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12/10/2023

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (80) - Só até certo ponto, o resto do resultado são promoções

Outras marteladas.

Recapitulando: o intervencionismo dos bancos centrais (Fed e BoE, copiados pelo BCE), adoptando o alívio quantitativo e as taxas de juro negativas ou nulas, desde o «whatever it takes» do Super Mario de Julho de 2012 criou oceanos de liquidez que impulsionaram os mercados de capitais e incentivaram o investimento em activos de risco, criando as condições para um processo inflacionário que só esperava um trigger que surgiu com a invasão da Ucrânia.

Quase desde a adopção pelo BCE do chamado "alívio quantitativo" que nesta série de posts tenho vindo a desmistificar este expediente dos bancos centrais e a advogar o seu fim para além de um curto período em que os benefícios líquidos dos efeitos indesejáveis poderiam ser positivos. Esse período neste caso terminou algum tempo depois, quando as economias recomeçaram a crescer e devia ter-se iniciado um "período de desmame" - o conceito é transportável do domínio das drogas para o destas políticas por mais de uma razão.

Acrescento agora aos motivos para repudiar o uso do alívio quantitativo mais um. De acordo com a Economist, «a estimativa mediana calculada em uma revisão da literatura é que a compra de títulos no valor de 10% do PIB reduz os rendimentos dos títulos da dívida pública de dez anos em apenas meio ponto percentual. Porém, os próprios bancos centrais são a fonte de muitas dessas estimativas e têm um incentivo para exagerar o impacto: investigadores descobriram que os autores de artigos relatando efeitos mais fortes do alívio quantitativo no crescimento subsequentemente desfrutam de mais promoções. Assim, é plausível que o verdadeiro impacto da compra de títulos seja pobre. Foi certamente o caso recente do Japão onde o banco central desperdiçou dinheiro defendendo uma paridade do mercado de títulos, apenas para abandoná-la e assumir as perdas.»

26/07/2023

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (78) Unintended consequences (XXX)

 
Recapitulando: o intervencionismo dos bancos centrais (Fed e BoE, copiados pelo BCE), adoptando o alívio quantitativo e as taxas de juro negativas ou nulas, desde o «whatever it takes» do Super Mario de Julho de 2012 criou oceanos de liquidez que impulsionaram os mercados de capitais e incentivaram o investimento em activos de risco, criando as condições para um processo inflacionário que só esperava um trigger que surgiu com a invasão da Ucrânia.

A necessidade de aliviarem os seus balanços, secarem os oceanos de liquidez e conterem a inflação levou os bancos centrais a aumentarem as taxas de referência e passarem do quantitative easing para o quantitative tightening, que é como quem diz passaram da folga para o aperto.
State of Venture Q2’23 Report

Face ao aumento das taxas de juros e à secagem do excesso de liquidez, encolheu o dinheiro disponível para as aplicações especulativas, incluindo o capital de risco, que o diagrama acima mostra estar a escassear o que significa maior exigência dos venture capitalists. Ao que parece, esta constatação não chegou ainda ao Portugal dos Pequeninos onde se continua a agitar a bandeira das startups miraculosas que precisariam de nacional dinheiro abundante que não existe ou de dinheiro internacional estúpido que agora escasseia.

19/04/2023

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (77) Unintended consequences (XXIX)

Outras marteladas.

Recapitulando: o intervencionismo dos bancos centrais (Fed e BoE, copiados pelo BCE), adoptando o alívio quantitativo e as taxas de juro negativas ou nulas, desde o «whatever it takes» do Super Mario de Julho de 2012 criou oceanos de liquidez que impulsionaram os mercados de capitais e incentivaram o investimento em activos de risco, criando as condições para um processo inflacionário que só esperava um trigger que surgiu com a invasão da Ucrânia.

A necessidade de aliviarem os seus balanços, secarem os oceanos de liquidez e conter a inflação levou os bancos centrais a aumentarem as taxas de referência e passarem do quantitative easing para o quantitative tightening, que é como quem diz passaram da folga para o aperto.


O diagrama ilustra mais uma das consequências da folga seguida de aperto: as startups tecnológicas valem hoje menos do que o dinheiro que os venture capitalists lá aplicaram.

26/02/2023

CASE STUDY: Um imenso Portugal (64) - Na melhor hipótese o anúncio da moeda única foi apenas um sound bite de dois presidentes esquerdistas, na pior seria um desastre

Outros imensos Portugais
Antes de Lula da Silva, o presidente petista brasileiro, e Alberto Fernández, o presidente peronista argentino, anunciarem urbi et orbi que iriam estudar a adopção de uma moeda comum aos dois países, o primeiro deveria ter-se dado conta que a Argentina está a tentar evitar o seu décimo resgate desde a independência no princípio do século XIX, não tem reservas de divisas, tem uma inflação anual ao redor de 100%, o banco central tem a impressora a funcionar 24/24h para imprimir notas e os movimentos de capitais estão sob absoluto controlo. 

E ambos deveriam ter pedido para lhes explicarem as conclusões de Robert Mundell («A Theory of Optimum Currency Areas» de 1961) e de Milton Friedman («The Euro: Monetary Unity To Political Disunity?» de 1997) sobre zonas monetárias. Mundell demonstrou que uma zona monetária para ser óptima teria de cumprir várias condições, nomeadamente a mobilidade da mão-de-obra (inexistente no caso Brasil-Argentina), mobilidade que também exige reduzidos obstáculos culturais ou administrativas (acesso às profissões, sistemas de segurança social compatíveis, etc.). 

Friedman concluiu, a propósito da criação da Zona Euro, que uma moeda única sem as condições de uma zona monetária óptima «exacerbaria as tensões políticas, convertendo choques divergentes que poderiam ter sido prontamente acomodados por mudanças cambiais em questões políticas divisivas». 

Mais recentemente e a propósito precisamente do delírio petista-peronista, Paul Krugman sublinhou no seu Twitter uma outra condição para uma moeda comum ser viável: «pode fazer sentido entre economias que são os principais parceiros comerciais umas das outras e são semelhantes o suficiente para que não enfrentem grandes "choques assimétricos"». Ora, os principais parceiros comerciais do Brasil são a China (31%), a UE (13%) e os EUA (11%). A Argentina anda pelos 4%.

Em conclusão, o Brasil e a Argentina ao tentarem partilhar um "peso-real" acabariam a partilhar um desastre.

17/02/2023

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (76) Unintended consequences (XXVIII)

Outras marteladas.

Recapitulando: o intervencionismo dos bancos centrais (Fed e BoE, copiados pelo BCE), adoptando o alívio quantitativo e as taxas de juro negativas ou nulas, desde o «whatever it takes» do Super Mario de Julho de 2012 criou oceanos de liquidez que impulsionaram os mercados de capitais e incentivaram o investimento em activos de risco, criando as condições para um processo inflacionário que só esperava um trigger que surgiu com a invasão da Ucrânia.

A necessidade de aliviarem os seus balanços, secarem os oceanos de liquidez e conter a inflação levou os bancos centrais a aumentarem as taxas de referência e passarem do quantitative easing para o quantitative tightening.

Vítimas das novas circunstâncias são também as startups tecnológicas americanas, em queda há vários meses, com excepção da fase Seed/Angel, como se vê no diagrama que compara os dois últimos trimestres de 2021 e 2022.

15/01/2023

Pro memoria (427) - O que tem de ser tem muita força

Recapitulando, o intervencionismo do BCE, que copiou com atraso a Fed e o BoE, adoptando o alívio quantitativo e as taxas de juro negativas ou nulas, desde o «whatever it takes» do Super Mario de Julho de 2012, é parecido como terapêutica com a sangria dos pacientes praticada pela medicina medieval para tratar qualquer doença, incluindo a anemia.

Ao longo de mais de oito anos alertámos para as consequências indesejadas do alívio quantitativo:
Bolha de crédito gerada pelo Quantitative Easing da Fed e por taxas de juro próximo de zero que incentivam os investidores a procurarem aumentar os yields em aplicações de risco mais alto e a recorrer a novos instrumentos de garantia como as «PIK toggle notes». Recordemos os instrumentos prodigiosos gerados nos crânios da banca de investimento como os CDS, CDO e toda a restante parafernália que alavancaram o crédito até à estratosfera antes de desabar.

Bolha que poderia e levou anos a rebentar, mas que, entretanto, criou as condições para um surto de «exuberância irracional» e uma abundância de «dinheiro estúpido» que conduz a coisas estúpidas.

A intervenção militante dos governos, resgatando indiscriminadamente bancos, anestesiando a percepção do risco com garantias elevadas de depósitos e injectando artificialmente liquidez com a impressora do Quantitative Easing, aplicou terapêuticas para debelar a crise que criaram as condições para gerar a próxima.
Em cima dessa bolha de crédito e a pretexto da pandemia, os governos montaram um sistema de subsídios que veio injectar mais dinheiro na economia sem contrapartida da produção de bens ou serviços. Estavam criadas as condições necessárias e quase suficientes para espoletar um processo inflacionário. Faltava a espoleta que as consequências da invasão da Ucrânia pelo exército putinesco proporcionou.
  
Menos de oito anos depois, aí está a inflação como não se via há décadas. Veio para ficar por algum tempo, o suficiente para obrigar os bancos centrais a fazerem o contrário do que fizeram depois da crise financeira de 2008.

Uma vez mais, desta vez também não foi diferente.

10/07/2022

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (75) Unintended consequences (XXVII)

Outras marteladas.

Recapitulando, o intervencionismo do BCE, que copiou com atraso a Fed e o BoE, adoptando o alívio quantitativo e as taxas de juro negativas ou nulas, desde o «whatever it takes» do Super Mario de Julho de 2012, é parecido como terapêutica com a sangria dos pacientes praticada pela medicina medieval para tratar qualquer doença, incluindo a anemia.

No post anterior sobre este tema citei Mundell e Friedman para concluir que a Zona Euro não constitui uma zona monetária óptima, desde logo por ser constituída por apenas 2/3 dos países da UE, só dispor de uma união bancária parcial e não existir uma união fiscal.

Faltou acrescentar que, ainda se prenchidas as condições económicas indispensáveis, nomeadamente a mobilidade da mão-obra, seria sempre necessário um orçamento único e um governo central que a Comissão Europeia na sua configuração actual está muito longe de ser. Ou seja, seria necessária uma união política e é aqui que a porca torce o rabo porque precipitar uma união política num continente com o passado bélico da Europa, com a enorme diversidade cultural (e não me refiro à cultura intelectual, mas aos valores, crenças, hábitos, costumes que influenciam os corportamentos sociais), com dezenas de línguas diferentes e identidades nacionais muito fortes, conduziria certamente ao desastre.

É por isso que, tal como a guerra é demasiado importante para a deixar nas mãos dos generais, a "federalização" da Europa é demasiado importante para a deixar nas mãos dos eurocratas.

30/06/2022

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (74) Unintended consequences (XXVI)

Outras marteladas.

Recapitulando, o intervencionismo do BCE, que copiou com atraso a Fed e o BoE, adoptando o alívio quantitativo e as taxas de juro negativas ou nulas, desde o «whatever it takes» do Super Mario de Julho de 2012, é parecido como terapêutica com a sangria dos pacientes praticada pela medicina medieval para tratar qualquer doença, incluindo a anemia.

Depois de mais de uma década de alívio quantitativo e em cima dos incentivos relacionados com a pandemia, nomeadamente o Plano de Recuperação e Resiliência, regressa a inflação com o aumento do preço dos combustíveis e as outras consequências da invasão da Ucrânia, tudo a cavalo das injecções do alívio quantitativo, inflação cuja contenção, recorde-se, é o esquecido objectivo central do mandato do BCE.

De facto, o BCE esteve concentrado nos últimos dez anos a comprar dívida dos PIGS, a pretexto de salvar o Euro, e a evitar uma recessão, propósito não previsto no seu mandato, diferentemente da Fed cujo mandato inclui a contenção do desemprego. Pelo caminho gerou uma inundação de dinheiro barato que alimentou a especulação nos mercados de capitais e imobiliário.

Agora, o BCE debate-se com um dilema: para combater a inflação teria de aumentar os juros à medida do maior aumento dos preços em décadas (ver gráfico aqui ao lado) e suspender a compra de dívida e, fazendo-o, colocaria os PIGS em dificuldades que ficariam mais dependentes dos mercados e a taxas muito mais altas. 

Por isso, o BCE começou por tratar a inflação como algo pontual para justificar não aumentar as taxas e inventou preventivamente um novo mecanismo de "anti-fragmentação" das dívidas públicas para aplicar os rendimentos da dívida comprada no âmbito do PEPP (Pandemic emergency purchase programme) na compra de mais dívida pública aos países em dificuldades, isto é, aos PIGS.


Esquecendo, por agora, as consequências de várias naturezas da compra aos PIGS da sua dívida, o pressuposto de uma inflação passageira não tem qualquer suporte por várias razões incluindo, e não é certamente a menos importante, as expectativas dos consumidores e das empresas que apontam para uma inflação persistente (ver gráficos acima).

Mais tarde ou mais cedo, a UE estará novamente confrontada com as suas contradições: uma união monetária, mais tarde completada com uma união bancária parcial, a que pertencem apenas 2/3 dos países, sem uma união fiscal (que possivelmente exigiria uma união política), e a vontade dos governos dos PIGS de terem sol na eira (endividamento sem limites a taxas europeias) e chuva no nabal (liberdade orçamental para alimentarem as suas clientelas sem sujeição a uma disciplina orçamental). 

E tudo isto era previsível, pelo menos desde 1961, quando Robert Mundell («A Theory of Optimum Currency Areas»), concluiu que uma zona monetária para ser óptima precisaria cumprir um certo número de condições e entre elas a mobilidade da mão-de-obra que no caso da EU apresenta ainda barreiras culturais e administrativas (acesso condicionado a muitas profissões, sistemas de segurança social heterogéneos, etc.), e obviamente linguísticas (mais de 20 línguas diferentes), que constituem obstáculos poderosos. 

Ou, vá lá, previsível pelo menos desde 1997 quando Milton Friedman escreveu «The Euro: Monetary Unity To Political Disunity?» cujo último parágrafo é:
«The drive for the Euro has been motivated by politics not economics. The aim has been to link Germany and France so closely as to make a future European war impossible, and to set the stage for a federal United States of Europe. I believe that adoption of the Euro would have the opposite effect. It would exacerbate political tensions by converting divergent shocks that could have been readily accommodated by exchange rate changes into divisive political issues. Political unity can pave the way for monetary unity. Monetary unity imposed under unfavorable conditions will prove a barrier to the achievement of political unity.»
Os tempos não vão estar fáceis.

06/08/2020

O impacto da bazuca de Merkel-von der Leyen no Portugal dos Pequeninos (2) - A bazuca dele é maior do que a delas

Continuação de (1)

Como se pode ver no diagrama seguinte (*), a tão celebrada bazuca de Merkel-von der Leyen é afinal modesta comparada com a bazuca de Trump, constatação que o pensamento oficial nunca poderá fazer por razões que dispensam ser explicadas.

 
(*) Os números do diagrama são os provisórios de Junho e diferem dos números finais. 

À modéstia da bazuca acrescenta-se a profunda diferença que resulta dos EUA constituírem uma zona monetária quase óptima o que está muito longe de acontecer com a Zona Euro, sem falar dos restantes países com moeda própria. De facto, uma zona monetária para ser óptima precisa cumprir várias condições e entre elas a mobilidade da mão-de-obra. Ora, na UE existem fortes barreiras culturais e administrativas (acesso condicionado a muitas profissões, sistemas de segurança social heterogéneos, etc.), e linguísticas (mais de 20 línguas diferentes) que constituem sérios obstáculos (para aprofundar este tema ver a etiqueta zona monetária óptima).


Como se não fosse suficiente, a adicionar à discrepância entre a queda do PIB e o tamanho da bazuca para cada país (ver no primeiro diagrama a comparação da Alemanha com a Espanha), a exposição à dívida pública e o impacto previsto no PIB da pandemia é muito diverso, como se pode constatar no segundo diagrama.

(Continua)

28/10/2016

Mitos (242) – Os nossos males resultam do tratado orçamental

Tudo estava bem enquanto tivemos o Escudo, segundo uma vulgata adoptada por comunistas, bloquistas, certas correntes socialistas, conforme a estação, e até, imagine-se, pela Dr.ª Manuela Ferreira Leite que há 2 semanas atrás declarou «enquanto houver tratado orçamental, Portugal [e outros países europeus que estão na mesma situação] não vai crescer».

A declaração de MFL, como seria de esperar, foi imediatamente propagada urbi et orbi pelo jornalismo de causas, não por causa da autora (que por vezes diz coisas com sentido que não são propagadas), mas porque se tratava de uma opinião «independente» avalizando uma das bandeiras da esquerdalhada.


Sendo certo que, como aqui no (Im)pertinências há muito temos defendido (nós e muitos outros antes de nós, por exemplo estes nove), a adopção da moeda única foi um erro, porque a Zona Euro está a anos-luz de ser uma zona monetária óptima (ver esta etiqueta), isso não permite explicar as nossas desgraças como bem se escreveu aqui no Insurgente, de onde saquei o diagrama acima, completado com a indicação dos países da Zona Euro.


De facto, só por ignorância ou desonestidade intelectual se pode considerar o tratado orçamental como o factor principal do crescimento abaixo da média da UE de um país que nas últimas 4 décadas só cresceu acima dela meia dúzia de anos a seguir à adesão. Olhando-se para o diagrama da taxa real de crescimento do PIB (assinalados os anos da adesão à EU e da adopção do Euro) percebe-se claramente a tendência de longo prazo para estagnação. Comparando o crescimento verifica-se que o tratado orçamental não impediu 2/3 dos países da Zona Euro crescerem acima da média, e alguns deles muito acima, como o tigre celta que no período 200-2015 cresce 60% contra uns poucos por cento do tareco lusitano (ver o post «Os felinos antes e depois da crise»).

20/07/2015

Pro memoria (248) – Recordando o Artigo 125.º do Tratado de Lisboa

«1. Sem prejuízo das garantias financeiras mútuas para a execução conjunta de projetos específicos, a União não é responsável pelos compromissos dos governos centrais, das autoridades regionais ou locais, ou de outras autoridades públicas, dos outros organismos do setor público ou das empresas públicas de qualquer Estado-Membro, nem assumirá esses compromissos. Sem prejuízo das garantias financeiras mútuas para a execução conjunta de projetos específicos, os Estados-Membros não são responsáveis pelos compromissos dos governos centrais, das autoridades regionais ou locais, ou de outras autoridades públicas, dos outros organismos do setor público ou das empresas públicas de outros Estados-Membros, nem assumirão esses compromissos. 

2. O Conselho, deliberando sob proposta da Comissão e após consulta ao Parlamento Europeu, pode, se necessário, especificar definições para a aplicação das proibições a que se referem os artigos 123.o e 124.o, bem como o presente artigo

BELIEVE IT OR NOT: «Nine People Who Saw the Greek Crisis Coming Years Before Everyone Else Did»

«What happens if a whole country—a potential ‘region’ in a fully integrated community—suffers a structural setback? So long as it is a sovereign state, it can devalue its currency. It can then trade successfully at full employment provided its people accept the necessary cut in their real incomes. With an economic and monetary union, this recourse is obviously barred, and its prospect is grave indeed unless federal budgeting arrangements are made which fulfil a redistributive role. ...»
Wynne Godley, British economist, 1992

«They will say that we are subsidizing scroungers, lounging in cafés on the Mediterranean beaches. Monetary union, in the end, will result in a gigantic blackmailing operation. When we Germans demand monetary discipline, other countries will blame their financial woes on that same discipline, and by extension, on us. More, they will perceive us as a kind of economic policeman. We risk once again becoming the most hated in Europe.»
Arnulf Baring, German political scientist, 1997

«In other words, market forces can demand pro-cyclical fiscal policy during a recession, compounding recessionary influences. … Even if there were no imposed limits on countries’ deficits and national debts, the structure of the EMU makes it nearly impossible for a country to enact a counter-cyclical fiscal policy even if there were the political will.»
Mathew Forstater, economist, 1999

«I think the euro is in its honeymoon phase. I hope it succeeds, but I have very low expectations for it. I think that differences are going to accumulate among the various countries and that non-synchronous shocks are going to affect them.»
Milton Friedman, Nobel laureate, 2000

«... Creditors are aware that statistical data presented by the Greek government have nothing to do with reality ...»
Costas Simitis, former Greek Prime Minister, 2008

«Until something is done to enable member states to avert these financial constraints (e.g. political union and the establishment of a federal [EU] budget or the establishment of a new lending institution, designed to aid member states in pursuing a broad set of policy objectives), the prospects for stabilization in the Eurozone appear grim.»
Stephanie Bell Kelton, economist, 2002

«We had arguments which might persuade both the Germans — who would be worried about the weakening of anti-inflation policies — and the poorer countries — who must be told that they would not be bailed out of the consequences of a single currency, which would therefore devastate their inefficient economies.»
Margaret Thatcher, former Prime Minister of the United Kingdom, 1990

«Only the inevitable, currently prohibited, direct intervention of the ECB will be capable of performing the resurrection, and from the ashes of that fallen flaming star an immortal sovereign currency will no doubt emerge.»
Warren Mosler, economist, 2001

«As currently designed, the EMU will have a central bank (the ECB) but it will not have any fiscal branch. This would be much like a US which operated with a Fed, but with only individual state treasuries. It will be as if each EMU member country were to attempt to operate fiscal policy in a foreign currency; deficit spending will require borrowing in that foreign currency according to the dictates of private markets.»
L. Randall Wray, economist 1998

Fonte: BloombergBusiness

16/07/2015

ARTIGO DEFUNTO: O Pastorinho da economia dos amanhãs que cantam e a zona monetária óptima

Surpreendentemente, ou talvez não para uma criatura que andou semanas a promover o vigarista Artur Baptista da Silva, um episódio que num país decente acabaria com a credibilidade de um jornalista durante uma década, o pastorinho da economia dos amanhãs que cantam Nicolau Santos (NS) só agora, 54 anos depois, teve oportunidade de estudar «A Theory of Optimum Currency Areas» de Robert Mundell.

Se preferirem e para lhe encurtar a longevidade da ignorância, só agora, 18 anos depois, NS teve a oportunidade de ler o que especificamente Milton Friedman escreveu sobre a União Monetária. Releia-se o último parágrafo de «The Euro: Monetary Unity To Political Disunity?» escrito por Friedman em 1997:
«The drive for the Euro has been motivated by politics not economics. The aim has been to link Germany and France so closely as to make a future European war impossible, and to set the stage for a federal United States of Europe. I believe that adoption of the Euro would have the opposite effect. It would exacerbate political tensions by converting divergent shocks that could have been readily accommodated by exchange rate changes into divisive political issues. Political unity can pave the way for monetary unity. Monetary unity imposed under unfavorable conditions will prove a barrier to the achievement of political unity.» 
Foi assim que no caderno de Economia do Expresso onde nos dá conta dos seus estados de alma, NS concluiu finalmente, com décadas de atraso, que as «condições essenciais para a existência de uma moeda comum implicavam a livre circulação de trabalhadores e capitais, a flexibilidade de preços e salários, a coordenação dos ciclos económicos e um mecanismo federal que compensasse os choques assimétricos».

Concluiu ainda que, portanto, o Euro estava condenado desde o primeiro dia, a menos que existissem «fundos que permitissem compensar os tais choques assimétricos», o que na cabecinha dele significaria que a Alemanha e os países solventes pagariam a conta dos desvarios.

Nem por um momento lhe ocorre que a existência de um «mecanismo federal que compensasse os choques assimétricos» exigiria um Estado único, federado ou não, que prevenisse os desvarios antes de eles ocorrerem, ou seja impondo a cada um dos potenciais desvairados o colete de um orçamento aprovado por um parlamento europeu onde os deputados dos países com juízo seriam a maioria.

Muito menos lhe ocorre que existindo esse Estado único, federado ou não, o seu amigo preso 44 em Évora nunca teria tido a oportunidade de adoptar as políticas que ele, Nicolau, tanto incensou e que tanto anseia por ver de novo adoptadas pelo futuro primeiro-ministro de Portugal. Ou, para dar o exemplo da Grécia, governada pelo Syriza-Anel, por quem tanto NS se comove, o mecanismo federal só não imporia uma receita drástica, como a que agora a Eurozona impõe, porque os gregos nunca teriam tido a oportunidade de a tornar necessária e se arruinar alegremente, a exemplo do Portugal governado pela tralha socrática.

21/02/2015

A defesa dos centros de decisão nacional (11) – Unintended consequences (II)

[Continuação de (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7),  (8), (9) e (10)]


Recapitulando: a coisa começou com um Manifesto dos 40, seguido pouco depois pelo Compromisso Portugal, fóruns de empresários e gestores que defendiam a manutenção no rectângulo dos chamados centros de decisão nacional. Vários dos que juraram correram a vender os seus anéis na primeira oportunidade.

Com a OPA do CaixaBank sobre o BPI, a que se seguirá provavelmente a compra do Novo Banco pelo BPI, já maioritariamente espanhol, cumpre-se mais uma etapa desta tragicomédia da defesa dos centros de decisão nacional. Ao mesmo tempo, se assim for, a banca espanhola passará a controlar quase metade do mercado português e La Caixa ganhará dimensão para competir com os outros grandes bancos espanhóis e ganhar novos mercados.

Poderia ser de outra maneira? Não, não poderia. Para manter os benditos centros de decisão nacional, os empresários, os bancos, as famílias, enfim o país, não poderiam estar afundados em dívidas como estão. E para toda essa gente não estar afundada em dívidas teria começado por ser indispensável, entre muitas outras coisas, não ter acreditado nas tretas do ministro anexo Vítor Constâncio que na sua famosa declaração Mississipi garantiu aos papalvos que o resultado dos défices externos crónicos e do consequente endividamento seria para um país integrando a Zona Euro - que está a milhas de ser uma zona monetária óptima - o mesmo do que para um dos Estados Unidos.

07/10/2014

CASE STUDY: Estava escrito nas estrelas (5)

[Continuação de (1), (2), (3) e (4)]

Segundo a Reuters, é provável a Comissão Europeia decidir rejeitar o orçamento de 2015 da França por não cumprir com as metas fixadas para redução do défice. É uma inauguração para a Comissão na aplicação das novas regras e tem dois desfechos: (1) penalizações simbólicas e mais uns anos para reduzir o défice para 3% ou (2) a CE faz finca-pé na reformulação do orçamento conformando-o às metas em vigor. O primeiro desfecho é o mais provável porque o segundo elevaria o conflito a um nível que poria em causa o castelo construído sobre a areia que é a União Europeia.

É nestas alturas é que a memória da história se torna indispensável. Quando, logo após a queda do Muro de Berlim, a Alemanha Ocidental quis avançar para a reunificação, a França pôs várias condições, sendo a mais importante a criação de uma moeda única para «amarrar» a Alemanha à União. Os alemães aceitaram muito relutantemente prescindir do seu adorado marco na condição de existirem regras minimizando o risco do deboche orçamental, regras que os franceses aceitaram sem relutância porque imaginaram que os amanhãs orçamentais continuariam a cantar para todo o sempre como cantavam à época.

A construção da UE enferma de vários vícios que comprometem a sua viabilidade. O maior desses vícios é o ser uma construção top-down feita num longo período excepcional e irrepetível de vacas gordas e baseada em premissas que não resistiram aos primeiros 7 anos de vacas magras.

A UE é por isso dificilmente sustentável porque uma história de séculos de divisões e guerras não se apaga em poucas décadas só porque uns quantos dirigentes resolvem impor uma sua brainchild. Teria sido mais prudente ficar pelo mercado único (aprofundado e alargado aos serviços) do que avançar em terrenos desconhecidos a caminho para um estado federado.

E talvez o pior dos dois mundos seja ficar algures a meio do caminho, com uma união monetária que não reúne as condições mínimas para constituir uma zona monetária óptima como se vem escrevendo no (Im)pertinências há 8 anos.

29/05/2014

CASE STUDY: Estava escrito nas estrelas (4)

[Continuação de (1) e (2)]

Recapitulando: já se sabia, pelo menos desde 1961 (Robert Mundell, «A Theory of Optimum Currency Areas»), que uma zona monetária para ser óptima precisa cumprir um certo número de condições. Esqueçamos, por agora, todas as outras e concentremo-nos na mobilidade da mão-de-obra que no caso da EU27 apresenta ainda barreiras culturais e administrativas (acesso condicionado a muitas profissões, sistemas de segurança social heterogéneos, etc.), e obviamente linguísticas (mais de 20 línguas diferentes), que constituem obstáculos poderosos.

aqui se evidenciaram as diferenças muito significativas entre as a taxas de desemprego na EU27 que indiciam uma reduzida mobilidade. Veja-se agora o diagrama seguinte que revela o mesmo fenómeno mas numa visão dinâmica nos últimos 10 anos.

Fonte: «The euro zone - One currency, divergent economies»
Com excepção da Eslovénia, França e Itália, todos os restantes países da Zona Euro registaram evoluções completamente dessincronizadas das taxas de desemprego. Diferentemente, as taxas de inflação, influenciadas por uma política monetária comum, variaram dentro de um intervalo de reduzida amplitude.

Uma vez mais se confirma a falta de condições económicas mínimas para garantir a sustentabilidade de uma moeda comum. Estamos, por isso, face a um trilema: desmantelar a Zona Euro e suportar o choque monetário de desvalorizações violentas nos países da periferia; adoptar uma política fiscal única, um orçamento e um ministro europeu e desmantelar todas as barreiras ainda existentes para a livre mobilidade de capitais e trabalhadores, ou seja caminhar cada vez mais para uma federação europeia ao arrepio dos eleitorados com todas as consequências políticas; ou deixar tudo na mesma durante algum tempo até que as realidades económicas, sociais e políticas tornem inevitáveis uma das duas outras opções.

28/04/2014

SERVIÇO PÚBLICO: À atenção dos adeptos da reestruturação da dívida e dos defendem a saída da UE

Começo por esclarecer não considerar desprezível, como aqui esclareci há 2 anos, a probabilidade de ser indispensável um haircut (e não apenas um reescalonamento das maturidades ou uma redução dos juros, ambos, aliás, já conseguidos com a troika). Daí a ser adepto de um haircut vai a mesma distância que vai de aceitar o risco de morrer à decisão de suicídio.

Admiti também várias vezes, ainda antes da crise de 2008, por exemplo aqui, que a decisão de adoptarmos o euro foi obviamente errada e admito que a entrada e permanência na União teve, tem e terá alguns efeitos negativos e não é indiscutível. Daí a ser adepto hoje de uma saída do Euro e de uma saída da União vai a mesma distância que vai de iniciar uma dieta dolorosa e prolongada a ir ao magarefe e cortar postas de tecidos e gordura para perder peso.

Dito isto, vejamos sumariamente algumas consequências da reestruturação (meaning haircut) da dívida e da saída da UE, defendida por alguns.

Aos adeptos da reestruturação convém recordar que à parte da dívida da troika (72 mil milhões ou 35,2%) e do BCE - Securities Markets Programm (22,8 mil milhões ou 11,1%), que em conjunto representam 46,4%, um haircut é inaplicável, como já se viu com a Grécia. Dos restantes 109,5 mil milhões, 72,7 mil milhões, equivalentes a 2/3 da parte negociável, estão em mãos nacionais, FEFSS, bancos e particulares.

Fonte: Expresso (02-2014)
Daqui resulta que por cada mil milhões de euros que cortássemos à dívida 660 milhões sair-nos-iam dos nossos próprios bolsos.

Segundo o estudo «Economic Growth and European Integration: A Counterfactual Analysis» de Nauro Campos, Fabrizio Coricelli e Luigi Moretti (disponível aqui) citado e comentado pela Economist, o efeito estimado da adesão de Portugal à UE no PIB per capita ultrapassou 20% até 2008.

Fonte: Economist
A menos que os adeptos da saída da UE consigam o milagre de ter simultaneamente sol na eira e chuva no nabal, convém ter em conta as consequências do que defendem.

13/07/2013

Não há almoços grátis e para a Alemanha cada um paga o seu almoço

A proposta da Comissão Europeia de criação de um mecanismo único de resgate dos bancos europeus em dificuldades apresentada quarta-feita, que constituiria o 2.º pilar da União Bancária (o 1.º é a supervisão pelo BCE de cerca de 6 mil bancos), foi rejeitada pela Alemanha que, como escreve o WSJ, «has consistently resisted previous efforts to transfer financial risks from national economies to the broader euro zone, because it feels it would end up by paying a large part of the bill.» Tem resistido e continuará a resistir porque os políticos alemães também têm de prestar contas ao seu Tribunal Constitucional e, acima de tudo, aos seus eleitores que não parecem muito dispostos a pagar a prodigalidade financeira alheia.

É falta de solidariedade? A solidariedade não passa de um slogan vazio se não houver dinheiro para a pagar. Ora veja-se o tamanho da factura.

Economist