Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

15/01/2013

De boas intenções está o inferno cheio (13) – Sobretudo se for um inferno a carvão

Desde Kyoto, ou mesmo antes, a União Europeia tem-se apresentado a si própria como a campeã do ambiente por oposição a uns Estados Unidos que nem o tratado assinaram. Como quase tudo na vida, as aparências iludem e os vários infernos estão repletos de boas intenções.

A realidade é que com o gás de xisto os EU reduziram drasticamente a utilização de carvão para produzir energia e, em consequência, as emissões reduziram também radicalmente. Ao mesmo tempo, os excedentes de carvão fizeram o preço descer mais de 1/3 num ano e começaram a ser exportados. Imaginem para onde?

Adivinharam. Para a Europa. E porquê? Porque vários países europeus, nomeadamente a Alemanha, depois de Fukushima desistiram da energia nuclear e as novas necessidades de energia não podem ser completamente preenchidas com energias renováveis que dependem da disponibilidade do sol ou de vento. Como o abastecimento de gás depende de contratos assinados a preços que resultaram do cartel russo em que os alemães e outros embarcaram para garantir fornecimentos a longo prazo, o seu preço é muitíssimo mais alto do que o gás americano. Recorde-se, a propósito, que o ex-chanceler socialista Gerhard Schroeder, a duas semanas de sair do governo, assinou o acordo com os russos para construir o gasoduto da Nord Stream AG, empresa da qual foi mais tarde nomeado presidente.

Pressionadas por custos de produção crescentes, em parte resultantes dos preços das energias renováveis, as empresas de energia, começaram a recorrer crescentemente ao carvão. Por exemplo a RWE, de quem se falou poderia comprar a EDP, gera actualmente ¾ da energia com base no carvão. E que carvão? Cada vez mais carvão americano.

Em conclusão, o gás americano expulsou o carvão americano e as energias renováveis europeias expulsaram o gás russo e estão a substituí-lo pelo carvão americano. Um dos resultados é menos poluição do outro lado do Atlântico e mais poluição deste lado.

[Para mais detalhes ver «Europe’s dirty secret – The unwelcome renaissance»]

2 comentários:

Maria disse...

Muito interessante e esclarecedor.

RioD'oiro disse...

O seu artigo é razoável mas atenção que por nenhum prisma é razoável falar-se do CO2 como poluição. Sem co2 não há plantas, sem plantas não há oxigénio livre e sem ele não há vida.