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20/08/2026

ARTIGO DEFUNTO: Segundo o jornalismo de causas, os salários médios deveriam ser o que o governo quisesse


Numa peça com o título estilo agitprop «Inflação devorou grande parte do aumento dos salários médios em 2026, a mesma jornalista do Expresso que escreveu as anteriores obtusidades usa o melhor da sua ciência para demonstrar o óbvio ululante de que o aumento nominal de 5,1% inclui uma inflação de 3,3% e, portanto, o aumento real foi só de 1,8%.

Poderia apresentar como desculpa para as suas obtusidades o suposto nobre propósito de desmontar as patetices chico-espertas do Dr. Castro Almeida nas jornadas parlamentares do PSD e do Dr. Montenegro na missa do Pontal que atribuíram ao governo a subida de 5,1% em 12 meses do salário médio, subida que, diria M de La Palice, resultou da média dos salários que as empresas tiveram de pagar para ter a mão-de-obra que precisaram num mercado de trabalho que é actualmente um sellers' market, com a particularidade de que os salários, ao contrário dos outros preços, não podem descer.

Poderia apresentar essa desculpa e poderia também ter percebido: (1) o governo tem menos influência no salário médio do que na construção do aeroporto Luís de Camões (60 anos) ou na inauguração do novo hospital de Lisboa (23 anos) e (2) um aumento real de 1,8% do salário médio é ainda assim notável quando (a) a produtividade do trabalho se manteve e (b) o aumento da população activa se fez sobretudo nas profissões menos qualificadas e com menores salários.

18/08/2026

ARTIGO DEFUNTO: A "inclinação ideológica e política" das ciências actuariais, da estatística matemática, da econometria, da demografia, da macroeconomia e das finanças públicas

[Este post é uma espécie de continuação de Comparar a beira da estrada com a Estrada da Beira]

Cinco dias antes de ser conhecido o relatório sobre a sustentabilidade do sistema de pensões, o semanário de reverência, no seu papel de órgão oficial do militante socialista anónimo, citava o PS que já classificava o relatório como «enviesado» e se declarava preocupado por o estudo ter sido coordenado por «duas pessoas que têm uma inclinação ideológica e política muito clara».

Fiquei confundido, sem perceber qual seria o papel da inclinação ideológica e política na avaliação da sustentabilidade financeira de um sistema público de pensões. Admiti que essa confusão se devesse a não estar iluminado pela ciência das jornalistas de causas que assinam o artigo (duas economistas portadoras de mestrados pelo ISEG e uma cientista da comunicação da equipa das Redes Sociais e Online). Vergado ao peso dessa ciência, resolvi pedir a um agente de IA para descrever um modelo teórico geral de repartição (Pay-As-You-Go ou PAYG), em que os trabalhadores activos financiam diretamente as pensões dos reformados do mesmo período. 

Eis a descrição do modelo que, surpreendentemente, não contém a variável inclinação ideológica e política.

16/08/2026

ARTIGO DEFUNTO: Comparar a beira da estrada com a Estrada da Beira

Semanário de reverência

É difícil superar a falta de senso de comparar o valor actual do FERSS, que se estima possa pagar dois anos de pensões, no segundo país mais envelhecido da UE, cujos fundos privados de pensões representam apenas cerca de 20 mil milhões e abrangem cerca de 1,2 milhões de pessoas, com cinco vezes o custo estimado do novo aeroporto Luís de Camões.

É assim parecido com comparar o custo do aeroporto de Schiphol, cujo custo de substituição se estima em cerca de 30 mil milhões de euros, com as reservas totais dos fundos de pensões dos Países Baixos, um país com uma população 1,6 vezes a portuguesa, mais jovem (menos 5 anos de idade mediana e menos 5 pontos percentuais de idosos), fundos que são suficientes para 30 anos de pensões e cujo valor atinge um total superior a 900 mil milhões ou 13 vezes o total os fundos portugueses. 

Já agora, a jornalista, com um mestrado em economia pelo ISEG, situou a estimativa do custo do novo aeroporto em menos de 10 mil milhões. No lugar dela, teria feito outras estimativas, por exemplo: 
  • Custo estimado da construção (em 2024) 7,9 a 8,9 mil milhões
  • Custo estimado das grandes obras de acessibilidade 5,5 mil milhões
  • Custo total estimado 13,4 a 14,4 mil milhões
  • Coeficiente médio de derrapagem das grandes obras públicas em Portugal 1,3 a 1,35
  • Custo total provável 17,4 a 19,4 mil milhões
  • Dois exemplos de derrapagem:
    • Centro Cultural de Belém, o custo final triplicou o orçamentado;
    • Aeroporto de Berlim: os 5 anos planeados escorregaram para 14 anos; o custo triplicou.
  • O meu palpite do custo total final do Aeroporto Luís de Camões: 20 a 30 mil milhões

12/07/2026

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Câmara de Almada, um caso notável de incompetência individual e sistémica

Alfredo Martirena
Secção Res ipsa loquitur

A Dr.ª Inês de Medeiros, com um nome próprio acompanhado de seis apelidos, dois advérbios e um hífen, é um membro característico das elites de esquerda bem-pensante (também poderia ser das elites de direita, que vinha a dar ao mesmo), actriz de cinema, deputada pelo PS, é há 9 anos presidente da Câmara de Almada, onde chegou, sucedendo a uma dezena de vereações comunistas, sem qualquer experiência ou vocação para gerir o que quer que seja e com notável pesporrência.

Durante sete anos produziu inúmeras declarações, sendo uma das mais notáveis sobre a água, e ignorou olímpicamente a crescente degradação da rede de água, que tem uma das mais elevadas taxas de perda e serve um concelho com um consumo per capita muito superior à média, concelho que, segundo a Dr.ª de Medeiros, estaria «assente sobre uma reserva quase inesgotável de água de grande qualidade» (apud Helena Matos). O que faz uma criatura bem-pensante quando a realidade da falta de água lhe entra pelo gabinete e os protestos dos munícipes pelos ouvidos? Procura rapidamente um culpado pelas consequências da sua negligência (o governo, Bruxelas) e alega a universal falta de meios (neste caso, os omnipresentes fundos generosamente providenciados pelos contribuintes europeus).

Concedo à Dr.ª Inês de Saint-Maurice Esteves de Medeiros Victorino de Almeida cinco urracas pela sua inacção na presidência, quatro bourbons por nada ter apreendido nem esquecido, cinco pilatos por lavar as mãos do assunto, apesar da falta de água, e três chateaubriands por imaginar que não faltaria a água em Almada, apesar do rio passar ao lado da cidade e não a atravessar. (avaliação contínua)

09/05/2026

Zugzwänge para Vladimir (continuação)

Continuação daqui

...  a invasão da Ucrânia a que chamou pudicamente "operação especial", que era para durar uma semana e já vai, se não estou enganado, em 218 semanas...

«Russia's internal expectations for the war were remarkably short. Documents found inside Russian tanks described how the "special military operation" would conclude in just ten days. Ukraine also captured "flagship" tanks — the kind used in parades — along with military parade uniforms, suggesting that Russia expected to stage a victory parade in Kyiv after a swift campaign. Wikipedia

The broader picture painted by the evidence is even more striking. After the invasion began, Ukrainian and Western analysts assessed that Putin seemed to have believed Russian forces would be capable of seizing Kyiv within days, leading to the conclusion that "taking Kyiv in three days" had been the original goal. This narrative was reinforced by statements from Aleksandr Lukashenko and Margarita Simonyan, editor-in-chief of Russian state broadcaster RT. The Security Service of Ukraine also released a video showing a captured Russian soldier claiming his unit had been sent into Ukraine with food supplies for only three days. Wikipedia

Russia's invasion plan involved defeating Ukraine within ten days and capturing or killing its government, followed by "mopping up" operations, establishing filtration camps, setting up occupation regimes, and eventually annexing territory. Wikipedia

Three days after the invasion began, the Russian state news agency RIA Novosti mistakenly published a pre-written article called "Russia's Coming and the New World," prepared in anticipation of a quick Russian victory, which announced that "Ukraine had returned to Russia." Wikipedia

Of course, none of this came to pass. By April 2022, the invasion's initial goal of a rapid victory via decapitation had failed, with Ukraine pushing back the northern arm of the invasion and preventing the capture of Kyiv. The war has now dragged on for over three years, becoming the largest conflict in Europe since World War II. Wikipedia»

Resposta do Claude Sonnet 4.6. da Anthropic à pergunta «When Russia invaded Ukraine, what was the Russian government's prediction for the duration of the so-called "special operation"?»

08/05/2026

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Zugzwänge para os compadres Vladimir e Donald

Secção Tiros nos pés

Já várias vezes evoquei (aqui, acolá e acoli, por exemplo) o Zugzwang, do alemão zug (jogada) e zwang (compulsão), que é a situação no xadrez em que, em consequência das jogadas anteriores, um jogador é obrigado a fazer a jogada seguinte da qual sairá em pior situação.

Volto a fazê-lo desta vez para caracterizar a situação em que se colocaram no tabuleiro internacional os compadres Vladimir Putin e Donald Trump, o primeiro com a invasão da Ucrânia a que chamou pudicamente "operação especial", que era para durar uma semana e já vai, se não estou enganado, em 218 semanas, e o segundo com o Great and Beautiful Bombardment (GBB) dos aiotolás, que era para durar o que Bibi achasse necessário, e já vai em 6 semanas e vários anúncios de Total and Complete Victory

Quanto a Vladimir Putin, as coisas vão de mal a pior e, segundo um ex-alto funcionário do governo russo, enfrenta uma situação de perfeito Zugzwang, situação que, com os mesmos critérios, tomo a liberdade de atribuir a Donald Trump e, já agora, ao seu ajudante, o secretário de Estado da Guerra, Pete Hegseth.

É assim que, não sem algum Schadenfreude, concedo o máximo de cinco Zugzwänge (plural de Zugzwang) ao primeiro e quatro ao segundo (o quinto poderá ser atribuído em breve). A Pete Hegseth não atribuo nenhum - é apenas um secretário.

04/05/2026

Ser de esquerda é... (34) - ... é querer cumprir Abril

Pesquisa Google

Sempre me intrigou que, como a gripe surge no Inverno, a expressão "cumprir Abril" surge na Primavera e prolonga-se até meados de Maio. Para citar alguns, entre muitos outros, exemplos recentes: «cumprir Abril é a coragem de dizer não»; «continuar a cumprir Abril»; «cumprir Abril, na justiça social, na dignidade do trabalho, no combate às desigualdades e na defesa da verdade».

Intriga-me, desde logo,  porque o verbo "cumprir", segundo o dicionário, tem vários significados: «Executar com exactidão;  Acatar, obedecer; Realizar o prometido; Submeter-se, sujeitar-se; Ser da sua competência». Admiti que o cumprir Abril poderia significar "Realizar o prometido", mas realizar o quê e por quem?  Para simplificar, admiti que o quem seria a esquerdalhada, sempre muito dada a promessas (os amanhãs que cantam, etc.). E o quê? O que seria o quê? 

Sem respostas, resolvi uma vez mais consultar o nosso web bot favorito de AI com machine learning baseada numa Neural Network com acesso a servidores de Big Data e recebi a seguinte lista de exemplos de incumpridos:

A criação do soviete do Barreiro, a adesão do Portugal Democrático ao COMECON, a criação de uma Frente Popular liderada pelos camaradas Drs. Barreirinhas Cunhal e Nobre Lopes Soares, um governo com todas as forças progressistas, incluindo a Frente de Libertação dos Animais Domésticos (FLAD), a promoção a Marechal do Camarada General Saraiva de Carvalho, a inclusão do Livro Vermelho do Presidente Mao Ze Dong nas leituras obrigatórias do 2.º ciclo, a inauguração pelo Camarada Doutor Anacleto Louçã de uma estátua de Leon Trotsky no lugar de Dom José na Praça do Comércio, a nomeação da Camarada Doutora Mariana Mortágua como ministra das Finanças.

Outros "Ser de esquerda é..."

23/03/2026

Pro memoria (146) - Os cortes no orçamento federal anunciados pelo Sr. Musk pareciam ser um bocadinho magalómanos... e estão a ser

Continuação de Os cortes no orçamento federal anunciados pelo Sr. Musk podem ser um bocadinho magalómanos e de Os cortes no orçamento federal anunciados pelo Sr. Musk podem ser um bocadinho magalómanos... e o défice pode ainda aumentar

Recordemos que o Sr. Musk garantiu em plena campanha eleitoral em 2024 num comício MAGAlómano no Madison Square Garden que iria cortar um terço do orçamento federal anual de US$ 7 biliões, o equivalente a US$ 2,3 biliões (2.300.000.000.000). 

Consumado o divórcio Musk-Trump, passado um ano e meio desde o anúncio e apenas cinco meses do ano fiscal de 2026 iniciado em Outubro e ainda sem a despesa militar decorrente do ataque ao Irão ao fim da 3.ª semana estimada em cerca de USD 20 mil milhões (o governo pediu ao Congresso um reforço do orçamento militar de USD 200 mil milhões), os dados oficiais mostram uma dívida federal em constante crescimento que já ultrapassou a do ano fiscal anterior.
Treasury.gov

Nas palavras do Committee for a Responsible Federal Budget «No matter what metric one chooses to examine our fiscal trajectory, we are clearly headed in the wrong direction. Gross debt is now $39 trillion; debt held by the public recently surpassed $31 trillion for the first time; deficits are approaching $2 trillion; and deficits as a share of the economy are twice as large as the 3% goal many economists and bipartisan policymakers believe we ought to be targeting.?»

04/02/2026

SERVIÇO PÚBLICO: Desfazendo equívocos em comentários ao post de ontem

Trata-se de dois comentários aos itens «Um novo pletórico peditório, desta vez o das tempestades» e «Uma Boa Nova, ou talvez não» da Crónica da passagem de um governo (35b) publicada ontem.

PRIMEIRO COMENTÁRIO

As «Duas sugestões» têm subjacente a confusão sobre os conceitos relacionados com o tratamento dos riscos: mitigação, evitação, transferência e financiamento – ver “ A Risk Management Standard”. Neste caso, não podendo evitar-se, os riscos poderão ser mitigados (enterrar os cabos eléctricos, melhorar o sistema de drenagem de águas pluviais, limitar a construção nas linhas de água, poda e abate de árvores, etc.), poderão ser transferidos (para seguradoras que por sua vez as transferirão para os mercados internacionais de resseguro) ou financiados (ver abaixo o Consorcio de Compensación de Seguros espanhol).

Bibliografia (um exemplo entre dezenas, no que respeita à gestão de riscos a nível estatal, e entre milhares no que respeita à gestão de riscos empresariais): “Diretrizes de Gestão dos Riscos de Catástrofes” da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho.
______

Em Espanha (e não, não é na Suíça) existe uma estrutura de resposta a catástrofes através do Sistema Nacional de Proteção Civil, que inclui planos específicos para vários riscos como sismos e tempestades.

A resposta é estruturada da seguinte forma:
  • Plano Nacional de Redução do Risco de Desastres: Reforçado recentemente para antecipar ameaças derivadas das alterações climáticas e coordenar a resposta estatal.
  • Planos de Riscos Especiais: Existem diretrizes nacionais específicas (Planos Especiais) para gerir riscos como sismos, inundações, maremotos e incêndios florestais.
  • Hierarquia de Resposta:
    • Territorial: As comunidades autónomas e municípios têm os seus próprios planos para emergências locais.
    • Nacional: O Estado intervém quando a emergência é declarada de "interesse nacional", coordenando todos os recursos públicos.
    • Unidade Militar de Emergências (UME): Uma força militar especializada criada especificamente para intervir rapidamente em catástrofes naturais graves em todo o território espanhol.
Também em Espanha (e não, não é na Suíça) existe o seguro público de catástrofes naturais que é gerido pelo Consorcio de Compensación de Seguros, uma entidade pública que compensa danos por riscos extraordinários (inundações, sismos, tempestades). Para ter acesso ao Consorcio, é indispensável dispor de um seguro privado (casa, carro, empresa) com os prémios pagos.

Em Portugal temos o peditório nacional e estamos há décadas a chutar a bola para a frente à espera criar uma solução semelhante limitada ao risco sísmico.
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«Nunca em Portugal Continental tinha havido ventos superiores a 150 km/hora.»

Segundo a página “Extremos climatológicos Portugal” do IPMA, em 13-10-2018 foi registada na Figueira da Foz  uma rajada de vento de 176,4 km/h.
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SEGUNDO COMENTÁRIO

«O que interessa é sempre o valor da dívida em percentagem do PIB».
Infelizmente há muitas outras coisas que interessam.  
Na véspera do resgate pela troika em 2011, a dívida pública do Estado Português era cerca de 163 mil (equivalente a 208 milhões de euros a preços actuais) e 94,0% do PIB. Catorze anos depois, no final de 2025, a dívida pública era de 274 mil milhões (mais 66 mil milhões do que em 2011 a preços actuais) e 89,7% do PIB (menos 4,3 pontos percentuais), rácio que era o sexto mais elevado da UE, posição do ranking onde o crescimento da produtividade se deveria situar para garantir que continuaremos a comprar popós no futuro e podemos financiar um Fundo de Catástrofes e não apenas um Fundo Sísmico.
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MORAL DA ESTÓRIA

Precisamos de persistência para resolver os problemas que têm solução, de paciência para conviver com os que não têm e inteligência para distinguir uns dos outros (Ditado chinês) .
Precisamos também de conhecimento para evitarmos o recurso aos palpites e bitaites, uma patologia que no Portugal dos Pequeninos infecta desde analfabetos até doutorados.

28/01/2026

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (78) - Em matéria de IA, como noutras, o país real continua distante dos delírios dos dirigentes

Outros portugueses no topo do mundo.

Utilizadores mensais de IA, em percentagem da população em idade activa
Fonte: Global AI Adoption in 2025—A Widening Digital Divide

Sendo certo que dizer, como o Dr. Matias, ministro da Reforma do Estado, que o Portugal dos Pequeninos tem «todas as condições para se tornar um líder mundial na IA» é algo do domínio do pensamento milagroso, o 20.º lugar no ranking europeu de utilização da IA e o 35.º mundial, estão em linha com outros domínios e não são um desastre.

09/01/2026

Lost in translation Found in translation – Unbabel, uma startup portuguesa, e uma Amália que é um karaokê alucinado

Há mais de 10 anos, a Unbabel, uma startup portuguesa dedicada à tradução automática, passou pela primeira vez no radar do (Im)pertinências. Registei então, com surpresa e alívio, o relativo desinteresse do jornalismo de causas doméstico, normalmente muito excitado pelos feitos dos patrícios (feitos frequentemente mais imaginados do que reais), esperançado de que a Unbabel escaparia à maldição do jornalismo promocional.

Da segunda vez, o ano passado, a Unbabel voltou a passar, desta vez pela mão do Dr. Montenegro que anunciou com pompa e circunstância durante a Web Summit o LLM português "Amália" que «partiria de uma base em open source já existente, o Tower LLM, da Unbabel». 

Dois meses depois desse anúncio, já a Unbabel parecia estar com «os dias contados» e tentava ser comprada, agarrando-se ao Amália como a uma tábua de salvação. Os vários adiamentos do projecto e a situação da Unbabel levaram-me a duvidar que alguma vez o "Amália" chegasse a cantar. 

A dúvida foi crescendo ao ser anunciada dois meses depois a venda da Unbabel à TransPerfect, por um valor simbólico depois de uma queda de 50% do volume de negócios (fonte), e há poucos dias soube-se que o fundo espanhol Buenavista, um dos accionistas, propôs uma “acção pauliana” para suspender todos os contratos, alegando as enormes perdas que os accionistas já tinham suportado. 

Fiz agora uma visita ao Chat "Amália" e perguntei qual a situação do "Amália" e recebi a seguinte intrigante resposta:
«sou um projeto independente e não estou relacionada com o modelo de linguagem "Amália" que está a ser desenvolvido com financiamento do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência).»
O que me levou a perguntar «qual é o papel da Unbabel no desenvolvimento do “Amália”?» que teve a seguinte surpreendente resposta:
«A Unbabel desempenha um papel crucial no desenvolvimento do projeto "Amália", que é uma iniciativa financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) em Portugal.» 

Antes de desistir por estar a ficar alucinado com o resultado da hallucination do "Amália", ainda percebi, pela descrição da arquitectura técnica, que, na verdade, não se trata de um modelo LLM, mas de uma aplicação para converter em português de Portugal o português do Brasil dos outputs dos modelos LLaMA (da Meta) e Mistral (da Mistral AI). Ou seja, o Amália, que não está relacionado com o modelo "Amália" financiado pelo PRR e é uma iniciativa financiada pelo PRR, não é o LLM Amália. É um karaokê do Amália.

26/12/2025

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (77) - Com um olho no burro e outro no cigano

Outros portugueses no topo do mundo.

mais liberdade

Incontáveis inquéritos mostraram a correlação entre o grau de confiança nas relações sociais e o desenvolvimento de um país, e numerosos estudos tentaram explicar a relação causal bidireccional entre ambas. A coisa compreende-se sem dificuldade porque, para a colocar em termos anedóticos, a desconfiança nas relações sociais obriga a que cada um esteja sempre com um olho no burro e outro no cigano, faz perder o foco, gastar mal o tempo e o dinheiro. Não deve surpreender ninguém que o nível de confiança no Portugal dos Pequeninos rivalize com o dos países balcânicos, que, ao contrário do que se passa na nossa Jangada de Pedra, têm a justificativa de não serem sociedades homogéneas do ponto de vista étnico e religioso.

30/11/2025

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (76) - Líder mundial na IA? No desperdício alimentar ninguém nos bate

Outros portugueses no topo do mundo.

O nosso Portugal dos Pequeninos não terá «as condições para se tornar um líder mundial na IA», como garantiu o Dr. Matias, ministro da Reforma do Estado, excitado pela numerosa plateia internacional que o escutava na Web Summit, mas ninguém lhe tira o lugar no topo do despercício alimentar, segundo os dados do Eurostat citados pelo Expresso.


É extraordinário que os cidadãos de um país onde ainda hoje há quem tenha fome e ainda estão vivos os que há não muitas décadas conviviam com uma frugalidade a que hoje se chamaria fome, deitem para o lixo em média quase 300 gramas de comida por dia.

16/11/2025

Ser de esquerda é... (33) - ... é trocar de causas como quem troca de camisa (sempre com o mesmo tronco)

«Desastres eleitorais sucessivos, transferência de votos para a direita a par do envelhecimento do seu eleitorado, levaram as esquerdas  a primeiro deitar contas à vida e, em seguida, atirar pressurosamente para o caixote do lixo as vítimas que até ontem animavam o seu activismo. E assim, porque chegou a hora dos camaradas subirem ao palanque, num ápice sumiram-se os “camarados” e os “camarades”. (...)

O problema é que não só conseguem impor novos activismos como está implícito que esqueçamos as consequências do activismo da véspera. É mesmo como se esse activismo nunca tivesse existido. O direito à desmemória é o grande privilégio da esquerda que, enquanto mergulha as sociedades em processos contínuos de mortificação pelos crimes cometidos  por aqueles que aponta como seus inimigos no passado — e que podem ser tão distantes quanto os descobridores portugueses do século XV —, se arroga a si mesma o direito de não ser confrontada por aquilo que fez e disse ontem. Ou anteontem. Ou há um ou dois anos. (...)

Pois é agora já ninguém quer saber das casas de banho para as crianças trans, nem da linguagem dita inclusiva porque agora vamos voltar à “classe contra classe até à vitória final” como se estivéssemos no PREC. Alguém esperava que assim não fosse? Para que tal acontecesse era necessário ter denunciado, criticado, confrontado… os activistas quando estes andavam por aí com o linguarejar (cada activismo tem o seu idiolecto próprio) do sonho e da conquista irreversível para designar a estatização e consequente destruição da economia do país. É caso para dizer, olá camaradas. Façam de conta que estão na vossa casa.»

Helena Matos no Observador

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Outros "Ser de esquerda é..."

Em boa verdade, a volubilidade da esquerdalhada é apenas aparente, porque persiste o mesmo propósito de sempre: impor uma agenda e sabotar a liberdade em nome de grandes princípios. Afinal, o mesmo propósito que a direita iliberal prossegue. 

23/10/2025

Ser de esquerda é... (32) - ... imaginar que o Palácio de Belém do Portugal dos Pequeninos é o topos das "utopias concretas"

O topos das "utopias concretas"

O LIVRE, «o espaço político da esquerda ecologista, progressista, europeísta, regionalista e libertária», uma espécie de Bloco de Esquerda sedado, sob a liderança do Prof. Rui Tavares, uma espécie de Prof. Louçã praticando um tele-evangelismo suave, decidiu apoiar o deputado pelo Porto Dr. Jorge Pinto na sua candidatura à presidência da República, mais concretamente da II República, cujos «ideais, princípios, valores, estão sob ataque» com vista a «continuar a contribuir para que o LIVRE continue a ser o partido das utopias concretas».

O Dr. Jorge Pinto é «Doutor em filosofia social e política, com uma tese sobre republicanismo, ecologia e pós-produtivismo». (fonte)


Outros "Ser de esquerda é..."

28/08/2025

Dúvidas (355) - Para que serve a Fundação de Serralves? Promover actividades culturais? Certo? Errado! Serve para «Incomodar, desestabilizar, interrogar»

De acordo com os seus Estatutos, a Fundação de Serralves serve para:


Podemos discutir se esta é formulação mais adequada da finalidade da Fundação ou então podemos perguntar à Dr. Isabel Pires de Lima, a presidente demissionária, ex-ministra da Cultura no governo do Eng. Sócrates, qual é a sua perspectiva. É uma pergunta retórica porque Dr. Isabel Pires de Lima antecipou-se e respondeu assim no comunicado em que anuncia a sua renúncia:

«Na minha perspetiva, um espaço de produção de arte como é Serralves tem, a todo o momento, de incomodar, desestabilizar, interrogar ou então será apenas um lugar de pessoas demasiado contentes consigo próprias, naquela felicidade potencialmente castradora que o sucesso traz.»

25/07/2025

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (75) - Duvido que algum dia o "Amália" cante. É o nosso fado

Outros portugueses no topo do mundo.

aqui tinha feito uma referência ao "Amália", um «LLM português», à época ainda por baptizar, que o Dr. Luís Montenegro anunciou com pompa e circunstância durante a Web Summit com o propósito de «inovarmos em português, preservando o nosso idioma e utilizando a nossa cultura ao serviço da inovação». Para além do facto de provavelmente não dever ser classificado como um LLM, e ser um ou vários domain-specific models dos quais já existem milhares, duvidei desde logo se algum dia veríamos tal modelo.

O LLM português que chegou a estar previsto para estar pronto no primeiro trimestre de 2025 «partiria de uma base em open source já existente, o Tower LLM, da Unbabel». Três meses depois a task force que estava a desenvolver o Amália anunciou que o seu mandato seria até ao final de 2028.

Ora acontece que a Unbabel, uma start-up portuguesa dedicada à tradução, que já então estava em dificuldades, provavelmente viu no "Amália" uma tábua de salvação e através dos lóbis do costume chegou até ao ouvido do Dr. Montenegro, tem nesta altura «os dias contados» e está a tentar ser comprada. Daí que sem nenhuma surpresa ter sido agora anunciado que o «projecto tem respeitado o calendário do Governo, mas só deverá ser público em 2026, contrariando expectativas». Calendário? Qual calendário? Expectativas? Quais expectativas? Não certamente as minhas que não sou dado ao wishful thinking e tenho agora reforçada a mesma dúvida que tinha quando tudo começou: algum dia veremos tal modelo?

04/06/2025

Pro memoria (443) - Os cortes no orçamento federal anunciados pelo Sr. Musk podem ser um bocadinho magalómanos... e o défice pode ainda aumentar

Continuação de Os cortes no orçamento federal anunciados pelo Sr. Musk podem ser um bocadinho magalómanos

Recordemos que o Sr. Musk garantiu o ano passado num comício MAGAlómano no Madison Square Garden que iria cortar um terço do orçamento federal anual de US$ 7 biliões, o equivalente a US$ 2,3 biliões (2.300.000.000.000) e que as últimas estimativas apontam para cortes que não devem ultrapassar os 150 a 170 milhões.

Por muito paradoxal que seja a acção do DOGE, ainda mais paradoxal é que, entre o pork barrel e o prolongamento das redução de taxas sobre o rendimento introduzidas no primeiro mandato de Donald Trump, do que está em discussão no Congresso podem resultar incrementos das despesas federais e redução dos impostos que acrescentarão à dívida biliões de dólares.

The Cost of BIG, BEAUTIFUL DEBT (fonte)

Em resultado, várias agências reviram em baixa a classificação de crédito da dívida americana que perdeu o triple A pela primeira vez em décadas. É mais um exemplo notável das leis Merton de unintended consequences de que a administração MAGAlómana nos tem dado inúmeros exemplos.

Como corolário a lei de Merton, Elon Musk, o mentor do DOGE, saltou em andamento do comboio do MAGA com um post bombástico na sua rede X:

«I’m sorry, but I just can’t stand it anymore. This massive, outrageous, pork-filled Congressional spending bill is a disgusting abomination. Shame on those who voted for it: you know you did wrong. You know it.»

E assim terminou uma GREAT and BEAUTIFUL friendship.

01/06/2025

Trump' small stick policy and MAGAlomaniacal speeches

US President Theodore Roosevelt often said in foreign policy matters «speak softly and carry a big stick; you will go far», a doctrine that came to be called «big stick» policy. President Donald Trump, on any political issue, including foreign policy, always starts by speaking loudly. The case of the Russian invasion of Ukraine, which he promised to achieve peace in the first 24 hours, is a good example.

In late March, after Putin launched a massive drone and missile strike on Kiev, Donald Trump complained on his private social network Truth Social: «Not necessary, and very bad timing. Vladimir, STOP!». Vladimir’s response a month later suggesting that Trump was suffering from «emotional overload» would have embarrassed the POTUS if the POTUS had any shame. It’s an example of what could be called «small stick policy», something that we can compare with the same policy of Barack Obama who, even though he had a small stick, did not speak so loudly.

Another recent example of MAGAlomaniacal hubris, extraordinary even for a creature like Donald Trump, was his commencement speech at West Point where he said «And you will become officers of the greatest and most powerful army the world has ever known. And I know, because I rebuilt that army, and I rebuilt the military. And we rebuilt it like nobody has ever rebuilt it before in my first term.»

16/05/2025

Pro memoria (442) - Os cortes no orçamento federal anunciados pelo Sr. Musk podem ser um bocadinho magalómanos

Antes de olharmos para os cortes anunciados pelo Sr. Musk, recordemos uma estimativa feita em Setembro do ano passado sobre os impactos orçamentais no período 2025-34 das políticas anunciadas pelos candidatos de onde resultava que o défice total estimado para uma administração Trump seria o dobro do de uma administração Harris.

Fonte

De volta ao Sr. Musk que perante o delírio dos magalómanos presentes no MAGA-comício no Madison Square Garden garantiu o ano passado que iria cortar um terço do orçamento federal anual de US$ 7 biliões, o equivalente a US$ 2,3 biliões (2.300.000.000.000). 

Seis meses depois a propaganda do DOGE (Departamento de Eficiência Governamental) anuncia ter feito cortes de US$ 170 mil milhões ou 7,3% do anunciado, dos quais a parte mais bem documentada são os US$ 31,8 mil milhões de 10.248 cancelamentos e alterações de contratos dos quais o Financial Times só conseguiu confirmar cerca de 2/3. Ainda assim, há provas de avaliações inflacionadas, por exemplo considerando como corte da despesa contratos já terminados, e muitos dos cortes anunciados são pontuais e não recorrentes nos próximos anos e outros ameaçam paralisar o aparelho federal.


Mais verificável é a opacidade do funcionamento do DOGE sobre o qual pouco se sabe. É também mais verificável a perda de biliões de dólares da fortuna pessoal do Sr. Musk pela desvalorização da Tesla e o cancelamento de contratos da Starlink.

[Leia What has Elon Musk’s Doge actually achieved? para ter mais detalhes dos excessos magalómanos]