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10/07/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (91)

Outras avarias da geringonça.

Dá-se um pontapé numa pedra e sai de lá uma dúzia de precários. Havia 19 mil, segundo o Ronaldo das Finanças, e apareceram mais 28 mil, segundo a UGT, que é uma centralzita de sindicatos. Imagine-se os precários que a CGTP conseguirá desencavar. A todos estes ainda temos de adicionar os ministros porque, segundo disse o que gosta de malhar na direita e está agora a fazer as vezes do Costa, «todos os membros do governo são precários».

Não acreditam que o governo consiga colocar todos os precários? Fazem mal. O único precário que o governo não consegue retirar do estado precário é o país.

Em 1995 Guterres anunciou que a educação era a sua paixão. Desde então os governos socialistas (e não só), com a possível excepção da ministra Maria de Lurdes Rodrigues, esforçaram-se por tornar as escolas lugares de felicidade. O ministro factótum da Educação, em nome da Fenprof, avançou mais nesse sentido dando instruções às escolas para passar alunos do básico com quatro negativas. E, entretanto, vão-se tentando emplumar com os resultados das medidas de Nuno Crato (e Maria de Lurdes Rodrigues) que melhoraram substancialmente as taxas de conclusão (ver o artigo de José Manuel Fernandes).

Como se fosse pouco, a brigada da inducação decidiu fazer mais uma reversão e vai reduzir o horário lectivo do 1.º ciclo em meia hora por dia. O director da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos de Escolas Publicas acredita que as escolas vão retirar «um bocadinho de tempo a cada uma das disciplinas, para que haja uma distribuição equitativa, mas os alunos terão mais tempo para brincar e a brincadeira também é importante para socialização». «Ditosa pátria que tal filho teve», digo eu.

Num país de gelatinas, até os militares são moles. Fizeram uma fita por terem sido demitidos cinco comandantes de unidade depois do episódio de Tancos, ameaçando à boa maneira dos estudantes uma manif para «depor espadas à porta da Presidência da República» (não consigo imaginar cerimónia mais ridícula). No final meterem a viola no saco desconvocando a cerimónia. Os militares são moles? Nem sempre. Doze deles, incluindo um major-general, tiveram iniciativa e empreendedorismo e montaram uma startup para a compra de géneros para as messes da Força Aérea. A iniciativa acabou mal e foram detidos pela Judite.

As vendas de veículos ligeiros particulares aumentaram 7,9%  no 1.º semestre atingindo 146 mil (fonte), confirmando assim a tendência de excitação dos animal spirits, como prognosticaram os keynesianos domésticos apenas divergindo do cânone porque os spirits de Keynes eram os empresários e os deles são os consumidores. Talvez por causa da excitação, o número de mortos em acidentes de viação no 1.º semestre aumentou 23%.

As agências de rating ainda não se deixaram contaminar pelo clima afectuosamente festivo que se vive no país desde que Costa subiu ao poder aos ombros de comunistas e bloquistas. A Fitch (que o Negócios apresenta como americana mas cujo maior accionista é Fimalac, uma holding francesa cotada na bolsa de Paris) continua a considerar excessivos a dívida pública e o crédito malparado (só se estivessem bêbados é que não considerariam).

Quanto ao malparado a solução vem a caminho pela mão do saudoso ministro-anexo Vítor Constâncio que em artigo de opinião no Negócios postula entre outras medidas «uma estratégia abrangente, que envolva uma panóplia de instrumentos (para) alinhar os incentivos entre as partes envolvidas: instituições de crédito, investidores e autoridades». Deve ser um postulado ao nível do seu postulado de Mississipi de 2000 onde antecipou o fim dos problemas da balança de pagamentos com a adesão ao euro. «Ditosa pátria que tal filho teve» digo eu, outra vez.

A missão da CE, BCE e do Mecanismo Europeu de Estabilidade que terminou a semana passada, reconhecendo as realizações do governo, nomeadamente as cativações, e por ter conseguido aumentar as exportar mais bens e serviços e importar mais turistas - sabemos que o governo não exporta nada e os turistas vêm cá não por causa do governo do Estado Português mas por causa do Estado Islâmico, mas o governo, se sabe, finge que não sabe. Também conclui que «são essenciais reformas ambiciosas que favoreçam o crescimento e uma consolidação orçamental sustentada». É má vontade. Será que não viram as reversões, reposições, devoluções e outras reformas ambiciosas?

Extinto o período de borla do governo com os incêndios e o assalto ao paiol, os parceiros da geringonça sobressaltam-se cada vez mais, cada um com o que pode. Os comunistas com os sindicatos que lá vão anunciando mais greves: os juízes em Outubro (juízes que acusam a ministra de estar «manietada por funcionários das finanças») e os trabalhadores da PT em 21 de Julho. Os bloquistas com discursos: «o Orçamento executado em 2016 não é o Orçamento que nós aprovámos», gritou a fingir-se indignada uma das manas Mortágua, uma estrela das finanças públicas que só 6 meses depois descobriu a engenharia do Ronaldo das Finanças.

Por falar em engenharia do Ronaldo das Finanças, falemos do óbvio ululante que não pululou nas mentes da comentadoria do regime durante um ano e meio. Inexplicavelmente, só agora se aperceberam que o milagre do défice se ficou a dever às cativações (além da redução do investimento e das despesas de capital, ao aumento dos impostos e ao perdão fiscal): quase mil milhões de euros (943 milhões) orçamentados foram retidos. Comunistas e bloquistas que andaram a assobiar para o lado viram-se forçados a fazer o número dos enganados.

Veja-se no diagrama seguinte que o grosso das cativações se deu nas rubricas bens e serviços e despesas correntes, que no conjunto representaram apenas cerca de 2 mil milhões de euros, comparativamente com as despesas com pessoal que representaram 9,4 mil milhões e quase não tiveram cativações porque foi preciso segurar a clientela eleitoral dos funcionários públicos à custa da paralisia dos serviços públicos.

Jornal Eco


E é claro que este ano a mesma engenharia se mantém, como já avisou o BdP e note-se que o talento demonstrado com as cativações prescreveu nas prescrições fiscais que em 2016 duplicaram para 306 milhões, o que o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais considera normal.

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