O que chamamos "falta de habitação" é a diferença entre a procura e a oferta em certos locais, sobretudo as grandes zonas urbanas, e para certas modalidades de habitação: habitação própria, arrendamento ou ambas. Olhando pelo lado da procura, a opção pela modalidade habitação própria depende desde logo a facilidade de acesso ao crédito e das taxas de juro. Ora nos últimos 10 anos e até recentemente as taxas de juro resultantes das políticas monetárias do BCE foram artificialmente baixas o que tornou mais atractiva a opção compra.
Com o aumento das taxas de juros, ou melhor com o ajustamento aos níveis historicamente normais, a opção compra poderá tornar-se menos atractiva pelo lado da procura e para muitas pessoas que a escolheram por razões de custo com créditos hipotecários a taxa variável (quase todas), o aumento das amortizações mensais pode levá-las a questionar a sua opção.
É o que parece estar a passar-se. Segundo a plataforma imovendo citada pelo Negócios, «a percentagem de novas casas colocadas à venda há menos de um mês aumentou cerca de 150% nas duas primeiras semanas de abril, comparativamente a janeiro passado».
Imaginemos que o "Mais Habitação", em vez de ser, como é, sobretudo uma campanha de agitprop inventada pelo Dr. Costa, era um plano sério para construir novas habitações para venda. Quando anos mais tarde essas habitações entrassem no mercado é provável que as preferências nessa altura já não fossem a compra mas o arrendamento. É mais um exemplo de como os grandes planos centralizadores para os problemas da habitação mais facilmente criam novos problemas do que resolvem os antigos.
(Continua)