Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

08/06/2026

Crónica da passagem de um governo (53a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Os portugueses só apreciam as reformas que dão pensões…

É mais difícil encontrar uma criatura pública que não reclame reformas do que um lince ibérico à solta. No entanto, se há coisa que os portugueses detestam, são reformas, apesar de poucos políticos assumirem publicamente essa falta de gosto, com a notável excepção do Dr. Costa, que algures em 2017 disse aos microfones da Rádio Renascença «A expressão reformas estruturais arrepia-me. Qualquer cidadão normal fica logo alérgico.» Daí, suspeito, a sua bem-sucedida carreira.

De onde, permito-me concluir, não se pense que a escassez de reformas do governo do Dr. Montenegro o vá apear, tanto mais que os numerosos anúncios são, em princípio, compensação suficiente para manter sossegado o eleitorado. O que traria o desassossego não seria a falta de reformas, mas as “reformas estruturais” e, sobretudo, a falta de subsídios de todas as naturezas.

É por isso que o governo não poupa aos contribuintes a extorsão para o pagamento de subsídios para compensar o aumento do preço dos combustíveis (uma política completamente errada), sendo o último desses aos agricultores,

… o que não escapa ao olho perspicaz do Dr. Ventura

Daí que, com a vantagem de não ser governo nem, suspeito, estar com muita pressa de o ser, o Dr. Ventura tenha proposto em Abril a descida da idade da reforma, corrigindo a pontaria depois de admoestado pelo Dr. Passos Coelho para a reforma com 40 anos de descontos ou 65 anos de idade, proposta apimentada com o limite máximo das pensões fixado em € 4.500 limite que abrangeria provavelmente menos de 0,1% do número de pensões.

A “reforma” que todos os governos não falham: aproximar o salário mínimo do salário mediano a caminho do salário médio

Por falar em reformas, o BdP, atravessando a fase interventiva que sempre acompanha um novo governador, chama a atenção no seu boletim de Junho para os riscos dos sucessivos aumentos do salário mínimo o aproximaram cada vez mais do salário mediano (isto é, do montante em que o número de salários mais baixos e mais altos é aproximadamente o mesmo) aumentando a relação (índice de Kaitz, que era o mais alto em 2024 na Zona Euro) entre os dois, de 87% em 2019 para 91% em 2025. Dito de outra maneira, o incentivo para os trabalhadores dos escalões mais baixos de salário melhorarem o seu desempenho é cada vez menor, o que é uma preciosa ajuda para manter a produtividade do trabalho em 76% da média da UE, a 6.ª mais baixa.

Já agora, sublinhe-se que tem sido o aumento do salário mínimo que mais contribuiu para Portugal ter tido nos dois últimos anos o segundo maior crescimento real dos salários nos países da OCDE.

Derrapagem é o outro nome para a gestão das obras do Estado sucial

A derrapagem do prazo de expansão do Metro de Lisboa, que era para estar concluída sucessivamente no final de 2023, no primeiro trimestre de 2025, no final de 2026 e, por último, no início do próximo ano, só é superada pela derrapagem do custo da obra, que, na última revisão, estava 80% acima do orçamento inicial (fonte).

(Continua)

07/06/2026

Por que razão a direita não se une?

A pergunta é o título deste artigo de André Abrantes Amaral (AAA) e poderia ser, mas não é, uma pergunta retórica. A resposta de AAA situa-se no domínio da política portuguesa e não vou comentá-la porque o que me interessa é a questão mais geral, para concluir, uma vez mais, como aqui, por exemplo, o que toda a gente sabe ou deveria saber, mas é quase sempre esquecido ou desconsiderado.

Political Compass

Não há uma direita, há várias direitas, e entre essas direitas, em certos casos, há mais diferenças (por vezes inconciliáveis) do que entre algumas esquerdas e algumas direitas. É o que o próprio AAA reconhece quando conclui que «parte da direita que hoje é maioritária no parlamento defende uma maior intervenção do estado na economia, é socialista em termos económicos».

06/06/2026

BREAKING NEWS: At first it seems strange, then it becomes ingrained (update)

Update to this post


«On January 6, 2021, 19-year-old Elias Irizarry was among the members of a violent mob that broke into the U.S. Capitol and attempted to overturn the recent presidential election. He was convicted of trespassing on government grounds, and videos from that day show him entering through a window with a metal pole in his hand. Now he may have access to sensitive national-security information as an employee of the Department of Defense.»
  (The Atlantic)

04/06/2026

Lost in translation (374) - Greve geral significa uma greve parcial dos funcionários públicos


Ontem, tivemos mais outra greve dita geral envolvendo pouco mais do que os ocupantes da vaca marsupial pública, alguns dos quais também se manifestaram contra o que chamaram pacote laboral, pacote cuja putativa adopção não teria quaisquer efeitos relevantes sobre esses ocupantes com empregos vitalícios protegidos do stress da concorrência. A esmagadora maioria das "vítimas" do pacote, os trabalhadores do sector privado, dos quais só em cada quinze está sindicalizado, continuaram a trabalhar nas empresas ou em teletrabalho suportando o desconforto da escassez de transportes públicos paralisados pelos ocupantes das referida vaca e a indisponibilidade dos serviços públicos nomeadamente das escolas e dos hospitais públicos.

O impacto da greve geral foi tão ridiculamente insignificante que a CGTP, spin-off do Partido Comunista para as greves dos funcionários públicos, publicou no seu site uma lista de 66 páginas com 990 entidades afectadas pela greve, a saber:
  • 24 Empresas privadas com "produção parada" do milhão e meio de Micro e PME que existem em Portugal;
  • 215 organismos públicos encerrados dos cerca de 4.200 organismos públicos existentes;  
  • 15 organismos públicos com serviços mínimos;
  • A restante miscelânia de entidades, com taxas de adesão à greve de 45% a 100%, dos quais quase todas são organismos públicos, entre eles:
    • Cerca de 200 organismos ligados a câmaras municipais;
    • Cerca de 270 escolas e creches;
  • Com dificuldade, lá se conseguem encontrar algumas micro e PME, lista que inclui alguns  departamentos de empresas privadas (por exemplo a loja de Eiras da Auchan, um posto de abastecimento da BP, Lidl de Alcochete e de Tondela, o Posto logístico da Sonae na Azambuja e outra miudezas). 
A única novidade nas manifs com layout e slogans do século XIX, onde se viam cartazes a reclamar "pão" e a protestar porque o "custo de vida aumenta", foi a sua parasitagem por áctivistas (provavelmente os mesmos áctivistas das mudanças climáticas) que usaram a violência e provocaram a resposta, por vezes violenta, da polícia.

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Alteração do entrada do Glossário das Impertinências:

Greve geral (sindicalês)

Uma greve de muitos empregados do Estado, devidamente protegidos das agruras do mundo real, cujos "direitos" não são afectados, e de alguns trabalhadores de empresas privadas; greve convocada quando o governo não é de esquerda, por sindicatos que representam menos de um sexto dos trabalhadores, que reclamam ter mobilizado a maioria dos trabalhadores, greve geralmente com impacto limitado que é convocada para a véspera de um feriado, sexta-feira ou segunda-feira, acompanhada de manifs com cartazes do século XIX e parasitada por áctivistas violentos.

03/06/2026

BREAKING NEWS: At first it seems strange, then it becomes ingrained

«A convicted Jan. 6 rioter who later said that he regretted his participation in the U.S. Capitol attack has been hired by the Trump administration to work inside a Pentagon office that manages highly classified military operations, according to four people familiar with the matter.

The appointment of Elias Irizarry, who was 19 at the time of the riot in 2021, to a post in the Defense Department’s Special Operations and Low Intensity Conflict office has raised alarm internally among staff who question how anyone convicted in the assault on American democracy could be trusted for such a sensitive role in the U.S. government, these people said. All spoke on the condition of anonymity, citing a fear of retaliation.» Washington Post

At first glance, it seems strange that the Trump Administration would appoint someone convicted of breaking into the Capitol to work in counterterrorism at the U.S. Department of Defense. However, appointing such a person to combat terrorism makes as much sense as hiring a hacker to combat cyber intrusion, which is a normal procedure in the computer industry.

«President Trump lashed out at Israeli Prime Minister Benjamin Netanyahu over Israel's escalation in Lebanon in an expletive-laden call ("You're fucking crazy") on Monday, two U.S. officials and a third source briefed on the call told Axios.» Axios

It may also seem strange that Mr. Trump insulted Mr. Netanyahu, but the truth is that his democrat predecessor, Roosevelt, once said of the dictator Somoza, "He may be a son of a bitch, but he's our son of a bitch."

Unfortunately, not everyone, even among his devotees, understands these subtleties, and that's why President Trump's net approval rating continues to fall.

02/06/2026

Crónica da passagem de um governo (52b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 52a)

Boa Nova. Os alicerces das reformas do Dr. Matias estão prontos até ao verão

O Dr. Matias pode não ter jeito para fazer reformas, mas ninguém lhe pode negar um talento excepcional para fazer anúncios, como se lê nos artigos encomendados pela sua equipa aos jornalistas amigos. Por exemplo, este artigo com o título «Estado: Alicerces da reforma estão construídos até ao verão» que nos garante que «a rentrée será feita num novo quadro» e nos informa que o governo já extinguiu ou fundiu 35 entidades e reduziu 300 cargos dirigentes, mas não nos esclarece o que foi feito dos dirigentes.

A FA vai reformar os F16 e pretende substituí-los por F35

A Força Aérea já fez saber que para substituir os F16 prefere os F35. A 180 milhões a peça, o pretendido lote de 28 ficaria por uns 5 mil milhões, lote que, desconfio, daria para a primeira semana de guerra. Ora aqui está um tema que o ministério das Reformas poderia tomar a seu cargo e estudar uma solução alternativa mais adequada aos países em via de subdesenvolvimento. Por exemplo, seria muitíssimo mais barato encomendar à Ucrânia uns milhares de drones, incluindo assistência técnica, pelo preço de um F35.

Boa Nova. Crescimentos de 3,5 ou 4% ao ano

O Dr. Montenegro considerou que Portugal «tem capacidade para crescer 3,5 ou 4 por cento ao ano de forma consecutiva» e «vale a pena criar instrumentos» para o conseguir.

Choque da Boa Nova com a realidade

O Portugal dos Pequeninos cresceu nos últimos 10 anos a uma taxa média de 2,25%, nos últimos 3 anos cresceu em média 2,4%, e a economia estagnou no 1.º trimestre, apesar do aumento do investimento devido nos processadores do centro de dados de Sines, ainda antes dos impactos da guerra do Golfo Pérsico, a CE baixou as suas previsões deste ano para 1,7%, e as perspectivas para 2027 não são muito diferentes.

O desempenho medíocre dos últimos anos foi apesar de circunstâncias irrepetíveis, como os 15 mil milhões já recebidos do PRR e um crescimento insustentável do turismo. Esgotadas essas circunstâncias irrepetíveis, o Dr. Montenegro vem dizer-nos que o crescimento poderá ser uma e meia ou duas vezes maior do que o conseguido, quando começarem a ser reembolsados os empréstimos do PRR, equivalentes a quase 28% dos montantes recebidos. Qual é o milagre que tem no bolso um Dr. Montenegro que até agora não fez uma reforma com impacto no crescimento potencial?

Serão os imigrantes os canários na mina de carvão da economia portuguesa?

Não se deve dar crédito a conclusões apressadas, baseadas em entrevistas do jornalismo de causas a meia dúzia de pessoas, segundo as quais os imigrantes começam a sair de Portugal em massa. Ainda assim, a informação de que mil TVDE estão parados em Lisboa por falta de motoristas, na sua maioria imigrantes, deve significar algo.

E o que vão fazer os chuis depois de libertos das tarefas administrativas?

Por um lado, o governo fala em aumentar os efectivos policiais no quarto país da UE com mais polícias por 100 mil habitantes, por outro, o mesmo governo quer libertar os polícias do trabalho administrativo.