Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

16/05/2022

Semanário de Bordo da Nau Catrineta comandada pelo Dr. Costa no caminho para o socialismo (14)

Continuação das Crónicas: «da anunciada avaria irreparável da geringonça», «da avaria que a geringonça está a infligir ao País» e «da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa». Outras edições do Semanário de Bordo.

A geringonça municipal como antena putinesca

Primeiro, ficaram a conhecer-se os episódios da delação persistente pela câmara de Lisboa presidida pelo Dr. Medina, candidato a sucessor do Dr. Costa, dos dados pessoais dos organizadores de manifestações a várias embaixadas, nomeadamente à da Rússia de Putin.

Agora foi a vez da câmara de Setúbal, presidida por comunistas, que tem russos putinescos na Linha Municipal de Apoio aos Refugiados os quais pediram cópias dos passaportes e informações detalhadas aos refugiados ucranianos sobre os seus familiares na Ucrânia.

A solução dos socialistas para as falhas do socialismo é mais socialismo e mais Estado Sucial

A despesa pública total ultrapassou em 2021 os cem mil milhões de euros (101.727 milhões) graças ao aumento das despesas correntes já que as despesas de capital voltaram a diminuir para 8 mil milhões por força do expediente que tem feito do investimento público a autoestrada mexicana do PS.

«Empresa Financeiramente Apoiada Continuamente (pelo) Estado Central»

Não chegam os dedos das mãos e dos pés para contar as vezes que o antigo ministro da Economia anunciou durante seis anos a venda da EFACEC. O actual não lhe quer ficar atrás e já entrou na corrida tendo dado a Boa Nova quase todas as semanas, a última delas na quinta-feira passada anunciando o feliz desenlace para o fim de Junho. Tomai nota.

No Estado Sucial não há conflito de interesse. Há interesses em conflito

O ex-ministro Siza Vieira que anunciou, em vão, vezes sem conta, a venda da EFACEC nunca anunciou o seu envolvimento na concessão da nacionalidade portuguesa ao oligarca Abramovitch cujas ligações à comunidade sefardita devem ser mais ténues do que as deste vosso escriba – como é conhecido a partir da sexta ou sétima iteração é quase impossível não encontrar um elo de ligação entre duas pessoas quaisquer.

«Em defesa do SNS, sempre»

As Urgências do Hospital de São João no Porto receberam 1.022 “utentes” na segunda-feira da semana passada, afluxo que, não obstante contar com apenas 53 testes positivos, foi prontamente atribuído pelo jornalismo de causas a um novo surto da Covid. Enquanto isso, ninguém se questiona seriamente sobre as causas da afluência às urgências na sua maioria por casos sem gravidade.

Como mais uma presumível consequência da paixão socialista pelo SNS, os sistemas e os técnicos informáticos dos hospitais estão completamente impreparados para lidar com o cibercrime. O hospital Garcia de Orta que foi alvo de um ataque há três semanas continua sem acesso aos sistemas e a recorrer ao papel.

No ano passado, as viaturas do INEM estiveram sete mil horas inoperacionais, dos quais 5.400 horas por falta de tripulação, o valor mais alto desde 2014.

15/05/2022

What if Russia was losing the war on the ground and winning the war on the sanctions?

«Russian forces are struggling in Ukraine – the latest fiasco being the destruction of almost an entire battalion while trying to cross the Siverskyi Donets River. But the sanctions war? That does not appear to be going quite so badly for the Russians. At the beginning of the invasion there were assertions that this might be the first conflict won by the West by economic forces alone, without the need for a single western soldier to fire a weapon. Sanctions were immediately imposed, as well as the freezing of Russian assets. But two-and-a-half months on it is western economies which are struggling to cross metaphorical rivers, while the Russian economy has managed to dig in surprisingly well.

EuroIntelligence looked at figures for the Russian balance of payments – something the country no longer publishes, but which can be calculated from the figures other countries publish on their trade with Russia. Remarkably, it found that the value of Russia’s imports fell by 44 per cent last month – but the value of its exports rose by 8 per cent. While Europe talks of trying to reduce its reliance on Russian oil and gas, it is still importing significant volumes.

Moreover, the price that Europe is having to pay for its oil and gas has surged as a direct result of the war – in other words, sanctions are helping to boost the value of Russia’s exports. It is not just oil and gas, either: Europe continues to rely on imports of nickel, chrome, copper, palladium and aluminium. While European countries have at least tried to cut their imports from Russia, many of the country’s other buyers see no need to do so: the value of China’s imports from Russia surged 56 per cent last month. Much of the oil and gas which has stopped flowing to Europe has simply been redirected to Asia.

This doesn’t mean everything is rosy with the Russian economy. The 44 per cent plunge in Russia’s imports last month tells a story of its own: foreign goods which were previously being bought by Russian consumers are no longer getting through. But what it does mean is that Russia’s trade balance is rapidly building a surplus. Last year, Russia had a trade surplus of $120 billion: this year it could be twice that. Russia might have been militarily embarrassed and its citizens might be suffering from shortages in the shops, as well as losing their freedoms as a result of Vladimir Putin’s repressive rule. But the West won’t drive Russia to bankruptcy – at least for the foreseeable future.»


«Is Russia winning the sanctions war?», Ross Clark, The Spectator newsletter

14/05/2022

Pro memoria (422) - O Dr. Rendeiro foi um pentelho na pentelheira socialista, um pentelho sem pedigree, filho de um sapateiro, só podia acabar assim

Pentelhos anteriores: PrimeiroSegundo e Terceiro.

Em retrospectiva:

Nos últimos meses as televisões e os jornais foram assaltados por resmas de jornalistas de causas, políticos comentadores e opinion dealers que nos intervalos de nos acagaçarem com a pandemia nos ensopam as meninges com os feitos do Dr. Rendeiro, como se de repente a criatura fosse o responsável por todos os desastres por que este país tem passado pela mão de vários governos, com um especial destaque para os governos do PS com os seus apparatchiks e toda a tralha que trazem pendurada e onde se penduram.

«(...) e quando a tendência do direito penal é para punir menos tempo, Rendeiro apanhou ao todo 19 anos de cadeia. Isto faz sentido? Faz, se analisarmos o fenómeno da ascensão social em Portugal. João Rendeiro continua a ser descrito como “filho de um sapateiro”. Este pecado imperdoável fez dele um milionário diferente de Ricardo Salgado, protegido pela dinastia de que era a cabeça e a providência, o distribuidor de fundos e de dinheiro, ao ritmo de milhões por mês, para manter o clã abastado e contente. João Rendeiro nunca teve uma das proteções nacionais que asseguram ou a impunidade ou o débil juízo moral.» (Clara Ferreira Alves, no Expresso)

Epílogo

«João Rendeiro, antigo presidente do BPP, foi encontrado morto na cela da prisão da África do Sul onde se encontrava em prisão preventiva, aos 69 anos. A notícia foi avançada pela CNN Portugal e confirmada pelo Observador junto de June Marks, advogada de Rendeiro, que se preparava para deixar de representar o antigo banqueiro por falta de pagamento pela sua representação legal. “Os fundos dele esgotaram-se há quatro dias.”» (Observador)

Suicidado ou assassinado? Na pior prisão da África do Sul, com uma população prisional dez vezes superior à lotação, numa cela com mais umas dezenas de prisioneiros, é igual ao litro. Enquanto isso, comparem-se os 43 milhões que ainda faltam recuperar do BPP do Dr. Rendeiro com os milhares de milhões do GES de um Dr. Ricardo Salgado possuidor de um currículo criminal muito mais extenso, dispensado de comparecer em tribunal, fazendo férias na Sardenha, tratado com reverência respeitosa pelo jornalismo de causas, que chama para o seu julgamento dezenas de testemunhas entre as quais um ex-primeiro-ministro, o presidente do BdP e outras luminárias. Às eventuais condenações do Dr. Salgado nos vários processos em que é arguido seguir-se-ão recursos que muito provavelmente lhe permitirão bater a bota em descanso na sua confortável mansão.

Moral da estória

Os ricos são todos iguais mas há uns mais iguais do que outros, tudo dependendo se nasceram filhos de sapateiros ou de banqueiros.

13/05/2022

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (73) Unintended consequences (XXV)

Outras marteladas.

Recapitulando:

O intervencionismo do BCE, que copiou com atraso a Fed e o BoE, adoptando o alívio quantitativo e as taxas de juro negativas ou nulas, desde o «whatever it takes» do Super Mario de Julho de 2012, é parecido como terapêutica com a sangria dos pacientes praticada pela medicina medieval para tratar qualquer doença, incluindo a anemia. 

Agora, com a inflação a caminho, as medidas para a conter, depois de mais de uma década de alívio quantitativo e em cima dos incentivos relacionados com a pandemia, do aumento do preço dos combustíveis e, por último, das consequências da invasão da Ucrânia, arriscam-se a  criar uma recessão, como faz notar o texto seguinte da Economist.

«Uncle Sam has been on a unique path because of Mr Biden’s excessive $1.9trn fiscal stimulus, which passed in March 2021. It added extra oomph to an economy that was already recovering fast after multiple rounds of spending, and brought the total pandemic stimulus to 25% of gdp—the highest in the rich world. As the White House hit the accelerator, the Fed should have applied the brakes. It did not. Its hesitancy stemmed partly from the difficulty of forecasting the path of the economy during the pandemic, and also from the tendency of policymakers to fight the last war. For most of the decade after the global financial crisis of 2007-09 the economy was hung over and monetary policy was too tight. Predicting inflation’s return was for those who wore tinfoil hats.

Yet the Fed’s failure also reflects an insidious change among central bankers globally. As our special report in this issue explains, around the world many are dissatisfied with the staid work of managing the business cycle and wish to take on more glamorous tasks, from fighting climate change to minting digital currencies. At the Fed the shift was apparent in promises that it would pursue a “broad-based and inclusive” recovery. The rhetorical shift ignored the fact, taught to every undergraduate economist, that the rate of unemployment at which inflation takes off is not something central banks can control.

In September 2020 the Fed codified its new views by promising not to raise interest rates at all until employment had already reached its maximum sustainable level. Its pledge guaranteed that it would fall far behind the curve. It was cheered on by left-wing activists who wanted to imbue one of Washington’s few functional institutions with an egalitarian ethos.

The result was a mess which the Fed is only now trying to clear up. In December it projected a measly 0.75 percentage points of interest-rate rises this year. Today an increase of 2.5 points is expected. Both policymakers and financial markets think this will be enough to bring inflation to heel. They are probably being too optimistic again. The usual way to rein in inflation is to raise rates above their neutral level—thought to be about 2-3%—by more than the rise in underlying inflation. That points to a federal-funds rate of 5-6%, unseen since 2007.

Rates that high would tame rising prices—but by engineering a recession. In the past 60 years the Fed has on only three occasions managed significantly to slow America’s economy without causing a downturn. It has never done so having let inflation rise as high as it is today

12/05/2022

Pro memoria (421) - Berardo quer contribuir para a educação dos banqueiros e dos políticos do regime que o alimentou

Flash back (há 13 anos):

A estória é conhecida. Joe Berardo compra acções do Millenium bcp com empréstimos, primeiro da Caixa (onde à época era presidente Santos Ferreira, o presidente do Millenium bcp que sucedeu a Filipe Pinhal, homem de confiança de Jardim Gonçalves), do BES (por esta e por outras razões Filipe Pinhal escreveu o que escreveu sobre Ricardo Salgado, o banqueiro do regime socialista) e do Santander. Depois do afastamento da administração Filipe Pinhal, o próprio Millenium bcp financiou Berardo na compra de mais acções do próprio banco. Santos Ferreira reeditava assim um processo semelhante ao de Jardim Gonçalves.

A coisa correu mal porque as acções do Millenium bcp, que Berardo deve ter comprado a um preço médio de cerca de 2 euros, foram caindo até quase 50 cêntimos. Correu mal para Berardo e para os bancos que o financiaram, a quem Berardo tinha oferecido como garantia as próprias acções do BCP. O Santander, que não faz parte complexo político-empresarial socialista português (nem do espanhol), perante a insuficiência da garantia exigiu um reforço e dispunha-se a executar a dívida se tal não acontecesse. Pelo caminho Berardo ofereceu como garantia, que o Santander recusou mas os bancos do regime aceitaram, a colecção de arte que o governo de Sócrates alojou no CCB a expensas dos sujeitos passivos.

O desfecho do episódio, revelado pelo Expresso e não desmentido por Berardo, foi o Millenium bcp, cujo Conselho de Remunerações é presidido por Berardo, prestar uma garantia à primeira interpelação (on first demand) ao Santander, pessoalmente aprovada por Santos Ferreira, que já tinha aprovado empréstimos, primeiro na Caixa e depois no Millenium bcp.

Ver também os posts da etiqueta Porque ri Berardo?

Fast forward (13 anos depois):

«Joe Berardo diz que todo o processo das dívidas à banca lhe provocou elevados danos morais, inclusivamente uma profunda depressão, e reclama uma indemnização de pelo menos 100 milhões de euros, com a qual pretende, em parte, financiar bolsas de estudo a gestores bancários e cursos de ciência política aos deputados.

Na ação que colocou contra Caixa Geral de Depósitos (CGD), BCP, Novobanco e BES, o comendador diz-se vítima de quem o quer rotular de “Responsável Disto Tudo”, de quem o acusa de ser o causador de “todos os males da banca” que teve de ser socorrida pelos contribuintes, numa estratégia concertada para mascarar as falhas das próprias instituições financeiras, do Banco de Portugal e do Governo.»

11/05/2022

PUBLIC SERVICE: On Tyranny (8)

On Tyranny, Timothy Snyder

Say what you really think, especially if what you think is not popular.

10/05/2022

CASE STUDY: Masters in Wage Squeezing

Num paper recentemente publicado «Eclipse of Rent-Sharing: The Effects of Managers' Business Education on Wages and the Labor Share in the US and Denmark», Daron Acemoglu, Alex He e Daniel le Maire reportam a análise que realizaram dos CEO americanos e dinamarqueses, concluindo que os graduados com um MBA aumentaram a rentabilidade dos activos das suas empresas nos cinco anos seguintes às suas nomeações em média 3 e 1,5 pontos percentuais, respectivamente.

Até aqui nada de surpreendente, afinal eles foram treinados para gerir melhor as empresas. Surpreendente é essas melhorias da rentabilidade não se terem ficaram a dever ao aumento do volume de negócios, dos investimentos ou da produtividade, mas antes à redução dos salários dos trabalhadores, que nesses cinco anos desceram 6% e 3%, respectivamente.‎

Tudo porque, segundo os autores, ‎‎os‎‎ programas de MBA mudaram o foco do know-how financeiro e de gestão para a maximização do valor para os acionistas e, em consequência, os trabalhadores tenderam a ser encarados não como investimento em capital humano mas como custos a reduzir.‎

É claro que essa redução em termos relativos dos salários só foi possível como consequência negativa da globalização da produção que retirou poder negocial aos trabalhadores dos países desenvolvidos, em contraponto aos benefícios para os dos países menos desenvolvidos para onde se deslocalizou a produção e para os trabalhadores dos países mais desenvolvidos pelo acesso a produtos a preços mais baixos. Mas isso é outra história.

09/05/2022

Semanário de Bordo da Nau Catrineta comandada pelo Dr. Costa no caminho para o socialismo (13)

Continuação das Crónicas: «da anunciada avaria irreparável da geringonça», «da avaria que a geringonça está a infligir ao País» e «da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa». Outras edições do Semanário de Bordo.

O semanário tarda mas não falha

Por razões várias, o semanário não foi publicado a semana passada e ficou quinzenário. A partir de agora retoma-se a periodicidade semanal.

O muro que o Dr. Costa diz ter derrubado caiu-lhe em cima

Com a invasão da Ucrânia, a colagem dos comunistas a Putin e o episódio da vereação comunista de Setúbal entregar a recepção dos refugiados ucranianos ao espião russo que era apparatchik da câmara, descobriu-se que afinal o muro derrubado pelo Dr. Costa lhe caiu em cima. Talvez perturbado por isso, a propósito do preço dos combustíveis, «António Costa de quarta-feira corrige António Costa de segunda, já António de sábado desanca os dois anteriores»

Então não estamos a crescer mais do que a Óropa? 

Fonte

E o que dizer à espantosa ambição de um líder empresarial de «recolocar Portugal no Top 15 dos países europeus mais ricos em 2030», ou seja, onde Portugal estava há 28 (vinte e oito) anos atrás no Top 13 dos países europeus mais pobres.

Já virámos a página da austeridade

Apesar do aumento do salário mínimo, a inflação pode fazer cair o salário médio entre 0,6% e 2,8% representando a maior queda desde os anos do resgate e a intervenção da troika que o Eng. Sócrates nos legou antes de ir estudar para Paris.

(Helena Garrido)

Até a freguesia eleitoral do PS ficou pior do que nos tempos do governo “neoliberal”, sem grandes protestos graças à cumplicidade de comunistas e berloquistas nos tempos da geringonça e da imprensa amiga, sempre.

08/05/2022

É possível enganar muita gente durante algum tempo


Uns ganharam, outros perderam, e os conservadores perderam maciçamente 320 lugares em Inglaterra, 63 na Escócia e 67 no País de Gales. Foi o resultado da liderança errática e dos escândalos do catavento mediático Boris Johnson a quem nem mesmo o teatral e pouco sincero apoio à Ucrânia salvou do desastre. 

Spectator

07/05/2022

Na história do Portugal dos Pequeninos, o século XXI não é assim tão diferente do XIX (3)

Continuação de (1) e (2).

Lendo «O Fundo da Gaveta» de Vasco Pulido Valente, dei comigo a pensar que, mudando a época, as modas e os protagonistas, o Portugal do século XIX me faz lembrar o Portugal da III República. Nos posts desta série cito algumas passagens que mais intensamente evocam essa ideia.

O desenvolvimento e a “descentralização”

Os males do desenvolvimento só se curavam com mais desenvolvimento. Aumentasse a produção que aumentaria a receita fiscal, diminuiria o défice e os preços desceriam. Tratava-se de persistir na mesma direcção. Não de negar os «grossos subsídios» indispensáveis à construção de comunicações e portos ou de restringir a liberdade do mercado.

Quanto ao resto, a fusão oferecia as consolações habituais, copiadas do programa clássico do progressismo. Oferecia-as, porém, com restrições e sem descer a pormenores. Prometia conter as despesas do Estado, mas pela abolição das despesas inúteis e a «severa restrição das acessórias e secundárias», não, como insistia em sublinhar, pela «supressão» ou «cerceamento» das restantes. Aludia, de passagem, à injustiça fiscal, sem declarar qualquer intenção de a corrigir. Falava em «simplificação e descentralização» administrativas como meios de reduzir o défice e de promover a iniciativa local, abstendo-se de mencionar formas e prazos. Não esquecia o tropo obrigado sobre as vantagens da moralidade na governação. Finalmente, acabava com o usual elogio à instrução e, implicitamente, dava-se como objectivo organizar uma instrução profissional, «adaptada às conveniências e aptidões regionais»; e difundir a instrução primária «até às últimas camadas».

As omissões do manifesto da fusão eram tão importantes como a sua letra. Não existia nele palavra sobre reformas políticas.

[Do capítulo Ressurreição e morte do radicalismo (1864-1870)]

(Continua)

06/05/2022

Lost in translation (360) - Estar vivo é o contrário de estar morto

"Recolocar Portugal no Top 15 dos países europeus mais ricos em 2030” – e uma etapa intermédia: “atingir um crescimento económico de 5,2% ao ano (2023-30), pelo impulso da produtividade, competitividade e emprego”. 

Intrigado com este enigmático statemente do Dr. Luís Miguel Ribeiro, presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP), submeti-o ao web bot de AI com machine learning baseada numa Neural Network com acesso a servidores de Big Data

Fonte

Alguns segundos depois o web bot piscou bullshit vinte e três vezes no écran e devolveu a seguinte tradução em português corrente:

Recolocar Portugal onde estava há 28 (vinte e oito) anos atrás ou seja no Top 13 dos países europeus mais pobres.

05/05/2022

¿Por qué no te callas? (30) - Francisco e Lula, a mesma luta

Imaginemos que o papa Francisco e Lula da Silva assistissem a uma tentativa de estupro e comentassem em uníssono que ela era uma galdéria vaidosa, estava mesmo a pedi-las, provocara o estuprador e queria mesmo ser estuprada, que os amigos dela ao tentarem protegê-la estavam também eles a provocar o estuprador, que ela não deveria ter-lhe dado um pontapé nos tomates, porque o estuprador até não era má pessoa e bem poderia ter tido sexo consentido com ele.   

Difícil de acreditar? Pois foi mais ou menos isso que as duas personalidades disseram mutatis mutandis a respeito da brutal agressão de Putin à Ucrânia.

«O Papa Francisco disse que o "latido da OTAN na porta da Rússia" poderia ter levado à invasão da Ucrânia e que não sabia se outros países deveriam fornecer mais armas à Ucrânia.‎ (...) Ele descreveu a atitude da Rússia em relação à Ucrânia como "uma raiva que não sei se foi provocada, mas talvez facilitada" pela presença em países próximos da Organização do Tratado do Atlântico Norte.‎» (entrevista ao Corriere Della Sera citada pelo Wall Street Journal)

(Zelensky) quis a guerra. Se ele [não] quisesse a guerra, ele teria negociado um pouco mais. É assim.  (...) As pessoas estão estimulando o ódio contra o Putin. Isso não vai resolver! É preciso estimular um acordo. Mas há um estímulo [ao confronto]! Você fica estimulando o cara [Zelensky] e ele fica se achando o máximo. Ele fica se achando o rei da cocada, quando na verdade deveriam ter tido conversa mais séria com ele: ‘Ô, cara, você é um bom artista, você é um bom comediante, mas não vamos fazer uma guerra para você aparecer’. E dizer para o Putin: ‘Ô, Putin, você tem muita arma, mas não precisa utilizar arma contra a Ucrânia. Vamos conversar!’  (Entrevista de Lula da Silva à edição brasileira da Time

04/05/2022

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: O povo do Portugal dos Pequeninos é um bocadinho lerdo

«Celebram-se 48 anos sobre o 25 de Abril de 1974. 48 anos é o tempo que um português precisa para perceber que uma ditadura é uma ditadura. Foi assim com o Estado Novo e é assim com o PCP. Ao fim de 48 anos a declarar-se vítima de agressões mal era questionado, a reconhecer nazis e fascistas em qualquer um que lhe denunciava a táctica e a dizer-se provocado sempre que era criticado, o PCP passou a ser identificado como aquilo que é e sempre foi: um partido que retira todas as vantagens das democracias a que chama burguesas e capitalistas enquanto apoia as ditaduras mais sinistras que o mundo conhece e conheceu. Face ao tempo necessário para que em Portugal se constate o óbvio, pode com segurança concluir-se que, politicamente falando, os portugueses são de compreensão lenta. Tão lenta que provavelmente só daqui a meia dúzia de anos começarão a interrogar-se sobre os bastidores da geringonça. Mas mais vale tarde que nunca.»

Um país de compreensão lenta, Helena Matos no Observador

03/05/2022

CONDIÇÃO FEMININA: O mulherio português tem cada vez menos razões de queixa

The Economist

O ‎glass-ceiling index da Economist mede o papel e a influência das mulheres na força de trabalho incluindo dez factores, entre os quais a diferença salarial entre os sexos, licença parental, o custo das creches, e representatividade na gestão de topo e nos cargos políticos. ‎

No diagrama acima estão representados os valores desse índice para 29 países da OCDE. Com valores mais elevados estão os países nórdicos e com valores mais baixos o Japão e Coreia do Sul, onde as mulheres têm de escolher entre família e carreira profissional.

Portugal foi o país onde índice mais subiu entre 2016 e 2021 de 12.º para 5.º lugar só superado pelos país nórdicos. É difícil encontrar algum outro índice onde Portugal tenha melhor desempenho, com excepção talvez do índice da dívida pública/PIB. 

01/05/2022

Na história do Portugal dos Pequeninos, o século XXI não é assim tão diferente do XIX (2)

Continuação de (1).

Lendo «O Fundo da Gaveta» de Vasco Pulido Valente, dei comigo a pensar que, mudando a época, as modas e os protagonistas, o Portugal do século XIX me faz lembrar o Portugal da III República. Nos posts desta série cito algumas passagens que mais intensamente evocam essa ideia.

A fusão como prenúncio do bloco-central

Qualquer alternativa definida rejeitaria por natureza uma ou várias facções, quanto mais não fosse a unha branca do próprio Loulé, e, nessa medida, agravaria o conflito, já intenso; provocaria mais divisões; e, admitindo que conseguisse prevalecer, não conseguiria com certeza governar. Um postulado estava implícito ao pensamento da oposição: o de que só o Estado poderia estabelecer alguma disciplina política. O objectivo consistia por isso em associar ao Estado o máximo de personalidades, grupos e interesses, distribuindo igualitariamente as benesses e a influência e não afastando senão os inconciliáveis. Criticava-se Loulé, como antes Costa Cabral, pelo seu «exclusivismo», isto é, por usar os lugares, 0 dinheiro e a autoridade do Estado em exclusivo proveito dos históricos; queria-se inverter este critério, diluindo as fronteiras partidárias e criando uma única força, coesa e universal.

A este programa se chamou apropriadamente a «fusão».

[Do capítulo Ressurreição e morte do radicalismo (1864-1870)]

(Continua)

30/04/2022

Denazification and demilitarization according to Tsar Vlad's Grozny model (3)

Continuação de (1) e (2).

Economist

‎The map shows the estimated areas of Mariupol destroyed since the beginning of March. The share of the city that was severely damaged increased by an average of 0.8 percentage points per day and reached 45% by 17 April, representing about 20,000 buildings in the which more than 90% of the damaged buildings were residential. Since 17 April the attacks have intensified and the destruction has also increased significantly.

29/04/2022

ACREDITE SE QUISER: Para os cépticos que pensavam que Guterres não faria diferença nenhuma na ONU (8)

Outras diferenças que Guterres não fez.

Já não é só Franz Baumann, ex-secretário-geral Adjunto da ONU, a criticar a passividade do Sr. Eng. Guterres por andar a encanar a perna à rã para ir a Moscovo. «O ministro russo dos Negócios Estrangeiros fez saber que Guterres não tinha tentado contactar o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, desde o início da “operação militar especial” na Ucrânia. Depois, soube-se que mais de 200 antigos altos funcionários da ONU tinham escrito a Guterres, instando-o a assumir riscos para garantir a paz e acrescentando que a organização enfrenta uma ameaça existencial devido à invasão da Ucrânia por um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança.»

Para que não restassem dúvidas de que estamos perante um pamonha, Arora Akanksha, que disputou a eleição com o Sr. Eng, comentou que a criatura esteve «sempre à margem» e de se sentar «confortavelmente em Nova Iorque. Foram necessários dois meses para ele se sentir envergonhado e agir».

Só quem não tivesse tido o privilégio de ver o Sr. Eng. em acção no pântano é que pode estar surpreendido.

28/04/2022

Depois queixem-se do populismo

«Entre salários, prémios, bónus, contribuições para planos de pensões e outras remunerações monetárias, as 15 empresas do PSI pagaram um total de 31,9 milhões de euros aos seus presidentes executivos (atuais e antigos) em 2021, de acordo com os cálculos do ECO com base nos valores recolhidos nos relatórios e contas das empresas do índice português. A soma representa uma forte subida de 89,9% face ao valor de 2020, ano em que os CEO ganharam 16,5 milhões de euros» (Jornal Eco)

Este é apenas um exemplo da crescente desigualdade na distribuição da riqueza e do rendimento nos países, cuja percepção pelos pobres e pela classe média é um dos factores que geram a sua rejeição da democracia liberal e os torna receptivos ao nacionalismo extremo, ao populismo e à admiração de autocratas actuais (como o Putin) ou potenciais (como o Trump). E não adianta fazer-lhes discursos sobre a igualdade de oportunidades que, ouvidos por um morador num bairro da lata que tem os filhos matriculados na escola pública mais próxima, serão ouvidos como profundamente hipócritas.

Na verdade, a percepção da desigualdade é um epifenómeno. O problema está no elevador social que não funciona e quem ganharia que funcionasse não percebe, e quem percebe ou deveria perceber não está interessado em que funcione. E não funciona porque os sistemas educacionais públicos não estão a servir os seus propósitos de niveladores das desigualdades sociais porque foram capturados pelos interesses corporativos dos sindicatos dos professores e pelo áctivismo do género e as elites deixaram de se interessar pela qualidade do ensino público porque matriculam os seus filhos nas escolas privadas.

27/04/2022

Na história do Portugal dos Pequeninos, o século XXI não é assim tão diferente do XIX (1)

Lendo «O Fundo da Gaveta» de Vasco Pulido Valente, dei comigo a pensar que, mudando a época, as modas e os protagonistas, o Portugal do século XIX me faz lembrar o Portugal da III República. Nos posts desta série cito algumas passagens que mais intensamente evocam essa ideia.

A retórica, sempre a retórica, e o reformismo que só poderia vir de fora

Mas não havia nas Necessidades um grupo organizado capaz de tomar o poder. Dos jacobinos franceses, os jacobinos portugueses só tinham a retórica. (…)

Com a «pátria em perigo», decapitavam o partido constitucional e entregavam o futuro aos bons ofícios do rei, a cujo retrato fizeram comovedoras manifestações. Pior: no momento em que se propunham resistir, pretendiam também conciliar. Parte da impopularidade do Governo vinha das medidas repressivas, aliás brandas, com que tentara meter na ordem as franjas mais lunáticas do radicalismo urbano.

(…)

Este fracasso foi o verdadeiro fim do reformismo, que só podia vir de fora. As reformas fiscais, económicas, administrativas e militares dependiam de uma prévia reforma política. Sem ela, a inércia e os interesses instalados impediriam qualquer tentativa de mudança. Palmela e Subserra ficaram reduzidos à deprimente tarefa de gerir o caos e a miséria. Vila Franca nem ressuscitara a antiga monarquia, nem gerara uma via média «razoável». Produzira apenas um absolutismo mitigado, menos despótico do que arbitrário e, na essência, moribundo.

[Do capítulo A contra-revolução (1823-1824)]

(Continua)

PUBLIC SERVICE: On Tyranny (6)

On Tyranny, Timothy Snyder

26/04/2022

Semanário de Bordo da Nau Catrineta comandada pelo Dr. Costa no caminho para o socialismo (12)

Continuação das Crónicas: «da anunciada avaria irreparável da geringonça», «da avaria que a geringonça está a infligir ao País» e «da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa». Outras edições do Semanário de Bordo.

Nota prévia

Os posts destas séries têm sido publicados à segunda-feira. Excepcionalmente, este é publicado à terça-feira para destacar o post sobre o 25 de Abril impertinente que se não assino é apenas porque já está assinado.

De volta à madraça do PS

O Dr. João Leão antes de tirar o chapéu das Finanças fez aprovar o financiamento ao ISCTE, onde foi nomeado vice-reitor, para financiar o Centro de Valorização e Transferência de Tecnologias do ISCTE, que ele próprio irá presidir. Para se perceber melhor a tramóia leia-se a estória aqui contada.

Investimento público, a autoestrada mexicana do PS

Há anos que o governo socialista vem usando o expediente da auto-estrada mexicana no investimento público. Uma vez mais, em 2021 o Orçamento previa que o investimento crescesse 49%, o que permitiu fazer os anúncios do costume. No final aumentou apenas 23%.

O FMI não acredita. Faz mal. Não conhece as cativações e a autoestrada mexicana

«FMI não acredita na redução de défice prometida por Medina para 2022» e tem pelo menos uma boa razão – o Dr. Medina em plena guerra não aumentou nem um cêntimo no orçamento da Defesa.

As políticas socialistas ajudam quem menos precisa

Subsidiar os preços dos combustíveis reduzindo os impostos (na circunstância o ISP) talvez pareça uma boa ideia, mas não é. Por várias razões. Primeira porque distorce os sinais do mercado; segunda e mais fácil de entender, o subsídio é financiado por todos os contribuintes, incluindo os mais pobres, mas favorece especialmente os maiores consumidores de combustíveis que são os menos pobres. A alternativa é, evidentemente, o apoio directo às famílias mais pobres. E não se devem subsidiar os preços ainda menos se deve controlá-los administrativamente, como lembra Teodora Cardoso.

Então não estamos a crescer mais do que a Óropa?

Não, não estamos. O que o semanário de reverência celebra são as previsões da convergência com a Zona Euro, ou seja com os países que mais ricos que crescem menos do que os mais pobres que nos vão ultrapassando, ano após ano, o último dos quais a Roménia. Ainda assim, se, como o gráfico seguinte sugere, o diferencial for de 0,6% como o PIB per capita PPP português é cerca de 70% da média da Zona Euro para atingir os 100% precisaríamos de… meio século.


 Outros jornais menos celebrativos titulam «Portugal ficou mais pobre com a pandemia e deve estagnar com a guerra» e dizem-nos que o FMI prevê que o PIB per capita PPP português será ultrapassado em 2022 pelo Porto Rico, Polónia e Hungria.

25/04/2022

DIÁRIO DE BORDO: Um 25 de Abril impertinente. A tradição aqui ainda é o que sempre foi

O meu 25 de Abril foi o dia em que comecei a descobrir que as coisas não eram o que pareciam ser.

Em que comecei a descobrir que o país estava coalhado de democratas, socialistas e comunistas nunca antes vistos, nascidos nos escombros do colapso por vício próprio do edifício decadente do Estado Novo. Pouco a pouco, nos dias e meses seguintes, para minha surpresa, o coalho derramou-se pelo país numa maré do coming out, como lhe chamaríamos hoje. Em cada empregado servil, venerador, de espinha dobrada e mão estendida, havia um heróico sindicalista pronto a lutar pelos direitos dos trabalhadores e pelo «saneamento» do patrão.

Em que comecei a descobrir como tinha sido possível o marcelismo ter-se mantido de pé 6 longos anos, depois do Botas ter caído da célebre e providencial cadeira. Que nunca tinha havido uma oposição digna desse nome. Que a mole imensa do povinho lá tinha feito pela vidinha, esgueirando-se pelas frestas das fronteiras, pelas cunhas da tropa e pelas veredas das guerras do ultramar.

Em que comecei a perceber que o leitmotiv do drama não era uma ditadura suportada por uma direita retrógrada e infinitamente estúpida. Nem era uma ditadura provinciana, bafienta, decadente, de brandos costumes, que mantinha um número de presos políticos que envergonharia qualquer ditadura à séria (112, depois dum mês agitado de prisões).

Em que comecei a perceber que também não era a guerra colonial, que em 25 anos fez o equivalente ao número de mortos de 4 ou 5 anos de guerra rodoviária. Nem a guerra cujo fim foi uma humilhante fuga às responsabilidades (nem mais um só soldado para as colónias, berravam os bloquistas avant la lettre) que desencadeou em Angola, Moçambique e Timor a enorme hecatombe humana dos 20 anos seguintes.

Em que comecei a perceber que o leitmotiv do drama era a resposta à pergunta: como foi possível a uma tal ditadura manter-se quase 50 longos anos sem ter sido seriamente ameaçada?

Em que comecei a perceber que o 25 de Abril foi princípio do fim das nossas desculpas como povo. Que nada adiantaria sacudir a água do capote, e mandar a coisa para cima dos eles que escolhemos para nos desgovernarem.

E foi neste 25 de Abril que descobri que já não me restava pachorra para aturar, mais um ano, as comemorações do gang do esquerdismo senil que se julga proprietário da data.

[Este post foi publicado no trigésimo aniversário da chamada revolução dos cravos e republicado posteriormente. Hoje poderia escrever o mesmo, mas não foi preciso porque já estava escrito.]

24/04/2022

ACREDITE SE QUISER: Para os cépticos que pensavam que Guterres não faria diferença nenhuma na ONU (7)

Outras diferenças que Guterres não fez.
 

Observador

Comentando a anúncio da ida do Sr. Eng. Guterres a Moscovo, Franz Baumann, ex-secretário-geral Adjunto da ONU, acrescentou «acho que é uma coincidência curiosa que este anúncio, de pedido de visita a Moscovo e Kyiv, tenha surgido 24 horas após termos enviado uma carta a criticar a sua passividade».

Só se compreende que Baumann  tenha considerado inacreditável a passividade do Sr. Eng. Guterres e tenha achado coincidência ele só ter dado corda aos sapatos por empurrão, por não o conhecer e ter confundido a sua impetuosa verborreia com iniciativa e acção. Afinal estamos perante o picareta falante.

23/04/2022

Tentando compreender o racional da clique putinesca ao decidir invadir a Ucrânia (3)

Continuação (1) e  (2)

«O resultado‎‎ da guerra da Rússia na Ucrânia permanece em dúvida. Mas não há dúvida de que a decisão de Vladimir Putin de lançar uma invasão em larga escala é uma das piores decisões estratégicas que qualquer líder de um país poderoso tomou em décadas. Não há um resultado plausível na Ucrânia que não deixe o senhor Putin e a Rússia muito piores do que antes de 24 de Fevereiro, quando a guerra começou.‎

O senhor ‎Putin custou ao seu país a vida de milhares de jovens soldados, alguns deles recrutas. Ele afirma que russos e ucranianos são "um só povo", mas sua guerra deu à Ucrânia um senso mais forte de identidade nacional do que nunca e a transformou no inimigo amargo da Rússia. Ele mostrou ao mundo que seu exército é ineficaz, e que bilhões de dólares gastos na modernização militar russa foram desperdiçados. Ele deu à NATO um senso de unidade e propósito que não tem há décadas e não-membros como a Finlândia e a Suécia novas razões para aderir. As suas ações levaram membros, incluindo a Alemanha, a aumentar os gastos com defesa. Outros enviaram tropas perto da fronteira com a Rússia. O senhor Putin convenceu a Europa de que deve parar de comprar as exportações mais valiosas da Rússia. Ele trouxe sanções e controles de exportação ao seu país que infligirão danos geracionais. Para a Europa e a América ele cruzou o Rubicão. Mais gravemente, ele falhou em preparar o público russo para os verdadeiros custos humanos, financeiros e materiais de sua "operação militar especial".‎ (...)

‎‎Ao recusar-se a rebater a dissidência dentro da Rússia, o senhor Putin fez orelhas moucas a avisos importantes e convenceu aqueles ao seu redor de que sua segurança pessoal e prosperidade dependem da lealdade a ele e à sua versão da verdade. Um pequeno, mas importante exemplo: o senhor Putin disse durante os primeiros dias do conflito que "soldados recrutados não estão e não estarão envolvidos em operações de combate". Essa afirmação rapidamente se mostrou falsa. Há três explicações possíveis para isso, e todas prejudicariam o presidente russo. A primeira é que o Senhor Putin mentiu ao povo russo sobre algo que ele deveria saber que não seria capaz de esconder. Segundo, os generais russos mentiram-lhe. Terceiro e, francamente, mais provável: a desinformação atingiu todos os níveis militares da Rússia, e os oficiais superiores não estão cientes do que está acontecendo na cadeia de comando. Mas seja qual for o caso, todas essas explicações minam a credibilidade do senhor Putin, tanto no país quanto no exterior, e comprometem a eficácia das forças armadas russas nos próximos anos.‎ (...)

‎As esperanças ocidentais de que os generais da Rússia, as suas forças de segurança, os seus oligarcas ou seu povo em breve removam o Senhor  Putin do poder provavelmente serão em vão. Os altos preços do petróleo manterão a economia russa à tona por algum tempo, mesmo que os danos a longo prazo à economia russa causados por sanções e controles de exportação sejam severos. Dado o clima político, é impossível saber o verdadeiro estado da opinião pública russa, mas não há evidências de que o senhor Putin enfrente qualquer sério desafio doméstico. O povo russo vê as imagens de guerra que o seu governo quer que eles vejam, e agora estão sendo alimentados com uma dieta constante de atrocidades ucranianas, planos ocidentais para humilhar a Rússia e a determinação de seu presidente e soldados para defender sua pátria.‎

‎Em suma, o senhor Putin, os soldados russos e ucranianos e os líderes ocidentais não devem esperar o tipo de vitória limpa que qualquer um deles deseja. Em vez disso, uma guerra feia está prestes a ficar muito mais feia‎.»

The cost of the war to Vladimir Putin, Ian Arthur Bremmer, cientista político americano especialista no risco político global 

PUBLIC SERVICE: On Tyranny (5)

On Tyranny, Timothy Snyder

 And by the way, don't justify your failures with negative examples of political leaders.

22/04/2022

ESTÓRIA E MORAL: Aldrabou-nos, disse ele

Estória

«O Costa não tem 'tomates' para isso.» «Ele é um merdas.» (*)

Era uma vez um político que como dirigente de um partido e como membro de dois governos desse partido, conviveu de perto vários anos com outro dirigente e primeiro-ministro de um governo a que esse político pertenceu.

Depois da divulgação extensiva de factos e de suspeitas ao longo de vários anos, o referido primeiro-ministro veio a ser acusado de inúmeros crimes de corrupção activa e passiva, entre outros, num processo baptizado Operação Marquês com 53 mil páginas de provas, às quais se juntam 6 mil páginas do despacho de um juiz e vários milhares de páginas dos recursos do MP, e ainda se adicionarão muitos milhares de páginas nos próximos anos (até 2035 dizem alguns).

O citado político sempre assumiu a inocência do referido primeiro-ministro, a quem visitou na prisão, e perante a evidência dos crimes foi lavando as mãos e usando a fórmula clássica à justiça o que é da justiça. Quinze anos depois dos factos e nove anos depois do início do processo, em entrevista a um biógrafo do fundador do mesmo partido declarou:

«Depois do que vi já, entretanto, e que o próprio Sócrates não desmente, concluo que ele, de facto, aldrabou-nos.»

Moral

Se tivesse sido submetido a um teste "Fit and Proper" para primeiro-ministro, o Dr. Costa chumbaria por uma uma de duas razões (1) por falta de discernimento e défice de julgamento ou (2) por falta de tomates; ou ambas.

(*) José Sócrates nas escutas da Operação Marquês citadas pelo jornal SOL.

21/04/2022

Dúvidas (335) - Afinal qual é versão oficial em que não devo acreditar?

Sou exortado pelo jornalismo de causas e até por comentários neste blogue a não acreditar na "versão oficial" dos acontecimentos da invasão da Ucrânia pela Rússia (a que chamam guerra na Ucrânia), o que me leva a um esclarecimento e me suscita uma dúvida. 

O esclarecimento é que sou pouco dado a acreditar seja no que for. A dúvida é que havendo pelo menos duas "versões oficiais" desses acontecimentos, qual das duas "versões oficiais" me aconselham a não acreditar? 

Por um lado temos a versão oficial da NATO (para simplificar admito que todos os estados-membros têm a mesma versão) que é escrutinada e comentada em milhares de jornais e canais de televisão por dezenas de milhares de jornalistas e comentadores de todas correntes ideológicas e livremente discutida por milhões de cidadãos dos estados-membros, tão livremente discutida que é pública e abertamente contraditada nos mesmos jornais e canais pelos crentes da versão oficial do governo russo.

Do outro lado temos a versão oficial do governo russo que é divulgada quase ipsis verbis por jornais e canais de televisão russos que a reproduzem fielmente, versão que ninguém ousa colocar em causa, sob pena de ser multado, na melhor hipótese, preso na hipótese mais provável e assassinado na pior hipótese.

Quando escrevo ninguém, não é exacto. Há dois tipos de cidadãos russos que colocam em causa a versão oficial russa: (1) os que, como Alexei Navalny, já estão presos, e (2) os que estão no exterior, como Oleg Tinkov, um empresário russo, que escreveu na sua conta Instagram «os generais (russos), acordando de ressaca, perceberam que tinham um exército de merda. E como pode ser bom o exército se tudo no país é uma merda e atolado em nepotismo, bajulação e servilismo?»

E, por falar em invasão e versões, permito-me colocar mas uma dúvida: a líder parlamentar do PCP quando disse «alguém que personifica um poder xenófobo e belicista, rodeado e sustentado por forças de cariz fascista e neonazi» estava a referir-se a quem?

20/04/2022

Encalhados numa ruga do contínuo espaço-tempo (97) - E o vencedor é "Não és homem, não és nada ..."

Graças à pachorra de António Araújo que compilou no artigo «Frases de Guerra» no DN umas largas dezenas de pensamentos, factos alternativos e teorias da conspiração produzidos por quase outros tantos eméritos membros do comentariado doméstico, incluindo alguns políticos, ficou disponível um acervo da produção das elites do Portugal dos Pequeninos sobre o presidente Vladimir Vladimirovitch Putin e a sua invasão da Ucrânia.

"Não és homem, não és nada ..."

Sendo todos pensamentos de altíssimo nível provenientes de personalidades de elevado gabarito, foi difícil a escolha mas resolvi destacar meia dúzia e entre eles premiar pela sua originalidade e profundidade o do Dr Nogueira Pinto:

"Esta guerra anunciada na Ucrânia só tem por objetivo impedir a exportação de gás russo para a Alemanha e, assim, reconfigurar o mapa europeu ao sabor do ditado de Washington." (Francisco Louçã, Expresso, 15/2/2022, dias antes da invasão da Ucrânia pela Rússia)

"Isto à luz do direito internacional está totalmente imaculado." (Alexandre Guerreiro, Record TV Europa, 24/2/2022, no dia da invasão da Ucrânia)

"O modo como o Presidente dos Estados Unidos foi sucessivamente anunciando datas para uma invasão russa da Ucrânia lembra os pueris "Não és homem, não és nada ..." dos tempos em que parecia mal não ser "homem" e se esperava que o acicatado, ofendido na sua masculinidade e sem olhar a consequências, provasse desvairadamente que o era." (Jaime Nogueira Pinto, Observador, 26/2/2022, criticando a política da administração Biden relativamente à Ucrânia)

"E esse ambiente que é típico do "mccarthismo" (...) criou-se um ambiente que ou se papagueia o que diz a NATO ou é-se um agente de Moscovo" (Fernando Rosas, Público, 25/3/2022)

"[crimes de guerra] poderiam ter sido evitados, se não houvesse invasão e, depois disso, se o regime ucraniano não se tivesse decidido por uma resistência suicida" (António Jacinto Pascoal, Público, 29/3/2022)

"A guerra entre a Rússia e a Ucrânia serviu para agudizar análises que já Marx, Engels e, mais tarde, Gramsci, haviam identificado." (Ricardo Meireles Santos, jornal A Voz do Operário, 1/4/2022)

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On Tyranny, Timothy Snyder

Remove swastikas, red stars and all similar stuff.

19/04/2022

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: A doença é outra e a terapia não é adequada

O artigo de opinião da economista Teodora Cardoso publicado ontem no Eco é uma pedrada no charco das conversas da treta da maioria dos economistas que se dedicam ao negócio da comentadoria.  

Teodora Cardoso considera inevitável a estaglação, isto é a estagnação do crescimento coexistindo com a inflação, da economia mundial que resulta da «escassez e o correspondente aumento do custo da energia, dos cereais e de matérias-primas essenciais» em consequência da guerra, da pandemia e das políticas «macroeconómicas expansionistas», isto é o alívio quantitativo, confirmando o que escrevi a semana passada no último post da série «O alívio quantitativo aliviará? Unintended consequences».

Sendo a actual uma crise da oferta e não da procura, não farão sentido medidas como o controlo dos preços que terá «o resultado perverso de não incentivar, nem do lado da procura, nem da oferta, a poupança e o uso mais eficiente de recursos escassos, exatamente o objetivo que é necessário promover». Um exemplo, é subsidiar o preço dos combustíveis pela redução dos impostos em vez de apoiar as famílias mais pobres.

Contra a corrente predominante que pretende empurrar o problema com a barriga, Teodora Cardosa entende que «o apelo ao prolongamento da suspensão das regras orçamentais e à mutualização da dívida, no contexto de um vazio programático em todas essas áreas, apenas prenuncia o aprofundamento da estagnação».

Teodora Cardoso critica ainda a política orçamental do governo socialista «baseada num aumento de receitas cada vez menos preocupado com a sua transparência e impacto económico, e em cortes discricionários de despesa, geridos em função do (não) impacto mediático e da miopia dos mercados financeiros» e a falta de «um conjunto coerente de reformas (...) que tenha em vista a competitividade e o crescimento da economia».

18/04/2022

Semanário de Bordo da Nau Catrineta comandada pelo Dr. Costa no caminho para o socialismo (11)

Continuação das Crónicas: «da anunciada avaria irreparável da geringonça», «da avaria que a geringonça está a infligir ao País» e «da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa». Outras edições do Semanário de Bordo.

A madraça do PS

Roubo o título muito bem achado a João Miguel Tavares para descrever a situação do ISCTE face ao PS com a reitora Dr.ª Maria de Lurdes Rodrigues e o vice-reitor Dr. João Leão acabado de nomear, bem como mais sete outros professores com ligações a este ou a outros governos anteriores do PS.

No Estado Sucial não há conflito de interesse. Há interesses em conflito

Por falar nele, o Dr. João Leão, acabado de sair das Finanças, vai gerir o Centro de Valorização e Transferência de Tecnologias do ISCTE financiado pelo OE em que ele providencialmente participou.

O problema do Estado sucial é a “falta de recursos”

O diagrama seguinte ilustra uma das duas grandes realizações do Dr. Costa (a outra é o crescimento da dívida pública).

+Liberdade

Não há nenhum sector da administração pública que não tenha falta de recursos e a justiça não poderia ser excepção. Segundo o Conselho Superior da Magistratura os tribunais estão em situação crítica por falta de magistrados. Que os tribunais estejam em situação crítica isso é indiscutível visto o processo mais simples consumir anos até ser julgado, mas não será por falta da magistrados porque com 19,3 juízes e 13,5 procuradores por 100 mil habitantes, Portugal está na média europeia. Será antes por excesso de burocracia plantada nos labirintos kafkianos processuais, que ninguém parece interessado em simplificar, uns porque esses labirintos multiplicam as portas de saída e outros porque multiplicam a “falta de recursos”.

Take Another Plan. O legado do amigo do Dr. Costa custou mais de mil milhões

O ano passado a TAP apresentou um prejuízo de 1.600 milhões (num volume de receitas operacionais de 1.389 milhões!), por coincidência quase igual ao montante das ajudas até ao final do ano passado. Mais do que o montante pantagruélico dos prejuízos o que poderia surpreender os distraídos é que cerca de 2/3 desses prejuízos (1.025 milhões) se devem ao fecho da operação de manutenção no Brasil comprada em 2006 à Varig pela TAP, um desastre que já tinha custado à TAP 200 milhões em perdas só nos últimos 5 anos. Convirá acrescentar que essa compra foi agenciada pelo Dr. Lacerda Machado, o melhor amigo do Dr. Costa que o prantou na administração da TAP nacionalizada em 2016 (ver aqui e aqui a estória). Se pensarem que enough is enough e a coisa agora acaba, desenganem-se porque numa empresa pública gerida pelo Dr. Pedro Nuno "Perninhas dos Banqueiros a Tremer" Santos enough is never enough. E a demonstrá-lo aí estão mais 990 milhões a caminho no OE 2022.

17/04/2022

Como poderiam os cidadãos europeus reduzir a renda do Czar Putin

Baixar um grau nos termostatos nas casas europeias reduziria num ano o consumo de gás natural em 10 mil milhões de metros cúbicos, o equivalente a um mês de importações russas.

Baixar em 10 km/hora os limites de velocidade nas estradas reduziria o consumo de combustível em cerca de 15% e adicionalmente subsidiando os transportes públicos, incentivando o trabalho em casa um dia por semana, proibindo o uso de carros nas cidades aos domingos permitiria reduzir um quinto da importação de petróleo russo.   

(Estimativas da  Agência Internacional de Energia, citadas aqui)

Entretanto, o ministro da Economia e vice-chanceler alemão, Robert Habeck, pediu aos alemães que poupem energia para "irritar Putin", o que é uma tolice porque o homem não tem emoções e o que importa é cortar-lhe o financiamento.

Aditamento:

Já depois de ter escrito este post, li o artigo «Combater Putin indo mais devagar» do economista Ricardo Reis no caderno de Economia do Expresso que trata com mais profundidade este tema.

16/04/2022

If it was to impress the world and frighten the neighborhood, so far it's not working

Mariupol - one of the great successes of  denazification and demilitarization

Documenting Equipment Losses During The 2022 Russian Invasion Of Ukraine

Russia - 2897, of which: destroyed: 1545, damaged: 44, abandoned: 237, captured: 1071
Tanks (507, of which destroyed: 257, damaged: 9, abandoned: 40, captured: 201)
Armoured Fighting Vehicles (264, of which destroyed: 129, abandoned: 29, captured: 106)
Aircraft (20, of which destroyed: 19, damaged: 1)
Helicopters (32, of which destroyed: 28, damaged: 2, abandoned: 1, captured: 1)
Naval Ships (4, of which destroyed: 2, damaged: 2)
Logistics Trains (2, of which destroyed: 2)

Ukraine - 789, of which: destroyed: 365, damaged: 23, abandoned: 35, captured: 366
Tanks (112, of which destroyed: 44, damaged: 1, abandoned: 9, captured: 58)
Armoured Fighting Vehicles (74, of which destroyed: 28, abandoned: 4, captured: 43)
Aircraft (17, of which destroyed: 16, damaged: 1)
Helicopters (3, of which destroyed: 2, captured: 1)
Naval Ships (14, of which destroyed: 2, damaged: 1, captured: 11)

Source: Oryx, as of April, 15

Sunk Thursday (they called a Ukrainian missile onboard fire))

40 dead Russian high-ranking officers, as of April, 15.

15/04/2022

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (72) Unintended consequences (XXIV)

Outras marteladas.

Recapitulando:

O intervencionismo do BCE, que copiou com atraso a Fed e o BoE, adoptando o alívio quantitativo e as taxas de juro negativas ou nulas, desde o «whatever it takes» do Super Mario de Julho de 2012, é parecido como terapêutica com a sangria dos pacientes praticada pela medicina medieval para tratar qualquer doença, incluindo a anemia.

As raras vozes dissonantes (temos citado algumas delas) não têm chegado para perturbar e muito menos abafar os salmos cantados pelo coro imenso dos prosélitos louvando a bondade das políticas de injecção de dinheiro e de juros artificialmente baixos dos bancos centrais. Mais recentemente, Charles Goodhart, professor emérito na LSE, chamou a atenção para o risco de estagnação com inflação elevada em resultado das políticas dos bancos centrais e no Portugal dos Pequeninos o presidente da CMVM alertou em Novembro do ano passado para a bolha em formação.

As políticas de alívio quantitativo dos bancos centrais tiveram várias consequências indesejadas, que venho referindo desde Setembro de 2014, mas até ao ano passado não tiveram efeitos muito significativos na inflação.

Foi o ano passado que esses efeitos na inflação se começaram a sentir mais fortemente porque coexistindo com alívio quantitativo dos bancos centrais, os governos começaram a despejar estímulos fiscais relacionados com as ajudas no contexto da pandemia (ver diagrama seguinte).  

A esses efeitos fiscais veio juntar-se a escassez da oferta de mão-de-obra, sobretudo nos EUA, que veio aumentar os salários após vários anos de estagnação e de perda de poder de compra. As rupturas das cadeias de distribuição resultantes da pandemia e das medidas para a combater vieram adicionar-se aos factores inflacionários. Ainda assim, o wishful thinking era de rigor e quase toda a gente, a começar pelo BCE, garantia que a inflação era um fenómeno transitório. Toda a gente? Não. Já em Novembro do ano passado Jerome Powell considerou que «it’s probably a good time to retire that word (transitory) and try to explain more clearly what we mean».

Isso foi antes da invasão da Ucrânia, cujas consequências estão a potenciar todos os factores inflacionários já referidos. Tudo isso em cima de quantidades gigantescas de dinheiro injectado nas economias pelas políticas dos bancos centrais desde 2008 a Fed, 2009 o BoE e 2012 o BCE vai transformar o fenómeno transitório num fenómeno duradouro, desta vez com pelo menos algumas das economias a estagnarem. Não pode acabar bem.

14/04/2022

CASE STUDY: A atracção pelos tiranos e pela tirania (1)

A aceitação de Putin (podia ser de outro qualquer tirano), ou a devoção nos casos extremos, é mais um exemplo de como a distinção clássica direita-esquerda é em muitos casos inadequada. No caso de Putin, como de outros, encontramos devoção e aceitação da criatura à direita e à esquerda. 

À esquerda é mais a aceitação, ditada geralmente por razões tácticas - o inimigo (Putin) do meu inimigo (Ocidente, Estados Unidos) é meu amigo - e à direita é mais devoção por razões ideológicas - pátria, autoridade e moral, que supõem inspiram o tirano, contra o que chamam o globalismo, a anarquia e a devassidão, que acreditam contaminam o Ocidente, ou a América para ser mais preciso, e inspiram os seus líderes fracos e corruptos. O que há de comum entre uns e outros? A recusa das liberdades, ou mesmo o ódio às liberdades, e em consequência a recusa da democracia liberal como regime político.

Num caso como noutro, para dar um módico de racionalidade e justificar a aceitação ou a devoção pelo tirano e pela tirania, é indispensável construir uma realidade paralela baseada em factos alternativos, isto é, distorções dos factos reais, na melhor hipótese, ou mentiras puras e duras, o mais das vezes. No caso da direita, em que há uma adesão mais emocional e autêntica, e por vezes uma identificação com o tirano e o seu culto pessoal, as teorias da conspiração têm um papel insubstituível.

Na esquerda portuguesa, o PCP é um bom exemplo de construção de uma realidade paralela baseada em factos alternativos. Para poupar no latim, remeto os leitores para o dossier «SOBRE A SITUAÇÃO NA UCRÂNIA - ELEMENTOS PARA A COMPREENSÃO» no site do PCP, seguido da leitura do artigo de opinião de Fernanda Câncio «Os "15 mil mortos no Donbass" e outros factoides do PCP» (sim, essa antiga amiga ou namorada do Eng. Sócrates, que assim resgata alguns dos seus maus passos com o animal feroz), artigo em que, a propósito de uma conversa no Twitter do ex-deputado do PCP Miguel Tiago, Câncio autopsia a versão comunista dos antecedentes e da génese da invasão da Ucrânia pelo exército russo.

(Continua)