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13/06/2020

O que serão "Salários Mínimos justos"?

«A Comissão Europeia lançou esta quarta-feira a segunda fase da consulta às organizações sindicais e patronais europeias sobre as condições que permitam fixar “salários mínimos justos”.»


Repare-se que alguns dos países com nível salarial mais elevado, como Áustria, Dinamarca, Finlândia, Suécia, Islândia, Noruega e Suiça, não dispõem de um salário mínimo nacional e imagine-se que se entendia que um salário mínimo justo "europeu" teria um valor já não igual aos 1.700 euros do Luxemburgo mas aos mais modestos 1.130 euros da Espanha. O que aconteceria a 90% das empresas portuguesas se tivessem de pagar um salário mínimo de 1.130 euros?

Nesta altura ocorre-me uma estória com mais de 45 anos que contei no post Contra as inevitabilidades marchar, marchar cuja leitura me dispensará de mais considerações.

07/11/2019

Alguém pode explicar ao camarada Jerónimo...

... que ao alertar para os riscos da aproximação do salário mínimo ao salário médio tem razão. Porém, tem razão por más razões porque, não percebendo que os salários têm de ser uma consequência da produtividade, conclui que a solução está em aumentar todos os salários. A não ser que já tivéssemos chegado à sociedade comunista na qual, segundo o modelo soviético com que o camarada se identifica, os salários mais altos serão iguais aos mais baixos, com excepção dos dignitários do partido. O que, aliás, não é um problema porque nas prateleiras vazias não haverá como gastar os salários em electrodomésticos e dispositivos electrónicos que só podem encontrar-se nas datchas dos dignitários do partido.

E, de caminho, também pode explicar ao camarada Jerónimo que não há almoços grátis e, por isso, da garantia mínima de dez anos para electrodomésticos e dispositivos electrónicos resultaria inevitavelmente um aumento do seu custo. A não ser que já tivéssemos chegado à sociedade comunista na qual, segundo o modelo soviético com que o camarada se identifica, tais bens só estariam acessíveis nas datchas dos dignitários do partido e, nesse caso com garantia vitalícia.

20/04/2018

COMO VÃO DESCALÇAR A BOTA? (16) - A "competividade" e a "protividade", segundo Costa

É certo que um Costa que em 25-01-2015 nos diz "Vitória do Syriza é um sinal de mudança que dá força para seguir a mesma linha" e decorridos 3 anos nos diz em 16-04-2018 que aspira a bater o recorde europeu de redução da dívida ao mesmo tempo que em valor absoluto a tem vindo a aumentar, merece pouco crédito. Ainda assim, a capacidade de nos surpreender permanece intacta como mostram as suas declarações no jantar do 45.º aniversário do PS, junto ao Cristo Rei, um local apropriado para nos anunciar novos milagres:
«A direita dizia que para Portugal recuperar competitividade era preciso baixos salários e fragilização dos direitos laborais. A verdade é que aumentámos o salário mínimo em 2016, em 2017, este ano – e ficam já a saber que voltaremos a aumentá-lo em 2019 (Expresso)
Confrontemos o discurso de Costa sobre a recuperação da "competividade", como ele lhe chama, com a realidade baseada em dados actualizados na véspera desse discurso.

Labour productivity and unit labour costs (Eurostat)
Entre o ano anterior ao resgate e o último ano do governo PSD-CDS a produtividade (ou "protividade", segundo o costês) aumentou 1,9%. Nos dois anos do consolado de Costa a produtividade desceu 0,3% e em relação a 2010 Portugal foi o quarto país da EU28 em que a produtividade menos progrediu. Vamos ver como Costa descalça a bota quando a festa acabar, ruir o palanque das fantasias e os salários reais voltarem a cair para compensar a perda de competitividade. Os seus antecessores fugiram, um para Genebra e outro para Paris. Tentará Costa fugir para Belém desalojando o inquilino actual, outro contador de estórias?

04/01/2017

A maldição da tabuada (43) – A tabuada comunista é no sistema hexadecimal

Segundo um estudo da CGTP, a central sindical do Partido Comunista, considerando «a evolução da inflação e da produtividade ao longo dos anos», o SMN não deveria ser 557 euros, o valor agora fixado, mas pelo menos 902 euros.

Como o salário mínimo nacional em 1974 a preços correntes era de 3.300$, o que convertido a preços de 2015 (Pordata) equivaleria a 535€, e o salário mensal médio em 2014 (Pordata) era de 910€, o SMN pretendido pela CGTP equivaleria a praticamente 100% do salário médio (em 2014 era 53%).

É claro que, mantendo-se a mesma distribuição salarial, se o SMN fosse 902 euros, o salário médio seria superior a 1.700 euros e o volume total de salários dos 5,2 milhões de activos atingiria 146 mil milhões de euros e seria superior a 70% do PIB (Pordata), Ou, dito de outro modo, o salário médio deixaria de ser o salário médio e estaríamos noutro país.

A evolução da produtividade por trabalhador e hora em termos nominais que era de uns deprimentes 70% da média EU28 em 2004, em 2015 não passava de 79%, a 9.ª mais baixa da EU28 (Eurostat).

Isto faz lembrar a estória aqui contada pelo Impertinente, por coincidência passada em 1974 com um militante da Intersindical, a antecessora da CGTP, que fazendo umas contas com a mesma tabuada exigia um SMN superior ao rendimento médio.

Por que não vai esta gente fazer contas com a sua tabuada para os paraísos socialistas? Por exemplo para Cuba, que tem um salário mínimo anual inferior ao salário mínimo português mensal (fonte). Ou para a Venezuela, que tem um salário mínimo mensal equivalente a $60 (câmbio oficial) que valem $12 no mercado negro.

19/08/2015

ARTIGO DEFUNTO: Ora que espanto

Continuando no tema salário mínimo.

Com grande espanto, o DN descobriu agora que «desde 2011, a percentagem de trabalhadores a ganhar o SMN subiu 73,6%». Pois não é inevitável que os aumentos em termos reais do SMN determinem que aumente o número de trabalhadores abrangidos, sobretudo quando o salário médio se mantém ou mesmo diminui como em 2013?

Espantou-se o DN mas ainda não descobriu que depois o aumento do SMN em Setembro do ano passado o desemprego interrompeu a descida precisamente nessa altura e só recomeçou a descer vários meses depois e só no 2.º trimestre deste ano melhorou significativamente.

Se descobrisse também se espantaria, pelo menos enquanto não percebesse a relação entre salário mínimo e desemprego. Pode começar pelo post «Salário mínimo e desemprego - unintended consequences», continuar na etiqueta salário mínimo e acabar, por agora, com o artigo da Economist «A reckless wager - A global movement toward much higher minimum wages is dangerous».

18/08/2015

ARTIGO DEFUNTO: Se queremos alinhar o salário mínimo com a Óropa devemos diminui-lo (2)

«O partido espanhol PSOE vai apresentar terça-feira, 18 de Agosto, uma série de propostas para a reforma da União Europeia, que incluem a criação de um orçamento europeu, e a uniformização de impostos, salário mínimo e idade da reforma. O objectivo é aprofundar a coesão da Zona Euro e caminhar em direcção a uma "Europa federal".» (Negócios)

Destaco de entre as propostas do PSOE, que reconheço têm a coerência do caminho para a “Europa Federal” (ainda que esse grande salto em frente, ou para o abismo, já não seja viável por falta de suporte dos eleitorados), a uniformização do salário mínimo, sobre a qual publiquei em tempos um post o qual no essencial continua aplicável mutatis mutandis, apesar de a pretexto de uma situação interna. Aqui vai ele.

O governo com a sua pequena jogada promocional colocou na ordem do dia a questão do salário mínimo e não foi preciso mais para se levantar um enorme clamor comparando o actual com o de 1974, tentando demonstrar que as «conquistas de Abril» estariam a ser atacadas pelo governo «neoliberal» ou comparando-o com os salários mínimos na Óropa.

Quanto à primeira comparação, o Pertinente já aqui mostrou fazer mais sentido comparar os salários actuais com os dos períodos anteriores de intervenção do FMI, e constatar que o salário mínimo actual é mais alto, em termos reais.

Quanto à segunda comparação, se o jornalismo de causas não fosse, mais uma vez, tão incompetente, não faria tais comparações. Ao fazê-las, sem se dar conta, está a fundamentar uma redução do salário mínimo. Exemplo: quando o Expresso publica este diagrama (+) mostrando que o salário mínimo português era de 86,1% da média europeia e desceu para 83,2% em 2009, arrisca a que alguém publique um diagrama comparando a produtividade portuguesa com a média europeia, como o abaixo.

Fonte: Labour productivity per hour worked (Eurostat)
Ao fazer esta outra comparação, constataria que a produtividade portuguesa já era baixa e ainda diminuiu nos últimos anos, representando em 2012 apenas 52,6% da produtividade média europeia. Dito de outro modo, se queremos alinhar pela Europa devemos reduzir o salário mínimo para 296 euros = (52,6% x 485) : 83,2%. (*).

(+) Link do Expresso actualmente não disponível
 (*) Valores de 2012

19/05/2014

ACREDITE SE QUISER: Estes suíços são loucos

No referendo realizado ontem, mais de 2/3 dos suíços votaram contra um salário mínimo de 22 francos suíços por hora, o equivalente a um salário mensal de cerca de 3.000 euros.

Se a moda pegasse por cá seria veríamos reeditado o episódio ocorrido durante o 1.º governo provisório, que relatei aqui, com os partidos a digladiarem-se a propor referendar salários mínimos superiores ao rendimento médio per capita.

10/05/2014

Mitos (168) – Aumentar o nível salarial melhora o nível de vida dos trabalhadores

Este é talvez um dos mitos mais populares da esquerda (e da direita estatista). Em parte, porque parece um truísmo – pois não é verdade que, se os salários aumentarem, o poder de compra aumentará na mesma proporção e os trabalhadores passarão a ter acesso a mais bens e serviços? E em parte porque, de facto, durante algum tempo assim é – até que, na ausência de melhoria da produtividade, uma combinação de inflação e aumento das importações e do défice das contas externas e consequente endividamento anularão esses ganhos.

E é assim por uma razão muito simples: a produtividade não depende do salário. A produtividade do trabalho depende da qualidade dos recursos humanos e do capital público e privado e a produtividade total dos factores (Total factor productivity ou multi-factor productivity, isto é a parte do output de produto que não resulta do inputs de trabalho e capital, estimada com base no resíduo de Sollow) depende do nível tecnológico.

Por essa razão, como aqui mostra Mário Amorim Lopes no Insurgente, os nossos salários são baixos porque não podem deixar de ser baixos porque, por insuficiência ou má qualidade dos factores de produtividade, baixa é a nossa produtividade. E, pior do que baixa, a produtividade não mostra tendência sustentada para melhorar em relação à média EU27 (veja-se o post do Impertinente «Se queremos alinhar o salário mínimo com a Óropa devemos diminui-lo»).

17/04/2014

SERVIÇO PÚBLICO: A concertação social é desconcertante (2)

Como a querer confirmar a tese, que subscrevi aqui, de José Ferreira Machado de as associações empresariais cujos associados pagam acima ou muito acima do salário mínimo defenderem o seu aumento com um propósito que só pode ser o de criar uma barreira artificial à entrada de concorrentes sem capacidade para pagar salários mais elevados, o Barómetro Kaizen/RH Magazine apurou que quase 90% dos directores de recursos humanos de 76 grandes empresas ou instituições concordaram com uma subida do salário mínimo para mais de 500 euros.

Faça-se o mesmo estudo nas micro empresas e nas PME (que não têm directores de RH) e vejam-se as conclusões.

15/04/2014

ARTIGO DEFUNTO: Se queremos alinhar o salário mínimo com a Óropa devemos diminui-lo

O governo com a sua pequena jogada promocional colocou na ordem do dia a questão do salário mínimo e não foi preciso mais para se levantar um enorme clamor comparando o actual com o de 1974, tentando demonstrar que as «conquistas de Abril» estariam a ser atacadas pelo governo «neoliberal» ou comparando-o com os salários mínimos na Óropa.

Quanto à primeira comparação, o Pertinente já aqui mostrou fazer mais sentido comparar os salários actuais com os dos períodos anteriores de intervenção do FMI, e constatar que o salário mínimo actual é mais alto, em termos reais.

Quanto à segunda comparação, se o jornalismo de causas não fosse, mais uma vez, tão incompetente, não faria tais comparações. Ao fazê-las, sem se dar conta, está a fundamentar uma redução do salário mínimo. Exemplo: quando o Expresso publica este diagrama mostrando que o salário mínimo português era de 86,1% da média europeia e desceu para 83,2% em 2009, arrisca a que alguém publique um diagrama comparando a produtividade portuguesa com a média europeia, como o abaixo.

Fonte: Labour productivity per hour worked (Eurostat)
Ao fazer esta outra comparação, constataria que a produtividade portuguesa já era baixa e ainda diminuiu nos últimos anos, representando em 2012 apenas 52,6% da produtividade média europeia. Dito de outro modo, se queremos alinhar pela Europa devemos reduzir o salário mínimo para 296 euros = (52,6% x 485) : 83,2%.

13/04/2014

Mitos (164) - a pesada herança da longa noite fascista (IX)

[Mais heranças: I, II, III, IV, V, VI, VII e VIII]

Agora que o governo achou que poderia aplacar os sindicatos e tirar o tapete à oposição aumentando o salário mínimo, com os inevitáveis danos colaterais (dificultar a viabilidade de dezenas de milhar de pequenas empresas, proteger da concorrência as empresas que pagam salários mais elevados e não aumentar o emprego, para já não falar da possibilidade real de aumentar o desemprego), o jornalismo de causas tirou da gaveta um novo mote, adequado a época festiva e escreveu em coro: «o salário mínimo vale hoje menos do que em 1974».

Sem se dar conta, o novo situacionismo de hoje está a homenagear o situacionismo do «antigo regime» cujas reservas em ouro e em divisas tornaram possível durante muitos meses continuar a importar os bens essenciais para compensar o que as empresas fechadas ou paralisadas com greves e a população activa inactiva nas manifs não produzia durante o PREC e ainda assim fixar um salário mínimo em 577 euros, a preços actuais.

É uma comparação simpática para o «antigo regime». Simpática mas inadequada porque a comparação objectivamente mais adequada seria a do período de intervenção da troika a partir de Junho de 2011 com os dois períodos anteriores de intervenção do FMI, nos quais os salários mínimos desceram para 419 euros em 1977 e 346 euros em 1984, a preços actuais, valores abaixo 14% e 29%, respectivamente, do salário actual de 485 euros.

Em conclusão, pelo menos do ponto de vista do salário mínimo, os resultados da governação comunista sobre a herança de 40 anos do antigo regime conseguem, apesar de tudo, ser mais danosos do que os resultados de 40 anos de governação de inspiração socialista sobre a herança da governação comunista.

30/03/2014

SERVIÇO PÚBLICO: A concertação social é desconcertante

Entre os economistas da economia mediática (os tais 200 palhaços que vão à televisão falar de economia, incluindo o inventor da expressão, o economista João César das Neves), os dedos de uma mão chegam para contar os que não praticam a economia de causas e não fazem o discurso preguiçoso e engraxador do pensamento dominante. Assim de repente, além do próprio César das Neves, só me ocorrem mais dois: Vítor Bento e José Ferreira Machado.

Ferreira Machado é director da Nova School of Business and Economics e escreve regularmente no jornal SOL. Esta semana abordou o tema da mitologia da concertação social pondo a nu dois factos que explicam o verdadeiro papel desta tão celebrada instituição do estado social.

O primeiro facto é a taxa de sindicalização do sector empresarial privado ser pouco mais de 10% e tudo indica os sindicalizados serem sobretudo trabalhadores das maiores empresas. O segundo facto é que as associações empresariais representam sobretudo essas mesmas maiores empresas. Estes dois factos têm várias consequências:

  • As microempresas e as PME que estão a mostrar maior dinamismo e a criar emprego não estão representadas; 
  • Os interesses laborais representados são os dos trabalhadores com remunerações mais elevadas; 
  • Os desempregados e os que procuram activamente trabalho ou lançar um pequeno negócio não estão representados. 
Estas consequências têm tido dois resultados:

  • Por via das portarias de extensão, só agora suspensas, os contratos colectivos negociados pelos sindicatos que representam 10% dos trabalhadores têm influenciado 90% dos contratos de trabalho, em empresas e sectores sem condições para pagarem a bitola das maiores empresas e continuarem competitivas; 
  • As associações empresariais cujos associados pagam acima ou muito acima do salário mínimo têm defendido o seu aumento com um propósito que só pode ser o de criar uma barreira artificial à entrada de concorrentes sem capacidade para pagar salários mais elevados. 
Em conclusão, a concertação social tem tido principalmente o papel de defender os «direitos adquiridos» das corporações empresariais e sindicais, aumentar o desemprego e assim manter o statu quo.

08/09/2013

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: O salário mínimo europeu, uma solução francesa para evitar as «distorções da concorrência»

Jean-Marc Ayrault, o primeiro-ministro socialista francês, defende um salário mínimo europeu para evitar as «distorções da concorrência». Dito de outra maneira, Ayrault como qualquer socialista, sobretudo do género francês, prefere as distorções administrativas da fixação de um salário mínimo por um órgão europeu em Bruxelas.

19/06/2013

ESTADO DE SÍTIO: Se não tens obras para anunciar, anuncia reduções de impostos ou então…

… «aumentar o salário mínimo (e) a recuperação de rendimentos dos trabalhadores da administração pública, dos pensionistas e dos trabalhadores do sector privado, bem como, a tributação – em sede de IRS – de todos eles», como os dirigentes do CDS .

Se perguntarem porquê responde-lhes que o «poder de compra dos portugueses está 25% abaixo da média europeia», ainda que a mão-de-obra portuguesa produza metade da média europeia e menos de 1/3 da irlandesa. Em caso desesperado, usa o argumento do PCP: aumentando o salário aumenta a produtividade, ainda que, ano após ano, seja desmentido pela corrida entre a lebre dos custos salariais e a tartaruga da produtividade.

11/03/2013

CASE STUDY: O tiro no pé de Passos Coelho e o imbróglio do salário mínimo

À inflamada proposta do líder do PS de aumentar o salário mínimo para combater o desemprego, Passos Coelho respondeu durante o debate no parlamento como se estivesse numa conferência de economia e não metido num saco de lacraus, como, nos tempos do PREC, um (e único) deputado da UDP apelidou a instituição. Explicou que «quando um país enfrenta um nível elevado de desemprego a medida mais sensata que se pode tomar é exactamente a oposta, foi isso que a Irlanda fez no início do seu programa…». O que diz a seguir indicia que o governo não irá evidentemente reduzir o salário mínimo, mas estavam feitos os estragos.

Foi apenas necessário Passos Coelho «estupidamente deixar criar um problema que não existia antes», como disse com a demagogia habitual Marcelo Rebelo de Sousa, apesar de tudo justamente, para se iniciar a ladainha habitual do pessoal político apelando à comiseração dos portugueses, por um lado, e, pelo lado das diversas igrejas da economia, logo se debitaram verdades intemporais e universais a respeito de um tema tão contingente, tão sensível ao tempo, à conjuntura e ao ambiente económico e social, e, já agora, tão sensível ao quantum do salário e do aumento, que a última coisa que pode haver são verdades intemporais e universais.

[Para um ponto de situação do estado da discussão sobre o salário mínimo como medida de política económica ver por exemplo: Minimum human wages, Trickle-up economics, Raise the floor?, The law of demand is a bummer, todos na Economist.]

19/03/2012

DIÁRIO DE BORDO: Contra as inevitabilidades marchar, marchar

Percebi pela primeira vez que havia um tipo particular de psicose política, de negação da realidade, uma espécie de paranoia por assim dizer, ao assistir a uma mesa redonda na RTP há quase 40 anos durante o PREC. Um sindicalista da Intersindical fez umas contas de cabeça para demonstrar que o salário mínimo para um trabalhador fazer face ao que, segundo ele, seriam as necessidades básicas teria de ser não sei quantos contos. O movimento sindical iria bater-se por isso, garantiu.

Um dos participantes da mesa redonda Francisco Pereira de Moura, um católico da esquerda moderada próximo do MDP, professor do ISCEF (hoje ISEG) e na época ministro sem pasta do 1.º governo provisório tentou pôr água naquela fervura evangélica. Em vão. As certezas inabaláveis do sindicalista resistiram incólumes às contas de cabeça de Pereira de Moura que lhe demonstrou que esse salário mínimo era superior ao rendimento médio pelo que nunca poderia ser o salário mínimo. De nada valeu ao sindicalista que continuou por longos minutos a negar a realidade.

Embora as paranoias políticas sejam transversais às ideologias e às classes sociais e tenham graus muito variados, fui percebendo ao longo dos anos serem mais frequentes à medida que se caminha para os extremos do espectro político e ou nos indivíduos com ocupações e vidas mais arredadas do mundo real, do quotidiano de sobrevivência, dos horários e das metas que é preciso cumprir, do fim do mês que custa a chegar, dos engarrafamentos ou do aperto dos transportes públicos, das fraldas, das noites mal dormidas por causa dos dentes dos filhos, etc. – um grande etc.

Ocorreram-me estas reflexões a propósito de manifestações recentes de indignação de dois intelectuais da nossa praça, as quais, sem preocupações de rigor científico, classifico como paranoia política mitigada. Uma das manifestações são as indignações recorrentes nos últimos tempos de Pacheco Pereira nos seus comentários no Público, revoltado contra as «inevitabilidades» em geral e, em particular, contra as políticas de austeridade e contra a ditadura da economia, isto é dos constrangimentos do mundo real.

Outra é o artigo «Um quarto que seja seu» no Sol de sábado passado, onde Inês Pedrosa escreve a sua revolta contra as medidas de emergência do governo para responder à falta de asilos (é disso que se trata quando fala de «lares») pretendendo alojar os velhos nos asilos já existentes. Inês Pedrosa protesta contra o «empilhamento» de 2 idosos em quartos de 12 m2, contra a partilha das casas de banho e a perda de intimidade e conclui que muitos sem-abrigo não saem da rua por não aceitarem ser «amontoados». Não lhe ocorre que a alternativa ao «empilhamento» é deixar tudo como está, à míngua de recursos. E também não lhe ocorre que a magnitude deste problema é multiplicada pela desagregação da família, acelerada pelas políticas sociais em que Inês Pedrosa parece acreditar.

São dois exemplos entre muitos outros possíveis. O que há de comum entre estas duas indignações? A negação da realidade e a rejeição da prática bismarckiana da política como arte do possível, mesmo entre os adeptos do Estado Social como resíduo de todos os outros amanhãs que deveriam cantar, nunca cantaram e provavelmente nunca cantarão.

06/08/2010

ESTADO DE SÍTIO: A ordem é pobre e os frades são muitos (2)

O governo de Sócrates continua a trabalhar como se viu para agravar o défice e, consequentemente, o endividamento, o qual agravará mais o défice, o qual agravará mais o endividamento, o qual … Além disso, ainda se esmerou a ajudar o sector privado a reduzir a competitividade da economia promovendo o maior aumento do salário mínimo da Zona Euro, seguido, não certamente por caso, pelo da Grécia (5,6% e 5,5%, respectivamente).

A coisa só pode acabar mal. Muito mal.

15/11/2006

CASE STUDY: os equívocos do salário mínimo

A propósito do putativo aumento do salário mínimo para 400 euros, oportunamente anunciado pelo primeiro ministro/secretário geral do PS (cortar o que não interessa), a bloguilha liberal tem defendido a doutrina habitual dos efeitos negativos para o emprego (por vezes apresentados como desastrosamente negativos) da simples existência do salário mínimo, e ainda mais do seu aumento. Se não se importam, tenho sérias dúvidas que tal se possa concluir com essa facilidade.

Em primeiro lugar, os efeitos negativos (ou positivos) do salário mínimo dependem obviamente da relação deste com o segmento inferior da grelha de salários efectivamente praticada - se, por absurdo, com a actual distribuição estatística dos salários portugueses, os efeitos negativos (ou positivos) dum salário mínimo mensal em 100 euros seriam absolutamente irrelevantes.

Em segundo lugar, em muitos países onde existe, o salário mínimo abrange apenas uma pequena fracção dos activos: 5% no caso dos EU, em que representa cerca de 30% do salário médio (ver aqui) e, em Portugal, de 6,2% em 2003 baixou para 4,5% em 2005, representado cerca de 50% do salário médio (ver aqui).

Em terceiro lugar, porque essa pequena fracção dos activos é a menos qualificada. No caso português, muitos deles são empregadas domésticas, biscateiros, etc., têm empregos precários e na maioria dos casos produzem bens ou serviços não transaccionáveis. Protegidos da concorrência internacional, esses bens ou serviços não irão evidentemente ser produzidos ou prestados algures na China, no Vietname, ou elsewhere.

Em quarto lugar, porque a teoria divide-se: entre os 650 economistas americanos (na sua maioria de esquerda, esclareça-se, mas nem todos obviamente idiotas) que apoiaram recentemente o aumento do salário mínimo encontram-se 5 prémios Nobel (A blunt instrument).

Em quinto lugar, porque os estudos empíricos realizados mostram resultados contraditórios (A blunt instrument) e quase sempre limitados, quer nos seus efeitos negativos (redução do emprego), quer nos seus efeitos positivos (melhoria de vida dos trabalhadores com menores salários).

Em conclusão, no ponto em que as coisas estão, não vale a pena gastar muito latim, nem perder o sono. Acordem-me quando o senhor engenheiro anunciar, vibrante, poucos dias antes das eleições de 2009, que o salário mínimo vai ser aumentado para 600 euros.