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15/04/2021

Um exercício de ética republicana. O departamento de marketing do PS tem representantes em todas as redacções

Como qualquer sujeito passivo, no sentido fiscal, que não seja passivo no sentido sociopolítico, deveria saber, o governo do Dr. Costa faz em relação ao IRS o que todos os outros têm feito, ou seja, fixa as taxas de retenção em níveis mais altos do que o necessário para adiantar a colecta e o dinheiro ficar do lado de lá desde Fevereiro. Há apenas duas diferenças do governo do Dr. Costa em relação aos que o precederam, a saber:

  1. Abusa da receita de antecipar a extorsão do IRS, de onde necessariamente os reembolsos atingem valores mais elevados, e
  2. Insulta a inteligência dos portugueses (isto é, daqueles que não são estúpidos) e faz durante vários meses uma intensa campanha noticiosa a anunciar os reembolsos de IRS, como se fosse uma dádiva do PS.
Esta campanha noticiosa é levada a cabo com a prestimosa colaboração de dezenas de jornalistas que polvilham todos os dias os jornais online com dezenas de anúncios. Anúncios que nos dois ou três meses que dura o circo superam 50 mil "notícias" como se pode ver na pesquisa abaixo. Muitas dessas "notícias" são ilustradas com a respectiva foto do respectivo secretário de Estado, .

Pesquisa

E daí, perguntarão? Daí que o governo do Dr. Costa, além de extorsionário, manipula escandalosamente os mídia, daí que os mídia estejam ocupados por legiões de jornalistas serventuários deste governo (e muitos deles provavelmente serventuários de qualquer outro governo) que publicam obediente e repetidamente as coisas mais estúpidas que os assessores de comunicação lhes põem nas mãos, daí que a comentadoria não faça a menor alusão a estas campanhas de manipulação, daí que ao povo ignaro tudo isto lhe passe ao lado.

20/01/2021

Nem só o Estado é amigo do empreendedor (15) - A maldição do jornalismo promocional, o epílogo e a moral da estória (parte II)

Outras maldições do jornalismo promocional.

Em retrospectiva:

A Maló Clinic é um dos casos de sucesso mediático de empreendedores com amigos nos jornais, nomeadamente e não por acaso, no semanário de reverência que algum tempo antes da queda se referia, em tom encomiástico, a «Maló, o dentista global»:
«Não quis ser dentista, mas hoje orgulha-se do império criado. Aos 48 anos, Paulo Maló é dono do maior grupo dentário mundial, com clínicas nos quatros continentes»
Sete anos e quase 100 milhões de dívidas depois (mais de 3 vezes a facturação que não ultrapassa 30 milhões), o Grupo Maló Clinic foi adquirido pelo fundo Atena Equity Partners e está em Processo Especial de Revitalização a ver se lhe perdoam uma parte das dívidas.

Epílogo: «Contribuintes perdem trinta milhões com perdões à Malo Clinic»

Actualização: 

A Maló Esthetics foi mais um dos empreendimentos acarinhados pelo jornalismo promocional, neste caso abandonado à sua má sorte por Paulo Maló, o dentista global como o baptizou o Expresso no tempo em que tudo parecia correr bem. Depois de vários anos a perder dinheiro entrou agora em falência.

Moral da estória: 

O complexo político-empresarial socialista facilita com atalhos e subsidia com o dinheiro dos contribuintes, o jornalismo promocional promove e no final os sujeitos passivos voltam a financiar a «revitalização».

29/10/2020

CASE STUDY: O preço da liberdade

«Talvez não surpreenda que as pessoas mais propensas a sacrificar a sua liberdade cívica são as pessoas com maior risco de perder a vida com a covid-19. Mas será isto resultado de estas pessoas serem diferentes das outras, ou antes revela que para a maioria de nós, quando o risco aumenta, estamos dispostos a sacrificar a liberdade? Ou seja, há um trade-off entre os desejos por saúde e por liberdade? Para responder a esta pergunta, os economistas compararam as pessoas para quem o risco de saúde é elevado e que viviam em zonas onde a taxa de infeção era alta, com as pessoas também no grupo de risco mas que vivem em zonas com poucos casos. Os dados revelam uma associação muito forte: quando o risco aumenta, o apoio à redução das liberdades civis é maior.

Mais interessante talvez é separar esta propensão ao sacrifício da liberdade por grupos. Nos dados, a propensão é maior entre os mais jovens, os mais educados e os que têm maiores rendimentos. Ou seja, ao contrário do que talvez muitos diriam, quanto mais ricas, menos as pessoas se parecem preocupar com a sua liberdade, pelo menos em relação à sua saúde. Que os mais ricos e mais educados põem maior ênfase na saúde não é uma surpresa: todo o negócio privado da saúde se apoia neste facto. Mas a sua falta de entusiasmo em defender as suas liberdades cívicas é mais surpreendente. Assim, embora comparando junho com abril as pessoas no inquérito estejam menos dispostas a sacrificar as liberdade cívicas, isto veio acompanhado da redução no risco de saúde: a propensão a sacrificar liberdade por menos risco de saúde mantém-se constante.

Um resultado interessante tem a ver com a StayAway Covid. As pessoas no inquérito estão a favor de instalar uma app como esta. Mas a um grupo dos inquiridos os economistas revelaram informação sobre como a app tem sido usada na China e na Coreia do Sul, com grande controlo sobre os cidadãos. Depois de saberem isto, as pessoas são muito menos favoráveis a instalar a app. Ou seja, talvez as pessoas deem as suas liberdades como adquiridas, mas depois de as perderem já acham mal. Só que nessa altura, frequentemente, é tarde demais.»

Excerto de As pessoas querem ser livres?, Ricardo Reis no Expresso

Tenho para mim que a história mostra que o povo português valoriza pouco a liberdade e está disposto a abdicar dela com facilidade. Quase cinco décadas de acomodação com reduzida resistência a uma ditadura frouxa (por muito que os poucos resistentes nos queiram vender a ideia de uma ditadura feroz) e outras cinco de acomodação a uma democracia asmática e a tolerância a políticos corruptos e incapazes, mostram isso mesmo.

08/07/2020

Lost in translation (339) - Com o pedronunismo nos comandos da TAP haverá rupturas nos bolsos dos sujeitos passivos

Como resultado da sua «bravata ideológica», o ministro das Superestruturas pagou 55 milhões ao accionista David Neeleman para ele se libertar do pesadelo TAP, comprometeu-se a considerá-lo credor privilegiado do seu empréstimo de 90 milhões a uma generosíssima taxa de 7,5%, conseguiu que a TAP fosse a única companhia europeia a não receber um apoio Covid, vai enterrar naquele cemitério 1.200 milhões como primeira de várias prestações a sacar aos contribuintes, despediu o único gestor que conhece o negócio de aviação e garantiu que irá recrutar para a gestão da TAP uma equipa de topo. A respeito desta última garantia só me ocorre o que escreveu José Diogo Quintela: «faz tanto sentido como a minha filha contratar o Chef Kiko para preparar o chá imaginário que ela serve às suas bonecas».

O Dr. Pedro Nuno Santos, a berrar há meses que a TAP está falida, teve de aceitar que a CE considerasse a TAP inviável, apesar dos capitais próprios e os resultados operacionais ainda serem positivos. E, a propósito, recorde-se que quem está de facto falida é a holding TAP SGPS porque uma das participadas é a TAP Manutenção e Engenharia que tem perdido milhões parcialmente compensados pelos lucros na operação da TAP. Recorde-se também que na compra e na gestão desta participada andaram as mãozinhas de Lacerda Machado, o amigo do Dr. Costa, e de outros socialistas (Almeida Santos, por exemplo).

Ah!, quase esquecia, o Dr. Pedro Nuno Santos ainda garantiu que «Não haverá rupturas. Não vamos deixar isso acontecer» o que é uma ameaça assustadora para os sujeitos passivos.

Qual o racional de comprometer os portugueses com o desastre anunciado? Salvar uma companhia de bandeira (leia-se o post there is no such thing as flag carrier)? Dos 10 milhões de portugueses só uma pequeníssima parte viaja regularmente na TAP e os outros milhões de portugueses não residentes, dispõem da oferta das low cost. Querem proporcionar voos baratos aos residentes nas Regiões Autónomas? Subsidie-se se necessário (e talvez não seja) os voos das low cost para as RA- já agora recorde-se que o turismo para os Açores só se começou a desenvolver quando a Ryanair e outras passaram a operar. Querem salvar dez mil postos de trabalho ao custo de 120 mil euros cada, só para começo de conversa?

E qual foi o resultado de tudo isto? Para citar Helena Garrido, «o Governo cavou um buraco ainda maior na TAP e salvou um dos accionistas privados de referência. Com a cumplicidade do primeiro-ministro, do Presidente da República e de todos os partidos. As vítimas desta gestão irracional do processo da TAP serão mais de dez mil famílias, os contribuintes portugueses e o dinheiro que vai faltar noutras áreas em que o Estado é importante.»

Há, porém, um hipotético, ainda que desmesuradamente caro, resultado positivo se o pequeno oráculo Marques Mendes tiver razão e a TAP vier a ser um «grande crematório político ... (que) pode queimar ministros a torto e a direito».

[Para uma recapitulação da saga veja-se etiqueta TAP]

Aditamento:

Já depois de publicado este post, li este artigo de André Abrantes Amaral citando alguns números comprovando a fraude da TAP ser uma "companhia de bandeira": «apenas 28% dos passageiros que chegam ao Funchal o fazem através da TAP. Para Ponta Delgada são apenas 17%. Quanto ao Porto só 20% dos passageiros que chegam à invicta o fazem por via da TAP. Mas a cereja em cima do bolo diz respeito a Faro. Sabia que a TAP foi responsável por apenas 3% (repito, 3%) dos turistas que chegaram ao Algarve no terceiro trimestre de 2019?» 

08/10/2019

Nem só o Estado é amigo do empreendedor (14) - A maldição do jornalismo promocional, o epílogo e a moral da estória

Outras maldições do jornalismo promocional.

Em retrospectiva:

A Maló Clinic é um dos casos de sucesso mediático de empreendedores com amigos nos jornais, nomeadamente e não por acaso, no semanário de reverência que algum tempo antes da queda se referia, em tom encomiástico, a «Maló, o dentista global»:
«Não quis ser dentista, mas hoje orgulha-se do império criado. Aos 48 anos, Paulo Maló é dono do maior grupo dentário mundial, com clínicas nos quatros continentes»
Sete anos e quase 100 milhões de dívidas depois (mais de 3 vezes a facturação que não ultrapassa 30 milhões), o Grupo Maló Clinic foi adquirido pelo fundo Atena Equity Partners e está em Processo Especial de Revitalização a ver se lhe perdoam uma parte das dívidas.

Epílogo: «Contribuintes perdem trinta milhões com perdões à Malo Clinic»

Moral da estória: 

O complexo político-empresarial socialista facilita com atalhos e subsidia com o dinheiro dos contribuintes, o jornalismo promocional promove e no final os sujeitos passivos voltam a financiar a «revitalização».

28/12/2018

Os professores como idiotas úteis das manobras políticas do regime

Entendamo-nos bem, não tenho o propósito de insultar os professores como classe profissional. Tive professores que admirei, tenho professores na minha família e eu próprio já leccionei centenas de horas de cursos profissionais.

Também não tenho o propósito de tratar o problema dos professores sobre o qual apenas refiro que a lengalenga da contagem do tempo de carreira não passa de capa para repor as promoções automáticas e é um equívoco para evitar a verdadeira questão que é os professores, e todos os funcionários públicos, disporem de um sistema de avaliação que distinga o mérito e não os considere colectivamente como um rebanho.

Uso a expressão «idiotas úteis» num sentido semelhante ao usado pelos dirigentes comunistas para designar os jornalistas e intelectuais em geral que propagavam a doutrina comunista e se deixavam instrumentalizar pelo regime tirânico soviético detractando as democracias em que viviam.

Neste caso, os professores serviram de tropa de choque sucessivamente aos socialistas que lhes prometeram a reversão dos direitos adquiridos para abalarem o governo "neoliberal", deixaram-se anestesiar pelos sindicatos comunistas quando ao PC convinha sustentar a geringonça e agora, que o PC receia tornar-se supérfluo se o PS tiver maioria e receia perder terreno para o anarco-sindicalismo via WhatsApp, deixaram-se capturar pelos comunistas e servem-lhes de arma de arremesso via Fenprof.

Como se fosse pouco, estão agora a ser usados por Marcelo nos seus joguinhos com um veto que não veta nada e apenas visar entalar Costa, porque a Marcelo também não convém uma maioria socialista.

16/02/2016

LASCIATE OGNI SPERANZA, VOI CH'ENTRATE: É mais fácil encontrar um lince na Serra da Malcata do que um liberal num país pendurado no Estado (3)

Eu diria mesmo mais:

«... em vez de se aventurarem num processo de recolha de alguns milhares de assinaturas para remeter ao Tribunal Constitucional, os liberais deveriam preocupar-se em ganhar influência e prestígio...» (Blasfémias)

«... os (poucos) liberais que por cá temos e se querem dedicar à vida partidária, em vez de pensarem em lançar uma empresa para a qual não dispõem de suficientes meios financeiros e humanos, se deveriam, antes, dedicar ao CDS e ao PSD. ...» (Blasfémias)

Declaração de interesse: subscrevo com reservas esta segunda medicina no que respeita ao CDS que se tem mostrado até agora um alfobre socialista. Exemplos mais notórios: Freitas do Amaral, Basílio Horta, Adriano Moreira. Vejamos o que nos traz a líder in the making.

13/02/2016

LASCIATE OGNI SPERANZA, VOI CH'ENTRATE: É mais fácil encontrar um lince na Serra da Malcata do que um liberal num país pendurado no Estado (2)

Uma continuação deste post com excertos de textos de duas das mentes deste país obnubilado, pasto de charlatães, que guardam uma lucidez e uma integridade que os distingue dos «intelectuais escorregadios» produtores de neblina mediática.

«Donde vem a disposição da sociedade portuguesa para preferir a distribuição da pobreza pelo Estado, à produção de riqueza pelos cidadãos? Talvez neste país seja mais fácil aos demagogos populistas fazer de conta que os impostos são pagos pelos outros, uma vez que mais de metade das famílias não paga IRS, e só um terço das empresas paga IRC. Ou talvez o medo da mudança (o “liberalismo”) seja maior numa população envelhecida e dependente, a quem os reformistas ainda não conseguiram persuadir de que o “empobrecimento” não deriva da reforma, mas do imobilismo. Mas nada talvez explique tanto como a possibilidade de as coisas serem assim. E essa possibilidade tem dois nomes: o BCE e a OPEC, isto é, os juros baixos e a energia barata. Quando isso mudar, mudaremos. Antes, como já se viu, não.»

Excerto de «O PROC: processo orçamental em curso», Rui Ramos no Observador

«O PS vive hoje na incompreensível ilusão de que é, ou se prepara para ser, um partido radical. O PSD, segundo Passos Coelho, é um partido social-democrata, apenas desviado provisoriamente do seu caminho pela maldade do mundo. Suponhamos que existia um método qualquer, com certeza esotérico, para separar estas magníficas visões da humanidade, a oposição entre elas não justificava com certeza as questiúnculas com que a televisão e a imprensa nos moem o juízo. E a prova está em que acabou por ser preciso arranjar umas tantas querelas dúbias como a TAP ou a eutanásia, para tapar os buracos que a política começava a abrir. Se o PS e o PSD alternassem pacificamente no poder, a pobreza da Pátria não os deixaria fazer muito mal, nem muito bem. E o PCP que lá se divertisse com as suas Câmaras do Alentejo e os seus sindicatos, na paz que se deve à velhice.»

Excerto de «Uma proposta», Vasco Pulido Valente no Público

11/02/2016

LASCIATE OGNI SPERANZA, VOI CH'ENTRATE: É mais fácil encontrar um lince na Serra da Malcata do que um liberal num país pendurado no Estado

«Pedro Passos Coelho apresentou a sua recandidatura a líder do PSD e atrelado veio um novo (no sentido de velho) slogan de campanha: “Social-democracia sempre!” Assim mesmo, com ponto de exclamação e tudo. Como seria de esperar, o slogan foi intensamente parodiado – e bem. 
(...)
É deprimente esta atitude de Passos, quase a pedir desculpa por desejar um país menos dependente do Estado e onde a liberdade de cada indivíduo seja valorizada como merece. Infelizmente, a direita parece ter assimilado a patranha do “terrível neoliberalismo”, e engolir tal tese significa ter vergonha de lutar por um Estado menor e mais eficiente, que não seja o alfa e o ómega da pátria. Mais do que isso, significa continuar a alimentar aquilo a que Charles J. Sykes chamou “uma nação de vítimas”, onde o discurso da vitimização perpétua se transforma numa segunda pele. Este país precisa cada vez mais de um partido liberal, que não peça desculpa pelo que é e que assuma orgulhosamente aquilo que deseja.»

«Arranjem-me um partido liberal, sff», João Miguel Tavares no Público

Também acho ridícula a súbita conversão de Passos Coelho a «um caminho (que) consiste em fazer pagar o consumo nacional pelo capitalismo internacional por meio de empréstimos», como o descreveu António José Saraiva. Caminho que desde há 30 anos significa para os portugueses uma justificação moral para tentar extorquir os contribuintes europeus depois de esgotada a extorsão aos sujeitos passivos locais.

Não obstante, se o slogan “Social-democracia sempre!” é ridículo, o slogan "Liberalismo sempre!", ou parecido, seria fatal para Passos Coelho e deixaria o PSD eleitoralmente irrelevante. Sendo a política a arte do possível, como o velho Otto descobriu, o silêncio teria sido preferível.

20/09/2015

Títulos inspirados (49) - Vai haver um peditório de empresas inovadoras

«Banif, BCP e Novo Banco assinam acordo para dar 420 milhões a empresas inovadoras» titulou o Económico. O «dar» é aqui uma figura de estilo, mas não é uma figura de estilo ocasional. É uma figura de estilo inspirada no maná bíblico que Deus proporcionou aos judeus na travessia do deserto durante 40 anos, maná transfigurado nos fundos europeus que vai fazer 30 anos nos são enviados de Bruxelas.

Diferentemente do maná que Deus criou do nada e fez cair dos céus, os céus neste caso são Bruxelas e o nada são os bolsos dos sujeitos passivos europeus a quem os diversos Estados subtraíram impostos que se não tivessem sido subtraídos seriam aplicados, quiçá «dados» a empresas inovadoras.

28/06/2015

ESTADO DE SÍTIO: «A bolsa VIP do fisco» (5)

Continuação de (1), (2), (3) e (4)

Não é espantoso que uma questão relacionada essencialmente com a violação da confidencialidade dos dados fiscais tenha sido usada como arma de arremesso pela oposição e pelos sindicalistas e é agora pasto para os protestos destes últimos contra um «plano de acção desenhado pela Autoridade Tributária e Aduaneira (AT) para reforçar a segurança informática e controlar o acesso aos dados fiscais»?

E porque protestam os sindicalistas? Por estarem «à margem das discussões»; por obrigar «os funcionários a justificar a consulta das informações fiscais»; por dificultar a «informação que os contribuintes solicitam via telefone ou via digital não lhes vai ser facultada» (é preciso uma grande lata e uma enorme falta de vergonha para contar estas estórias para serem lidas por quem algum dia tentou falar por essas vias para o Fisco).

Em conclusão, segundo o apparatchik do PCP que dirige o Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos, as medidas do plano de acção «só se podem entender à luz de tentar encobrir o crime da constituição da lista VIP e a tentar esconder a incompetência do secretário de Estado Paulo Núncio nesta matéria».

27/05/2015

ESTADO DE SÍTIO: «A bolsa VIP do fisco» (4)

Continuação de (1), (2) e (3)

Segundo as conclusões do relatório de inquérito da Inspecção-Geral de Finanças corroboraram a conclusão da Comissão Nacional de Protecção de Dados confirmando que a tutela política ignorava e não tinha dado instruções para criar a bendita lista. Acresce que a existência dessa lista não foi informada ao secretário de Estado pelo director-geral da Autoridade Tributária que entretanto se demitiu.

Sem surpresa, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos, que estava cansado de saber da existência de tal lista e por isso protestou há meses pelos processos disciplinares por acesso indevido, considerou que o relatório «não é isento, nem idóneo» e pediu outra vez a demissão do secretário de Estado - afinal ele está lá para isso e o jornalismo de causas está cá para lhe dar voz. Também sem surpresa, as conclusões do inquérito são irrelevantes para alterar seja o que for dos hectolitros de tinta e de cuspo que foram gastos a instilar nas meninges dos sujeitos passivos a culpabilidade da criatura.

No final, a questão mais importante que é assegurar a confidencialidade dos dados de todos os sujeitos passivos ficou soterrada debaixo de toneladas de detritos mediáticos.

17/04/2015

ESTADO DE SÍTIO: «A bolsa VIP do fisco» (3)

Continuação de (1) e (2)

Já aqui escrevi, com a tendência que nos é reconhecida de confundir a nuvem com Juno, conseguiu-se transformar um problema de violação da confidencialidade dos dados fiscais numa discussão sobre existência ou de uma lista de luminárias com o direito a não serem devassados, direito não reconhecido aos restantes contribuintes.

Volto a este tema porque este artigo da Visão é um dos melhores exemplos publicados dessa confusão. Nele o articulista desenvolve teorias da conspiração sobre os putativos criadores da putativa lista, sem por um só momento se interrogar sobre a violação sistemática da confidencialidade fiscal ficando a elucubrar sobre os obstáculos que a tal lista poderia criar a essa violação.

04/04/2015

ESTADO DE SÍTIO: «A bolsa VIP do fisco» (2)

Continuação de (1).

Com a tendência que nos é reconhecida de confundir a nuvem com Juno, conseguiu-se transformar um problema de violação da confidencialidade dos dados fiscais numa discussão sobre existência ou de uma lista de luminárias com o direito a não serem devassados, direito não reconhecido aos restantes contribuintes.

Evidentemente que os políticos da oposição e os jornalistas de causas – duas corporações frequentemente indistinguíveis – e ainda os sindicalistas das finanças não embarcaram nesta confusão por engano. As duas primeiras corporações visaram entalar o governo que segundo a tese em vigor pretenderia esconder do escrutínio público a sua fiscalidade duvidosa. A terceira corporação pretendia algo ainda menos confessável: evitar ela própria ser escrutinada pela violação sistemática da confidencialidade fiscal por razões de «curiosidade» ou outras não especificadas.

O que nos revela o relatório da Comissão Nacional de Protecção de Dados divulgado na terça-feira é digno de um Estado Policial. Quase 10 mil funcionários têm acesso aos dados de qualquer contribuinte sob qualquer pretexto. Estagiários, tarefeiros, pessoal das empresas prestadoras de serviços têm igualmente acesso. No total 12 mil olheiros perscrutam os nossos dados fiscais. Sem surpresa, Passos Coelho foi o alvo preferido com 137 acessos aos seus dados por 41 olheiros diferentes. Não há notícia de acessos aos dados de Sócrates ou Costa.

Não é preciso ser-se um profeta para antecipar que passada esta tempestade mediática o business volta ao as usual e muito provavelmente tudo permanecerá na mesma até ao próximo escândalo.

17/03/2015

ESTADO DE SÍTIO: «A bolsa VIP do fisco»

Há episódios neste Portugal dos Pequeninos que constituem um paradigma de uma sociedade sufocada por um Estado omnipresente capturado por corporações de todos os tamanhos e feitios.

Há dois meses, durante uma acção de formação na Torre do Tombo, possivelmente um dos lugares mais apropriados para o efeito, o formador informou os formandos que a auditoria interna tinha instalado um sistema chamado «Bolsa VIP» que permitia identificar os funcionários fiscais que acedessem sem autorização a essa lista de contribuintes, que incluiria políticos, alta finança e grandes empresários.

Dois meses depois, os deuses da manobra política saberão porquê, a coisa torna-se pública, o governo nega a existência de tal lista e ninguém acredita, os sindicatos queixam-se que já há processos disciplinares por acesso indevido e queixam-se que assim não se pode trabalhar, bla bla, e há quem acredite.

Se este fosse um país normal, os milhões de sujeitos passivos ter-se-iam levantado como um só sujeito activo exigindo fazer parte dessa «Bolsa VIP”, que é como quem diz qualquer funcionário fiscal que acedesse sem autorização aos dados de qualquer contribuinte deveria ser exemplarmente punido.

Como não é um país normal (ou, vá lá, talvez seja, mas será rançoso), a questão da garantia da confidencialidade dos dados dos cidadãos ficou completamente perdida.

25/12/2013

DIÁRIO DE BORDO: «Desgarrada» e «ablação abrupta»

A redução da iniquidade de um sistema de pensões privativo dos funcionários públicos e financiado pelos sujeitos passivos fazendo-o convergir para o sistema público de pensões dos sujeitos passivos foi classificada como «desgarrada» pelo professor Marcelo Rebelo de Sousa, o autêntico picareta falante, e «ablação abrupta» pelo Tribunal Constitucional, o Conselho da Revolução do novo milénio.
Negócios online

06/09/2013

Lost in translation (185) – «Serventes do governo», significa de qualquer governo, sobretudo dos governos PS

João Ribeiro, porta-voz do PS, entende «que o programa "'O País Pergunta' não garante a igualdade de tratamento entre os líderes político-partidários», e, por isso, «considera que "parte da direcção de informação da RTP está instrumentalizada e governamentalizada" e que alguns dos seus elementos "comportam-se recorrentemente como serventes do governo"». (ionline)

O PS só percebe que a RTP é uma espécie de putain de la République, paga a peso de ouro pelos sujeitos passivos, quando ela se deita com o inimigo.

22/05/2013

No Prós e Contras: Over it 1 – Under it 0 (parte II)

Continuação da parte I.

Uma avaliação da prestação da doutora em História Política e Institucional pelo amigo A.B.
(publicada sem autorização)

Tive ocasião de ver grande parte do programa. A gaja doutora da Universidade Nova (e não do ISCTE tanto quanto sei), a Raquel Varela, não acertou numa. Eu, que ao início até achava que ela podia ter outros atributos com algum valor acrescentado, acabei por ficar convencido que não é utilizável nem reciclável em nenhuma circunstância...

Enviesada, agressiva, estúpida, de curta visão, manipuladora, sem vergonha, são algumas das características que encontrei nela. Estou a ser gentil.

Não sei se viram a parte em que ela não percebe como é possível um banco ser privado. «O controle das grandes empresas tem que ser colectivo». Colectivo? O que é isso do colectivo?

«O dinheiro de estado tem que ser investido prioritariamente em cultura, ciência, saúde e educação porque é isto que faz avançar o país». Dois problemas: o dinheiro de que ela fala é o dinheiro não dos impostos mas sim da apropriação por parte da colectividade, diz ela, dos meios de produção. Até os termos utilizados dão arrepios. Vêm da parte mais negra do século passado. Já vimos onde isso vai dar em inúmeras experiências catastróficas que só trouxeram, sem exagero nas palavras, miséria e tragédia. O outro problema é que ela mistura algumas coisas certas (por exemplo investir em educação) com outras totalmente erradas: investir em cultura traz avanços? Está maluca ou quê? Mais depressa traz avanços o investimento na guerra, se quisermos ser cínicos mas verdadeiros.

«Somos credores do estado social. Nós entregamos em impostos e contribuições o suficiente para garantir todas as nossas funções sociais». Onde vive esta senhora? Será que não percebe que estamos completamente falidos?

21/05/2013

No Prós e Contras: Over it 1 – Under it 0

O Portugal com iniciativa empresarial foi representado por Martim Neves, um jovem de 16 anos que lançou o seu próprio negócio com a marca «Over it»; a representação do Portugal parasitário dependente do Estado Social, esteve a cargo de uma doutora em História Política e Institucional do ISCTE que prefere o desemprego aos empregos com salários baixos criados por novos negócios como o do Martim.


Aos 5m 20s Martim Neves com uma frase arruma a quinquilharia retórica da doutora em História Política e Institucional.

[Via Blasfémias]

16/02/2013

CASE STUDY: Para que precisamos de uma empresa pública ferroviária?

No ano passado a CP suprimiu 30 mil comboios devido a greves totais, parciais ou a horas extraordinárias que se verificaram em 295 dias.

O ano passado, tal como nos anos anteriores, a Fertagus que explora a linha sobre a ponte 25 de Abril não teve nenhuma greve e, em 2011, com 193 trabalhadores transportou 30 milhões de passageiros (incluindo por camioneta). A CP com 2.978 trabalhadores (15 vezes mais) transportou apenas 126 milhões (4 vezes mais).

Em 2011, a Fertagus facturou 28 milhões (145 mil por trabalhador) e a CP, incluindo carga, facturou 238 milhões (8,5 vezes) ou 80 mil por trabalhador. No mesmo ano, os resultados da Fertagus foram -470 mil (em 2010 tinham sido de +4,1 milhões) e os resultados da CP foram de -289 milhões (incluindo 188 milhões de juros), uma vez mais negativos, como há décadas. Não espanta, pois, que a Fertagus tenha capitais próprios positivos de 3 milhões e a CP esteja falida com capitais próprios negativos de -2.957 milhões! Ainda menos espanta que tivesse em 2011 um passivo por financiamentos obtidos de 3,7 mil milhões - o equivalente a mais de 10% da dívida do sector empresarial do Estado.


É claro que esses indicadores não são totalmente comparáveis por que se trata de empresas com negócios, estratégias diferentes e clientes diferentes, mas as diferenças são tão abissais que não podem esconder o desastre nacional de um país que entregou o seu transporte ferroviário a um monstro ingovernável mantido pelo Leviatã do Estado Socialista à custa da extorsão dos sujeitos passivos.

Aditamento:
Um passageiro regular da Fertagus chamou-me a atenção para outras diferenças abissais. O atendimento e relacionamento com os passageiros (friendlly not familiar na Fertagus versus familiar or not friendly na CP) e o estado de conservação e limpeza das estações e dos comboios (bom aspecto no caso da Fertagus e uma esterqueira no caso da CP, salvo nos Alfas).