Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

09/06/2026

Crónica da passagem de um governo (53b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 53a)

Boa Nova

Por mais do que os 2/3 necessários, Portugal foi eleito pela Assembleia da ONU como membro não-permanente do Conselho de Segurança. Mais do que o alegado prestígio internacional que as elites caseiras e o jornalismo de causas, dando a graxa a si próprios, atribuem aos 134 votos, este resultado é sobretudo a consequência de uma presença inócua na política internacional que não gera anticorpos. Não, esta não é uma consideração negativa do papel de Portugal.

É preciso ser muito saudável para resistir a tanta doença

Ao ficar a saber-se que dos cerca 5,3 milhões de empregados em Portugal mais de um milhão tiveram o ano passado baixas por doença (muitos deles por autodeclaração), cujos subsídios foram em média diária 2,3 milhões de euros, lembrei-me deste post do outro contribuinte, cujo título roubei, que enumera umas dezenas de maleitas que assolam milhões de portugueses explicando assim a pletórica frequência de baixas por doença.

Os portugueses «vão ter razões para confiar no SNS»

No mês de Abril bateu-se mais um recorde do número de “utentes” (acho esta palavra um achado para designar os cidadãos que não usam o SNS) sem médico de família (MdF) que atingiu em Abril o bonito número de 1.646.279, segundo o Portal da Transparência do SNS.


Conforme se vê no gráfico, a coisa veio sempre a subir desde Agosto de 2019 e atingiu o máximo em Maio de 2023, depois de dezenas de promessas do Dr. Costa de atribuir um MdF a todos os utentes.

Sem pretender limpar a folha do Dr. Montenegro que em tempos se atribuiu a missão impossível de resolver num ano os problemas do SNS, e que deixou escorregar os 1.565.880 utentes sem MdF que recebeu do Dr. Costa em Abril de 2024, para 1.646.279 dois anos depois, terei de conceder que a missão de salvamento do SNS fica difícil com a propensão dos utentes para a doença.

O Dr. Montenegro está a disparar para o lado a bazuca do Dr. Costa

O Conselho das Finanças Públicas e a Unidade Técnica de Apoio Orçamental alertam para uma execução de apenas 45% do PRR a um ano do termo. Será que o governo leu “O Vício dos Fundos Europeus” de Nuno Palma e concluiu que o dinheiro de Bruxelas faz parte do problema e não da solução?

O governo chutou as filas de espera para a Bruxelas que as devolve

O governo tentou chutar para Bruxelas a responsabilidade pelos problemas de implementação do Entry/Exit System (EES) para controlo dos passaportes que começou a funcionar em Outubro do ano passado, teve de ser suspenso em Dezembro e voltou a funcionar em Abril multiplicando as filas de espera nos aeroportos. A CE responde que os «tempos de espera mais longos, não estão relacionados com quaisquer problemas no funcionamento do Sistema de Entrada/Saída» e que «na maioria dos Estados-membros o processamento dos registos de primeira vez demora, em média, pouco mais de um minuto». Talvez seja porque nenhum desses países tem «todas as condições para se tornar um líder mundial na IA».

08/06/2026

Crónica da passagem de um governo (53a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Os portugueses só apreciam as reformas que dão pensões…

É mais difícil encontrar uma criatura pública que não reclame reformas do que um lince ibérico à solta. No entanto, se há coisa que os portugueses detestam, são reformas, apesar de poucos políticos assumirem publicamente essa falta de gosto, com a notável excepção do Dr. Costa, que algures em 2017 disse aos microfones da Rádio Renascença «A expressão reformas estruturais arrepia-me. Qualquer cidadão normal fica logo alérgico.» Daí, suspeito, a sua bem-sucedida carreira.

De onde, permito-me concluir, não se pense que a escassez de reformas do governo do Dr. Montenegro o vá apear, tanto mais que os numerosos anúncios são, em princípio, compensação suficiente para manter sossegado o eleitorado. O que traria o desassossego não seria a falta de reformas, mas as “reformas estruturais” e, sobretudo, a falta de subsídios de todas as naturezas.

É por isso que o governo não poupa aos contribuintes a extorsão para o pagamento de subsídios para compensar o aumento do preço dos combustíveis (uma política completamente errada), sendo o último desses aos agricultores,

… o que não escapa ao olho perspicaz do Dr. Ventura

Daí que, com a vantagem de não ser governo nem, suspeito, estar com muita pressa de o ser, o Dr. Ventura tenha proposto em Abril a descida da idade da reforma, corrigindo a pontaria depois de admoestado pelo Dr. Passos Coelho para a reforma com 40 anos de descontos ou 65 anos de idade, proposta apimentada com o limite máximo das pensões fixado em € 4.500 limite que abrangeria provavelmente menos de 0,1% do número de pensões.

A “reforma” que todos os governos não falham: aproximar o salário mínimo do salário mediano a caminho do salário médio

Por falar em reformas, o BdP, atravessando a fase interventiva que sempre acompanha um novo governador, chama a atenção no seu boletim de Junho para os riscos dos sucessivos aumentos do salário mínimo o aproximaram cada vez mais do salário mediano (isto é, do montante em que o número de salários mais baixos e mais altos é aproximadamente o mesmo) aumentando a relação (índice de Kaitz, que era o mais alto em 2024 na Zona Euro) entre os dois, de 87% em 2019 para 91% em 2025. Dito de outra maneira, o incentivo para os trabalhadores dos escalões mais baixos de salário melhorarem o seu desempenho é cada vez menor, o que é uma preciosa ajuda para manter a produtividade do trabalho em 76% da média da UE, a 6.ª mais baixa.

Já agora, sublinhe-se que tem sido o aumento do salário mínimo que mais contribuiu para Portugal ter tido nos dois últimos anos o segundo maior crescimento real dos salários nos países da OCDE.

Derrapagem é o outro nome para a gestão das obras do Estado sucial

A derrapagem do prazo de expansão do Metro de Lisboa, que era para estar concluída sucessivamente no final de 2023, no primeiro trimestre de 2025, no final de 2026 e, por último, no início do próximo ano, só é superada pela derrapagem do custo da obra, que, na última revisão, estava 80% acima do orçamento inicial (fonte).

(Continua)

07/06/2026

Por que razão a direita não se une?

A pergunta é o título deste artigo de André Abrantes Amaral (AAA) e poderia ser, mas não é, uma pergunta retórica. A resposta de AAA situa-se no domínio da política portuguesa e não vou comentá-la porque o que me interessa é a questão mais geral, para concluir, uma vez mais, como aqui, por exemplo, o que toda a gente sabe ou deveria saber, mas é quase sempre esquecido ou desconsiderado.

Political Compass

Não há uma direita, há várias direitas, e entre essas direitas, em certos casos, há mais diferenças (por vezes inconciliáveis) do que entre algumas esquerdas e algumas direitas. É o que o próprio AAA reconhece quando conclui que «parte da direita que hoje é maioritária no parlamento defende uma maior intervenção do estado na economia, é socialista em termos económicos».

06/06/2026

BREAKING NEWS: At first it seems strange, then it becomes ingrained (update)

Update to this post


«On January 6, 2021, 19-year-old Elias Irizarry was among the members of a violent mob that broke into the U.S. Capitol and attempted to overturn the recent presidential election. He was convicted of trespassing on government grounds, and videos from that day show him entering through a window with a metal pole in his hand. Now he may have access to sensitive national-security information as an employee of the Department of Defense.»
  (The Atlantic)

04/06/2026

Lost in translation (374) - Greve geral significa uma greve parcial dos funcionários públicos


Ontem, tivemos mais outra greve dita geral envolvendo pouco mais do que os ocupantes da vaca marsupial pública, alguns dos quais também se manifestaram contra o que chamaram pacote laboral, pacote cuja putativa adopção não teria quaisquer efeitos relevantes sobre esses ocupantes com empregos vitalícios protegidos do stress da concorrência. A esmagadora maioria das "vítimas" do pacote, os trabalhadores do sector privado, dos quais só em cada quinze está sindicalizado, continuaram a trabalhar nas empresas ou em teletrabalho suportando o desconforto da escassez de transportes públicos paralisados pelos ocupantes das referida vaca e a indisponibilidade dos serviços públicos nomeadamente das escolas e dos hospitais públicos.

O impacto da greve geral foi tão ridiculamente insignificante que a CGTP, spin-off do Partido Comunista para as greves dos funcionários públicos, publicou no seu site uma lista de 66 páginas com 990 entidades afectadas pela greve, a saber:
  • 24 Empresas privadas com "produção parada" do milhão e meio de Micro e PME que existem em Portugal;
  • 215 organismos públicos encerrados dos cerca de 4.200 organismos públicos existentes;  
  • 15 organismos públicos com serviços mínimos;
  • A restante miscelânia de entidades, com taxas de adesão à greve de 45% a 100%, dos quais quase todas são organismos públicos, entre eles:
    • Cerca de 200 organismos ligados a câmaras municipais;
    • Cerca de 270 escolas e creches;
  • Com dificuldade, lá se conseguem encontrar algumas micro e PME, lista que inclui alguns  departamentos de empresas privadas (por exemplo a loja de Eiras da Auchan, um posto de abastecimento da BP, Lidl de Alcochete e de Tondela, o Posto logístico da Sonae na Azambuja e outra miudezas). 
A única novidade nas manifs com layout e slogans do século XIX, onde se viam cartazes a reclamar "pão" e a protestar porque o "custo de vida aumenta", foi a sua parasitagem por áctivistas (provavelmente os mesmos áctivistas das mudanças climáticas) que usaram a violência e provocaram a resposta, por vezes violenta, da polícia.

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Alteração do entrada do Glossário das Impertinências:

Greve geral (sindicalês)

Uma greve de muitos empregados do Estado, devidamente protegidos das agruras do mundo real, cujos "direitos" não são afectados, e de alguns trabalhadores de empresas privadas; greve convocada quando o governo não é de esquerda, por sindicatos que representam menos de um sexto dos trabalhadores, que reclamam ter mobilizado a maioria dos trabalhadores, greve geralmente com impacto limitado que é convocada para a véspera de um feriado, sexta-feira ou segunda-feira, acompanhada de manifs com cartazes do século XIX e parasitada por áctivistas violentos.

03/06/2026

BREAKING NEWS: At first it seems strange, then it becomes ingrained

«A convicted Jan. 6 rioter who later said that he regretted his participation in the U.S. Capitol attack has been hired by the Trump administration to work inside a Pentagon office that manages highly classified military operations, according to four people familiar with the matter.

The appointment of Elias Irizarry, who was 19 at the time of the riot in 2021, to a post in the Defense Department’s Special Operations and Low Intensity Conflict office has raised alarm internally among staff who question how anyone convicted in the assault on American democracy could be trusted for such a sensitive role in the U.S. government, these people said. All spoke on the condition of anonymity, citing a fear of retaliation.» Washington Post

At first glance, it seems strange that the Trump Administration would appoint someone convicted of breaking into the Capitol to work in counterterrorism at the U.S. Department of Defense. However, appointing such a person to combat terrorism makes as much sense as hiring a hacker to combat cyber intrusion, which is a normal procedure in the computer industry.

«President Trump lashed out at Israeli Prime Minister Benjamin Netanyahu over Israel's escalation in Lebanon in an expletive-laden call ("You're fucking crazy") on Monday, two U.S. officials and a third source briefed on the call told Axios.» Axios

It may also seem strange that Mr. Trump insulted Mr. Netanyahu, but the truth is that his democrat predecessor, Roosevelt, once said of the dictator Somoza, "He may be a son of a bitch, but he's our son of a bitch."

Unfortunately, not everyone, even among his devotees, understands these subtleties, and that's why President Trump's net approval rating continues to fall.