Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

25/07/2017

Curtas e grossas (48) - Não são de direita (parecem mais de esquerda). São betinhos

Os betinhos de Loures anunciando a derrota antecipada (*)
«Quando, na semana passada, Assunção Cristas reuniu a Comissão Política do CDS para retirar o apoio a André Ventura e, desta forma, por termo à coligação com o PSD naquela autarquia, Pedro Pestana Bastos aplaudiu e ofereceu-se para ser candidato, caso fosse preciso. (...) E põe a fasquia alta: “Ter menos votos do que o PSD será uma derrota. O que aqui está em causa é o modelo de direita que queremos para o país”, diz ao Expresso»

O modelo de direita? Qual modelo? Qual direita? A direita que mete a cabeça na areia, nega a realidade e se borra de medo de contrariar a vulgata do pensamento único?

(*) Inspirado no analista Vasco Pulido Valente que há uns anos, depois de ter falhado estrondosamente uma previsão, despromoveu-se a comentador, garanto que se a minha profecia não se confirmar farei o mesmo. (Não sou analista nem quero ser comentador, mas a intenção é que conta.)

CASE STUDY: «A única função das previsões económicas é tornar respeitável a astrologia» (2)

Continuação de (1)

The Econonist
O FMI tem falhado por excesso as previsões de crescimento do PIB mundial, revendo-as quase sempre em baixa. Sublinho: a nível mundial, onde os erros das previsões nacionais se compensam parcialmente. A nível nacional as previsões têm sido um desastre. Estamos agora numa fase singular em que as previsões estão a ser revistas em alta devido à sincronia das economias americana, chinesa e europeia.

24/07/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (93)

Outras avarias da geringonça.

Mostrando o seu apreço pelo direito dos eleitores à informação, o governo de Costa proibiu comandantes dos bombeiros de dar informações sobre os fogos. Porquê? Porque os incêndios que mais preocupam o governo não são os das florestas são os dos mídia, como o número de mortos de Pedrógão Grande.

Mostrando o seu apreço pela verdade, o governo de Costa colocou em segredo de justiça a lista dos nomes dos falecidos no incêndio de Pedrógão Grande. A arbitrariedade e propósito absurdo de tal segredo, os hábitos de Costa e vários indícios (entre eles o respeitador semanário de reverência Expresso que dá uma no cravo dos factos e outra na ferradura do governo) tornam provável ser o número de mortos superior ao anunciado pelo governo, como indicia esta investigação privada. A ser assim, é muito provável que a mistificação do governo se venha a refugiar na exclusão das mortes indirectas, o que escreve Poiares Maduro seria como «se o governo britânico dissesse que as pessoas que morreram ao saltar da torre em chamas no recente incêndio em Londres não eram vítimas do mesmo pois não morreram vítimas de inalação ou queimaduras...»

Exemplos do costume (52) - Os caciques

Passos Coelho será tudo menos um santo, mas pelo menos desta vez está inocente das manobras de «mobilização artificial de militantes nas eleições internas partidárias» para o PSD Lisboa, em benefício do beato Nuno Morais Sarmento devidamente patrocinado por santa Manuela Ferreira Leite, manobras que o Observador documentou.

Tão revelador como a reportagem do Observador é o facto de apenas o Expresso (citando a SIC) lhe ter feito referência. Guess why. Adivinhe não porquê o Expresso (deve ter sido acidente), mas porquê nenhum dos outros jornais. Imagine-se o clamor indignado dos pandeiretas do jornalismo de causas se essa mobilização tivesse sido em benefício da facção de Passos Coelho...

Os ingénuos que imaginam que este tipo de manobras se circunscreve a facções do PSD, desiludam-se. Recomenda-se vivamente a leitura de «Os predadores», já aqui citado a propósito de «A rede da agência de empregos no município» montada por Costa em Lisboa, da autoria de Vítor Matos, não por acaso um dos jornalistas que subscreve a peça do Observador.

23/07/2017

DIÁRIO DE BORDO: Não há pachorra para a brigada do pensamento único

A pretexto das entrevistas do Expresso a Gentil Martins, um médico notável, e do Jornal i a André Ventura, o candidato PSD/CDS à câmara de Loures, o universo mediático foi atravessado por ondas de indignação provenientes dos círculos do politicamente correcto e de outras correntes esquerdistas fazendo o papel dos novos polícias do pensamento único. A que pretexto? Porque o primeiro classificou a homossexualidade como «anomalia» (bem-vindo ao clube) e o segundo porque se referiu indirectamente e no contexto do concelho de Loures à «etnia cigana» como sendo um dos grupos que «vivem quase exclusivamente de subsídios do Estado (e) acharem que estão acima das regras do Estado de direito».

Os polícias do pensamento reagiram prontamente exigindo procedimentos disciplinares e queixas-crime contra as duas criaturas tresmalhadas do pensamento único. Não vou efabular sobre a «ciência» da homossexualidade ou as demonstrações factuais de que os ciganos de Loures são «quase exclusivamente» como os caracteriza André Ventura, embora considere que uma e outra opiniões mereceriam uma análise e discussão sérias. Também não vou discutir a forma como essas opiniões foram expressas que é obviamente discutível.

Tão pouco vou apontar, outra vez, o dedo aos polícias do pensamento único todos eles grandes defensores em abstracto da liberdade de expressão e em concreto da liberdade de expressão das ideias conformes à sua vulgata. Vou apenas salientar um argumento sofista, particularmente repugnante, tratando-se de gente ilustrada.

O argumento consiste na tentativa de reverter a acusação que lhes é feita de polícias do pensamento único vitimizando-se por serem criticados, de onde, segundo a sua lógica, isso significaria que os «homofóbicos» e os «racistas» são intolerantes e não suportam as críticas. Ora acontece, que se saiba, nenhum «homofóbico» ou «racista» apresentou ou ameaçou apresentar, queixa-crime ou exigiu procedimento disciplinar contra um qualquer polícia do pensamento único. Há também nesta matéria uma divisão profunda entre os que combatem o que entendem ser ideias erradas com argumentos melhores ou piores e os polícias do pensamento único que pretendem calar os que eles rotulam de «homofóbicos» e de «racistas».

Como escrevi há dias, uma coisa é contraditar os desatinos, outra é tentar calar os desatinados. É esta a grande diferença entre quem defende a liberdade e quem a usa para calar a desconformidade. E, a propósito, recomendo vivamente a leitura de «A ditadura da ideologia de género» de Bernardo Sacadura no Observador.

22/07/2017

ACREDITE SE QUISER: Myselfie, himselfie, yourselfie, ourselfies, themselfies

Alguns psicólogos explicam a obsessão pelas selfies com a ocorrência de problemas de saúde mental, como o transtorno dismórfico corporal que se caracteriza por uma preocupação mórbida por um defeito real ou imaginário e comportamentos compulsivos que se desenvolvem em resposta a essas preocupações.

Nalguns casos esses comportamentos têm consequências no mundo real. Em 2015 morreram mais pessoas a tentarem fazer selfies perfeitas do que de ataques de tubarão. Além dos praticantes da selfie também as obras de arte estão a sofrer consequências. Alguns exemplos (fonte: The Economist Espresso):
  • Em 2014, um estudante italiano destruiu uma estátua do início do século XIX, ao subir ao seu colo para disparar uma selfie; 
  • Um americano ficou preso numa escultura representando uma vagina de 32 toneladas de Fernando de la Jara e teve que ser libertado por 22 bombeiros;
  • A semana passada em Los Angeles, uma mulher tentando a selfie perfeita derrubou uma fila de esculturas de Simon Birch causando 200 mil dólares de danos. 
A estes casos podemos acrescentar o do visitante do Museu Nacional de Arte Antiga que em Novembro do ano passado derrubou um São Miguel do séc. XVIII. Também poderíamos acrescentar o caso do presidente dos afectos que com milhares de selfies um pouco por todo o lado tem contribuído para o presente estado de euforia (tecnicamente um episódio maníaco) a que se seguirá, como habitualmente, uma profunda depressão, salpicada com surtos de indignação.

21/07/2017

Lost in translation (294) - O socialês de Costa em português corrente

Colidindo no Funchal com uma manif de «lesados do Banif», entre outras engraxadelas aos manifestantes, Costa sacou da sua demagogia de bolso e disparou:
«Há vontade política de responder a uma situação gravíssima, que é um conjunto de pessoas honestas que fizeram confiança num sistema que as aldrabou, como é evidente.»
Como se pode traduzir isto em português corrente sem filtros? Talvez assim:
O governo vai tentar sacar aos contribuintes que não foram tolos mais impostos para compensar os outros contribuintes que aplicaram dinheiro em produtos financeiros obscuros que não percebiam, vendidos por um banco zombie cujo accionista maioritário já falecido era um emérito simpatizante do Partido Socialista, outros contribuintes que confiaram num sistema do qual o Partido Socialista foi o fundador e sustentáculo principal, promovendo a maior promiscuidade entre a banca e a política.

CASE STUDY: Câmara de Lisboa – a obra feita de Costa, Medina & Salgado

Estão em curso no DIAP (Departamento de Investigação e Acção Penal) inquéritos sobre aprovações durante os mandatos de Costa e Medina, com Manuel Salgado como vereador do Urbanismo: a construção da Torre das Picoas e as obras de ampliação do Hospital da Luz (na altura pertencia ao GES, presidido por Ricardo Salgado, primo do vereador).

A esses casos juntam-se outros como a construção de um edifício de escritórios de 17 andares nas Picoas inicialmente aprovado apenas para 7 andares, num terreno de uma empresa ligada ao BES.
E outras batotices como a transferência da gestão de vários edifícios da câmara para a Associação de Turismo de Lisboa (ATL) para fintar o escrutínio da oposição, da Assembleia Municipal e do Tribunal de Contas.

(Leia aqui uma descrição mais extensa da obra feita)

ACREDITE SE QUISER: Babel no Pacífico

«Papua New Guinea: Speaking in tongues

India, with 22 official languages, is often considered the world’s most linguistically diverse place. In fact that prize goes to Papua New Guinea, a country of just 7.6m. Its 850-odd languages have between a few dozen and 650,000 speakers. The reasons for this variety are topography, which keeps villages isolated; a largely rural population; and fierce tribal divisions. But the growth of Tok Pisin, a creole, is threatening smaller languages.»

(The Economist Espresso)

20/07/2017

Chávez & Chávez, Sucessores (59) - Pajarito amigo, el pueblo de la jerigonza está contigo

Outras obras do chávismo.

Há dois anos que o pajarito não aparece a Maduro

Portugal, único país de la UE que descarta las sanciones a Venezuela
«Un informe de la delegación de la UE en Caracas apunta que 27 de los 28 Estados miembros están abiertos a dicha posibilidad» (El País)

Sem surpresa, o governo, pela boca do MNE que gosta de malhar na direita e acaricia a esquerda, nega que tenham sido discutidas sanções (nega algo que El País não afirma) (*) e diz que o governo «favorece uma solução política inclusiva na Venezuela». Não explica se a solução política inclusiva inclui Maduro, a nomenclatura e as milícias chávistas.

Também sem surpresa, o presidente Marcelo defende «o diálogo, um diálogo genuíno, um diálogo aberto, um diálogo sem condições, entre todos». Com muito afecto, poderia acrescentar.

(Fonte para a inclusão e o diálogo: a RTP)

(*) Actualização:
«MNE reagiu à notícia do El País para dizer que sanções à Venezuela não foram discutidas por ministros da UE. Mas a chefe da diplomacia europeia admitiu, no início da semana, que o tema foi abordado». (Observador)
Apanha-se mais depressa um coxo do que um mentiroso se o mentiroso tiver boa imprensa.

DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (41) - Não há nem haverá crise, garantiu

Outras preces.

Encarnando um híbrido de Zandinga e de um professor de economia da Mouse School of Economics, Marcelo Rebelo de Sousa informou durante a sua visita ao México que «todas as análises de crise e todas as decisões sobre a crise passam pelo Presidente da República», e garantiu urbi et orbi que «não haverá razões institucionais que limitem a capacidade de crescimento», acrescentando «quando eu digo não haverá, não haverá».

O Marcelo de que estamos a falar é o mesmo Marcelo que uns meses antes de ser entronizado presidente do PSD também garantiu que «só se Cristo descer à terra» se candidataria. O mesmo Marcelo que garantiu ter havido o célebre jantar com Paulo Portas com vichyssoise de entrada. O mesmo que implicitou no início do mandato que só cumpriria o primeiro e está a fazer tudo para assegurar o segundo. O mesmo que garantiu a Isabel II que, com oito anos de idade, filho de um ministro de Salazar, estava na primeira fila da plebe que na Praça do Comércio a viu passar na visita a Lisboa em 1957. O mesmo que ainda garantiu a Isabel II ter-se encontrado com ela em 1985 como «líder da oposição». O mesmo a quem o «Presidente da República Federativa do Brasil, (...) pediu para ser recebido» mas não apareceu. O mesmo que em pleno incêndio de Pedrógão Grande garantiu que «tudo está a ser feito com critério e organização», para poucos dias depois garantir que se iria «apurar tudo, mas mesmo tudo, o que houver a apurar». Ainda o mesmo Marcelo que depois de ter minimizado o desaparecimento de munições em Tancos, veio dias depois defender «uma investigação que apure tudo, factos e responsabilidades». Ah!, já quase esquecia, o mesmo que garante que «não haverá razões institucionais que limitem a capacidade de crescimento».

É certo que a última e definitiva garantia «quando eu digo não haverá, não haverá» ultrapassa tudo o que a musa antiga canta, mas é compreensível que o presidente Marcelo se tenha ultrapassado a si próprio se porventura tiver circulado na auto-estrada mexicana daquela estória que também não sabemos se é verdadeira.

19/07/2017

Tiro (póstumo) nos pés de Teixeira dos Santos

Há 7 anos, um ano antes da chegada da brigada da troika, passaram pelo radar do (Im)pertinências dois artigos do NYT que então comentei neste post e agora transcrevo parcialmente:

«... fora do país e dos meios que têm um interesse directo em desvalorizar o risco de bancarrota portuguesa, o resto do mundo ou não presta atenção ou partilha quase sempre a antevisão duma tragédia grega. Num único dia, o NY Times, um bastião do politicamente correcto, insuspeito de antipatia pela causa da irresponsabilidade financeira, publicou dois artigos de muito mau augúrio para a economia e finanças públicas portuguesas: «Debt Worries Shift to Portugal, Spurred by Rising Bond Rates», de Landon Thomas e «The Next Global Problem: Portugal de Peter Boone e Simon Johnson, este último ex-economista chefe do FMI.

(...) A gravidade da situação de endividamento neste contexto é salientada pelo segundo artigo que estima que a uma taxa de juro optimista de 5% e com um défice primário de 5,2%, Portugal precisaria um agravamento fiscal de 10% o qual, sem uma impossível correcção monetária na Zona Euro, conduziria a um emprego socialmente devastador.»

Instruída por Teixeira dos Santos, a CMVM acusou então Boone, o primeiro autor do segundo artigo citado, de especular com a dívida pública portuguesa para obter mais-valias, uma vez que estava ligado à gestora de fundos Salute Capital Management. Foi então acusado pelo Ministério Público e, após vários anos a chocar a decisão, recentemente o tribunal ilibou-o sem julgamento. (Negócios)

Depois da decisão do tribunal, Peter Boone anunciou que iria processar o Estado português considerando que «foi uma caça às bruxas iniciada por uma declaração pública do antigo ministro das Finanças, professor Fernando Teixeira dos Santos, que se sentiu ofendido por eu ter questionado algumas das más decisões económicas que ele e os seus pares estavam a prosseguir». That's it!

Manifestações de paranóia/esquizofrenia (22) - O berloquismo como pensamento paranóico/esquizofrénico totalitário

Em entrevista ao SOL, André Ventura, candidato à câmara de Loures pelo PSD, em resposta à pergunta «Recentemente disse que somos demasiado “tolerantes com algumas minorias”. De que minorias falava?», disse:

«Vou-lhe ser muito direto: eu acho, e Loures tem sentido esse problema, que estamos aqui a falar particularmente da etnia cigana. É verdade que em Loures há mais, com uma multiculturalidade grande, mas em Portugal temos uma cultura com dois tipos de coisas preocupantes: uma é haver grupos que, em termos de composição de rendimento, vivem quase exclusivamente de subsídios do Estado, outra é acharem que estão acima das regras do Estado de direito.»

Afinal a etnia cigana existe ou não? Vive quase exclusivamente de subsídios ou não? São perguntas que um adulto mentalmente equilibrado poderia fazer. Outro poderia contra-argumentar suportado em palpites, factos ou estatísticas ou o que lhe desse na realíssima gana.

O que fez a candidatura do Bloco de Esquerda à Câmara Municipal de Loures? «Apresentou, esta segunda-feira, uma queixa-crime ao Ministério Público e à Ordem dos Advogados contra o candidato do PSD/CDS-PP/PPM, devido a referências discriminatórias dirigidas à comunidade cigana.»

Alguns comentadores encartados, como Daniel Oliveira, arremessam-nos o sofisma de quem critica o politicamente correcto não aceita a liberdade de expressão e o contraditório. Se ele não consegue melhor argumento, seria melhor reformar-se da comentadoria. Não me dei conta de alguém apresentar, ou sequer ameaçar apresentar, queixa-crime contra um qualquer de entre a multidão de imbecis que promove as causas mais absurdas do portfólio de qualquer esquerdista vulgaris. Uma coisa é contraditar os desatinos, outra é tentar calar os desatinados.

De resto não adiantaria apresentar queixa-crime ao Ministério Público contra os berloquistas por querem calar os refractários ao pensamento único acusando-os de delitos de opinião. Os herdeiros de variados ismos (marxismo, bolchevismo, leninismo, esquerdismo infantil, marxismo-leninismo, trotskismo, estalinismo, luxemburguismo, maoismo et alia) e actuais representantes do esquerdismo senil são inimputáveis.

18/07/2017

Pro memoria (349) - Como um incêndio bastou para expor a falência de Marcelo, Costa & Geringonça, Lda.

«Passou o primeiro mês. Quase tão impressionante como a nossa capacidade de ainda nos chocarmos com o grande fogo do Pinhal Interior, é a incapacidade de conseguir respostas claras a perguntas simples sobre uma tragédia que matou 64 pessoas. Já passámos a idade da inocência, quando o Presidente da República dizia que “não era possível fazer mais” e o diretor-nacional da Polícia Judiciária apontava para a árvore onde caiu o raio fatal que ninguém viu, ninguém ouviu e nenhum satélite ou computador registou. Hoje não há dúvidas de que era possível ter-se feito muito mais, muito melhor. Até Marcelo já admitiu, em declarações à SIC, que o Estado falhou. As fragilidades ficaram à vista.

Já não há dúvidas sobre as falhas do SIRESP, ou sobre a fragilidade da estrutura operacional da Proteção Civil, cujos comandos distritais foram mudados dois meses antes dos fogos. O facto é que boa parte do que se sabe, só se sabe olhando para lá da cortina de fumo das explicações oficiais. O que se sabe não chega. É de uma fragilidade inadmissível.

Ontem à noite houve telejornais em direto de Pedrógão Grande, e lá ao longe via-se o fumo de novos incêndios, agora em Oleiros. E em Mangualde. E na Guarda. E em Alijó. E em Vila Nova de Foz Côa. Ao final da tarde de ontem, o presidente da câmara de Alijó afirmava que o fogo estava fora de controlo e acrescentou um apelo que mostra bem o que se passa no terreno: "Alguém que perceba de combate a incêndios tem de nos vir ajudar". Alijó declarou o estado de emergência municipal. Mangualde também. Casas, carros, animais, plantações e florestas foram devastados. A A25 chegou a estar cortada, mas esta manhã todas as vias cortadas estavam reabertas. No Público, Manuel Carvalho explica por que razão "o Governo não vai poder desvalorizar o incêndio de Alijó com a mesma negligência com que menorizou o assalto em Tancos".

O SIRESP, já se sabe, voltou a falhar - ou, na linguagem acética dos burocratas, "foram registadas algumas intermitências pontuais". António Costa, que foge de discutir o SIRESP como o diabo da cruz, voltou a apontar o dedo à PT/Altice, agora sem a nomear. É oficial: a empresa que era a festa do regime passou a besta do regime. “Fragilidade inadmissível”, disse o primeiro-ministro, sobre a rede da operadora de que deixou de ser cliente. Costa, que sabe o que fez quando era Ministro da Administração Interna, também sabe que a melhor defesa é o ataque: “Numa zona de grande densidade florestal, onde há elevado risco de incêndio, o sistema de comunicações de uma determinada companhia, que não vou dizer o nome para não me criticarem, assentar em cabos aéreos, e nessa rede circular não só a comunicação normal como a de emergência, expõe obviamente essa rede a uma fragilidade inadmissível”, disse. Não há como discordar. Infelizmente, esta evidência não ocorreu ao ministro que em 2006 adjudicou uma rede de comunicações de emergência a um consórcio que era servido por esta “companhia” que em zonas de “grande densidade florestal” estava dependente de “cabos aéreos”...»

Expresso Curto de hoje mostrando uma infrequente independência

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Os outros jogam ténis, Roger Federer respira

La souplesse elle-même
«A  diferença fundamental entre Roger Federer e os outros jogadores do planeta não é a mais evidente, ou seja, o facto de ele ganhar a maioria das vezes. Isso é um corolário, talvez uma coincidência, muitas vezes uma consequência lógica. A diferença real entre ele e outros, como todo mundo sabe, é que os outros jogam ténis, enquanto ele faz algo que tem mais a ver com a respiração, ou com o voo de aves migratórias, ou com a força renovada do vento de manhã. Algo escrito há algum tempo - inevitável -  no curso das coisas. Algo natural. Por acidente, Federer tem uma raquete na mão, mas, ao vê-lo jogar, muitas vezes esquece-se que isso é uma raquete e acaba por se acreditar que é uma espécie de pinça que os seres humanos tinham na origem, e que mais tarde nós perdemos porque é óbvio que era inadequada para a luta pela sobrevivência. Todos nós a perdemos, excepto ele, que, por razões obscuras (o carácter isolado da Suíça deve ter a ver com isso), emergiu ileso de séculos de mutação genética.»

Alessandro Baricco (de La Repubblica) em El País

DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (40) - Guterrando

Outras preces.

Se não fosse este post do Blasfémias também não teria reparado que Marcelo exonerou o único militar até agora por ele nomeado para o lugar de secretário do Conselho Superior de Defesa Nacional.

Tudo começou quando Antunes Calçada durante a apresentação de um livro de um outro militar disse o que foi interpretado pelos presentes (e os ausentes) como classificando o CEME Rovisco Duarte «sabujo para cima» para proteger o ministro Azeredo Lopes e «cão para baixo» ao demitir os cinco comandantes das unidades que tinham a responsabilidade pela segurança de Tancos.

Imitando o inimitável Guterres, «depois de ouvido o Governo», Marcelo produziu um despacho exonerando «Antunes Calçada do cargo de Secretário do Conselho Superior de Defesa Nacional». Porquê exonerá-lo do cargo se a criatura, segundo o despacho, o «exerceu com zelo, competência e dedicação»? O que mostra isto? Mostra que nos momentos de crise Marcelo é incapaz de decidir contra as pressões ou contra a corrente, sempre preocupado com a popularidade e com evitar a crispação.

Contem com ele para as selfies, os afectos, os beijinhos, os abraços e, last but not least, as intrigas. Não contem com ele para tomar decisões disruptivas que serão inevitáveis durante os quatro anos que lhe faltam de mandato, para já não falar no seu segundo mandato pelo qual disfarça mal ansiar.

17/07/2017

DIÁRIO DE BORDO: Camaradas paneleiros de todo o mundo uni-vos contra Gentil Martins

«Na festa do Avante de 2015, vários homossexuais foram espancados por seguranças do evento. Um destes homens foi agarrado e atirado para o interior de uma carrinha de apoio à festa. Nessa carrinha, foi insultado ("maricas", "paneleiro de merda", "porco"), humilhado e agredido com pontapés e murros. Até lhe apertaram o pescoço com uma corda. No meio desta humilhação, um dos capangas do PCP teve um momento de caridade e exigiu que se parasse com aquele tratamento propedêutico, visto que a vítima era um "camarada" e não um mero "paneleiro de merda". A resposta do líder do esquadrão de reeducação foi clara: "não há camaradas paneleiros". Esta cena não aconteceu no consultório de Gentil Martins neste fim-de-semana, mas sim na festa do Avante de 2015.

Nesta festa do Avante em particular e ao longo da história do Partido, ocorreram mais casos de homofobia primária e violenta (não é uma mera opinião), mas julgo que este caso chega para ilustrar o meu ponto: este acto de abjecta violência do PCP não gerou nem 10% da comoção coletiva gerada agora pelas declarações de Gentil Martins. Os indignados que agora pedem a cabeça do médico estiveram calados que nem ratinhos de laboratório perante a violência comunista. Se a memória não me falha, só este jornal pegou a sério no tema.

A discrepância dos critérios fala por si. Um partido de esquerda tem direito à violência homofóbica. Um médico católico não tem direito à sua opinião. É como se não existisse uma diferença moral entre um ato e uma palavra. Pior: é como se uma opinião de direita fosse muitíssimo mais grave do que um ato de violência da esquerda. Não é um caso isolado. O alegado "espaço público" português é uma escola de verão do BE ou um prolongamento da Atalaia. Estas ondas de indignação só ocorrem contra pessoas conotadas com a direita, Gentil Martins, Rui Ramos, Jaime Nogueira Pinto, este que vos escreve. Já as pessoas de esquerda podem mentir, insultar e até agredir, estão acima do bem e do mal. Se a cena de violência que descrevi tivesse ocorrido num comício da direita ou numa atividade da igreja, teria caído o Carmo e a Trindade. Como ocorreu no solo sagrado da Atalaia, nada se passou. Nada se passa. Não há, não houve, não haverá camaradas paneleiros.»

«Camaradas paneleiros», Henrique Raposo no Expresso Diário

Um dia como os outros na vida do estado sucial (32) - Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes


«... no Alijó as chamas obrigaram à evacuação de uma aldeia. Um helicóptero caiu e houve casas e pessoas em risco. Hoje de manhã o fogo ainda não tinha sido extinto. E, adivinhem, o Siresp, o sistema de comunicações que nos custa 40 milhões de euros por ano, voltou a falhar.» (Expresso Curto)

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (92)

Outras avarias da geringonça.

Uma vez ou outra Costa deixa cair a máscara e deixa ver os seus tiques autocráticos, como a semana passada em que ameaçou veladamente a Altice e, assumindo a sua faceta de tele-evangelista, anunciou que já tinha feito a sua escolha do operador, não sem antes com um enorme descaro classificar de «irresponsável» a privatização da PT começada e acabada por governos do PS em que participou.

Depois de ter garantido que a solução para os «lesados do BES» do amigo Lacerda Machado não teria custos para os contribuintes, a semana passada o governo acabou a admitir o que antes tinha negado. Por falar em sem custos, já repararam que um dos milagres favoritos do socialismo indígena é criar soluções que não são pagas pelos que dela beneficiam mas por outros? Lembram-se como começaram e acabaram as SCUT?

Um exemplo de manobrismo que ameaça ser um tiro no pé é o caso da candidatura à Agência Europeia do Medicamento. Depois de um processo vergonhoso em que foi defendida a localização em Lisboa (por razões óbvias de dourar o brasão ao sucessor na câmara) e acabou no Porto, talvez porque pode ter-se percebido que a agência iria provavelmente parar a Lille, pelo que propor Lisboa ou Porto seria igual ao litro. Em qualquer caso, um inquérito aos 900 funcionários da Agência mostrou ser Lisboa a cidade preferida.

Manifestações de paranóia/esquizofrenia (21) - Não é uma anomalia, são duas anomalias: a homossexualidade e a paranóia

Homossexualidade: «uma anomalia, um desvio de personalidade», considerou Gentil Martins em entrevista ao Expresso.

Frequência da homossexualidade: uma percentagem variável segundo os inquéritos, os métodos, os países e as épocas, na maioria dos casos inferior a 5%.

Anomalia: «O que se desvia da norma, da generalidade»; «desvio do tipo normal; anormalidade».

«Estas declarações violam a deontologia médica e têm consequências negativas, graves, gravíssimas, se passam como "se nada fosse"» escreveu a deputada socialista e militante politicamente correcta Isabel Moreira, pegando fogo na pradaria das indignações.

Paranóia: «ocorrência de pensamentos delirantes, geralmente persecutórios, que levam o paciente a adoptar uma atitude de permanente desconfiança em relação aos que o rodeiam.»

16/07/2017

DIÁRIO DE BORDO: Roger Federer, oitavo torneio Wimbledon

La souplesse elle-même

ARTIGO DEFUNTO: Jornalismo de "referência" é o jornalismo de causas adoptado pelo jornal que se diz de referência (3)

Continuação de (1) e (2).

Deve haver um móbil para o Expresso gastar papel a inventar sucessores para Passos Coelho. Rui Rio, Relvas e vários outros já foram promovidos e quaisquer criaturas, a maioria ressabiada, que o jornalista de serviço veja como um inimigo de Passos Coelho na sombra tem assegurado tempo de antena no semanário de reverência, como Ferreira Leite, Sarmento Rodrigues e outros (ver a este propósito o artigo de Sebastião Bugalho no SOL aqui citado).

A coisa, de tão denunciada, é de uma bacoquice atroz. O último exemplo de promovido a sucessor ou a apoiante do sucessor é Luís Montenegro, a quem o Expresso concede uma entrevista de uma página em formato broadsheet broadshit. Por muito que Montenegro garanta que apoia Passos Coelho por «convicção, por entender que é o mais bem posicionado para ganhar pela terceira vez as legislativas e o mais bem preparado para ser PM».

Será verdade? Não necessariamente, mas, não sendo, seria estúpido Montenegro dizê-lo dessa forma clara e definitiva e ele não parece ser estúpido e sempre poderia manifestar um apoio vago utilizando uma fórmula ambígua. O que levará então o mesmo jornalista do semanário de reverência que entrevista Montenegro escrever na página seguinte «líder parlamentar passa o cargo ao braço-direito e posiciona-se para o pós-Passos»?

Só pode ser porque a criatura dispõe de uma invejável capacidade de ler mentes, porque a frase seguinte plena de insinuações é «Rio diz que PSD está "pior"», o que sugere que um jornalista que não entrevistou Rui Rio e sabe que ele acha que está "pior", também é capaz de entrevistar Montenegro e concluir que pensa o contrário do que diz, concordando com Rio, e por isso se posiciona para o pós-Passos.

Como, em minha opinião, Passos Coelho foi um primeiro-ministro que não mostrou estar à altura das reformas indispensáveis que o seu governo deveria ter adoptado e não adoptou e como presidente do PSD não está a mostrar estar à altura de liderar a oposição à geringonça, estas manobras dos spin doctors de trazer por casa que elegem Passos Coelho como o inimigo principal a abater para dar lugar a um qualquer Rio. levam-me a pôr em dúvida  a bondade da minha opinião. Afinal, quem sabe?, talvez Passos Coelho seja o líder menos mau possível para a oposição.

15/07/2017

CASE STUDY: Não deixem que os factos atrapalhem uma boa ideia (2)

Na newsletter The Economist Espresso do sábado anterior podia ler-se o seguinte:

Grey, set and match: tennis

As Wimbledon kicked off this week, all eyes were on the sport’s “Big Four”. Will Roger Federer, the oldest of the pack at 35, win his eighth title? Or will the champion be Andy Murray (30), Rafael Nadal (31) or Novak Djokovic (30)? The men’s top-40 list has never been so aged: more than half are in their thirties and there is not a single teenager. At Wimbledon last year a record 49 players in the men’s singles were 30 or over. Many remember teenage wonders such as “Boom Boom” Boris Becker—17 when he nabbed his first Wimbledon title—and Monica Seles, who by 19 had won eight Grand Slams. Some say the game has simply become more strength-based, disadvantaging lanky teens. Others blame money’s effects. With dieticians, physiotherapists and other gurus now a standard part of top players’ entourages, it’s hard for any youngsters without deep pockets to catch up.

Como praticante acidental, interessado no ténis e propenso a estabelecer padrões a partir da observação empírica, a explicação «the game has simply become more strength-based, disadvantaging lanky teens» pareceu-me simplesmente bullshit. Fiz um pequeno exercício e aqui ficam as conclusões.

Os cinco primeiros do ranking ATP: idades, alturas e pesos, médias e lankiness (um índice que acabei de inventar = altura em cm / peso em Kg)

1 Murray 30 anos 1,91m 84kg
2 Nadal 31 anos 1,85m 85kg
3 Wawrinka 32 anos 1,83m 81kg
4 Djokovic 30 anos 1,88m 77kg
5 Federer 35 anos 1,85m 85kg
Média 31,6 anos 1,86m 82,4kg
Lankiness  2,25

Os cinco seguintes com menos de 22 anos: os mesmos dados
12 Zeverev  20 anos 1,98m 86kg
20 Kirgios 22 anos 1,93m 85kg
34 Khachanov 21 anos 1,98m 88kg
49 Medcedev 21 anos 1,98m 82kg
50 Edmund 22 anos 1,88m 83kg
Média 21,2 anos  1,95m 84,8kg
Lankiness  2,30

Da diferença de idades de 10 anos resulta uma diferença irrelevante de 0,05 de Lankiness. 

Em conclusão, no melhor pano cai a nódoa e os factos alternativos infectam todos os mídia, em coisas inócuas como esta e especialmente em outras menos inócuas.

LA DONNA E UN ANIMALE STRAVAGANTE: Para tirar os trapinhos qualquer causa é boa (22) - Será do clarinete?

Outros trapinhos tirados.

Desta vez calhou ao Woody

14/07/2017

A propósito das trafulhices

«Truth is the glue that holds government together. Compromise is the oil that makes governments go» disse Gerald Ford em 1973 perante a Câmara dos Representantes.

Este governo produz óleo de sobra para lubrificar as engrenagens da geringonça. O que lhe falta em absoluto é a cola da verdade. Se Ford tivesse razão, este governo desconjuntar-se-ia a breve trecho. Teremos que adicionar a Ford umas pitadas de Oscar Wilde: «The truth is rarely pure and never simple» e não esquecer que a verdade, ainda que impura e complexa, não é muito apreciada por estas bandas desde que haja óleo suficiente.

A mentira como política oficial (35) - A arte menor de enganar quem quer ser enganado

«É sem dúvida de mestre da política (menos da democracia e da transparência) ter concretizado a política orçamental dessa forma, dando aos cortes a designação de “cativação”. Compreende-se que só assim o Governo conseguiria, ao mesmo tempo, o que parecia uma missão impossível: ter a aprovação de Bruxelas e do PCP, do Bloco de Esquerda e do PEV. Casar os contrários.

António Costa não lhes podia dizer o que ia fazer e eles, mesmo sabendo, tinham de fingir que não sabiam que os serviços públicos estavam a ser colocados a “pão e água”, para que pudessem dizer que a austeridade acabou porque se repuseram os salários da função pública e algumas pensões.
Levando em conta a qualidade de alguns deputados do PCP e do Bloco é impossível que não soubessem o que se estava a fazer. Sabiam e sabem. O PCP tem ainda razões acrescida para ter conhecimento antecipado de que as cativações se tinham transformado em cortes efectivos, que os serviços estavam sem recursos para trabalhar. Porquê? Por causa da sua ligação aos sindicatos da função pública. Souberam e sabem que foi à custa dos serviços públicos prestados aos cidadãos que conseguiram dizer alto que obrigaram o Governo a repor salários. Assumiram uma atitude de “engana-me que eu preciso e gosto”.

¿Por qué no te callas? (20) - Vendendo a banha de cobra em S. Bento

«Partilho consigo os receios sobre a evolução da PT. Porque receio bastante que a forma irresponsável como foi feita aquela privatização, possamos vir a ter um novo caso Cimpor e um novo desmembramento que ponha em causa não só os postos de trabalho como o futuro da empresa

Disse Costa respondendo ao deputado comunista João Oliveira durante o debate do Estado na Nação. Tão ansiosamente se dispôs a engraxar o PCP que se esqueceu do que Henrique Monteiro lhe veio lembrar no Expresso Diário:

«A PT foi privatizada, na maioria do seu capital, em 1997, há 20 anos, era primeiro-ministro António Guterres, no XIII Governo Constitucional, quando o atual primeiro-ministro era secretário de Estado e depois ministro dos Assuntos Parlamentares. Caso Costa se referisse à perda da 'Golden Share' do Estado, tal deu-se formalmente, em Assembleia Geral da PT, em 2011, ainda o Governo de Passos Coelho não tinha um mês, porque a decisão estava tomada e imposta por Bruxelas desde o tempo do Governo de Sócrates. Por isso, só resta uma hipótese: O Dr. Costa estava a referir-se à saída de Zeinal Bava e de Henrique Granadeiro da PT, depois do desmoronamento do BES, da Ongoing e de Berardo ... Esta foi a razão por que a holding da PT teve de vender uma empresa (só a PT Portugal) onde dezenas de prateleiras políticas de todos os partidos estavam ao serviço de quem detinha o poder. Algo que corresponde a um lapso notável, para uma empresa que é privada há 20 anos, mas que clarifica o papel que a PT teve para os Governos de Sócrates - um papel muito amigo, de grande cumplicidade, envolvendo, claro, o BES. Acresce, que para desespero da tese de António Costa, a PT era da Oi, uma empresa brasileira que não vai lá muito bem. Digo desespero, porque ele comparou a situação à CIMPOR, comprada e essa sim desmantelada pelos brasileiros da Camargo Corrêa

13/07/2017

CASE STUDY: Trumpologia (23) - Costuma chamar-se nepotismo

Mais trumpologia.


«The Trump clan: The perils of nepotism

America’s Founding Fathers might never have imagined a president’s child being eager to receive “sensitive information” about an opponent from a hostile foreign power, as Donald Trump junior was in 2016. But they knew the folly of hereditary rule. When citizens serve a bad president, patriotism may inspire them to protest or quit. But when a child serves a parent, fidelity to country vies with deeper loyalties, writes our American politics columnist

Andam por aí umas almas à procura no palheiro do Donald de agulhas com que possam costurar as suas mantas ideológicas, aparentemente à pala de Trump concitar os ódios de estimação de legiões imensas de tropas do politicamente correcto misturadas com a esquerdalhada (em parte confundem-se). Não é o meu caso que em nenhuma das minhas várias encarnações pensei que o inimigo do meu inimigo é necessariamente meu amigo.

AGRADECIMENTO a quem possa interessar

Venho por este meio manifestar o meu sincero agradecimento e a mais profunda gratidão:

  • aos cidadãos que retiraram do paiol de Tancos material de guerra obsoleto realizando o seu abate sem despesas para o Estado;
  • ao ministro da Defesa que pela sua visão e clarividência deu instruções à tropa para facilitar o acesso a esses cidadãos;
  • aos militares que executaram sem falhas o plano, retirando as rondas, desligando o sistema de alarme e mantendo os buracos na cerca.

A todos, o meu muito obrigado.

12/07/2017

BREIQUINGUE NIUZ: Lavado a jacto


Já estou ouvir a esquerdalhada, que se estava a babar com possível acusação a Temer (que seja, se tiver de ser), indignar-se com a "ditadura" da justiça.

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (159) - Eles não precisaram de ser pressionados

O relatório preliminar da comissão de inquérito (CPI) à Caixa e à sua gestão entre 2000 e 2016, redigido pelo deputado socialista Carlos Pereira, concluiu depois de ouvir 19 responsáveis políticos e ex-gestores que «as pressões para a aprovação de crédito de favor foram liminarmente afastadas por todos os responsáveis da empresa (Caixa) que marcaram presença na CPI».

Sem vasculhar no pântano do crédito concedido aos amigos do regime e às empresas do regimes durante décadas e limitando-se a ouvir os 19 apparatchiks do PS e do PSD todos eles comprometidos até ao tutano com o complexo político-empresarial socialista o que esperavam concluir? Esperavam que eles se acusassem de ter acedido às "sugestões" de financiamento dos elefantes brancos e das manobras do regime?

A CPI podia pelo menos ter tomado conhecimento do acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa que concluiu que «os presentes autos têm por objeto a suspeita de que a CGD tem vindo a acumular, desde pelo menos meados da década de 2000, um conjunto de negócios consubstanciados em concessões de crédito, sem que as mesmas se revelassem colateralizadas por garantias bancárias adequadas aos montantes mutuados».

Ou podia também ter conhecido pelos jornais (ou, vá lá, ter lido este nosso post de 2009) do célebre caso do empréstimo da Caixa a Joe Berardo para comprar acções do BCP dando-as como colateral. Acções que passaram a não valer um caracol e por isso os bancos credores pediram a execução da colecção Berardo para tentarem recuperar alguma coisa da dívida de 500 milhões.

E, por falar em colecção Berardo, permitam-me recordar este outro nosso post de 2007 sobre o albergue dado pelos governos socialistas (os do PSD também não estão inocentes) às obras do Joe primeiro em Sintra e depois no CCB.

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: Here we go again (15)

INE: Estatísticas do Comércio Internacional, Maio 2017

«O défice da balança comercial de bens situou-se em 1 438 milhões de euros em maio de 2017, o que representa um aumento de 503 milhões de euros face ao mês homólogo de 2016. Excluindo os Combustíveis e lubrificantes a balança comercial atingiu um saldo negativo de 1 074 milhões de euros, correspondente a um aumento de 344 milhões de euros em relação ao mesmo mês de 2016.»

No trimestre terminado em Maio relativamente ao período homólogo de 2016 as importações aumentaram 2.529 milhões de euros. Mais de metade deste valor são bens de consumo.

Felizmente, o aumento das exportações e o aumento do turismo permitirão manter positivo o saldo da balança comercial. Por muito que o governo da geringonça se enfeite com isso, teremos de agradecer o aumento das exportação à melhoria da conjuntura internacional e às medidas do governo anterior e o aumento do turismo ao Estado Islâmico. Oremos para que não tenhamos de agradecer ao governo da geringonça dar cabo das contas externas apesar disso.

Pro memoria (348) - O ilícito, o ilegal, ou não basta parecer sério. É preciso ser sério

«Continuo a considerar que não cometi um acto ilícito» disse Rocha Andrade, o SE dos Assuntos Fiscais que teve em cima da mesa um contencioso fiscal de 100 milhões com a Galp que o leva a passear para ver o Europeu 2016. A criatura está acompanhada nesta sua opinião por vários notáveis da comentadoria que consideraram outras coisas quando por cá andava outro governo.

Não sei se é um acto ilícito, mas parece não haver dúvidas que é um acto ilegal e, seja como for, também parece não haver dúvidas que num país civilizado a criatura ter-se-ia demitido imediatamente de motu proprio ou, se não, seria demitido pelo chefe. Mas o chefe Costa é sobretudo amigo e parceiro em trapalhadas. Ora leia-se o que escreveu no Expresso Diário Henrique Raposo num artigo com o título «A aia de António Costa».

«Como relembrou o jornalista Filipe Santos Costa no Expresso, o ministro António Costa e o secretário de estado Rocha Andrade adjudicaram o Siresp em 2006 quando tinham todas as cartas para extinguir o ruinoso negócio. Aliás, Costa e Rocha Andrade rasgaram o contrato original que vinha do governo Santana com base num parecer mais do que negativo da PGR. No entanto, renegociaram o Siresp nas bases técnicas e financeiras que se conhecem. Rocha Andrade volta a ser personagem no negócio dos Kamov, que é obscuro do princípio ao fim. Os Kamov foram contratados à Rússia (primeira perplexidade) e contra pareces técnicos (segunda perplexidade); os aparelhos foram entregues muito fora do prazo e "sob reserva" (terceira perplexidade). "Sob reserva" queria dizer que os aparelhos ainda não podiam funcionar - o que levou a nova espera de dois a t rês anos por aparelho. E aqui entra a quarta e derradeira perplexidade: apesar dos atrasos e falhas, apesar do consórcio já estai· em incumprimento, Rocha Andrade suavizou as penalizações da empresa (15% do valor possível) e aceitou pagai· mais cedo. No final deste festim de impunidade patrocinado por Costa, o Estado teve de alugar outros meios aéreos devido à inoperacionalidade dos Kamov, em 2007 tudo foi acelerado através de ajuste direto e a empresa criada por Costa para gerir os helicópteros (Empresa de Meios Aéreos) foi considerada pelo Tribunal de Contas como um exemplo de desperdício. Resta dizer que os Kamov continuam no chão, não voam.»

11/07/2017

Mitos (258) - Os baixos salários chineses estão roubar postos de trabalho nos EU (e na UE)

«One of Donald Trump's frequent claims is that China has been "stealing" US manufacturing jobs, with low wages and poor conditions giving Chinese firms an unfair advantage. Recent analysis by The Economist intelligence Unit shows that, in fact, the days of Chinese wages being low are long gone. A shrinking workforce and fast productivity growth has meant that average monthly wages in China are now higher than in almost every country in Latin America and surpass those in a number of EU countries as well. Anyone who talks to people with operations in China won't be surprised: rapidly rising wages are a common business challenge.»

Simon Baptist, Chief Economist (The Economist)

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Podemos sair de Tancos mas Tancos não sai de nós

«Mas faltava muito mais em Tancos. Faltava uma país que assuma as suas Forças Armadas. A memória da guerra em África, a que se seguiu a agitação revolucionária do PREC, levou a que os portugueses tivessem assistido quase com alívio à transformação das suas Forças Armadas num agrupamento com fardas bonitas e bandas que tocam nos dias de festa ou nas manifestações a favor da Venezuela mas que pelo menos no fim do dia regressam a casa ou ao quartel. Os militares ou boa parte deles também não se deram mal com este papel de figurantes ilustres nas celebrações do regime.

E obviamente em Tancos faltou também uma opinião pública que não comece a titubear ao primeiro espirro dos auto-denominados pacifistas. Vamos lá ser honestos: se um dos soldados da patrulha tivesse atirado sobre os outros não estaríamos agora a defender patrulhas com armas sem munições? E não estaríamos indignadíssimos com a patrulha se os militares que faziam a ronda em Tancos por acaso tivessem conseguido tirar um dos dois carregadores que levavam à cinta, deslacrá-lo, colocá-lo na arma e finalmente disparar sobre um assaltante que os seus familiares, os seus advogados e três jornalistas de causas afiançavam ser apenas um ornitólogo ou um invocador dos espíritos telúricos em prol da harmonia universal? (...)

Em Tancos confrontámo-nos com o vexame da irresponsabilidade. Mas isso só aconteceu porque há anos que andamos a fugir do peso da responsabilidade.

Tancos somos nós.»

A patrulha e a banda, Helena Matos no Observador

Há um pequeno problema: nós podemos sair de Tancos mas não está a ser fácil tirar Tancos dentro de nós. Muito menos com estas elites merdosas que nos cavalgam. O que nos conduz a outro pequeno problema: estas elites não vieram de Marte, pois não?

10/07/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (91)

Outras avarias da geringonça.

Dá-se um pontapé numa pedra e sai de lá uma dúzia de precários. Havia 19 mil, segundo o Ronaldo das Finanças, e apareceram mais 28 mil, segundo a UGT, que é uma centralzita de sindicatos. Imagine-se os precários que a CGTP conseguirá desencavar. A todos estes ainda temos de adicionar os ministros porque, segundo disse o que gosta de malhar na direita e está agora a fazer as vezes do Costa, «todos os membros do governo são precários».

Não acreditam que o governo consiga colocar todos os precários? Fazem mal. O único precário que o governo não consegue retirar do estado precário é o país.

Estado empreendedor (104) - Nacionalizar o SEF e privatizar o SIRESP


São as sequelas das privatizações do governo neoliberal de Passos Coelho, ocorreu-me à primeira vista. À segunda vista, lembrei-me que o governo de Costa já tinha revertido a privatização da TAP e lá fui ler a peça e constatar que afinal a causa de demora é a falta de pessoal do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).

Segundo a aritmética da direcção do SEF citada pelo DN: «presentemente tem cerca de 230 elementos a efectuar o controlo da fronteira neste aeroporto, no ano passado eram 150 e no verão 195». Mas então, interroguei-me, de 195 para 230 não houve um aumento de 18%? E o aumento das chegadas não foi menos de 12%?

Para compreender é preciso ler explicação aritmética do diário da manhã: «Se descontarmos aos 230 os 45 estagiários, ficam 185, menos 10 que em 2016», completada com a do sindicalista: «a sua presença pouco adianta pois não têm ainda competências atribuídas».

E o PS não poderia "reverter" a nacionalização do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e votar a sua privatização como fez com o SIRESP?

09/07/2017

ESTADO DE SÍTIO: Habituem-se (9)

Outros Habituem-se

Expresso Diário
Mais um ou dois incêndios e o PS chega à maioria absoluta. Que o diga a Constança. Admirados? Não sei porquê. Vivemos hoje com menos stress, mais afectos, temos mais férias, trabalhamos menos (os funcionários públicos), mudamos de carro e o Costa não nos manda emigrar e não nos incita a sair da zona de conforto. Que mais quereis?

ACREDITE SE QUISER: Não foi o Salvador Sobral que disse

«Talvez por cansaço, sobranceria e falta de oposição», disse a propósito do descalabro da resposta do governo ao roubo em Tancos. Não, não é engano. Ele disse mesmo «falta de oposição» para explicar a falta de resposta do governo.

«Mais complicado seria se o presidente da República estivesse de férias», disse a propósito do primeiro-ministro ter ido de férias com duas graves crises ao colo. Não, não é engano. Ele disse mesmo isso, assumindo que seria o primeiro-ministro de facto e o outro um mero factótum.

Quem disse essas e outras não foi Salvador Sobral foi o presidente da República. O Salvador Sobral o que disse foi «sempre falei duas vezes antes de pensar», depois de ter dito perante uns milhares de papalvos «vou mandar um peido para ver o que é que acontece».

08/07/2017

Pro memoria (347) - A obra feita de Costa

Quando Costa era “alérgico” a políticos que choram na TV durante as tragédias

«Em 2005 António Costa era o ministro da Administração Interna (MAI) do Governo de José Sócrates. Fazendo a história desse verão — o segundo pior de sempre em termos de incêndios em Portugal — há muita coisa parecida com o que se está a passar este ano. E algumas contradições também relevantes. 

Pouco depois de entrar em funções, em março, o MAI decidiu mudar os principais responsáveis da estrutura de combate aos incêndios — tal como este ano, essa alteração aconteceu em cima da época de fogos. A estrutura de proteção civil falhou, e um dos governadores civis recém-nomeados por Costa reconheceu que não percebia nada do que estava a fazer, no âmbito das suas competências de coordenação do combate aos fogos — porém, a julgar pelas declarações da ministra Constança Urbano de Sousa há poucos dias, bateu aquela saudade em relação aos governadores civis. Em 2005, a tragédia não impediu o primeiro-ministro de ir de férias — Sócrates fez malas para o Quénia, deixando Costa, o seu número dois, a chefiar o Governo. Depois, mal Sócrates voltou, foi a vez de o próprio Costa ir a banhos, apesar de o país continuar a arder. No final, perante as contas da área ardida e das vítimas mortais, Costa prometeu que nada voltaria a ser como era... Soa familiar?»

Martim Silva no Expresso Curto desta manhã

Registe-se como em poucas semanas o Expresso, depois de mais de um ano a fazer de semanário de reverência de Costa, mudou o seu tom. E esta não é uma peça isolada, pelo contrário. O paradigma mudou. Não sabemos por quanto tempo, mas mudou, e o ponto de viragem foi a edição de 1 de Julho onde numa dúzia de página foram coleccionados os factos relativos ao incêndio de Pedrógão Grande mostrando o falhanço em toda a linha do governo e o colapso do estado assistencialista que o PS (com a ajuda do PSD e do CDS) e agora o suporte do PCP e do BE tem vindo a montar.

Lost in translation (293) - "Crise" neste contexto pode traduzir-se por Sócrates e o PS


Ora leia-se o que escrevi há 8 anos no post «Estado empreendedor – (10) sequelas do assalto ao Millenium bcp»:

A estória é conhecida. Joe Berardo compra acções do Millenium bcp com empréstimos, primeiro da Caixa (onde à época era presidente Santos Ferreira, o actual presidente do Millenium bcp que sucedeu a Filipe Pinhal, homem de confiança de Jardim Gonçalves), do BES (por esta e por outras razões Filipe Pinhal escreveu o que escreveu sobre Ricardo Salgado, o banqueiro do regime socialista) e do Santander. Depois do afastamento da administração Filipe Pinhal, o próprio Millenium bcp financiou Berardo na compra de mais acções do próprio banco. Santos Ferreira reeditava assim um processo semelhante ao de Jardim Gonçalves.

A coisa correu mal porque as acções do Millenium bcp, que Berardo deve ter comprado a um preço médio de cerca de 2 euros, foram caindo até quase 50 cêntimos. Correu mal para Berardo e para os bancos que o financiaram, a quem Berardo tinha oferecido como garantia as próprias acções do bcp. O Santander, que não faz parte complexo político-empresarial socialista português (nem do espanhol), perante a insuficiência da garantia exigiu um reforço e dispunha-se a executar a dívida se tal não acontecesse. Pelo caminho Berardo ofereceu como garantia, que o Santander recusou mas os bancos do regime aceitaram, a colecção de arte que o governo de Sócrates alojou no CCB a expensas dos sujeitos passivos.

O desfecho do episódio, revelado pelo Expresso e não desmentido por Berardo, foi o Millenium bcp, cujo Conselho de Remunerações é presidido por Berardo, prestar uma garantia à primeira interpelação (on first demand) ao Santander, pessoalmente aprovada por Santos Ferreira, que já tinha aprovado empréstimos, primeiro na Caixa e depois no Millenium bcp.

Que este emaranhado de conflitos de interesse pareça normal neste país é apenas um sintoma de como o governo de José Sócrates contribuiu para tornar este país ainda mais anormal.

07/07/2017

ARTIGO DEFUNTO: A lista de Salgado (3)

Continuação de (1) e (2)


«Um dos maiores furos jornalísticos dos últimos anos pariu um rato e, como é óbvio, ninguém diz nada e todos assobiam para o ar. Supostamente havia uma lista de jornalistas e políticos envolvidos nos Papéis do Panamá, mas tais figuras nunca saíram da toca. É um pouco incompreensível, para não dizer muito, que os jornalistas se defendam a si próprios. Mas quem tem a lista deve saber porque não a divulga...» escreveu hoje Vítor Rainho no jornal i.

Recordando:

Em Abril do ano passado o Expresso e a TVI divulgaram as primeiras informações sobre os Papéis do Panamá e na mesma ocasião foi referida a existência de uma lista de avenças e compensações pagas pelo GES a mais de uma centena de pessoas, incluindo políticos, gestores e jornalistas.

Mais tarde pressionado por o assunto ter sido morto (por causa dos jornalistas?) o Expresso publicou uma Nota Editorial onde esclareceu que «a lista de alegados pagamentos não está nos Panama Papers. Está no Ministério Público».

Seja lá onde estiver a lista de alegados pagamentos não seria possível os senhores jornalistas darem-nos a conhecer quais de entre eles estavam avençados pelo DDT?

De boas intenções está o inferno cheio (48) – A religião é a política por outros meios? (XX)

Outros posts sobre a religião como a política por outros meios.

Se estivesse no lugar do Papa Francisco (vade retro) em vez de, ou pelo menos antes de, reformar o mundo e ajudar a construir o socialismo, que como se sabe não correu bem no passado (União Soviética, Europa de Leste, China, etc.), nem corre bem no presente (Cuba, Venezuela, etc.), tentaria reformar a Curia Romana, obra que não estava a ser nada fácil.


A polícia do Vaticano interrompeu uma orgia gay, com drogas, no apartamento do secretário de um cardeal que é um dos conselheiros do Papa. Aconteceu no mês passado, mas só agora foi tornado público.

Não estava e não está a ser nada fácil. No entanto, aos olhos de um agnóstico, desinfectar a Curia Romana parece-me essencial para credibilizar o programa evangélico porque o credo quia absurdum est só esta a resultar com os populistas.

06/07/2017

Chávez & Chávez, Sucessores (58) - Democracia socialista

Outras obras do chávismo.

Apaniguados de Maduro invadindo o parlamento venezuelano

CASE STUDY: Não deixem que os factos atrapalhem uma boa ideia

Expresso Diário
«Esta descoberta altera a nossa visão sobre a dinâmica de uma infecção de malária e pode revelar-se bastante relevante, tendo em conta a alarmante tendência de obesidade, inclusive em regiões endémica da doença».

Incidência da malária (fonte)

Fonte

Notas:
(1) Título inspirado neste artigo de Paulo Ferreira no Eco.
(2) Não está em causa a investigação, o seu resultado e a importância teórica para a compreensão da malária e do seu tratamento. Está em dúvida a importância da sua aplicação prática no combate à malária, importância que está a ser trombeteada pelos mídia sempre disponíveis para afagar o carente ego lusitano.

Sound bites e nevoeiro informativo (2)

A realidade

Fonte
O spin
Até 16-06-2017 ver post anterior

28-06-2017 - «Portugal já tem luz verde para antecipar reembolsos ao FMI» (Jornal de Negócios) e 10 (dez) outras notícias plantadas no mesmo dia

30-06-2017 - «Portugal antecipou reembolso ao FMI e já pagou mais mil milhões» (Público) e 3 outras notícias plantadas no mesmo dia.

05-07-2017 - «Pagamento antecipado ao FMI de 10 mil milhões permite poupar 660 milhões» (jornal Eco) e 3 outras notícias plantadas no mesmo dia.

O PS que há no PSD também copia o spin (além das duas primeiras letras)

A propósito da profusão de notícias sobre o anúncio, a candidatura e a eleição de Morais Sarmento para um órgão inócuo do PSD (a assembleia distrital de Lisboa) foram plantadas dezenas de notícias nas últimas semanas que levariam um leigo como eu a imaginar que Morais Sarmento de mão dada com Ferreira Leite e Rui Rio iriam disputar a liderança ao suicidado Passos Coelho.

Na tentativa de perceber o que pretendiam os notáveis, cheguei ao artigo «Também sou candidato
contra Passos» de Sebastião Bugalho no SOL (sem link disponível), do qual transcrevo alguns parágrafos.

«Sete anos depois, finalmente, Passos Coelho tem um adversário assumido para disputar a liderança do PSD. «Nuno Morais Sarmento candidata-se contra Passos» lê-se por aí. Milagre. Só pode. Passado mais de uma década de sair da política ativa, Morais Sarmento abandona o estatuto de eterno candidato e lança-se contra Passos. Quem ler 'Sarmento candidata-se contra Passos' concluiria isso mesmo. Mas é mentira.

(…)

O mais lastimoso não é a dissimulação da tática, quando há militantes que já confundem órgãos dentro do seu partido e imprensa que confunde reuniões internas com congressos, mas os participantes nessa tática.

O Morais Sarmento que foi ministro de Durão Barroso nunca seria candidato a uma 'assembleia distrital de militantes' para morder calcanhares a um líder, enfrentava-o. A Manuela Ferreira Leite que foi presidente de partido não se sentaria à mesma mesa com alguém em tempos acusado de agredir um antecessor já de idade. Eu, pelo menos, achava que não.

O cúmulo da mesma lástima foi ver Rui Rio, que tantos louvam pela sua distinta moral e retidão política, vir a Lisboa massajar os ombros ao dito 'cacique' - citando o termo utilizado por Observador, Expresso e etc.

É esta a alternativa no PSD? Rio, que precisa de resguardar-se em Sarmento para fazer títulos nos jornais? Rio, que quer sacos de votos lisboetas por receio do congresso do próximo ano?

Essa, na verdade, não é a pergunta que mais interessa da referida lástima. É saber porque é que sete anos depois de Passos, o reformista, tomar finalmente o partido, não há uma cara decente para a sua direção candidatar às duas maiores câmaras municipais do país nem uma cara decente sequer para fazer frente a essa direção. É o deserto em ambas as frentes.

O PSD, não vendo futuro, olha para o passado. E o passado, pelos vistos, envelheceu mal. Se ser cabeça-de-lista à tal assembleia distrital de militantes, sendo que as quotas que votarão nele têm tanto de militância quanto um pombo, faz Morais Sarmento passar a 'candidato contra Passos', tenho a dizer que também eu me candidato à assembleia de condóminos do meu prédio. Contra Passos, claro. Quem mais?»

05/07/2017

ARTIGO DEFUNTO: Se quisermos saber o que se passou em Tancos é melhor ler a imprensa espanhola

Uma espécie de continuação daquidalidacoládacoli e ainda deste post.

O chefe da tropa a afinar a pontaria
«Roubado o paiól de Portugal: guaritas vazias e soldados sem munição», titulou El País, um jornal espanhol de esquerda com um jornalismo profissional, ou seja bom, no género mau, em contraste com a maioria dos nossos, de esquerda com um jornalismo amadorístico e subserviente, ou seja maus no género mau.

Se o título arrasa a tropa lusitana e o seu chefe civil, o texto explica porquê.

«Como se provou, as deficiências da base de Tancos não eram segredo. Os assaltantes, mais de uma dúzia, leram o Diário da República, que em 19 de Junho abria um concurso para a reparação do lado norte, leste e sul da cerca pelo valor base de 316.000 euros. Para não haver dúvidas, os ladrões não entraram pelo oeste.

Chegaram com um caminhão, fizeram um buraco na cerca e foram em direcção a uma vintena de paióis, mas só entraram naqueles que tinham o material que precisavam (...). Certamente que em vossas casas levam mais tempo a encontrar os iogurtes no frigorífico. Eles tinham uma lista de compras, com a diferença de que tudo era grátis. (...)

Depois de se conhecer o Exército responsável por Tancos, se o Índice Global da Paz 2018 não atribuir o primeiro prémio a Portugal, será uma injustiça de pegar em armas.»

DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (39) - É pior do que ele pensava

Outras preces.


Neste excerto de um artigo no Expresso Diário, Ricardo Costa, que conhecia Medina Carreira desde criança e com ele escreveu um livro a quatro mãos, evoca o seu comentário sobre o que disse Marcelo à SIC nesta entrevista a propósito da dívida pública.

Devo acrescentar um pensamento positivo ao que disse Marcelo e tanto preocupou Medina Carreira: tenho as maiores dúvidas que Marcelo acredite no que disse sobre a dívida pública (e sobre muitas outras coisas) e tenho a certeza que, ainda que tenha acreditado, não será preciso Cristo descer à terra para ele deixar de acreditar no que disse acreditar. Por isso, no lugar de Medina Carreira não teria ficado tão preocupado pelo que Marcelo disse.

04/07/2017

CASE STUDY: Trumpologia (22) - Trump também é uma espécie de tele-evangelista

Mais trumpologia.

Salvo erro, foi Nuno Morais Sarmento, muitos anos atrás, que cognominou com grande acerto Louçã de tele-evangelista quando este era uma presença ainda mais constante na televisão do que hoje. Desde então, Louçã tem sido o mais notório dos criadores de factos alternativos e de pós-verdades, quando estes termos ainda nem sequer existiam. Sem recuar mais no tempo, leia-se o que escreveu recentemente sobre o seu combate ao eucaplito, combate cujas premissas foram aqui e aqui reduzidos à sua dimensão de ignorância, arrogância e paranóia.

O que tem o tele-evangelismo de Louçã a ver com o trumpismo do Donald? Tem bastante. A caracterização do conteúdo (os factos alternativos e a pós-verdade), o estilo (demagogia) e o meio privilegiado (a televisão e as redes sociais).

«Made in America», o programa de protecção aos produtos americanos, é uma bandeira de Trump comparável ao combate aos eucaliptos de Louçã. Por exemplo no caso do aço, Trump pretende aumentar as taxas alfandegárias para limitar as importações e, segundo ele, trazer de volta os empregos que, sempre segundo ele, foram perdidos para a China e a Índia.

Recuemos a 2002, quando o governo de George W. Bush aumentou em 30% as taxas de importação do aço. Nessa altura foram destruídos 200 mil empregos nas indústrias que utilizavam o aço, um número superior ao dos empregos na indústria siderúrgica actualmente. (fonte Economist).

Se, como é provável, Trump usar na Organização Mundial de Comércio a excepção de «segurança nacional» para justificar o aumento das taxas, isso pode desencadear uma reacção dos países que importam produtos americanos, desde os aviões da Boeing ao sumo de laranja da Florida o que poderá comprometer todo o sistema de desmantelamento alfandegário penosamente construído desde o Uruguay Round com a criação da OMC e, no fim do dia, significar mais umas centenas de milhar de postos de trabalho perdidos por uma «boa causa».

ARTIGO DEFUNTO: Se quisermos saber o que se passou em Tancos é melhor ler a imprensa espanhola

Uma espécie de continuação daquidalidacolá e dacoli.

Com grande alegria minha, e certamente de outros espíritos livres, e com grande mágoa dos muitos que querem aprisionar as meninges dos portugueses nos esquemas do spin e do agitprop da esquerdalhada, os jornais estão a tornar-se um bem transaccionável e estamos cada vez menos limitados à verdade a que o jornalismo indígena de causas decide que temos direito.

É certo que temos um problema de dimensão do mercado. O número de portugueses que querem saber a verdade é bastante limitado e por isso não há muitos jornais estrangeiros que gastem latim e tinta a produzir notícias sobre a jangada de pedra.

Os espanhóis, aqui mais à mão, são uma alternativa, como já se viu ao furarem o spin da tropa ao serviço de Costa nos incêndios.

E agora, outra vez, ao publicarem «el inventario de lo robado en el arsenal de Portugal que tiene en alerta a Europa», inventário que o ministro da Defesa ainda não devia conhecer, ocupado como tem estado, primeiro com o namoro entre os alunos do Colégio Militar e depois com as boas práticas de segurança, como aqui lembrou Helena Matos.

03/07/2017

DIÁRIO DE BORDO: R.I.P.

Medina Carreira, durante anos um dos poucos com coragem de desmascarar
o spin socrático e dizer a verdade que os portugueses não queriam ouvir

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (90)

Outras avarias da geringonça.

A beleza de uma democracia, mesmo meio asmática, como a nossa, com uma mídia relativamente livre, ainda que impregnada pelo jornalismo de causas e atrelada a interesses corporativos variados, como a nossa, é, como o tio Abraão descobriu, «pode-se enganar a todos por algum tempo, pode-se enganar alguns por todo o tempo, mas não se pode enganar a todos sempre».

Seria isso que Costa, caso lhe restasse um módico de lucidez e integridade, estaria prestes a descobrir a propósito do caos da resposta do seu governo ao incêndio de Pedrógão Grande que após duas semanas de spin e manipulação pura e dura está a vir à tona.

02/07/2017

Alguém pode explicar a diferença entre um CAC e um comptable?

Há uns três anos, Ricardo Salgado com o propósito de épater les journalistes e enfumaçar os mídia (ou talvez por mera ignorância) chamou «commissaire aux comptes» (sic, sem ser a do Balsemão) ao seu contabilista que o ajudou a fabricar as contas da Espírito Santo Internacional (ESI) e na altura já estava a dar com a língua nos dentes.

Acontece que «commissaire aux comptes» (CAC) é o equivalente francês ao revisor oficial de contas. Machado da Cruz, a criatura a quem o DDT chamava CAC, é o comptable que entre outras coisas, como aqui escrevi há três anos, que em países civilizados costumam ser crimes sujeitos a prisão, confessou que terem sido inventados activos em Angola no valor de 1,3 mil milhões para cobrir um passivo da ESI e esconder perdas que no final atingiram 2,2 mil milhões. Tudo isto com instruções de Ricardo Salgado e o conhecimento de outros.

Alguém pode explicar a diferença aos jornalistas do Expresso que insistem em chamar CAC a Machado da Cruz? («O testemunho do seu commissaire aux comptes foi vital para o MP») Ponham os olhos no diário do regime que já percebeu a diferença. 

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (51) O clube dos incréus reforçou-se (XVI)

Outras marteladas e  O clube dos incréus reforçou-se.

O intervencionismo do BCE, que copiou com atraso a Fed e o BoE, adoptando o alívio quantitativo e as taxas de juro negativas ou nulas, desde o «whatever it takes» do Super Mario há quase 5 anos, está cada vez mais parecido como terapêutica com a sangria dos pacientes praticada pela medicina medieval para tratar qualquer doença, incluindo a anemia.

Ou, pelo lado dos pacientes, está cada vez mais parecido com a administração de metadona que os induz em desespero cada vez que antecipam a redução da dose. Como foi o caso do discurso de Sintra do Super Mario ter gerado momentaneamente pânico nos mercados, só apaziguado depois de vários lugar-tenentes (incluindo até o nosso ministro anexo, agora residente em Frankfurt) terem explicado aos leigos a interpretação autêntica do que se passaria nas meninges do Mestre. Chegámos assim ao ponto em que a hermenêutica dos discursos do Super Mario assume o papel da leitura das folhas de chá no Tarot.

Por razões fáceis de entender, estas políticas continuam a merecer a reverência, sobretudo em países como o nosso em que o Estado vive directa e sobretudo indirectamente, pela indução de confiança nos mercados, a expensas do BCE. Proliferam assim as luminárias que vêem a União Europeia e as miríficas políticas de mutualização da dívida como o alfa e ómega da salvação sem esforço das finanças arruinadas da pátria.

É por isso relativamente raro alguém com conhecimento de causa atrever-se a contrariar este cânone. Devemos, portanto, saudar as poucas vozes desalinhadas e, na circunstância, relevar este post de Tavares Moreira no 4R salientando os efeitos perversos e as consequências indesejadas destas políticas do BCE.