Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

26/06/2017

Dúvidas (201) - Quem é o Sebastião Pereira? Tem carteira profissional?

Pergunta patrioticamente o Jornal de Notícias 

E eu pergunto mesmo mais: quem é Javier Martín que escreve no El País?; quem é Aitor Hernández-Morales que escreve no El Espanõl? Têm carteira profissional?

Não seria preciso esta manifestação de estupidez corporativa para ficarmos a saber que um bom número de gente empregada nos jornais, além de estar atrelada à geringonça, confirmado com o que escreveram sobre o incêndio de Pedrógão Grande, sofre disso mesmo: estupidez corporativa. Tenham vergonha e não façam de Portugal uma espécie de Venezuela ou Turquia, como escreveu a Silvia Román que o Sindicato dos Jornalistas despudoradamente cita.

25/06/2017

Dúvidas (200) - E os riscos de depender da banca portuguesa?

Na 5.ª coluna sua coluna da página 5 do Caderno de Economia do semanário de reverência, Nicolau Santos, o admirador de Baptista da Silva, nosso pastorinho favorito da economia dos amanhãs que cantam e promotor das doutrinas da Mouse School of Economics, publica um artigo com o sonoro título «Riscos de depender da banca espanhola», vituperando a presença crescente dos bancos espanhóis com o fortis ratio «durante a crise em Portugal (de 2002) os bancos espanhóis deixaram de comprar as emissões de dívida da República Portuguesa como cortaram o crédito às empresas públicas».

Considerando que resgate de 2011 pela troika se tornou indispensável essencialmente pelo crescimento da dívida pública e pela dívida das empresas públicas (nem toda ela contabilizada como dívida pública), crescimento entusiasticamente suportado pelos bancos portugueses, não seria mais apropriado a contrario sensu escrever um artigo com o título «Riscos de depender da banca portuguesa»?

ARTIGO DEFUNTO: Se quisermos saber o que se passou no incêndio de Pedrógão Grande é melhor catar na imprensa portuguesa o que escapou às malhas

Continuação daquidali e dacolá.

Por entre as frestas do controlo quase sem falhas dos mídia ocupados pelo jornalismo acolitado à geringonça, escapam algumas informações divergentes da versão oficial. Leia-se este artigo do Expresso Diário de 23-06, também publicado na última página do caderno principal da versão em papel, que contraria frontalmente a versão oficial sobre as origens do incêndio.

«Daniel foi ouvindo em silêncio, ao longo dos dias, as explicações para o incêndio que atingiu Pedrógão Grande. Logo no domingo, António Costa foi o primeiro a falar de trovoada seca, após duas horas de reunião no Comando Nacional de Operações de Socorro da Autoridade Nacional da Proteção Civil, mas afirmou que ainda era "prematuro tirar ilações". Depois surgiu a declaração do diretor nacional da Polícia Judiciária, perentória: "A PJ, em perfeita articulação com a GNR, conseguiu determinar a origem do incêndio e tudo aponta muito claramente para que sejam causas naturais. Inclusivamente encontrámos a árvore que foi atingida por um raio", disse Almeida Rodrigues. Seguiram-se dias de confirmações e desmentidos: os populares a dizer que não houve trovoada, os bombeiros a falar de mão criminosa, o Laboratório Científico da PJ a voltar ao terreno, o IPMA a confinrar os trovões, a recuar depois para ponderação, a afirmar outra vez que houve raios no céu, ali, em Escales Fundeiros, aldeia de Pedrógão Grande com pouco mais de 40 habitantes, onde tudo começou.

24/06/2017

CASE STUDY: O império de Bezos é muito mais do que a Amazon

Fonte: MarketWatch
Esquecendo as outras compras menores da Amazon e os investimentos das duas holdings pessoais (JB Investments e Bezos Expeditions) ficam as seguintes aquisições mais importantes:

ARTIGO DEFUNTO: Se quisermos saber o que se passou no incêndio de Pedrógão Grande (e nos outros) é melhor ler a imprensa espanhola

Continuação daqui e dali.

«El cártel español del fuego amañó contratos de extinción de incendios en Portugal

El gobierno luso pagó hasta tres veces más de lo que realmente costaba el servicio contratado.

Según la declaración de los propios investigados, sus años de mayor actividad en Portugal fueron 2006 y 2007, pero el sumario del caso investiga adjudicaciones en el país vecino hasta 2015, año en el que se lanza el operativo y se dictan las primeras detenciones.»

(El Español)

22/06/2017

Por vezes o declínio é mesmo o declínio, dizem eles. E o que diremos nós?

Não é só a nossa classe política que se vem degradando. Leia-se aqui o que escreve o jornalismo inglês de referência (não, não é de reverência) sobre a classe política deles e em particular sobre os seus líderes:

«IT HAS been impossible to watch the general election without being haunted by a single question-cum-exclamation: surely Britain can do better than this? The best performer in the campaign, Jeremy Corbyn, the Labour leader, is a 68-year-old crypto-communist who has never run anything except his own mouth. Theresa May, the Tory leader, tried to make the election all about herself and then demonstrated that there wasn’t much of a self to make it about. As for Tim Farron, the Liberal Democrats’ leader, he looked more like a schoolboy playing the part of a politician in an end-of-term play than a potential prime minister.

(...)

Yet sometimes decline really is decline. Both Mrs May and Mr Corbyn want to extend the already considerable powers of the government, Mr Corbyn massively so. And both promise to lead Britain out of the European Union, a fiendishly complicated operation. Unfortunately, both candidates have demonstrated that they are the flawed captains of flawed teams. Mrs May broke the first rule of politics: don’t kick your most faithful voters in the teeth for no reason. Mr Corbyn has stood out in part because his team is so mediocre. Diane Abbott, his shadow home secretary, stepped down the day before the election citing ill health, after a succession of disastrous interviews.»

ARTIGO DEFUNTO: Se quisermos saber o que se passou no incêndio de Pedrógão Grande é melhor ler a imprensa espanhola (continuação)

Continuando a demonstração definitiva de como os mídia portugueses estão controlados pelos partidos da geringonça e a maioria dos jornalistas portugueses estão ao seu serviço e aproveitando os links deixados por um leitor neste comentário:


Enquanto omitem os factos que mostram a descoordenação total na resposta do governo ao incêndio, vão enchendo o vazio com as tretas de Marcelo que, à boa maneira de jurista, faz como aquele que, tendo como a única ferramenta um martelo, imagina todos os problemas como pregos, e exorta os órgãos legislativos a ejacularem com urgência resmas de leis para resolver os resultados das más políticas florestais que têm um século e os problemas de descoordenação do governo da geringonça na utilização dos meios, misturando tudo isso num caldo de afectos equívocos engrossado pelo nevoeiro informativo.

E o que dizer do parlamento que numa hora aprovou cinco propostas para reforma florestal que estavam na gaveta há dois meses? Com gente desta só é possível ter um simulacro de democracia, uma democracia asmática.

21/06/2017

Dúvidas (199) - Para que serve a política?

«Os oligarcas não querem que se “faça política” com a tragédia. Mas se não “fizermos política” com a morte evitável de 64 pessoas, para que serve a política? Só para festejar vitórias na Eurovisão?»

Rui Ramos no Observador

ARTIGO DEFUNTO: Se quisermos saber o que se passou no incêndio de Pedrógão Grande é melhor ler a imprensa espanhola

É a demonstração definitiva de como os mídia portugueses estão controlados pelos partidos da geringonça e a maioria dos jornalistas portugueses estão ao seu serviço. Enquanto isso Costa passeia a sua virgindade nos mídia e diz que o problema dos incêndios florestais levará uma década ou mais para resolver. Ninguém lhe pergunta o que ele fez há mais de uma década, enquanto foi entre 2005 e 2007 precisamente ministro de Estado e da Administração Interna de Sócrates, nem se teria sido preciso uma década para evitar a completa descoordenação dos meios existentes ao dispor do governo.

«Enquanto continua o trabalho de extinção, crescente indignação contra as autoridades para notícias que revelam falhas de coordenação graves  nas primeiras horas do fogo. Erros, que de acordo com sobreviventes, pode ter matado dezenas de pessoas.

Para a "rodovia da morte"

Maria de Fátima estava retornando de Coimbra no sábado quando soube que um incêndio afetou a área onde seu pai, um residente de Pedrógão Grande vive. "Quando liguei para me disse que era verdade que o fogo tinha cercado-los completamente e eles estavam em perigo , " ele diz Fátima disse à imprensa portuguesa. "Eu tenho que chegar à cidade e encontrar meu pai, mas quando nós tentamos para deixar a área e tomar o IC8 [a estrada que passa perto da área], a Guarda Nacional Republicana (GNR) ter cortado".

De acordo com Fátima, quando perguntou aos agentes da GNR, por onde deveriam sair da área, disseram-lhe que a Estrada Nacional 236 estava livre de perigo. Ao passar por esta via, no entanto, ela encontrou um cenário apocalíptico.

"A fumaça era tão densa que não se via absolutamente nada, tudo o que ficou para fora eram as chamas por entre as árvores", lembra Fátima. "Nós batemos em algo que estava no meio da estrada, e de repente um carro atrás colidiu com o nosso, e nosso pegou logo fogo. Queríamos sair do carro, mas também o calor era tão intenso que não sabíamos se seríamos capazes de sobreviver lá fora. "

(...)

"Eu não quero ver um político andando por aí, dando condolências. Eles deveriam ter estado aqui quando precisamos deles, eles e a GNR, eu deveria ter cortado as estradas e alertado sobre o que tinha de ser feito. Eles poderiam ter salvo muitas pessoas ...".

Por enquanto, a GNR não esclarece se os agentes espalhados pela na área no sábado cometeram o erro grave de que são acusados, mas o corpo policial prometeu abrir uma investigação para determinar o que falhou nos momentos cruciais.

Falta de informação

Entre os testemunhos de sobreviventes outra queixa frequente é a falta de informação por parte das autoridades, e o pânico que não viveu por não se saber se era necessário evacuar a área ou, caso contrário, esperar por ajuda.»

Excerto de «Los supervivientes del incendio acusan a las autoridades: “Nos arrastraron hacia la muerte”» de El Español

NÓS VISTOS POR ELES: A inoperância na luta contra os incêndios


Para contrariar a nossa tendência congénita para olhar para o umbigo e para a oscilação bipolar entre vermo-nos como o povo eleito e sentirmo-nos uns desgraçadinhos, deveríamos obrigar-nos a ler todos os dias ao pequeno-almoço uma avaliação das nossas obras feita pela estranja.

Para o pequeno-almoço de hoje aqui vai um excerto em portinhol do artigo de opinião com o elucidativo título «La inoperancia de Portugal en la lucha contra los incendios» que o jornal El Mundo publicou sobre os incêndios de Pedrógão Grande:

«Ontem, Portugal foi atingido por um terrível incêndio que causou mais de 60 mortes. É a tragédia com mais mortos em um único fogo em quase um quarto de século no mundo, um facto que revela as dimensões de um evento que revelou a ineficácia e a alarmante falta de recursos do Estado Português para lidar com incêndios florestais. Um flagelo que assola todos os anos com especial virulência o país vizinho, sem que as medidas proporcionadas sejam tomadas para combatê-lo.

A Polícia judiciária portuguesa acredita que uma tempestade eléctrica é a causa mais provável do incêndio, cuja rápida disseminação foi devida a "condições climáticas desfavoráveis", especialmente pela combinação de altas temperaturas e ventos fortes. Dezenas de moradores da região que circunda o município de Pedrógão Grande ficaram presos em um inferno de chamas e muitos deles pereceram queimados em veículos em que estavam tentando fugir. Outros morreram carbonizados em plena rua. As autoridades portuguesas, completamente ultrapassadas, mobilizam mais de 700 efectivos. Um dispositivo claramente insuficiente para controlar, conter e, finalmente, para apagar um incêndio de proporções tão devastadoras.

Não é aceitável que, no século XXI, num país da União Europeia um incêndio florestal possa causar um número tão elevado de mortes. Especialmente tendo em conta a história dos últimos anos. O que mostra este terrível episódio é que, hoje, Portugal não está preparado para lidar com o fogo. Nem tem realizado trabalho preventivo adequado, nem sequer dispõe de um dispositivo ideal para controlar, conter e extinguir incêndios, o que revela não só a ineficácia de suas equipes, mas uma preocupante ausência de meios. A crise e o resgate reduziram significativamente a capacidade de investimento do executivo Português. Mas isto não é razão para ignorar uma ameaça tão séria e preocupante como a do fogo, cujas consequências dramáticas excedem os danos ambientais.»

20/06/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (88)

Outras avarias da geringonça.

O título desta crónica pode induzir o leitor a pensar que aqui em casa se prevê a avaria iminente da geringonça. O que prevejo não é a iminência, é a irreparabilidade que pode levar ainda algum tempo, dependendo de várias circunstâncias. Contra-intuitivamente, uma das circunstâncias é o aumento das intenções de voto no PS que se arrisca a pôr nervosos os comunistas, fazendo-os sentir-se supérfluos, e demasiado excitados os berloquistas. Um bom indicador do nervoso comunista é o aumento de 36% até Abril do número de greves em relação à paz nupcial do mesmo período do ano passado.

Seja como for, como ainda há dias aqui referi, os 44% de intenções de voto nas últimas sondagens devem fazer-nos lembrar os 41% do PS de José Sócrates em Março de 2010 a um ano do resgate.

DIÁRIO DE BORDO: já dei que chegue para o peditório dos incêndios (mas não resisto a dar mais uns trocos)

Ao contrário do que dizem alguns maledicentes, a calamidade resultante do incêndio de Pedrógão Grande não se deve ao governo, nem aos Kamov parados comprados com a ajuda do amigo Lacerda Machado, nem ao engavetamento do Plano Nacional contra Incêndios, nem à ineficácia da protecção civil. Deve-se à trovoada seca e ao aquecimento global. O que devemos ao governo é a prosperidade que atravessamos, prosperidade que os mesmos malecidentes atribuem ao turismo e à conjuntura internacional (para já não falar ao governo anterior).

A sério: é claro que este governo tem culpas no cartório e tem uma enorme falta de vergonha, ajudada pela falta de discernimento dos eleitores, quando procura ter créditos do que não fez e foge com o rabo à seringa do que tem responsabilidades. Contudo, o ponto a que chegámos é o resultado de mais de um século de políticas erradas e incúria. Desde pelo menos 04/09/2005 que venho escrevendo sobre este tema - para não maçar os leitores remeto apenas para o último desses posts - e não vou repetir-me.

Tal como uma dívida de 130% do PIB demoraria décadas a atingir a sustentabilidade e não se paga com afectos, beijinhos, abraços e selfies de Marcelo, nem com as manobras e prestidigitação de Costa, também os incêndios florestais não se resolverão com as mesmas tretas - aliás, parte dos incêndios florestais nunca terá solução e, não, não apenas pelas mudanças climáticas.

Correndo o risco de ser amaldiçoado pelo politicamente correcto e a hipocrisia dominante, faço um prognóstico com elevada probabilidade de se concretizar: a uns dias ou semanas de luto, a donativos de gente generosa e bem intencionada e outra nem por isso, a concertos de solidariedade, seguir-se-ão uns meses ou anos de masturbação teorética, serão produzidas mais ejaculações legislativas, serão criados mais organismos onde poderão ser alojados mais ASPON (assessores de porra nenhuma, como dizem os brasileiros) da família César ou de outras, serão adjudicados mais uns contratos com a assessoria de lacerdas e uns anos e vários milhões de euros depois estaremos mais ou menos no mesmo sítio.