Continuação de (1)
Passe a publicidade (por uma boa causa), o novo livro de Nuno Palma «O Vício dos Fundos Europeus», mais «Uma obra de demolição de alguns dos mitos mais populares no Portugal dos Pequeninos», já poderá ser encomendado aqui.Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)
05/06/2026
22/05/2026
CASE STUDY: A IN sai mais barata do que a IA
No coração do sistema de Cortic está uma matriz de milhares de pequenos electrodos, sobre os quais estão os neurónios criados a partir de células-tronco retiradas de um doador humano. A matriz permite que um computador convencional capte a actividade elétrica gerada por esses neurónios e os estimule com actividade eléctrica própria. Os neurónios são mantidos vivos até seis meses por tubos e bombas que fornecem oxigênio e nutrientes, e removem resíduos celulares como o dióxido de carbono. Tudo está embalado em uma caixa projetada para caber nos racks padrão de servidores usados em data centers comerciais.
Os neurónios oferecem várias vantagens em relação à electrónica na computação, diz Hon Weng Chong, chefe da Cortical. Eficiência é uma delas. Modelos modernos de inteligência artificial consomem energia em milhões de watts. Esse consumo de energia tornou-se uma das maiores barreiras ao crescimento do sector. Os neurónios, por outro lado, consomem pouca energia: um cérebro humano típico, composto por quase 90 bilhões deles, consome cerca de 20 watts.
Sofisticação é outra. Os transistores de que são construídos os computadores são pequenos interruptores que podem estar em dois estados: ligado ou desligado. Os neurónios são mais complexos. O comportamento deles depende de vários factores, incluindo a voltagem através da membrana celular e de quanto tempo não recebem sinais de outros neurónios. Arquitecturas de computadores existentes também armazenam informações em locais distantes do processamento real. A Micron, grande fabricante de chips de memória, estima que até metade do orçamento energético de um processador de IA convencional é gasto para transferir dados. Também causa engarrafamentos, pois os dados são trocados de um lado para o outro. Cérebros misturam dados e processamento lado a lado, minimizando tais questões logísticas.»
13/05/2026
SERVIÇO PÚBLICO: Desfazendo o mito do efeito milagroso dos fundos europeus
«... os fundos europeus, longe de promoverem convergência, funcionam como uma «pílula envenenada» para países receptores, incluindo Portugal. Estas transferências sustentam um Estado ineficiente, alimentam clientelismo político, e distorcem a alocação de recursos para sectores não-transacionáveis. Ao reduzirem a pressão para reformas estruturais, os fundos perpetuam a baixa produtividade e o atraso económico. Décadas de apoios não geraram convergência real com a Europa rica. Terminar com os fundos de coesão traria benefícios substanciais a longo prazo, tanto para os contribuintes líquidos como para os próprios beneficiários.»
Nuno Palma anunciando o seu novo livro: «O Vício dos Fundos Europeus», no Portugal no longo prazo, em mais «Uma obra de demolição de alguns dos mitos mais populares no Portugal dos Pequeninos»
17/04/2026
PUBLIC SERVICE: Facts and Opinions
«In public discourse, we spend a great deal of collective energy debating the accuracy of facts. We fact-check politicians, monitor social media for misinformation, and prioritise data-driven decision-making in our workplaces. This focus is vital; the distinction between truth and falsehood is the bedrock of a functioning society.
However, by focusing so intently on factual accuracy, we risk overlooking another fundamental distinction: the difference between a fact and an opinion.
A statement of fact is relatively easy to verify: it is either true or not. But a claim’s objectivity – is it a verifiable objective statement or a subjective expression of belief? – is far more complex. This is why our minds process and encode opinions in a fundamentally different way to facts.
The stakes of objectivity
Objectivity is not a mere linguistic nuance; it lies at the foundation of important policy and legal debates. For instance, in defamation lawsuits against US media figures like Tucker Carlson and Sidney Powell, legal defences have hinged on whether statements could “reasonably be interpreted as facts” or were merely “opinions.” Similarly, social media platforms have struggled with whether to fact-check posts labelled as opinions, a policy that has recently complicated efforts to combat climate change denialism.
The distinction matters because it frames how we disagree. When a claim is clearly an opinion – for instance, “the current administration is failing the working class” – one may agree or disagree, but we understand that there is room for disagreement and neither side is inherently right nor wrong.
However, a factual statement – “The official US poverty rate was 10.6% in 2024” – leaves little room for debate. It necessitates the existence of a source, and an objectively correct response.
As a result, beliefs about claim objectivity can stifle receptiveness to conflicting perspectives. This, in turn, fuels interpersonal conflict and drives political polarisation.
15/04/2026
JD Vance should suggest to D Trump that he read Thucydides' History of the Peloponnesian War, or, given DT's illiteracy problems, ask Marco Rubio for a summary
For some time now, I've been drawing parallels between the evolution of the United States under Trump and the decline and defeat of Athens, as recounted by Thucydides.
Since I read the History of the Peloponnesian War quite a while ago and my memory isn't what it used to be, I asked Gemini's AI to summarize the reasons for Athens' decline and defeat. Here's the summary.
«According to Thucydides, the primary reason for Athens' defeat was not a lack of resources or military skill, but internal political instability and the rise of demagogues following the death of Pericles.
In his analysis, Thucydides highlights a few critical factors:
Leadership Vacuum: After Pericles died, he was replaced by ambitious leaders (like Alcibiades) who were more interested in personal glory and power than the safety of the city.
Internal Factionalism: The Athenian citizens became divided. Constant infighting led to inconsistent decision-making, where the assembly would approve a plan one day and abandon it—or punish its generals—the next.
The Sicilian Expedition: Thucydides views this disastrous military campaign as the ultimate consequence of bad leadership. Athens overextended its reach due to hubris and greed, and the internal bickering at home meant the expedition wasn't properly supported, leading to the total loss of their fleet.
Essentially, Thucydides argues that Athens "destroyed itself" through domestic discord rather than being simply overcome by Spartan strength.»
04/02/2026
SERVIÇO PÚBLICO: Desfazendo equívocos em comentários ao post de ontem
PRIMEIRO COMENTÁRIO
As «Duas sugestões» têm subjacente a confusão sobre os conceitos relacionados com o tratamento dos riscos: mitigação, evitação, transferência e financiamento – ver “ A Risk Management Standard”. Neste caso, não podendo evitar-se, os riscos poderão ser mitigados (enterrar os cabos eléctricos, melhorar o sistema de drenagem de águas pluviais, limitar a construção nas linhas de água, poda e abate de árvores, etc.), poderão ser transferidos (para seguradoras que por sua vez as transferirão para os mercados internacionais de resseguro) ou financiados (ver abaixo o Consorcio de Compensación de Seguros espanhol).
Bibliografia (um exemplo entre dezenas, no que respeita à gestão de riscos a nível estatal, e entre milhares no que respeita à gestão de riscos empresariais): “Diretrizes de Gestão dos Riscos de Catástrofes” da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho.
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Em Espanha (e não, não é na Suíça) existe uma estrutura de resposta a catástrofes através do Sistema Nacional de Proteção Civil, que inclui planos específicos para vários riscos como sismos e tempestades.
A resposta é estruturada da seguinte forma:
- Plano Nacional de Redução do Risco de Desastres: Reforçado recentemente para antecipar ameaças derivadas das alterações climáticas e coordenar a resposta estatal.
- Planos de Riscos Especiais: Existem diretrizes nacionais específicas (Planos Especiais) para gerir riscos como sismos, inundações, maremotos e incêndios florestais.
- Hierarquia de Resposta:
- Territorial: As comunidades autónomas e municípios têm os seus próprios planos para emergências locais.
- Nacional: O Estado intervém quando a emergência é declarada de "interesse nacional", coordenando todos os recursos públicos.
- Unidade Militar de Emergências (UME): Uma força militar especializada criada especificamente para intervir rapidamente em catástrofes naturais graves em todo o território espanhol.
Em Portugal temos o peditório nacional e estamos há décadas a chutar a bola para a frente à espera criar uma solução semelhante limitada ao risco sísmico.
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«Nunca em Portugal Continental tinha havido ventos superiores a 150 km/hora.»
Segundo a página “Extremos climatológicos Portugal” do IPMA, em 13-10-2018 foi registada na Figueira da Foz uma rajada de vento de 176,4 km/h.
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SEGUNDO COMENTÁRIO
«O que interessa é sempre o valor da dívida em percentagem do PIB».
Na véspera do resgate pela troika em 2011, a dívida pública do Estado Português era cerca de 163 mil (equivalente a 208 milhões de euros a preços actuais) e 94,0% do PIB. Catorze anos depois, no final de 2025, a dívida pública era de 274 mil milhões (mais 66 mil milhões do que em 2011 a preços actuais) e 89,7% do PIB (menos 4,3 pontos percentuais), rácio que era o sexto mais elevado da UE, posição do ranking onde o crescimento da produtividade se deveria situar para garantir que continuaremos a comprar popós no futuro e podemos financiar um Fundo de Catástrofes e não apenas um Fundo Sísmico.
MORAL DA ESTÓRIA
Precisamos de persistência para resolver os problemas que têm solução, de paciência para conviver com os que não têm e inteligência para distinguir uns dos outros (Ditado chinês) .
Precisamos também de conhecimento para evitarmos o recurso aos palpites e bitaites, uma patologia que no Portugal dos Pequeninos infecta desde analfabetos até doutorados.
01/10/2025
CASE STUDY: O mercado português dos mídia é "moderadamente concentrado". E esta, hem?
O Índice Herfindahl–Hirschman (IHH) mede a competitividade pelo grau de concentração dentro de um mercado específico. Um HHI inferior a 1.500 é considerado um mercado competitivo, um HHI de 1.500 a 2.500 é moderadamente concentrado e um HHI de 2.500 ou mais é altamente concentrado. O mercado português dos mídias é, pois, classificado como moderadamente concentrado.
17/08/2025
Ponhamos as barbas de molho
| Fonte |
03/08/2025
CASE STUDY: The benefits of AI are greatly exaggerated, at least for now and in the context of the Economy
«In early February Openai, the world’s most famous artificial-intelligence firm, released Deep Research, which is “designed to perform in-depth, multi-step research”. With a few strokes of a keyboard, the tool can produce a paper on any topic in minutes. Many academics love it. (...)
Should you shell out $200 a month for Deep Research? (...) To help you decide, your columnist has kicked the tyres of the new model. How good a research assistant is Deep Research, for economists and others?
The obvious conclusions first. Deep Research is unable to conduct primary research, from organising polls in Peru to getting a feel for the body language of a chief executive whose company you might short. Nor can it brew a coffee, making it a poor substitute for a human assistant. Another complaint is that Deep Research’s output is almost always leaden prose, even if you ask it to be more lively. Then again, most people were never good writers anyway, so will hardly care if their ai assistant is a bit dull. (...)
When it comes to data questions requiring more creativity, however, the model struggles. (...) The model has even greater difficulty with more complex questions, including those involving the analysis of source data produced by statistical agencies. For such questions, human assistants retain an edge.
06/07/2025
The emergence of Homo interneticus
| Erasmo Amato |
In 2004 Michael H. Goldhaber published the essay "The mentality of Homo interneticus: Some Ongian postulates" (*) anticipating that the Internet would create a new type of human being, the Homo interneticus that would succeed Homo sapiens vulgaris. Due to the excessive use of the Internet, the Homo interneticus would have his mind altered by the constant dispute for his attention and would lose the notion of time and space.
Goldhaber's essay, from which I have extracted the following excerpt, proved to be prescient and sheds some light on the intense struggles between the tribes that follow the various most extreme and exacerbated ideologies that fill the internet space today.
«Without notable clues to a particular identity being provided by how one was raised, being cast in a sea of ten billion or so rough and directionless equals would be too much of a challenge. A floating spar — or several — must be found to cling to. H. interneticus tends towards community on the basis not of birth so much as of what feels like commonality — tasks and goals inspired by those who resonate with one — whether from some inner, possibly inchoate sense of being, a chance encounter, a shared bit of history, an aptitude that finds use, an almost arbitrary predilection or just a desire for meaning, connection or focus. These Internet communities are unshackled by space, unbounded by borders, though probably dominated by a rough version of the English language. Like any community, their enfoldings multiply through use and mutual familiarity, providing what remains of the dimension of time.
If the printed book first helped bind the world of European science and scholarship through the universal use of learned Latin [13], that language was comprehensible only to an elite — and male — few. As booksellers ought a wider market, they helped propel vernacular tongues into standardized, written and printed form. New feelings of nationality were thus brought into being, further aided by the desire for those literate in each "tongue" to have access to professions such as law and to government positions. So arose the drive for "national self–determination," meritocracy and even democracy.
Where stands H. interneticus when it comes to nationalism and electoral democracy? As an inevitable member of multiple global communities, on the whole she finds the pull of any particular nationality waning, especially insofar as nationalism implies loyalty to a particular government and its actions. If an Internet community happens to veer in some undesirable direction, it is easy to secede and start a new one with other dissidents, and in next to no time. By contrast electoral politics and representative democracy is achingly slow and unreliable, necessitating compromise and often leaving one agonizing in opposition for year upon year. H. interneticus has no sense of the future — no tolerance, that is, for waiting. Change should occur right now, instantaneously.
But what of the real, material world? Internet community formation might be an adequate substitute for representative democracy in the world of the Internet itself, but how can environmental issues, poverty, war, violent crime, terrorism, medical care, and on and on, be dealt with just by changing the subject? My guess is that to a first approximation the answer is that, for H. interneticus, cyberspace is most of the real world, and the rest is an appendage of it. If anything is to be done about global warming, for example, it will be through communities coalescing on the Internet and then taking a variety of actions ranging from developing alternative modes of transport (or dispensing with it in favor of heightened use of the net to replace travel and shipping alike) to direct action powerful enough that governments and corporations will have little choice but to acquiesce.
As Internet communities proliferate and interweave they will take on more and more of the functions now more or less the monopoly of government and business alike. It isn’t much of a stretch to visualize the Internet successes such as Google, e–Bay and Amazon gradually being replaced by open source distributed processing just as Napster was by Gnutella. From there it is not much of a further stretch to imagine the transformation of all kinds of organizations into distributed Internet versions.»
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(*) The term "Ongian" evokes Walter J. Ong, the American Jesuit priest and professor of English literature, who studied how the transition from orality to literacy influenced culture and changed human consciousness.
24/06/2025
Mitos (351) - O contrário do dogma do aquecimento global (XXXIII) - Pero que las hay, las hay
24/01/2025
Mar de Aral, possivelmente o maior desastre ecológico de sempre, não resultou das mudanças climáticas, resultou do absurdo da economia soviética
«Outrora um paraíso aquático espetacular no coração da Ásia Central, o Mar de Aral hoje é um duro lembrete do impacto devastador das políticas de irrigação inadequadas que levaram ao seu desaparecimento, agravado pelos efeitos exacerbados das mudanças climáticas em um dos ecossistemas mais cativantes do mundo. À medida que as águas recuavam, elas deixavam para trás planícies incrustadas de sal, um ambiente bastante inóspito onde pouco pode prosperar. (...)
Na década de 1960, a União Soviética começou a desviar os principais rios de entrada do Mar de Aral – o Amu Darya originário das Montanhas Pamir e o Syr Darya das cadeias de montanhas Tien Shan – para fins de irrigação, principalmente para o cultivo de algodão. Isso levou a consequências catastróficas, incluindo perda de biodiversidade, o deslocamento de comunidades dependentes da pesca e o surgimento de riscos à saúde devido à exposição de sedimentos tóxicos.
Tempestades de poeira e sal, alimentadas pelo leito marinho exposto, se espalharam pela região, afetando a qualidade do ar e a produtividade agrícola. A perda da influência moderadora do mar alterou os climas locais, levando a extremos de temperatura e interrupções nos padrões climáticos, como a intensificação da alta da Sibéria no inverno e o enfraquecimento da baixa quente da Ásia Central no verão.
Antes repleta de vida aquática diversa, incluindo espécies de peixes como a truta de Aral e o esturjão endêmico, a redução dos níveis de água devastou essas populações, interrompendo toda a cadeia alimentar aquática. Muitas espécies foram extintas ou estão à beira da extinção.
Mas além das espécies aquáticas, o Mar de Aral costumava ser um ponto de parada crucial para milhões de aves migratórias que viajavam pela rota migratória da Ásia Central. Essas aves, incluindo pelicanos, flamingos e várias espécies de aves aquáticas, dependiam dos pântanos do mar como áreas de reprodução e alimentação. No entanto, à medida que o mar encolheu, os habitats dos pântanos desapareceram, forçando as aves a alterar seus padrões de migração ou enfrentar sérios desafios para encontrar locais adequados de descanso e alimentação. (...)»
The Aral Sea Catastrophe: Understanding One of the Worst Ecological Calamities of the Last Century
05/01/2025
Mitos (347) - Da produção de graduados não nasce o desenvolvimento (4)
| mais liberdade |
Como mostra o World Talent Ranking, ao contrário da mitologia dominante na narrativa oficial, o Portugal dos Pequeninos (PdosP) não só é pouco atractivo para os profissionais qualificados como a pouca atractividade tem vindo a decair, por várias razões e nomeadamente porque há a noção da carga fiscal excessiva, da pouca atracção para estrangeiros qualificados e porque ainda faz o pleno ao afastar os quadros locais.
| Fonte |
O quadro fica completo se aos dados World Talent Ranking acrescentarmos os dados do Eurostat de 2023, compilados pelo CoLabor, que nos mostram o que é chamado sobrequalificação e, que com toda a probabilidade, é muito mais qualificação inadequada, ou seja, não se trata tanto de termos doutorados a fazerem de licenciados ou destes a fazerem de bacharéis, mas de licenciados ou bacharéis em ogias que acabam em caixas de supermercado. Repare-se com o tempo a percentagem de "sobrequalificados" vem aumentando em linha com a generalização da ideia da "geração mais qualificada de sempre", baseada na premissa de que quantos mais, melhor, seja lá do que for. Isso mesmo é confirmado pelo facto de a percentagem de sobrequalificados ser mais alta precisamente nos profissionais com menos de 34 anos (22,5%) em relação ao escalão seguinte (13,9%)
15/12/2024
Mitos (346) - Da produção de graduados não nasce o desenvolvimento (3)
Continuação dos posts Da produção de graduados não nasce o desenvolvimento (1) e (2).
Já depois de ter escrito o post As gerações "mais educadas de sempre" são das mais incompetentes da OCDE, lembrei de ter lido recentemente o artigo «Is India’s education system the root of its problems?» onde se compara o relativo sucesso das políticas educacionais da China com o relativo insucesso das políticas educacionais da Índia diferença que, entre outras causas, explica como partindo ambos os países em 1970 com um PIB per capita praticamente igual chegaram à actualidade com a China a ter um valor cinco vezes maior.
No início do século em ambos os países menos de 10% das crianças frequentavam a escola, a diferença é que a China a partir dos anos 50 deu prioridade a aumentar a escolaridade primária e secundária enquanto a Índia deu prioridade a criar universidades de nível elevado em vez de expandir o ensino primário. No início dos anos 80, mais de 90% das crianças chinesas frequentavam uma escola primária e menos de 2% frequentavam a universidade, contra 70% e 8% na Índia, respectivamente,
No final da década de 80 os níveis de iliteracia eram de 22% na China e de 60% na Índia e, no que respeita à universidade, a China tinha uma clara maioria de graduados em engenharia e tecnologia e a Índia em ciências sociais. Os resultados foram duas mãos-de-obra completamente diferentes: a chinesa preparada para uma migração da agricultura para a indústria progressivamente mais avançada e a indiana para os serviços e a burocracia.
Para nossa infelicidade, as políticas educacionais do Portugal dos Pequeninos estão mais próximas da indianas do que da chinesas, não pelos problemas de baixa escolaridade primária e secundária mas pela falta de qualidade do ensino nestes níveis. Tal como em Portugal, onde uma parte significativa dos graduados nas áreas de ciência e tecnologia têm de emigrar para ter emprego decente, na Índia dos 1,5 milhões estudantes de engenharia que se formarão este ano estima-se que apenas 10% consigam emprego no ano seguinte.
11/12/2024
CASE STUDY: Um exemplo de pseudociência ao serviço do áctivismo anti-rácista
É um facto há muito conhecido que nos EUA a mortalidade infantil (bebés com menos de um ano) dos bebés negros é dupla dos brancos. Em 2020 um estudo publicado nos Proceedings of the National Academy of Sciences, concluiu que quando os bebés negros eram assistidos por médicos negros a mortalidade infantil diminuía para metade, uma conclusão muito convenientemente alinhada com o zeitgeist da época, ao ponto da Association of American Medical College se referir ao estudo como prova de «para recém-nascidos negros de alto risco, ter um médico negro é equivalente a um medicamento milagroso».
Em Setembro, um outro estudo (Physician–patient racial concordance and newborn mortality) de George J. Borjas e Robert VerBruggen, igualmente publicado nos Proceedings, analisou os mesmos dados do estudo anterior, identificou erros metodológicos e conclui que o peso demasiado baixo no nascimento tinha uma influência decisiva porque os bebé com menos de 1,5 kg representavam metade da mortalidade infantil e quando se considerava o peso não foi encontrada diferença mensurável entre os partos assistidos por médicos negros ou brancos. Na verdade o que se passou foi que os partos prematuros de bebés com peso insuficiente eram sobretudo assistidos por médicos brancos.
A Economist citou ambos os estudos e comentou estas conclusões sublinhando que o propósito principal que deveria ser a prevenção dos partos prematuros foi ignorado no primeiro estudo, estranhando que a questão do peso dos bebés não tenha sido considerada nem abordada no processo de revisão e sugerindo que os investigadores, as instituições e os mídias têm em certos casos duplicidade de critérios e se preocupem mais com a conformidade ideológica com as teses do áctivismo anti-rácista do que com a ciência. That's it.
24/11/2024
Mitos (343) - O contrário do dogma do aquecimento global (XXXII) - Os limites ao crescimento em 1972, segundo o Clube de Roma
A COP29 realizou-se este ano no Azerbaijão, um país onde a produção de petróleo e gás representam metade do PIB cujo presidente de acredita, compreensivelmente, que «o petróleo e o gás são dons de Deus».
Mme Sandrine Dixson-Declève, que falou em representação do Clube de Roma, fez uma intervenção incendiária onde a par das teses catastrofistas habituais do áctivismo ambientalista fez também a habitual ligação estúpida entre a direita e os inimigos do ambiente - «quem vota à direita não acredita em alterações climáticas», assim transformando o problema das mudanças climáticas numa questão partidária, mais até do que política.
| Model Standard Run as shown in The Limits to Growth |
Se olharmos para as teses catastrofistas de Mme Dixson-Declève à luz das previsões catastrofistas do Clube de Roma no seu relatório de 1972 The Limits to Growth (pode ler aqui o texto integral nas suas mais de 200 páginas ou aqui um resumo de 13 páginas) que antevia o esgotamento de todos os principais recursos minerais nalgumas décadas seguida da fome generalizada, poderíamos concluir essas teses não tem qualquer credibilidade e que o Clube de Roma continua a contribuir para transformar uma questão científica numa questão ideológica, prestando um péssimo serviço à causa que se propõe defender.
26/10/2024
Portugal como destino atractivo para graduados internacionais (1)
Há dois meses a Economist publicou um estudo (*) muito interessante sobre a rejeição/atractividade dos graduados universitários em diversos países para se mudarem para outro país. O estudo foi baseado em dados de uma pesquisa anual a quase 200.000 pessoas de mais de 150 países e territórios realizada pela Gallup World Poll, em que é perguntado aos inquiridos (a Economist só considerou os que disseram ter concluído a graduação) se gostariam de se mudar permanentemente para um país estrangeiro e, se sim, qual.
No caso de Portugal o inquérito mostrou uma grande mudança de atractividade de 2010-12 para 2021-23. Neste segundo período se todos os graduados que gostariam de mudar para Portugal o tivessem feito a população graduada teria aumentado 140%.
O quadro acima foi construído com dados de uma década entre 2010-23 (excluindo os anos da pandemia) e mostra estimativas do número de graduados que cada país poderia ganhar e perder se a mudança fosse fácil. O resultado de Portugal é à primeira vista um tanto surpreendente, no entanto quando se considera que são brasileiros a grande maioria dos graduados estrangeiros que desejariam mudar-se para Portugal o resultado fica menos surpreendente. A segunda nacionalidade mais representada - e isso volta a ser surpreendente - é a americana, o que a Economist atribui a mais voos para os EUA, o que não me parece plausível e será mais facilmente explicado por um fenómeno chamado Madonna que colocou Portugal no mapa para muitos americanos que ficaram a saber que existia um país simpático, com um clima agradável que os acolheria bem - o campus da Nova em Carcavelos (que um amigo da Católica chama invejosamente "escola de surf") tem algum peso neste contexto.
[Fica por explicar, por agora, o proporcionalmente reduzido número de graduados portugueses que responderam pretender mudar-se para outro país, quando se sabe que na última década centenas de milhares de graduados portugueses saíram de facto para o estrangeiro.]
(Continua)
____________________23/10/2024
Mitos (342) - O conservacionismo e as "espécies invasoras" (2)
Recapitulando, o conservacionismo, como qualquer das outras inúmeras quase-religiões que são os "ismos", alimenta-se de mitos. Muitos deles não resistem ao confronto com a realidade e a uma observação factual e objectiva, não obstante persistem por décadas ou séculos porque dão respostas à necessidade profunda que o homo sapiens tem de confirmar as suas crenças com "factos" cuidadosamente escolhidos com esse propósito.
No post anterior referi o mito ecológico do dano inevitável que as espécies não nativas, geralmente designadas não por acaso como "espécies invasoras", causam às espécies nativas e ao ambiente. Neste post abordo algumas das consequências indesejáveis do isolamento (que, por exemplo, as ilhas proporcionam - um paraíso na terra para o nativismo militante) de que resulta um maior risco de doenças genéticas.
Um exemplo conhecido é o da Gran Canaria cujos habitantes têm uma incidência muito mais elevada do que a média de hipercolesterolemia familiar, de onde o fígado não processa eficazmente o colesterol, de onde resulta uma alta prevalência de diabetes (fonte: Familial hypercholesterolemia in Gran Canaria: Founder mutation effect and high frequency of diabetes).
Recentemente, um estudo do Jim Flett Wilson (JFW) do Instituto Usher da Universidade de Edimburgo (fonte: The Telegraph) examinou informações genéticas de mais de 44.000 pessoas em 20 regiões do Reino Unido e encontrou no País de Gales nove variantes genéticas causadoras de doenças com frequências muito mais altas do que a média. Outras variantes raras também foram mais frequentes em Lancashire, Staffordshire e Nottinghamshire. Em Shetland e Orkney algumas variantes causadoras de doenças eram mais de 100 vezes mais frequentes do que a média britânica. Embora os habitantes das ilhas sejam mais frequentemente suscetíveis a doenças raras pela falta de diversidade genética, foram encontradas situações semelhantes em áreas isoladas do continente.
Segundo JFW isso é consequência de um processo de "deriva genética aleatória" que leva a algumas variantes genéticas se tornarem mais comuns e outras se perderem. «Esse efeito é ampliado em pequenas populações com pouco ou nenhum movimento interno de novas pessoas para reabastecer o pool genético», concluiu JFW.
E pronto, não me parece abusivo inferir que uma comunidade fechada onde prevaleça o nativismo tenda a ter cada vez mais nativistas sofrendo de Transtorno do Desenvolvimento Intelectual.
17/10/2024
Não há valores universais. Há os valores ocidentais que apelam à universalidade
Baseado nos World Values Surveys realizados em cada cinco anos que entrevistam dezenas de milhares de pessoas em países de todo o Mundo (130 mil em 90 países no último inquérito), a Economist publicou o ano passado um estudo (*) onde compara os valores predominantes nesses países e a sua evolução entre 1990-98 e 2017-22.
Esses valores são organizados em dois eixos: Tradicional-Secular, onde é avaliada a influência da família e religião e o respeito pela tradição, por um lado, em oposição às crenças não religiosas e ao pensamento mais científico; Sobrevivência-Autoexpressão, onde é avaliado a ligação a um grupo, etnia, nação ou raça, ou seja valores colectivistas, por um lado, em oposição ao individualismo.
Os resultados representados nos diagramas seguintes são muito sugestivos e mostram diferenças notáveis e uma evolução distinta em três décadas, representada nos diagramas seguintes correspondendo os pontos a países individuais.
O primeiro diagrama mostra uma evolução contraditória que esconde a evolução diferente entre as regiões, diferença que os diagramas seguintes confirmam.Nestes três últimos diagramas torna-se visível que a evolução entre 1990-98 e 2017-22 foi muito diferente nos três conjuntos de países: Língua inglesa/Protestantes que se tornaram mais seculares; Ortodoxos que se tornaram mais tradicionais e Latino Americanos que se tornaram ligeiramente menos tradicionais e menos colectivistas.
No diagrama seguinte representa-se a situação actual de três conjuntos de países em três grandes regiões (os inquéritos não abrangeram os países asiáticos).
E a conclusão é que, no conjunto, os valores dominantes na Europa, que os europeus tomam como valores universais, são completamente distintos dos latino-americanos e africanos-islâmicos que têm em comum um forte tradicionalismo, ainda que partilhem em graus muito diferentes os valores colectistas-individualistas, estando os latino-americanos mais próximos dos europeus a este respeito.
27/09/2024
Mitos (341) - O contrário do dogma do aquecimento global (XXXI) - Pero que las hay, las hay
Em retrospectiva: que o debate sobre o aquecimento global, principalmente sobre o papel da intervenção humana, é muito mais um debate ideológico do que um debate científico é algo cada vez mais claro. Que nesse debate as posições tendam a extremar-se entre os defensores do aquecimento global como obra humana – normalmente gente de esquerda – e os outros – normalmente gente de direita – existindo muito pouco espaço para dúvida, ou seja para uma abordagem científica, é apenas uma consequência da deslocação da discussão do campo científico, onde predomina a racionalidade, para o campo ideológico e inevitavelmente político, onde predomina a crença.
| [PhanDA designa o método adoptado no estudo para estimar as temperaturas médias globais à superfície durante o éon Farenozóico que abrange a existência de vida na Terra] |