Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
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Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
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17/10/2025

Mudam-se os tempos mudam-se os expedientes. O Reductio ad Hitlerum dá lugar ao Reductio ad Sinistram e ao Reductio ad Activismum

O ideário da esquerda, que no pós-guerra tem dominado até recentemente o condicionamento da opinião pública das democracias ocidentais, recorreu sistematicamente ao expediente designado por Reductio ad Hitlerum para classificar como fascista qualquer ideia ou pessoa desalinhada com esse ideário.

Agora que esse ideário vem perdendo influência na opinião pública, e a um ritmo mais lento nos mídia, em benefício de um ideário de direita, começa a emergir nos meios da direita um expediente semelhante de classificar como esquerdismo qualquer dissidência em relação ao actual credo oficial da direita. 

Baptizo esse expediente de Reductio ad Sinistram ou Reductio ad Activismum. Para se entender melhor o que quero significar, dou alguns exemplos. Uma criatura que defende o direito dos judeus a terem o seu Estado e a garantirem a sua segurança - para simplificar, um amigo de Israel - que critique as políticas e os abusos do governo de Israel é automaticamente classificada como esquerdista e inimiga dos judeus. Outra criatura, crítica do ideário e das práticas designadas como "woke", que não aceite que as instituições democráticas sejam usadas para adoptar práticas da direita semelhantes a pretexto de as combater, arrisca-se a ser classificada como esquerdista e até "woke". 

O mesmo expediente é usado pelos devotos de um ideário (de direita ou de esquerda) para classificar uma criatura que tenha uma visão crítica das práticas do líder que corporiza esse ideário, por muito idiota, sem escrúpulos, desonesto ou incompetente que esse líder seja, atributos que de resto a esmagadora maioria dos devotos, cegos pela sua devoção, não reconhece.

Uma pequena maioria a quem resta alguma lucidez, reconhecendo que as fraquezas do líder, nem por isso deixam de usar o mesmo expediente em público, embora em privado possam reconhecer  que «he may be a son of a bitch, but he's our son of a bitch», adoptando assim o que aqui no (Im)pertinências baptizámos há muitos anos de Doutrina Somoza, inspirados no facto - facto provavelmente falso ou alternativo, no sentido de Mrs Conway -, do presidente Franklin D. Roosevelt ter dito isso mesmo em 1939 a propósito do apoio ao ditador Somoza.

26/07/2025

UE, cada vez menos um gigante económico e cada vez mais um anão político e militar

As poucas dezenas de democracias plenas e sociedades prósperas existentes no planeta encontram-se na sua maioria na Óropa, o que permite a qualquer cidadão europeu dizer quase tudo o que lhe passar pela cabeça sem consequências desagradáveis, disfrutar de um nível de vida que faz inveja a quase todo o resto do mundo, com excepção dos Estados Unidos que pagam por isso um preço elevado, desde uma saúde pública deficiente, uma esperança de vida vários anos inferior à média europeia, uma sociedade dividida e pouco coesa, uma democracia problemática com um score muito inferior ao da média da UE e, last but not the least, um governo por uma criatura instável sofrendo de narcisismo patológico com uma corte que o bajula, tolerado pelos tecnogarcas que fingem acreditar nas suas baboseiras enquanto tentam extrair vantagens.

É claro que a Óropa tem imensos problemas como o envelhecimento, uma imigração que a irresponsabilidade dos governos deixou atingir o limiar de uma séria ameaça à coesão social e tem sido pasto dos vários nativismos (em todo o caso a uma escala não maior do que a dos EU, ao contrário da lenda), uma competitividade sufocada pela obsessão regulamentadora (em todo o caso não muito maior do que a dos EU [*]), e, sobretudo, não conseguiu criar até agora um mercado verdadeiramente único, nomeadamente na área dos serviços, o que não deixa de ser o resultado expectável para uma entidade supranacional que não é um verdadeiro Estado e tem no seu seio dezenas de Estados e nacionalidades que no passado não muito longínquo se combateram ferozmente.

Fonte

Por tudo isso, para uma criatura que aprecie a liberdade e o bem-estar, viver na Óropa é a quase todos os títulos mais agradável do que viver nos Estados Unidos, só que a felicidade não está garantida e no horizonte não se vislumbram políticas para resolver os problemas que afligem a UE. Veja-se por exemplo o quadro financeiro plurianual 2028-34 que apesar de ter aumentado de 1,2 biliões para 1,8 biliões continua a representar uma percentagem anual ridícula de 1,15% do Rendimento Nacional Bruto da UE e o pouco que representa irá ser aplicado, provavelmente e como de costume, para fazer felizes os agricultores, sobretudo franceses, e construir autoestradas. Os 50 mil milhões anuais para a competitividade (menos de 7% do que Mario Dragui estimou serem necessários) são insuficientes e arriscam-se a ser torrados em projectos para dar brilho aos governos. É um pouco mais do muito mesmo.

________________

[*] Um exemplo, o caos inerente ao sistema americano de supervisão bancária, por coincidência descrito esta semana no Expresso por Willen H. Buiter, um economista que o conhece muito bem.

09/04/2025

Dúvidas (347) - Terá o MAGA uma vocação global?

Jornal Eco

«A embaixada dos Estados Unidos em Portugal está a realizar uma revisão global padrão dos contratos, que se aplica a todos os fornecedores e beneficiários de subvenções do Governo dos EUA. Este processo inclui um pedido de certificação para garantir o cumprimento das leis norte-americanas anti-discriminação, indicou ao ECO fonte oficial da embaixada.»

Não me recordo da administração Biden ter instruído as embaixadas americanas para compelirem os seus fornecedores locais a adoptar as políticas DEI.

27/06/2024

A teoria da conspiração da fuga de Costa para a Óropa era uma premonição


Há cinco anos citei num post a peça "Verdade escondida aos portugueses: António Costa já manobra nos bastidores para ir para Bruxelas", que admiti poder ser mais uma teoria da conspiração. À cautela, porém, sabendo o que a casa gasta, acrescentei que, tratando-se do Portugal dos Pequeninos governado por gente, como a que então nos governava, cujos antecessores fugiram, um do pântano para o olimpo das Nações Unidas e outro da bancarrota e da polícia para a Sorbonne, concluí que à cautela era melhor acolher o que então poderia não passar de uma teoria da conspiração e mais tarde poderia ser uma boa premonição.

Podia ser uma premonição e tudo agora indica que fosse, quando se sabe que os grupos Liberais, Socialistas e PPE chegaram o acordo sobre os nomes para os presidentes da Comissão Europeia e do Conselho Europeu e entre eles encontramos o Dr. Costa que há anos se andava a pôr a jeito. 

A esta luz fica explicado o mistério de uma demissão por razões triviais, demissão que agora se vê ter sido um pretexto para saltar do comboio antes da estação para não perder a oportunidade. Só não foi um golpe perfeito porque S. Ex.ª não aceitou substituí-lo pelo Dr. Centeno, se tivesse aceite teria sido um expediente win-win, assim foi apenas win-lose.

10/03/2024

A poucas horas de votar só sei em quem não votarei

O contexto é o que é. Um país envelhecido abandonado por jovens inconformados, crescentemente populado por pensionistas e conformistas, que gostam de socialismo, apreciam ou pelo convivem bem com o Estado sucial, gostariam de ter sol na eira e chuva no nabal, não apreciam a liberdade, o mercado e a concorrência.

No contexto que é o que é, as campanhas eleitorais são que são: exercícios em que se fala de tudo menos do que é importante, em que se anunciam benesses que consistem na melhor hipótese em extrair dinheiro de Bruxelas, isto é, dos contribuintes europeus, ou tirar dos bolsos de uns contribuintes domésticos para dar a outros, ou em que se excitam as mentes frágeis e se insultam as outras com exercícios de demagogia, como reduzir impostos sem saber onde se corta a despesa pública ou se anunciam crescimentos miraculosos como se o governo só por si fizesse crescer alguma coisa para além da despesa e da dívida pública, e se ignoram as reformas que poderiam introduzir dinamismo na economia, aumentar a produtividade e os salários, por esta ordem. 

Não se ficam a conhecer as políticas públicas propostas pelos partidos para reformar o sistema de ensino (o elevador social que está parado no rés-do-chão), recuperar o sistema de saúde do estado comatoso em que se encontra, aliviar o Estado sucial da manada de elefantes brancos das EP, assegurar a sustentabilidade do sistema de segurança social, dotar o país de Forças Armadas capazes de garantir a soberania, que são algumas das políticas públicas cuidadosamente silenciadas, a que se acrescenta uma política para uma imigração necessária, com efeitos positivos e inevitáveis efeitos negativos, despachada com os dois tipos chavões do costume, nos casos em que não foi silenciada. 

Dito isto, é claro que não votarei no novo situacionismo, nem nas novas e nas velhas demagogias, nem nos inimigos de sempre da liberdade.

29/11/2023

Sobre o centro que se afunda nas sondagens, o congresso do PS-D que celebra o Estado assistencialista falhado e as coincidências da vida

O que há de comum entre o centro que se afunda nas sondagens, o congresso do PS-D e as coincidências da vida? Nada de especial, apenas o facto deste vosso escriba ter intenção de escrever sobre os dois primeiros temas e ter-se dispensado de o fazer porque lhe tiraram as palavras da boca.

Começou com uma mensagem de um amigo a propósito das sondagens com o destaque «Centro afunda-se, Chega dispara» da primeira página do Público, que me induziu a responder-lhe com poema The Second Coming de Yeats, que é citado desde há alguns anos no cabeçalho deste blogue. Tudo para mais tarde ler o editorial do mesmo Público citando o mesmo poema.


E chegamos ao congresso do PS-D (para quem consiga ler até ao fim este post, imagino ser desnecessário explicar esta minha grafia), que adiava comentar desde há dois ou três dias. Admito não ter conseguido ver integralmente o pletórico vídeo da intervenção do Dr. Montenegro, contudo, vi o suficiente para concluir que João Miguel Tavares escreveu um resumo melhor do que eu teria escrito.
«No sábado, Luís Montenegro prometeu subir o rendimento mínimo garantido dos pensionistas portugueses para 820 euros até 2028. Na segunda-feira, André Ventura prometeu subir todas as pensões até ao nível do salário mínimo. Lembram-se de 1974, quando todos os partidos de direita tiveram de arranjar nomes de esquerda para não serem acusados de fascistas? Cinquenta anos depois estamos mais ou menos na mesma: a direita está convencidíssima que só consegue ganhar eleições fingindo que é de esquerda. Vai daí, propõe ao país doses cavalares de políticas redistributivas e promete gastar ainda mais dinheiro com pensionistas do que o PS.»
E o que porventura faltaria (a referência ao crescimento económico sem o qual todas as promessas são miragens) estava escrito num post do Corta-Fitas.
«Atendendo ao último congresso do PSD, não há dúvidas: Montenegro entrou no leilão com o PS por pensionistas e salários mínimos, somando a recuperação da esquecida função publica nos últimos anos e acrescentando um prometido renascimento da esmagada classe média. Só coisas boas. Fiquei apenas surpreendido por não haver menções enfáticas ao crescimento económico que poderia permitir que estas promessas sejam realistas. Montenegro promete transformar PNS num menino de coro.»
A reforçar a ideia do mimetismo do PS-D, o comentador oficial Dr. Marques Mendes regozija-se pelo PS-D ter dado «primazia aos temas sociais. Até que enfim!» e o Dr. Miranda Sarmento, líder parlamentar do PS-D, certamente preocupado com as "contas certas", garantiu que «o complemento solidário para idosos (...) nunca colocará em causa o equilíbrio orçamental», passando ao lado da questão central que é a sustentabilidade da segurança social. 

As políticas públicas para reparar a avaria do elevador social que o sistema de ensino deveria ser, para recuperar o sistema de saúde do estado comatoso em que o PS o deixa, e para assegurar a sustentabilidade do sistema de segurança social, não dei conta que tivessem sido mencionadas pelo Dr. Montenegro.

14/07/2023

O Dr. Rio tem os vícios dos políticos de sucesso do Portugal dos Pequeninos, apesar de ser mal sucedido

Segundo o mandato que o Ministério Público emitiu para proceder a buscas em casa do Dr. Rui Rio, a direcção de então do PSD usou dinheiros públicos destinados a custear assessores parlamentares para pagar a apparatchiks do partido que não trabalhavam no parlamento.

Até aqui nada de anormal no Portugal dos Pequeninos porque, ao que parece, esta era uma prática "normal" dos partidos, pelo menos é o que o Dr. Rio alega. E mais disseram os seus devotos que é um ataque ad hominem para o queimar e, se for assim, será também uma prática "normal" na justiça portuguesa. Igualmente "normal" entre os políticos portugueses é a reacção grotesca do Dr. Rio a fazer uma performance na varanda de sua casa.

Talvez a única coisa menos normal seja a prosápia e arrogância do Dr. Rio que é mais "normal" num político de sucesso de projecção nacional do que num político falhado que se apresentou como um sucedâneo do partido incumbente. Dito de outro modo, o Dr. Rio tem tudo para ser um político de sucesso no Portugal dos Pequeninos excepto o sucesso.

04/03/2023

Mentir para bem do partido e proibir os votos contra? Estamos a falar de um partido liberal?

«O presidente da mesa do Conselho Nacional da Iniciativa Liberal admitiu no primeiro encontro após as eleições, realizado no domingo, que já mentiu para o bem do partido, apurou o Nascer do SOL.

Nuno Santos Fernandes esclareceu que mentiu a um conselheiro eleito quando o convidou e garantiu que não iria convidar mais ninguém, mas minutos depois estava a fazê-lo. No encontro dos liberais disse apenas: «Menti para o bem do partido».

Na convenção dos liberais ficou ainda estabelecido que não poderia haver votos contra – daí ter havido 26 abstenções entre os 50 conselheiros eleitos. Neste encontro do Conselho Nacional do IL esteve em cima da mesa a discussão da revisão estatutária do partido, na qual se inclui como um dos objetivos a eliminação das inerências, a manutenção da eleição dos órgãos por votação universal e o reforço e desenvolvimento da transparência.»

De modo que, ou o IL processa o Nascer do Sol ou o IL muda nome para II e funde-se com o Berloque de Esquerda.

30/12/2022

ESTADO DE SÍTIO: Está em causa o "regular funcionamento das instituições"? Como assim? No Portugal dos Pequeninos este é o funcionamento regular das instituições

A estória é conhecida: o Dr. Pedro Nuno e um seu secretário de Estado fizeram-se de mortos face à indemnização de meio milhão de euros que a TAP resolveu pagar à Dr.ª Reis, para ela sair pelo seu pé e transferir-se para a NAV, outra empresa pública, de onde foi convidada passado alguns meses para secretária de Estado do Dr. Medina, cuja esposa é uma amiga do peito da Dr.ª Reis. Como habitualmente, a coisa per se nunca seria um problema se as trombetas mediáticas não o tratassem como tal, o que aconteceu em boa parte porque o Dr. Costa, ao deixar afundar a geringonça para navegar na sua nau catrineta, perdeu a boa-vontade de dezenas de jornalistas e comentadores afiliados das agremiações representadas na geringonça que nas redações teriam limpado a sua folha.

E foi assim que face este infausto acontecimento, vários políticos, comentadores e jornalistas, disseram por estas ou por outras palavras semelhantes considerar que «está em causa o regular funcionamento das instituições, implicitando que o Dr. Marcelo deveria dar corda aos sapatos e tratar de dissolver o parlamento, coisa que, supondo ter fundamento constitucional, ele não tem vontade nenhuma de fazer por várias razões, das quais porventura a mais importante é convir-lhe um governo debilitado que ele possa trazer pela trela enquanto continua a sua performance, tentando manter a atenção de um público que vai dando sinais de cansaço.

04/06/2022

Na história do Portugal dos Pequeninos, o século XXI não é assim tão diferente do XIX (7)

Continuação de (1), (2), (3), (4), (5) e (6)

Lendo «O Fundo da Gaveta» de Vasco Pulido Valente, dei comigo a pensar que, mudando a época, as modas e os protagonistas, o Portugal do século XIX me faz lembrar o Portugal da III República. Nos posts desta série cito algumas passagens que mais intensamente evocam essa ideia.

As reformas e os interesses

As reformas de Viseu e Sá foram mal recebidas até pelo seu campo. Os funcionários ameaçados ou prejudicados, especialmente os engenheiros, reuniram-se, associaram- se, protestaram. A opinião progressista mudou pouco a pouco de tom. Deixou de clamar, em abstracto, contra o simples excesso de funcionários e dirigiu as suas imprecações unicamente às prebendas, sinecuras e acumulações. Depressa acusava o Governo do mesmo erro de Ávila, o de «não distribuir igualmente os sacrifícios», esquecendo os «poderosos» e trazendo «lágrimas» aos «humildes». Em Setembro, já declarava, sem disfarce, que não existia excesso de funcionários, enquanto o Estado central se não libertasse das suas «vastíssimas» e «complicadas» funções. No ministério do Reino, por exemplo, quatro escreventes ocupavam-se a conceder licenças para «touradas, exposições de cabeças falantes e mulheres gordas ou magras»; como dispensá-los? Daqui se seguia que os esforços de Viseu e de Sá poupariam, na melhor das hipóteses, algumas dezenas ou centenas de contos, mas não desatariam o «nó», que «apertava» o país. Isto punha uma descentralização mítica como condição prévia a qualquer reforma da burocracia do Estado e, como se admitia, acessoriamente, que um Estado descentralizado não seria por força mais barato, negava os fundamentos do programa radical.

De volta ao défice, como sempre…

Na prática, esse programa já falhara. Em Outubro, o Governo encontrava-se perante as soluções tradicionais para financiar o défice e satisfazer os encargos da dívida: contrair mais um empréstimo; subir os impostos; aumentar a circulação fiduciária.

(…)

… e ao aumento dos impostos

A Câmara dos Deputados aprovou a Loulé parte dos aumentos de impostos que recusara a Samodães, incluindo o de 20% da contribuição predial. Votou igualmente uma nova lei de desamortização e o acordo final com a companhia de Caminhos de Ferro de Sul e Sueste, para fortalecer o crédito externo. Como de costume, os ministros anunciaram dezenas de reformas dos serviços, destinadas a diminuir a despesa do Estado.

[Do capítulo Ressurreição e morte do radicalismo (1864-1870)]

(Termina aqui esta série)

29/05/2022

A história do Portugal dos Pequeninos, o século XXI não é assim tão diferente do XIX (6)

 Continuação de (1), (2), (3), (4) e (5)

Lendo «O Fundo da Gaveta» de Vasco Pulido Valente, dei comigo a pensar que, mudando a época, as modas e os protagonistas, o Portugal do século XIX me faz lembrar o Portugal da III República. Nos posts desta série cito algumas passagens que mais intensamente evocam essa ideia. 

Uma espécie de PREC avant la lettre

Com outra seriedade, e porque a história do regime encorajava todas as ilusões, passou-se ao aliciamento de militares. Penicheiros notórios esforçaram-se por «seduzir os chefes dos corpos de guarnição», «iludir» os sargentos e «insubordinar a Guarda Municipal. Distribuíram-se até folhetos pelas ruas incitando a Guarda a revolta.

(…)

Afastado o desenvolvimento, ficava o funcionalismo que a regeneração, os históricos e a fusão tinham usado para empregar a classe média e, ligando-a ao statu quo, demovê-la de aventuras revolucionárias. Só que o funcionalismo era o alvo por excelência das principais reformas a que estavam comprometidos os radicais: a simplificação dos serviços, a luta contra a corrupção, a descentralização.

[Do capítulo Ressurreição e morte do radicalismo (1864-1870)]

(Continua)

21/05/2022

A história do Portugal dos Pequeninos, o século XXI não é assim tão diferente do XIX (5)

 Continuação de (1), (2), (3) e (4)

Lendo «O Fundo da Gaveta» de Vasco Pulido Valente, dei comigo a pensar que, mudando a época, as modas e os protagonistas, o Portugal do século XIX me faz lembrar o Portugal da III República. Nos posts desta série cito algumas passagens que mais intensamente evocam essa ideia.

Os interesses, sempre os interesses

O Estado não apenas servia ou patrocinava certos interesses privilegiados, constituía ele próprio um conjunto autónomo de interesses, concorrente com os outros.

Aqui há uma nova confusão. Compreende-se que os agentes económicos auto-suficientes e as profissões liberais que não precisavam de empregos públicos experimentassem uma acentuada relutância em sustentar uma administração que lhes parecia hipertrofiada e inútil e que, além disso, pesava sobre o mercado de capitais. O programa acentua que a carga fiscal «obstava à formação de riqueza» e «castigava o esforço produtivo» e que muitos «estabelecimentos)) e «companhias» estavam a sofrer com as dificuldades do «crédito» (ie., com a subida da taxa de juros) e se arriscavam a um «abalo» ou ao <<aniquilamento», se as coisas não mudassem depressa. A vontade de não permitir que os clientes do Estado o governassem não espanta naqueles que pagavam a conta sem receber de volta coisa nenhuma. Consegui-lo era mesmo a condição indispensável à maioria das reformas que propunham. Nunca um Parlamento de funcionários consentiria em extinguir, a título de poupança, o Tribunal de Contas, o Conselho de Estado e os Conselhos Superiores dos ministérios; em restringir os quadros das secretarias, do exército e da marinha; em baixar os «vencimentos excessivos»; e em proibir as acumulações e gratificações. Acima de tudo, nunca permitiria uma autêntica descentralização que a inteligência revolucionária do tempo imaginava ser a panaceia universal. Limitar a «oligarquia» do Estado, reduzir o Estado a proporções toleráveis e contrariar o seu «absolutismo» exigia uma maioria de deputados sem ligações com ele. Mas esse propósito não se percebe da parte da cauda plebeia do movimento oposicionista, onde proliferavam os pequenos funcionários ou aspirantes a funcionários.

(…)

O défice, sempre o défice

Pelo contrário, a necessidade de combater o défice ou de, pelo menos, parecer que o combatia, levou-o a restringir o programa de extensão da rede viária; e a dispensar «operários» das empresas do Estado e muitos pequenos funcionários.

[Do capítulo Ressurreição e morte do radicalismo (1864-1870)]

(Continua)

19/05/2022

Na história do Portugal dos Pequeninos, o século XXI não é assim tão diferente do XIX (4)

Continuação de (1), (2) e (3)

Lendo «O Fundo da Gaveta» de Vasco Pulido Valente, dei comigo a pensar que, mudando a época, as modas e os protagonistas, o Portugal do século XIX me faz lembrar o Portugal da III República. Nos posts desta série cito algumas passagens que mais intensamente evocam essa ideia.

A oposição parecida com a situação

Os inimigos da fusão, no entanto, embora exprimissem um descontentamento real, não propunham ainda, ou não representavam ainda, uma alternativa prática. Por enquanto, não iam além da crítica a vícios universalmente reconhecidos. Também eles pediam reformas, ordem, moralidade e economias. O que não era original e se tomava por fraqueza, não sem fundamento.

Esta aparente concordância no essencial de todas as forças autónomas e activas tornava as divergências irrisória ou pouco respeitáveis. Imediatamente, contribuía para justificar a fusão. Como os seus chefes notavam, sob uma espécie de fusão vivera Portugal desde 1852. Os partidos, embora combatendo-se e substituindo-se no poder, aceitavam ambos a corrida aos «melhoramentos» e procuravam distinguir-se nela. Com frequência, mutuamente se disputavam a autoria de certas medidas ou «a primazia nas dores sofridas» por certos «avanços».

(…)

A reforma autárquica

Nesta ordem de ideias, não inteiramente indefensável, Martens Ferrão, fez a sua reforma administrativa. Extinguiam-se quatro distritos: Portalegre, Santarém, Braga e Leiria. Estabelecia-se a regra geral de que nenhum concelho podia ter menos de 3000 fogos, o que implicava a supressão de 178 em 295. Reduziam-se as freguesias, agora chamadas <<paróquias civis» de cerca de 3000 para 1046. Conservavam-se 3966 paróquias eclesiásticas. De resto, diminuíam-se as responsabilidades e prerrogativas das Câmaras e fortalecia-se a fiscalização do Estado central.

[Do capítulo Ressurreição e morte do radicalismo (1864-1870)]

(Continua)

07/05/2022

Na história do Portugal dos Pequeninos, o século XXI não é assim tão diferente do XIX (3)

Continuação de (1) e (2).

Lendo «O Fundo da Gaveta» de Vasco Pulido Valente, dei comigo a pensar que, mudando a época, as modas e os protagonistas, o Portugal do século XIX me faz lembrar o Portugal da III República. Nos posts desta série cito algumas passagens que mais intensamente evocam essa ideia.

O desenvolvimento e a “descentralização”

Os males do desenvolvimento só se curavam com mais desenvolvimento. Aumentasse a produção que aumentaria a receita fiscal, diminuiria o défice e os preços desceriam. Tratava-se de persistir na mesma direcção. Não de negar os «grossos subsídios» indispensáveis à construção de comunicações e portos ou de restringir a liberdade do mercado.

Quanto ao resto, a fusão oferecia as consolações habituais, copiadas do programa clássico do progressismo. Oferecia-as, porém, com restrições e sem descer a pormenores. Prometia conter as despesas do Estado, mas pela abolição das despesas inúteis e a «severa restrição das acessórias e secundárias», não, como insistia em sublinhar, pela «supressão» ou «cerceamento» das restantes. Aludia, de passagem, à injustiça fiscal, sem declarar qualquer intenção de a corrigir. Falava em «simplificação e descentralização» administrativas como meios de reduzir o défice e de promover a iniciativa local, abstendo-se de mencionar formas e prazos. Não esquecia o tropo obrigado sobre as vantagens da moralidade na governação. Finalmente, acabava com o usual elogio à instrução e, implicitamente, dava-se como objectivo organizar uma instrução profissional, «adaptada às conveniências e aptidões regionais»; e difundir a instrução primária «até às últimas camadas».

As omissões do manifesto da fusão eram tão importantes como a sua letra. Não existia nele palavra sobre reformas políticas.

[Do capítulo Ressurreição e morte do radicalismo (1864-1870)]

(Continua)

01/05/2022

Na história do Portugal dos Pequeninos, o século XXI não é assim tão diferente do XIX (2)

Continuação de (1).

Lendo «O Fundo da Gaveta» de Vasco Pulido Valente, dei comigo a pensar que, mudando a época, as modas e os protagonistas, o Portugal do século XIX me faz lembrar o Portugal da III República. Nos posts desta série cito algumas passagens que mais intensamente evocam essa ideia.

A fusão como prenúncio do bloco-central

Qualquer alternativa definida rejeitaria por natureza uma ou várias facções, quanto mais não fosse a unha branca do próprio Loulé, e, nessa medida, agravaria o conflito, já intenso; provocaria mais divisões; e, admitindo que conseguisse prevalecer, não conseguiria com certeza governar. Um postulado estava implícito ao pensamento da oposição: o de que só o Estado poderia estabelecer alguma disciplina política. O objectivo consistia por isso em associar ao Estado o máximo de personalidades, grupos e interesses, distribuindo igualitariamente as benesses e a influência e não afastando senão os inconciliáveis. Criticava-se Loulé, como antes Costa Cabral, pelo seu «exclusivismo», isto é, por usar os lugares, 0 dinheiro e a autoridade do Estado em exclusivo proveito dos históricos; queria-se inverter este critério, diluindo as fronteiras partidárias e criando uma única força, coesa e universal.

A este programa se chamou apropriadamente a «fusão».

[Do capítulo Ressurreição e morte do radicalismo (1864-1870)]

(Continua)

27/04/2022

Na história do Portugal dos Pequeninos, o século XXI não é assim tão diferente do XIX (1)

Lendo «O Fundo da Gaveta» de Vasco Pulido Valente, dei comigo a pensar que, mudando a época, as modas e os protagonistas, o Portugal do século XIX me faz lembrar o Portugal da III República. Nos posts desta série cito algumas passagens que mais intensamente evocam essa ideia.

A retórica, sempre a retórica, e o reformismo que só poderia vir de fora

Mas não havia nas Necessidades um grupo organizado capaz de tomar o poder. Dos jacobinos franceses, os jacobinos portugueses só tinham a retórica. (…)

Com a «pátria em perigo», decapitavam o partido constitucional e entregavam o futuro aos bons ofícios do rei, a cujo retrato fizeram comovedoras manifestações. Pior: no momento em que se propunham resistir, pretendiam também conciliar. Parte da impopularidade do Governo vinha das medidas repressivas, aliás brandas, com que tentara meter na ordem as franjas mais lunáticas do radicalismo urbano.

(…)

Este fracasso foi o verdadeiro fim do reformismo, que só podia vir de fora. As reformas fiscais, económicas, administrativas e militares dependiam de uma prévia reforma política. Sem ela, a inércia e os interesses instalados impediriam qualquer tentativa de mudança. Palmela e Subserra ficaram reduzidos à deprimente tarefa de gerir o caos e a miséria. Vila Franca nem ressuscitara a antiga monarquia, nem gerara uma via média «razoável». Produzira apenas um absolutismo mitigado, menos despótico do que arbitrário e, na essência, moribundo.

[Do capítulo A contra-revolução (1823-1824)]

(Continua)

24/11/2021

DIÁRIO DE BORDO: A principal virtude do Dr. Rangel é não ser o Dr. Rio

A boutade do título é de Alberto Gonçalves, um veterano da bloguilha agora no Observador, e traduz bastante bem (substituindo na virtude o qualificativo «enorme» por principal) o que eu penso do Dr. Rangel, uma criatura que para nele votar teria de fazer como preconizou o Dr. Cunhal que os comunistas fizessem ao votar no Dr. Soares: «Se for preciso tapem a cara com uma mão e votem com a outra».

Por várias razões, entre as quais não se conta o seu comportamento na esfera privada nem as suas ideias e práticas sobre a sexualidade, matéria que só a ele diz respeito, mas onde se inclui a cobardia do seu voto contra o casamento dos homossexuais no parlamento em 2008. 

Razões como os conflitos de interesse enquanto deputado europeu (denunciados por Pedro Arroja, que o detesta, talvez por boas razões), como a sua choruda avença mensal da sociedade de advogados Cuatrecasas, entre outros. Ou a sua auto proclamada virgindade política, comparando-se com «António Costa e Rui Rio (que) são pessoas que estão há 40 anos no sistema», sendo certo que ele com as idades dos dois já terá 27 e 31 anos de «sistema», respectivamente. Ou a sua insensatez demagógica de propor «por razões económicas» a subida de um salário mínimo que já representa a maior percentagem na UE em relação ao salário médio e é uma ameaça à sobrevivência das dezenas de milhar de pequenas e micro empresas.

Razões próprias que não tenho a certeza se são anuladas pelas razões dos portugueses, com a sua histórica falta de discernimento, que parecem preferir abertamente o Dr. Rio para opositor (ou candidato a vice do Dr. Costa). Ou se são anuladas pelas razões do PS que, pelos vistos, já perdeu de todo o recato e faz abertamente campanha oficial pelo Dr. Rio, como é o caso do Dr. Ferro Rodrigues, no seu habitual estilo de múmia, e do Dr. Santos Silva, com a sua proverbial falta de decoro, a que se juntam as vozes de apparatchiks menores.