Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

25/01/2015

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: Mitologia grega - Hocus pocus, tontus talontus, vade celerita jubes


Para quem não conheça, pode ler aqui um resumo do programa do Syriza que irá resolver os problemas dos gregos e dos troianos, que somos nós e os espanhóis (os irlandeses não acreditam em bruxas e estão há 4 anos a tratar da sua vidinha). Como teaser aqui vai a introdução:

We demand immediate parliamentary elections and a strong negotiation mandate with the goal to:
  • Write-off the greater part of public debt’s nominal value so that it becomes sustainable in the context of a "European Debt Conference". It happened for Germany in 1953. It can also happen for the South of Europe and Greece. 
  • Include a "growth clause" in the repayment of the remaining part so that it is growth-financed and not budget-financed. 
  • Include a significant grace period ("moratorium") in debt servicing to save funds for growth.
  • Exclude public investment from the restrictions of the Stability and Growth Pact. 
  • A "European New Deal" of public investment financed by the European Investment Bank.
  • Quantitative easing by the European Central Bank with direct purchases of sovereign bonds.
  • Finally, we declare once again that the issue of the Nazi occupation forced loan from the Bank of Greece is open for us. Our partners know it. It will become the country’s official position from our first days in power. 
On the basis of this plan, we will fight and secure a socially viable solution to Greece’s debt problem so that our country is able to pay off the remaining debt from the creation of new wealth and not from primary surpluses, which deprive society of income.

With that plan, we will lead with security the country to recovery and productive reconstruction by: 
  • Immediately increasing public investment by at least €4 billion. 
  • Gradually reversing all the Memorandum injustices. Gradually restoring salaries and pensions so as to increase consumption and demand. 
  • Providing small and medium-sized enterprises with incentives for employment, and subsidizing the energy cost of industry in exchange for an employment and environmental clause. 
  • Investing in knowledge, research, and new technology in order to have young scientists, who have been massively emigrating over the last years, back home. 
  • Rebuilding the welfare state, restoring the rule of law and creating a meritocratic state.

Mitos (184) - «O facto de uma coisa ser penosa, não significa que a alternativa não seja ainda mais penosa»


Não façamos confusões. A maioria da dívida grega é hoje detida pelos Estados-membros da UE, pelo BCE e pelo FMI. Por isso, quem pagará o default, o haircut ou whatever não são principalmente os capitalistas – são os contribuintes, incluindo os portugueses à razão de 110 euros por cabeça.

24/01/2015

Pro memoria (217) - O comentário político mais estúpido sobre a bazuca do Mario


«A ortodoxia do ajustamento interno prosseguido pelo Governo sofreu hoje uma pesada derrota política e doutrinária» postulou, a propósito do anúncio da bazuca do Mario, António Costa, aquele a quem os pais da pátria ungiram para a salvar do inferno neoliberal.

Numa feroz competição com opinion dealers de todos os quadrantes que produziram pérolas do pensamento político-económico de grande calibre, Costa demonstra que o seu silêncio não se tem devido a falta de ideias e ganha por mérito próprio o prémio do comentário político mais estúpido sobre a bazuca do Mario.

A propósito, segundo um estudo dos psicólogos Shaul Shalvi, Ori Eldar e Yoella Bereby-Meyer publicado na Psychological Science, as pessoas tendem a ser mais desonestas e a mentir mais quando pressionadas pela falta de tempo. Jornalistas de causas não empurrem o microfone para cima do Dr. Costa (e dos outros, claro) porque, como resumiu o Dr, Shalvi, «people usually know it is wrong to lie, they just need time to do the right thing

23/01/2015

BREIQUINGUE NIUZ: Sócrates e Bárcenas, a mesma luta

«Grabaciones ocultas, sanciones, yoga y lecturas: así han sido los 19 meses de prisión de Bárcenas


Luis Bárcenas sale de la cárcel 19 meses después. Tras ocho solicitudes de libertad provisional, a la novena fue a la vencida y, 200.000 euros mediante, el extesorero del PP abandona la prisión de Soto del Real (Madrid). ¿Volverá? Sólo el proceso judicial de su caso lo podrá decir.

En ese año y medio de prisión, con toda España pendiente de sus declaraciones o de lo que él se decía en los circulos policiales, judiciales o políticos, el hombre que puso en jaque al Gobierno de Rajoy descubría cómo era la vida de un recluso.» (20 minutos)

Um dia como os outros na vida do estado sucial (21) – De chumbo em chumbo até à vitória final

Foi mais uma vez (a quarta) chumbada no parlamento «a adopção plena de crianças por casais do mesmo sexo». Os seus proponentes, encabeçados por Isabel Moreira, essa grande lutadora pelas causas fracturantes, estão inconsoláveis e certamente não desistirão de combater o que, segundo eles, é actualmente «um direito exclusivo de pais e mães solteiros e de casais heterossexuais».

Se olharmos para a coisa, isto é as crianças sem pais, como uma coisa, então, de facto, não parece haver razão para que os homossexuais não possam dispor dessa coisa como os heterossexuais. Seria assim como vedar aos homossexuais a compra de habitação própria.

Dúvidas (73) – Teria o DDT caído, não fora ter-se metido com o PQP e o Chico dos Porsches? (II)

Recordando: antes de nos felicitarmos pelo «funcionamento das instituições» que colocou um fim (provisório?) ao reinado do Dr. Ricardo Salgado, o Dono Disto Tudo, convirá reflectirmos um pouco sobre as verdadeiras causas da queda da casa dos Espíritos.

Como agora se torna cada vez mais claro, as «instituições» funcionaram mal e tardiamente. Os administradores não executivos «independentes» do BES entravam mudos e saíram calados, a comissão de auditoria vivia em paz e harmonia com a comissão executiva, o ROC e auditor KPMG assobiava para o lado e sacudia a água do capote «alertando» os seus estados de alma (*), o BdeP empurrava com a barriga para frente tentando gerir as pressões do DDT, o governo lavava as mãos, porque quem tinha de lidar com o assunto era (de facto) o supervisor.

A acrescentar tudo o que já se sabia que funcionou mal, tivemos a confirmação esta semana pela boca do seu presidente José Alves na audição na comissão parlamentar de inquérito que a PwC cessou unilateralmente em 2002 a auditoria do BES por razões na altura não publicamente não reveladas mas que foram comunicadas ao Banco de Portugal e à CMVM. Razões que incluíam, entre outras irregularidades, o financiamento de offshores, as entidades que foram do perímetro de consolidação do grupo, a opacidade da ES International, o financiamento encapotado do BES a não residentes para a aquisição de acções do próprio banco, da PT e da PTM.

Adivinhe quem era o governador do BdP em 2002. Vítor Constâncio, o ministro anexo, o mesmo que fez a famosa «declaração Mississipi» no discurso de tomada de posse em 2000, assobiou para o lado no BPN, o mesmo que estimou para o governo de José Sócrates défices vindos do governo de Santana Lopes com uma precisão de centésimas de um ponto percentual. Quem mais haveria de ser?

22/01/2015

LA DONNA E UN ANIMALE STRAVAGANTE: Para tirar os trapinhos qualquer causa é boa nem todas as causas são boas (14)

Outros trapinhos tirados: (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10), (11), (12) e (13).

Mulheres alienadas tirando os trapinhos ao serviço do machismo capitalista do jornal The Sun vs garotas de Ipanema tirando os trapinhos «em protesto contra a falta de liberdade das mulheres»

Curtas e grossas (16) – O problema não está em Sócrates

«Porque o problema não está em Sócrates – está no país que permitiu que ele fosse duas vezes primeiro-ministro.» (João Miguel Tavares no Público)

SERVIÇO PÚBLICO: O princípio do princípio a resvalar para o princípio do fim (3)

Outros princípios: (1), (2)

Repetindo-me: durante mais de dois anos publiquei a série de 31 posts «O princípio do princípio», o último dos quais em Fevereiro passado, salientando os sinais positivos da economia em resposta às medidas que o governo PSD-CDS foi forçado a tomar pelo Memorando de Entendimento. A insuficiência das reformas, o gradual esgotamento do fraco ímpeto reformista do governo, o fim do PAEF e a aproximação das eleições e do seu apelo à demagogia e irresponsabilidade começaram entretanto a comprometer alguns os progressos.

Se as reformas foram tão pífias como foi possível ter arrebitado a economia que não vive ao colo do Estado, conseguir pela primeira vez em décadas equilibrar as contas externas (saldo positivo até Outubro nas Balanças Corrente + Capital de € 3,4 mil milhões – contra 2,8 mil milhões o ano passado), ganhar a confiança dos investidores colocando a semana passada 10 mil milhões a 10 anos a uma taxa média de 2,92% e 2 mil milhões a 30 anos a uma taxa média de 4,131%, com uma procura que quase triplicou a oferta?

Apesar de tudo eles ainda acreditam em nós (Fonte: Bloomberg)
A resposta é: porque o governo diminuiu o seu intervencionismo na economia, deixou de querer fazer o papel dos empresários, de pretender saber o que era bom para a economia, de extorquir recursos para o celebrado investimento público e limitou-se à extorquir cada vez mais impostos para pagar a máquina extorsionária.

Lost in translation (220) – Com um governo socialista as políticas serão… ligeiramente diferentes

É o que garante Caldeira Cabral que com mais 10 outros economistas está a preparar um programa «rigoroso», com uma «estratégia de consolidação orçamental claríssima a médio prazo» … «é só ligeiramente diferente».

E em que consiste a diferença? «Vamos dar dinheiro de forma a criar incentivos, a pô-los a trabalhar em conjunto e a produzirem melhores resultados. Isto é pôr o Estado a funcionar melhor.» Pronto, ficamos esclarecidos.

21/01/2015

Encalhados numa ruga do contínuo espaço-tempo (29) – Soares tem razão

«Portugal não é uma democracia. Se Portugal fosse uma democracia há muito que ninguém se sentiria obrigado a publicar-lhe os textos.» (Helena Matos)

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (15) O clube dos incréus reforçou-se (II)

Outras marteladas.

Agora que a bazuca de Draghi volta a excitar as mentes, botemos alguma água na fervura citando mais um incréu – o economista alemão Daniel Stelter que umas semanas atrás disse, entre outras coisas, o seguinte ao Expresso.

«Acha que o BCE avançará para um QE total, incluindo a compra de dívida pública dos seus membros?

O BCE, na verdade, é a única instituição na Europa que funciona e já disse que fará "tudo o que for preciso" para salvar o euro. Mas, como eu digo, apenas ganhará tempo e dará mais umas rodadas de cerveja de borla ao pessoal perto do balcão do bar. O BCE corre o risco de acabar como um Fundo de Redenção da Dívida sem legitimação democrática para tal.

Isso não vai causar problemas complicados com alguns, nomeadamente com o Bundesbank e o governo alemão?

Vai, mas, no final, eu acredito que os políticos alemães acabarão por proferir essa via, pois esconderá o verdadeiro custo de "resgatar" a zona euro. Como já disse, prefiro a abordagem aberta - e não camuflada. Pois avançando pela via do BCE, continuamos a correr o risco de convulsões políticas. O caminho do BCE é muito lento e teremos de lidar com depressão por muitos anos.

Os franceses têm sugerido um "New Deal" europeu, pois consideram o pacote do presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker de 300 mil milhões de euros, anunciado hoje, como uma falsa promessa. o "New Deal" seria mais endividamento ou a solução?

Participei na semana passada numa discussão com economistas franceses. O que achei impressionante é continuarem a acreditar na capacidade dos governos em resolverem os nossos problemas. Os franceses são verdadeiramente socialistas, na minha opinião. Só os mercados livres podem gerar inovação e novas indústrias. O papel do governo é assegurar um bom enquadramento para que isso seja possível. Agora, julgar que mais 300 mil milhões de euros gastos pela União Europeia resolverão os problemas é ingénuo.

A sua abordagem é uma espécie de "terceira via", alternativa à austeridade e ao despesismo governamental, com uma muleta menor ou maior do BCE? 

 O ponto de partida foi os governos cortarem os seus gastos virados para o futuro - investimento, educação, inovação. Isso é totalmente errado. Temos de limitar o crescimento do crédito e tornar atrativo investir na economia real do ponto de vista fiscal, e não - repito - financiar a especulação. Esta terminaria automaticamente se voltássemos a ter taxas de juro normais. O meu ponto de vista central é que, como sociedades, temos de reduzir o consumo, que inclui o bem estar social, e investir mais no futuro.

Com todo esse conjunto de problemas, acha que um "momento Minsky" pode surgir?

O falecido economista Hyman Minsky falava de um esquema [em pirâmide) Ponzi quando o mutuário já não consegue pagar nem o capital nem o juro e espera ser resgatado pelo investidor seguinte. Neste momento, estamos todos a viver num esquema desses. Esperando ser resgatado pelo próximo. O problema é que a demografia diz- nos que há menos gente a entrar no esquema do que a sair. O que significa, por definição, que o esquema está no fim. O momento Minsky é o crash. Como todas as derrocadas é mais fácil explicá-Ias depois, do que antes. Mas é óbvio que o jogo está perto do final.»

20/01/2015

Exemplos do costume (26) – Garbage in, garbage out

Se fosse preciso demonstrar as consequências negativas da promiscuidade entre a política e os negócios, o caso GES ofereceu inúmeros exemplos e entre eles o da intervenção do político e advogado José Luís Arnaut, entretanto emigrado para o Goldman Sachs, ao intermediar um empréstimo de 835 milhões deste último banco ao BES pouco antes do seu colapso, depois de ter garantido que Ricardo Salgado «deixa um banco robusto com capital e credibilidade».

E foi assim que José Luís Arnaut se estreou nas páginas do Wall Street Journal, na companhia de António Esteves, igualmente partner da Goldman Sachs. Um e outro negaram-se a fazer comentários ao WSJ. Fizeram bem, quanto menos se mexer nos excrementos menos eles cheiram mal.

De boas intenções está o inferno cheio (27) – A religião é a política por outros meios? (II)

Uma espécie de continuação daqui.

Instintivamente, desconfiei do Papa Francisco. Tive e tenho dúvidas que seja um bom papa para a Igreja e tenho dúvidas de que seja um bom papa para o mundo. É o estilo e a substância. Cheira-me a teologia da libertação. E não só a mim cheira – vejam-se os narizes sensíveis da esquerdalhada, sempre excitadíssima en masse com qualquer trivialidade de Francisco.

Escrevi o que antecede há cerca de um ano e, se fosse hoje, voltaria a escrevê-lo depois de ler as suas declarações sobre os limites para a liberdade de expressão onde a título de exemplo admite que se alguém «ofender a minha mãe, deve estar preparado para levar um soco. É normal. Não se pode provocar, não se pode insultar a fé dos outros. Não se pode ridicularizar a religião dos outros».

É claro que há uma distância grande entre dar um murro numa criatura por ter ofendido a religião de outra criatura e dar-lhe uma rajada de kalashnikov, mas a substância é semelhante: a recusa da liberdade de expressão se esta for usada para ridicularizar a religião. Há até uma certa proporcionalidade, considerando que o murro seria oferecido pelo chefe religioso da igreja católica, que propugna oferecer a outra face ao ofensor, e a rajada de kalashnikov seria dada por jihadistas que costumam resolver as diferenças com a decapitação do infiel.

Para que não haja dúvida, esclareço que acho o Charlie Hebdo um jornal de  humor medíocre e classifico de um mau gosto atroz os seus cartunes em geral, seja sobre seja Maomé seja sobre o papa. E seja o Charlie, seja o o Expresso, onde há uns anos foi publicado um cartune com um preservativo no nariz do papa João Paulo II. Et pourtant. não acho nada que isto se resolva a murro.

19/01/2015

ACREDITE SE QUISER: A autofagia do esquerdismo ou de união em união até à desunião final


«Com apenas um mês de vida, o Juntos Podemos enfrenta uma guerra interna. Joana Amaral Dias acusa de "boicote" e de "tentativa de manipulação" um grupo de militantes, que respondem com acusações de "desnorte" e "ganância" à ex-dirigente bloquista. "Isto não é da Joana", responde um dos opositores internos.

"Não há condições", diz o comunicado assinado por 14 membros da Comissão Dinamizadora, único órgão representativo do movimento, eleito no passado dia 14 de dezembro. Joana Amaral Dias, Nuno Ramos de Almeida e Carlos Antunes são os rostos mais conhecidos da estrutura que, esta semana, se autodissolveu por achar que o movimento sofreu "uma tentativa de ocupação e de controlo externo" que acham "inaceitável". O alvo é o Movimento Alternativa Socialista (MAS), partido liderado por outro dissidente bloquista, Gil Garcia, que assumiu "integrar o Juntos Podemos". » (Expresso)

Lost in translation (219) – there is no such thing as flag carrier (II)

A singularidade da companhia de bandeira das caravelas lusitanas (d'après Costa), uma das vacas sagradas do regime, no concerto das nações.