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19/03/2012

DIÁRIO DE BORDO: Contra as inevitabilidades marchar, marchar

Percebi pela primeira vez que havia um tipo particular de psicose política, de negação da realidade, uma espécie de paranoia por assim dizer, ao assistir a uma mesa redonda na RTP há quase 40 anos durante o PREC. Um sindicalista da Intersindical fez umas contas de cabeça para demonstrar que o salário mínimo para um trabalhador fazer face ao que, segundo ele, seriam as necessidades básicas teria de ser não sei quantos contos. O movimento sindical iria bater-se por isso, garantiu.

Um dos participantes da mesa redonda Francisco Pereira de Moura, um católico da esquerda moderada próximo do MDP, professor do ISCEF (hoje ISEG) e na época ministro sem pasta do 1.º governo provisório tentou pôr água naquela fervura evangélica. Em vão. As certezas inabaláveis do sindicalista resistiram incólumes às contas de cabeça de Pereira de Moura que lhe demonstrou que esse salário mínimo era superior ao rendimento médio pelo que nunca poderia ser o salário mínimo. De nada valeu ao sindicalista que continuou por longos minutos a negar a realidade.

Embora as paranoias políticas sejam transversais às ideologias e às classes sociais e tenham graus muito variados, fui percebendo ao longo dos anos serem mais frequentes à medida que se caminha para os extremos do espectro político e ou nos indivíduos com ocupações e vidas mais arredadas do mundo real, do quotidiano de sobrevivência, dos horários e das metas que é preciso cumprir, do fim do mês que custa a chegar, dos engarrafamentos ou do aperto dos transportes públicos, das fraldas, das noites mal dormidas por causa dos dentes dos filhos, etc. – um grande etc.

Ocorreram-me estas reflexões a propósito de manifestações recentes de indignação de dois intelectuais da nossa praça, as quais, sem preocupações de rigor científico, classifico como paranoia política mitigada. Uma das manifestações são as indignações recorrentes nos últimos tempos de Pacheco Pereira nos seus comentários no Público, revoltado contra as «inevitabilidades» em geral e, em particular, contra as políticas de austeridade e contra a ditadura da economia, isto é dos constrangimentos do mundo real.

Outra é o artigo «Um quarto que seja seu» no Sol de sábado passado, onde Inês Pedrosa escreve a sua revolta contra as medidas de emergência do governo para responder à falta de asilos (é disso que se trata quando fala de «lares») pretendendo alojar os velhos nos asilos já existentes. Inês Pedrosa protesta contra o «empilhamento» de 2 idosos em quartos de 12 m2, contra a partilha das casas de banho e a perda de intimidade e conclui que muitos sem-abrigo não saem da rua por não aceitarem ser «amontoados». Não lhe ocorre que a alternativa ao «empilhamento» é deixar tudo como está, à míngua de recursos. E também não lhe ocorre que a magnitude deste problema é multiplicada pela desagregação da família, acelerada pelas políticas sociais em que Inês Pedrosa parece acreditar.

São dois exemplos entre muitos outros possíveis. O que há de comum entre estas duas indignações? A negação da realidade e a rejeição da prática bismarckiana da política como arte do possível, mesmo entre os adeptos do Estado Social como resíduo de todos os outros amanhãs que deveriam cantar, nunca cantaram e provavelmente nunca cantarão.

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