Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

24/02/2026

Crónica da passagem de um governo (38b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 38a)

[Os três itens seguintes respeitam mais à oposição do que ao governo e estão aqui para me poupar a ressuscitação do Semanário de Bordo da Nau Catrineta comandada pelo Dr. Costa no caminho para o socialismo]

O hidrogénio verde como exercício de pensamento mágico

Relembrando, há uns anos o Dr. Costa e o Dr. Galamba subsidiaram com os milhões do PRR a Fusion Fuel e o Dr. Costa declarou com pompa que a produção de hidrogénio verde iria ser a nova "reindustrialização". Três anos depois, a nova "reindustrialização" consistiu na falência da Fusion Fuel com dívidas de 24 milhões e 5,8 milhões de subsídios torrados no final do ano passado, a que se seguiu a semana passada a desistência da Bondalti, líder do projecto H2Driven.

There is no such thing as public money; there is only taxpayers' money

No seu esforço para se manter relevante, o Dr. Carneiro quebra o seu silêncio de 10 anos sobre a governação e diz que o governo está a falhar (tem razão) e apresenta ao país um conjunto de medidas generosas como se fossem dádivas da Divina Providência que, como habitualmente, consistem em sacar dinheiro a uns portugueses para oferecer a outros, ou, como se diz no jargão socialista, em ajudas com dinheiro público

O PowerPoint do Dr. Costa e do Dr. Pedro Marques

Em complemento do que escrevi a semana passada sobre o Ferrovia 2020 2027 Um dia, em que citei o Tribunal de Contas que concluiu que, decorridos 10 anos do seu lançamento, o grau de realização física global está em 65%, acrescento que o mesmo TdC esclareceu que o planeamento de um projecto de dezenas de milhões de euros estava todo num PowerPoint.

Pescadinha de cauda nos lábios

O Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (FEFSS) tem como propósito ficcional garantir a sustentabilidade financeira do Sistema da Segurança Social. Ficcional porque o saldo do Fundo no final do ano passado era de cerca de 41 mil milhões de euros o que equivale a menos de dois anos de pensões e a cerca de 5% do Passivo Implícito, ou seja, do montante estimado das responsabilidades futuras por pensões.

mais liberdade

Se o FEFSS fosse um fundo privado, estaria obrigado a ter activos que cobrissem as suas responsabilidades, algo como uns 800 mil milhões de euros ou quase três vezes o montante do PIB actual. Como o FEFSS é um fundo público não só apenas tem cobertos cerca de 5% das responsabilidades como três quartos dos activos subjacentes são dívida pública, o que, se o fundo fosse privado, equivaleria três quartos dos activos serem representados por obrigações emitidas pela entidade gestora. Considerem-se avisados e avisem os vossos filhos.

23/02/2026

Crónica da passagem de um governo (38a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Oremos para que o Dr. Neves não tenha sido escolhido pelo princípio de Peter nem venha a ser mais uma vítima do efeito de halo

O Dr. Neves foi escolhido para substituir no MAI a Dr.ª Maria Lúcia Amaral. Os 30 anos que esteve pela Judite, onde parece ter tido um bom desempenho (escrevo parece porque a imagem pública das figuras públicas é muitas vezes soprada aos ouvidos dos jornalistas de causas pelos Public Relations), dão-lhe a priori uma melhor preparação para o cargo do que a longa e bem-sucedida carreira docente e os cargos anteriores de juíza do Tribunal Constitucional e de Provedora de Justiça da sua antecessora.

Nesta altura já a presunção de inocência começa a ser substituída pela presunção de culpa

Não é impossível que a escolha da mulher do chefe de gabinete do ministro das Infraestruturas para administradora dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde tenha sido a melhor solução ou, vá lá, uma das melhores escolhas. Contudo, dado o historial dos governos desde Dona Maria II e o deste em particular, a Dr.ª Ana Paula Martins, o Dr. Pinto Luz e o seu chefe de gabinete têm o ónus da prova.

Oremos para que o choque fiscal estimule a oferta de habitação

Com os votos do Chega e do IL, irá ser aprovada a redução de IRS para rendas até €2300 e a redução do IVA para obras até € 660.980 (nestas coisas, o rigor é de rigor). Mal não fará, como diz a Bíblia (Marcos 16:18). Que seja suficiente com a burocracia que impregna a administração pública, isso é outra coisa.

O socialismo é uma atitude

Segundo o semanário de reverência o Dr. Carneiro, que está a preparar a sua recandidatura à liderança do PS, incluirá na sua moção, além das platitudes em voga ( “Sociedade 5.0”), colocar o salário médio nacional ao nível da UE em dez anos. O Dr. Carneiro que estudou economia na Mouse School of Economics propõe-se elevar aos píncaros o salário médio, que nesta altura é o 10.º mais baixo da UE, sem nos esclarecer como irá fazer isso com uma produtividade por pessoa empregada que nesta altura é a 6.ª mais baixa.

Canários na mina de carvão

É certo que a Posição de investimento internacional de Portugal é um indicador crítico para medir o risco da dívida e tem nesta altura melhor rácio das últimas décadas, como se pode ver no gráfico.

Banco de Portugal

Ainda assim, com a volatilidade que a administração trumpiana injecta na economia internacional e com os efeitos devastadores para as PME (que representam quase 2/3 do VAB português) resultantes da passagem do comboio de tempestades, devemos dedicar mais atenção ao aumento de 2,5 pontos base nos yields das últimas emissões da dívida.

(Continua)

22/02/2026

DIÁRIO DE BORDO: Elegeram-no? Então aguentem outros cinco anos de TV Marcelo (24) - Não correu bem

Então aguentem outros cinco anos, uma espécie de sequência indesejada da série Outras preces (não escutadas).

«Marcelo coroado 'rei amor' na Costa do Marfim»

Durante 10 longos anos, dediquei à presidência do Dr. Marcelo cento e trinta e tantos posts, dos quais mais de cem no primeiro mandato, cada vez mais espaçados no tempo, porque a minha paciência gastava-se aceleradamente, incapaz de acompanhar a agitação febril do sujeito. Agora que se aproxima o termo do segundo mandato, achei que deveria publicar uma espécie de epitáfio presidencial. Porém, faltou-me a inspiração e a pachorra e resolvi preguiçosamente citar um trecho da peça "Por que é que Marcelo falhou de forma tão espectacular?" que Miguel Pinheiro escreveu no Observador

«... Marcelo achou que tinha descoberto um antídoto: iria combater o populismo “do mal” com o populismo “do bem”. O plano era simples: o novo Presidente só precisava de dar um beijinho ou um abraço a cada português. Eternamente obcecado com as suas taxas de aprovação, Marcelo não se comparava a outros políticos, mas às duas maiores celebridades do país, Cristina Ferreira e Ricardo Araújo Pereira. Se fosse suficientemente amado pelos portugueses, os eleitores não precisariam de se refugiar na direita radical. Não correu bem: em legislativas, o Chega somou 60 deputados; em presidenciais, André Ventura chegou à segunda volta.»

19/02/2026

Senile leftism, the woke right and the woke left are more alike than you think.

Fonte                                                                              Fonte

As you can see in the diagram on the left, the older the leftists, the more they appreciate the demonstrations.

The diagram on the right shows that ​​the old left woke is in decline, and the new right woke is on the rise. So they are different, yet both are similar in their difficulty in dealing with differences and in their attempts to silence dissenting voices.

17/02/2026

Crónica da passagem de um governo (37b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 37a)

Os portugueses «vão ter razões para confiar no SNS»

Seria estúpido atribuir ao governo do Dr. Montenegro responsabilidades pelo essencial dos problemas do SNS, como têm feito, explícita ou implicitamente, a oposição e a comentadoria afecta. O governo é apenas responsável pela falta de medidas ou por medidas erradas para resolver esses problemas, o que não é pouco.

Um indício dessa falta ou inadequação de medidas são os montantes crescentes da despesa com a saúde, sempre insuficientemente financiadas, como revela um balanço provisório de 2025 da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) que, apesar de um aumento dos “rendimentos operacionais”, ou seja verbas atribuídas pelo OE 2025 aos hospitais, mostra prejuízos de 2,7 mil milhões com vários indicadores a continuarem negativos, como um decréscimo das intervenções cirúrgicas, do número de partos e das urgências e de um aumento das listas de espera de consultas e cirurgias, não obstante o aumento do número de médicos e enfermeiros (fonte: relatório Desempenho do SNS Dezembro 2025).

Quem também se queixa por o número de doentes transferidos para o sector privado terem vindo a diminuir, apesar das listas de espera estarem a aumentar, é a Associação Portuguesa de Hospitalização Privada (APHP), cujo presidente afirma que «as listas de espera são tidas como um instrumento de remuneração dos profissionais do SNS», o que parece ser verdade.

O Dr. Montenegro deveria agradecer ao Dr. Carneiro

Sob a pressão interna da coligação de viúvos do Eng. Sócrates e do Dr. Costa com o berloquismo e o geringoncismo socialistas, o Dr. Carneiro faz apelos ao recém-eleito PR (o Tozé, odiado por essa coligação) para empurrar o Dr. Montenegro a negociar com o PS. Empurrão que, se for atendido, sugere que o Tozé não tem afinal as qualidades de independência que o cargo requer e, se não for, sugere que o Dr. Carneiro é um líder fraco expondo-o à coligação.

Para resolver uma oferta insuficiente aumenta-se a procura

A Mouse School of Economics, cujas recomendações inspiraram a governação socialista, foi substituída pela São Caetano School of Economics cujos ensinamentos nos dizem que para responder uma oferta insuficiente se deve aumentar a procura. E foi inspirado nesses ensinamentos que o governo lançou o Programa Crédito Habitação Jovem do qual resultou um considerável aumento dos empréstimos para compra de habitação pelo escalão etário 18 e 35 anos que no ano passado representaram 60% dos 39,3 mil milhões de novos empréstimos com as previsíveis consequências no nível de preços.

Canários na mina de carvão

Mais alguns pios dos canários: se por um lado o emprego aumentou o ano passado (ver A economia do pastel de nata tem o melhor desempenho este ano), por outro, a produtividade do trabalho estima-se que terá diminuído o ano passado 1,3%, as exportações de bens aumentaram 0,5% e as importações subiram 4%, de onde o défice da balança comercial aumentou 3,8 mil milhões.
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BlogoEscola. Princípio de Peter vs. Efeito de Halo

[Esta nova secção propõe-se mitigar o risco de infecção das mentes dos visitantes deste blog pelo vírus da tendência para o bitaite de alguns comentários.]

O efeito de halo no domínio da psicologia, que citei no post anterior, foi enunciado em 1920 pelo psicólogo Edward Lee Thorndike para designar o viés cognitivo que leva as pessoas a projectar uma imagem de outra pessoa baseada nas percepções das suas performances num domínio para outros domínios. Por exemplo, concluir-se que a Dr.ª Maria Lúcia Amaral sendo uma jurista emérita deveria ser uma ministra competente.

Diferentemente, o princípio de Peter no domínio da gestão foi enunciado cinco décadas depois em 1969 por Laurence J. Peter e formalizou a observação de que os empregados são promovidos na hierarquia de uma organização com base no seu sucesso em cargos anteriores até atingirem um nível de incompetência. Por exemplo, um excelente escriturário do MAI ser sucessivamente promovido até director dos Serviços de Gestão Orçamental e Financeira do MAI.