| Declaration of Independence, oil on canvas by John Trumbull, 1818; U.S. Capitol Rotunda, Washington, D.C. |
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)
05/07/2026
It was already known that democracy is the worst form of government, except for all the others, and it is confirmed that democracy can be broken
13/06/2026
ESTÓRIAS E MORAIS: Saberão eles o que é um líder forte que se borrife para o parlamento e as eleições?
| Expresso |
Em que partidos votaram esses 50% dos portugueses? Resistiriam esses 50% dos portugueses a um líder forte que adoptasse medidas indispensáveis, tais como o aumento da idade da reforma e/ou o aumento das contribuições para a Segurança Social e/ou a redução das pensões, o emagrecimento do Estado sucial, a qualificação e profissionalização dos quadros e a meritocracia da administração pública, a flexibilização da legislação laboral, incentivar a concorrência e o combate à cartelização, criar forças militares capazes de travar uma guerra moderna, etc. (um grande etc.)?
Recordemos o coro de protestos e queixas durante os anos da intervenção da troika que forçou o governo a tomar medidas indispensáveis, mas duras.
Em vez de culparem a democracia, que lhes permite escolher de acordo com os seus preconceitos, esses eleitores deveriam sentir-se responsáveis pelos seus preconceitos e pelas suas escolhas fundadas nesses preconceitos.
Já agora, olharam esses 50% para a História e viram os inúmeros exemplos de líderes fortes que se borrifaram para o parlamento e as eleições e foram tão incompetentes para governar como os líderes fracos e foram sobretudo competentes para impedirem as oposições de apresentarem alternativas?
Moral
Disse um líder forte que não se borrifou para o parlamento e as eleições, dois anos depois de as ter perdido, após ter enfrentado uma ameaça existencial para o seu país, ameaça conduzida por um outro líder forte que se borrifou para o parlamento e as eleições:
«Many forms of Government have been tried, and will be tried in this world of sin and woe. No one pretends that democracy is perfect or all-wise. Indeed it has been said that democracy is the worst form of Government except for all those other forms that have been tried from time to time.…»
24/08/2025
First thought of the day and second thoughts
«As democracy is perfected, the office [of president] represents, more and more closely, the inner soul of the people…On some great and glorious day the plain folks of the land will reach their heart's desire at last, and the White House will be adorned by a downright moron.»
H. L. Mencken 1880–1956, American journalist and literary critic,in Baltimore Evening Sun 26 July 1920
Mencken, not known for his appreciation of democracy, didn't say what awaits us in the future after the presidency of an idiot, which could represent the end of democracy as we knew it. Therefore, after the plutocracy has chosen an idiot for the people to vote for, the plutocracy can choose the next ones without the people's vote.
22/05/2025
United States on the Path from a Flawed Democracy to a Flawed Autocracy
«A presenter on CBS’s “60 Minutes”, America’s premier current-affairs programme, told viewers that Paramount, CBS’s owner, was supervising its content and that the show’s top producer had resigned because he felt he had lost his independence. None of its stories has been pulled, but speculation has swirled that Paramount wants to ensure its merger with Skydance Media won’t be torpedoed by the Trump administration because of its networks’ political coverage. Meanwhile, Paramount was reportedly ready to settle a lawsuit brought by Mr Trump that accuses CBS News of underhandedly editing an interview with Kamala Harris, Mr Trump’s Democratic opponent last year.»
«In a sign of the White House’s sensitivity to the public’s scepticism on tariffs, Mr Trump’s press secretary described Amazon’s reported plan to display the cost of import duties against products on its website as a “hostile and political” act. We have no such plans, Amazon hastily responded. Mr Trump called Jeff Bezos to smooth things over. He “solved the problem very quickly”, said the president. “He did the right thing. Good guy.”»
(Source)
__________
02/04/2025
11/07/2024
A Social-Democracia está cumprida e aborrece. As coisas desmoronam-se e o centro não se aguenta
...
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
...
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.
The Second Coming, William Butler Yeats
«O que aconteceu que levasse agora uma grande parte da Europa a rebelar-se, enjeitando a social-democracia e, a avaliar pelo exemplo francês (mas outros exemplos houve já num tempo recente) a sentir-se atraída pelos extremos? Porque a Social-democracia se esgotou, quero dizer, porque se cumpriu.
Logicamente, já não mobiliza quase ninguém. A extrema-esquerda oferece 'amanhãs que cantam', sonha com uma sociedade igualitária independentemente das capacidades e habilitações de cada um. A extrema-direita agita a bandeira do nacionalismo e uma espécie de regresso à Europa das nações semelhante à que se desenhou e vingou na sequência da Paz de Vestfália em 1648. A miragem da sociedade igualitária, sem ricos, sem hierarquias é, continua a ser, uma utopia atractiva que congrega multidões na rua e desafia a polícia 'burguesa'. Em suma: é um combate que desperta emoções, desencadeia movimento, agitação. A inundação das ruas parisienses pelos adeptos da 'França Insubmissa' ilustra isto mesmo: partir montras e incendiar carros e caixotes de lixo dá gozo, é entusiasmante.
No outro extremo, à direita, os riscos de cerceamento dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos não amedronta os adeptos. Na sua maioria são xenófobos e racistas, convencidos de que a miscigenação da França degrada a pureza da raça francesa e branca. Sonham com a restauração da grandeza passada da França tal como De Gaulle a via: independente de todos os Estados, em especial dos Estados Unidos da América, da Nato e de quaisquer outras agremiações que pudessem embaraçar a França na afirmação da sua inigualável e insuperável 'grandeur'.
De tal maneira o Centro social-democrata está subalternizado, que os seus problemas específicos mal foram abordados. E no entanto eles são muitos e graves. A começar por saber se a França e a Europa serão capares de crescer economicamente para fazer face às despesas crescentes que o Estado Social custa, um tema que, comas hostes sideradas coma luta entre os dois extremos, constituiu nas eleições francesas um assunto de terceira ordem. Somos mimados e estamos mal habituados. Demos o Estado Social como garantido, e com este desleixo desvalorizámos desferimos um enorme golpe na Democracia. A Social-Democracia está cumprida e aborrece.»
Fátima Bonifácio, historiadora, no jornal Sol
10/06/2024
DIÁRIO DE BORDO: Retirando consequências nacionais dos resultados das eleições europeias
- Como já se sabia, as eleições para o parlamento europeu continuam a não suscitar grande interesse nos eleitores, apesar de uma redução importante na abstenção;
- Por isso, quase todos os partidos registaram perdas significativas de votos em relação às eleições legislativas;
- As excepções foram o Iniciativa Liberal que ganhou votos e o Chega que foi vítima de uma hecatombe europeia e perdeu 2/3 dos votos;
- Em termos de eleições europeias, as variações 2024-2019 mostram que houve dois grandes perdedores (BE e CDU) e um grande ganhador (Iniciativa Liberal).
- Uma séria derrota para a extrema-esquerda (BE+CDU), mas não uma derrota para o conjunto da esquerda que conseguiu recuperar 24 mil votos em relação a 2019;
- Uma vitória significativa para a direita que teve clara maioria dos votos e a AD e o IL aumentaram 624 mil votos;
- Recuperação mais significativa da AD do que do PS, que permitiu à AD não se considerar derrotada e ao PS considerar que os seus mais 40 mil votos lhe deram a vitória;
- As perdas do Chega mostram que não é proprietário do seu eleitorado, aparentemente mais motivado por uma rejeição do "sistema" do que por uma adesão ao cozido à portuguesa programático do Dr. Ventura;
- Estes resultados podem permitir ao governo sobreviver até à apresentação da proposta de OE2025, mas não devem chegar (sem trocadilho) para o conseguir aprovar.
24/05/2024
O entendimento de Aguiar Branco tocou o nervo dos que entendem que liberdade de expressão é poder dizer o que eles acham que pode ser dito
Uma espécie de continuação desta ESTÓRIA E MORAL.
De quase todos os quadrantes políticos irromperam no mínimo protestos e no máximo exigências de demissão de Aguiar Branco em resposta ao seu entendimento sobre a liberdade de expressão dos deputados face ao desafio da socialista Dr.ª Alexandra Leitão, entendimento que ele expressou assim
«A liberdade de expressão está constitucionalmente consagrada, não é uma liberdade sob ponderação do juízo de uma qualquer pessoa faça em relação àquilo que no discurso político é dito. Não haverá condicionamento na liberdade de expressão. A avaliação do discurso político que seja feito nessa casa será feito pelo povo em eleições se se revê nas suas posições.»
Das inúmeras reacções, escolho uma do "investigador" António Brito Guterres (ABG), com um título Quem nos defende de Aguiar-Branco?» que é todo um programa, onde conclui que «a luta contra o racismo não se resume a afrontar a bancada do Chega, mas que é algo muito mais lato, com cúmplices em todas as esferas políticas e instituições do país.» Aí está, Aguiar Branco é para ABG apenas o porta-voz de uma cabala dos cultores do rácismo que, para simplificar, são todos os que não se identificam com a geringonça alargada.
Como o comentador se declara «a favor da liberdade de expressão absoluta» devemos concluir que também é a favor da liberdade de expressão tout court mas apenas para exprimir o que ele achar que pode exprimir-se.
Pedro Gomes Sanches, um dos poucos comentadores que se desalinhou com estes entendimentos da liberdade de expressão, recordou uma decisão de 1969 do Supremo Tribunal americano no caso Brandenburg v. Ohio que estabelece o seguinte critério para os discursos de ódio, como hoje são chamados:
«A state may not forbid speech advocating the use of force or unlawful conduct unless this advocacy is directed to inciting or producing imminent lawless action and is likely to incite or produce such action.»
É um bom critério, que depara com grandes obstáculos para ser aplicado, sobretudo num país onde «a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas», como em tempos concluiu António Alçada Baptista.
20/05/2024
ESTÓRIA E MORAL: Liberdade de expressão não é poder dizer o que acham que pode ser dito
Estória
O Dr. Ventura e o Chega pretenderam criminalizar o Dr. Marcelo por traição à pátria por este ter expressado a sua opinião de que Portugal deveria reparar a prática de escravatura de que foram vítimas africanos dos territórios coloniais.
Todos os partidos representados no parlamento rejeitaram a queixa por traição à pátria apresentada pelo Chega.
No mesmo parlamento, o Dr. Ventura disse que «os turcos não são conhecidos por serem os mais trabalhadores do mundo», expressão que indignou deputados dos partidos que se tinham indignado pela queixa-crime do Chega contra o Dr. Marcelo.
Os mesmos ou outros deputados também se indignaram pelo presidente da AR ter permitido a expressão de juízos, como aquele, que eles consideram racista. E um spin-off do PSR, um partido de que foi líder o Dr. Louçã, apressou-se a considerar que o presidente não tinha condições para se manter na presidência da AR, por ter consentido e afirmar que «A liberdade expressão está constitucionalmente consagrada, não é uma liberdade sob ponderação do juízo de uma qualquer pessoa faça em relação àquilo que no discurso político é dito. Não haverá condicionamento na liberdade de expressão. A avaliação do discurso político que seja feito nessa casa será feito pelo povo em eleições se se revê nas suas posições.»
Moral
«Se liberdade significa alguma coisa, significa o direito de dizer às pessoas o que elas não querem ouvir.»
30/09/2023
How cynical leaders are whipping up nationalism to win and abuse power
«(...) The main drawback of paranoid nationalism is obvious. It is terrible for its targets, whether they be immigrants in Tunisia or Ukrainians whose land has been sown with mines. Neighbours of paranoid nationalist regimes have cause to be nervous, as anywhere that shares a border with Russia or China can attest.
The other big drawback is less well understood: politics based on bigotry opens the door to misrule and corruption. As Mr Putin has ratcheted up nationalist propaganda over the past two decades, his cronies have been plundering Russia. And though he is surely the most extreme example, he is far from alone. In fact, there is a clear statistical correlation between nationalism and corruption. (...)
Appeals to nationalism are effective because they are simple to understand, and far more emotive than any bread-and-butter policy proposal. “Vote for me and I’ll make incremental improvements to schools” is a fine platform but a dull slogan. “The tribe next door are attacking us!” is an electrifying one.
The enemy can take many forms. It could be immigrants, as in Tunisia. Or a geopolitical rival: Chinese and Russian propaganda constantly demonise America. Or a minority faith: India’s ruling party plays up the non-existent threat that Muslims, less than 15% of the population, pose to the Hindu majority.
Or the enemy could be cultural change. Many nationalist leaders describe any new social trend that makes people uncomfortable as foreign, or even a vicious attempt by foreigners to subvert their country’s values. Iran’s regime uses this argument about women’s rights; Uganda’s, about tolerance for gay people. Illiberal regimes habitually describe the values they oppose as alien, which is easier than explaining why they are wrong.
In country after country, incumbents have found that nationalist or sectarian arguments can be used to harass or exclude from office those who challenge the status quo. Iran’s corrupt theocracy insists that all presidential candidates meet its definition of Islamic piety. In 2021 it disqualified 585 of them, including all the would-be reformers, and allowed only seven to run. A new Polish law could bar from office politicians deemed to be unduly influenced by Russia; its probable target is Donald Tusk, a leading opposition candidate who is not pro-Russian at all. Since 2015, when Poland’s nationalist ruling party took charge, the country has grown eight points grubbier on the Corruption Perceptions Index.
A more nationalist government does not automatically mean a more corrupt one. It is possible for a country to become more tub-thumping, but no dirtier, at least for a while. However, in the long run, if a leader uses nationalism to erode checks and balances, it becomes easier for the people around him or his successors to plunder. This happened in Zimbabwe, where a nationalist autocrat who was far more interested in power than money, Robert Mugabe, failed to stop looting by his cronies and was ultimately overthrown by them.
Thus, regardless of the starting point, paranoid nationalism tends to make countries worse governed and less stable. A paper co-written by Abhijit Banerjee, a Nobel prize-winning economist, found that when voters pick candidates by ethnicity instead of, say, probity or competence, they end up with less honest, less competent representatives.»
Extract of How cynical leaders are whipping up nationalism to win and abuse power
04/05/2023
Dúvidas (358) - Deve o PR dissolver o parlamento ou demitir o governo se este governar mal? (2)
Continuação de (1)
Subitamente, mas não inesperadamente, a propósito das trapalhadas do Dr. Galamba, uma criatura mal-educada e pomposamente medíocre sobrevivente do socratismo, este tema saltou para o topo da agenda política e, como de costume, está a ser tratado do ponto de vista da intriga, das teorias da conspiração e do desejo de resolver nos gabinetes de Belém e S. Bento um assunto eleitoral. Com poucas excepções, como a de Vital Moreira, com quem não costumo estar de acordo, mas neste caso estou, quando escreve:
«Sucede que não existe nenhuma base constitucional para tal poder de tutela presidencial, pois o Governo não deriva a sua legitimidade política das mãos do PR nem é políticamente responsável perante ele, mas somente perante a AR. De igual modo, é domínio reservado do Primeiro-Ministro manter ou não a confiança nos seus ministros e decidir sobre eventual remodelação governamental.»
Na verdade, numa democracia liberal em que a legitimidade do governo lhe é dada por um parlamento eleito directamente, o presidente não pode demitir o governo porque governa mal, e muito menos pode dissolver o parlamento porque o primeiro-ministro não aceitou a demissão de um ministro que o presidente achava que devia. Isto do ponto de vista institucional.
Do ponto de vista puramente político, demitir por essa razão (o que aliás não pode fazer) ou por ter caído nas sondagens (que podem no mês que vem fazê-lo subir à pala do aumento das pensões) um governo eleito há 14 meses por maioria absoluta, seria um disparate. De resto, a demissão do governo, embora prejudicando as expectativas europeias do Dr. Costa, poupá-lo-ia também a uma provável punição pelo eleitorado no fim do mandato, dar-lhe-ia um pretexto para se vitimizar e o mesmo eleitorado que agora o pune nas sondagens poderia dar outra vez uma nova maioria ao PS. Numa democracia liberal não se deve descredibilizar as eleições e infantilizar os eleitores fazendo-os acreditar que podem votar levianamente porque, enganando-se, podem corrigir em qualquer altura.
28/04/2023
Dúvidas (357) - Deve o PR dissolver o parlamento ou demitir o governo se este governar mal? (1)
«Há duas ordens de razões para defender que a estabilidade é, até ver, o valor primordial. Comecemos pelas razões estruturais que são muito simples de explicar. Desde logo, o facto de o PS ter conquistado a maioria absoluta há pouco mais de um ano. Logo, o Governo tem clara legitimidade política para levar o seu mandato até ao fim.
O segundo ponto está relacionado com o facto de estarmos a falar de uma maioria absoluta de um só partido e de o primeiro-ministro António Costa ter sido relegitimado nas eleições antecipadas de janeiro de 2022.
E estas são duas grandes diferenças face ao contexto de 2004 — o exemplo que enche a boca do centro-direita. Isto é, o Executivo era então suportado por uma coligação de PSD/CDS que já tinha tido melhores dias e o então primeiro-ministro Pedro Santana Lopes não tinha sido eleito.
A razão mais importante, contudo, é outra: o país ficaria ingovernável no futuro, mesmo que viessem a existir outros governos de coligação ou governos de um só partido. Porquê? Porque bastaria que a oposição conseguisse criar uma série de casos e ‘casinhos’ na comunicação social, para nascesse automaticamente um cenário de eleições antecipadas.»
Concordo com as três razões apontadas por Luís Rosa, duas formais e a terceira política, mas encontro ainda outras razões não menos importantes para defender que o governo deve continuar, salvo se.
(Voltarei a este assunto)
04/12/2022
CASE STUDY: Tirania e manipulação andam de mãos dadas
Há muito que se suspeita da manipulação sistemática dos dados económicos publicados pelos organismos oficiais de países não democráticos, em que não funciona de facto a separação de poderes, não existem contrapoderes e muito menos instituições que auditem a fiabilidade da informação oficial.
Em 2017, o economista Luís Martinez da Universidade de Chicago levou a cabo um estudo comparativo das taxas oficiais de crescimento do PIB com as estimativas de crescimento do PIB inferidas a partir da variação da intensidade das luzes nocturnas capturadas por satélites. O estudo «How Much Should We Trust the Dictator’s GDP Growth Estimates?» foi actualizado, sujeito a peer review e republicado recentemente.
| Economist |
19/11/2022
Encalhados numa ruga do contínuo espaço-tempo (100) - Os portugueses não apreciam a liberdade. Em consequência, a maioria detesta o capitalismo
Não por acaso, o pensamento desde há muito em curso aqui no (Im)pertinências de António Alçada Baptista reza assim:
«Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.»
Ora sendo os mercados e o capitalismo essencialmente a democracia liberal e as suas instituições a funcionarem na economia, é certamente natural que a falta de gosto dos portugueses pelas liberdades - visível pelas quase cinco décadas do Estado Novo, pela sobrevivência de um dos apenas seis partidos comunistas europeus com representação parlamentar, pelo peso dos partidos hostis à democracia liberal (maioritários se incluirmos os que apenas a toleram) - se traduza em desapego, na melhor hipótese, ou rejeição do capitalismo, na hipótese mais frequente.
Por isso, não deveriam surpreender os resultados dos inquéritos de opinião que Rainer Zitelmann incluiu no seu livro «Em Defesa do Capitalismo», recentemente publicado em português pela Aletheia, resultados que em relação a Portugal foram citados no artigo do Observador «O que pensam as pessoas em Portugal a respeito do Capitalismo?»
Esses resultados dão-nos um retrato à la minute do anticapitalismo dominante no Portugal dos Pequeninos, onde ressaltam os seguintes traços:
- 40% entendem que deve ser o Estado a fixar preços e salários
- 79% associam ao capitalismo ganância e 75% corrupção
- As apreciações positivas sobre o capitalismo são partilhadas por uma pequena maioria entre 10% e 20%.
28/10/2022
22/10/2022
As raízes da rejeição da democracia e da devoção pela tirania
Paulo Tunhas escreveu há dias no Observador sobre «O amor da tirania», um tema que me fascina por não ter até hoje encontrado uma boa explicação pelo fascínio pelas tiranias e pela devoção dos tiranos, ou candidatos a tiranos, de que sofrem, digamos assim, milhões de criaturas um pouco por todo o mundo.
No geral tendo a concordar com Paulo Tunhas, excepto na sua conclusão de que o móbil da rejeição da democracia («num sentido lato e convenientemente impreciso») é o amor à tirania o que ele explica assim:
«Muita gente discute se o motor desta rejeição da democracia e da liberdade tem uma origem primeiramente negativa ou positiva. Dito de outra maneira: se aquilo que verdadeiramente a motiva é a detestação dos Estados Unidos e do Ocidente ou o puro amor pela força bruta e pela mentira incondicionada de que esta se serve para atingir os seus fins. Bom, é certo que nenhum dos factores é completamente isolável do outro. Mas é verosímil que seja o elemento por assim dizer positivo que represente a força dominante. A afirmação é, regra geral, prévia por relação à negação. O amor da força bruta – o amor da tirania – goza de uma certa precedência por relação à rejeição da liberdade. A força bruta e a mentira alucinada que a acompanha como justificação oferecem um excesso de sentido que satisfaz muitos espíritos. São uma pura afirmação liberta das condições limitativas da razoabilidade. No acto do seu exercício e na curiosa libertação que nos garantem face à obrigação do respeito pelos factos. Amar a tirania é, para o egoísmo lógico em geral – tanto o inconsequente quanto o consequente, e sobretudo para este último -, mais satisfatório do que amar a liberdade. A tirania do Eu encontra nesse amor uma ilimitação que dificilmente o amor da liberdade lhe permitiria.»
Sendo certo que também considero que «nenhum dos factores é completamente isolável do outro», tendo a concluir que é ódio à democracia que motiva o fascínio pelas tiranias e pela devoção dos tiranos. Ódio que, em boa verdade, possivelmente não é tanto à democracia em si mas às suas talvez inevitáveis consequências, nomeadamente as que essas criaturas abominam, como a relativização do que acham é a moral e os bons costume (a "libertinagem") e o questionar da autoridade (a "anarquia"), para dar dois exemplos.
E chego a essa conclusão por duas ordens de razões. Por um lado, porque tenho dificuldade em compreender que alguém possa ter fascínio por tiranias e devoção por tiranos quando são tão visíveis as consequências da privação das liberdades, dos abusos de autoridade, da violência contra os cidadãos, da intolerância das divergências e em última instância da pobreza ou mesmo da miséria que quase sempre resulta das tiranias que não desfrutam da "maldição dos recursos naturais".
E também porque compreendo melhor que essas criaturas rejeitem os excessos e os abusos da liberdade que frequentemente coexistem com a democracia e tenham dificuldade de aceitar racionalmente que a democracia não é perfeita e é simplesmente a forma de governo menos má ou, como concluiu Churchill, a pior com excepção de todas as outras.
Finalmente porque a evidência empírica parece mostrar que nas sociedades democráticas onde as diferenças ideológicas são mais exacerbadas e as guerras culturais entre os clãs mais intensas é o ódio a certas ideias e a certos valores que constitui o motor principal dos extremismos, mais do que a identificação positiva, isto é o amor, pelas tiranias.
28/08/2022
CASE STUDY: Chuva na eira e sol no nabal na América Latina
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| Inequality in Latin America is fuelling a new wave of populism |
11/06/2022
Dúvidas (337) - Entre a imperfeição das democracias e a perfeição das tiranias, o que escolher?
Era uma vez um@ comunista, mas poderia ser um@ esquerdista, um@ fundamentalista islâmic@, um@ ultranacionalista ou um@ antiglobalista, que um dia chega a sua casa e encontra a namorad@ / companheir@ / mulher / marido / espos@ na sua própria cama com um ser que menstrua/provid@ de pénis. Indignad@, sai de casa e vai manifestar-se em frente à embaixada americana.
As embaixadas americanas são dos poucos locais onde é possível um@ esquerdista partilhar o espaço de manifestação com direitistas, ainda que em dias diferentes (e diferentes ocupantes da Casa Branca). São como um lugar de peregrinação para as legiões de inimigos da liberdade.
18/05/2022
Lembrai aos ocidentais ressentidos que o Ocidente não é um mito e se fosse era um belo mito
«Ocidente não é um mito e se fosse era um belo mito. Mas é uma realidade tangível, feita de instituições morais e sociais. O Governo constitucional, assente na minimização do arbítrio e na maximização do direito não é um mito. É um legado da república romana. A faculdade democrática de despedirmos os nossos governantes e escolhermos outros também não é um mito. É um legado de Atenas. A inviolabilidade dos direitos, liberdades e garantias individuais também não é um mito. Funda-se na proclamação da dignidade da pessoa humana e na fundamental igualdade entre todos os Homens, cada um sendo um fim em si mesmo. É um legado do cristianismo, uma religião nascida no Médio Oriente helenizado. O espaço público aberto à livre expressão das opiniões e das ideias também não é um mito. É o segredo do progresso e da adaptabilidade das democracias liberais às circunstancias novas e imprevistas, condição indispensável da inovação e da mudança. Sócrates foi condenado porque Atenas era democrática mas não era liberal. Platão e Aristóteles não se restabeleceram dos abusos democráticos. Não acreditavam que o bom, o belo e o justo fossem alcançáveis de braço no ar. As suas admoestações e advertências vigoraram até ao século XVIII, no cristianismo e no governo dos Homens, até à grande revolução.
O comunismo foi uma aberração do racionalismo e do elitismo platónico, metastizado no vanguardismo. Resultou numa experiência histórica atroz, que converteu parte do Ocidente numa sucursal sem Deus das teocracias orientais. O parto do Ocidente foi doloroso, repleto de crimes e padecimentos. O Ocidente, carregado de cicatrizes, é a síntese a que chegámos, sofridamente, e a que não podemos renunciar, pois fora dele só há trevas, como diriam os romanos do mundo exterior.
O Ocidente há muito deixou de ser um conceito geográfico. O Gabão pode ser ocidental, se assim o escolher e se disso for capaz. A internet e a aviação fizeram com que o Gabão esteja hoje infinitamente mais perto de nós do que nós, nosso canto ocidental, estávamos da Atenas do século V a.c.. O Ocidente não é um mito, mas pode ser uma meta.
A China levanta-se da servidão coletivista porque decidiu ocidentalizar-se. A força da China advém do seu sistema económico, tecnológico e militar copiado do Ocidente. A dívida da China ressurgente para com Mao é zero. Mao é apenas o legitimador da dinastia reinante, a dinastia do imperador coletivo.
Nenhuma fatalidade histórica empurra a Rússia para a autocracia. Os ocidentais ressentidos com o Ocidente — uma agremiação heterogénea — imaginam a Rússia como uma nova Esparta, feita de guerreiros indiferentes ao baixo materialismo de um Ocidente corrompido pelo luxo, que marcham com uma arma na mão esquerda e “Os Irmãos Karamazov” na direita. Os russófilos de direita pensam que estão perante o exército branco do almirante Kolchak. Os de esquerda imaginam Trotskys aos pontapés a desaguar no Donbas, saltando de comboios blindados.
Tudo isso integra a grandeza do Ocidente: trocámos um mundo de servos e senhores pelo caótico pluralismo democrático e pela concomitante e inevitável abundância de maluquinhos. Podem abjurar o Ocidente, onde têm a cautela de residir, mas não o podem substituir pelas fantasias da sua predileção. E é assim que deve ser, para nosso merecido descanso.»
Os maluquinhos, Sérgio Sousa Pinto
14/04/2022
CASE STUDY: A atracção pelos tiranos e pela tirania (1)
A aceitação de Putin (podia ser de outro qualquer tirano), ou a devoção nos casos extremos, é mais um exemplo de como a distinção clássica direita-esquerda é em muitos casos inadequada. No caso de Putin, como de outros, encontramos devoção e aceitação da criatura à direita e à esquerda.
À esquerda é mais a aceitação, ditada geralmente por razões tácticas - o inimigo (Putin) do meu inimigo (Ocidente, Estados Unidos) é meu amigo - e à direita é mais devoção por razões ideológicas - pátria, autoridade e moral, que supõem inspiram o tirano, contra o que chamam o globalismo, a anarquia e a devassidão, que acreditam contaminam o Ocidente, ou a América para ser mais preciso, e inspiram os seus líderes fracos e corruptos. O que há de comum entre uns e outros? A recusa das liberdades, ou mesmo o ódio às liberdades, e em consequência a recusa da democracia liberal como regime político.
Num caso como noutro, para dar um módico de racionalidade e justificar a aceitação ou a devoção pelo tirano e pela tirania, é indispensável construir uma realidade paralela baseada em factos alternativos, isto é, distorções dos factos reais, na melhor hipótese, ou mentiras puras e duras, o mais das vezes. No caso da direita, em que há uma adesão mais emocional e autêntica, e por vezes uma identificação com o tirano e o seu culto pessoal, as teorias da conspiração têm um papel insubstituível.
Na esquerda portuguesa, o PCP é um bom exemplo de construção de uma realidade paralela baseada em factos alternativos. Para poupar no latim, remeto os leitores para o dossier «SOBRE A SITUAÇÃO NA UCRÂNIA - ELEMENTOS PARA A COMPREENSÃO» no site do PCP, seguido da leitura do artigo de opinião de Fernanda Câncio «Os "15 mil mortos no Donbass" e outros factoides do PCP» (sim, essa antiga amiga ou namorada do Eng. Sócrates, que assim resgata alguns dos seus maus passos com o animal feroz), artigo em que, a propósito de uma conversa no Twitter do ex-deputado do PCP Miguel Tiago, Câncio autopsia a versão comunista dos antecedentes e da génese da invasão da Ucrânia pelo exército russo.
(Continua)



