Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)
Mostrar mensagens com a etiqueta um país talvez normal mas rançoso. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta um país talvez normal mas rançoso. Mostrar todas as mensagens

09/08/2026

ARTIGO DEFUNTO: O título também poderia ser "Dois em cada três membros são funcionários públicos ou pessoas pouco dotados de iniciativa"

Expresso

Diz a anedota: notícia é um jornalista morder um cão e não o contrário. 

O facto do título do semanário de reverência, mas podia ser outro qualquer jornal, salientar os membros com pendor empresarial significa que os jornalistas de causas que o habitam acham esse facto singular e, ao contrário, achariam trivial que, por exemplo, todos os membros do governo dependessem do Estado sucial do Portugal dos Pequeninos. 

É todo um programa de vida.

02/08/2026

CASE STUDY: Perceberam mal. O que falta não são diplomas, é know-how. Now, how?

A valorização do canudo é um caso particular da valorização dos títulos que domina há séculos a cultura, isto é, o conjunto de valores, de crenças, de normas, de costumes, de conhecimentos e de símbolos, do Portugal dos Pequeninos. Daí a atribuir-se ao canudo propriedades mágicas na atribuição de estatuto social vai um pequeno passo, e daqui a imaginar-se que o "atraso" resulta da escassez de canudos vai outro passo mais pequeno, que os governos socialistas (do PS e do PS-D), com destaque para o programa «Novas Oportunidades», criado pelo governo do Sr. Eng. José Sócrates, que foi uma espécie de fábrica de diplomas que dariam acesso a 143 cursos profissionais, de aprendizagem e de ensino artístico especializado que o governo ofereceu aos candidatos que terminassem a equivalência ao 9.º ano de escolaridade que o programa atribuiu.

O resultado foi, em matéria de diplomas, a redução do nosso desalinhamento em relação à UE: dos 25 aos 29 anos, apenas 13,5% possuem escolaridade inferior ao ensino secundário e 44,4% concluíram o ensino superior. Não obstante, a escolaridade entre os empregadores é verdadeiramente um desastre, com mais de 40% só com o ensino básico, e isso é uma parte da explicação da baixa produtividade do trabalho.

O problema real não é a falta de diplomas, é a falta de competências, o saber como fazer.


O gráfico acima, extraído do trabalho de Óscar Afonso «Portugal tem mais diplomas, mas falta capital humano», publicado há dias, coloca-nos em 34.º lugar na proficiência média (*) em numeracia e literacia dos 38 países da OCDE.

Perante este handicap o que fazem as nossas elites merdosas? Autoelogiam-se dentro da respectiva bolha, dão graxa à plebe e exaltam as exageradas, e muitas vezes imaginadas, realizações do Portugal dos Pequeninos, que é outra maneira de se autoelogiarem.

_______________

(*) «A proficiência dos adultos em resolução adaptativa de problemas é avaliada através do PIAAC, um programa internacional da OCDE que mede a proficiência dos adultos em competências-chave de processamento de informação. A resolução adaptativa de problemas envolve a capacidade de atingir objetivos em situações dinâmicas, onde uma solução não está imediatamente disponível.»

31/07/2026

TIROU-ME AS PALAVRAS DE BOCA: O Portugal dos Pequeninos é «um Estado corporativista, com traços claros de capitalismo de compadrio» (andamos a dizer isso aqui há 23 anos e noutros sítios há mais tempo)

Portugal está preso num sistema de compadrio, com justiça lenta, reguladores capturados e um Estado que falha aos cidadãos, é, «em larga medida, um Estado corporativista, com traços claros de capitalismo de compadrio», onde a proximidade entre poder político e grandes grupos económicos continua a condicionar a concorrência, a produtividade e o crescimento económico.

James A. Robinson, Prémio Nobel da Economia em 2024, co-autor com Daron Acemoglu de «Porque Falham as Nações».

24/07/2026

Cada macaco no seu galho

Enviaram-me o meme aqui ao lado, ironizando as dificuldades de expressão de Jorge Jesus, novo seleccionador nacional e contrastando o seu conhecido défice de verbo com um salário várias vezes superior ao do Dr. Montenegro, a quem sobeja o verbo.

Achei o meme irritante por a piada se fundar em vários equívocos e preconceitos muito frequentes entre a intelectualidade merdosa do nosso Portugal dos Pequeninos que considera o futebol uma actividade imprópria de gente com status e vê os seus profissionais, geralmente gente pouco ilustrada, provenientes de uma casta inferior, ignorando serem os poucos profissionais cujo desempenho se faz em muitos casos num mercado internacional aberto e competitivo, com muito maior frequência do que qualquer outra profissão.

A piada só teria graça se Jorge Jesus fosse pago para fazer discursos, como muitos políticos cuja actividade se reduz a isso. Por exemplo, como o Dr. António Costa que disse de uma só vez uma pletora de alarvidades, como  “poder-lhe-dizia” (“podia dizer-lhe”), “competividade” (“competitividade”), “era o que eu estou” (“era o que eu estava”), “pulação” (“população”),  “protividade” (“produtividade”), “mobilição” (“mobilização”), “precalidade” (“precaridade”) (Cfr aqui). 

Diferentemente, Jorge Jesus é pago para conseguir resultados como os alcançados em vários clubes de Portugal, Brasil, Turquia e Arábia Saudita: Benfica (10 títulos), Al-Hilal (6 títulos), Flamengo (5 títulos), Sporting CP (2 títulos), Al-Nassr (1 título), Fenerbahçe (1 título).

23/07/2026

TIROU-ME AS PALAVRAS DE BOCA: O Portugal dos Pequeninos e o neoliberalismo que é afinal a economia de compadrio

«Há uma fraude intelectual no centro do debate político português, e é esta: a ideia de que Portugal é, ou alguma vez foi, uma economia liberal entregue à selva dos mercados. Sempre que algo corre mal — os salários baixos, a emigração, a habitação, a pobreza — a culpa é atribuída ao “neoliberalismo”, ao “mercado”, ao “capitalismo selvagem”. É uma mentira, e das mais consequentes que contamos a nós próprios, porque o diagnóstico errado garante o tratamento errado. O doente não morre de excesso de liberdade. Morre da sua ausência. (...)

No capitalismo de mercado, enriquece-se servindo melhor o cliente do que o concorrente. Ninguém está protegido, o consumidor é o árbitro e a falência é a sanção sagrada que liberta o capital mal empregue para quem o emprega melhor.

Na economia de compadrio é tudo ao contrário: O Estado escolhe os vencedores, os subsídios vão para os amigos, as normas são escritas para matar os pequenos e blindar os grandes já instalados e o lucro não vem do cliente, vem do lobbying. Deixa de se ganhar criando valor e passa a ganhar-se comprando um favor.»

Excerto de O Estado-empresário: Cinco séculos a fazer o mesmo, Pedro Santa Clara

02/07/2026

Continuamos muito "competivos", como dizia o Dr. Costa, e pouco competitivos

Continuação daqui e dali.

No último ranking de Competitividade do IMD, o Portugal dos Pequeninos volta a cair, desta vez para o 40.º lugar.


A queda resulta sobretudo de um score medíocre da eficiência empresarial, o que não deveria ser surpresa para ninguém que tenha um módico de conhecimento da estrutura empresarial e do funcionamento das empresas. 


À ineficiência empresarial não é alheio o facto de, num país com 11,4 milhões de residentes, existirem 1,5 milhões de empresas não financeiras, das quais 96% são microempresas (em muitos casos, meros expedientes de profissionais isolados para diminuir a punção fiscal), 3,9% são PME e os 0,1% residuais são as grandes empresas que representam 36,4% do VAB total. É isto que temos, empresas pequeninas num país pequenino, com mentes pequeninas e egos inchados, sofrendo do complexo de Eduardo Lourenço.

13/06/2026

ESTÓRIAS E MORAIS: Saberão eles o que é um líder forte que se borrife para o parlamento e as eleições?

Estória
  
Expresso

Em que partidos votaram esses 50% dos portugueses? Resistiriam esses 50% dos portugueses a um líder forte que adoptasse medidas indispensáveis, tais como o aumento da idade da reforma e/ou o aumento das contribuições para a Segurança Social e/ou a redução das pensões, o emagrecimento do Estado sucial, a qualificação e profissionalização dos quadros e a meritocracia da administração pública, a flexibilização da legislação laboral, incentivar a concorrência e o combate à cartelização, criar forças militares capazes de travar uma guerra moderna, etc. (um grande etc.)?

Recordemos o coro de protestos e queixas durante os anos da intervenção da troika que forçou o governo a tomar medidas indispensáveis, mas duras.

Em vez de culparem a democracia, que lhes permite escolher de acordo com os seus preconceitos, esses eleitores deveriam sentir-se responsáveis pelos seus preconceitos e pelas suas escolhas fundadas nesses preconceitos.

Já agora, olharam esses 50% para a História e viram os inúmeros exemplos de líderes fortes que se borrifaram para o parlamento e as eleições e foram tão incompetentes para governar como os líderes fracos e foram sobretudo competentes para impedirem as oposições de apresentarem alternativas?

Moral

Disse um líder forte que não se borrifou para o parlamento e as eleições, dois anos depois de as ter perdido, após ter enfrentado uma ameaça existencial para o seu país, ameaça conduzida por um outro líder forte que se borrifou para o parlamento e as eleições: 

«Many forms of Government have been tried, and will be tried in this world of sin and woe. No one pretends that democracy is perfect or all-wise. Indeed it has been said that democracy is the worst form of Government except for all those other forms that have been tried from time to time.…»

21/05/2026

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (81) - "Quem é capaz, faz, quem não é, ensina"

Outros portugueses no topo do mundo.

Seis escolas de gestão portuguesas atingiram boas posições no ranking mundial do Financial Times de formação de executivos. Está a ser um acontecimento muito festejado, com razão, visto que entre as noventa escolas do ranking encontramos seis portuguesas, o que corresponde a 6,7% das escolas do ranking, um excelente resultado para um país que representa apenas 0,13% da população e 0,29% do PIB nominal mundial.


Como é que tão excelente resultado nas escolas de gestão se explica num Portugal dos Pequeninos que é um desastre em matéria de gestão das empresas e, sobretudo, do Estado? Uma vez mais, só me ocorre a explicação de George Bernard Shaw na sua peça "Man and Superman": «Those who can, do; those who can’t, teach».
__________
A posição das universidades portugueses no ranking das 90 é a da primeira coluna (#).

19/04/2026

CASE STUDY: Democracias defeituosas (7) - O contributo do PS para a democracia em Portugal é quando deixa de governar

Outras democracias defeituosas.

O Portugal do governo PS, classificado como “flawed democracy” em 2023, melhorou em 2024 com o governo AD para “full democracy”, alcançando a 23ª posição. A pontuação de Portugal melhorou de 7,75 em 2023 para 8,08 em 2024 e voltou a subir para o 20.º lugar com 8,28 em 2025. 

Fonte

O governo do Dr. Montenegro é melhor a promover a democracia do que a reformar, talvez (um simples talvez) porque a maioria dos portugueses não gosta de reformas que cheiram a "sacrifícios" e, sobretudo, odeiam a incerteza, sendo que se há coisa em que os portugueses são notáveis é na aversão ao risco, talvez (um simples talvez) porque durante cinco séculos se deu uma espécie de anti-selecção, em que foram saíndo os afoitos e ficando os acomodados.


Já o governo do Dr. Trump faz o seu melhor para piorar a democracia e seu melhor para empatar guerras que não fazia ideia de qual o propósito com inimigos da terceira divisão, descendo mais uma vez para o 34.º lugar com 7,65 pontos.

11/04/2026

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (81) - Adamastor, o supercarro português (II)

Outros portugueses no topo do mundo. Continuação de Adamastor, o supercarro português

O Adamastor, o supercarro português petit nom Furia, pretende circular na estrada e «acelerar a 300 km/h para as Arábias e correr nas 24h de Le Mans». Duvidando por regra da megalomania lusitana compensatória do complexo de Eduardo Lourenço e da viabilidade de produzir o protótipo com €17 milhões, questionei há dois anos o ChatGPT e a resposta confirmou o meu cepticismo

Como agora foi anunciada a fase de testes na estrada, voltei a questionar desta vez o Use.AI que apresentou as seguintes estimativas que não dissiparam o meu cepticismo: 
  • Le Mans-level homologation: realistically $25–30M+ total.
  • Chances of full recovery: modest (~20–40%) unless you achieve strong branding or external investment.
_______________
A sort of Disclaimer:
Por causa da minha obsessão, digamos assim, de desfazer estes equívocos das supostas realizações grandiosas dos nacionais, já fui aconselhado a consultar um psiquiatra e até me insultaram. No entanto, ninguém me deu a oportunidade de explicar que o meu propósito não é denegrir a alma lusitana, o meu propósito quixotesto, concedo, é contribuir modestamente para os naturais do Portugal dos Pequeninos se livraram da megalomania envergonhada do complexo de Eduardo Lourenço, trocando as fantasias irrrealistas e o pensamento milagroso pelos propósitos ambiciosos, mas realizáveis. Propósito que, admito, pode ser uma manifestação de megalomania envergonhada.

03/04/2026

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (80) - Os satélites e a saga dos cacilheiros

Outros portugueses no topo do mundo.

Sucumbindo ao complexo de Eduardo Lourenço (*) , o Expresso, aka semanário de reverência, descreveu tão entusiasticamente a colocação em órbita de quatro satélites portugueses (+) Camões, Agustina, Pessoa e Saramago «que reforçam a chamada constelação Lusíada» e mais dois «um da Força Aérea e outro do Centro de Engenharia e Desenvolvimento (CEiiA), ambos pertencem à constelação do Atlântico» que dois dias depois deixou a missão Artemis II da NASA ao nível da travessia do Tejo por um dos novos cacilheiros eléctricos (-).

___________________

(*) Em homenagem ao escritor e filósofo português que identificou o «sentimento de fragilidade íntima inconsciente e a correspondente vontade de a compensar com o desejo de fazer boa figura, a título pessoal ou colectivo»,

(+) Os seis luso-satélites correspondem a 0,044% dos 13.700 satélites que se estima já tenham sido lançados, ou menos de 1/3 dos 18 satélites que competeriam aos 0,125% da quota mundial de tugas.

(-) Quem já esteja esquecido, pode ler aqui um resumo da saga dos cacilheiros eléctricos, saga que, em boa verdade, é um feito mais notável do que a colocação em órbita pelo Falcon 9 do Dr. Musk dos seis satelitezitos.

14/03/2026

CASE STUDY: Um imenso Portugal (67) - Um Brasil igual ao Chile e mais do que Alemanha

Outros imensos Portugais

Com um défice orçamental nominal de 8-9%, o rácio da dívida pública do Brasil de Lula da Silva tem vindo a crescer de 62% em 2010, sendo actualmente quase o dobro da média dos rácios dos países latino-americanos, e o FMI estima que em 2030 atingirá 99%.  

Por coincidência, 62% em 2010 era aproximadamente o rácio da dívida portuguesa antes de José "Animal Feroz" Sócrates, amigo do peito de Lula da Silva, ter iniciado em 2005 o caminho para a bancarrota. Por outra infeliz coincidência, o rácio do Brasil, estimado pelo FMI para 2030, de 99% está próximo dos 98% de Portugal registados em 2023.

Uma das maiores ameaças ao equilíbrio fiscal é o sistema de segurança social cujas pensões, que representam actualmente 10% do PIB, representarão em 2050 uma percentagem mais elevada do que a da Alemanha e da média da OCDE, países muito mais envelhecidos do que o Brasil. Com uma estrutura etária semelhante à Chile ou do México, os gastos com pensões do Brasil já atingem em percentagem do PIB o nível do Japão.

Diferentemente do que di Lampedusa prescreveu para a Sicília, no caso do Brasil (e de Portugal) é  preciso que muito mude e nada fique na mesma.

12/02/2026

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (79) - Vestindo o Coelhinho Mau e tomando antidepressivos

Outros portugueses no topo do mundo.

Enquanto aguarda que o resto do mundo partilhe a epifania do Dr. Matias de que o nosso torãozinho natal tem «todas as condições para se tornar um líder mundial na IA», a tendência patriótica do nosso jornalismo de causas procura sucedâneos. Esta semana encontraram o Super Bowl onde o Coelhinho Mau, um artista porto-riquenho, produziu uma performance que excitou multidões e irritou um certo número de criaturas que logo o quiseram crucificar, não percebendo que essa é a melhor maneira de promover a herói, um artista irritante.
 
[Este episódio pode ser visto como mais um exemplo de que os EU com a sua democracia defeituosa se afastam, cada vez mais, do padrão das democracias liberais, nas quais não passa pelo bestunto das autoridades punirem o mau gosto, deixando à opinião pública o encargo de o julgar e criticar.]

E foi assim que, onde os devotos do MAGA viram motivos de condenação, o nosso jornalismo de causas patriótico encontrou razões de celebração patriótica ao descobrir que a camisola que o Coelhinho Mau usou no Super Bowl foi fabricada em Santo Tirso (ainda que por uma empresa espanhola).

Num outro registo, o mesmo jornalismo poderia celebrar e, incompreensivelmente, não o fez, o número um do ranking europeu da depressão crónica e o número dois do ranking de consumo de antidepressivos da OCDE (fonte) .

09/01/2026

Lost in translation Found in translation – Unbabel, uma startup portuguesa, e uma Amália que é um karaokê alucinado

Há mais de 10 anos, a Unbabel, uma startup portuguesa dedicada à tradução automática, passou pela primeira vez no radar do (Im)pertinências. Registei então, com surpresa e alívio, o relativo desinteresse do jornalismo de causas doméstico, normalmente muito excitado pelos feitos dos patrícios (feitos frequentemente mais imaginados do que reais), esperançado de que a Unbabel escaparia à maldição do jornalismo promocional.

Da segunda vez, o ano passado, a Unbabel voltou a passar, desta vez pela mão do Dr. Montenegro que anunciou com pompa e circunstância durante a Web Summit o LLM português "Amália" que «partiria de uma base em open source já existente, o Tower LLM, da Unbabel». 

Dois meses depois desse anúncio, já a Unbabel parecia estar com «os dias contados» e tentava ser comprada, agarrando-se ao Amália como a uma tábua de salvação. Os vários adiamentos do projecto e a situação da Unbabel levaram-me a duvidar que alguma vez o "Amália" chegasse a cantar. 

A dúvida foi crescendo ao ser anunciada dois meses depois a venda da Unbabel à TransPerfect, por um valor simbólico depois de uma queda de 50% do volume de negócios (fonte), e há poucos dias soube-se que o fundo espanhol Buenavista, um dos accionistas, propôs uma “acção pauliana” para suspender todos os contratos, alegando as enormes perdas que os accionistas já tinham suportado. 

Fiz agora uma visita ao Chat "Amália" e perguntei qual a situação do "Amália" e recebi a seguinte intrigante resposta:
«sou um projeto independente e não estou relacionada com o modelo de linguagem "Amália" que está a ser desenvolvido com financiamento do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência).»
O que me levou a perguntar «qual é o papel da Unbabel no desenvolvimento do “Amália”?» que teve a seguinte surpreendente resposta:
«A Unbabel desempenha um papel crucial no desenvolvimento do projeto "Amália", que é uma iniciativa financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) em Portugal.» 

Antes de desistir por estar a ficar alucinado com o resultado da hallucination do "Amália", ainda percebi, pela descrição da arquitectura técnica, que, na verdade, não se trata de um modelo LLM, mas de uma aplicação para converter em português de Portugal o português do Brasil dos outputs dos modelos LLaMA (da Meta) e Mistral (da Mistral AI). Ou seja, o Amália, que não está relacionado com o modelo "Amália" financiado pelo PRR e é uma iniciativa financiada pelo PRR, não é o LLM Amália. É um karaokê do Amália.

26/12/2025

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (77) - Com um olho no burro e outro no cigano

Outros portugueses no topo do mundo.

mais liberdade

Incontáveis inquéritos mostraram a correlação entre o grau de confiança nas relações sociais e o desenvolvimento de um país, e numerosos estudos tentaram explicar a relação causal bidireccional entre ambas. A coisa compreende-se sem dificuldade porque, para a colocar em termos anedóticos, a desconfiança nas relações sociais obriga a que cada um esteja sempre com um olho no burro e outro no cigano, faz perder o foco, gastar mal o tempo e o dinheiro. Não deve surpreender ninguém que o nível de confiança no Portugal dos Pequeninos rivalize com o dos países balcânicos, que, ao contrário do que se passa na nossa Jangada de Pedra, têm a justificativa de não serem sociedades homogéneas do ponto de vista étnico e religioso.

25/12/2025

Human Development Index (HDI)

[Este post é uma espécie de continuação deste outro]
 
Fonte

Fonte

O HDI português tem melhorado alguma coisa, mas como os outros países não ficaram parados, a posição no ranking não progrediu e continua abaixo dos quatro "PIGS"; Irlanda  (11º), Espanha (28.º) e Itália (29.º) e até da Grécia (34.º lugar), o homem doente da Europa no século XXI. Portugal, no 42.º lugar no ranking mundial, posiciona-se atrás da Eslovénia (21.º), República Checa (29.º) e Lituânia (39.º) , três sobreviventes do colapso do Império Soviético.

30/11/2025

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (76) - Líder mundial na IA? No desperdício alimentar ninguém nos bate

Outros portugueses no topo do mundo.

O nosso Portugal dos Pequeninos não terá «as condições para se tornar um líder mundial na IA», como garantiu o Dr. Matias, ministro da Reforma do Estado, excitado pela numerosa plateia internacional que o escutava na Web Summit, mas ninguém lhe tira o lugar no topo do despercício alimentar, segundo os dados do Eurostat citados pelo Expresso.


É extraordinário que os cidadãos de um país onde ainda hoje há quem tenha fome e ainda estão vivos os que há não muitas décadas conviviam com uma frugalidade a que hoje se chamaria fome, deitem para o lixo em média quase 300 gramas de comida por dia.

20/09/2025

Dúvidas (357) - Que interessam essas merdas que ocorrem nos EUA?

Assim de repente e se por misericórdia admitisse que não há perguntas idiotas e tivesse de responder a esta pergunta, diria que as merdas que ocorrem num país que representa mais de um quarto da economia mundial, tem o exército mais poderoso, é o terceiro país mais populoso e tem uma cultura com enorme influência no resto do mundo, devem interessar a qualquer criatura, até mesmo a uma criatura que viva a olhar para o umbigo num Portugal dos Pequeninos representado no diagrama seguinte por baixo da seta branca. 


E acrescentaria que, no caso particular deste blogue, as merdas que ocorrem nos EUA parecem também interessar aos habitantes dos países que aqui fizeram 540 mil visitas nos últimos 12 meses.

Blogspot 

Por isso, a resposta é: interessam imenso.

07/09/2025

Mitos (353) - O Estado sucial português é pouco social

Como mostra o gráfico seguinte, é inegável que as políticas redistributivas do Estado sucial português contribuem para reduzir a pobreza ou, mais exactamente, contribuem para reduzir a desigualdade, que é aquilo que estas métricas medem.   

Outra coisa diferente é saber se essas políticas redistributivas são eficazes para o seu propósito de reduzir a pobreza.  


E é aí que se levanta a dúvida, quando se vê no gráfico anterior que as famílias com rendimentos médios mais altos que constituem o 5.º quintil absorvem mais de metade dos apoios às famílias com rendimentos mais baixos, para não falar que, devido a pensões e salários mais elevados, absorvem mais de 2,5 vezes dos subsídios de desemprego e mais de 4,7 vezes os subsídios de desemprego.


A dúvida sobre a eficácia das políticas redistributivas portuguesa, excluindo pensões, transforma-se em certeza em termos relativos quando se compara que os efeitos dessas políticas são os penúltimos da UE e menos de metade da média.

__________

Fonte: O Papel das Políticas Redistributivas, Fundação Francisco Manuel dos Santos

30/08/2025

Não há a certeza que o publicitário e o público-alvo tenham sentido de humor...

Caderno de Economia do Expresso

... o que, se assim for, nos leva à conclusão que um anúncio pode dar-nos um retrato mais rigoroso do empresariado do Portugal dos Pequeninos do que uma centena de estudos.