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10/01/2013

CASE STUDY: As propostas do FMI ou de como os portugueses lidam muito mal com a realidade, adoram o consenso e repudiam as mudanças (2)

[Continuação daqui]

Gostava de escrever o que vou escrever de uma maneira diferente, porque tenho Carlos Moedas em boa conta como profissional e académico competente, pelo menos à distância, mas não seria a mesma coisa. Quero dizer: poderia não se perceber bem devido às subtilezas da língua portuguesa.

Colocar Carlos Moedas no papel de porta-voz do governo numa conferência de imprensa, transmitida online pelas televisões e retransmitida em todos os telejornais, a respeito de um relatório do FMI que recomenda obrigar os portugueses a viver de acordo com as suas posses (e as suas dívidas), e fazê-lo com o ar de um jovem e brilhante analista financeiro (*) que está a falar de yields da dívida portuguesa e de spreads dos Credit Default Swaps (CDS), é comparável a colocar João Alberto Jardim a fazer uma apresentação em PowerPoint sobre as minúcias técnicas fiscais do offshore da Madeira.

É uma coisa tão estúpida que só pode ter 3 explicações: (1) queimar e desacreditar Carlos Moedas; (2) fazê-lo vítima sacrificial da cobardia do governo; (3) é uma coisa mesmo estúpida.

É grave? É capaz de ser. Porque para começar serviu aos pandeiretas para as habituais manobras de diversão que os portugueses adoram, e alimentou as indignações que o Expresso aqui coligiu com zelo e devoção.

É claro que isto nada tem a ver com o que vai acontecer e só não sabemos ainda quando e como. Porém, torna tudo ainda mais difícil e dá mais pasto à conversa da treta sobre a "infraestrutura" que condiciona a "superestrutura".

(*) Só mesmo um totó nestas andanças que não faz a mínima ideia do que e como pensa o portuga diria naquele contexto que se trata de «um relatório muito bem feito», como se estivesse a falar para os alunos do mestrado de finanças da Católica. Se não sabem como fazer, contratem o Mário Soares para eles vos ensinar, com o know-how de 1984, como se comunica aos supliciados os suplícios a que irão ser submetidos.

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