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19/05/2022

Na história do Portugal dos Pequeninos, o século XXI não é assim tão diferente do XIX (4)

Continuação de (1), (2) e (3)

Lendo «O Fundo da Gaveta» de Vasco Pulido Valente, dei comigo a pensar que, mudando a época, as modas e os protagonistas, o Portugal do século XIX me faz lembrar o Portugal da III República. Nos posts desta série cito algumas passagens que mais intensamente evocam essa ideia.

A oposição parecida com a situação

Os inimigos da fusão, no entanto, embora exprimissem um descontentamento real, não propunham ainda, ou não representavam ainda, uma alternativa prática. Por enquanto, não iam além da crítica a vícios universalmente reconhecidos. Também eles pediam reformas, ordem, moralidade e economias. O que não era original e se tomava por fraqueza, não sem fundamento.

Esta aparente concordância no essencial de todas as forças autónomas e activas tornava as divergências irrisória ou pouco respeitáveis. Imediatamente, contribuía para justificar a fusão. Como os seus chefes notavam, sob uma espécie de fusão vivera Portugal desde 1852. Os partidos, embora combatendo-se e substituindo-se no poder, aceitavam ambos a corrida aos «melhoramentos» e procuravam distinguir-se nela. Com frequência, mutuamente se disputavam a autoria de certas medidas ou «a primazia nas dores sofridas» por certos «avanços».

(…)

A reforma autárquica

Nesta ordem de ideias, não inteiramente indefensável, Martens Ferrão, fez a sua reforma administrativa. Extinguiam-se quatro distritos: Portalegre, Santarém, Braga e Leiria. Estabelecia-se a regra geral de que nenhum concelho podia ter menos de 3000 fogos, o que implicava a supressão de 178 em 295. Reduziam-se as freguesias, agora chamadas <<paróquias civis» de cerca de 3000 para 1046. Conservavam-se 3966 paróquias eclesiásticas. De resto, diminuíam-se as responsabilidades e prerrogativas das Câmaras e fortalecia-se a fiscalização do Estado central.

[Do capítulo Ressurreição e morte do radicalismo (1864-1870)]

(Continua)

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