«Ocidente não é um mito e se fosse era um belo mito. Mas é uma realidade tangível, feita de instituições morais e sociais. O Governo constitucional, assente na minimização do arbítrio e na maximização do direito não é um mito. É um legado da república romana. A faculdade democrática de despedirmos os nossos governantes e escolhermos outros também não é um mito. É um legado de Atenas. A inviolabilidade dos direitos, liberdades e garantias individuais também não é um mito. Funda-se na proclamação da dignidade da pessoa humana e na fundamental igualdade entre todos os Homens, cada um sendo um fim em si mesmo. É um legado do cristianismo, uma religião nascida no Médio Oriente helenizado. O espaço público aberto à livre expressão das opiniões e das ideias também não é um mito. É o segredo do progresso e da adaptabilidade das democracias liberais às circunstancias novas e imprevistas, condição indispensável da inovação e da mudança. Sócrates foi condenado porque Atenas era democrática mas não era liberal. Platão e Aristóteles não se restabeleceram dos abusos democráticos. Não acreditavam que o bom, o belo e o justo fossem alcançáveis de braço no ar. As suas admoestações e advertências vigoraram até ao século XVIII, no cristianismo e no governo dos Homens, até à grande revolução.
O comunismo foi uma aberração do racionalismo e do elitismo platónico, metastizado no vanguardismo. Resultou numa experiência histórica atroz, que converteu parte do Ocidente numa sucursal sem Deus das teocracias orientais. O parto do Ocidente foi doloroso, repleto de crimes e padecimentos. O Ocidente, carregado de cicatrizes, é a síntese a que chegámos, sofridamente, e a que não podemos renunciar, pois fora dele só há trevas, como diriam os romanos do mundo exterior.
O Ocidente há muito deixou de ser um conceito geográfico. O Gabão pode ser ocidental, se assim o escolher e se disso for capaz. A internet e a aviação fizeram com que o Gabão esteja hoje infinitamente mais perto de nós do que nós, nosso canto ocidental, estávamos da Atenas do século V a.c.. O Ocidente não é um mito, mas pode ser uma meta.
A China levanta-se da servidão coletivista porque decidiu ocidentalizar-se. A força da China advém do seu sistema económico, tecnológico e militar copiado do Ocidente. A dívida da China ressurgente para com Mao é zero. Mao é apenas o legitimador da dinastia reinante, a dinastia do imperador coletivo.
Nenhuma fatalidade histórica empurra a Rússia para a autocracia. Os ocidentais ressentidos com o Ocidente — uma agremiação heterogénea — imaginam a Rússia como uma nova Esparta, feita de guerreiros indiferentes ao baixo materialismo de um Ocidente corrompido pelo luxo, que marcham com uma arma na mão esquerda e “Os Irmãos Karamazov” na direita. Os russófilos de direita pensam que estão perante o exército branco do almirante Kolchak. Os de esquerda imaginam Trotskys aos pontapés a desaguar no Donbas, saltando de comboios blindados.
Tudo isso integra a grandeza do Ocidente: trocámos um mundo de servos e senhores pelo caótico pluralismo democrático e pela concomitante e inevitável abundância de maluquinhos. Podem abjurar o Ocidente, onde têm a cautela de residir, mas não o podem substituir pelas fantasias da sua predileção. E é assim que deve ser, para nosso merecido descanso.»
Os maluquinhos, Sérgio Sousa Pinto