Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

21/07/2026

Crónica da passagem de um governo (59b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 59a)

A almofada dá para dormir por dois anos e picos. Depois logo se vê

O Instituto de Gestão de Fundos de Capitalização da Segurança Social anunciou com grande alegria que o FEFSS está prestes a atingir os 50 mil milhões, o que será suficiente para pagar as pensões durante 28 meses. Qualquer tuga com menos de 70 anos deveria ficar preocupado porque os fundos privados portugueses de pensões só representam cerca de 20 mil milhões e abrangem cerca de 1,2 milhões de pessoas. É claro que sempre os governos portugueses poderão objectar que, aqui ao lado, em Espanha, as reservas só chegam para um mês de pensões ou que na Bélgica só chegam para 3 anos e esquecerão cuidadosamente (eles e o Dr. Sousa Tavares) que as reservas totais dos Países Baixos são suficientes para 30 anos de pensões.

Take Another Plan. Mme Ourmières-Widener está de volta

Em retrospectiva, Mme Ourmières-Widener, foi apresentada pelo Dr. Pedro Nuno como uma experiente gestora internacional que salvaria a TAP e acabou a ser despedida com alegada justa causa pelo seu envolvimento na renúncia/demissão da Dr.ª Alexandra Reis, renúncia/demissão que fora aprovada pelo Dr. Pedro Nuno (via WhatsApp) e que a IGF considerou ilegal. Mme Ourmières-Widener está a pedir em tribunal uma indemnização de 5,9 milhões e deu um primeiro passo para ganhar a acção porque o STJ decidiu que o diferendo deveria ser resolvido por um tribunal cível e não por um tribunal administrativo como a TAP defendia.

Portugal no topo da OCDE

mais liberdade

A economia pode ter caído quatro lugares no ranking europeu do PIB per capita em PPC mas está no topo da rigidez laboral na OCDE, de onde resultará certamente estar igualmente no topo da “precariedade”, que é a irmã gémea do emprego vitalício.

Amália, um chatbot genuinamente patriota

Os primeiros testes públicos do chatbot Amália, que, segundo o Dr. Montenegro, é um LLM e cujo financiamento total atingirá 7 milhões de euros (e que, segundo o modelo Gemini do Google, não deveria custar mais do que um sexto disso), mostram-no mais vulnerável a “alucinações” do que o Dr. Montenegro, o que não é dizer pouco. Entretanto, ficou a saber-se que uma equipa de linguistas está a usar o Amália na “identificação de narrativas dominantes em artigos noticiosos de natureza manipuladora” e na “deteção de técnicas de persuasão em conteúdos jornalísticos”. Os serviços do Secretariado Nacional de Informação do Estado Novo teriam dado um grande préstimo ao Amália.

É nestas alturas de enrascanço que os instintos socialistas se tornam irreprimíveis 

A  ministra do Ambiente ameaça fixar as «margens máximas em qualquer uma das componentes comerciais que formam o preço de venda ao público». E por que não a ministra da Saúde mandar retirar nas horas de ponta 3 graus à temperatura medida pelos termómetros para diminuir a afluência às urgências dos hospitais?

20/07/2026

Crónica da passagem de um governo (59a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
No melhor pano cai a nódoa mais visível

A bagunça das classificações dos exames nacionais do secundário é vergonhosa porque o que falhou são coisas que qualquer organização medianamente apetrechada e provida de gente competente resolveria sem problemas. Ainda assim, para dizer uma verdade simples e certamente impopular, seria disparatado concluir daí que deveria demitir-se ou ser demitido um ministro que em dois anos fez mais sem grandes alaridos do que o resto do governo (ver aqui o relato de João Duque). Seja como for, o atraso de alguns dias é uma gota de água no oceano dos atrasos sistemáticos no Estado sucial que nalguns casos se medem por décadas.

Então porquê tanta agitação? Simples, meu caro Watson. Porque o que o ministro fez interessa a poucos (os pais que se interessavam e têm dinheiro já inscreveram os filhos nas escolas privadas) e desagrada a muitos, a começar pelos exércitos de profs pastoreados pela Fenprof e açulados pelo Stop, que querem esperar sossegados pela reforma, e a acabar nos profs das universidades adeptos da endogamia e nos “investigadores” adeptos dos subsídios. Exagero? Nem por isso, veja-se a alegria com que os profs a quem o jornalismo de causas dá voz incitam os alunos a pedir revisão das provas na esperança de que a multiplicação dos pedidos prolongue a bagunça.

Teoria da relatividade

Não vou comparar o atraso de alguns dias na publicação das classificações dos exames com o atraso de muitas décadas do novo aeroporto de Lisboa (cuja capacidade estaria esgotada em 2007 ou 2008) nem mesmo compararei com os 23 anos do novo hospital de Lisboa, comparo apenas com a autorização ambiental da central solar Fernando Pessoa cujo processo de avaliação demorou três anos e anda por aí desde 2024.

Miudezas no Portugal dos Pequeninos

O Dr. Luís Neves, ministro da Administração Interna, até recentemente o único ministro estimado pelo PS, nos seus anos à frente da Polícia Judiciária (Judite), soube-se agora, envolveu-se numa série de indescritíveis trapalhadas menores que vão desde um tanque-piscina ilegal até obras no seu retiro alentejano feitas por um empreiteiro amigo com contratos com a Judite e um atrelado com produtos suspeitos (ler aqui a estória).

Não é preciso que algo mude para ficar tudo na mesma

Ao arrepio da larga maioria do jornalismo de causas e da comentadoria, quase metade (48%) dos eleitores preferem que o governo do Dr. Montenegro se arraste até ao fim do mandato e consideram que o actual titular e o desafiante Dr. Carneiro se equivalem na mediocridade com vantagem para o primeiro (fonte)

O salário único (excepto o dos apparatchiks) a caminho do socialismo

mais liberdade

Há um ministro que parece já ter percebido o lado B dos "centros de dados"

Já o escrevi várias vezes: a estratégia de fornecer energia eléctrica abundante e barata produzida em "fazendas" de painéis solares chineses a centros de dados com chips produzidos em Taiwan a processarem dados do resto do mundo com software desenvolvido nos EUA, tem várias consequências, desde logo o aumento do stress da rede eléctrica. Por agora, só o Eng. Pinto Luz, ministro das Infraestruturas, parece ter percebido que esses investimentos assim, sem mais, arriscam a que o Portugal dos Pequeninos seja «quase a lixeira da Europa».

(Continua)

18/07/2026

Trumpism at its finest: accusing China of trying to manipulate the 2020 elections while he himself tries to manipulate the 2026 elections

If he knows that these doctrines are not true, he is a
demagogue; if he believes his own lies, he is an idiot.

«(Wednesday night) President Trump delivered a rare prime-time speech, but his address fell well short of the hype. Purportedly, the president was going to make a major statement about election integrity, but in reality, the speech was dense and hoarsely delivered. As my colleagues report, he provided no evidence to back up his long-standing lie that the 2020 election was stolen. The White House also released four tranches of documents meant to support the speech, but Trump’s claims were a farrago of recycled information, misrepresentations of evidence, and tendentious claims based on materials too heavily redacted to parse. Major news networks, apparently concerned that Trump would mislead, declined to air the address live.

So why even deliver it? The speech was a sign of desperation. Trump spoke now not only to distract from his sputtering Iran war and its effects on the economy, but also because his attempts to concretely interfere with the 2026 election thus far have almost all failed. As his opportunities to change the rules of the game before November slip away from him, the president is falling back on one of the few tools he has left: attempting to sow chaos and doubt among Americans.»

Trump’s Plan for November Is Failing, The Atlantic

17/07/2026

Mitos (355) - O contrário do dogma do aquecimento global (XXXIV) - O Paradoxo de Crutzen e a Lei de Morton

Outros posts desta série

Em retrospectiva, que o debate sobre o aquecimento global, principalmente sobre o papel da intervenção humana, é muito mais um debate ideológico do que um debate científico é algo cada vez mais claro. Que nesse debate as posições tendam a extremar-se entre os defensores do aquecimento global como obra humana – normalmente gente de esquerda – e os outros – normalmente gente de direita – existindo muito pouco espaço para dúvida, ou seja, para uma abordagem científica, é apenas uma consequência da deslocação da discussão do campo científico, onde predomina a racionalidade, para o campo ideológico e inevitavelmente político, onde predomina a crença.

Nós aqui fazemos o possível para não ficar entalados entre o ruído da histeria climática que, levada às suas últimas consequências, conclui que o homo sapiens sapiens tem de ser erradicado para salvar o planeta, e o ruído das teorias da conspiração que consideram que o único problema sério com o ambiente é a histeria climática.

Negar os factos do progressivo aquecimento global exige cada vez mais uma fé quase religiosa (ver, por exemplo, os gráficos do post anterior desta série), fé que tem vindo a ser substituída pela fé contrária nos efeitos miraculosos das medidas defendidas pelo áctivismo ambiental, apesar dos avisos de há vinte anos do Prémio Nobel da Química Paul Crutzen que no seu ensaio «Albedo enhancements by stratospheric sulfur injections: a contribution to resolve a policy dilemma?» chamava a atenção para o paradoxo do ar limpo em que a redução da poluição atmosférica poderia aumentar o aquecimento global por via da redução do albedo (capacidade de reflexão da radiação solar pela superfície terrestre).

Pois bem, parece que é isso que está a acontecer: a redução dos poluentes atmosféricos, como o dióxido de enxofre (SO₂) e a fuligem, que, por um lado, reduzem a chuva ácida que mata milhões de pessoas anualmente e, por outro, têm o efeito de reflectir a luz solar e, assim, reduzir o aquecimento global.

Voltarei a este assunto e, entretanto, alinhavo, por agora, duas conclusões não sobre o clima, mas sobre a mente humana. A primeira, é que estamos, mais uma vez, perante um exemplo da Lei das «consequências imprevistas da acção social intencional» enunciada por Robert K. Merton em 1936.  A segunda é que estamos perante outro exemplo da difícil convivência do mundo real em geral, e da ciência em particular, com cérebros ideológicos (Leor Zmigrod, "The Ideological Brain") saturados com doses maciças de convicções inabaláveis alimentadas nas últimas décadas pelas redes sociais e há séculos pelo jornalismo de causas. E acrescento uma previsão: os que têm negado o aquecimento global vão passar a atribuir o inexistente aquecimento global às medidas para o mitigar. 

15/07/2026

Proposta Modesta Para Evitar que os Áctivistas Desperdicem Acções e Indignações (14) - Áctivistas pró e anti-xenofobia ide manifestar-vos na África do Sul

 Outras propostas modestas

PBS News

Áctivistas de todas as tendências, nomeadamente especialistas em xenofobia, tendes agora mais oportunidade soberana de combater a discriminação contra os imigrantes que tanto vos indigna, reservai já o vosso voo para Joanesburgo. O desafio é extensivo aos áctivistas xenófobos que podem aproveitar a oportunidade para estágios com o movimento anti-migrações March & March. Boa viagem.

14/07/2026

Crónica da passagem de um governo (58b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 58a)

Mais um exemplo de montar a “transição digital” em cima do imobilismo medieval

Em síntese, que admito ser simplista, a bagunça das classificações dos exames nacionais do secundário resulta de deixar tudo na mesma e criar uma superestrutura “moderna” sobre processos antiquados, altamente centralizados, da responsabilidade de serviços artríticos. Digna de estudo psiquiátrico é a reacção das lideranças governativas tentando instilar optimismo e chutar o problema para a frente, em contraste com as lideranças de oposição acusando a falha do governo de «insensibilidade atroz».

O Dr. Matias teve uma nova epifania

Para nos entreter enquanto não nos tornarmos «um líder mundial na IA», o Dr. Matias, ministro das Reformas, num intervalo da sua louvável campanha épica para retirar ao Tribunal de Contas o seu papel de empata nas decisões públicas, em concorrência desleal com os 11 governos que andam há 23 anos a empatar o novo hospital de Lisboa, produziu uma vibrante declaração de princípios, ou mais exactamente, de fins. Segundo ele, a reforma do Estado «consiste em resolver problemas dos portugueses». Peço desculpa por discordar, mas a reforma do Estado consiste em resolver problemas do Estado que dificultam aos portugueses resolver os seus próprios problemas.

E se em vez de nos tornarmos «um líder mundial na IA», nos tornarmos um líder nos apagões (continuação)

Já o escrevi, a estratégia proposta pelo Dr. Matias de fornecer aos grandes operadores de centros de dados energia eléctrica abundante e barata produzida em "fazendas" de painéis solares chineses, terá como consequência aumentar o stress da rede eléctrica até ao ponto de rutura do sistema, como concluiu o Relatório de Monitorização da Segurança de Abastecimento do Sistema Elétrico da Direção-Geral de Energia e Geologia. No meio do silêncio ensurdecedor das luminárias deste país apenas a voz de Miguel Stilwell se fez ouvir sobre o risco de «socialização do custo da energia» resultante da proliferação dos centros de dados (apud Bruno Faria Lopes).

Canários na mina de carvão

Apesar dos esforços do governo secundados pela imprensa amiga de animar os animal spirits keynesianos, depois de um primeiro trimestre com crescimento nulo, para o segundo as previsões das pitonisas de serviço variam entre 0,2% e 0,4% o que, em seguida à estagnação do 1.º trimestre, não é muito animador. A queda em Maio do índice de produção industrial também não é uma boa notícia. Só o turismo continua a crescer – e também a compra de automóveis, uma consequência imprevista, mas habitual, dos fundos da bazuca, suspeito.

Do lado do comércio externo até Maio também não há motivos de celebração com a queda de 0,2% das exportações, o aumento de 3,5% das importações e o agravamento de 14,4 mil milhões do défice (fonte),

Estamos a crescer mais do que a Óropa, já dizia o Dr. Costa e com ele o Dr. Castro Almeida

A maioria dos políticos parecem pensar que faz parte do seu papel infantilizar o eleitorado, dando boas notícias e praticando um optimismo de pacotilha (foi o Animal Feroz quem disse que um político é um profissional do optimismo, quando deveria dizer que é um profissional da aldrabice). O ministro da Economia, Dr. Castro Almeida, também parece praticar este mantra quando diz à SIC Notícias «que Portugal está a crescer pouco, mas está a crescer bastante acima da média europeia», como se fizesse algum sentido um país que tem um PIB per capita que é menos de metade dos países mais ricos e onde a produção da AutoEuropa (um investimento da VW), que em Portugal representa 1% do PIB, representaria no seu país de origem 130 vezes menos, crescesse abaixo desses países.

13/07/2026

Crónica da passagem de um governo (58a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
A meritocracia do Estado sucial é uma espécie de caquistocracia

A CReSAP é uma entidade criada pelo governo de Passos Coelho para avaliar os candidatos a nomeações para cargos públicos. Foi completamente ignorada durante os consolados do Dr. Costa cujos governos enxamearam o aparelho do Estado sucial com gente incompetente ou/e corrupta. Em entrevista ao Expresso, o actual presidente da CReSAP revela que 85% a 90% dos nomeados já estavam no cargo em regime de substituição, um expediente pelo qual, ainda que cumprindo as formalidades de avaliação, se colocava o escolhido de confiança numa situação de vantagem da qual saía nomeado com naturalidade.

 Com estas práticas, ninguém deveria ficar surpreendido por, nos últimos dois anos, 15 diretores distritais da Segurança Social com ligações conhecidas ao PS terem sido substituídos pelos homólogos do PSD (fonte).

O que tem de ser tem muita força. Uma medida errada pode ter duas consequências indesejadas

Em vez de simplificar os processos kafkianos de licenciamento e criar incentivos fiscais à construção de novas habitações (agora tardia e timidamente aprovados), ou seja, em vez de aumentar a oferta, o governo aprovou medidas como a Garantia Jovem para aumentar a procura (até o FMI ao longe percebeu o disparate e recomendou o fim desses apoios).

Uma das consequências, como acentuei na crónica da semana passada, foi o aumento em dois anos de quase 60% das novas operações de crédito à habitação o que determinou o aumento do endividamento das famílias.

mais liberdade

Outra consequência foi o aumento no 1.º trimestre de 17,8% do preços das casas, o maior aumento da UE. O resultado inevitável é o aumento do défice de novas construções e, inevitavelmente, o aumento dos que os preços de mercado reflectiram como um termómetro reflecte o aumento da febre.

Adicionalmente à simplificação dos processos de licenciamento e dos incentivos fiscais à construção de novas habitações, o governo poderia fazer algo muito mais simples, como promover o arrendamento das cerca de 250 mil fogos fora do mercado de venda ou arrendamento e, já agora, descongelar as rendas de cerca de 250 mil contratos, retirando aos senhorios o papel de substituto da segurança social.

Quem fala assim não é gago

Não são todos os dias que um presidente do Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana diz no parlamento «se há uma coisa da qual se pode acusar o Estado português é de gerir mal o seu património», explicando aos deputados ignaros que os imóveis que foram vendidos não tinham qualquer aptidão para habitação, coisa que os governos socialistas não perceberam durante quase uma década ao tentarem resolver o défice de habitação com os edifícios públicos.

(Continua)

12/07/2026

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Câmara de Almada, um caso notável de incompetência individual e sistémica

Alfredo Martirena
Secção Res ipsa loquitur

A Dr.ª Inês de Medeiros, com um nome próprio acompanhado de seis apelidos, dois advérbios e um hífen, é um membro característico das elites de esquerda bem-pensante (também poderia ser das elites de direita, que vinha a dar ao mesmo), actriz de cinema, deputada pelo PS, é há 9 anos presidente da Câmara de Almada, onde chegou, sucedendo a uma dezena de vereações comunistas, sem qualquer experiência ou vocação para gerir o que quer que seja e com notável pesporrência.

Durante sete anos produziu inúmeras declarações, sendo uma das mais notáveis sobre a água, e ignorou olímpicamente a crescente degradação da rede de água, que tem uma das mais elevadas taxas de perda e serve um concelho com um consumo per capita muito superior à média, concelho que, segundo a Dr.ª de Medeiros, estaria «assente sobre uma reserva quase inesgotável de água de grande qualidade» (apud Helena Matos). O que faz uma criatura bem-pensante quando a realidade da falta de água lhe entra pelo gabinete e os protestos dos munícipes pelos ouvidos? Procura rapidamente um culpado pelas consequências da sua negligência (o governo, Bruxelas) e alega a universal falta de meios (neste caso, os omnipresentes fundos generosamente providenciados pelos contribuintes europeus).

Concedo à Dr.ª Inês de Saint-Maurice Esteves de Medeiros Victorino de Almeida cinco urracas pela sua inacção na presidência, quatro bourbons por nada ter apreendido nem esquecido, cinco pilatos por lavar as mãos do assunto, apesar da falta de água, e três chateaubriands por imaginar que não faltaria a água em Almada, apesar do rio passar ao lado da cidade e não a atravessar. (avaliação contínua)

11/07/2026

Thought of the day: best deal ever


If you think this cartoon is inspired by Donald Trump, it is. But think again and look around you.

10/07/2026

De volta ao patriotismo tudológico a cavalo da ignorância pesporrente

Faz um tempo zurzi o patriotismo tudológico a cavalo da ignorância pesporrente do Dr. Tavares, que então investiu contra «os holandeses, os novos-ricos da Europa, actuando como gauleiters da Alemanha» tentando diminuir a Holanda para enaltecer o Portugal dos Pequeninos. Lembrei-me desse episódio ao cruzar-me com mais um exemplo de realizações notáveis dos holandeses, a acrescentar aos vários que então citei. 


Trata-se da ASML, o único fabricante mundial de máquinas de fotolitografia por ultravioleta extremo (EUV) cujos sistemas de precisão permitem produzir em massa os chips mais avançados, indispensáveis para a inteligência artificial, smartphones e data centers. As máquinas da ASML permitem imprimir circuitos com menos de 2 nanómetros (*) de largura para aplicações de IA da próxima geração.


É uma empresa espantosamente bem-sucedida, que em 2025 facturou mais de € 30 mil milhões e prevê facturar € 40 mil milhões este ano com cerca de 42 mil empregados de 140 nacionalidades. É a empresa europeia com maior valor de mercado - quase 700 mil milhões de euros ou mais do dobro do PIB português. É tão inovadora que a administração americana exigiu que, para continuar a operar nos EUA, a ASML não exportasse as suas máquinas para a China porque isso comprometeria a vantagem tecnológica americana, cada vez menor.

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(*) Equivalente a um milionésimo de milímetro; as células humanas têm, em média, um diâmetro entre 10 mil e 30 mil nanómetros, pelo que na largura de um circuito impresso da ASML caberiam de 5 mil a 10 mil células humanas. 

08/07/2026

07/07/2026

Crónica da passagem de um governo (57b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 57a)

O Dr. Miranda critica o Dr. Matias

Num qualquer Talk on Competition & Regulation, o Dr. Miranda, que, recorde-se, é o ministro de Estado e das Finanças deste governo, queixou-se que a falta de competitividade (ou “competividade”, de acordo com o Dr. Costa, agora a repousar em Bruxelas) resulta de «constrangimentos importantes» e apontou o dedo às «elevadas barreiras à entrada» e aos «encargos regulatórios e administrativos excessivos».

A verdade é uma coisa muito escorregadia ou o governo e o TdC a ensaiarem Così è (se vi pare) de Pirandello

Com umas décadas de atraso, Lisboa está a ser palco do Teatro do Grotesco, com o ministro da Reforma do Estado a desmentir o TdC depois do TdC ter desmentido o ministro em seguida ao TdC ter desmentido a versão do ministro.

Sim, os erros estatísticos do INE sobre a população residente são uma vergonha, mas vejamos a coisa pelo lado positivo

Agora que está em curso a negociação em Bruxelas do Quadro Financeiro Plurianual (QFP) 2028-2034, em que se desenhava uma redução relativa do donativo para os pobrezinhos do Portugal dos Pequeninos, a descida do PIB per capita até dá jeito para justificar uma maior fatia.

Pensamentos mágicos
  • Pensamento mágico (1)
Criar um “fundo soberano” para gerir uma riqueza que não se tem (leitura recomendada para desenvolver a ideia: «O fundo soberano dirigista do ‘mágico’ Montenegro» de Óscar Afonso).
  • Pensamento mágico (2)
Construir um Innovation District no espaço da antiga refinaria de Matosinhos, onde serão criados 100 mil empregos e que terá impacto anual na economia portuguesa de dois mil milhões de euros, durante 30 anos. Vá-se lá saber por quê, ocorreu-me o estudo (aqui evocado) do Dr. Augusto Mateus para o governo socialista do Animal Feroz em que o aeroporto de Beja iria constituir uma «plataforma logística para a carga a receber e a expedir de/para a América e África, incluído o transporte de peixe, utilizando aviões de grande porte e executando em Beja o transhipment para aviões menores para a ligação com os aeroportos europeus».
  • Pensamento mágico (3)
O Dr. Montenegro, que garante que «não está a festejar nada», anunciou que o financiamento total do modelo Amália atingirá 7 milhões de euros. Questionado o modelo Gemini da Google para estimar o custo total real e razoável de replicar ou manter um modelo como o Amália, obtive a seguinte resposta:
«Se uma empresa ou entidade privada quisesse desenvolver hoje o mesmo modelo, de forma otimizada e comercialmente viável, o custo real de mercado situar-se-ia entre 450.000 € e 850.000 € para o desenvolvimento, acrescido de um custo operacional contínuo (infraestrutura) que varia conforme a escala de utilização.» E pronto, that’s it.
«Pagar a dívida é ideia de criança»?

Os excedentes orçamentais (que, recorde-se, são, na sua maioria, resultados de erros de previsão, atrasos no pagamento das despesas, ou, no final do ano, manobras orçamentais) estão a passar a défices, como no período até Maio que atingiu 1.762 milhões de euros, desta vez porque a despesa pública subiu quase 10%.

BdP

É claro que em Maio a dívida pública na ótica de Maastricht aumentou 1,7 mil milhões para 288,7 mil milhões.

06/07/2026

Crónica da passagem de um governo (57a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Enquanto Portugal não tem «todas as condições para se tornar um líder mundial na IA», por que não?

(1) Evitar a vergonhosa bagunça das classificações dos exames nacionais do secundário

Obnubilado pelas poeiras mediáticas, só percebi a génese da bagunça quando um professor me explicou que a avaliação das provas digitalizadas não estava a funcionar por várias razões, entre elas a incapacidade dos apparatchiks digitalizarem em tempo útil as centenas de milhares de provas, os erros de digitalização, como o de não associarem o número de controlo a uma prova, e a saturação dos servidores das redes do ME, incapazes de darem acesso simultaneamente a quase 90 mil professores.

Em suma, incapacidade de planear, incompetência, desleixo, amadorismo, you name it. E não me venham com estórias da carochinha de que o responsável é o ministro. Sim, é ele e mais a cadeia de apparatchiks entrincheirados no aparelho do ministério.

(2) Evitar os erros estatísticos gigantescos do INE

A coisa era tão óbvia que até o Dr. Marcelo, que não é conhecido pelo seu desvelo pelo rigor (*), concluiu, há precisamente um ano, que os números sobre a imigração da AIMA e do INE não eram compatíveis. Um ano depois, saíram debaixo do tapete 700 mil residentes, o que, entre outras consequências, fez o PIB per capita PPP do Portugal dos Pequeninos cair quatro lugares no ranking da UE e deitar para o caixote do lixo das estórias a convergência com que todos os governos dos últimos 40 anos nos têm tentado excitar.
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(*) Veja-se o exemplo da reversão pelo Dr. Costa do horário dos funcionários públicos para as 35 horas, apadrinhada pelo Dr. Marcelo, jurando que enviaria para o TC se a despesa aumentasse e vejam o que aconteceu à despesa.
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Afinal, a população residente, estava nas «milhentas fontes de informação» e era um segredo de Polichinelo que só INE não conhecia

Se a coisa era óbvia para o Dr. Marcelo, imagine-se o que seria para o Dr. Centeno, o Ronaldo das Finanças (supõe-se que o Ronaldo antes de ser estátua). Na dúvida, ele próprio veio esclarecer nas suas comunicações semanais ao país através das jornadas parlamentares do PS:
«É evidente, e eu insisto nisto, sabíamos que não éramos aquele número [10 milhões de população]. Sabíamos há anos e anos e anos. Eu ainda era ministro e já perguntava ao INE, sem quebrar a independência do INE, 'onde é que estava o PIB para aquele volume de emprego' e depois passou-se a fazer a pergunta 'onde é que estava na população o emprego que nós identificávamos nas milhentas fontes de informação.»
Os portugueses «vão ter razões para confiar no SNS»

Até Maio, o número de “utentes” sem médico de família aumentou cerca de 66 mil, totalizando 1.666.823, dos quais 70% na região de Lisboa e Vale do Tejo. O Dr. Montenegro não é original, nisto como no resto, visto que está a continuar a obra do Dr. Costa.

A arte de deixar para o fim o mais difícil

O Dr. Dominguinhos disse ao jornal Sol que, a dois meses do fim do prazo, dos marcos e metas do PRR faltam precisamente os 25% mais difíceis de cumprir. Não é uma catástrofe, afinal, uma parte do dinheiro iria apenas ser derramada aumentando o consumo, e a outra parte são empréstimos que teriam de ser reembolsados.

Já que a oferta é insuficiente incentivemos a procura

Adaptado de BdP

Inebriado pela subida nas sondagens o Dr. Carneiro dá tiros nos pés

O Dr. Carneiro não está a conseguir ficar calado e fala mesmo quando não tem nada para dizer e nisso não é diferente de muitos outros. Mais grave é que foi a Grândola mostrar casas supostamente financiadas pela bazuca do Dr. Costa para habitação e afinal (segundo o Expresso) não foram financiadas pelo PRR nem se destinavam à habitação.

Poderia o Sr. Ministro explicar qual é a composição dos 2,01% da despesa com defesa?

O Dr. Nuno Melo vai à cimeira da NATO anunciar que Portugal atingirá 2,01% do PIB na Defesa, ou seja, vai ultrapassar os mínimos em um ponto-base, graças à inclusão das pensões de reformados e grande parte das despesas com a GNR. De acordo com os critérios estritos do Eurostat (COFOG), as despesas reais de defesa operacional andariam em torno de 0,8% do PIB.

(Continua)

04/07/2026

Crassus fits Donald better than Caligula

The folly of war

The Telegram (May 9th) compared Donald Trump to Caligula. As Caligula never started a war it would be more appropriate to compare Mr Trump to another Roman leader, Marcus Licinius Crassus. Crassus was a real-estate tycoon who made his fortune by buying the properties of those purged after a civil war. Frustrated that he had not received the credit he thought was his for having quelled Spartacus’s slave revolt, he was eager to gain glory through a victory against a “real” enemy. With the help of his buddies in the triumvirate, Caesar and Pompey, he got his chance in 53BC. Crassus was assigned to subdue Parthia, an empire that covered today’s Iraq and Iran. Ignoring advice from his generals, Crassus rushed headlong into the desert and the Parthian armoured cavalry, resulting in one of the largest defeats suffered by a Roman army. The Parthians cut off his head and poured molten gold into his mouth.

PAUL VANDERBROECK [Letter from a Reader of The Economist]

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Trump's BEAUTIFUL FINAL deadlines have a BIG mortality rate

  • Trump initially gave Iran a deadline to reopen the Strait.
  • He extended that deadline once rather than acting.
  • He extended it again by about 10 days, saying he was pausing military action while giving diplomacy another chance.
  • Today he issued a final 48-hour deadline, warning, «A whole civilization will die tonight».

02/07/2026

Continuamos muito "competivos", como dizia o Dr. Costa, e pouco competitivos

Continuação daqui e dali.

No último ranking de Competitividade do IMD, o Portugal dos Pequeninos volta a cair, desta vez para o 40.º lugar.


A queda resulta sobretudo de um score medíocre da eficiência empresarial, o que não deveria ser surpresa para ninguém que tenha um módico de conhecimento da estrutura empresarial e do funcionamento das empresas. 


À ineficiência empresarial não é alheio o facto de, num país com 11,4 milhões de residentes, existirem 1,5 milhões de empresas não financeiras, das quais 96% são microempresas (em muitos casos, meros expedientes de profissionais isolados para diminuir a punção fiscal), 3,9% são PME e os 0,1% residuais são as grandes empresas que representam 36,4% do VAB total. É isto que temos, empresas pequeninas num país pequenino, com mentes pequeninas e egos inchados, sofrendo do complexo de Eduardo Lourenço.

01/07/2026

A ameaça de falência do Estado Social na pátria do capitalismo

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Na altura da criação do fundo americano de segurança social, em 1940, por cada pensionista havia 150 contribuintes, actualmente há menos de três. As reservas que atingiram o máximo de USD 2,8 biliões caíram para USD 400 mil milhões (triliões e biliões, respectivamente na escala curta). A diferença entre os rendimentos do fundo e os pagamentos em 2025 ultrapassou USD 200 mil milhões (cerca de 0,7% do PIB). Se nada for feito, estima-se que em 7 a 8 anos o fundo se esgote e as pensões tenham de ser reduzidas todos os anos.

Por alturas da criação do fundo americano, não existia em Portugal um sistema de segurança social universal que só foi criado com a reforma de 1962. Em 1970, existiam cerca de 13 contribuintes por cada pensionista, rácio que foi descendo até 1,5 antes do surto de imigração, tem vindo a aumentar e situa-se actualmente em cerca de 1,7. Segundo as projecções, a partir de 2035 as contribuições deixarão de ser suficientes para pagar as pensões e o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (FEFSS) actualmente com 50 mil milhões, graças às contribuições dos imigrantes, ficará esgotado por volta de 2050.