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25/04/2026

Mitos (354) - O dia em que o Estado Novo começou a ser substituído pelo Estado novo

Por falta de tempo e porque os 25 de Abril tendem a ser todos iguais, republico o post do ano passado que ainda me parece actual.

Tivemos os 48 anos de Estado Novo que, sendo uma ditadura sonsa e beata, não deixou de ser uma ditadura encalhada no tempo, tentando endoutrinar as crianças e os jovens com a Mocidade Portuguesa e organizar os adultos com a Legião Portuguesa, com uma polícia política que vigiava e punia uma oposição fraca quase resumida ao Partido Comunista e garantia que do simulacro de eleições saísse sempre o mesmo resultado. Um Estado Novo que nos manteve numa miséria pacata, onde para usar um isqueiro era preciso ter uma licença (as fábricas de fósforos eram propriedade de eminências do regime) e só nos anos 60 com a adesão à EFTA (European Free Trade Association) se iniciou um período de crescimento interrompido pelo golpe militar. Uma ditadura que tentou, contra as tendências da história, manter um império colonial que nunca chegou a ser império e consumiu as energias de uma geração numa guerra impossível de ser vencida.

Uma ditadura que não sobreviveu quase cinco décadas sem a adesão das elites, dos situacionistas e dos oportunistas (alguns deles viraram a casa) e com a passividade, mansidão e conformidade de um povo traumatizado pela incompetência, violência e instabilidade da 1.ª República. Uma ditadura que se desfez como um castelo de cartas com um simples golpe militar, cuja génese deve mais ao sindicalismo militar e menos à ideologia e aos grandes princípios, golpe militar cavalgado pela única força política organizada.

O Estado Novo e o Estado novo vistos por
João Abel Manta
Com o mesmo povo, gradualmente menos passivo e menos conformado, chegámos ao PREC de onde quase saiu uma ditadura pior do que a do Estado Novo, tivemos a reforma agrária e as nacionalizações que expropriaram o "capitalismo monopolista", desmantelou-se o sector financeiro, hoje quase totalmente controlado por capital estrangeiro, a indústria foi reduzida a microempresas e PME e a uma ou outra sobra das grandes empresas industriais. Foi construído um Estado sucial pletórico, que faliu três vezes nos últimos 50 anos, controlado pelos novos situacionistas e povoado  por um número de funcionários (780 mil) que é o dobro da soma dos "servidores do Estado" (200 mil) com os mobilizados para a guerra colonial (170 mil). As Forças Armadas foram reduzidas a uma tropa pelintra, desmoralizada, mal equipada e incapaz de defender o país. O ensino público foi gradualmente infectado por ideologias neo-marxistas a um grau que rivaliza com a endoutrinação no ensino do Estado Novo mas fica longe do seu grau de exigência técnica. A qualidade do pessoal político degradou-se e a maioria dos ministros do regime actual não teriam por incompetência técnica lugar num governo do Dr. Salazar ou do Dr. Marcelo. O resultado é um país ultrapassado pelos países saídos das ruínas do império soviético, com uma economia pouco competitiva de baixa produtividade, endividado e dependente dos dinheiros europeus.

No final ficámos com o arbítrio mais livre e, em consequência, com menos desculpas, o que só por si é positivo.

08/05/2025

Mitos (350) - A pesada herança da longa noite fascista (XII)

[Uma actualização de A pesada herança da longa noite fascista (IV)]

Foi há dias publicado o índice de desenvolvimento humano das Nações Unidas definido como «uma medida resumida do desempenho médio em dimensões-chave do desenvolvimento humano: uma vida longa e saudável, ter conhecimento e ter um padrão de vida decente. O IDH é a média geométrica dos índices normalizados para cada uma das três dimensões.»


Como seria de esperar, excepto pelos tontinhos que imaginam resultados maléficos da maléfica globalização para exaltarem o nativismo, houve melhoria progressiva da qualidade de vida a que Portugal não escapou. 

O quid é que sendo indiscutíveis as melhorias do Portugal dos Pequeninos que ocupa o 40.º lugar no ranking mundial e o 28.º na Europa, à frente apenas de algumas das países vítimas do socialismo soviético, é igualmente indiscutível que quase todos os outros países melhoraram a qualidade de vida, nalguns casos mais do que o Portugal dos Pequeninos 

Se recuarmos cinco décadas, em 1975, após a queda do Estado Novo, Portugal era o 23.º país com melhor índice. Trinta anos de Estado sucial depois, em 2005, era o 29.º. Trinta e cinco anos de Estado sucial depois, em 2010, era o 40.º, onde continua.

25/04/2025

Mitos (349) - O Estado Novo foi um paraíso perdido com o golpe militar de 25 de Abril que nos trouxe o inferno

O ano passado nesta data tratei do mito do 25 de Abril partilhado pela esquerdalhada. Este ano trato também da outra face do mito partilhada pelos viúvos do Estado Novo.

Tivemos os 48 anos de Estado Novo que, sendo uma ditadura sonsa e beata, não deixou de ser uma ditadura encalhada no tempo, tentando endoutrinar as crianças e os jovens com a Mocidade Portuguesa e organizar os adultos com a Legião Portuguesa, com uma polícia política que vigiava e punia uma oposição fraca quase resumida ao Partido Comunista e garantia que do simulacro de eleições saísse sempre o mesmo resultado. Um Estado Novo que nos manteve numa miséria pacata, onde para usar um isqueiro era preciso ter uma licença (as fábricas de fósforos eram propriedade de eminências do regime) e só nos anos 60 com a adesão à EFTA (European Free Trade Association) se iniciou um período de crescimento interrompido pelo golpe militar. Uma ditadura que tentou, contra as tendências da história, manter um império colonial que nunca chegou a ser império e consumiu as energias de uma geração numa guerra impossível de ser vencida.

Uma ditadura que não sobreviveu quase cinco décadas sem a adesão das elites, dos situacionistas e dos oportunistas (alguns deles viraram a casa) e com a passividade, mansidão e conformidade de um povo traumatizado pela incompetência, violência e instabilidade da 1.ª República. Uma ditadura que se desfez como um castelo de cartas com um simples golpe militar, cuja génese deve mais ao sindicalismo militar e menos à ideologia e aos grandes princípios, golpe militar cavalgado pela única força política organizada.

Com o mesmo povo, gradualmente menos passivo e menos conformado, chegámos ao PREC de onde quase saiu uma ditadura pior do que a do Estado Novo, tivemos a reforma agrária e as nacionalizações que expropriaram o "capitalismo monopolista", desmantelou-se o sector financeiro, hoje quase totalmente controlado por capital estrangeiro, a indústria foi reduzida a microempresas e PME e a uma ou outra sobra das grandes empresas industriais. Foi construído um Estado sucial pletórico, que faliu três vezes nos últimos 50 anos, controlado pelos novos situacionistas e povoado  por um número de funcionários (750 mil) que é o dobro da soma dos "servidores do Estado" (200 mil) com os mobilizados para a guerra colonial (170 mil). As Forças Armadas foram reduzidas a uma tropa pelintra, desmoralizada, mal equipada e incapaz de defender o país. O ensino público foi gradualmente infectado por ideologias neo-marxistas a um grau que rivaliza com a endoutrinação no ensino do Estado Novo mas fica longe do seu grau de exigência técnica. A qualidade do pessoal político degradou-se e a maioria dos ministros do regime actual não teriam por incompetência técnica lugar num governo do Dr. Salazar ou do Dr. Marcelo. O resultado é um país ultrapassado pelos países saídos das ruínas do império soviético, com uma economia pouco competitiva de baixa produtividade, endividado e dependente dos dinheiros europeus.

No final ficámos com o arbítrio mais livre e, em consequência, com menos desculpas, o que só por si é positivo.

25/04/2024

Mitos (335) - O Estado Novo foi uma ditadura feroz e Portugal viveu uma longa noite escura que terminou com a alvorada de 25 de Abril e os amanhãs que cantam

Por razões que possivelmente radicam na consciência difusa e não assumida das fraquezas e contradições do regime actual saído da queda do Estado Novo, a esquerda, e com ela a legião de jornalistas e comentadores afectos, em vez de contribuir para reduzir essas fraquezas, desperdiça o seu talento a incensar o actual regime, ao mesmo tempo que distorce a história vilipendiando o Estado Novo.
A realidade, como habitualmente, é mais complexa do que o retrato resultante das simplificações ideológicas. Sem elaborar muito sobre este tema, remeto para «As causas do atraso português», o livro de Nuno Palma, a respeito do qual publiquei a série de oito posts Uma obra de demolição de alguns dos mitos mais populares no Portugal dos Pequeninos e acrescento agora meia dúzia de factos e considerações. 

Tivemos o PREC do qual quase saiu uma ditadura pior do que a do Estado Novo, tivemos a reforma agrária e as nacionalizações que expropriaram o "capitalismo monopolista", desmantelou-se o sector financeiro, hoje quase totalmente controlado por capital estrangeiro, a indústria foi reduzida a microempresas e PME e a uma ou outra sobra das grandes empresas industriais. Foi construído um Estado sucial pletórico que faliu três vezes nos últimos 50 anos, povoado por um número de funcionários (750 mil) que é o dobro da soma dos "servidores do Estado" (200 mil) com os mobilizados para a guerra colonial (170 mil). As Forças Armadas foram reduzidas a uma tropa pelintra, desmoralizada, mal equipada e incapaz de defender o país. O ensino público foi gradualmente infectado por ideologias neo-marxistas a um grau que rivaliza com a endoutrinação no ensino do Estado Novo mas fica longe do seu grau de exigência técnica. A qualidade do pessoal político degradou-se e a maioria dos ministros do regime actual não teriam por incompetência técnica lugar num governo do Dr. Salazar ou do Dr. Marcelo. O resultado é um país ultrapassado pelos países saídos das ruínas do império soviético, com uma economia pouco competitiva de baixa produtividade, endividado e dependente dos dinheiros europeus.

Por coincidência, li ontem uma carta de Francisco Pereira de Moura (FPM), antigo professor de Economia do ISCEF (actualmente ISEG), escrita em 1965 aos membros do colégio eleitoral que haveria de reeleger o factótum almirante Américo Tomás. Nessa carta, cuja leitura proporciona uma visão matizada e realista do que era o Estado Novo, FPM, então considerado um homem da "Situação", critica frontalmente a designação do presidente da República por um colégio eleitoral, de que ele próprio fazia parte como procurador da Câmara Corporativa, colégio que substituiu o sufrágio universal directo em resposta aos «acontecimentos que rodearam a eleição presidencial de 1958» (em que participou o general Humberto Delgado).

A crítica de FPM foi muito para além da alteração do processo eleitoral, ditada pela necessidade do governo controlar os seus resultados, e pôs em causa de forma claríssima os fundamentos do próprio regime. É certo que nesse mesmo ano FPM terminou o mandato na Câmara Corporativa mas continuou a ser tolerado pelo salazarismo, não sofreu retaliações, veio a ser um dos fundadores da Comissão Democrática Eleitoral (CDE), daria origem ao MDP/CDE, e só em 1973 foi demitido da função pública pelo governo de Marcelo Caetano por ter participado na vigília anticolonial na Capela do Rato. 

O que mostra esta carta? A falsidade de dois mitos em contraponto: o mito da ditadura despótica do salazarismo cultivado pelos "anti-fascistas" (a propósito, o Estado Novo nunca foi fascista) e o mito do Estado Novo como um quase paraíso cultivado pelos situacionistas retardados.

11/11/2023

A pesada herança do Dr. Costa e dos seus governos

«António Costa demite-se do Governo e deixa:

A maior carga fiscal de sempre: 36,4% do PIB

A maior dívida pública de sempre: 276 mil milhões de euros

O maior número de portugueses sem médico de família de sempre: 1,7 milhões de portugueses

42,5% dos portugueses em risco de pobreza antes de transferências sociais

O menor número de processos findos nos tribunais portugueses desde 1985: 524 mil (com exceção de 2020, ano de maior impacto da pandemia) 

O ano de menor acesso dos cidadãos à justiça desde 1979: 484 mil processos entrados nos tribunais portugueses

O pior mês da história do Serviço Nacional de Saúde, nas palavras do próprio Governo

583 mil utentes em lista de espera para consultas

235 mil inscritos em lista de espera para cirurgias

32% dos utentes a serem atendidos para lá do tempo recomendado

Médicos e enfermeiros em guerra

Professores e auxiliares em guerra

Forças Armadas em processo de falência e com níveis operacionais em risco

Crise total na habitação, impossibilidade de os portugueses conseguirem casa para morar´

A própria Economia a começar a definhar, o último trimestre já foi de contração

Esta é uma fotografia real, com dados oficiais, de alguns dos mais importantes indicadores da sociedade que somos

É neste quadro que António Costa se demite.»

Inventário recebido via WhatsApp

02/07/2023

América Latina, uma região encalhada no tempo

O mês passado a Economist publicou um artigo sobre a produtividade na América Latina cujo título ("A land of useless workers”) provocou nalguns leitores mais sensíveis a dose de indignação que nos tempos pós-modernos se dedica a qualquer coisa que cheire a uma realidade desagradável.

E a verdade é que esta realidade é visivelmente desagradável quando comparada, por exemplo, a evolução da produtividade da América Latina (AL) com a do Leste Asiático (LA), abrangendo China, Japão, Mongólia, Coreias do Norte e do Sul e Taiwan.  

Em 1962 o produto per capita do LA era um terço o da AL, em 2012 o LA tinha alcançado a AL e em 2022 estava 40% acima. A Economist aponta várias causas possíveis: baixo nível de investimento, baixo nível educacional, falta de concorrência (as economias latino-americanas são um chão fértil para monopólios e oligopólios), uma gigantesca economia informal e a corrupção generalizada em todos os sectores mesmo da economia formal. 

É claro que, como é típico nas questões económicas e sociais, todos essas causas concorrem para o resultado e influenciam-se reciprocamente. Se, como Daron Acemoglu e James Robinson (Why Nations Fail: The Origins of Power, Prosperity, and Poverty), considerarmos o papel das elites insubstituível para o sucesso dos países, poderemos acrescentar uma causa precedente às citadas: as elites da AL são elites extractivas, isto é, elites parasitárias cujas origens, não certamente por acaso, remontam aos tempos das potências colonizadoras, elas próprias ainda hoje com elites com dificuldades, to say the least, de servirem de catalizadoras ao desenvolvimento económico e social, elites que segregam uma cultura colectivista e avessa ao risco.

04/06/2022

Na história do Portugal dos Pequeninos, o século XXI não é assim tão diferente do XIX (7)

Continuação de (1), (2), (3), (4), (5) e (6)

Lendo «O Fundo da Gaveta» de Vasco Pulido Valente, dei comigo a pensar que, mudando a época, as modas e os protagonistas, o Portugal do século XIX me faz lembrar o Portugal da III República. Nos posts desta série cito algumas passagens que mais intensamente evocam essa ideia.

As reformas e os interesses

As reformas de Viseu e Sá foram mal recebidas até pelo seu campo. Os funcionários ameaçados ou prejudicados, especialmente os engenheiros, reuniram-se, associaram- se, protestaram. A opinião progressista mudou pouco a pouco de tom. Deixou de clamar, em abstracto, contra o simples excesso de funcionários e dirigiu as suas imprecações unicamente às prebendas, sinecuras e acumulações. Depressa acusava o Governo do mesmo erro de Ávila, o de «não distribuir igualmente os sacrifícios», esquecendo os «poderosos» e trazendo «lágrimas» aos «humildes». Em Setembro, já declarava, sem disfarce, que não existia excesso de funcionários, enquanto o Estado central se não libertasse das suas «vastíssimas» e «complicadas» funções. No ministério do Reino, por exemplo, quatro escreventes ocupavam-se a conceder licenças para «touradas, exposições de cabeças falantes e mulheres gordas ou magras»; como dispensá-los? Daqui se seguia que os esforços de Viseu e de Sá poupariam, na melhor das hipóteses, algumas dezenas ou centenas de contos, mas não desatariam o «nó», que «apertava» o país. Isto punha uma descentralização mítica como condição prévia a qualquer reforma da burocracia do Estado e, como se admitia, acessoriamente, que um Estado descentralizado não seria por força mais barato, negava os fundamentos do programa radical.

De volta ao défice, como sempre…

Na prática, esse programa já falhara. Em Outubro, o Governo encontrava-se perante as soluções tradicionais para financiar o défice e satisfazer os encargos da dívida: contrair mais um empréstimo; subir os impostos; aumentar a circulação fiduciária.

(…)

… e ao aumento dos impostos

A Câmara dos Deputados aprovou a Loulé parte dos aumentos de impostos que recusara a Samodães, incluindo o de 20% da contribuição predial. Votou igualmente uma nova lei de desamortização e o acordo final com a companhia de Caminhos de Ferro de Sul e Sueste, para fortalecer o crédito externo. Como de costume, os ministros anunciaram dezenas de reformas dos serviços, destinadas a diminuir a despesa do Estado.

[Do capítulo Ressurreição e morte do radicalismo (1864-1870)]

(Termina aqui esta série)

29/05/2022

A história do Portugal dos Pequeninos, o século XXI não é assim tão diferente do XIX (6)

 Continuação de (1), (2), (3), (4) e (5)

Lendo «O Fundo da Gaveta» de Vasco Pulido Valente, dei comigo a pensar que, mudando a época, as modas e os protagonistas, o Portugal do século XIX me faz lembrar o Portugal da III República. Nos posts desta série cito algumas passagens que mais intensamente evocam essa ideia. 

Uma espécie de PREC avant la lettre

Com outra seriedade, e porque a história do regime encorajava todas as ilusões, passou-se ao aliciamento de militares. Penicheiros notórios esforçaram-se por «seduzir os chefes dos corpos de guarnição», «iludir» os sargentos e «insubordinar a Guarda Municipal. Distribuíram-se até folhetos pelas ruas incitando a Guarda a revolta.

(…)

Afastado o desenvolvimento, ficava o funcionalismo que a regeneração, os históricos e a fusão tinham usado para empregar a classe média e, ligando-a ao statu quo, demovê-la de aventuras revolucionárias. Só que o funcionalismo era o alvo por excelência das principais reformas a que estavam comprometidos os radicais: a simplificação dos serviços, a luta contra a corrupção, a descentralização.

[Do capítulo Ressurreição e morte do radicalismo (1864-1870)]

(Continua)

21/05/2022

A história do Portugal dos Pequeninos, o século XXI não é assim tão diferente do XIX (5)

 Continuação de (1), (2), (3) e (4)

Lendo «O Fundo da Gaveta» de Vasco Pulido Valente, dei comigo a pensar que, mudando a época, as modas e os protagonistas, o Portugal do século XIX me faz lembrar o Portugal da III República. Nos posts desta série cito algumas passagens que mais intensamente evocam essa ideia.

Os interesses, sempre os interesses

O Estado não apenas servia ou patrocinava certos interesses privilegiados, constituía ele próprio um conjunto autónomo de interesses, concorrente com os outros.

Aqui há uma nova confusão. Compreende-se que os agentes económicos auto-suficientes e as profissões liberais que não precisavam de empregos públicos experimentassem uma acentuada relutância em sustentar uma administração que lhes parecia hipertrofiada e inútil e que, além disso, pesava sobre o mercado de capitais. O programa acentua que a carga fiscal «obstava à formação de riqueza» e «castigava o esforço produtivo» e que muitos «estabelecimentos)) e «companhias» estavam a sofrer com as dificuldades do «crédito» (ie., com a subida da taxa de juros) e se arriscavam a um «abalo» ou ao <<aniquilamento», se as coisas não mudassem depressa. A vontade de não permitir que os clientes do Estado o governassem não espanta naqueles que pagavam a conta sem receber de volta coisa nenhuma. Consegui-lo era mesmo a condição indispensável à maioria das reformas que propunham. Nunca um Parlamento de funcionários consentiria em extinguir, a título de poupança, o Tribunal de Contas, o Conselho de Estado e os Conselhos Superiores dos ministérios; em restringir os quadros das secretarias, do exército e da marinha; em baixar os «vencimentos excessivos»; e em proibir as acumulações e gratificações. Acima de tudo, nunca permitiria uma autêntica descentralização que a inteligência revolucionária do tempo imaginava ser a panaceia universal. Limitar a «oligarquia» do Estado, reduzir o Estado a proporções toleráveis e contrariar o seu «absolutismo» exigia uma maioria de deputados sem ligações com ele. Mas esse propósito não se percebe da parte da cauda plebeia do movimento oposicionista, onde proliferavam os pequenos funcionários ou aspirantes a funcionários.

(…)

O défice, sempre o défice

Pelo contrário, a necessidade de combater o défice ou de, pelo menos, parecer que o combatia, levou-o a restringir o programa de extensão da rede viária; e a dispensar «operários» das empresas do Estado e muitos pequenos funcionários.

[Do capítulo Ressurreição e morte do radicalismo (1864-1870)]

(Continua)

19/05/2022

Na história do Portugal dos Pequeninos, o século XXI não é assim tão diferente do XIX (4)

Continuação de (1), (2) e (3)

Lendo «O Fundo da Gaveta» de Vasco Pulido Valente, dei comigo a pensar que, mudando a época, as modas e os protagonistas, o Portugal do século XIX me faz lembrar o Portugal da III República. Nos posts desta série cito algumas passagens que mais intensamente evocam essa ideia.

A oposição parecida com a situação

Os inimigos da fusão, no entanto, embora exprimissem um descontentamento real, não propunham ainda, ou não representavam ainda, uma alternativa prática. Por enquanto, não iam além da crítica a vícios universalmente reconhecidos. Também eles pediam reformas, ordem, moralidade e economias. O que não era original e se tomava por fraqueza, não sem fundamento.

Esta aparente concordância no essencial de todas as forças autónomas e activas tornava as divergências irrisória ou pouco respeitáveis. Imediatamente, contribuía para justificar a fusão. Como os seus chefes notavam, sob uma espécie de fusão vivera Portugal desde 1852. Os partidos, embora combatendo-se e substituindo-se no poder, aceitavam ambos a corrida aos «melhoramentos» e procuravam distinguir-se nela. Com frequência, mutuamente se disputavam a autoria de certas medidas ou «a primazia nas dores sofridas» por certos «avanços».

(…)

A reforma autárquica

Nesta ordem de ideias, não inteiramente indefensável, Martens Ferrão, fez a sua reforma administrativa. Extinguiam-se quatro distritos: Portalegre, Santarém, Braga e Leiria. Estabelecia-se a regra geral de que nenhum concelho podia ter menos de 3000 fogos, o que implicava a supressão de 178 em 295. Reduziam-se as freguesias, agora chamadas <<paróquias civis» de cerca de 3000 para 1046. Conservavam-se 3966 paróquias eclesiásticas. De resto, diminuíam-se as responsabilidades e prerrogativas das Câmaras e fortalecia-se a fiscalização do Estado central.

[Do capítulo Ressurreição e morte do radicalismo (1864-1870)]

(Continua)

07/05/2022

Na história do Portugal dos Pequeninos, o século XXI não é assim tão diferente do XIX (3)

Continuação de (1) e (2).

Lendo «O Fundo da Gaveta» de Vasco Pulido Valente, dei comigo a pensar que, mudando a época, as modas e os protagonistas, o Portugal do século XIX me faz lembrar o Portugal da III República. Nos posts desta série cito algumas passagens que mais intensamente evocam essa ideia.

O desenvolvimento e a “descentralização”

Os males do desenvolvimento só se curavam com mais desenvolvimento. Aumentasse a produção que aumentaria a receita fiscal, diminuiria o défice e os preços desceriam. Tratava-se de persistir na mesma direcção. Não de negar os «grossos subsídios» indispensáveis à construção de comunicações e portos ou de restringir a liberdade do mercado.

Quanto ao resto, a fusão oferecia as consolações habituais, copiadas do programa clássico do progressismo. Oferecia-as, porém, com restrições e sem descer a pormenores. Prometia conter as despesas do Estado, mas pela abolição das despesas inúteis e a «severa restrição das acessórias e secundárias», não, como insistia em sublinhar, pela «supressão» ou «cerceamento» das restantes. Aludia, de passagem, à injustiça fiscal, sem declarar qualquer intenção de a corrigir. Falava em «simplificação e descentralização» administrativas como meios de reduzir o défice e de promover a iniciativa local, abstendo-se de mencionar formas e prazos. Não esquecia o tropo obrigado sobre as vantagens da moralidade na governação. Finalmente, acabava com o usual elogio à instrução e, implicitamente, dava-se como objectivo organizar uma instrução profissional, «adaptada às conveniências e aptidões regionais»; e difundir a instrução primária «até às últimas camadas».

As omissões do manifesto da fusão eram tão importantes como a sua letra. Não existia nele palavra sobre reformas políticas.

[Do capítulo Ressurreição e morte do radicalismo (1864-1870)]

(Continua)

01/05/2022

Na história do Portugal dos Pequeninos, o século XXI não é assim tão diferente do XIX (2)

Continuação de (1).

Lendo «O Fundo da Gaveta» de Vasco Pulido Valente, dei comigo a pensar que, mudando a época, as modas e os protagonistas, o Portugal do século XIX me faz lembrar o Portugal da III República. Nos posts desta série cito algumas passagens que mais intensamente evocam essa ideia.

A fusão como prenúncio do bloco-central

Qualquer alternativa definida rejeitaria por natureza uma ou várias facções, quanto mais não fosse a unha branca do próprio Loulé, e, nessa medida, agravaria o conflito, já intenso; provocaria mais divisões; e, admitindo que conseguisse prevalecer, não conseguiria com certeza governar. Um postulado estava implícito ao pensamento da oposição: o de que só o Estado poderia estabelecer alguma disciplina política. O objectivo consistia por isso em associar ao Estado o máximo de personalidades, grupos e interesses, distribuindo igualitariamente as benesses e a influência e não afastando senão os inconciliáveis. Criticava-se Loulé, como antes Costa Cabral, pelo seu «exclusivismo», isto é, por usar os lugares, 0 dinheiro e a autoridade do Estado em exclusivo proveito dos históricos; queria-se inverter este critério, diluindo as fronteiras partidárias e criando uma única força, coesa e universal.

A este programa se chamou apropriadamente a «fusão».

[Do capítulo Ressurreição e morte do radicalismo (1864-1870)]

(Continua)

27/04/2022

Na história do Portugal dos Pequeninos, o século XXI não é assim tão diferente do XIX (1)

Lendo «O Fundo da Gaveta» de Vasco Pulido Valente, dei comigo a pensar que, mudando a época, as modas e os protagonistas, o Portugal do século XIX me faz lembrar o Portugal da III República. Nos posts desta série cito algumas passagens que mais intensamente evocam essa ideia.

A retórica, sempre a retórica, e o reformismo que só poderia vir de fora

Mas não havia nas Necessidades um grupo organizado capaz de tomar o poder. Dos jacobinos franceses, os jacobinos portugueses só tinham a retórica. (…)

Com a «pátria em perigo», decapitavam o partido constitucional e entregavam o futuro aos bons ofícios do rei, a cujo retrato fizeram comovedoras manifestações. Pior: no momento em que se propunham resistir, pretendiam também conciliar. Parte da impopularidade do Governo vinha das medidas repressivas, aliás brandas, com que tentara meter na ordem as franjas mais lunáticas do radicalismo urbano.

(…)

Este fracasso foi o verdadeiro fim do reformismo, que só podia vir de fora. As reformas fiscais, económicas, administrativas e militares dependiam de uma prévia reforma política. Sem ela, a inércia e os interesses instalados impediriam qualquer tentativa de mudança. Palmela e Subserra ficaram reduzidos à deprimente tarefa de gerir o caos e a miséria. Vila Franca nem ressuscitara a antiga monarquia, nem gerara uma via média «razoável». Produzira apenas um absolutismo mitigado, menos despótico do que arbitrário e, na essência, moribundo.

[Do capítulo A contra-revolução (1823-1824)]

(Continua)

23/12/2021

ESTADO DE SÍTIO: Os amanhãs que cantam a caminho do socialismo (2) - Agora é oficial. Vem na primeira página do semanário de reverência

Continuação do post confuciano

ESTADO DE SÍTIO: Os amanhãs que cantam a caminho do socialismo

Se Confúcio tivesse razão, este post dispensaria umas cinco mil palavras.

A crescer cada vez mais devagar...


... envelhecer cada vez mais depressa...



... com um Estado cada vez mais pesado que nos consome cada vez mais...


 
... cada vez mais endividados...


... e dependentes do exterior


11/12/2018

CASE STUDY: Um mês de salário mínimo comunista para aceder à internet comunista

No princípio de Dezembro, a ETECSA, o monopólio de telecomunicações do governo comunista cubano, anunciou que iria disponibilizar pela primeira vez o serviço 3G de acesso à internet via telemóveis.

O acesso custará 10 cêntimos de dólar por MB, em pacotes desde 600 MB a USD 7 até 4 GB por USD 30 (fonte), o que equivale aproximadamente a um mês do salário mínimo médio (225 pesos)

15/11/2017

Dúvidas (210) - Como conseguem eles crescer assim sem Costa?

Depois do crescimento de 3% no 2.º trimestre, que tem tanto a ver com as medidas do governo da geringonça como os incêndios de Pedrógão, o 3.º trimestre registou um crescimento de "apenas" 2,5%, o que tem tanto a ver com o governo como o incêndio do Pinhal de Leiria. Ou, para ser exacto, talvez tenha a ver um pouco mais. Afinal a desaceralação no 3.º trimestre deve-se a um crescimento das importações superior aos das exportações e ao aumento do consumo em detrimento do investimento e isto, sim, tem a ver com as políticas e os incentivos da geringonça.

Ainda assim 2,5% é um excelente crescimento. Ou não? Depende. Nem por isso, se o compararmos com os 3,7% da Hungria, os 4,2% da Polónia, os 4,3% da República Checa e os 5,7% da Roménia, nem por acaso todos eles países comunistas até à década de 90.


Fonte: The Economist Espresso

De onde, apetece-me concluir, 43 anos em que a esquerda, numa das suas diversas encarnações, governou dois terços do tempo, é uma herança mais pesada do que um período equivalente de regime soviético na Europa de Leste.

07/11/2017

7 de Novembro, a efeméride do golpe de estado de Vladimir Ilyich, o bacilo bolchevique do Kaiser que abriu a porta ao fürher Adolf

O assalto ao Palácio de Inverno

«Lenin initially thought it was “a hoax.” He was lucky that Germany inserted him like a bacillus (via the so-called sealed train) to take Russia out of the war. Back in Petrograd, Lenin, aided by fellow-radicals Trotsky and Stalin, had to overpower erring Bolshevik comrades, who proposed cooperation with the provisional government, and force them to agree to his plan for a coup. The government should have found and killed him but it failed to do so. He succeeded.

(...)

Without Lenin there would have been no Hitler. Hitler owed much of his rise to the support of conservative elites who feared a Bolshevik revolution on German soil and who believed that he alone could defeat Marxism. And the rest of his radical program was likewise justified by the threat of Leninist revolution. His anti-Semitism, his anti-Slavic plan for Lebensraum and above all the invasion of the Soviet Union in 1941 were supported by the elites and the people because of the fear of what the Nazis called “Judeo-Bolshevism.”

Without the Russian Revolution of 1917, Hitler would likely have ended up painting postcards in one of the same flophouses where he started. No Lenin, no Hitler — and the 20th century becomes unimaginable. Indeed, the very geography of our imagination becomes unimaginable.»

«What If the Russian Revolution Had Never Happened?», Simon Sebag Montefiore, um conhecedor da revolução bolchevique, no NYT

27/09/2017

CASE STUDY: Porque haveria de ser diferente nas universidades?


Um «estudo da Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência vem confirmar a existência de endogamia académica nas universidades portuguesas» escreveu o Público num artigo com o sugestivo título «No ensino superior não é o mérito que comanda as contratações». No ensino superior e no resto, poderiam ter acrescentado. Um dos exemplos extremos onde 99% dos docentes são doutorados pela própria faculdade é... a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

Parece que a coisa surpreendeu muita gente. Não se percebe porquê. Pois se estamos num país em que o clientelismo e o nepotismo são endémicos e o inbreeding foi e é o sistema por excelência de reprodução das elites, porque haveria de ser diferente nas universidades?