Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

27/01/2020

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Ou, melhor, tiraram-me

Mal acabei de ler o artigo de opinião "Um terço da Suécia" de Sérgio Sousa Pinto no Expresso de sábado (sem link disponível)  resolvi digitalizá-lo com reconhecimento de caracteres para o publicar hoje como texto aqui no (Im)pertinências, e não sábado quando o digitalizei - por regra difiro a publicação do publicado.  Poderia subscrever quase tudo e vindo de um socialista (com um passado de causas fracturantes é certo) mereceria uma transcrição completa.

Porém, se Sousa Pinto me tirou palavras da boca, Bernardo Blanco de O Insurgente tirou-me o post do blog porque resolveu ele próprio, e bem, publicá-lo hoje aqui. Ainda assim, não resisto a citar a parte mais lúcida e crítica do socialismo provinciano dominante no Portugal dos Pequeninos. Aqui vai à guisa de teaser:

«Ora, em 2020 ainda se encontram socialistas que falam do sector privado como sector dos “negócios” com um esgar de repulsa. O sector público, instituído em nome do bem geral, é ontologicamente superior ao mundo dos negócios, da cobiça, da acumulação e da exploração. Nesta mundivisão, o atraso português deixa de existir e é substituído pelo atraso “nos direitos” dos portugueses face aos outros povos com os quais (felizmente) persistimos em comparar-nos. A diferença é toda. O progresso nos “direitos”, espalhafatosamente materializado em conquistas cada vez mais simbólicas ou pífias, num cortejo de bombos e cantigas de embalar, carece de recursos, a obter, forçosamente, “onde se estão a acumular”.

As classes médias cada vez gozam de mais “direitos” e subsidiações, para (alegadamente) acederem a bens e serviços que noutros países pagam tranquilamente do seu bolso, porque a punção fiscal é menos esmagadora. A fantasia dos “direitos” domina a boca de cena, e a política — da extrema-esquerda à extrema-direita — é uma grande feira de “direitos”, propostos por demagogos de todas as persuasões. Cada vez mais distante está o problema do atraso português, “the sick man of Europe” da Europa Ocidental, agora disfarçado pela chegada à União Europeia de países muito mais pobres e muito mais martirizados pela história

Crónica da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa (16)

Avarias da geringonça e do país seguidas de asfixias

Isabel? Isabel quê? Não conhecemos

«Permissão para entrar no BCP foi dada pelo primeiro-ministro António Costa, numa reunião com a empresária» (fonte), em troca, recordemos, da saída do BPI imposta pelo BCE.

Quem também mal deve conhecer a Princesa é o Dr. Teixeira dos Santos em cujo currículo se conta: (1) a nomeação para a Caixa da dupla de amigos e factótuns do Eng. Sócrates, Caixa que financiou a compra de acções do BCP e factótuns que a seguir para lá se trasladaram; (2) ter sido em 2008 o pior dos 19 ministros das Finanças da Zona Euro; (3) ter batido os recordes do défice orçamental e do défice de memória; (4) ter nacionalizado o BPN que era para não ter custado nada e o nada já vai em vários milhares de milhões; (5) por uma improbabilíssima coincidência, é hoje o presidente do EuroBic que comprou a parte sobrante do BPN, depois de expurgado dos activos tóxicos doados aos contribuintes; e (6) o EuroBic, por outra improbabilíssima coincidência, serviu para a Princesa movimentar as suas poupanças que já vêm do tempo em que vendia ovos. Tudo isso explica que o BdP não esteja a reavaliar a idoneidade do Dr. Teixeira dos Santos, com toda a razão porque o seu presente não acrescenta muito ao seu passado.

Porém, ainda que a conhecessem como poderiam saber? É certo que uma revista internacional em 2013 já tinha publicado o artigo «Daddy's Girl: How An African 'Princess' Banked $3 Billion In A Country Living On $2 A Day», mas quem é que, ocupado com a leitura da imprensa amiga do regime, tem tempo para ler a Forbes?

Entretanto, a Eng. Isabel, aborrecida com toda a confusão sobre como conseguiu chegar da meia dúzia de ovos até às 400 empresas e aos 2 mil milhões de euros de património, está a vender as suas empresas a "empresários" que, por acaso, também têm provavelmente a qualidade de membros do partido comunista chinês, de onde poderemos ter a nomenclatura chinesa a caminho de substituir a cleptocracia angolana.

Idiotas úteis

Uma referência especial ao Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação e à maioria dos jornais e dos jornalistas portugueses que se têm empenhado em expor os podres da Princesa, da família Dos Santos e daquela parte da cleptocracia que foi expulsa do poder, com grande júbilo do resto da cleptocracia que continua no poder, alimentando com zelo os crocodilos dos mídia na esperança de os manter afastados de si próprios.

Ministério à medida, disse ela

Quatro coisas que na Óropa pareceriam virtualmente impossíveis (1) ter um ministério da Coesão num país que é coeso há séculos; (2) ter uma ministra que confessa com grande à vontade que «o ministério foi feito um bocadinho à minha medida»; (3) ter um jornal que se confunde com o regime a dedicar-lhe no mesmo número três páginas formato broadsheet, duas para a entrevista e uma para anunciar 140 milhões que vão chover nas empresas do interior e (4) esse jornal intitular-se semanário de referência.

26/01/2020

Dúvidas (286) - Isabel dos Santos e a cleptocracia angolana só estão presentes deste lado do Atlântico?

Ao jornalismo de causas doméstico na modalidade justiceira que com tanta pertinácia escava os Luanda Leaks têm escapado os tentáculos de Isabel dos Santos do outro lado do Atlântico. E porquê?, perguntareis. Por causa das âncoras do outro lado - Lula, o PT e a clique do Lava Jato - que mais haveria de ser?

«A pujança financeira de Isabel se entrelaça com o Brasil a partir das relações entre Santos e o PT. Logo que Lula assumiu a Presidência, angolanos eram convivas frequentes na mansão em Brasília alugada por empresários amigos para promover festas e negócios — aquele casarão que foi palco da derrocada do ministro Antonio Palocci, usuário de uma das suítes. O próprio Palocci, no capítulo de sua delação premiada chamado “Negócios em Angola”, revelou que o PT recebera 64 milhões de reais em propinas da Odebrecht de modo a ampliar o crédito do BNDES para o financiamento de obras no país africano. (...)

A Odebrecht viria a se tornar sócia da Sonangol e a maior empresa privada de Angola. O próprio Lula esteve lá, em 2014, para destravar pagamentos que o governo local devia à empreiteira. Mais: o marqueteiro João Santana contou à Justiça que trabalhara para reeleger José Eduardo dos Santos em 2012 — campanha financiada por 50 milhões de dólares da onipresente Odebrecht. Trançando os pauzinhos na Sonangol, Isabel se tornou dona de 6% das ações da portuguesa Galp, do setor de energia, e se beneficiou enormemente de um malfadado projeto dela com a Petrobras para tirar combustível de óleo de dendê, no qual a brasileira enterrou nada menos que 270 milhões de dólares

Os tentáculos brasileiros da rede de corrupção de Isabel dos Santos, Revista Veja

25/01/2020

DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (96) - A pesada herança que nos vai deixar

Outras preces

«Em Marcelo, vemos o clássico sintoma populista de uma preocupação excessiva em criar um vínculo emocional e uma ligação direta às massas, que torne desnecessária a intermediação dos partidos políticos e de outras instituições. Foi o facto de ter construído essa relação com os portugueses, ao longo de 20 anos de homilias televisivas, que lhe permitiu ser eleito sem fazer campanha nos moldes tradicionais e quase sem precisar do apoio do seu partido. E é também isto que explica a ânsia, quase caricatural, de aparecer em todos os assuntos que lhe permitam fazer boa figura, mesmo que os bombeiros e a GNR possam dar conta da ocorrência. (...)

Com a sua forma de fazer política, Marcelo aproximou os cidadãos da Presidência, mas ao mesmo tempo lançou bem fundo as sementes do populismo em Portugal. As consequências deste facto só serão completamente entendidas dentro de algumas décadas, mas os efeitos já começam a fazer-se sentir, como se viu na recente entrevista de Cristina Ferreira à ”Visão”. A apresentadora admite que não se sente tecnicamente preparada para estar num Governo, mas, inspirando-se no estilo de Marcelo, admite candidatar-se a Presidente da República. Cristina Ferreira é uma profissional de mérito reconhecido, mas o que concluímos desta entrevista é que a atuação de Marcelo está a baixar a fasquia em termos de competências políticas (e técnicas) tidas como necessárias para assumir a mais alta magistratura da Nação.

Depois do atual inquilino de Belém, qualquer celebridade com o dom de seduzir as massas poderá legitimamente aspirar à Presidência. A porta que Marcelo abriu não voltará a fechar-se e ninguém sabe o que daí virá.»

A porta que Marcelo abriu, Filipe Alves no Jornal Económico

24/01/2020

O problema da corrupção não é só moral (4) - Mais opacidade do que transparência

Continuação descontinuada de (1), (2), e (3)

No ranking do Índice de Percepção de Corrupção do sector público da Transparência Internacional, Portugal teve 62 pontos em 100 e a 30.ª posição em 180 países no ranking de 2019, uma redução relativamente aos 64 pontos de 2018, apesar de manter a mesma posição, e uma queda de uma posição em relação a 2017, continuando dois pontos abaixo da média da UE.


Repetindo-me: se a corrupção fosse grave apenas por razões morais e éticas já seria mais do que suficiente para merecer a nossa atenção. Mas não é grave só por isso. É igualmente grave porque a corrupção é um factor de distorção do racional das escolhas económicas, que passam a ser feitas, não com base dos benefícios líquidos previstos, empresariais ou públicos, que delas se esperam que resultem, mas com fundamento no interesse de pessoas ou grupos que não têm legitimidade para intervir nessas escolhas.

23/01/2020

De como o Mosquito de João Nuno Pinto é um exemplo a posteriori para o Otto e mezzo de Fellini

O realizador João Nuno Pinto confessou ao Público que Mosquito, o seu segundo filme, apresentado ontem na abertura do festival de Roterdão, «é uma forma de me redimir por ser filho de colonizadores».

Devemos relevar este propósito redentor de expiar a culpa dos pais colonizadores, por várias razões. E uma delas é que o mesmo jornal, precisamente no mesmo dia, anunciava que Fellini «vai estar no centro da programação da 13.ª edição da Festa do Cinema Italiano, que terá lugar de 1 a 9 de Abril».

Não será preciso explicar quem foi Federico Fellini, e não deveria ser indispensável lembrar que é italiano, nascido em Rimini,  o que faz dele um descendente dos colonizadores romanos da Lusitânia. Por coincidência, foi no fórum de Rimini que Júlio César apelou às legiões depois de ter atravessado o Rubicão.

A morte de Viriato, um herói da luta anticolonial, de José de Madrazo
É aqui que entra o Mosquito, João Nuno Pinto e a sua superioridade moral e da sua obra sobre um Fellini que em nenhum do seus filmes expiou a culpa das legiões romanas pela ocupação da Lusitânia, o massacre e escravização dos lusitanos, o que deveria e poderia muito bem tê-lo feito, por exemplo no auto-biográfico Otto e mezzo, em vez de celebrar as abundantes bundas e gloriosas tetas, como fez em muitos dos seus filmes, por exemplo em Amarcord, aqui devidamente evocado pelo outro contribuinte.

CASE STUDY: O pior dos melhores é melhor do que um dos melhores dos piores

«The Economist coloca Portugal na categoria de “país totalmente democrático», titula um dos jornais do regime (Público), acrescentando que «O estudo adianta que Portugal se encontrava já no limiar da categoria da plena democracia», o que, sendo verdade, não é toda a verdade.


O resto relevante da verdade é que Portugal subiu no ranking de 27.º, o 6.º das "democracias avariadas", para 22.º, o último das plenas democracias. E subiu devido à melhoria dos scores do "funcionamento do governo" e da "cultura política", subida ininteligível na minha humilde opinião, mas isso para o caso não interessa - eles lá saberão.


Conviria ainda acrescentar que só em 2010 atingiu foi atingido o overall score de 2010, dos tempos em que os portugueses se julgavam ricos, antes da troika lhes vir lembrar que não só eram relativamente pobres como estavam (e estão) absolutamente endividados.

Posts relacionados: CASE STUDY: Democracias defeituosas (1) e (2).

22/01/2020

É claro que é isso!

«Portanto Isabel dos Santos é garantidamente criminosa porque recebeu do pai o que não era dele mas sim do Estado angolano. Já José Sócrates que diz ter recebido da mãe o que ela claramente não tinha é um perseguido pela justiça.»

«É isto?» interroga-se Helena Matos. Ora, que pergunta!

O Dr. Costa está há quatro anos a tratar do "portsoc" e agora cabe ao Dr. Nuno Artur Silva montar o ministério da Verdade que garantirá "informação séria"

Governo lança em 2020 campanha de sensibilização que visa a informação séria

«O Governo anunciou esta segunda-feira o lançamento, no início de 2020, de uma campanha de sensibilização que visa a convivência democrática entre uma comunicação social livre e uma população formada e capaz de exigir e procurar informação séria.

"Além das medidas de fomento de literacia mediática, é essencial promovermos uma campanha alargada de sensibilização, difundida por vários meios, como televisão, imprensa, rádio e meios digitais (...) cujo objetivo seja alertar os cidadãos para o facto de que a produção de conteúdos informativos é fundamental, pelo que todos são chamados a contribuir e envolver-se", frisou Nuno Artur Silva. "Que não haja dúvidas que isto não é uma questão dos jornalistas, isto é uma questão dos cidadãos", argumentou o governante, para quem a desinformação "é uma ameaça séria que pode afetar a credibilidade das instituições democráticas, minando a confiança nessas instituições".»

Palavras do secretário de Estado do Cinema, Audiovisual e Media, Nuno Artur Silva, aka ministro da Verdade, na sessão de encerramento da conferência "A palavra da imprensa portuguesa", promovida pela Associação Portuguesa de Imprensa

21/01/2020

A cleptocracia angolana do MPLA, os novos colonialistas de inspiração marxista-leninista

«Em Angola, a nova elite foi defendida, durante décadas, por um exército de ocupação cubano, contra a revolta da maioria da população. O aspecto do poder do MPLA como um poder colonial não podia ser mais claro. Por vezes, culpava-se disto tudo a Guerra Fria ou a África do Sul. Mas o fim do apartheid e da União Soviética não mudou o carácter autocrático do regime angolano. Ajudou apenas a esclarecer os objectivos dos novos donos de Angola: em vez da construção de sociedades marxistas-leninistas, o enriquecimento pessoal, com a colocação das fortunas a resguardo no Ocidente. Há quem, para explicar estas tragédias, argumente que as populações das antigas colónias não estavam ainda em condições de formar nações. Já era esse o argumento dos defensores europeus da colonização. Mas de uma coisa podemos estar certos: estas cleptocracias não estão certamente a preparar ninguém para a maioridade cívica. É esta a história por detrás dos Luanda Leaks: a de uma descolonização por fazer.»

Uma descolonização por fazer, Rui Ramos no Observador

A esta luz, a exposição do esquema empresarial da "Princesa" Isabel dos Santos, fundado na extracção de recursos públicos, é uma consequência da disputa do acesso a esses recursos entre as cliques que dominam o Estado angolano.

ACREDITE SE QUISER: Isabel dos Santos montou sozinha um império assente na corrupção. Não há um só cúmplice aqui no Portugal dos Pequeninos. A nomenclatura do regime está inocente

Rádio Renascença
E os vários governos que a trouxeram ao colo? E os seus parceiros portugueses, como os Amorim, os Azevedo e outros? E os consultores PwC, BCG, McKinsey e outros? E os inúmeros factótuns, como Teixeira dos Santos e outros?

20/01/2020

Crónica da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa (15)

Avarias da geringonça e do país seguidas de asfixias

A mercearia orçamental

No primeiro dia da discussão na especialidade do OE 2020 foram apresentadas 179 propostas de alteração pelos partidos que apoiam a passarola de Costa: BE (39), PCP (37), PAN (46), PEV (31), Livre (26), todos agarrados à toalha da mesa do orçamento a tentarem mostrar serviço aos seus eleitores.

Os casos mais deprimentes são os do PCP e BE que nos últimos quatro anos vem engolindo tudo e tudo justificando como «dois grupos de mentirosos coxeando atrás do PS», para usar as palavras de Vasco Pulido Valente. O PCP engole e ainda consegue arrotar umas greves como a dos funcionários públicos no próximo dia 31 (cada partido comunista tem a classe operária que pode). Já o BE, por falta de implantação sindical, não tem nada para arrotar, a não ser flatulências inócuas, ainda que mal cheirosas.

Cuidando da freguesia eleitoral

Os mais de 40 mil efectivos policiais (mais 36% do que a média da UE), organizados em 17 sindicatos, fazem de Portugal um dos países com mais polícias, mas não dos mais policiados porque a maioria desses polícias descansa nas esquadras. A adicionar a esse numeroso destacamento o MAI anunciou que recrutará até 2023 10 mil novos efectivos para a PSP, GNR e SEF, potenciais novos eleitores do PS, espera o ministro, mas talvez se engane porque o Dr. Ventura pode chegar primeiro e mexe-se bem nesses meios.

«Temos resultados, temos contas certas»

O nosso Ronaldo das Finanças, a atravessar um período difícil para o seu ego, tem sentido a necessidade de exaltar os seus feitos, conseguidos muito à custa da redução das taxas de juros pelo BCE e desvalorizar os feitos do governo PSD-CDS de quem diz que a «saída limpa foi, afinal, uma nódoa» (ler aqui a estória contada pelo outro contribuinte e «Uma comparação (im)possível» de Miranda Sarmento).

Com essa auto-exaltação não parece convencer a CE que aponta no OE 2020 um «risco de desvio significativo do ajustamento requerido» e considera não serem feitos progressos suficientes na redução de dívida.

19/01/2020

ESTÓRIA E MORAL: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

A estória do Dr. Centeno

Era uma vez um Dr. Centeno que há nove anos, dois meses antes do governo do seu Partido Socialista sem dinheiro para pagar os salários pedir o resgate a Bruxelas, dizia, entre outras coisas que um Dr. Centeno actual condenaria, «temos algumas instituições que protegem demasiado os insiders. Os sindicatos têm o monopólio constitucional da negociação do qual não estão obviamente dispostos a abdicar. E por mais reformas que se façam, numa tentativa de abrir a legislação a outros espaços de negociação dentro das empresas, há sempre essa prerrogativa constitucional

O actual Dr. Centeno entende que «a redução consistente nos juros pagos é um reflexo estrutural daquilo que acontece neste momento em Portugal» (Conferência da Ordem dos Economistas no passado dia 15), atribuindo a si próprio a redução geral das taxas de juros e colocando-se no lugar de uma espécie de Banco Central Universal.

Esqueceu-se de várias coisas, por exemplo, como recordou há dias Camilo Lourenço «no 1.º semestre de 2016 (...) os juros portugueses chegaram a encostar nos 4% enquanto Centeno e Costa defendiam uma política económica baseada nos estímulos orçamentais e no consumo... Só no segundo semestre, quando os mercados e as agências de rating perceberam que o Governo dizia uma coisa e fazia outra (cativações brutais de despesa, mesmo nas barbas de PCP e Bloco de Esquerda), é que as coisas mudaram.

E ao dizer no parlamento durante o debate orçamental que a «saída limpa foi, afinal, uma nódoa» esqueceu-se que foi essa nódoa e as políticas do BCE que permitiram «a redução consistente nos juros pagos» que ele hoje se atribui.

Passemos em revista a obra do Dr. Centeno.

Redução do défice estrutural: consequência da redução dos juros (que se deve ao BCE) e dos dividendos do BdP (uma consequência indirecta da redução dos juros)

Fonte

Aumento dos impostos: aqui sem dúvida temos obra do Dr. Centeno.


Fonte

O prometido e o cumprido: mais despesa, mais impostos menos investimento público e a grande ajuda do BCE.

Fonte

A moral da estória

«Yo soy yo y mi circunstancia, y si no la salvo a ella no me salvo yo»

Ortega y Gasset

18/01/2020

No futebol, como no resto, os melhores profissionais tenderão a emigrar para as melhores ligas

Economist

Poderão não ser todos os melhores, são certamente os mais inconformados. É assim desde o século XV e isso explica muita coisa.

É claro que no futebol tudo fica mais óbvio porque, como escrevi aqui, aqui e aqui, os jogadores são os únicos profissionais portugueses que trabalham num mercado verdadeiramente internacional a uma enorme distância de outras profissões.