Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
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18/09/2026

The far-right Haredi religious group is an internal threat to Israel, just as the Persian Shiites are an external threat

1) Israel’s success was built on education and high‑tech

  • After independence, Israel invested heavily in research universities and scientific talent.
  • This produced a world‑leading high‑tech sector, responsible for half of exports and extraordinary levels of R&D investment.
  • But only 20% of the workforce—those in high‑tech, medicine, and academia—generate 93% of income tax.

2) A deep productivity divide

  • High‑tech workers produce 22% above the OECD average.
  • The rest of the economy—where 90% of Israelis work—lags 24% below the OECD average.
  • Half the workforce is too poor to pay income tax.

3) The education crisis

  • Israel ranks near the bottom of the OECD in PISA math, science, and reading.
  • Half of Israeli children receive a core education below levels seen in many developing countries.
  • The fastest‑growing groups are the least educated, especially the Haredim.

4) The Haredi demographic surge

  • Haredi boys receive almost no secular education; from age 13 they study only Torah.
  • Fertility rate: ~7 children per woman, compared with ~2 in other groups.
  • Their share of the population doubles every 25 years.
  • In 2023, they were 6% of 50–54‑year‑olds but 26% of children under five.

5) Municipal collapse as a warning

  • Cities like Jerusalem and Arad show rapid socioeconomic decline as educated residents leave and Haredi populations expand.
  • Secular students in Jerusalem fell from one‑third to 9% over 35 years.

_________________

Source: "Israel’s neglected threat from within" by Dan Ben-David , president of the Shoresh Institution for Socioeconomic Research and emeritus professor of economics at Tel Aviv University.

13/09/2026

CASE STUDY: O Estado liberal dinamarquês é uma boa solução para os dinamarqueses

Pedro Santa Clara, uma mente liberal na academia portuguesa - uma espécie não protegida mais rara do que o lince da Serra da Malcata num ambiente hostil -, publicou há dias no jornal Eco o artigo «Muito mais liberais do que nós», onde descreve com compreensível admiração o sistema político dos países nórdicos, em especial o dinamarquês. 

Cito, a seguir, uma curta amostra da sua argumentação e remeto para a leitura integral do artigo. 

«A Dinamarca não tem salário mínimo legal. O despedimento faz-se por carta, com aviso prévio, sem tribunal. A maioria dos funcionários públicos tem um contrato igual ao do sector privado. A idade da reforma sobe automaticamente com a esperança de vida desde 2006 e o parlamento votou em maio de 2025 fixá-la em 70 anos para quem nasceu depois de 1970. Dois terços da despesa pública são decididos e executados pelos municípios e não pelo governo central. O IVA é de 25% sobre tudo, sem taxa reduzida para o restaurante nem para a eletricidade. O orçamento teve um excedente de 2,9% do PIB em 2025 e a dívida pública é de 28% do PIB. A Suécia aboliu o imposto sucessório em 2004 e o imposto sobre a fortuna em 2007, e desde 1992 paga a escola que os pais escolherem, pública ou privada, com fins lucrativos ou sem eles. (...)

O consumo final das administrações públicas, que é a medida do que o Estado produz diretamente em escolas, hospitais, tribunais e polícias, é de 26,5% do PIB na Suécia e 23% na Dinamarca. Em Portugal é 16,9%. Em contrapartida, Portugal gasta 13% do PIB em pensões, contra 8 a 9% na Dinamarca e 7 a 8% na Suécia, e passou uma década a pagar juros que os nórdicos não tinham. O Estado nórdico é uma máquina de produzir serviços de qualidade. O Estado português é uma máquina de transferir dinheiro de uns bolsos para outros, com uma comissão elevada pelo caminho.»

Subscreveria sem dificuldade a demonstração de Pedro Santa Clara da superioridade do modelo nórdico para oferecer aos cidadãos uma sociedade livre e próspera. Só não subscrevo a conclusão implícita de que esse modelo é viável num Portugal dos Pequeninos, e não subscrevo por considerar qualquer característica atávica dos portugueses, mas porque os portugueses são eles e a sua circunstância, como notou Ortega y Gasset em relação ao eu.

A circunstância dos portugueses são séculos de história que caldearam uma cultura colectivista e avessa ao risco, como constatou o modelo 6-D de Geert Hofstede (recorrentemente citado neste blogue) e destilaram elites medíocres, como o próprio Pedro Santa Clara implicitamente reconhece num outro artigo (A oferta de estadistas), em que descreve o sistema político português e constata a sua incapacidade para gerar líderes que escapem ao estigma da mediocridade. 

Sendo assim, perguntarão, como é que se chega lá? E eu respondo, não sei se, e não sei como. Não está escrito em parte alguma que todas as nações tenham de ser sempre livres e prósperas e o que não faltam são exemplos de Estados mais ou menos falhados entre os cerca de 200 existentes. Não sei como se chega e suspeito que não se chega com recurso ao pensamento milagroso, por exemplo.  

30/08/2026

Os equívocos do Programa "Mais Habitação", ou como tentar administrar uma medicação sem saber qual é a doença (15)

Continuação de (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10), (11), (12), (13), (14)

Segundo o presidente do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) terá financiado 31 mil casas até ao fim de Agosto.

mais liberdade

À primeira vista, parece um grande feito. À segunda vista, nem por isso. Desde logo, porque o PRR durou 5 anos e o contributo do maior programa de sempre que inundou o país com 22 mil milhões de euros (16,3 mil milhões de euros em subvenções e 5,6 mil milhões de euros de empréstimos) foi de pouco mais de 6 mil habitações por ano, o equivalente a menos de 40% da média anual de novas habitações na primeira década deste século. Depois, porque só metade das 31 mil habitações são novas, as restantes são reabilitação ou transformação de edifícios de serviços e industriais.

Se considerássemos o contributo do PRR para mitigar a carência de habitação uma notável realização em Portugal, como classificaríamos a realização de Auckland, a maior cidade da Nova Zelândia (menos de metade da população portuguesa) que cresceu de 1,3 milhões para 1,8 milhões em 2025 (cerca do triplo da população da cidade de Lisboa e mais de metade da população da área metropolitana de Lisboa) que há 10 anos enfrentava uma crise habitacional ? Talvez como um milagre.

O milagre consistiu em várias medidas, nomeadamente duas: foram fundidos oito órgãos locais e a cidade, entalada entre dois portos, começou a crescer em altura. Os resultados foram mais 100 mil habitações e uma queda de 25% dos preços

29/08/2026

Pro memoria (150) - In war, truth is the first casualty. There is currently a war in West Bank

 «Few, if any, security forces are as ruthlessly effective as Israel’s. Its military and intelligence services strike against enemies even at extreme distances. In the past couple of years alone Israel has assassinated dozens of opponents inside Iran, plus proxy militia leaders in Lebanon and Yemen. Israel’s martial capabilities earn respect even from its bitterest enemies.

Yet this superiority seems to count for little closer to home. Those same forces are responsible for a dire failure in the occupied West Bank, where violent Israeli settlers have been attacking Palestinian residents with increasing brutality. Settlers want to force Palestinians from their land and claim it for themselves.

Israel’s failure in the West Bank can hardly be put down to a lack of resources. The Israel Defence Forces (IDF) deploy 25 combat battalions there. Shin Bet, the powerful security agency, has networks of agents and informers throughout. But these are used mostly to protect the 500,000 or so Israeli settlers, and against the threat of terrorist attacks, not to assist the more than 3m Palestinians who live in the territory. This has largely been the case since Israel replaced Jordan as occupier of the West Bank in 1967.

What has changed is the behaviour of many “outlaw” settlers. Never before have they acted as violently as today. Crucially, never before have they enjoyed the impunity the current government gives them. Since the Hamas attack in October 2023, which triggered the war in Gaza, over 1,100 Palestinians have been killed in the West Bank. Only rarely does the IDF intervene against settlers. In Qusra, for example, an entire battalion was recently deployed against those who were invading Palestinian homes. But the soldiers found themselves fruitlessly chasing youngsters over the hills. Troops from another unit joined the settlers in prayers. No arrests were made.

The ineffectual response can be explained by the stance of Israel’s government. The IDF knows that Binyamin Netanyahu, the prime minister, sides squarely with the most extreme settlers. It appears that the IDF was dispatched to Qusra only after American diplomatic pressure which arose because an American citizen owns a home there.»

Israel is flirting with the next intifada

28/08/2026

Pro memoria (149) - In war, truth is the first casualty. There is currently no famine in Gaza

«Almost exactly a year ago to the day, my colleagues and I uncovered in The Free Press that a dozen of the most viral images presented as evidence of famine in Gaza in fact showed children with unrelated medical issues, including cystic fibrosis and autoimmune conditions.

The investigation earned me death threats, calls for me to be tried at The Hague, and jabs by a high-profile comedian on national TV—despite the fact that we’ve had to issue exactly zero corrections on our story. That wasn’t the case for three of the news organizations that had run the images, which either updated or corrected their work because of what we reported.

Our point was simply to tell readers that if there was a famine in Gaza, photographs of these children were not evidence of it.

What is indisputable today is that there is currently no famine in Gaza. That is the major finding from a UNICEF-led team that recently produced the most comprehensive and robust nutrition survey of Gaza since the war began. It found that, less than a year after a famine was declared in Gaza, the territory has one of the lowest malnutrition rates in the region. A recovery that swift is not just “miraculous,” in the words of a malnutrition researcher I spoke with—it raises questions in and of itself. Questions like: How can a war-torn territory go from famine to showing some of the lowest rates of child malnutrition in the region in less than a year?»

Olivia Reingold, The Free Press

22/08/2026

O mundo não é perfeito e não vai ser possível recolocar a pasta dentro da bisnaga

mais liberdade

A globalização reduziu a pobreza dos países pobres, foi sentida como uma ameaça e exacerbou o nativismo e o populismo das classes médias dos países ricos, a quem trampolineiros prometem recolocar a pasta dentro da bisnaga.

14/08/2026

SERVIÇO PÚBLICO: Startups no Portugal dos Pequeninos

Número de startups

Número de unicórnios

Com uma população de 11,4 milhões de habitantes, cerca de 1,54% dos 743 milhões da população total da Europa, Portugal tem 995 startups, uma percentagem de cerca de 2% das startups da Europa, e quatro unicórnios (startups com valor superior a USD mil milhões). 

O valor do ecosistema português (o valor total económico criado pelo ecosistema nos últimos 20 anos), cresceu 7,2% nos 12 meses terminados em Abril e é estimado em USD 32,5 mil milhões e no ranking global situa-se no 15.º lugar na Europa (entre a Áustria e Chipre) e no 31.º mundial.

Ranking mundial de Portugal por sector de actividade

A posição no ranking mundial por sector de actividade mostra que, sem surpresa, as startups portuguesas estão melhor colocadas nos sectores menos sofisticados tecnologicamente, com destaque para o comércio electrónico e o retalho que representam 10% do total de startups e tem um unicórnio. 

Em conclusão, o Portugal dos Pequeninos, estando longe dos delírios de grandeza do governo e dos sonhadores como o Eng. Moedas, não está mal posicionado neste domínio, talvez um pouco melhor do que no resto. 

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Fonte: Startup Blink 

31/07/2026

TIROU-ME AS PALAVRAS DE BOCA: O Portugal dos Pequeninos é «um Estado corporativista, com traços claros de capitalismo de compadrio» (andamos a dizer isso aqui há 23 anos e noutros sítios há mais tempo)

Portugal está preso num sistema de compadrio, com justiça lenta, reguladores capturados e um Estado que falha aos cidadãos, é, «em larga medida, um Estado corporativista, com traços claros de capitalismo de compadrio», onde a proximidade entre poder político e grandes grupos económicos continua a condicionar a concorrência, a produtividade e o crescimento económico.

James A. Robinson, Prémio Nobel da Economia em 2024, co-autor com Daron Acemoglu de «Porque Falham as Nações».

23/07/2026

TIROU-ME AS PALAVRAS DE BOCA: O Portugal dos Pequeninos e o neoliberalismo que é afinal a economia de compadrio

«Há uma fraude intelectual no centro do debate político português, e é esta: a ideia de que Portugal é, ou alguma vez foi, uma economia liberal entregue à selva dos mercados. Sempre que algo corre mal — os salários baixos, a emigração, a habitação, a pobreza — a culpa é atribuída ao “neoliberalismo”, ao “mercado”, ao “capitalismo selvagem”. É uma mentira, e das mais consequentes que contamos a nós próprios, porque o diagnóstico errado garante o tratamento errado. O doente não morre de excesso de liberdade. Morre da sua ausência. (...)

No capitalismo de mercado, enriquece-se servindo melhor o cliente do que o concorrente. Ninguém está protegido, o consumidor é o árbitro e a falência é a sanção sagrada que liberta o capital mal empregue para quem o emprega melhor.

Na economia de compadrio é tudo ao contrário: O Estado escolhe os vencedores, os subsídios vão para os amigos, as normas são escritas para matar os pequenos e blindar os grandes já instalados e o lucro não vem do cliente, vem do lobbying. Deixa de se ganhar criando valor e passa a ganhar-se comprando um favor.»

Excerto de O Estado-empresário: Cinco séculos a fazer o mesmo, Pedro Santa Clara

17/07/2026

Mitos (355) - O contrário do dogma do aquecimento global (XXXIV) - O Paradoxo de Crutzen e a Lei de Morton

Outros posts desta série

Em retrospectiva, que o debate sobre o aquecimento global, principalmente sobre o papel da intervenção humana, é muito mais um debate ideológico do que um debate científico é algo cada vez mais claro. Que nesse debate as posições tendam a extremar-se entre os defensores do aquecimento global como obra humana – normalmente gente de esquerda – e os outros – normalmente gente de direita – existindo muito pouco espaço para dúvida, ou seja, para uma abordagem científica, é apenas uma consequência da deslocação da discussão do campo científico, onde predomina a racionalidade, para o campo ideológico e inevitavelmente político, onde predomina a crença.

Nós aqui fazemos o possível para não ficar entalados entre o ruído da histeria climática que, levada às suas últimas consequências, conclui que o homo sapiens sapiens tem de ser erradicado para salvar o planeta, e o ruído das teorias da conspiração que consideram que o único problema sério com o ambiente é a histeria climática.

Negar os factos do progressivo aquecimento global exige cada vez mais uma fé quase religiosa (ver, por exemplo, os gráficos do post anterior desta série), fé que tem vindo a ser substituída pela fé contrária nos efeitos miraculosos das medidas defendidas pelo áctivismo ambiental, apesar dos avisos de há vinte anos do Prémio Nobel da Química Paul Crutzen que no seu ensaio «Albedo enhancements by stratospheric sulfur injections: a contribution to resolve a policy dilemma?» chamava a atenção para o paradoxo do ar limpo em que a redução da poluição atmosférica poderia aumentar o aquecimento global por via da redução do albedo (capacidade de reflexão da radiação solar pela superfície terrestre).

Pois bem, parece que é isso que está a acontecer: a redução dos poluentes atmosféricos, como o dióxido de enxofre (SO₂) e a fuligem, que, por um lado, reduzem a chuva ácida que mata milhões de pessoas anualmente e, por outro, têm o efeito de reflectir a luz solar e, assim, reduzir o aquecimento global.

Voltarei a este assunto e, entretanto, alinhavo, por agora, duas conclusões não sobre o clima, mas sobre a mente humana. A primeira, é que estamos, mais uma vez, perante um exemplo da Lei das «consequências imprevistas da acção social intencional» enunciada por Robert K. Merton em 1936.  A segunda é que estamos perante outro exemplo da difícil convivência do mundo real em geral, e da ciência em particular, com cérebros ideológicos (Leor Zmigrod, "The Ideological Brain") saturados com doses maciças de convicções inabaláveis alimentadas nas últimas décadas pelas redes sociais e há séculos pelo jornalismo de causas. E acrescento uma previsão: os que têm negado o aquecimento global vão passar a atribuir o inexistente aquecimento global às medidas para o mitigar. 

02/07/2026

Continuamos muito "competivos", como dizia o Dr. Costa, e pouco competitivos

Continuação daqui e dali.

No último ranking de Competitividade do IMD, o Portugal dos Pequeninos volta a cair, desta vez para o 40.º lugar.


A queda resulta sobretudo de um score medíocre da eficiência empresarial, o que não deveria ser surpresa para ninguém que tenha um módico de conhecimento da estrutura empresarial e do funcionamento das empresas. 


À ineficiência empresarial não é alheio o facto de, num país com 11,4 milhões de residentes, existirem 1,5 milhões de empresas não financeiras, das quais 96% são microempresas (em muitos casos, meros expedientes de profissionais isolados para diminuir a punção fiscal), 3,9% são PME e os 0,1% residuais são as grandes empresas que representam 36,4% do VAB total. É isto que temos, empresas pequeninas num país pequenino, com mentes pequeninas e egos inchados, sofrendo do complexo de Eduardo Lourenço.

14/06/2026

Lost in translation (375) - Greve geral significa uma greve parcial dos funcionários públicos (II)

Continuação de Lost in translation (374).

BdP

Quem tenha consultado a lista de 66 páginas com 990 entidades afectadas pela greve, publicada pela CGTP, spin-off do Partido Comunista para as greves dos funcionários públicos, já teria concluído que impacto da greve geral foi ridiculamente insignificante e não terá razões para ficar surpreendido com a divulgação pelo BdP do Indicador diário da atividade económica (DEI) do Banco de Portugal dessa semana, de onde se conclui que ocorreu uma redução da actividade económica ao redor dos 5%.

07/06/2026

Por que razão a direita não se une?

A pergunta é o título deste artigo de André Abrantes Amaral (AAA) e poderia ser, mas não é, uma pergunta retórica. A resposta de AAA situa-se no domínio da política portuguesa e não vou comentá-la porque o que me interessa é a questão mais geral, para concluir, uma vez mais, como aqui, por exemplo, o que toda a gente sabe ou deveria saber, mas é quase sempre esquecido ou desconsiderado.

Political Compass

Não há uma direita, há várias direitas, e entre essas direitas, em certos casos, há mais diferenças (por vezes inconciliáveis) do que entre algumas esquerdas e algumas direitas. É o que o próprio AAA reconhece quando conclui que «parte da direita que hoje é maioritária no parlamento defende uma maior intervenção do estado na economia, é socialista em termos económicos».

04/06/2026

Lost in translation (374) - Greve geral significa uma greve parcial dos funcionários públicos


Ontem, tivemos mais outra greve dita geral envolvendo pouco mais do que os ocupantes da vaca marsupial pública, alguns dos quais também se manifestaram contra o que chamaram pacote laboral, pacote cuja putativa adopção não teria quaisquer efeitos relevantes sobre esses ocupantes com empregos vitalícios protegidos do stress da concorrência. A esmagadora maioria das "vítimas" do pacote, os trabalhadores do sector privado, dos quais só em cada quinze está sindicalizado, continuaram a trabalhar nas empresas ou em teletrabalho suportando o desconforto da escassez de transportes públicos paralisados pelos ocupantes das referida vaca e a indisponibilidade dos serviços públicos nomeadamente das escolas e dos hospitais públicos.

O impacto da greve geral foi tão ridiculamente insignificante que a CGTP, spin-off do Partido Comunista para as greves dos funcionários públicos, publicou no seu site uma lista de 66 páginas com 990 entidades afectadas pela greve, a saber:
  • 24 Empresas privadas com "produção parada" do milhão e meio de Micro e PME que existem em Portugal;
  • 215 organismos públicos encerrados dos cerca de 4.200 organismos públicos existentes;  
  • 15 organismos públicos com serviços mínimos;
  • A restante miscelânia de entidades, com taxas de adesão à greve de 45% a 100%, dos quais quase todas são organismos públicos, entre eles:
    • Cerca de 200 organismos ligados a câmaras municipais;
    • Cerca de 270 escolas e creches;
  • Com dificuldade, lá se conseguem encontrar algumas micro e PME, lista que inclui alguns  departamentos de empresas privadas (por exemplo a loja de Eiras da Auchan, um posto de abastecimento da BP, Lidl de Alcochete e de Tondela, o Posto logístico da Sonae na Azambuja e outra miudezas). 
A única novidade nas manifs com layout e slogans do século XIX, onde se viam cartazes a reclamar "pão" e a protestar porque o "custo de vida aumenta", foi a sua parasitagem por áctivistas (provavelmente os mesmos áctivistas das mudanças climáticas) que usaram a violência e provocaram a resposta, por vezes violenta, da polícia.

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Alteração do entrada do Glossário das Impertinências:

Greve geral (sindicalês)

Uma greve de muitos empregados do Estado, devidamente protegidos das agruras do mundo real, cujos "direitos" não são afectados, e de alguns trabalhadores de empresas privadas; greve convocada quando o governo não é de esquerda, por sindicatos que representam menos de um sexto dos trabalhadores, que reclamam ter mobilizado a maioria dos trabalhadores, greve geralmente com impacto limitado que é convocada para a véspera de um feriado, sexta-feira ou segunda-feira, acompanhada de manifs com cartazes do século XIX e parasitada por áctivistas violentos.

30/05/2026

Dúvidas (368) - Um bicho que se parece com um pato, nada como um pato e grasna como um pato, pode ser um ornitorrinco? (2)

Ceci n'est pas un canard
Outras dúvidas sobre o bicho: (1)

Já confessei o meu espanto por se poder concluir que Viktor Orbán é um democrata e a Hungria sob a sua batuta era uma democracia plena, que as acções erráticas de Donald Trump escondem uma estratégia coerente e que a defesa da redução da idade da reforma pelo Dr. Ventura é uma estratégia sofisticadíssima para atrapalhar o PSD.

Acrescento a esse espanto outro, não menos intrigante. Como é possível que luminárias da comentadoria doméstica se indignem justamente com a corrupção que grassa em partidos moderados e, ao mesmo tempo, mais do que fazerem vista grossa, silenciem, limpem a folha ou mesmo exaltem a administração Trump, provavelmente a governação mais corrupta do mundo ocidental desde os Founding Fathers?

Como explicar que pessoas inteligentes e cultas conseguem imaginar que um bicho que se parece com um pato, nada como um pato, grasna como um pato, acasala com patas, não é um pato, é um mamífero que põe ovos? Do ponto de vista da psicologia evolucionista, a melhor explicação que encontrei foi a de Leor Zmigrod no seu The Ideological Brain; e, do ponto de vista da ciência política, a melhor referência que encontro é o que baptizámos neste blogue como doutrina Somoza, que pode ser resumida como «He may be a son of a bitch, but he's our son of a bitch», juízo (ou piada?) atribuído a Franklin D. Roosevelt.

22/05/2026

CASE STUDY: A IN sai mais barata do que a IA

«Em Fevereiro, a Cortical Labs, uma startup australiana, anunciou que um programador havia ensinado um de seus "computadores biológicos" - feito de 200.000 células cerebrais humanas montadas em um chip de silício - a jogar "Doom", um clássico jogo de tiro em primeira pessoa. A empresa já havia ensinado um grupo de neurónios a jogar o muito mais simples "Pong". No entanto, suas ambições são muito maiores do que os videogames. Espera que os neurónios, embalados em "computadores biológicos" supereficientes e encaixados em racks em data centers convencionais, um dia ocupem seu lugar ao lado dos chips de silício carregados de transistores que definiram a computação convencional nos últimos meio século.

No coração do sistema de Cortic está uma matriz de milhares de pequenos electrodos, sobre os quais estão os neurónios criados a partir de células-tronco retiradas de um doador humano. A matriz permite que um computador convencional capte a actividade elétrica gerada por esses neurónios e os estimule com actividade eléctrica própria. Os neurónios são mantidos vivos até seis meses por tubos e bombas que fornecem oxigênio e nutrientes, e removem resíduos celulares como o dióxido de carbono. Tudo está embalado em uma caixa projetada para caber nos racks padrão de servidores usados em data centers comerciais.

Os neurónios oferecem várias vantagens em relação à electrónica na computação, diz Hon Weng Chong, chefe da Cortical. Eficiência é uma delas. Modelos modernos de inteligência artificial consomem energia em milhões de watts. Esse consumo de energia tornou-se uma das maiores barreiras ao crescimento do sector. Os neurónios, por outro lado, consomem pouca energia: um cérebro humano típico, composto por quase 90 bilhões deles, consome cerca de 20 watts.

Sofisticação é outra. Os transistores de que são construídos os computadores são pequenos interruptores que podem estar em dois estados: ligado ou desligado. Os neurónios são mais complexos. O comportamento deles depende de vários factores, incluindo a voltagem através da membrana celular e de quanto tempo não recebem sinais de outros neurónios. Arquitecturas de computadores existentes também armazenam informações em locais distantes do processamento real. A Micron, grande fabricante de chips de memória, estima que até metade do orçamento energético de um processador de IA convencional é gasto para transferir dados. Também causa engarrafamentos, pois os dados são trocados de um lado para o outro. Cérebros misturam dados e processamento lado a lado, minimizando tais questões logísticas.»

Why a startup is teaching human brain cells to play “Doom”

10/05/2026

Dúvida (367) - Um bicho que se parece com um pato, nada como um pato e grasna como um pato, pode ser um ornitorrinco?

Ceci n'est pas un canard
Distraidamente, não comentei as reacções à derrota eleitoral do Fidesz de pessoas geralmente tidas como conservadoras que se reclamam democratas (alguns até se dizem liberais), concluindo que essa derrota demonstraria que, afinal, Viktor Orbán era um democrata e a Hungria uma democracia plena.
 
Nunca pensei que a Hungria governada pelo Fidesz já fosse uma ditadura - era mais uma democracia avariada. Porém, isso não era por causa de Viktor Orbán e do Fidesz; era, apesar deles, que tudo fizeram para se perpetuarem no poder, como aqui se exemplificou, e disso extraírem vantagens.

Concluir que Viktor Orbán era um democrata e a Hungria uma democracia plena é parecido com concluir que as acções erráticas de Donald Trump escondem uma estratégia coerente que escapa aos não iniciados ou, para dar um exemplo doméstico, é parecido com concluir que a defesa da redução da idade da reforma pelo Dr. Ventura não é um oportunismo irrealista de um demagogo e antes resulta de uma estratégia sofisticadíssima para encostar ao PSD à parede promovendo as ideias do PS e assim chegar à maioria. 

Como explicar que pessoas inteligentes e cultas conseguem imaginar que um bicho que se parece com um pato, nada como um pato, grasna como um pato, acasala com patas, não é um pato, é um mamífero que põe ovos? Não me ocorre explicação melhor do que a de Leor Zmigrod no seu The Ideological Brain.

17/04/2026

PUBLIC SERVICE: Facts and Opinions

«In public discourse, we spend a great deal of collective energy debating the accuracy of facts. We fact-check politicians, monitor social media for misinformation, and prioritise data-driven decision-making in our workplaces. This focus is vital; the distinction between truth and falsehood is the bedrock of a functioning society.

However, by focusing so intently on factual accuracy, we risk overlooking another fundamental distinction: the difference between a fact and an opinion.

A statement of fact is relatively easy to verify: it is either true or not. But a claim’s objectivity – is it a verifiable objective statement or a subjective expression of belief? – is far more complex. This is why our minds process and encode opinions in a fundamentally different way to facts.

The stakes of objectivity

Objectivity is not a mere linguistic nuance; it lies at the foundation of important policy and legal debates. For instance, in defamation lawsuits against US media figures like Tucker Carlson and Sidney Powell, legal defences have hinged on whether statements could “reasonably be interpreted as facts” or were merely “opinions.” Similarly, social media platforms have struggled with whether to fact-check posts labelled as opinions, a policy that has recently complicated efforts to combat climate change denialism.

The distinction matters because it frames how we disagree. When a claim is clearly an opinion – for instance, “the current administration is failing the working class” – one may agree or disagree, but we understand that there is room for disagreement and neither side is inherently right nor wrong.

However, a factual statement – “The official US poverty rate was 10.6% in 2024” – leaves little room for debate. It necessitates the existence of a source, and an objectively correct response.

As a result, beliefs about claim objectivity can stifle receptiveness to conflicting perspectives. This, in turn, fuels interpersonal conflict and drives political polarisation.

05/04/2026

DIÁRIO DE BORDO: A democracia não tem proprietários

Não fora a circunstância improvável de, muitos anos atrás, me ter cruzado com o Dr. Jorge Miranda, que então me pareceu um convicto democrata e uma pessoa decente, não teria o incómodo de comentar a sua entrevista ao Sofá do Parlamento, da qual li um resumo no Observador.

Nessa entrevista, o Dr. Jorge Miranda parte de alguns factos indesmentíveis, como o Chega defender (ou ter defendido, porque o Dr. Ventura ainda está na fase de desenhar o seu produto) a castração química ou a prisão perpétua, a que poderia ter acrescentado várias opiniões fundamentadas (que não referiu e eu acrescento) como, por exemplo, o ideário do Chega (por princípio) e do Dr. Ventura (por conveniência) ser em muitos aspectos indistinguível de uma espécie de socialismo estatista de direita, ou os comportamentos de um número significativo dos seus membros serem mais censuráveis, segundo os seus declarados princípios, do que os comportamentos tão veementemente censurados nos outros partidos.

Desses factos e dessas opiniões, estas mais subjacentes do que expressas, o Dr. Jorge Miranda extraiu, porém, conclusões e consequências, a meu ver inaceitáveis, que comprometem as suas convicções democráticas. Ao não reconhecer ao Chega o direito de designar juízes para o Tribunal Constitucional e pretender limitar a sua participação numa revisão da Constituição, limites que ele, aliás, não define, parecendo deixar a definição aos Pais de Constituição, o Dr. Jorge Miranda retira aos 1,4 milhões de eleitores do Chega o direito de se deixarem alinear pela demagogia e hipnotizar por um tribuno de opereta, o que, mesmo estas se escolhas não abonem o discernimento desses eleitores, é incompatível com os princípios de uma democracia liberal que esperava serem por ele partilhados.

19/03/2026

Bons exemplos (144) - Leitura recomendada aos membros actuais e futuros dos governos do Portugal dos Pequeninos

Não desconhecendo a diferença entre intenções e realizações e acreditando que sem boas intenções não há boas realizações (as opiniões dividem-se a este respeito), recomendaria aos membros dos governos actuais e futuros a leitura integral da mensagem aos funcionários da administração pública inglesa (que lá, não por acaso, se chama Civil Service) de Antonia Romeo, recentemente nomeada Secretária do Gabinete e Chefe do Serviço Civil, mensagem da qual à guisa de teaser extraio alguns trechos.

«The Civil Service has deep skills and expertise, but we need to continue to modernise and innovate. I have spent much of the past five years talking to civil servants across the country about what they want from the Civil Service. What you have told me is that you want to change the things that get in the way of you doing your jobs. You want us to be more productive, to do things differently. You want to be proud of what you achieve. Civil Service modernisation needs to embrace your ideas and have innovation at its core.

I have given my career to public service because I care passionately about the country and the importance of democracy. No one will be a stronger advocate of the Civil Service than I am. I will stand up strongly for the Civil Service and I will work with you all to maintain and build trust in our institution. In 25 years I have seen civil servants respond to huge challenges with creativity, resilience, and determination. I know what we can achieve together.

Finally, my commitment to you as your Cabinet Secretary is to provide the energy, direction and support you need to excel. I will always take pride in what we do. You do some of the hardest jobs in the country - and you do them because they are hard, not in spite of them being hard.

That is the heart of public service. Every single person in the country, every day, depends on our work. That should be a matter of pride for us all, and something we should all carry with us.»