Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

25/02/2019

Crónica da avaria que a geringonça está a infligir ao País (176)

Outras avarias da geringonça e do país.

Com a popularidade de Costa e as intenções de voto do PS ambas em baixa, a maioria está cada vez mais distante. Em pior situação se encontram o PC e o BE cuja intenções de votos ficam hoje 2 e 1,3 pontos percentuais, respectivamente, abaixo das últimas eleições (fonte). Se não fosse o Ronaldo das Finanças estar a tentar arranjar um emprego permanente em Bruxelas, Costa entregue a si mesmo iria certamente começar a entornar dinheiro em cima da clientela eleitoral.

Em vez de entornar o dinheiro que não há, Costa em alternativa continua a fazer fogo de barragem com medidas, leis, projectos e planos. A última dessas iniciativa foi, como referi a semana passada, o Direito Real de Habitação Duradoura ou Arrendamento Vitalício, sobre o qual quanto mais se sabe mais se percebe que é um aborto inviável que não interessa aos inquilinos nem aos senhorios

Só um sujeito distraído ficaria surpreendido com as manobras e as pressões que o governo fez sobre a OCDE - a que sucumbiu Ángel Gurría, um correlegionário do PRI mexicano, membro da Internacional Socialista - para alterar o capítulo de Portugal sobre corrupção do Economic Survey e afastar Álvaro Santos Pereira, responsável da equipa que preparou o relatório, da apresentação. Está nos genes do PS que em muitos aspectos é tanto ou mais controleiro do que o PC.

Também não há razão para surpresas quando a IGCP (a agência que gere a dúvida pública) apresenta aos investidores estrangeiros uma administração pública com redução dos efectivos como se fosse obra do governo de Costa, quando quem a reduziu em 57 mil foi o governo anterior. Pelo contrário, este governo inchou-a com mais 24 mil utentes da vaca marsupial pública e prepara-se para continuar com mais mil funcionários para as escolas, que um dia poderão ter mais funcionários do que alunos já que estes estão em retracção desde 2009.

A renacionalização dos CTT, defendida por comunistas, berloquistas e sectores afins do PS, seria estúpida até para marxistas que ainda não perceberam que os serviços tradicionais dos CTT estão em esvaziamento rápido. Distribuição de correio e pagamento de pensões desceram para metade desde 2001 e 2005, respectivamente, e as visitas a loja reduziram-se mais de 40% entre 2011 e 2018. Só a distribuição de encomendas aumentou 40% nos últimos dois anos. Os CTT só conseguirão sobreviver sem subsídios públicos se entrarem decididamente no mundo digital moderno e alguém está a ver uma empresa pública a fazê-lo em condições de competitividade?

Provavelmente estamos a chegar ao fim de várias bolhas incluindo a do turismo - a taxa de ocupação da hotelaria desceu ligeiramente 1,3 pontos percentuais em 2018, depois de vários anos a subir. E tem sido o turismo a compensar o défice crescente da balança de bens nos últimos três anos sob a geringonça, ainda assim não o suficiente para evitar que o superavit da balança de bens e serviços tenha vindo a diminuir nos últimos dois anos. Não admira que a balança corrente e de capital, que desde 2012 tem vindo a apresentar um superavit, este tenha igualmente diminuído nos últimos dois anos e caindo 903 milhões em 2018, apesar das remessas de emigrantes que em 2017 atingiram 3,5 mil milhões ou 1,8% do PIB.

Tudo isso explica que não se tenha conseguido reduzir a dívida externa, nem mesmo em termos relativos, já que esta que se encontrava no final de 2018 em 101,3% o mesmo nível de 2011 no auge da crise. Em termos comparativos com a Zona Euro, o endividamento externo português é 20 vezes superior à média (5% do PIB) e constitui um sério problema. Não é preciso ser muito clarividente para perceber que com essa dívida externa e com uma dívida pública que praticamente duplicou nos últimos 10 anos, estamos hoje muito mais vulneráveis a uma crise do que então.

E tudo se complicará com o arrefecimento da economia. O governo tem vindo a propagandear um crescimento acima do crescimento médio da UE, omitindo que isso só acontece devida à recessão italiana e à quebra do crescimento francês e alemão. Quando comparamos com os países com quem nos podemos comparar, o nosso crescimento é "poucochinho" face a Eslováquia (4,1%), Hungria (4,8%), Polónia (5%), Eslovénia (4,9%), Letónia (5%), etc. As fragilidades são tão evidentes que a «Reuters compara economia portuguesa a comboio em risco de descarrilar». No que respeita às exportações Portugal é o quinto país da UE que menos cresceu em 2018.

E acumulam-se os sinais de arrefecimento: o indicador de Formação Bruta de Capital Fixo do INE desacelerou em dezembro, bem como o índice de produção na indústria (fonte). Também o indicador de confiança do ISEG voltou a descer em Janeiro. Se a isto juntarmos o esgotamento da redução do desemprego, que de resto começou a subir em Janeiro, percebe-se que o crescimento baseado no aumento da população activa está esgotado pelo que a partir de agora para crescer será necessário melhorar a produtividade exigindo um aumento do investimento que está longe de acontecer.