Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

30/03/2020

SERVIÇO PÚBLICO: Leitura recomendada sobre o Covid-19

Afinal quando (e como) é que isto vai acabar?, um artigo de José Manuel Fernandes no Observador que faz em minha opinião faz uma síntese, rigorosa mas acessível, do que sabe sobre a pandemia e sobre as medidas para a combater. É um exemplo de jornalismo profissional e responsável, infelizmente pouco frequente num meio infestado pelos vírus da incompetência e do achismo e das causas.

Crónica da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa (25) - Em tempo de vírus (III)

Avarias da geringonça e do país seguidas de asfixias

Estamos em guerra?

Sim, é o que diz o governo por bocas várias, incluindo a da ministra da Saúde e até do Dr. Mário Centeno que com as suas cativações e outros expedientes orçamentais deixou o exército para esta guerra sem munições.

É normal. A história mostra que os governos quando se sentem entalados frequentemente inventam um inimigo externo, a maior parte das vezes para tentar entalar os inimigos internos.

Os ricos que paguem a crise

Vocifera em coro quase toda a nomenclatura do regime, invocando as supostas obrigações de solidariedade da Óropa para com o Portugal dos Pequeninos e exigindo coronabonds. É uma espécie de reedição do mote maoista do PREC os ricos que paguem a crise.

O Dr. Costa entrou no coro como solista no papel de “pedinte mal criado”, engrossou a voz e apelidou de «repugnante» o discurso do ministro das Finanças de um dos ricos que, diz o Dr. Costa, defendeu que se deveria averiguar o que andaram os pedintes a fazer com o dinheiro durante de 6 anos de crescimento da Zona Euro. Pela parte portuguesa respondi aqui: o Dr. Costa gastou-o em acções da mais pura solidariedade socialista para promover o bem-estar da sua freguesia eleitoral.

E quem são os ricos? perguntareis e eu respondo com o diagrama seguinte: são os azuis. O que, por casual coincidência, faz dos vermelhos os pobres, como na vida real.

28/03/2020

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (26) - Até o vírus é pretexto para o jornalismo de causas ser mortalmente ridículo

Outros portugueses no topo do mundo.

Contextualizando: o Imperial College COVID-19 Response Team publicou no dia 16 de Março o relatório «Impact of non-pharmaceutical interventions (NPIs) to reduce COVID-19 mortality and healthcare demand», aqui citado dias depois, onde concluiu, com base nos números até então conhecidos, que da estratégia do governo de não recorrer ao confinamento poderia resultar uma carga excessiva para o NHS e seu provável colapso. Essas conclusões levaram o governo inglês a alterar a estratégia e decretar o confinamento.

No melhor pano cai a pior nódoa. Neste caso o pano é o jornal Observador que, não tendo acesso a Neil M. Ferguson, vice-reitor da School of Public Health do Imperial College e primeiro signatário daquele relatório, adoptou o luso-método de quem não tem cão caça com gato e resolveu entrevistar Francisco Veloso, ex-director da Católica Lisbon School of Business and Economics até 2017 e actual reitor da Imperial College Business School.

A prestação de Francisco Veloso durante os 13 minutos que durou a entrevista foi o que se poderia esperar de um reputado académico com um excelente currículo: objectiva e informada (e politicamente correcta, esta não era necessária, mas nos tempos actuais é difícil fazer carreira de outro modo). Teve ainda o bom senso de não entrar pelo campo da medicina e da epidemiologia, visto que é um economista e nada teve a ver com o relatório da School of Public Health.

So far so good. E qual foi o título escolhido para a entrevista?

«O português que ajudou Trump e Boris Johnson a desviar-se da "situação extrema" de Itália»

E, para que não restassem dúvidas sobre quem seria o português que fez tal coisa, acrescenta-se: «(...) Francisco Veloso explica como influenciou os dois governos.» É claro que Francisco Veloso está inocente de ter feito e de ter explicado uma coisa que não fez.

Quem não está inocente é o Observador que adoptou o pior do jornalismo de causas lusitano, especialista em alimentar a necessidade patética, infantil e doentia de se construírem ficções para fingir que «somos muito bons, somos dos melhores dos melhores», enquanto desperdiçamos as oportunidades para ir fazendo o que podemos fazer e elevar a fasquia para fazermos mais e melhor. Sim, eu sei que já escrevi isto várias vezes, mas apenas porque aquilo está sempre a ser feito.

Entretanto, actualizei a pesquisa no Google da expressão "português no topo do mundo" que há 5 anos tinha 5.900 resultados e agora apresenta 10.700, o que mostra que com idade não ganhamos necessariamente sabedoria, apenas ficamos mais velhos.

De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva (2)

Na sequência do primeiro post, procurando uma visão factual e um exercício de racionalidade expurgado da paranóia e das teorias da conspiração sobre a pandemia em curso que contaminam as redes sociais e os mídia, publico uma versão em tradução automática do artigo «How deadly is the coronavirus? It’s still far from clear» do médico John Lee, professor de patologia recém-aposentado e ex-patologista consultor do NHS.

«Ao anunciar as mais abrangentes restrições à liberdade pessoal na história de nossa nação, Boris Johnson seguiu resolutamente os conselhos científicos que recebeu. Os assessores do governo parecem calmos e controlados, com um sólido consenso entre eles. Diante de uma nova ameaça viral, com um número crescente de casos diariamente, não tenho certeza de que algum primeiro ministro teria agido de maneira muito diferente.

Mas gostaria de levantar algumas perspectivas que dificilmente foram referidas nas últimas semanas e que apontam para uma interpretação dos números bastante diferente daquela que serve de base ao governo. Sou professor de Patologia e consultor do NHS recém-aposentado e passei a maior parte da minha vida adulta nos cuidados de saúde e na ciência - campos que, com muita frequência, são caracterizados por dúvida e não por certeza. Há espaço para diferentes interpretações dos dados actuais. Se algumas dessas outras interpretações estiverem correctas, ou pelo menos mais próximas da verdade, as conclusões sobre as acções necessárias mudarão em conformidade.

A maneira mais simples de julgar se temos uma doença excepcionalmente letal é examinar as taxas de mortalidade. Há mais pessoas morrendo do que esperávamos morrer de qualquer maneira em uma semana ou mês? Estatisticamente, espera-se que cerca de 51.000 morram na Grã-Bretanha este mês. No momento em que escrevo este artigo, 422 mortes estavam ligadas ao Covid-19 - 0,8% do total esperado. Em uma base mundial, espera-se que 14 milhões morram nos primeiros três meses do ano. As 18.944 mortes de coronavírus no mundo representam 0,14% desse total. Esses números podem disparar, mas agora são mais baixos do que outras doenças infecciosas com as quais vivemos (como a gripe). Não são números que, por si só, provocassem reacções globais drásticas.

27/03/2020

Lost in translation (334) - Repugnante, disse ele, indignado

Wopke Hoekstra, o ministro das Finanças holandês, defendeu numa vídeoconferência que deviam ser investigados os países que, depois de sete anos de crescimento da Zona Euro, se queixam de falta de dinheiro para combater a pandemia.

Recorde-se que Jeroen Dijsselbloem, o antecessor do Sr. Hoekstra, já havia implicitado, com grande indignação da nomenclatura do Portugal dos Pequeninos, que alguns países gastariam o dinheiro dos outros em putas e vinho verde, para usar uma expressão vernacular que Jero teria usado se a conhecesse. Portugal não foi mencionado, o que não impediu o Dr. Costa e os seus apoderados de enfiarem a carapuça e expressaram a sua mais veemente indignação.

Apesar de uma vez mais Portugal não ter sido citado pelo Sr. Hoekstra, o Dr. Costa sentindo os seus telhados de vidro, puxou dos galões da indignação patriótica e declarou impante «esse discurso é repugnante no quadro de uma União Europeia. E a expressão é mesmo essa. Repugnante

Compreende-se a indignação do Dr. Costa, afinal ele não tem dinheiro para combater a pandemia mas não porque o tenha gasto em putas e vinho verde. Pelo contrário (não tenho a certeza se esta expressão é adequada), gastou-o em acções da mais pura solidariedade socialista para promover o bem-estar da sua freguesia.

O coronavírus no agitprop do Novo Império do Meio

«Peço-lhe também, meu caro leitor, que tire dois minutos do seu dia e leia a conta do porta-voz dos Negócios Estrangeiros da China no Twitter, uma rede proibida para o cidadão chinês comum. Verá, com alguma estupefacção, o empenho das autoridades chinesas em contabilizar os mortos de coronavírus registados fora da China, como que ilibando o regime chinês de qualquer responsabilidade. É isso mesmo, meu caro leitor. A China está a usar o número de mortos europeus como propaganda, como álibi para a sua gestão do vírus desde o ano passado. Vou repetir, porque não o digo de ânimo leve: a China está a usar mortos como propaganda.

Se lermos o Global Times, um jornal do regime, propriedade do seu Comité Central, apercebemo-nos de atitudes de similar desumanidade. A 11 de março, a publicação estatal assumia que se os Estados Unidos excluíssem a Huawei da instalação do 5G não teriam acesso a máscaras e material médico fabricado na China. Sim, também é disto que estamos a falar: um país que usa uma pandemia para fazer chantagem e promover as suas empresas. Pense bem nisso, meu caro leitor, da próxima vez que vir um político português encantado com dinheiro chinês.
»

Excerto de «A verdade sobre a China que não podemos ignorar (mas que vamos ignorar)», Sebastião Bugalho no Observador

26/03/2020

O tempo de antena do Dr. Costa também contou?

Público

É assim como dizer aos agarrados que o dealer habitual está a fazer descontos

Público

Dúvidas (296) - Será o Gabinete de Monitorização uma espécie de Gosplan?

Vinte e sete economistas subscreveram uma espécie de manifesto a propor a criação de um Gabinete de Monitorização «para monitorizar a crise composto por quadros quer do sector privado quer público, bem como de representantes do governo

Não sei se estes 27 podem ser considerados uma espécie de macroeconomistas conexos ou simplesmente economistas mediáticos, sendo certo que a maioria são cientistas do Estado. Além destas dúvidas, tenho mais uma: será o Gabinete de Monitorização uma espécie de Gossudarstvênnîi Komitet po Planirovâniu, uma instituição criada em 1921, mais conhecida pelo petit non Gosplan.

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Não se deve confiar demasiado nas escolhas de eleitores que confiam nestes governantes

Sondagem ICS-ISCTE nos dias 22 e 23-03 para o Expresso
O que pensar de eleitores que maciçamente dizem confiar em gente que os manipulou, lhes contou estórias, fugiu às responsabilidades, mostrou notável incompetência, etc. (um grande ETC.)? Que estão tão borrados de medo, abandonados pela Óropa, e não havendo mais salvadores à mão de semear se conformam com estes?

25/03/2020

Bons exemplos (131) - Em 24 horas 405 mil responderam ao apelo

«So much of the news has been dominated by people who don't seem to care about others during the coronavirus outbreak that it's often easy to forget how many want to help in any way they can. From the notes pushed through letterboxes from neighbours offering help, to the doctors and nurses returning to the NHS, there have been plenty of examples of how good people can be to one another in a crisis like this. Today we were given a stunning statistic that was unusually cheering against the rising death toll: 405,000 people have signed up as volunteers to help the health service during this outbreak. They will deliver food and medicines, take patients to appointments and check in by phone on those who are in isolation.

Boris Johnson announced the figure at the daily Downing Street press conference. The call for volunteers was just 24 hours ago, and the target was to recruit 250,000 helpers. It currently only applies to England, but there are hopes to replicate it in Wales too. Johnson said the helpers would be 'absolutely crucial in the fight against this virus'.»

[Da newsletter da Spectator]

No Portugal dos Pequeninos gostamos muito de encher a boca com "afectos" com "solidariedade" e "solidário" e pensamos do alto da nossa suposta superioridade moral que os "bifes" são uns mercantilistas que só pensam em dinheiro e negócios. É melhor pensar duas vezes.

Isto não é uma previsão, é um suponhamos...



… suponhamos que o corona tinha estudado matemática. Nesse caso, se adoptasse um ajustamento polinomial de grau 4, os números de infectados e de óbitos, que até ontem eram 2.995 e 43, dentro de duas semanas poderiam atingir mais de 5.000 e mais de 500, respectivamente.

Como não há a certeza se o corona sabe matemática ou se escapa à matemática, pode acontecer como ao Ronaldo das Finanças que previu que o PIB cresceria 1,9% em 2020 e o corona pode fazer o PIB decrescer 20%.

O vírus do politicamente correcto está a infectar a justiça (para já a britânica)


«Em Dezembro, um tribunal britânico do trabalho decidiu que o Centro para o Desenvolvimento Global, um think tank, actuou legalmente ao não renovar o contrato de Maya Forstater por ter twittado que o sexo biológico de uma pessoa é imutável. Forstater, uma investagador, twittou várias mensagens críticas à ideia de que quem nasce homem se pode tornar mulher. Ela fez isso a partir de sua conta pessoal, mas incluiu o nome do seu empregador no perfil do Twitter. Depois dos seus colegas se terem queixado ao departamento de recursos humanos sobre sua conduta online, foi-lhe pedido para adicionar o disclaimer “as opiniões são as minhas”. Ela fez isso. Segundo o seu empregador, os colegas de trabalho opuseram-se a que ela publicasse uma foto de si mesma numa manifestação com uma faixa que dizia “Woman, noun, adult human female”. 

Os activistas de direitos trans aplaudiram, e os defensores dos direitos das mulheres e da liberdade de expressão ficaram horrorizados, porque foi criado um precedente. Em tribunal, Forstater argumentou que a sua convicção de que os homens não se podem tornar mulheres deve ser protegida da mesma maneira que uma crença religiosa. O juiz discordou, declarando que suas opiniões "críticas do género" "não eram dignas de respeito em uma sociedade democrática" e não deviam ser protegidas.»

(Lido aqui)

24/03/2020

Crónica da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa (24) - Em tempo de vírus (II)

Avarias da geringonça e do país seguidas de asfixias

Esta é mais uma crónica especial sobre a resposta do governo do Dr. Costa ao Covid-19 e seus impactos na saúde e na economia.

O Dr. Costa do Covid-19 é um poucochinho menos mau do que o Dr. Costa do virar da página da austeridade

Pelo menos comparando-o com S. Exª. o PR, que vitimado pela sua hipocondria se enclausurou e passou a comunicar com os jornalistas na varanda de casa e a informar o país, por uma ligação Skype do mais rasca que já se viu, a sua proposta de estado de emergência, proposta que mais pareceu um álibi para a sua clausura.

O Dr. Costa sempre conseguiu manter uma poucochinho mais de gravitas e desta vez não se saiu mal nas suas comunicações. Mas o mal estava feito nos quatro anos anteriores onde se limitou a viver dos dividendos do turismo e das exportações, não fez uma só reforma e se dedicou a «repor os direitos» da sua clientela eleitoral deixando o aparelho administrativo de rastos, em particular o SNS incapaz de responder até ao business as usual quanto mais a uma situação de crise epidémica como a actual.

Cesse tudo quanto a antiga musa canta

Não acreditem em cenários miríficos de uma recessãozita mundial. Em relação à economia americana, mesmo as previsões mais realistas do Morgan Stanley de queda de 30% do PIB no 2.º trimestre e um aumento da taxa de desemprego dos 3-4% actuais para 12,8%, vão ser certamente ultrapassadas.

Aqui no Portugal dos Pequeninos vai ser uma hecatombe económica e financeira em cima de um endividamento pesado (em Janeiro o endividamento total público e privado voltou a aumentar 1,5 mil milhões atingindo 722,5 mil milhões), uma economia descapitalizada e uma produtividade medíocre. O turismo que representa quase um sexto do PIB em termos de impacto directo e um impacto total que pode atingir 25% do PIB vai sofrer um rude golpe. As exportações vão igualmente ser fortemente afectadas.

No conjunto, segundo a estimativa de Abel Mateus, que na circunstância temo seja optimista, haverá uma queda anual de 5,4% do PIB o que adicionado ao crescimento antes previsto de 1,9%, equivale a um impacto de 7,3%  resultante da pandemia. Em consequência, segundo Abel Mateus, a taxa de desemprego aumentará 5 a 7,5 pontos percentuais voltando ao níveis da crise anterior.

O cenário de Abel Mateus corresponde aproximadamente ao mais optimista dos três cenários da  Universidade Católica: quedas do PIB de 4%, 10% ou 20%  e aumento do desemprego para 8.5%, 10.4% e 13,5%. No vosso lugar, apostaria no último cenário.

A medicina do Dr. Costa para a ecoanomia

E que respostas tem o governo do Dr. Costa para enfrentar a inevitável crise? Em duas semanas anunciou sucessivamente medidas várias que começaram por 100 milhões (até parece mentira mas não é), continuaram com 200 milhões, 2.000 milhões, 9.200 milhões e 10 mil milhões. É o que se chama andar atrás dos acontecimentos e não augura nada de bom.

Não estamos preparados para enfrentar esta crise. Na verdade, já não estávamos preparados para enfrentar a longo prazo a situação "normal".

23/03/2020

CASE STUDY: Trumpologia (61) - E se Trump, desta vez, não estivesse totalmente errado?

Coronavirus «dies with the hotter weather» disse Donald Trump em 10 de Fevereiro.

Covid-19 Cumulative confirmed cases (Center for Systems Science and Engineering  at Johns Hopkins University

Wikipedia

Ainda é cedo para eleger Trump como uma autoridade científica só porque pode não ter dito mais um disparate. Como escrevi aqui, as pessoas como Trump falam muito e a propósito de tudo e, não tendo uma linha de pensamento coerente nem preocupações de verdade e rigor, dizem coisas completamente contraditórias. Por isso, é sempre possível a uma criatura normal com um módico de racionalidade encontrar algo no dilúvio verbal com o qual concorde.

Sim, a correlação não é causalidade, mas haver correlação não impede a causalidade, aumenta-a. Sim, certamente há vários factores que intervêm, mas a temperatura e humidade podem ser alguns deles. Em qualquer caso, é por isso que o título tem lá aquela interrogação.

22/03/2020

O Covid-19 e as idiossincrasias nacionais

Itália

Em 27 de Fevereiro Nicola Zingaretti, secretário nacional do Partido Democrata que participa no governo, uma semana antes de lhe ter sido diagnosticado Covid-19, twitou;


Ponto de situação por milhão de habitantes: infectados 886; mortos 80

Espanha

«Hospitais a colapsar, mas mantêm-se os engarrafamentos para sair das cidades ao fim de semana»
Ponto de situação por milhão de habitantes: infectados 611; mortos 37

Alemanha

Covid-19 é "o maior desafio desde a II Guerra Mundial" disse a chanceler alemã
Ponto de situação por milhão de habitantes: infectados 276; mortos 1

Portugal

O presidente da República, um conhecido hipocondríaco, fechou-se em casa duas semanas e fez uma comunicação ao país pelo Skype a propor o estado de emergência.
Ponto de situação por milhão de habitantes: infectados 147; mortos 1

21/03/2020

EU DIRIA MESMO MAIS: O estado de emergência como vacina contra o socialismo

«Nas seitas de esquerda, o primeiro critério de admissão é a inveja. O segundo é o descaramento. A inveja permite-lhes desejar a destruição da economia, e repetir com fervor o bordão “nada voltará a ser como antes”. O descaramento permite-lhes afirmar que a epidemia prova a nossa dependência do sector público. Por acaso, e descontando o desnorte das “autoridades” para efeito de alívio cómico, a epidemia tem vindo a provar pela enésima ocasião que depender do sector público é meio caminho andado para o desastre. Apesar dos esforços dos funcionários e de biliões em impostos, o SNS, que ao longo de anos serviu de estandarte heróico, é afinal uma ruína sem préstimo em situações sérias: duas ou três centenas de casos graves e aquilo desmantela-se como a indestrutível URSS em que alguns gostariam de nos transformar. Vale, se nos chegar a valer, a colaboração dos hospitais privados, dos laboratórios privados, das empresas privadas e dos cidadãos privados, entidades essencialmente malignas e ávidas por – o Diabo seja cego, surdo e mudo – lucro. E para aqueles que não chegarão a precisar de cuidados médicos, vale-nos o capitalismo para manter a internet, o streaming de filmes, os sites informativos, as “redes sociais”, o WhatsApp, as compras “on line”, a circulação de capitais, etc.

Na verdade, o capitalismo é o que vai tornando suportável esta clausura sem final previsto. A parte insuportável é providenciada pelo Estado, para cúmulo de emergência. O coronavírus, que nos colocou nas mãos dos senhores que mandam, doravante habilitados a decidir os destinos dos indivíduos até ao ínfimo pormenor, não é uma oportunidade para abolir o capitalismo, mas para experimentar a ausência parcial do capitalismo, a ausência de mercado pleno, a ausência de circulação indiscriminada, a ausência de liberdade enfim. O coronavírus, que nos reduziu a sombras, é uma oportunidade para experimentar o socialismo a sério. E perceber o seu imenso horror. E esperar que não dure. E ansiar, com infundado optimismo, que tudo, apesar de tudo, volte a ser como antes. Ou, estou a delirar, melhor que antes.»

Excerto de «O vírus é uma oportunidade para abolir o socialismo», Alberto Gonçalves no Observador

CASE STUDY: Trumpologia (60) - Más notícias para o Donaldo

Mais trumpologia.

Já aqui tinha concluído que o melhor candidato democrata para Trump ganhar um segundo mandato seria Bernie Sanders pelo seu lunatismo radical esquerdista que poderia levar uma parte dos eleitores democratas a absterem-se ou mesmo a engolirem o sapo e votarem Trump - como os comunistas fizeram com Soares exortados por Cunhal.

As coisas que já não estavam correr bem depois da Super Tuesday, pioraram com os resultados da primárias na Florida, Illinois e Arizona. Com 1.153 delegados até agora, contra 874 de Bernie Sanders, Joe Biden irá quase certamente ser nomeado o candidato do Partido Democrata.

Apesar de Biden poder reunir o voto de todos os eleitores democratas e até ter a maioria de votos na soma dos Estados, está longe de ser seguro que derrotará Trump por duas razões. O processo de contagem dos votos no colégio eleitoral favorece os pequenos Estados onde Trump poderá ter a maioria dos grandes eleitores - nas eleições anteriores foi eleito com menos 2,8 milhões de votos do que Hillary Clinton. A tribalização do eleitorado americano está tão acentuada que permite a Trump reter o voto de eleitores que, apesar de o poderem achar detestável, se convenceram que o voto em Trump é um voto anti-sistema e que he's draining the swamp, quando ele próprio é um produto típico do swamp.

E com essa auto-ilusão aceitam passivamente os "factos alternativos", as mentiras mais primárias, os maiores disparates e as contradições constantes de um discurso errático. Por falar nisso, veja-se o vídeo seguinte onde se mostram excertos das suas declarações nos últimos meses sobre o coronavírus.


Por exemplo, depois de ter desvalorizado durante semanas o risco de contágio, em conferência de imprensa na segunda-feira Trump recomendou o fecho das escolas, evitar grupos e comer em restaurantes. Também disse que o surto do coronavírus poderia durar até «July, August, something like that» um dia depois de garantir que tudo estava sob controlo.

Não quero concluir que Trump fez tudo errado, muito menos que esteja em desacordo com tudo o que defende, nem posso dizer que estou em desacordo com a sua doutrina, supondo que exista, porque não sei qual seja. Ainda ontem de manhã escrevi a um amigo, vagamente admirador do homem, que as pessoas como Trump falam muito e a propósito de tudo e, não tendo uma linha de pensamento coerente nem preocupações de verdade e rigor, dizem coisas completamente contraditórias. Por isso, é sempre possível a uma criatura normal com um módico de racionalidade encontrar algo no dilúvio verbal com o qual concorde. Em abstracto, até um psicopata ou um mentiroso compulsivo podem dizer coisas com as quais uma criatura normal concorda.