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23/06/2022

SERVIÇO PÚBLICO: A demagogia e a incompetência tornaram aplicável a lei das consequências imprevistas às energias renováveis

«A Alemanha gastou em 20 anos 550 mil milhões de euros nas energias eólica e solar, mas acabou na situação que antecipei em 2008, e levou a União Europeia, seguindo a estratégia alemã, para uma situação gravíssima na energia, dependendo em 57% do exterior para o seu aprovisionamento e com uma perigosa dependência da Rússia, enquanto que os EUA são autossuficientes em termos energéticos e com uma energia bem mais barata do que a que utilizamos. Também não quisemos explorar o gás de xisto que havia no nosso subsolo, ao contrário dos EUA, e ainda há um ano a Comissão Europeia na sua taxonomia financeira, em dirigiste mood sintonizado com a religião climática, queria proibir o carvão, o GN e a energia nuclear, quando agora já se recomenda que se utilize o carvão e o nuclear para reduzir a dependência do GN...

A invasão da Ucrânia veio agora tornar evidente aos olhos do grande público tudo isto. Em vez duma transição energética, quis-se fazer uma disrupção acabando abruptamente com as formas clássicas e incumbentes de energia. E depois da dependência da Rússia na energia, acabaremos dependentes da China na produção industrial das tecnologias da descarbonização! A produção de painéis fotovoltaicos já migrou para a China, os produtores europeus de geradores eólicos estão já em sérias dificuldades económicas e os materiais para a produção de baterias bem como a respetiva cadeia de valor até à produção de baterias já são controlados pela China. Em suma, Europa sem energia e sem indústria...»

Excerto de Europa sem energia e sem indústria, Luís Mira Amaral

19/12/2021

A arte de bem titular toda a notícia (2)

Expresso

Um marciano lê o título acima e pensa com os seus botões: que belo governo têm estes terráqueos que consegue que os produtores das energias renováveis sejam bondosos ajudando as empresas e poupando-lhes uma pipa de massa melhorando assim a vida dos aborígenes.

Como os marcianos e muitos aborígenes se ficam pelo título, não chegam a ler umas linhas abaixo: «Pela primeira vez na história do sistema elétrico nacional, a existência de tarifas garantidas à produção de energias renováveis representará em 2022 um benefício aos consumidores de eletricidade e não um sobrecusto. E o maior beneficiário será a indústria, que (...) ganhará no próximo ano um alívio tarifário superior a €500 milhões associado às rendas aos produtores de renováveis..» 

Dito em português corrente simplificado, os preços de aquisição aos produtores das energias renováveis são fixos, garantidos e têm sido historicamente muito superiores aos das energias convencionais. Com o aumento dos preços do gás e do petróleo a situação inverteu-se porque os custos de produção das energias convencionais aumentaram significativamente e, em consequência, os respectivos custos de aquisição aos produtores ultrapassaram os preços garantidos das energias renováveis. Moral da estória: os produtores de energias renováveis vão continuar a ser pagos aos mesmos preços e como os seus custos de produção não se alteraram porque por não dependerem dos preços do gás e do petróleo manterão as mesmas margens.

26/10/2021

ARTIGO DEFUNTO: Histórias motivadoras

Expresso

Uma história motivadora contada num post do director da Turbo:
«Ontem fui ao Porto de Porsche Taycan. No regresso decidi testar o novo ponto de carregamento super-rápido da Ionity/Brisa, em Leiria. Em 40 minutos “meti” 49,43kWh ou seja, aquilo que tinha gasto para fazer 190 km à incrível média de 104 km/h. Fiquei fascinado; foi o tempo de um jantar rápido e… seguir viagem.
A mobilidade 100% elétrica começava a fazer sentido para mim. Estava quase, quase -mesmo quase- a render-me. Até qu, já em casa recebi a fatura: 57,24€!!!!!
Assim: 18,13€ de energia e…31,13€ de utilização do posto (mais umas taxinhas).
Eis o milagre que nos querem impingir. Ou acampamos ao lado de um ponto de carregamento baratinho que precisa de várias horas para satisfazer as necessidades de viagem, ou aderimos àquilo que apresentam como o milagre tecnológico e… pagamos mais caro do que se abastecermos de gasolina. Garanto que àquela velocidade, num 911, teria gasto menos de 20 litros para os 190km. Ou seja, 40€. Paguei 57€ pela solução que os nossos governantes (e os de quase todo o Mundo) apresentam como “um fabuloso futuro”.
Recordo: 18€ de “combustível/energia” e 31€ respeitantes ao ponto de carregamento.
Uma pergunta para “um milhão de dólares”: o governo vai limitar a margem de lucro dos fornecedores de energia?
Tretas!»

16/08/2020

A propósito do hidrogénio e das previsões ou no melhor pano também caem as nódoas que ensopam os panos de má qualidade

Com 176 anos, a Economist é uma das melhores revistas de economia e finanças, senão mesmo a melhor. Esses pergaminhos não a impediram de há 17 anos ter previsto o fim próximo das energias de origem mineral (petróleo e carvão) e o advento de novas formas de energia, nomeadamente o hidrogénio, como salientou um leitor em carta publicada no penúltimo número. Fim próximo que, como o anúncio da morte de Mark Twain, foi uma notícia manifestamente exagerada.          

«Finally, advances in technology are beginning to offer a way for economies, especially those of the developed world, to diversify their supplies of energy and reduce their demand for petroleum, thus loosening the grip of oil and the countries that produce it.

Hydrogen fuel cells and other ways of storing and distributing energy are no longer a distant dream but a foreseeable reality. Switching to these new methods will not be easy, or all that cheap, especially in transport, but with the right policies it can be made both possible and economically advantageous.»

(The end of the Oil Age)

Felizmente, o secretário de Estado da Energia, nessa altura (2003) ainda à espera do chamamento do seu mentor Sócrates, não deve ter lido o prognóstico. Se tivesse, seria tentado a vender a ideia do hidrogénio ao seu mentor e este e o seu ministro dos corninhos Pinho poderiam ter adicionado desde logo mais uns milhares de milhão aos 22 mil milhões de euros em rendas excessivas e tecnologias imaturas com que nos brindaram a pretexto das energias eólica e solar (estimativa de Abel Mateus e outros subscritores do Manifesto para a Recuperação do Crescimento e Estabilização Económica Pós-Covid-19).

30/05/2019

Mitos (289) - O povo gosta de eléctricos

Há um bom número de mitos acerca das energias renováveis e em particular sobre os veículos eléctricos, como se o seu fabrico não tivesse maiores impactos ambientais (devido principalmente às baterias) do que os veículos a combustíveis fósseis e como se a produção da electricidade que usam não tivesse impacto ambiental (uma parte dessa electricidade continua a ser produzida por centrais a carvão). [*] 

Um mito mais recente é o da suposta preferência pelos veículos eléctricos dos consumidores iluminados pelas preocupações ambientais. Mito muito celebrado nos primeiros meses do ano devido ao aumento da venda de veículos eléctricos, aumento com pouco significado quando se compara com uma base minúscula de umas centenas de veículos por mês.

A euforia arrefeceu em Abril quando as vendas desceram para metade. E porquê desceram? perguntareis. O que precisa de ser explicado não são as vendas em Abril, o que precisa de ser explicado são as vendas de Janeiro a Março "aditivadas" pelos incentivos fiscais que entretanto se esgotaram em Abril.

Por isso, não podemos concluir que o povo gosta de eléctricos. O povo gosta é de subsídios.

[*] Ver o link citado no segundo comentário.

04/02/2018

ACREDITE SE QUISER: Coerência e convicções

A Fundação Gulbenkian foi criada pelo arménio Calouste, aka Mr. Five per Cent, que lhe deu o nome e lhe deixou como legado precisamente parte dos cinco por cento de participações em petrolíferas, cujos dividendos sustentaram a filantropia artística e científica da fundação que, principalmente no campo da música erudita e, até há uns anos, do bailado, foi nas últimas sete décadas o polo mais importante nessas áreas e por vezes quase o único neste Portugal dos Pequeninos.

Nos últimos dias a Fundação comunicou pela boca da sua presidente que «por uma questão de coerência com as nossas convicções» iria vender a Partex, a holding que agrupa as participações no petróleo. Com grande originalidade a Fundação decidiu vendê-la aos chineses da CEFC que também estão a negociar a compra da maioria do capital das seguradoras Lusitânia e Lusitânia Vida à Associação Mutualista accionista do Montepio Geral, compras que se seguem às participações na EDP, REN, BESI, Fidelidade, Hospitais Luz Saúde, etc., chineses que são quase os únicos que ainda compram as pratas desta nossa família arruinada.

As luminárias ecologistas que compõem a associação Futuro Limpo, de que faz parte o incontornável António Pedro Vasconcelos, celebraram efusivamente o acontecimento e aproveitaram a embalagem para pedir uma audiência ao sensibilizado ministro do Ambiente para o sensibilizarem ainda mais às energias renováveis, sensibilização que, quem sabe, pode passar por aumentar o preço de €74/MWh garantido às eólicas o qual, por agora, é apenas o triplo do garantido pela vizinha Espanha.

Terminada a entrevista ao semanário de reverência, a presidente de consciência regressou a casa no seu BMW Série 7 (CO2 159g/km) aliviada em coerência com as suas convicções.

12/01/2016

SERVIÇO PÚBLICO: Ventoinhas que sopram o défice tarifário

The windmills of your mind
«O capitalismo de compadrio entre o lóbi eólico e os posteriores governos veio, ao abrigo desse regime e com preços elevadíssimos, criar o monstro elétrico. Portugal é o quinto país do mundo em potência eólica instalada por habitante!

Manuel Pinho também se gabava de termos a maior fotovoltaica do mundo (com painéis chineses importados)! Publiquei então nesta coluna "O Escaldão Solar". Tal constitui um ótimo exemplo da nossa precipitação em investir precocemente em tecnologias ainda não maduras, com efeitos negativos na competitividade e sem qualquer vantagem para a nossa economia! Os países inteligentes, na nossa situação, esperariam pela maturidade da tecnologia para começar a investir.

Acontece que a fotovoltaica teve posteriormente descidas de custos e já será interessante para o autoconsumo em produção descentralizada.

Mas à boleia disso e depois desses elevados excessos de potência renovável intermitente, anunciam-se agora grandiosos investimentos em fotovoltaicas no Alentejo.

O argumento destes promotores é de que essa energia será exportada para a Alemanha que bem precisa dela para substituir a energia nuclear, mas isso vai depender do reforço das interligações europeias para a levarmos até lá. Tal vai levar algum tempo e não deverão obviamente ser os nossos consumidores a pagar isso. Tais projetos, se avançarem já, só conseguirão ter financiamento bancário ao abrigo da venda garantida da produção no regime da PRE ( Produção em Regime Especial), ou seja os nossos consumidores a pagar uma energia que não necessitam...

Com mais renovável intermitente no regime da PRE, a dívida tarifária (soma dos défices anuais) irá explodir. Basta saber ler os relatórios da ERSE para compreender a bomba-relógio que virá aí...
»

Excerto de «As quintas solares» artigo no Expresso de Luís Mira Amaral

08/04/2013

Mitos (106) – O mau tempo é bom para o país porque faz muito vento, chove muito e temos electricidade barata

Foi muito celebrado por ambientalistas variados e pelos adeptos do Eng. Sócrates a produção de electricidade na última semana de Março ter sido quase totalmente à custa da energia eólica e hídrica.

Infelizmente, os factos são bastante diferentes do pensamento eco-mágico porque essa predominância das energias renováveis o que fez foi aumentar o volume de subsídios. De facto, em cada euro de facturação da EDP cerca de 42 cêntimos destinam-se a subsidiar a produção de energias renováveis mas também, por incrível que pareça, as centrais a carvão, gás natural e fuel, sem as quais não seria possível assegurar a continuidade da produção devido à variabilidade das energias renováveis. É o resultado da política energética do socratismo.