Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

22/10/2017

DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (47) - Os vários marcelos de Marcelo

Outras preces.

Agora que Marcelo Rebelo de Sousa atingiu a aprovação quase unânime com a declaração de Oliveira do Hospital em que entalou o governo, irritou a esquerdalhada (que rosna em silêncio a sua raiva contida pela popularidade do PR) e deixou excitada a não esquerda à beira de uma ejaculação precoce, torna-se ainda mais importante tentar um retrato de MRS sem as espessas camadas de maquilhagem mediática.

É por isso de leitura obrigatória o que disse em entrevista ao Expresso de ontem Carlos Blanco de Morais, seu aluno e assistente e de quem MRS foi orientador da tese de doutoramento. Lá se encontram os traços que por aqui temos apontado como perigosos num PR: a volubilidade, o catavento mediático, o populismo ("inclusivo") e a obsessão pela popularidade, o manobrismo, o calculismo e a frieza por trás da fachada dos afectos. Aqui vão alguns excertos. Não digam que não foram avisados.

«Depois do que aconteceu é difícil que continue a sua função de escudo ou para-raios. O que não quer dizer, até tendo em vista a idiossincrasia e psicologia do PR, que é muito fluida e por vezes volúvel, que tenha rompido com a atual coligação. Tenho as maiores dúvidas. (…)

Que eu designei como semipopulismo porque o PR capta e diz aquilo que a população quer ouvir e isso faz parte das características do populismo. A sua conduta e gestos de natureza simbólica marcam esse entrosamento entre o chefe de Estado e a população comum. Só não será populismo porque os populistas operam habitualmente através de uma dicotomia amigo-inimigo, fixam a existência de um adversário. O PR não, tem um discurso inclusivo. A ideia não é estabelecer um inimigo, mas resolver problemas e captar todas as dificuldades, anseios e vender alguns sonhos. (…)

É um populismo de escalão mais entrosado com a população comum, o que implica uma mistura entre sensibilidade pessoal e teatro, que gere admiravelmente. (…)

O PR até agora usou muito pouco os seus poderes jurídico-constitucionais, teve uma função tribunícia, fez advertências, usou da palavra e da sua proximidade. Aí, inflou a sua popularidade. A estratégia presidencial desta 'cooperação de veludo' foi entrosar-se com o Governo apanhando o embalo do estado de graça deste, inflando a sua popularidade e em função dela pretende usá-la politicamente, convertendo esse acumulador de popularidade numa manifestação de autoridade. (…)

A ideia de que o Presidente fez agora uma ameaça de dissolver o Parlamento é um mero desejo. O PR é muito flexível, respira política 24h por dia e é cauteloso. Só dissolveria com a certeza clara de que o partido do poder não retornaria mais forte ou em coligação. (…)

Se há alguém que faz cálculos políticos e não atua emotivamente é o PR. A gestão de afetos faz parte da sua estratégia presidencial, mas a idiossincrasia do Presidente é fria e de jogador. (…)

O comentador não morreu na figura do PR, foi apenas reconvertido numa função tribunícia. (…)

Mesmo para os 'marcelólogos', o PR é sempre imprevisível. Ninguém pode estar seguro em momento nenhum de qual vai ser a sua conduta. A única coisa de que se pode ter a certeza é de que nunca afrontará de forma ostensiva o vento da opinião pública.»

21/10/2017

Um dia como os outros na vida do estado sucial (33) - A cada um a sua bolha

Como é sabido, o material de Tancos que, segundo o ministro, no limite poderia não ter sido furtado e que a  Polícia Judiciária Militar e a Guarda Nacional Republicana procuraram em vão durante três meses e meio, foi encontrado na Chamusca a partir de uma denúncia anónima.

Segundo o Expresso, o primeiro-ministro Costa, felicitou ontem «o trabalho desenvolvido pela Polícia Judiciária Militar (PJM) e pela Guarda Nacional Republicana (GNR)» que consistiu em ir ao local indicado pelo denunciante anónimo recolher o material que no limite poderia até não ter sido furtado. O facto de não ter felicitado o denunciante anónimo confirma que Costa vive na Lisbolha.

Estudo de opinião da Eurosondagem nos dias 16 a 18 (Fonte Expresso)
O facto de, depois de dois incêndios devastadores que mataram 110 pessoas, ter ficado patente e reportado em três relatórios independentes o falhanço completo da Protecção Civil e do governo, 52% dos portugueses confiarem na Protecção Civil ou não saberem se hão-de ir ao WC ou dar corda ao relógio só é explicável por esses 52% dos portugueses viverem dentro das suas próprias bolhas.

20/10/2017

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: O socialismo costista e a engorda do Estado para sustentar a clientela (2)

«O problema vem ao de cima quando tentamos ver os actos dessas palavras. É enorme a distância entre aquilo que se diz que se faz e aquilo que realmente é concretizado. A coesão social, o combate à pobreza e a promoção da igualdade limitam-se ao segmento do mercado eleitoral urbano que faz mexer o ponteiro dos votos. Os outros ficam ao abandono, como dolorosamente vimos na morte e na vida de quem esteve dentro dos incêndios do fim-de-semana.

A situação agrava-se quando as lideranças governamentais ou mesmo parlamentares são um círculo fechado onde quase todos andaram no “liceu” com quase todos, conheceram os pais ou até os avós, conviveram ao longo de anos por laços de amizade ou familiares. O seu mundo é aquele minúsculo universo de amigos e conhecidos que confundem com o país. As suas prioridades de governo da comunidade são hierarquizadas de acordo com o que conseguem ver nesse seu mundo, infantilizando os seus concidadãos.

Excerto de «Uma tragédia escolhida por nós», Helena Garrido no Observador

O socialismo de Costa sustenta-se da vaca marsupial pública e vive a huis clos na Lisbolha.

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: O socialismo costista e a engorda do Estado para sustentar a clientela

«É verdade: a sorte, nos últimos vinte anos, deixou sempre António Costa e os seus correligionários governar quando havia algum dinheiro para gastar, como agora. Mas o importante não é a sorte, mas o que fazem eles actualmente com essa sorte. Outrora ainda prometiam “mudança” e “reformas”. Agora, reduzem o Orçamento de Estado a um orçamento de campanha eleitoral. Em que acreditam? Aparentemente, que a melhor maneira de controlar este país envelhecido e endividado é concentrar os recursos no Estado e favorecer com eles o funcionalismo público e os pensionistas mais bem pagos. Tudo o mais pode ser sacrificado, até essa velha vaca sagrada do SNS, como notou o Tribunal de Contas.»

Excerto de O governo da desistência nacional», Rui Ramos no Observador

A «vaca voadora» de Costa é a vaca marsupial pública, que nunca voou e não voará porque nas suas túrgidas tetas está pendurada a clientela eleitoral.

19/10/2017

A mentira como política oficial (37) - De "ninguém quer" a "inevitável" em apenas 40 horas

Negócios e Jornal de Notícias (via Insurgente)

Até para os marxistas-leninistas-trotskistas-maoístas é demasiado. Estão tão apegados ao poder que se o Costa cai e tiverem de voltar às direcções das associações de estudantes, às redacções dos jornais e aos teatros vão ter de fazer uma cura de desintoxicação e tomar metadona.

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Costa enfiado na Lisbolha

«Quando olhamos para os seus dois anos como primeiro-ministro, aquilo que vemos é uma gestão política confinada ao eixo Terreiro do Paço-São Bento, com incursões pontuais a Bruxelas. O governo leva muito mais tempo a reunir com o Bloco e com o PCP do que a pensar no futuro de Portugal, até porque as grandes reformas estão bloqueadas à esquerda. A chamada “geringonça” é uma máquina carente de assistência técnica permanente, pelo que não é de espantar que quando o país real telefona para São Bento a linha esteja ocupada. Não são só os bombeiros e a GNR que não conseguem contactar a Protecção Civil – o Portugal profundo também não consegue falar com o primeiro-ministro.

António, rapaz de Lisboa, começou na política aos 14 anos, aos 22 já estava na Assembleia Municipal, e excepto o curto ano em que foi deputado europeu sempre viveu e trabalhou nos meios políticos da capital. A falta de empatia de António Costa após a dupla tragédia deste Verão pode ter a ver com isto: o primeiro-ministro sempre olhou para o país a partir do Terreiro do Paço. Foi tanta a frieza com que reagiu ao apocalipse do fim-de-semana que é como se o Portugal profundo fosse para ele uma entidade abstracta, tão distante como as colónias para Salazar. Costa vive e respira dentro de uma bolha política, que ele domina como ninguém. Quando as arestas da realidade mais bruta explodem essa bolha, o que sobra do primeiro-ministro? Ainda é cedo para uma avaliação final, mas até agora sobrou muito pouco.»

Excerto de «António Costa, primeiro-ministro de Lisboa», João Miguel Tavares no Público 

18/10/2017

DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (46) - Too little? Too late?

Outras preces.

«Se na Assembleia da República há quem questione a capacidade do atual Governo para realizar estas mudanças que são indispensáveis e inadiáveis, então, nos termos da Constituição, esperemos que a mesma Assembleia soberanamente clarifique se quer ou não manter em funções o Governo».

Marcelo Rebelo de Sousa em Oliveira do Hospital (TVI24)

Se não too little, pelo menos um too late perdido no meio do too much que tem sido a verborreia presidencial.

Pro memoria (360) - Homem prevenido vale por dois

Quando era presidente da câmara de Lisboa, Costa dizia «não existe solução» para as inundações na cidade. Deixou a câmara entregue ao afilhado Medina e logo se propôs prevenir o que não tinha solução.


Como ministro responsável pela adopção do SIRESP no governo de José Sócrates e primeiro-ministro responsável pelo falhanço em todo a linha da resposta do governo aos incêndios deste ano que mataram mais de uma centena de pessoas, Costa recuou três anos e repetiu a ladainha. Não tem emenda.

17/10/2017

Pro memoria (359) - Os incêndios são todos iguais mas há uns mais iguais do que outros (I)


Em 2015, na vigência do governo PSD-CDS, tinham ardido até 31 de Julho menos de 30 mil hectares de floresta e houve 2 vítimas, uma das quais bombeiro. BE e PCP produziram indignados comunicados, como os citados acima.

Em 2017, na vigência do governo do PS, coligado na geringonça com BE e PCP, até hoje arderam 225 mil hectares de floresta ou 316 mil hectares segundo a Comissão Europeia, isto é 7 ou 10 vezes mais do que em 2015. Este ano morreram 64 pessoas nos incêndios de Pedrógão e até agora 41 pessoas nos incêndios do fim de semana passado, isto é 50 vezes mais do que em 2015.

Alguém escutou os pedidos de desculpa de socialistas ou os protestos de bloquistas e comunistas? O ruído do silêncio dos outrora indignados BE e PCP é ensurdecedor.

ACREDITE SE QUISER: O pénis como construção social resultante da heteronormatividade patriarcal

«Em Maio do corrente ano, dois outros académicos, Peter Boghossian e James Lindsay, decidiram renovar a partida académica e submeteram um trabalho para a Cogent Social Sciences, revista indexada nos principais meios de divulgação científica. Defendem os autores que o órgão genital masculino, o pénis, é, em boa verdade, uma construção social. Fazem-no «através de um criticismo discursivo pós-estruturalista detalhado e do exemplo das alterações climáticas».

O artigo, referem ainda no resumo, «questiona a prevalente e prejudicial mistificação social de que os pénis são melhor entendidos como órgãos sexuais masculinos, e atribuir-lhe-á um papel mais adequado enquanto tipo de desempenho masculino». Dadaísta? Era esse um dos objectivos — testar a filtragem do nonsense na arbitragem por pares nas revistas do género. O artigo foi aceite e publicado, tendo sido removido apenas após os próprios autores fazerem a denúncia do caso.»

Relatado por Mário Amorim Lopes em «A Guerra dos Géneros e as falsificações científicas»

16/10/2017

ESTADO DE SÍTIO: Vaticangate

«A prosecutor called it “a case of surprising opaqueness, of silences and terrible mishandling of public money”. The conviction on Saturday of Giuseppe Profiti, ex-president of a Vatican-owned children’s hospital, for misusing his position to divert €422,000 ($499,000) from its funds, is a reminder of a dark side of the Catholic Church at odds with the ascetic modernising of Pope Francis. The money was to be used to refurbish the penthouse retirement apartment of the former Secretary of State, Cardinal Tarcisio Bertone, once the second-most-powerful man in the Church. Mr Bertone denied knowing of the hospital’s involvement and says he spent around €300,000 of his own, whereas the diverted cash went to the builder’s British-registered company. Yet the court heard that Mr Bertone had bypassed Vatican rules by hiring the builder, a friend, without seeking rival quotes. Curiously, the cardinal was not called to testify

The Economist Espresso

The cardinal was not called to testify. Why's that?

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (105)

Outras avarias da geringonça.

O que podemos concluir do relatório da comissão técnica independente dos incêndios de Pedrógão Grande? Resumindo o essencial: (1) incompetência de um primeiro-ministro de um governo incompetente na respostas aos incêndios; (2) grande competência do primeiro-ministro como ministro da propaganda ao divulgar o relatório entre as eleições autárquicas e a apresentação do orçamento, garantindo deste modo o seu desaparecimento mediático.

O que podemos concluir do orçamento apresentado? Que o governo empurrado pelas greves da ASAE. pelos avisos de greve da Fenprof, pelo endurecimento prometido pela CGTP, pela greve da função pública de 27 de Outubro, pelos protestos das forças de segurança e pela «grande manif nacional», capitulou em toda a linha às exigências dos seus parceiros da geringonça.