insucesso por via de regra e para o desastre ocasional.

ACREDITE SE QUISER: Há vida para além de Alcochete?

Pesquisa de notícias com nove páginas por esta altura

E o primeiro prémio vai para...



Estranhamente, a notícia seguinte do JN passou quase despercebida

19/05/2018

Chávez & Chávez, Sucessores (65) - Se a Venezuela fosse uma democracia...

Outras obras do chávismo.

«Se a Venezuela fosse uma democracia, a tentativa do presidente Nicolás Maduro de ganhar a reeleição no domingo fracassaria. A comida está em falta. Os preços estão duplicam quase todos os  meses. Pelo menos um milhão de pessoas deixaram o país nos últimos quatro anos. No entanto, quase ninguém acha que o presidente perderá.» (Newsletter da Economist)

É por estas e por outras que a Venezuela não é uma democracia e Maduro é o sucessor do caudilho de uma ditadura comunista tropical.

18/05/2018

Incapazes de financiar Capazes

nesta crónica tinha aludido ao caso da associação feminista Capazes, animada pela filha do antigo secretário-geral do PS e actual presidente do Parlamento, que recebeu um subsídio de 73 mil euros para 18 criaturas, incluindo a incontornável Mariana Mortágua, fazerem conferências sobre a «igualdade de género» em quatro concelhos alentejanos.

Acabo de ler o artigo de opinião «Mulher incapaz de financiar Capazes» de Alexandra Almeida Ferreira a quem cumprimento pela coragem de afrontar o dogma da Cruzada do Género promovido pelo politicamente correcto.

À laia de teaser cito o último parágrafo:

«Gastar 74 mil euros num mau projeto que faz um mau serviço ao desígnio louvável da igualdade de género é insultuoso para todos os bons projetos que deixam de ser visados nos apoios públicos, provavelmente porque são menos “fancy”. Faz-nos questionar que critérios são usados para atribuir os milhões que chegam de Bruxelas, financiados parcialmente pelo orçamento nacional. O caso da Capazes relembra isso mesmo mas, acima de tudo, deve servir de mote para um escrutínio sério do que andamos a apoiar.»

17/05/2018

ESTADO DE SÍTIO: Portugal, um enorme Alcochete. Somos todos lagartos?

É todo um país que se revela nos títulos:

«Agressões em Alcochete. A indignação chega às altas figuras do Estado»

«Marcelo e Ferro avaliam condições de segurança para ir ao Jamor»

«Ferro Rodrigues pede “medidas sérias” e condena dirigentes totalitários»

«Bruno de Carvalho processa Ferro Rodrigues, critica Marcelo e recusa demitir-se»

«António Costa quer acelerar criação de autoridade nacional contra a violência no desporto»

Porque não fiquei surpreendido?


A Coreia do Norte suspendeu as conversações os Estados Unidos e ameaça cancelar a cimeira entre Trump e Kim prevista para 12 de Junho. O pretexto são os exercícios militares conjuntos da Coreia do Sul e dos Estados Unidos há muito anunciados, mas o verdadeiro motivo pode ser a “exigência unilateral” do desarmamento nuclear, exigência que ainda nem sequer foi discutida.

A única coisa surpreendente - e pouco, dadas as inúmeras reviravoltas da família Kim - foi o anúncio unilateral de renúncia ao desenvolvimento de armamento nuclear, mas isso faz parte do poker histórico dos Kim. Alguém acredita que Kim alienará a sua nomenclatura político-militar subtraindo-lhe o armamento nuclear?

16/05/2018

CASE STUDY: Trumpology (32) - Donald e seu némesis Mueller

Mais trumpologia.

«O conselheiro especial Robert Mueller, que actualmente lidera a investigação sobre uma possível intrusão russa durante a campanha presidencial de 2016, cresceu em circunstâncias que, em alguns aspectos, são comparáveis às de Donald Trump. Os dois homens nasceram com dois anos de diferença em cidades do Nordeste, de famílias abastadas que incentivavam a prática de desporto. Ambos se formaram em universidades da Ivy League, e ambos foram fortemente influenciados por seus pais. Mas as suas reacções à Guerra do Vietname são características dos homens que conhecemos hoje: depois de se formar em Princeton, em 1966, Mueller alistou-se nos fuzileiros navais. Foi baleado em combate e tinha uma reputação de devoção inabalável aos seus homens, facto que foi citado quando foi condecorado com a Estrela de Bronze. Trump fez cinco adiamentos e gabou-se de que seu “Vietname pessoal” envolvia evitar doenças sexualmente transmissíveis. “Os dois homens viveram suas vidas em busca de objectivos quase diametralmente opostos”, observa o escritor Garrett Graff. "Mueller uma vida de serviço público patrício, Trump uma vida de lucro privado."

O tempo de Mueller nos fuzileiros navais não é uma parte muito conhecida de sua vida, mas ele faz-lhe referência frequentemente como sendo um componente crucial de quem ele é hoje. Ele faz sua cama todos os dias, por exemplo - um pequeno indicador, escreveu Graff sobre Mueller. "Se você pensa nisso - faça isso", disse Mueller a Graff. "Eu sempre fiz minha cama e sempre me barbeei, mesmo no Vietname, na selva. Você deposita dinheiro no banco em termos de disciplina." E este ex-fuzileiro naval não está brincando com a disciplina quando se trata da investigação sobre a interferência da Rússia. Os jornalistas que o questionam sobre isso são atendidos pelo porta-voz de Mueller, Peter Carr: "Sem comentários". Disciplina, ordem e persistência são a espinha dorsal militar do trabalho actual de Mueller, e é exactamente assim que ele gosta.»

Newsletter de hoje da Wired

A circunstância de Trump ser objecto de ódio de estimação da esquerdalhada não o torna necessariamente objecto de devoção de um liberal.

Chávez & Chávez, Sucessores (64) - Solidário, diz o sucessor. Com quem? Com o Hamas ou com a IDF?

Outras obras do chávismo.

Ontem na Faixa de Gaza

«Venezuela solidária com palestinianos condena violência em Gaza»



Em Julho do ano passado em Caracas

Venezuela a ferro e fogo em domingo de eleições

15/05/2018

ESTADO DE SÍTIO: O nanny state na versão costista

«O Partido Socialista (PS) apresentou um projeto de lei que vai permitir que a grávida ou o casal possa decidir como quer ter os filhos. O objetivo é o de criar a figura de Plano de Nascimento e o projeto de lei deu entrada para discussão no Parlamento na passada sexta-feira, mas o debate ainda não foi agendado.

A mãe poderá decidir se quer anestesia epidural ou um parto natural, e também se quer métodos não farmacológicos que devem ser assegurados pelos serviços de saúde: massagens, música, uso de água ou bola de pilates.»  (Observador)

Se por um lado o Estado Sucial da geringonça é incompetente para preparar a prevenção e o combate aos incêndios florestais ou para evitar a degradação da capacidade de resposta do SNS (multiplicam-se os tempos de espera até para a simples consulta do médico de família) ou para evitar a burla de «oitocentos militares para ter óculos de sol Ray-Ban a custo zero, como se fossem graduados», por outro trata das massagens, música, uso de água ou bola de pilates. Percebe-se que os socialistas andem desorientados com a desfiliação do grande líder e sintam necessidade de lançar cortinas de fumaça. Ainda assim, que diabo, não conseguem melhor?

E, já agora, ainda tarda a regulação do método e das ajudas à concepção?

Faixa de Gaza, fábrica de mártires explorada pelo Hamas (2)

Continuação daqui.

«Perto da cidade de Gaza, uma voz num megafone exortou a multidão em frente: "Aproximem-se! Aproximem-se!"

O avanço foi em muitos casos liderada por mulheres vestidas de preto, agitando bandeiras palestinas e exortando os outros a seguirem-nas.

"Não queremos que apenas se aproximem uma ou duas pessoas", disse uma mulher idosa segurando uma mochila e uma bandeira. "Queremos um grande grupo".

A atmosfera tornou-se mais carregada depois das orações do meio-dia, quando mais de 1.000 homens se reuniram sob um grande toldo azul. Funcionários do Hamas e outras facções dirigiram-se aos crentes, instando-os ao combate e alegando — falsamente, com toda a evidência — que a barreira tinha sido quebrada e que os palestinos estavam a entrar em Israel.

Vários oradores reservaram suas palavras mais duras para os Estados Unidos e a decisão de mudar a embaixada para Jerusalém. "A América é o maior Satanás," disse um clérigo, com o dedo indicador no ar imitado por centenas de pessoas. "Agora estamos a caminho de Jerusalém com milhões de mártires. Podemos morrer, mas a Palestina viverá ." A multidão repete o canto.»

New York Times

Resultado: mais de 50 palestinos mortos e uns milhares de feridos.

Não estou disponível para tomar partido entre o obscurantismo fundamentalista, vitimizante e manipulatório, por um lado, e o uso arbitrário de força desproporcionada, por outro.

14/05/2018

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (135)

Outras avarias da geringonça.

A semana passada continuou o surto de ética republicana que contaminou o PS. As bactérias diligentes de serviço à fossa séptica socialista têm cada vez mais trabalho, não só com a operação Marquês como com os novos casos que vão surgindo ou os velhos que são desenterrados. Desde a pequena corrupção, como o caso de João Vasconcelos, antigo secretário de Estado da Indústria, que já se tinha demitido por causa das viagens da Galp e teria agora que demitir-se de novo, se ainda por lá andasse, devido a um caso com subsídios a uma empresa da mulher. Até à corrupção em média e grande escala relacionada com o Parque Escolar a que o Expresso deu a primeira página e o (Im)pertinências já há 9 anos dedicou atenção várias vezes, e está a ser investigado pela PJ e pode envolver quantias homéricas.

11/05/2018

CASE STUDY: Portugal na Carolina do Sul

Fonte: MarketWatch
Os países não se medem aos palmos, dizem os nacionais dos países que medem poucos palmos. Será por isso que um dos desportos nacionais mais populares é a procura de portugueses no topo do mundo?

COMO VÃO DESCALÇAR A BOTA (17): O Excel aceita tudo

O Ronaldo das Finanças a ir para além da troika da CE
Quanto mais longínquo é o futuro mais fácil é preenchê-lo com fantasia. Por agora, no final do 1.º trimestre, a dívida pública atingiu 124,9% do PIB tendo aumentado 0,4% em relação 1.º trimestre de 2017. Em 2022 ou bem a coisa lá se vai aguentando puxada pela conjuntura internacional, com o credo na boca e metendo o lixo debaixo do tapete, na melhor hipótese, ou bem o diabo já chegou e eles entregam a coisa ao sucessor do Rio, dizem que a culpa foi das agências de rating, do neoliberalismo, do sucessor de Frau Angela, e fazem manifs de indignação.

ARTIGO DEFUNTO: Jornalismo de reverência

«O que Marcelo quer é esterilizar os jovens trans»

Júlia, trans dirigente do BE e codirectora da Acção Pela Identidade
e Alice, activista trans membro dos colectivos Panteras Cor de Rosa e Transmissão,
entrevistadas pelo semanário de reverência a causas várias
Um exercício de agitprop de esquerdismo infantil onde se atribuem propósitos absurdos ao comentador-presidente que, coitado dele, só pretende tempo de antena, ser popular e um segundo mandato (se não houver incêndios com mortos).

Pro memoria (376) - Não, não começou há três anos. Começou no princípio, quando José Sócrates chegou ao governo de Guterres

«Peço desculpa, mas o atraso não é de três anos e qualquer coisa. A cegueira é muito mais antiga, muito mais teimosa e muito mais cúmplice. Tão antiga e tão teimosa que, anos e anos a fio, sempre que surgia um novo caso, o que se ouvia era um coro sobre “campanhas negras” dirigidas contra “o político mais escrutinado da história da nossa democracia”. Sim, eu não me esqueço.»

«O pior cego é o que não quer ver», José Manuel Fernandes no Observador

Desde a fundação, o (Im)pertinências dedicou atenção a José Sócrates. O primeiro post apareceu aqui há 15 anos e a partir da posse do seu primeiro governo a criatura foi alvo de uma atenção constante em centenas de posts (leia-se este, por exemplo) com o escrutínio de todos os casos e trapalhadas em que esteve envolvido. Fizemos a nossa pequeníssima parte. A maioria dos portugueses dividiu-se entre os seus cúmplices, os seus bajuladores, os acagaçados ou fascinados pelo seu poder, pertinácia e falta de escrúpulos e a imensa legião amorfa concentrada em viver as suas vidinhas.

10/05/2018

Curtas e grossas (50) - A conversa fiada do mastermind Costa

«A estratégia de higienização do Partido Socialista em relação a José Sócrates, concretizada sob a orientação política do mastermind António Costa é, no essencial, conversa fiada. Pode aparentar uma dimensão de rutura definitiva pelo simbolismo invulgar da demissão do ex-primeiro ministro do partido, mas em tudo resto mantém uma insanável convergência, nomeadamente no pessoal político em funções e na forma de fazer política. Bem podem recrudescer vergonhas, assomos de ética nunca revelados em vários casos ocorridos desde 2015 ou até inacreditáveis arrependimentos tardios, depois de convenientes usufrutos de roteiros de luxo acima das possibilidades.»

Excerto (esta é a parte curta) de «No essencial, é conversa fiada», António Galamba, um militante socialista desalinhado, no jornal i

Pro memoria (375) - A propósito das condecorações do animal feroz e de outros arguidos

A propósito desta evocação de Cavaco não ter condecorado Sócrates, lembremos alguns factos à luz da sua queda em desgraça:
Uma vez que estamos no modo evocação, evoquemos que vários presidentes condecoraram seis arguidos do Operação Marquês, a saber: Eanes (Granadeiro, Miguel Horta e Costa), Sampaio (Sócrates, Vara) , Cavaco (Bataglia, Bava). De onde podemos concluir do mérito dos condecorados, do critério e discernimento dos presidentes e do valor das condecorações.

E ainda no modo evocação, evoquemos o conde que cora ao ser condecorado do Inventário de Alexandre O'Neill no Reino da Dinamarca, que teria sido em belíssimo exemplo para, entre outros, os condecorados da Operação Marquês:

Um dente douro
a rir dos panfletos
Um marido afinal ignorante
Dois corvos mesmo muito pretos
Um polícia que diz que garante
A costureira muito desgraçada
Uma máquina infernal de fazer fumo
Um professor que não sabe quase nada
Um colossalmente bom aluno
Um revolver
já desiludido
Uma criança doida de alegria
Um imenso tempo perdido
Um adepto da simetria
Um conde que
cora ao ser condecorado
Um homem que ri de tristeza
Um amante perdido encontrado
Um gafanhoto chamado surpresa
O desertor
cantando no coreto
Um malandrão que vem pe-ante-pé
Um senhor vestidíssimo de preto
Um organista que perde a fé
Um sujeito
enganando os amorosos
Um cachimbo cantando a marselhesa
Dois detidos de fato perigosos
Um instantinho de beleza
Um octogenário
divertido
Um menino colecionando estampas
Um congressista que diz Eu não prossigo
Uma velha que morre a páginas tantas

09/05/2018

DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (54)

Outras preces.

«Voltasse a correr mal o que correu mal no ano passado, nos anos que vão até ao fim do meu mandato, isso seria, só por si, impeditivo de uma recandidatura» disse Marcelo Rebelo de Sousa em entrevista ao Público.

Antes que pensem que estou a fazer figas para que as florestas voltem a arder para não termos outros cinco anos de TV Marcelo, esclareço que leio estas declarações do comentador-presidente com o desconto devido a quem sofre de verborreia incurável ou, para citar Passos Coelho, a um «catavento de opiniões mediáticas».

Recordo as suas promessas de não se candidatar a presidente do PSD, a não ser que se Cristo voltasse à terra, poucos dias antes de apresentar a sua candidatura sem Cristo se dignar aparecer-nos.