Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

28/02/2019

Porque não fiquei surpreendido, ainda outra vez? (6)

Alguém acredita que Kim alienará a sua nomenclatura político-militar subtraindo-lhe o armamento nuclear? Perguntei-me aqui, aquiaquiaqui e aqui:

Trump-Kim Summit Updates: ‘Sometimes You Have to Walk,’ Trump Says as Talks Collaps

Trump acreditou nas balelas de Kim, dirão os seus detractores. Não importa se acreditou, porque Trump concentra-se nos meios e não nos fins. Os meios são para ele os fins e resumem-se em manter a sua clientela eleitoral - os deplorables de Hillary Clinton - mobilizada contra o que Hillary Clinton representa, ou o que os deplorables acham que ela representa.

DIÁRIO DE BORDO: Confessando outra vez a minha irremediável ignorância

Outras confissões do mesmo género sobre "género".


Ao princípio era o clássico LGBT, depois foram os 10 "géneros" LGBTIQQAAP (L = lesbian, G = gay, B = bisexual, T = transgender, I = intersex, Q = queer, Q = questioning, A = allies, A = asexual, P - pansexual). Mais tarde os 71 propostos pelo Facebook no Reino Unido.

Os 71 "géneros" seriam imbatíveis, pensei. Pensei mal. Neste comentário um leitor preocupado com a minha ignorância dá-me «conta dos últimos avanços da mais zenital conquista civilizacional», a saber: os 112 "géneros" identificados pelo Tumblr (don't ask). De entre os 112, cito apenas um que me parece o sexo vagabundo definido como se fosse o bosão de Higgs:
«Verangender: a gender that seems to shift/change the moment it is identified
Em quanto e quando é que isto vai acabar? Ninguém sabe. Toda esta criação é provavelmente produto de mentes esquizofrénicas, isto é de pessoas «que perdem a capacidade de pensar de uma forma lógica e, consequentemente, de comunicar e de se relacionar, passando a viver num mundo paralelo e sem as normas pelas quais se regem as pessoas ditas normais». Ora essas mentes são abundantes sobretudo entre a esquerdalhada mais radical e, reconheça-se, até entre certas direitas. Se for assim, o limite máximo para o número de "géneros" deverá andar actualmente pelos 7 mil e picos milhões.

Quando uma criatura vos abordar com uma lista de "géneros" fazei-lhe uma PET (Tomografia por emissão de positrões) e confirmai se aparece a manchinha vermelha característica.


Entretanto, resolvi questionar-me sobre o meu "género" e descobri que sou transeconómico.

27/02/2019

Não sabe quem é o Costa? Pergunte ao filho, ele sabe

«E o António Costa, até hoje não sei quem ele é. Dizem que mantém a legislatura. E depois? O que é que isso quer dizer?», confessou Alexandre Soares dos Santos, o fundador da Jerónimo Martins em entrevista ao Observador.

Não sabe quem é o Costa? Pergunte ao filho Pedro Soares dos Santos que, segundo José Miguel Júdice, «disse a quem o quis ouvir: “Acredito muito no Dr. António Costa"».

Dúvida (255) - Já tínhamos a condição feminina, já temos a condição militar. Para quando a condição civil?

«Sargentos ameaçam com criação de sindicato militar»
Nas manifs exigem a dignificação da «condição militar», na vida real tornam-na indigna com os episódios de Tancos, dos roubos nas messes, etc. e a incompetência generalizada da instituição militar capturada por gente desqualificada que gasta o talento a dar graxa aos políticos. Se querem dignificar a «condição militar» expurguem-na dos incompetentes e desonestos.

26/02/2019

Governo socialista, o lugar geométrico do nepotismo


«Não há mais nenhum caso como o nosso na Europa. Nenhum. Somos manifestamente uma “República familiar” onde quase todos os parentes do PS têm lugar no governo. Uma vergonha que nos coloca ao nível dos países mais corruptos e ditatoriais mas que não envergonha nadinha o PS que usa e abusa do nepotismo para se instalar e perpetuar-se no poder. Isto não é uma democracia. Isto é um “polvo”. Uma “família siciliana”. Um negócio.

Não lembra nem ao diabo ter no mesmo governo a família inteira Vieira da Silva:   pai,  mãe e  filha. Como não lembra ter inúmeros cônjuges, filhos, noras, irmãos e amigos (estes nunca podem faltar). Preparados para a lista extensa? Aqui vai:

  • João Gomes Cravinho, ministro da Defesa, é filho do ex-ministro João Cravinho;
  • António Mendonça Mendes, secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, é irmão de Ana Catarina Mendes, secretária-geral adjunta do PS
  • ...»
Continue a ler a interminável lista (eventualmente incompleta) no post «Uma “família” sem vergonha» de Cristina Miranda no Blasfémias.

ACREDITE SE QUISER: Para os cépticos que pensavam que Guterres não faria diferença nenhuma na ONU (3)

Outras diferenças que Guterres não fez.


O assessor especial de Guterres para a prevenção do genocídio (como é que será que se previne o genocídio?), Adama Dieng, foi encarregado de «definir uma estratégia e apresentar um plano global de acção" para combater o discurso de ódio, revelou Guterres na 40.ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU.

O Conselho de Direitos Humanos tem entre os seus 47 membros países tão respeitadores dos direitos humanos como: Arábia Saudita, China, Cuba, Egipto, Venezuela.

Irá Guterres encarregar o seu assessor especial de criar um discurso do amor, uma espécie de newspeak, em alternativa ao discurso do ódio? E porque não um comissário do amor, uma espécie de Miniluv da Oceania orwelliana?

Picareta falante uma vez, picareta falante sempre.

25/02/2019

Crónica da avaria que a geringonça está a infligir ao País (176)

Outras avarias da geringonça e do país.

Com a popularidade de Costa e as intenções de voto do PS ambas em baixa, a maioria está cada vez mais distante. Em pior situação se encontram o PC e o BE cuja intenções de votos ficam hoje 2 e 1,3 pontos percentuais, respectivamente, abaixo das últimas eleições (fonte). Se não fosse o Ronaldo das Finanças estar a tentar arranjar um emprego permanente em Bruxelas, Costa entregue a si mesmo iria certamente começar a entornar dinheiro em cima da clientela eleitoral.

Em vez de entornar o dinheiro que não há, Costa em alternativa continua a fazer fogo de barragem com medidas, leis, projectos e planos. A última dessas iniciativa foi, como referi a semana passada, o Direito Real de Habitação Duradoura ou Arrendamento Vitalício, sobre o qual quanto mais se sabe mais se percebe que é um aborto inviável que não interessa aos inquilinos nem aos senhorios

Só um sujeito distraído ficaria surpreendido com as manobras e as pressões que o governo fez sobre a OCDE - a que sucumbiu Ángel Gurría, um correlegionário do PRI mexicano, membro da Internacional Socialista - para alterar o capítulo de Portugal sobre corrupção do Economic Survey e afastar Álvaro Santos Pereira, responsável da equipa que preparou o relatório, da apresentação. Está nos genes do PS que em muitos aspectos é tanto ou mais controleiro do que o PC.

24/02/2019

Títulos inspirados (85) - A inteligência artificial como sucedâneo da falta de inteligência natural


«Governo recorre à inteligência artificial para exportar mais» titulou o semanário de reverência para promover a «estratégia» do governo que vai usar «o e-commerce, o bigdata, o design thinking e o machine learning, etc.» (ou seja and so on). Estratégia de internacionalização da economia que «nunca teve tanta escala e coordenação» nas palavras do secretário de Estado Brilhante Dias, em promoção.

O brilhante Dias não explicou como conseguiram os industriais do vestuário e do calçado e outros exportadores de sucesso exportar sem tal estratégia e desprovidos de «o e-commerce, o bigdata, o design thinking e o machine learning, etc.», nem quais os produtos que o governo irá fabricar para exportação, para além das tretas em que é um fabricante de referência.

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Um comissário para todo o serviço (2)

Secção Albergue espanhol

Confessamos (outra vez): aqui no (Im)pertinências o comissário Carlos Moedas tem vindo a provocar urticária. A primeira vez que surgiu no nosso radar em plena crise do resgate foi a descerrar uma lápide em Beja com o seu nome, a pretexto de ser lá da terra, numa escola sem alunos (um projecto do tempo de Sócrates), na qualidade de secretário de estado adjunto do primeiro-ministro.

Ainda restava alguma boa impressão na segunda vez que nos apareceu,  (...) Para nós foi sempre a descer. E quando pensávamos que já não desceria mais, ... (a partir daqui é ler o post anterior)

Agora que já sabemos que pode descer mais, não nos surpreendemos com as promoções que o semanário de reverência lhe fez esta semana. Aqui vão elas:


Repare-se como Moedas substituiu Tsipras nos favores da viúva de Miguel Portas.

Corrige-se assim a avaliação da prestação de carreira de Moedas, segundo a pontuação impertinente, com cinco em vez de quatro urracas pela frouxidão, mantêm-se os cinco pilatos por querer colocar cartas em todos os tabuleiros e leva cinco em vez de três chateaubriands por confundir a sua promoção com os deveres do cargo e o interesse do país, a que acrescem dois ignóbeis.

23/02/2019

O culto da aberração na religião do politicamente correcto


«Aaron Philip, de 17 anos, é a primeira modelo negra, transexual, com paralisia cerebral e dependente de uma cadeira de rodas a assinar com uma agência de renome – a Elite Model Management. Num artigo escrito na primeira pessoa para a Them., a plataforma online dedicada à temática LGBTQ, a jovem explicou o seu percurso e fala das suas aspirações. (...)

Depois de assinar com a Elite, seguiram-se muitos outros trabalhos. Porém, Aaron não conseguiu desfilar na Semana da Moda em Nova Iorque. A modelo conta à Teen Vogue que não conseguiram colocá-la na passerelle “porque não havia acessos para a cadeira de rodas”. Não ter participado motivou-a ainda mais a falar sobre os problemas de acessibilidade na indústria da moda.» (Público)

Não há nenhuma razão para discriminar uma criatura negra, transexual, com paralisia cerebral e dependente de uma cadeira de rodas. Há talvez razão para duvidar da sua sanidade mental ao insistir em ser modelo, guia turística ou mineira. E seguramente há razões para duvidar da honestidade de quem quer usar a criatura como bandeira de uma qualquer causa.

22/02/2019

SERVIÇO PÚBLICO: “Aos amigos, tudo. Aos inimigos, nada. Aos restantes, cumpra-se a lei”.

«Portugal tudo perdoa e relativiza. Somos tão cristãos que até perdoamos a quem jamais demonstrará arrependimento, desde políticos sem ética nem vergonha, a gestores geniais que arruinaram milhares de vidas. Na verdade, tudo é facilmente perdoado neste país, das pequenas às maiores patifarias, exceto uma coisa: morder a mão de quem nos alimenta. Foi o que fez o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, que, num país pequenino, cometeu o pecado supremo. Virou-se contra a ordem natural de que ele próprio fizera parte durante anos, como gestor da CGD e de outros bancos.

Senão vejamos: este é o governador que não só ‘mordeu a mão’ do primeiro-ministro que o nomeou, José Sócrates, como mais tarde ajudou o seu sucessor a deitar abaixo o maior lobby que existia em Portugal e que alimentava muita gente dos negócios, da política, da comunicação social e até dos sindicatos. Isto é imperdoável para muitos que prefeririam que o governador tivesse seguido os passos do seu eficaz e vigilante antecessor, que, como sabemos, acabou por ser promovido para Frankfurt.

Carlos Costa cometeu erros, a resolução do BES foi uma experiência trágica e existem questões por explicar sobre a sua passagem pela Caixa, tal como o JE tem noticiado nas últimas edições, numa excelente investigação da nossa redatora principal Lígia Simões. Mas não podemos ignorar que o seu percurso é semelhante ao de 99% dos quadros da banca portuguesa, que fizeram carreira sem levantar ondas e, expressão apropriada, ajudando ao quórum dos comités de crédito.

O que o distingue de outros que entravam mudos e saíam calados de tais convénios é o facto de, assim que teve poder para tal, ter tido a coragem de enfrentar interesses que jamais haviam sido desafiados. Só por isso, Carlos Costa já merece o nosso respeito, independentemente de tudo o resto. Tivesse agido de outra forma e hoje não seria vítima da máxima, apócrifa, atribuída a um dos pais do regime: “Aos amigos, tudo. Aos inimigos, nada. Aos restantes, cumpra-se a lei”. (*) O governador encontra-se na segunda categoria, mas arrisca-se a receber também o tratamento previsto para a terceira.»

«Aos amigos os favores, aos inimigos a lei» crónica de Filipe Alves no Económico

(*) Não sei quem a quem é atribuído este lema, talvez inspirado em Maquiavel que escreveu: «Aos amigos os favores, aos inimigos a lei.»

Por razões que em boa parte se devem ao governo de Passos Coelho (quando tiver tempo explico porque digo isto), a imprensa de hoje é visivelmente mais livre do que nos tempos de Sócrates. Daí que no passado aqui no (Im)pertinências se escrevia muitas vezes o que a boa imprensa dos socialistas silenciava. Felizmente, hoje podemos dedicar-nos mais às citações.

Lost in translation (317) - Não é tout court? Será tout long?

Por alguma razão desconhecida, só hoje me apercebi da boutade do Sr. General Ramalho Eanes, em entrevista à Lusa, a propósito dos 40 anos das relações diplomáticas entre Portugal e a República Popular da China (aqui citada) na qual postulou:
«A China não é como nós julgamos, um regime totalitário tout court»
Fiquei momentaneamente perplexo, até me recordar do Sr. General Ramalho Eanes ter sido eleito presidente da República do MFA em acumulação com a presidência daquele órgão chamado Conselho da Revolução (o nome diz tudo) que tutelava a quase-democracia portuguesa, órgão cuja perenidade o Sr. General chegou a defender.

Continuando o esforço de memória recordei que enquanto habitava o palácio de Belém se reuniu de um grupo de luminárias que lhe fez um partido chamado PRD (Partido Renovador Democrático) sob o seu «patrocínio tácito», partido com o qual o Sr. General se propôs salvar aquilo que considerava democracia tout court.

21/02/2019

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (12) - Há uns mais no topo do que outros

Outros portugueses no topo do mundo.

Segundo o seu CV oficial, «Bruno Maçães nasceu em 1974. Licenciou-se em Direito na Universidade de Lisboa. É doutorado em Ciência Política pela Universidade de Harvard nos Estados Unidos. Foi Professor de política económica internacional na Universidade de Yonsei na Coreia do Sul de 2006 a 2007. Trabalhou no American Enterprise Institute em 2008. De 2008 a 2011 participou na criação de uma nova universidade internacional em Berlim, o European College of Liberal Arts. De Junho de 2011 a Março de 2013 foi assessor político do Primeiro-Ministro. Foi Secretário de Estado dos Assuntos Europeus entre 2013 e 2015, no XIX Governo Constitucional.»

Depois de ter saído do governo foi praticamente esquecido pelos mídia até que, alegadamente, enviou a uma jornalista "dick pics" (don't ask) o que tornou o seu dick um objecto público, por assim dizer, ou pelo menos objecto da atenção de jornalistas (penis envy?).

Bruno Maçães chegou assim ao topo do mundo no Portugal dos Pequeninos por más razões.

Boas ou más - é matéria de opinião - as razões são alheias à sua obra científica à qual ninguém no Portugal dos Pequeninos parece ter ligado nenhuma, talvez porque tenha passado por aquele governo "neoliberal" que tanto mal causou aos portugueses ao aplicar as medidas negociadas pelo governo de Sócrates, antes deste ir estudar para Paris, para resolver os problemas que os seus governos socialistas por cá deixaram. 

Felizmente para Bruno Maçães, ele acabou por chegar ao topo do mundo por outras mãos um poucochinho mais qualificadas para tal do que a revista Visão que tratou com grande soma de pormenor dos "dick pics" enviados à jornalista.

Essas mãos foram as da Economist que publicou há duas semanas uma elogiosa review do seu livro «Belt and Road: A Chinese World Order», livro que com excepção de Francisco José Viegas (que esteve com Maçães  no governo "neoliberal") foi olimpicamente ignorado pelo jornalismo doméstico que esgotou o seu interesse na pila da criatura.

20/02/2019

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (11) - Se não fosse a concorrência...

Outros portugueses no topo do mundo.

Sob o título megalómano-gongórico «Estamos à beira de uma revolução nos carros elétricos e Portugal tem o papel principal», o semanário de reverência conta-nos que «a investigadora portuguesa Helena Braga trabalha há dois anos numa solução que pode mudar a indústria dos carros elétricos... e não só. Basta que as empresas o queiram, porque a tecnologia já está encontrada».

Aprecie-se o «e não só» que sugere que podemos estar à beira de muito mais do que uma modesta revolução nos carros eléctricos, o que já não seria pouco. É claro que há algumas dificuldades: «o projeto que lidera está agora numa espécie de impasse. A tecnologia para construir baterias mais seguras e que garantam uma maior autonomia está descoberta, falta dar-lhe escala e dimensão industrial.»  Ou seja, falta aquela coisa que faz passar o que parece ser uma boa ideia que ganhou uma medalha num concurso de inventores a um negócio.

E tudo porquê? Ora porque haveria de ser: «do outro lado da barricada, estão as empresas que hoje produzem baterias para o mercado mundial e que não veem com bons olhos a chegada de uma tecnologia concorrentes que lhes destrua a essência do negócio.» Só podia ser a concorrência a dar cabo do negócio. O que fazer? O Estado Sucial suprimir a concorrência, ou não sendo de todo possível por causa de Bruxelas, domesticá-la e, principalmente, subsidiar a coisa.

19/02/2019

DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (74) - É possível enganar quase todos durante algum tempo...

Outras preces

Há dois anos escrevi aqui:

Já agora, deixai-me fazer um prognóstico sobre o provável triste fim que pode esperar quem, esforçando-se por amanteigar uma esquerda que só o tolera porque a amanteiga, se sentir obrigado a largar a manteiga para ele próprio não se afundar, quando essa esquerda se afundar e levar o país consigo, uma vez mais. Nessa altura, pode muito bem Marcelo ficar sem esquerda e sem país. Para quem imagina que a popularidade de Marcelo é um seguro contra todos os riscos, lembremos, que Cavaco, odiadíssimo no final do seu segundo mandato, tinha no final do primeiro ano uma popularidade superior à de Marcelo.

Dois anos depois, Aximage publica mais um estudo de opinião:

Barómetro político da Aximage

Escreve o Jornal de Negócios comentando o estudo da Aximage:

«Com esta avaliação, Marcelo desce para níveis ligeiramente inferiores aos registados pelo seu antecessor, Aníbal Cavaco Silva. Comparando a avaliação entre os dois presidentes em idêntica fase do seu mandato (quase três anos), conclui-se que os 14,5 atribuídos a Marcelo em Fevereiro de 2019 ficam abaixo da classificação recebida por Cavaco Silva em Fevereiro de 2009. Durante mais de três anos, o ex-Presidente da República manteve níveis de aprovação sempre superiores àqueles em que se encontra agora Marcelo. Mais tarde, a popularidade de Cavaco começa a degradar-se, chegando na reta final a atingir patamares raros para um Presidente, abaixo de sete pontos. 

Segundo a Aximage, 67,1% dos portugueses consideram que o Presidente tem atuado "bem", contra 87,3% um ano antes. Nessa altura, apenas 5,5% achavam que atuava mal, percentagem que agora já chega aos 24,2%.»

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: «É fácil seres de esquerda quando estás bem na vida»

«No atual contexto histórico, é de facto muito fácil ser de esquerda quando se vive bem, quando se vive num sector da sociedade privilegiada e protegida em relação ao pior da natureza humana, a pobreza e a violência. Em 2019, a verdade é esta: a esquerda é cada vez mais associada aos privilegiados, às pessoas que por sorte, nascimento ou mérito não têm de se confrontar com o pior das sociedades.»

Excerto de «É fácil seres de esquerda quando estás bem na vida», Henrique Raposo no Expresso Diário

18/02/2019

Crónica da avaria que a geringonça está a infligir ao País (175)

Outras avarias da geringonça e do país.

Dizem alguns comentadores que Costa começa a dar sinais de desorientação. Não estou certo que os seus ziguezagues signifiquem isso, podem muito bem ser apenas a consequência de Costa só ter uma política consistente - manter-se no poder. Daí não ter qualquer problema em anunciar uma barragem de medidas, leis, projectos e planos independentemente da sua exequibilidade ou mesmo da sua intenção efectiva de os executar apenas para encher o espaço mediático, à semelhança dos seus mestres Guterres e Sócrates.

Talvez seja o caso do Direito Real de Habitação Duradoura, ou para simplificar Arrendamento Vitalício, a sua última produção em matéria do arrendamento, um perfeito disparate que na sua versão mais benigna é a generalização da versão dos arrendamentos anteriores a 2003 para os inquilinos com mais de 65 anos.

17/02/2019

Um exemplo clássico do trilema de Žižek

Recordando: o trilema de Žižek, formulado por Slavoj Žižek,  postula a incompatibilidade, sob um regime de constrangimento ideológico como o comunismo, entre as virtudes de honestidade, inteligência e adesão sincera a esse regime. Uso aqui o trilema num sentido mais geral, abrangendo o constrangimento ideológico a que se auto-submetem mentes como a do comunista Eugénio Rosa, actualmente representando o Partido Comunista na ADSE.

Leia-se agora o naco de prosa de Eugénio Rosa a propósito da denúncia dos acordos com a ADSE por parte de vários prestadores privados, incluindo Saúde Cuf, Luz Saúde, Cruz Vermelha e Grupo Lusíadas.

Expresso de 16-02-2019
O facto de em conjunto estes operadores representaram três quartos do volume da facturação total dos operadores privados (ver este excelente trabalho do Observador) não impede o génio Rosa de reduzir o seu impacto a 0,003% dos 1500 prestadores privados. É assim uma coisa parecida como reduzir o impacto do Continente, Pingo Doce e as outras grandes superfícies em hipotéticos acordos de distribuição de produtos alimentares ao peso ínfimo de meia dúzia em relação às dezenas de milhares de mercearias e mini-mercados.

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Web Summit - as 200 mil dormidas já ninguém nos tira (7) - Ó afronta das afrontas

Uma sequela de (1), (2), (3), (4), (5) e (6)

Recapitulando: já concedi que umas dezenas de milhar de visitantes (o número de participantes em 2018 foi cerca de 70 mil), vá lá, uns cento e tantos mil, que por cá apareçam para ver o show de várias luminárias, incluindo o extra-programa do presidente Marcelo a agitar-se no palco, gastem umas dezenas de milhões de euros, vá lá uns cento e tantos milhões, justificando assim os 11 milhões que o governo paga com o nosso dinheiro ao Paddy. Quanto aos intangíveis, que por serem intangíveis nunca ninguém os vai tanger, esses, como já aqui escrevi são insultos à inteligência.

Outro dos intangíveis atribuído à realização da Websummit pela coligação do jornalismo de causas com os opinion dealers foi transformar Lisboa numa Tech City e fazê-la constar do respectivo ranking, colocando a capital dos alfacinhas no topo do mundo, a exemplo das resmas de portugueses (sobretudo alfacinhas) já no topo do mundo.

Infelizmente para o complexo de inferioridade nacional, a Savills que promove esse ranking não ligou às aspirações da coligação e borrifou-se para Lisboa e não a incluiu nas 30 cidades mais tecnológicas, apesar da lista incluir, ó afronta das afrontas, Bangalore e a Cidade do Cabo.

16/02/2019

Separados à nascença. A pesada herança do comunismo 30 anos depois

Com a derrota da Alemanha em 1945, a União Soviética ocupou e controlou directamente a parte Oriental e manteve o controlo desde então e até a reunificação em 1990, através do Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED), da chamada República Democrática Alemã (RDA) - assim foi baptizado o Estado comunista totalitário na zona oriental da Alemanha.

Enquanto no lado oriental a RDA definhava sob a bota soviética, no lado ocidental a RFA prosperava sob um sistema capitalista de inspiração cogestionária. Um dos componentes da receita alemã para o sucesso económico foram e são ainda hoje as suas PME industriais (o Mittelstand) muitas delas empresas familiares, focadas numa gama de produtos, inovadoras e dispondo de mão de obra especializada. O economista alemão Hermann Simon chamou a essas empresas versteckte Champions (campeões ocultos), em contraponto às empresas de grande dimensão (os campeões nacionais).

The Economist

No mapa acima está assinalada a densidade de localização desses hidden champions e a fronteira que separou a Alemanha capitalista e a Alemanha comunista mostra, três décadas depois da reunificação, dois mundos radicalmente diferentes.

15/02/2019

Títulos inspirados (84) - «X paga quase n% dos gastos d@s Y privad@s»

Apesar dos esforços do Dr. Costa e do doutor Centeno, o primeiro para reduzir o Portugal dos Pequeninos ao Estado Sucial e o segundo para virar a página do segundo e continuar a austeridade por outros meios, temos de admitir que o seu sucesso ainda não é completo.

Um dia chegará (não esquecer que a Constituição estipula que estamos a «caminho para uma sociedade socialista»), em que o Estado Sucial será auto-suficiente e consumirá apenas o que produz. Até chegar esse dia dos amanhãs que cantam, o Estado do Dr. Costa ainda tem de adquirir bens e serviços àquela parte residual minguante do País a que chamam «privados».

Infelizmente, o Estado do Dr. Costa vê-se obrigado a ser membro da União Europeia para que o dinheiro dos contribuintes dos países capitalistas europeus possa ajudar a continuar o caminho para uma sociedade socialista. Isso tem uma consequência indesejada que é continuar a tolerar os «privados». Mas sempre sob protesto.

Protesto a que a imprensa socialista e os jornalistas de causas nela residentes dão eco com títulos apropriados como este do semanário de reverência:

«ADSE paga quase 25% dos gastos dos hospitais privados»

Que mil títulos floresçam nesta bendita imprensa obedecendo ao mesmo modelo conceptual que poderemos generalizar sob a seguinte fórmula:

«X paga quase n% dos gastos d@s Y privad@s»


Onde X pode ser «Estado» ou o «Organismo XPTO» e Y pode ser hospitais, farmácias, farmacêuticas petrolíferas, fabricantes de automóveis, sociedades de advogados, consultores, empresas de segurança, etc. (ver o CAE).

Longa Vida ao Dr. Costa para continuar o caminho para uma sociedade socialista, ao seu ajudante doutor Centeno, aos seus compagnons de route Jerónimo e Catarina pela preciosa ajuda e ao professor Marcelo pelos seus incontornáveis selfies.

14/02/2019

Encalhados numa ruga do contínuo espaço-tempo (86) - O spinoff do Berloque de Esquerda

Passadas duas décadas da primeira fusão de maoistas da UDP, com trotskistas do PSR/LCI e um sortido de comunistas arrependidos do PCP e do MDP (o PCP com outro nome) agremiados sob a sigla Política XXI e vários outros tresmalhados, a que se seguiram OPAs sobre pequenas agremiações como a Ruptura/FER (trotskista) e parcerias para explorar certos segmentos de mercados em crescimento com os LGBTQQIAAP ou os 71 géneros do Facebook do Reino Unido, com os ambientalistas e, mais recentemente, com uma espécie de black power serôdio e postiço, o Berloque de Esquerda retomou a tradição histórica das correntes que o constituíram - a dissensão e cisão como forma de vida.

Desta vez foi a cisão de 25 verdadeiros trotskistas que denunciam numa carta à Mesa (será uma carta aberta?) o «taticismo de decisões, o jogo da comunicação na sua forma burguesa, a ausência de qualquer ativismo local inserido numa estratégia de construção do partido, a progressiva ausência de pensamento crítico», etc. (um grande etc.). A coisa parece até uma zanga de família dos manos Isabel Maria e João Carlos Louçã com o mano Chico, o mais bem sucedido da família que com os seus cargos oficiais de conselheiro de Estado e do Banco de Portugal ascendeu ao estatuto de múmia do regime.

Como de costume, a cisão é um autêntico spinoff  com os 25 verdadeiros trotskistas a anunciaram urbi et orbi «começamos de novo quando ainda está tudo por fazer». A todos desejamos boa sorte.

13/02/2019

CASE STUDY: É preciso ser muito saudável para resistir a tanta doença (12.º capítulo)

Outras doenças a que resistimos heroicamente.

«As portuguesas estão exaustas» titula o semanário de reverência para citar o estudo “As mulheres em Portugal, hoje” encomendado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. As portuguesas?

Quantas são as mulheres portuguesas exaustas? Todas? Muitas? Só algumas? Segundo o semanário «uma em cada dez portuguesas admite tomar medicamentos para a ansiedade, para os distúrbios do sono ou antidepressivos.» Serão estes 10% de portuguesas as portuguesas exaustas? E as outras que não tomam o Xanax estarão exaustas?

O estudo foi baseado num inquérito através da Internet que abrangeu 2.428 mulheres com idades entre os 18 e os 64 anos, o que desde logo exclui do universo do inquérito a maioria das mulheres portuguesas, exaustas ou não exaustas, que não têm acesso à Internet. Por exemplo, teriam as «senhoras cá de casa» sido inquiridas? Se tivessem sido, não tomando o Xanax teriam sido consideradas no grupo das exaustas?

Apesar de tanta exaustão, «quase metade (47%) das mulheres afirma-se feliz. Aquelas que se sentem mais felizes são: “as proprietárias de algum negócio ou empresa, as trabalhadoras independentes qualificadas”− apenas 14% − e as chefes de departamento, diretoras ou membros de um conselho de administração”, refere o estudo». Se a quase metade das mulheres mais felizes são as citadas, as quais representam na sociedade portuguesa uma percentagem ínfima das mulheres, qual a validade deste estudo para se medir a exaustão ou qualquer outro indicador sobre as mulheres portuguesas?

E os homens? Quanto teremos um estudo sobre a exaustão dos homens? Na verdade não é preciso. Devem estar em risco de burnout, apesar de só 23% se ocuparem das tarefas domésticas.

Deve ser por isso que a produtividade, que é uma miséria em termos relativos, ainda diminui com tanta exaustão e burnout.

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Os porcos são todos iguais mas há uns mais iguais do que outros

«Hoje em dia, as pessoas bem formadas têm os sentidos muito apurados para variadíssimas formas de discriminação. Os adeptos mais fervorosos do feminismo vigiam cadernos de actividades para meninos e meninas. Os combatentes mais empenhados contra o racismo histórico vigiam estátuas opressoras. Os activistas mais radicalizados do grupo LGBTQQIA+ vigiam o uso de pronomes. Os apoiantes mais apaixonados dos direitos dos animais vigiam provérbios com referências a bicharada.

Confesso que, embora sendo contra o machismo, contra o racismo, contra a homofobia e contra os maus-tratos a animais, o meu palato não consegue destrinçar certas subtilezas discriminatórias. Ele consegue, contudo, captar um outro tipo de discriminação, à qual sou bastante sensível, certamente por ter nascido no interior de Portugal e continuar a cultivar lastimáveis hábitos de matarruano: o classismo, ou classicismo (os dicionários admitem as duas formulações), que pode ser definido como a discriminação baseada na classe social.

Tristemente, já foi uma discriminação popular, mas está desvalorizada nos dias que correm. É uma pena, porque eu vejo manifestações dela todos os dias – incluindo por parte das mesmas pessoas que sendo muito sensíveis ao machismo, ao racismo, à homofobia ou aos direitos dos animais, são muito pouco sensíveis às mais variadas aparições de classismo, com certeza por estar nelas tão entranhado (reparem como estou maldosamente a usar o argumento favorito de todas as minorias envolvidas em lutas pela justiça social) que nem se apercebem quando o praticam.

As algemas com que Armando Vara se apresentou em tribunal na semana passada são um bom exemplo do que estou a falar. Muita gente manifestou-se contra aquelas imagens, considerando-as uma humilhação desnecessária. E alguns nem sequer nutrem qualquer simpatia em relação a Vara – acham simplesmente que aquilo não se faz. É aqui que o meu nariz anticlassista começa a sinalizar o cheiro a esturro. Nós já vimos dezenas, centenas de imagens de gente algemada a chegar a um tribunal – porque é que só nos indignamos com Armando Vara? Não é ele um cidadão como qualquer outro?»

Excerto de «As algemas de Armando Vara», João Miguel Tavares no Público

12/02/2019

CASE STUDY: Trumpologia (43) - É uma espécie de #metoo e uma homenagem ao Donaldo

Mais trumpologia.

Ainda estão abertas as inscrições?  (Diário de Notícias)

CASE STUDY: É preciso ser muito saudável para resistir a tanta doença (11.º capítulo)

Outras doenças a que resistimos heroicamente.

Além de «um terço da população sofre de ansiedade ou depressão» e de «um em cada três trabalhadores está em risco de 'burnout'», temos ainda 3.900.000.000  que, segundo o semanário de reverência, «reportaram ter pelo menos uma doença crónica das citadas nesta lista: hipertensão arterial, enfarte agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral, disritmia cardíaca, diabetes, insuficiência renal crónica, cirrose, hepatite crónica, asma, doença pulmonar obstrutiva crónica, dor crónica, osteoporose, artrite reumatoide, artrose, cancro, depressão, ansiedade crónica, úlcera gástrica ou duodenal, colesterol elevado e alergia.»

Da lista confirmo que sofro pelo menos de alergia crónica ao sucialismo e ao jornalismo de causas. Ou talvez seja uma intolerância, porque a reacção ao bacilos de um e de outro não depende do sistema imunitário.

11/02/2019

Se o comunismo é o contrário do capitalismo, o feminismo é o contrário do machismo?


Foi o título, parecido com muitos outros, que o Guardian escolheu para informar que nos Grammys deste ano as artistas do sexo género feminino ganharam 31 prémios, contra 17 o ano passado, e que o hip-hop foi o género musical mais celebrado.

Sendo o capitalismo a exploração do homem pelo homem e o comunismo o seu contrário, se o machismo é o culto da dominação de um sexo género pelo outro, o seu contrário será o feminismo? E, já agora, se o triunfo do hip-hop é a celebração da diversidade, o triunfo do country seria a celebração da homogeneidade?

E, se não for abusar das perguntas, a diversidade também ganharia se a socialite Michelle Obama fosse trocada pela socialite Melania Trump?

Crónica da avaria que a geringonça está a infligir ao País (174)

Outras avarias da geringonça e do país.

Não faço ideia do que Costa pretenderá com a construção em curso do futuro ministro Pedro Nuno Santos - sim esse, o que faria tremer as perninhas dos banqueiros alemães, se por acaso estes soubessem da existência dele. Pode querer emprestar um brinquedo à criatura para a manter entretida ou pode ser uma cedência ao pedronunismo visando apaziguar o berloquismo interno.

Não duvidando dos seus dotes para a manobra e a finta. pode dar-se o caso, como aqueles jogadores muito habilidosos, que se finte a si próprio e perca a bola. O episódio das vacas que eram gordas e voavam e três anos agora são magras e estão a despenhar-se poderia ser um começo. Infelizmente, neste caso particular, não há nenhum adversário para apanhar a bola por ele hipoteticamente perdida.

O Costa que mandou a ASAE (a ASAE?) espiolhar o crowdfunding para financiar as greves dos enfermeiros e mandou os seus adjuntos começar a preparar a proibição do seu uso pelos sindicatos, é o mesmo Costa que financiou com pouco sucesso a sua campanha para a câmara de Lisboa pelo crowdfunding que agora quer proibir. Por falar de adjuntos, Costa rodeia-se de gente que compete entre si para produzir factos alternativos como o “pleno emprego” para os investigadores doutorados ou o fim próximo dos veículos diesel.

10/02/2019

Um Rio cada vez mais parecido com um socialista (3)

Outras parecenças: (1), (2)

Já se sabia que Rui Rio é uma espécie de socialista tresmalhado e que a sua escolha de lugares-tenentes como Barreiras Duarte, Elina Fraga, Salvador Malheiro, etc., aproxima aquilo a que chama ética da ética republicana do Homo Socialisticus vulgaris.

Há contudo algumas diferenças. O socialista autêntico, do alto da sua superioridade moral, faz a coisa com maior desplante e sem vergonha e nem é preciso apontar o exemplo de José Sócrates, basta o de figuras menores como Carlos César e os casos triviais de empregos para a família.

No caso do lugar-tenente Salvador Malheiro, os episódios ridículos de andar a fugir aos jornalistas para esconder o uso do carro de luxo da câmara de Ovar ao serviço do Dr. Rio nunca seriam possíveis com um socialista autêntico que se passearia com grande arrogância dentro da berlina, borrifando-se para os jornalistas que ou, a bem, relevariam a coisa de motu proprio ou, a mal, a máquina de manipulação socialista limparia a folha do visado - quem se mete com o PS leva, como postulou em devido tempo o grande estradista Coelho.

Por isso, inspirado pelo cartaz a pedir sugestões, apresento a minha: ó Dr. Rio, peça ao Dr. Costa para o PS fazer uma OPA ao seu zingarelho porque é mais o que os une do que o que os divide.

09/02/2019

SERVIÇO PÚBLICO: Os novos idiotas úteis

«Uma peça da Renascença era clara: a presidente da associação de moradores do bairro Jamaica, Dirce Noronha, afirmou que a esmagadora maioria dos habitantes do bairro não é contra a polícia, que a polícia não é racista e que as pessoas dali não estavam interessadas em manifestações antipolítica marcadas pela SOS Racismo e quejandos. Mas claro que os ‘media’ seguiram Mamadou Ba e o SOS Racismo nas tais manifs. Resultado? Uma manif à porta da Câmara do Seixal contou apenas com três pessoas do Jamaica. Havia mais jornalistas do que pessoas do Jamaica – para mim, é o facto central das últimas semanas, porque mostra a existência de uma instrumentalização partidária e mediática deste problema que é contrária à sensibilidade e aos interesses das pessoas reais destes bairros.

... o que é a SOS Racismo: um mero apêndice do BE mascarado de ONG independente. Portanto, os jornalistas têm de decidir: continuam a seguir o pronto-a-pensar do BE ou ouvem pessoas como a Dirce?...

... a voz da SOS Racismo não é a voz da verdade sobre este tema; a SOS Racismo é apenas uma marquise ideológica do BE, e deve ser tratada como tal.»

Querem a realidade da Dirce ou o fanatismo da SOS Racismo?, Henrique Raposo no Expresso

A expressão «idiotas úteis» designava os jornalistas, artistas e intelectuais que faziam a propaganda do comunismo e da União Soviética, sendo desprezados pelos comunistas a quem serviam.

08/02/2019

ACREDITE SE QUISER: De como o fassismo promoveu a igualdade de "géneros", ainda que no fassismo não houvesse "géneros"


«As mulheres da PIDE também torturavam como os homens

A anterior biografia que fez de um pide foi criticada pelo PCP. A historiadora Irene Flunser Pimentel lança novo livro e insiste em dar a conhecer os que à ordem de Salazar violentaram milhares de presos políticos.» (DN)

07/02/2019

Pro memoria (388) – As vacas do Costa eram gordas e voavam. Três anos depois são magras e estão a despenhar-se


O Costa que fazia voar as vacas gordas em 19 de Maio de 2016:

«Deve haver problemas impossíveis. Tenho tido a sorte de nunca ter encontrado nenhum. (...) Tínhamos vários impossíveis para resolver, desde a empresa na hora ao cartão do cidadão, ao lançamento de todo o projecto Simplex. Um deles dava sempre, como exemplo de coisas impossíveis, vacas com asas. Um belo dia, no aeroporto de Londres, encontrei uma vaca com asas. Pendurada no tecto, voava e tudo. Permitiu-me demonstrar-lhes como até as vacas podem voar!, e não só nos discos dos Pink Floyd.»




O Costa das vacas magras em 6 de Fevereiro de 2019 durante o debate quinzenal, a propósito das reivindicações dos enfermeiros:

«A ideia de que tudo é possível já e ao mesmo tempo é altamente perniciosa e põe em causa a irreversibilidade dos passos que já demos. Não podemos entrar na lógica do agora ou nunca. O país não tem condições.»

ESTADO DE SÍTIO: Com uma tropa destas nem precisamos de inimigos



O militar ouvido pela comissão parlamentar de inquérito aos roubos de Tancos que RAP ridiculariza neste seu programa é o Coronel de Infantaria David Teixeira Correia que foi Comandante da Unidade de Apoio da Brigada de Reacção Rápida, unidade responsável por garantir a segurança dos paióis de Tancos.

É difícil imaginar que um oficial superior do Exército se humilhe até ao ponto em que este o fez, mostrando passividade, incompetência e negligência tão extremas que já seriam inadmissíveis num sargento lateiro. São as forças armadas de um Estado Sucial gordo, ocupado por corporações e capturado por elites extractivas, incapazes e corruptas, que o sugam e tornam incapaz de assegurar as suas funções essenciais.

06/02/2019

Porque não fiquei surpreendido, ainda outra vez? (5)

Alguém acredita que Kim alienará a sua nomenclatura político-militar subtraindo-lhe o armamento nuclear? Perguntei-me aqui, aqui e aqui. A resposta de Kim chegou mais uma vez:

North Korea trying to keep its nuclear missiles safe from US strikes, says UN report 

Measures said to include using civilian facilities to make and test missiles

Trump acreditou nas balelas de Kim, dirão os seus detractores. Não importa se acreditou, porque Trump concentra-se nos meios e não nos fins. Os meios são para ele os fins e resumem-se em manter a sua clientela eleitoral - os deplorables de Hillary Clinton - mobilizada contra o que Hillary Clinton representa, ou o que os deplorables acham que ela representa.

05/02/2019

DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (73) - Avec moi le déluge, aprés moi le désert

Outras preces

«Na verdade, com as suas selfies, afectos e telefonemas para programas de televisão, Marcelo reduziu o papel do Presidente da República ao de um simples mestre-de-cerimónias. E, neste enquadramento, o facto de considerar ser o que está em melhores condições para receber o Papa é razão mais do que suficiente para se recandidatar à Presidência.

Mas, se falarmos das funções que constitucionalmente competem ao Presidente da República, parece claro que o seu exercício por Marcelo tem sido muito deficiente. Nem uma única vez durante o seu mandato remeteu ao Tribunal Constitucional um diploma para fiscalização da constitucionalidade, apesar de ser essa uma competência que a Constituição expressamente lhe atribui (art.o 134.o, als. g) e h)). Inúmeras leis que suscitam sérias dúvidas de constitucionalidade têm sido assim prontamente promulgadas, o que deixa os cidadãos desprotegidos, uma vez que através da fiscalização sucessiva pelos tribunais se leva vários anos a atingir o Tribunal Constitucional. Só que, em vez de exercer a fiscalização da constitucionalidade, como lhe competia, Marcelo limita-se a fazer piedosas declarações ou ameaças veladas aquando da promulgação, as quais não têm qualquer eficácia jurídica.

Um dos exemplos mais absurdos desta prática presidencial foi a promulgação da lei das 35 horas na função pública, que Marcelo promulgou em Junho de 2016, ameaçando mandá-la para o Tribunal Constitucional se houvesse aumento de despesa. Embora o aumento da despesa possa ter sido travado com as cativações de Mário Centeno, o resultado dessa lei foi o colapso total dos serviços públicos, inclusivamente no Serviço Nacional de Saúde, como hoje está à vista de todos. Mas a tal promessa de Marcelo de envio do diploma para o Tribunal Constitucional continua por cumprir há dois anos e meio.

Como compensação pela sua abstenção de exercer a fiscalização da constitucionalidade, Marcelo opta por vezes pelo veto político. Mas fá-lo sem qualquer critério, uma vez que, perante a sua torrente geral de afectos, não se consegue perceber qual é de facto o pensamento político do Presidente. É assim que Marcelo reconhece que as alterações à lei do arrendamento “podem provocar um [ainda] maior constrangimento no mercado do arrendamento para habitação”, mas não hesita em promulgá-las. Reconhece também que se pode traduzir em “injustiças mais ou menos significativas” sancionar senhorios por assédio em multas que não têm qualquer relação com a renda que eles recebem, mas também promulga esse diploma sem qualquer problema. Em compensação, Marcelo veta politicamente um diploma que reconhece o interesse público de uma Escola Superior de Terapêuticas Não Convencionais, como se uma escola superior ter ou não interesse público seja uma questão que justifique qualquer intervenção do Presidente.»

Excerto de O esvaziamento da Presidência, Luís Menezes Leitão no Jornal i

Poderá ter sido Luís XV a dizer à sua amante Madame de Pompadour depois da derrota de frente às tropas de Frederico II em 1757, ou poderá ter sido outra qualquer criatura em outra qualquer ocasião, mas a expressão «après moi le déluge» não se aplica definitivamente a Marcelo Rebelo de Sousa e à sua performance mediática. Em vez disso. vejo mais Marcelo a dizer à sua «eterna namorada» avec moi le déluge, aprés moi le désert.

ACREDITE SE QUISER: Caixa, «um porto seguro para as poupanças dos portugueses»

Relatório de 2016 onde a dupla Macedo e Vilar também se regozija com a recapitalização
de 4,4 mil milhões de euros, «a maior já levada a cabo em Portugal»

Via Insurgente
Quando Macedo e  Vilar escrevem «um porto seguro para as poupanças dos portugueses» podem não estar a fazer ironia. Num certo sentido, a Caixa é um porto para as poupanças dos portugueses que lá estão acostadas. E o porto é seguro em dois sentidos: (1) é seguro que o dinheiro dos sujeitos passivos que lá acoste nunca de lá sairá e (2) é seguro que aos responsáveis por esse dinheiro lá ter acostado nada lhes acontecerá.

04/02/2019

Crónica da avaria que a geringonça está a infligir ao País (173)

Outras avarias da geringonça e do país.

Se tivesse de fazer a escolha difícil do melhor título entre os muitos que a boa imprensa oferece ao governo de Costa, a semana passada teria escolhido «Governo abriu 53 mercados fora da UE e exporta cerca de 200 produtos». Parece uma das piadas que fazemos aqui nesta crónica, como por exemplo: a economia cresceu pelas milagrosas acções do governo que mandou turistas para cá e produziu bens e serviços que exportou para lá; agora, a economia arrefece por causa da conjuntura internacional.

Que a Caixa continua a ser uma das putains de la République ficou uma vez mais confirmadíssimo com os episódios à volta da auditoria da EY cujo relatório a administração dessa putain pediu para expurgar de «informação ao abrigo do sigilo bancário». Isto num país com um governo que obriga os bancos a comunicar ao fisco todas as contas de valor superior a 50 mil euros, que nomeou presidente da Caixa um vice-presidente de Santos Ferreira, em cujo mandato a putain emprestou a fundo perdido aos empresários do regime com vários propósitos, incluindo o de comprar acções do BCP para onde transitou Santos Ferreira acolitado por Armando Vara. Uma Caixa cuja administração nomeou para auditar os actos das anteriores administrações (a que pertenceu o actual presidente) a sociedade de advogados Vieira de Almeida que, por feliz coincidência, teve como clientes vários dos beneficiários da prodigalidade da putain, incluindo Manuel Fino, um dos implicados no assalto ao BCP com dinheiro emprestado pela mesma putain. [O caso do empréstimo de 231 mil euros a taxa zero por um prazo que ultrapassa a esperança de vida da filha de Vara é um episódio digno do tipo Lava Jato]

03/02/2019

ARTIGO DEFUNTO: Como se afagam as meninges do público em ano de eleições

A manipulação da opinião pública pela opinião publicada travestida de jornalismo é uma constante do semanário de reverência (e, é claro, de outras centrais do jornalismo de causas). Veja-se esta subtileza que descrevo a seguir.

Na página 11 do caderno de Economia do Expresso há um artigo onde se pode ler que para o governo renacionalizar os CTT - o novo desígnio da esquerdalhada - não é necessária autorização da Comissão Europeia, desde que se faça a preços de mercado, neste caso às cotações de bolsa. E há um outro artigo onde se acrescenta que nunca até agora houve uma renacionalização na União Europeia.

Na primeira página do caderno de Economia do Expresso há uma chamada para esses artigos na página 11. São concebíveis vários títulos para essa chamada, por exemplo: a renacionalização dos CTT não precisa de autorização de Bruxelas ou até agora na houve renacionalizações na União Europeia. O título escolhido foi: «Bruxelas não impede regresso dos CTT ao Estado», implicitando subliminarmente que o governo já teria consultado Bruxelas e obtido luz verde.

A par da manipulação subliminar, o semanário de reverência brinda-nos com as menos subtis promoções de ministros e secretários de Estado exaltando a sua obra com fotos de grande formato. Esta semana tivemos direito à promoção do secretário de Estado Adjunto e da Mobilidade, a propósito da redução dos passes sociais, e à do secretário de Estado da Internacionalização sob um título mirabolante indiciando uma perigosa deriva megalómana «Queremos liderar o carro eléctrico a nível mundial».

COMO VÃO DESCALÇAR A BOTA? (22) - P'ra a mentira ser segura...

Outras botas para descalçar

Cada vez mais encurralado pela realidade, o governo socialista refugia-se na fantasia prosseguindo a criação de factos alternativos. O exemplo recente mais notório ainda é o Programa Nacional de Investimentos 2030 que atira para um futuro longínquo investimentos que a falta evidente de poupança nacional e a ausência óbvia de investimento estrangeiro produtivo tornam uma lista de delírios para iludir eleitores distraídos e carentes de boas notícias em ano de eleições.

É necessário, como o poeta Aleixo notou, «p'ra a mentira ser segura / e atingir profundidade, / tem de trazer à mistura  / qualquer coisa de verdade», por isso o governo vê-se obrigado a mostrar algo de palpável e realizável a curto prazo. Foi o que fez com o anúncio de 104 milhões de euros (três quartos dos quais destinados à área metropolitana de Lisboa) para deitar em cima das empresas de transportes colectivos urbanos para permitir reduzir os passes sociais, redução que, segundo o «secretário de Estado Adjunto e da Mobilidade» (como se sabe, quanto mais elaborado é o título do posto menos conteúdo tem), irá trazer mais 100 mil pessoas por ano para os transportes públicos, mais 63 milhões de viagens e menos 72 mil toneladas de dióxido de carbono.

Trata-se de mais um exercício de planeamento milagroso. Qualquer criatura atenta perceberá as pessoas e as famílias com menores rendimentos já hoje privilegiam o transporte público e têm um passe social. Porque haveriam as outras de abandonar os popós por passes sociais a custarem por mês menos meia dúzia de euros? 

Devido à conjugação de vários factores: generalização do transporte partilhado, novos operadores privados (Uber e outros), uso de bicicletas, teletrabalho, entre outros, o transporte público está em declínio em todas as grandes cidades europeias e americanas e não se vê porque haveria de ser diferente nas cidades portuguesas. 

Tomemos nota na agenda para memória futura.

02/02/2019

Finalmente, os comunistas estão plenamente integrados na democracia à portuguesa... (a confirmação)

Em retrospectiva: aos marxistas-leninistas-trotskistas-maoistas do BE com o caso Robles seguiram-se os estalinistas do PCP a demonstrarem a plena integração na democracia à portuguesa com o caso do genro do secretário-geral a quem foram adjudicados directamente contratos totalizando mais de 150 mil euros para mudar lâmpadas e arrancar cartazes por uma câmara cujo presidente foi o líder durante doze anos do grupo parlamentar do partido do genro do contratado.


Para o caso de haver dúvidas quanto à plena integração dos comunistas, o Observador desenterrou «uma rede vermelha de adjudicações entre empresas ligadas ao Partido Comunista Português e municípios controlados pelo partido. Vinte e três autarquias e seis outras entidades públicas lideradas pela CDU adjudicaram, desde 2009, contratos de mais de 2 milhões de euros a cinco empresas geridas por militantes do PCP. »

01/02/2019

CASE STUDY: Democracias defeituosas (2)

Segundo a avaliação da Economist Intelligence Unit, a democracia lusitana do Dr. Costa ficou um poucochinho mais defeituosa do que em 2016: o índice total  baixou de 7,86 para 7,84, influenciado principalmente pelos índices de participação política (caiu de 6,67 para 6,11) e liberdades (caiu de 9,41 para 9,12), apesar da melhoria do índice de funcionamento do governo (subiu de 6,79 para 7,50). Com um poucochinho de esforço ainda alcançamos a nossa ex-colónia de Cabo Verde.
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Democracy Index 2018 (The Economist Intelligence Unit)
«Democracias com falhas (Flawed democracies): estes países também têm eleições livres e justas e, mesmo que existam problemas (como a violação da liberdade de imprensa), as liberdades civis básicas são respeitadas. Contudo, existem fraquezas significativas noutros aspectos da democracia, incluindo problemas de governação, cultura política subdesenvolvida e baixos níveis de participação política.»