Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
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Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

25/09/2018

CASE STUDY: A indignação artística acerca da alegada censura de pilas e cus vista à luz da teoria do caos

A teoria do caos

A teoria do caos tenta descrever os sistema caóticos. Um sistema caótico, segundo Gollub & Solomon, é definido como um sistema sensível às condições iniciais. Isto é, qualquer incerteza, por menor que seja, no estado inicial de um sistema conduzirá rapidamente a erros cada vez maiores na previsão do seu comportamento futuro. O seu comportamento só pode ser previsto se as condições iniciais foram conhecidas com grau infinito de precisão, o que é impossível.

Entre os exemplos mais óbvios de sistemas caóticos podemos apontar a meteorologia (não por acaso, chove 9 em cada 10 vezes que saímos sem chapéu de chuva), e as sociedades humanas (não carece de explicação).

Como a teoria do caos só é inteligível por mentes superiores, os cientistas do caos inventaram uma vulgata para a tornar acessível a nós, os seres humanos comuns. De acordo com essa vulgata, os sistemas caóticos são caracterizados por pequenas causas poderem dar lugar a grandes efeitos, sendo o exemplo mais comum o do bater de asas duma borboleta em Pequim poder desencadear uma furacão nas Caraíbas, através duma sequência causal e de interacções complexas no sistema atmosférico.

O estado inicial do sistema

Era uma vez um rapaz nova-iorquino com um certo talento gráfico, uma mente perversa e uma mãe castradora que quis fazer dele um padre. Ainda bem que a mãe não teve sucesso porque provavelmente seria mais uma preocupação para o papa Francisco.

A evolução do sistema

O rapaz foi crescendo confirmando o seu talento para fotografia e o seu gosto pela perversão materializada em práticas bissexuais e numa obsessão pela transgressão dos padrões morais da época. Como seria de esperar, Robert Mapplethorpe, assim se chamava o rapaz, projectou a sua obsessão pela transgressão na sua obra fotográfica que polvilhou abundantemente de pilas e cus. Também sem surpresa, contraiu SIDA e morreu precocemente com 42 anos, juntando-se à colecção de heróis e role models da comunidade gay, gradualmente alargada à comunicada queer, ela própria instrumentalizada pela corrente do marxismo cultural conhecida como politicamente correcto.

O comportamento futuro

Ninguém sabe se, não fosse a temática e a morte sacrificial, a obra de Mapplethorpe despertaria no movimento queer e, por indução, no politicamente correcto, a veneração de que desfruta. Seja como for, no estado actual do sistema, a veneração é real.

O furacão das Caraíbas

Não é uma furacão, é apenas uma manifestação verbosa, sob a forma clássica de carta aberta, de resmas de artistas e outros profissionais da indignação contra uma imaginada censura da obra de Mapplethorpe pelo facto das pilas erectas e os cus estarem expostos numa sala separada da Fundação de Serralves acessível apenas a maiores de 18 anos.

A borboleta

Afinal, neste caso, qual é a borboleta? Se me pedirem para apontar uma, aponto a mãe castradora. Não fora ela e o rapaz não teria tido necessidade de gastar a sua curta vida a épater le bourgeois e logo, entre outras coisas, em vez de pilas e cus nas fotos do rapaz haveria naturezas mortas, por exemplo.

Encalhados numa ruga do contínuo espaço-tempo (84) - Nacional e socialista

Backward, comrades!
‘Corbyn is against the EU because it limits a Labour government’s ability to control business – so he’s a nationalist.
‘And he wants to take control of businesses – so he’s a socialist.
‘Put that together and he’s a national socialist… I just hope he’s checked the Jewish community are OK with that.’

Dito por Matt Forde, um comediante, no Festival de Edinburgo em Agosto, citado pela Spectator

O mesmo poderia ser dito mutatis mutandis a respeito de qualquer das luminárias da extrema-esquerda doméstica, desde o camarada secretário-geral até ao tele-evangelista promovido a figura de cera do regime.

24/09/2018

Crónica da avaria que a geringonça está a infligir ao País (154)

Outras avarias da geringonça e do país.

Começo mais esta crónica citando Francisco Louçã que, com o seu conhecimento profundo da partidocracia doméstica, reconhece na sua coluna de 2/3 da broadsheet posta à sua disposição pelo semanário de reverência que o PS é o único partido em que a elite tão habituada aos carinho do Estado confia para a servir. Por uma vez, estou com o tele-evangelista.

Continuo, tirando o meu chapéu ao maquiavelismo de fancaria de António Costa na nomeação da nova PGR que apanhou o presidente dos Afectos com as calças na mão e o deixou irremediavelmente derrotado, ridicularizado pelo insucesso das suas manobras e exposto na sua duplicidade e pusilanimidade.

Os melhores professores do mundo, segundo o presidente da República, os que mais adoecem segundo a CE, dos melhores pagos segundo a OCDE, comandados pelos seus sindicatos (que por inerência devemos classificar também como os melhores do mundo), já anunciaram que vão continuar a sua greve em Outubro para tentar extorquir aos contribuintes o «descongelamento das carreiras». Já os taxistas, que aguardam ser promovidos pelo PR a melhores do mundo, garantem que «não saem das ruas», não para transportar a sua freguesia mas para protestar pela concorrência.

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Os portugueses têm os políticos que escolhem e a esquerda que preferem

Os políticos que escolhem

«É o mesmo erro da crise anterior, é espantoso, mas de facto não aprendemos. Mas se sobrevivemos à anterior, não vale a pena entrar agora em pânico. Da outra vez não foi o fim do mundo, também não vai ser na próxima. E em princípio a próxima crise não vai ser tão má como a anterior que foi a pior desde a Segunda Guerra Mundial. Nem no 25 de Abril caímos tanto como entre 2008 e 2013. E a culpa não é dos governos, é da sociedade portuguesa que quer ser enganada. Se algum político disser aquilo que estou a dizer nunca mais é eleito. Se algum político disser aquilo que estou a dizer nunca mais é eleito. Os políticos não são maus, quem são maus são os eleitores que gostam de ser enganados e quem lhes vende a ilusão eles compram. E não é por desconhecimento porque não só têm acesso aos dados estatísticos como passámos por uma situação semelhante há muito pouco tempo.»

A esquerda que preferem

«A esquerda, sobretudo a extrema-esquerda portuguesa está enfeudada a meia dúzia de corporações: sindicatos, setor público, pensionistas que são os seus eleitores e servem esses interesses. E até estão disponíveis a penalizar os pobres com impostos para poderem servir o aparelho estatal que é de facto a sua finalidade. Também é verdade que o aparelho estatal sempre foi de Esquerda. Os pobres não têm voz em Portugal porque são pobres e porque os partidos de Esquerda deixaram de lhes dar voz. E esse é um dos principais problemas da nossa democracia e quem diz os pobres, diz os imigrantes, ou seja, as classes desfavorecidas que não têm ninguém que fale deles porque a Esquerda que tradicionalmente falava é atualmente corporativa e está ligada aos aparelhos à volta do Estado. E a Igreja que também falava deles não tem grande voz em Portugal.»

João César das Neves em entrevista ao jornal SOL.

23/09/2018

CASE STUDY: Quem manda na câmara de Lisboa (4)

Nota prévia: nos posts anteriores citaram-se fragmentos da entrevista do jornal SOL a Fernando Nunes da Silva, antigo vereador e neste citam-se dois artigos do Expresso sobre o mesmo tema; esta série pode ser lida como sequência de uma outra série Câmara de Lisboa, uma aplicação prática da lei de Parkinson,

Empresa municipal oferece mais 40% a altos quadros da Câmara

«Os trabalhadores do município de Lisboa que transitem para a unidade da autarquia que terá nas mãos as novas obras e empreitadas na cidade — a Sociedade de Reabilitação Urbana (SRU), já existente mas agora dotada de novos poderes — terão um acréscimo salarial que em alguns casos chega a 40% da sua remuneração atual. (...)

“A sensação que temos na Câmara é que estão a ser convidados os quadros de confiança pessoal do vereador Manuel Salgado e dos seus colaboradores próximos”, acrescenta. Salgado acumulará o cargo no executivo camarário com a presidência da SRU. (...)

Salgado leva para aquela Sociedade pessoas da sua equipa que já o acompanham em lugares de liderança nos serviços da Câmara. (...)

... uma “câmara paralela que se exime ao controlo dos vereadores” (Carlos Moura, CDU) ou “uma espécie de Parque Escolar”, em que “as obras deixam de ter qualquer escrutínio” (João Gonçalves Pereira, CDS). Com efeito, absorvendo praticamente todas as obras e projetos atribuídos até agora a estruturas municipais (a autarquia no futuro só ficará com os trabalhos de conservação), as decisões da SRU deixam de ter o escrutínio dos órgãos municipais, nomeadamente das forças da oposição, ou ele mantém-se unicamente na fase inicial de qualquer obra.»

Obra quase pronta, investigação do MP em curso

«Quem se detém uns instantes na Avenida Fontes Pereira de Melo, uns metros acima do antigo Fórum Picoas (agora Altice),  (...)

O volume do edifício (com 17 andares a cima do solo e quase 68 metros de altura de fachada), dando ares de ter já a parte estrutural terminada, é a expressão mais evidente de um processo controverso. (...)

Aconteceu em 2011, quando se discutia a revisão do Plano Diretor Municipal (PDM) que viria a permitir um aumento de construção no local. Ao proprietário de então, a Câmara fixou em junho desse ano a edificabilidade permitida pelo plano em vigor. Impedido de construir mais do que pretendia, e a braços com uma hipoteca, o dono do imóvel teve de entregá-lo ao banco (o BES) para liquidar a obrigação.

Pouco depois, com o novo PDM, aos novos proprietários viria a ser permitido aumentar consideravelmente a volumetria. A torre de Picoas é um dos três casos de grandes obras em Lisboa que se mantêm sob investigação do Ministério Público (MP), como confirmou nesta semana ao Expresso fonte oficial da PGR. As outras duas são o alargamento do Hospital da Luz e as obras, entretanto suspensas, na segunda circular.

Quando vê os seus poderes reforçados, com a presidência da SRU, o homem que há mais de uma década giza a política de Urbanismo em Lisboa vê intensificar o escrutínio sobre algumas das suas decisões.»

DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (61) - Um adereço do regime para selfies, beijinhos e abraços?

Outras preces

Desta vez foi demasiado, até para Marcelo. As suas falhas de carácter como pessoa e as suas fraquezas como político ficaram patentes na comédia da nomeação do PGR.

Mentira e duplicidade: depois de vir soprando para os mídia durante semanas a sua pretensa opção pela recondução de Joana Marques Vidal, de ter encomendado através da sua porta-voz Ângela Silva um título de primeira página do ExpressoAcordo à vista para manter a PGR»), Marcelo acabou a dizer que a sua opção pelo «mandato único» estava escrita há anos, uma mentira tão óbvia que até a sua porta-voz se viu forçada a desmenti-la lembrando que Marcelo chegou a subscrever em 1997 com Guterres um documento sobre a revisão constitucional onde se referia o mandato do PGR «de seis anos, sem limite de renovação». Depois de soprar que teria já convencido uma hesitante JMV a aceitar renovar o mandato, a própria veio dizer publicamente a questão nunca lhe tinha sido colocada.

Pusilanimidade e falta de coragem: tentando encostar Costa à parede, Marcelo acabou ele próprio encostado por Costa, e acobardou-se. A sua porta-voz explica no semanário de reverência que «uma vez criado um clima de braço de ferro em torno deste dossiê, poderia penalizar o Presidente se vingasse a vontade do PS».

Com este desfecho e uma subida do PS nas sondagens, Marcelo condena-se à irrelevância gradual. Se o PS tiver a maioria nas próximas eleições Marcelo transformar-se-à num adereço do regime para selfies, beijinhos e abraços.

Em suma, assenta-lhe bem o chapéu que Passos Coelho mencionou e que Marcelo de pronto enfiou na sua cabeça, estamos perante um «catavento de opiniões mediáticas», que mudou o palco dos estúdios de televisão para Belém.

22/09/2018

O regime por agora está salvo. Mas estará mesmo?

«Um comunicado às 21h, já depois de ter passado a hora dos telejornais e a possibilidade de os diários trazerem grandes reacções pela manhã. Em dia de futebol, para os canais por cabo não dedicarem demasiado tempo ao assunto, já que era indispensável debater as incidências do formidável Sporting-Qarabag. Na despedida de Marcelo da universidade, para que o tempo de antena presidencial fosse ocupado por um fait-divers académico-social, em vez da substituição da procuradora-geral da República. Esta é a estratégia de duas consciências pesadas, muito reveladora das verdadeiras intenções de António Costa e de Marcelo Rebelo de Sousa. (...)

Mas se Governo e Presidente queriam tanto alguém com o perfil de Joana Marques Vidal, porque é que não voltaram a convidar Joana Marques Vidal?»

É uma bela teoria da conspiração e uma boa pergunta de João Miguel Tavares no Público, mas uma e outra passam ao lado da questão importante, a saber: se a recondução da Joana Marques Vidal como PGR seria uma ameaça ao regime, o facto de não ter sido reconduzida, graças a Costa e a Marcelo, finalmente unidos na defesa do regime - sublinhe-se e agradeça-se-lhes -, poupará o regime a mais tribulações?

Como um líder que quer parecer duro, acaba a parecer frouxo ao encomendar uma declaração de fidelidade

«Salvador Malheiro, vice de Rio e líder da distrital de Aveiro, fez ronda pelas distritais para assinarem posição conjunta de "apoio inequívoco ao líder" e "repúdio da atuação de alguns militantes". »

21/09/2018

La novlangue l'emporte sur le français

Os organizadores de encontros e de manifs em França começaram a convocar étudiant.e.s em vez de étudiants, militant.e.s e adhérent.e.s  em vez de militants e adhérents, em obediência ao que o politicamente correcto designa como l'écriture inclusive que também pretende eliminar a regra da precedência da forma masculina sobre a feminina de que resulta escrever-se «des garçons et des filles inteligents».

Recentemente, um grupo de 314 professeurs e professeuses apresentou um manifesto para alterar essas regras gramaticais e evitar que «le masculin l'emporte sur le féminin».

Apesar da oposição da Académie Française, que se pronunciou formalmente contra «l'écriture inclusive», declarando a língua francesa em «péril mortel», o primeiro-ministro Edouard Philippe decidiu que todos os anúncios oficiais de emprego devem referir-se a «un candidat» ou «une candidate». Como escreveu há tempos a Economist, as referências a «candidat.e.s» continuarão estritamente «interdit.e.s». Por agora.

A final feminina do US Open à luz da luta de classes

«Serve este preâmbulo para voltar à cena que Serena Williams fez com Carlos Ramos há semana e meia. A leitura imediata, a que mais incendiou a generalidade dos media, foi a de que se tratava de uma luta entre uma mulher negra e um homem branco. Mas há outras leituras possíveis. É possível ver ali um confronto entre uma estrela mediática, com um enorme poder de marcar a agenda, e um anónimo de que nunca tínhamos ouvido falar. Também é possível ver ali a luta de classes em acção. Perdendo a final, Serena Williams ganhou, naquela noite, um milhão e 800 mil dólares. Qualquer coisa como quatro mil vezes mais do que Carlos Ramos, que recebeu 450 dólares. Se tivesse ganhado, a diferença seria bastante maior, obviamente. Ou seja, foi uma discussão entre uma milionária e uma pessoa que, tanto quanto sabemos, é da classe média (ou média alta).

Pudemos ver, pelo coro indignado do New York Times, da New Yorker e da Newsweek, entre outros, que a generalidade da esquerda americana se identificou com a primeira causa. A acreditar no inquérito que refiro no primeiro parágrafo, se o mesmo se tivesse passado na África do Sul, a maioria negra ter-se-ia identificado com Carlos Ramos. Mas, pelos vistos, nos Estados Unidos, a ideologia que domina o Partido Democrata está bem representada pela assistência da final do U.S. Open.»

Excerto de A identidade da esquerda, no Observador. Luís Aguiar-Conraria mostra como a esquerda bem-pensante pode ressuscitar a luta de classes em vez do (ou além do) combate pela igualdade de sexos, perdão, géneros e pelos direitos das minorias.

20/09/2018

CASE STUDY: Quem manda na câmara de Lisboa (3)

Nota prévia: nesta série de posts citam-se fragmentos da entrevista do jornal SOL a Fernando Nunes da Silva, antigo vereador; esta série pode ser lida como sequência de uma outra série Câmara de Lisboa, uma aplicação prática da lei de Parkinson,

[Continuação de (1) e (2)]

«Nesta visão autocrática do Salgado, da sua cidade, ele é que escolhe quem são os protagonistas para o seu desenho. Não acha estranho que 12 anos depois não haja um único concurso público em Lisboa?  (...)

A partir do momento em que, por exemplo, o Carrilho da Graça ganhou o concurso do terminal, tudo o que se passa à volta do terminal passa a ser atribuído ao Carrilho da Graça sem nenhum concurso. (...)

Porque a ordem dos arquitetos está capturada pelos arquitetos estrela que é a quem o Salgado atribui. Não é estranho que em 12 anos, por exemplo, Gonçalo Byrne não tenha nenhum projeto em Lisboa? A empresa Estoril Sol, quando era para demolir o hotel e construir outra coisa, primeiro contactou o Salgado, mas esse projeto não foi para a frente. Depois, contactou o Byrne, que fez o projeto e o Salgado nunca mais lhe perdoou. E por isso Byrne não trabalha em Lisboa. (...)

O desvelo do jornalismo de causas pelo Bloco

19/09/2018

CASE STUDY: Quem manda na câmara de Lisboa (2)

Nota prévia: nesta série de posts citam-se fragmentos da entrevista do jornal SOL a Fernando Nunes da Silva, antigo vereador; esta série pode ser lida como sequência de uma outra série Câmara de Lisboa, uma aplicação prática da lei de Parkinson.

[Continuação de (1)]

«O grande objetivo do Manuel era ser o quarto homem das grandes mudanças da cidade de Lisboa. Isto é o projeto dele e eu conheço-o, sei como é que ele o defende, etc. Portanto, isso faz parte de um determinado conceito de cidade e de arrogância muito grande de classe em relação àquilo que podemos chamar a classe popular e média baixa, de que não têm de se meter nestas coisas mais complexas. A visão de cidade é para os iluminados e a segunda circular era apenas uma das peças da transformação da cidade de Lisboa numa cidade de boulevards, com um espaço público altamente qualificado e essencialmente virado para a classe média, média alta e para o turismo de um certo nível. Esta é a visão subjacente e é possível provar isso através das propostas apresentadas pelo Salgado em 12 anos de mandato - nunca houve ninguém na CML, antes ou depois de Abril, tantos anos consecutivos e com tanto poder. (...)

A linha circular mostra bem o que é a visão da cidade dele, que é apenas a do turismo e dos grandes negócios imobiliários. E eu não acredito que o Salgado meta dinheiro ao bolso. Pode ser que encaminhe negócios fora de Lisboa para o Risco e para o filho para manter a família. (...)

Pro memoria (386) - Os universos paralelos do Estado Sucial socialista (2)

Há seis meses o Expresso publicou a notícia seguinte que comentámos neste post:

«Todos os agrupamentos de centros de saúde vão ter dentistas em 2019

Dos 55 agrupamentos de centros de saúde do país, apenas 24 possuem atualmente consultas de medicina dentária. Governo quer colocar “mais de metade dos [dentistas] que faltam” durante este ano e os restantes no primeiro semestre do próximo ano.» (Semanário de reverência)»


O que o secretário de Estado da Saúde, Fernando Araújo, disse aos jornalistas em Leiria foi que o governo está a trabalhar "activamente" nesse sentido o que em politiquês significa: para já está anunciado e isso é que conta, depois logo se vê. A coisa foi transformada em notícia pelo agitprop socialista e pressurosamente publicada pelo semanário de reverência que não cuidou de perguntar ao secretário como é que um governo que está a deixar o SNS a rebentar pelas costuras e em piores condições do que o governo dito neoliberal vai tratar dos dentes podres do povo ignaro.

Seis meses depois o mesmo secretário de Estado repetiu-se empurrando o objectivo um ano para a frente e a imprensa amiga (desta vez a SIC) também:

«Governo quer dentistas em todos os centros de saúde até 2020»

18/09/2018

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: O sonho português - sol na eira e chuva no nabal

«Mas, no fundo e salvo divergências nos detalhes, todos querem mais ou menos o mesmo, quanto mais não seja porque os seus eleitorados, na medida em que ainda não os trocaram pelos encantos da abstenção, querem todos mais ou menos o mesmo: o máximo possível de benefícios oferecidos pelo Estado com o mínimo possível de saque de parte do seu rendimento para financiar o rodízio orçamental.

Esse sonho português de Socialismo no Estado-Providência com Estado Mínimo no fisco é manifestamente intraduzível para a realidade. Ou o Estado fica sem meios para ser tão generoso quanto os portugueses desejam, ou precisa de lhes cobrar impostos bem mais elevados do que gostariam de pagar. Em certas alturas, acontece o que se passa hoje em dia: uma triste combinação destes dois cenários. Só podendo tirar-lhes muito para lhes dar pouco, o Estado português condena os portugueses a uma progressiva degradação das suas condições vida, que só a conjuntura internacional, quando favorável, vai aliviando.»

Uma polémica portuguesa, Bruno Alves no Jornal Económico

CASE STUDY: Quem manda na câmara de Lisboa (1)

Nota prévia: nesta série de posts citam-se fragmentos da entrevista do jornal SOL a Fernando Nunes da Silva, antigo vereador; esta série pode ser lida como sequência de uma outra série Câmara de Lisboa, uma aplicação prática da lei de Parkinson.

«Saí no final do mandato de 2013, por uma razão extremamente simples e compreensível: o Manuel Salgado na altura fez um xeque-mate ao António Costa em que exigiu ficar com todas as obras e com todo o pelouro das Obras, inclusivamente com a rede viária: ‘Ou é tudo ou nada’, são palavras textuais dele. (...)

Estamos a falar de 2011 e isso era importante porque havia um conjunto de obras relativamente emblemáticas e do ponto de vista mediático com uma certa força - a Casa dos Bicos, a Casa-Museu Júlio Pomar, os Terraços do Carmo do Álvaro Siza -, onde eu tinha levantado algumas objeções a alguns caprichos dos senhores arquitetos que implicavam uma duplicação dos custos iniciais das obras, que eu achava que não devia transigir acerca disso. Na altura, o Manuel Salgado, que era a responsável por esse projeto, achava que isso podia pôr em causa a conclusão dessas obras emblemáticas. Por outro lado, tinha havido um desaguisado bastante forte sobre aquele antigo restaurante de Monsanto, o Panorâmico, onde se queria fazer o quartel central do Regimento de Sapadores de Bombeiros, com um investimento de 40 milhões de euros, uma coisa completamente louca, com três caves escavadas em rocha, em que todos os bombeiros tinham um lugar de estacionamento privativo - um custo completamente faraónico e eu disse: ‘Nem pensar’. Disse que não assinava aquele tipo de despesa. Portanto, havia esse tipo de coisas e  Costa acedeu ao ultimato de Manuel Salgado que ficou com o pelouro todo das Obras. (...)

17/09/2018

Crónica da avaria que a geringonça está a infligir ao País (153)

Outras avarias da geringonça e do país.

Numa altura muito conveniente para o governo, foram divulgados pela CE dados embaraçosos para a Fenprof: «mais de metade das baixas na educação foram fraudulentas» e, logo a seguir, o Education at a Glance da OCDE veio revelar que em termos comparativos os professores não se podem queixar de ser mal pagos. Afinal, ganham o mesmo dos franceses e espanhóis e mais do que os italianos, enquanto em média os trabalhadores portugueses ganham menos entre 40% a 55% do que os desses países.

Na próxima semana teremos mais dois dias de greves dos enfermeiros e a ameaça que se não resultarem serão seguidos no dia 25 de «uma medida de abandono» (Expresso), seja lá o que isso for. As greves nos portos às horas extraordinárias, de que se fala pouco, continuam com os de Lisboa e Setúbal. Em consequência, a descarga de contentores que se faria em horas demora dias o que levou a Maersk, o maior armador mundial, a deixar de escalar Lisboa. O que explica a falta de horas extraordinárias ter esse efeito? Não são horas extraordinárias, são ordinárias, porque os sindicatos controlam as contratações e há uma crónica falta de estivadores.

A defesa dos centros de decisão nacional (25) - Já sobra muito pouco das pratas da família

[Continuação de (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10), (11), (12), (13), (14), (15), (16), (17), (18), (19), (20), (21), (22), (23) e (24)]

Recordemos, uma vez mais, os inúmeros manifestos pela defesa dos centros de decisão nacional, alguns deles assinados por empresários que passado algum tempo venderam a estrangeiros as suas empresas e as inúmeras declarações no mesmo sentido da esquerdalhada em geral. Recordemos também que esta necessidade de vender o país aos retalhos surge pelo endividamento gigantesco de públicos e privados e pela consequente descapitalização da economia portuguesa, consequência de décadas a viver acima das posses.

Recorde-se também que o Novo Banco, o "banco bom" que restou do BES foi vendido ao fundo americano Lone Star e já foi recapitalizado pelo Fundo de Resolução em 6,7 mil milhões (792 milhões só da última vez) o que nos leva a imaginar o que será o "banco mau".

Antes disso, a Tranquilidade, seguradora do BES, tinha sido vendida ao fundo Apollo. A semana passada a GNB Vida, sucessora da Tranquilidade Vida, que tinha ficado como participada do Novo Banco, foi vendida à Bankers Insurance Holdings.

Ponto de situação do sector financeiro: na banca além de umas miudezas, como o MG e as Caixas Agrícolas, resta sob controlo português a Caixa Geral de Depósitos, uma espécie de Putain de la République; nos seguros restam as miudezas controladas pelas miudezas bancárias, como a Lusitânia Seguros e Vida e a CA Seguros e Vida.

E qual é o problema se, muito provavelmente, esses bancos e seguradoras forem melhor geridos por accionistas estrangeiros? Não é um problema. Problema é que já sobra muito pouco das pratas da família para pagar o muito que sobra das dívidas.

16/09/2018

A recondução da Joana Marques Vidal como PGR seria uma ameaça ao regime

Porquê uma ameaça ao regime?, perguntarão os distraídos. Recordemos o sossego e harmonia em que se vivia no Portugal dos Pequeninos antes de JMV se mudar para a Rua da Escola Politécnica e compare-se com o que se passou desde então.

Sem pretender ser exaustivo, foram acusados um ex-primeiro-ministro que cumpriu dois mandatos um deles com maioria absoluta e não por acaso se apelidou a si próprio de «animal feroz», vários banqueiros, um deles não por acaso conhecido por «Dono Disto Tudo», gestores mediáticos, membros de um governo em exercício, dirigentes dos maiores clubes de futebol, por último uma instituição como a Protecção Civil cujos dirigentes eram amigos do primeiro-ministro e até autarcas itinerantes do bloco central.

É preciso dizer mais? É preciso explicar porquê, justamente preocupados, a ministra da Justiça Socialista, o primeiro-ministro e resmas de luminárias socialistas e até o líder do PS-D já se pronunciaram pela evidente inconveniência da recondução e por um regresso à harmonia e ao sossego?

E não só eles. Segundo um inquérito da opinião da Eurosondagem, esse paradigma de competência, independência e isenção, só 43,8% dos portugueses são a favor da recondução e a maioria (44,4%) são a favor do sossego e harmonia e, portanto, contra a recondução.

Lost in translation (310) - Não é suspeito, disse ele

«Fernando Medina esteve esta semana na SIC e o jornalista Bernardo Ferrão fez-lhe a pergunta: “A Torre de Picoas está avaliada em cerca de 120 milhões de euros, e o terreno onde foi erguida era de um empresário que achava que podia ali construir entre 12 a 14 mil metros quadrados. Foi-lhe dito que não, que não o podia fazer. Ele acabou por vender o terreno ao BES por um euro, e depois o PDM foi alterado. A capacidade de construção aumentou para 24 mil metros quadrados e fez-se esta torre. Isto não é suspeito, Fernando Medina?” Fernando Medina respondeu: “Não, não é suspeito.”»

Contado por João Miguel Tavares no Público

À primeira vista, pode parecer suspeito o presidente de uma câmara onde se passam coisas suspeitas garantir que «não é suspeito». À segunda vista, até pode perceber-se. Em boa verdade, depois de tudo o que se sabe que se passou e se passa na câmara de Lisboa, há pouco espaço para a suspeita.