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24/07/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (93)

Outras avarias da geringonça.

Mostrando o seu apreço pelo direito dos eleitores à informação, o governo de Costa proibiu comandantes dos bombeiros de dar informações sobre os fogos. Porquê? Porque os incêndios que mais preocupam o governo não são os das florestas são os dos mídia, como o número de mortos de Pedrógão Grande.

Mostrando o seu apreço pela verdade, o governo de Costa colocou em segredo de justiça a lista dos nomes dos falecidos no incêndio de Pedrógão Grande. A arbitrariedade e propósito absurdo de tal segredo, os hábitos de Costa e vários indícios (entre eles o respeitador semanário de reverência Expresso que dá uma no cravo dos factos e outra na ferradura do governo) tornam provável ser o número de mortos superior ao anunciado pelo governo, como indicia esta investigação privada. A ser assim, é muito provável que a mistificação do governo se venha a refugiar na exclusão das mortes indirectas, o que escreve Poiares Maduro seria como «se o governo britânico dissesse que as pessoas que morreram ao saltar da torre em chamas no recente incêndio em Londres não eram vítimas do mesmo pois não morreram vítimas de inalação ou queimaduras...»

Mostrando o seu apreço pelo parlamento, que na verdade não o merece porque, como escreve JMF, «o parlamento não se dá ao respeito», faz aprovar a correr fantochadas como a lei das florestas para acalmar o BE e as suas obsessões freudianas com os eucaliptos cuja área ardida nos últimos 20 anos representa cerca de 1/6 do área total ardida.

Mostrando o seu apreço pela coerência e integridade, Costa classifica de «irresponsável» a privatização da PT começada e acabada por governos do PS em que participou e abriu a porta à demagogia berloquista que se propõe apresentar uma alteração à lei laboral por causa da PT, lei que só não é ad hominem porque a PT não é um homem.

O governo está tão concentrado nas manobras do Ronaldo das Finanças para compor o défice que tem descurado completamente a transposição de directivas e já tem um recorde de 60 novos processos por infracção, sendo o país mais relapso a este respeito.

Entre 2013 e 2015 a administração central recorreu ao ajuste directo de 16 mil milhões de euros de aquisições de bens e serviços, dos quais apenas 15% estão registados no portal BASE, segundo uma auditoria da Inspeção Geral de Finanças (IGF). O que tem isto a ver com este governo? Nada porque foi durante o mandato do anterior. Tudo porque resulta de práticas de governação em que o PS é mestre e o PSD discípulo. Práticas que continuam como se confirma com o concurso «com um único candidato para apoiar as acções de comunicação e sensibilização que previnam os incêndios florestais» (Expresso de 22-07). E quem é o candidato? Uma entidade constituída por Murteira Nabo (ex-ministro do PS, presidente da PT, da Galp Energia, etc.) e Vítor Tito mais um amigo de Costa dos tempos da câmara de Lisboa.

A mesma auditoria da IGF permitiu concluir que 25 entidades da administração central não estão a cumprir a regra de depositarem os saldos de caixa na Tesouraria Central do Estado, mantendo 436 milhões de euros em contas da banca comercial. Porquê? Talvez para fintarem as cativações ou talvez porque tenham amigos na banca ou sabe-se lá porquê.

Recordam-se das críticas do PS ao governo anterior por não reduzir suficientemente os gastos com as parcerias público-privadas (PPP)? Pois bem, a despesa líquida com as PPP atingiu no primeiro trimestre 510 milhões de euros, o valor mais elevado desde 2013 e mais 39 milhões do que no mesmo período do ano passado.

Considerando o discurso do governo dos amanhãs socialistas que cantam e os eflúvios afectuosos que emanam de Belém, não admira que os eleitores estejam optimistas em relação à evolução da economia, segundo uma sondagem da Aximage. Mas nem todos estão igualmente optimistas: 55,1% dos eleitores da CDU, 51,9% dos do PS e 48,3% dos do BE antecipam uma melhoria nos próximos 12 meses. Já dos eleitores do CDS e PSD apenas 33,6% e 34,3% têm partilham desse optimismo. Não admira porque os primeiros são maioritariamente funcionários públicos e reformados e constituem a clientela eleitoral da geringonça que tem um saldo positivo entre o que recebe e paga ao Estado, e os segundos são os que maioritariamente pagam a festa socialista.

Confirmando que a clientela eleitoral da geringonça tem razões para estar optimista, o ministro factótum da Educação já fez entrar para os «quadros do Ministério da Educação» mais 3.263 professores o que se justifica plenamente já que o número de alunos do ensino obrigatório se reduziu de cerca de 600 mil ou 37% (fonte: Pordata), apesar do aumento da escolaridade obrigatória em 2012-2013.

Com este clima animador é natural que, como no passado, os consumidores se animem e... consumam. Sobretudo bens importados e entre eles os mais desejados: os popós que continuam a ser comprados (quer dizer, importados) com grande entusiasmo. Para os comprar, visto que as poupanças já são negativas, é necessário crédito para a compra de veículos que em Maio atingiu 252 milhões de euros o valor mais alto desde 2013.

Os resultados da animação podemos encontrá-los no défice do conjunto das balanças corrente e de capital até Maio que foi 447 milhões de euros, mais 110 milhões do que no mesmo período do ano passado. A grande queda deu-se na balança de bens e serviços cujo excedente de 366 milhões de euros, foi inferior em 531 milhões ao do ano anterior (fonte: BdP). Quando é que já vimos este percurso?

Temos assim mais uma confirmação das teses keynesianas (o falecido John Maynard deve revolver-se na tumba quando esta gente o invoca) da Mouse School of Economics que postulam que o aumento do consumo dinamiza a economia... da Alemanha, de Espanha, de Itália, etc. conforme se tem comprovado nas circunstâncias concretas da economia portuguesa das últimas décadas.

O resultado sintético da acção do governo pode medir-se pela evolução da dívida que é mais difícil de esconder do que o défice. Vejam-se os diagramas seguintes e constate-se que não só o rácio da dívida pública de Portugal é o terceiro mais elevado da UE28, apenas ultrapassado pela Grécia e a Itália, como o seu aumento no 1.º trimestre em relação a 2016 é o quarto mais elevado, superando largamente a Grécia e a Itália que o reduziram ligeiramente.

Fonte: Eurostat
Como se isso não fosse suficientemente mau, o endividamento total do sector financeiro, incluindo sector público, empresas privadas e particulares, atingiu um novo recorde de 724 mil milhões:

Fonte: Negócios
Em cima disto, devemos considerar a inexorável redução das compras de OT pelo BCE ao abrigo do programa de alívio quantitativo que no 1.º semestre já se reduziu de 55,4%. São más notícias para o governo porque a banca portuguesa deixará gradualmente de impingir OT ao BCE e, em consequência, ficará menos disponível para as comprar, a não ser que reduza ainda mais o crédito à economia. São boas notícias para o país porque enquanto a torneira do BCE deitar óleo o governo não deixará de o queimar.

Apesar de estarmos a entrar no período de defeso, o pessoal do Metro constituído na sua maioria por veteranos das greves, anunciou mais uma entre 1 e 3 de Agosto, devido ao «clima de confronto» na empresa. Quando ouvirem justificar uma greve por razões climáticas apostai singelo contra dobrado que é uma greve com motivações políticas.

Com as compensações aos «lesados» do BES, governo abriu uma caixa de Pandora por onde já entraram os «lesados» do Banif, que Costa se aprestou a engraxar, e tentam para entrar os do BPP. O governo tem orçamentados 450 milhões de euros como receita proveniente da liquidação do BPP que os credores estão a tentar travar.

Enquanto por um lado compensa os «lesados» do BES. à custa dos contribuintes, os lesados pelo Estado, por outro lado o governo faz um donativo à banca de 630 milhões que é o valor actualizado líquido negativo que resulta da revisão pelo governo das condições do empréstimo ao Fundo de Resolução, segundo a estimativa da Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO). Aqui temos mais um exemplo das razões que levam o governo a abominar as instituições independentes tentando exterminá-las ou, não sendo possível, atulhá-las com apparatchiks ou palhaços.

Em consequência do fim da austeridade e do início da prosperidade um e outro anunciados abundantemente pelo governo, Portugal é o antepenúltimo dos 35 países da OCDE menos competitivo em políticas fiscais.

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