Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

19/01/2017

18/01/2017

CASE STUDY: O pensamento económico da Mouse School of Economics à luz do revisionismo de Costa

Como se sabe, o pensamento económico de Costa seria, se Costa tivesse um pensamento económico para além da sua inspiração na Banda do Casaco («Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos»), fundado na doutrina dominante da Mouse School of Economics.

E o que nos diz essa doutrina dominante? Várias coisas, mas fiquemos pelas mais importantes: incentivando o consumo (mesmo o de bens importados) a economia cresce; seja qual for o investimento, nomeadamente o investimento público, o multiplicador socialista converte o investimento em PIB k vezes (em auto-estradas k=18); a produtividade aumenta quando aumentam os salários.

Daqueles princípios resultam vários corolários, mas fiquemo-nos pelos mais importantes: o défice das contas públicas (a «obsessão» pelo défice é um dos crimes do neoliberalismo) e o défice das contas externas são irrelevantes («ninguém analisa a dimensão macro da balança externa do Mississipi ou de qualquer outra região de uma grande união monetária», disse sabiamente Vítor Constâncio por voltas de 2000); a «aposta no investimento público» e «numa estratégia assente em baixos salários (não) conseguiremos ser competitivos» (disse com igual sapiência Costa, um destes dias).

Inexplicavelmente, Costa na sua governação abandonou os três primeiros corolários, fixando-se obsessivamente no défice orçamental, anunciando todos os dias grandes «realizações» do seu governo em matéria de contas externas, dedicando uma importância inesperada às exportações (onde até o presidente dos Afectos também tem «feelings») e deixando cair o investimento público ao nível de 1995. Do pensamento da Mouse School of Economics resta-lhe, pois, o aumento dos salários para melhorar a competitividade. Passando das palavras aos actos aumentou o salário mínimo.

CROIS LE OU PAS: A Paris, sous l'égide du bouffon en chef

«Israel-Palestine peace talks: Descending into farce 

A gabfest involving diplomats from some 70 countries discussing peace between Israel and Palestine, held in Paris over the weekend, did not include Israel or Palestine. Officials aimed their rhetoric at Donald Trump while calling for an increasingly unlikely two-state solution. Reactions were muted: Israel’s government is distracted by a corruption scandal. The meeting felt less like a conference than a farewell tour of an ageing rock band.»

Foi isto que a Economist escreveu no seu Daily Dispatch a propósito da fantochada parisiense promovida por François Hollande.

17/01/2017

TIROU-ME AS PALAVRAS DE BOCA: Transformar o Estado social num Estado clientelar

«Mas o que fazem (PS, PCP e BE), de facto, é outra coisa: aproveitar a assistência financeira do BCE para distribuir rendas por grupos de dependentes do Estado, com os quais esperam cerzir uma “base social de apoio”. Assim se está a transformar o Estado social num Estado clientelar, isto é, num Estado onde os serviços públicos são menos importantes do que o emprego público

«Porque é que não pode haver oposição?», Rui Ramos no Observador

ARTIGO DEFUNTO: Como trespassar a falha de duas pernas de um tripé para uma quarta perna

«No enquadramento clássico do regime, o PCP e BE estavam fora do arco governativo por razões óbvias. Os obituários de Soares reavivaram essas razões. Nesse quadro, a direita, sobretudo o PSD, estava sempre presa a uma ética de responsabilidade tramada: estava na oposição, mas era sempre chamada à pedra nas horas h - caso contrário, o PS não conseguia governar e cairíamos num cenário à I República. Ora, foi este arranjo clássico que Costa destruiu para se manter no poder. António Costa rasgou décadas de convenções entre PS, PSD e CDS. Foi Costa que destruiu todas as pontes. Que pontes pode agora o PSD percorrer para chegar até Costa, que, para se aninhar no colinho da extrema-esquerda, queimou as regras não escritas que garantiam um mínimo de respeito entre PS e PSD? Por outras palavras, Costa libertou o gordinho. Já não há gordinho, porque já não há arco governativo. 

Se PCP e BE não estão ainda preparados para governar, então temos de ir de novo para eleições, por muito que isso irrite o Marcelinho dos afetos. Esta é a grande questão política. Até porque metade do país não pode ser tratada como o gordinho em quem se pode bater em impunidade. Costa desrespeitou a direita através da maior traição política em décadas. E agora exige à mesma direita que apareça desprovida de orgulho para lhe aprovar uma lei? Isto é transformar o maior bloco político, social e cultural do país (a AD, ou PaF) numa flor na lapela do PS. Não é aceitável nem desejável. A democracia não pode ser o pátio onde o rufia com boa imprensa faz o que quer.»

«O gordinho», Henrique Raposo no Expresso Diário

O tripé que precisa de apoio
O trespasse da responsabilidade pela recusa de duas das três pernas do tripé suportarem a geringonça, no que respeita à redução da TSU para compensar o aumento do salário mínimo, negociada pelo governo na Concertação Social, violando os acordos com o BE e os Verdes, para uma quarta perna (o PSD) é provavelmente uma das «reversões» mais extraordinárias que Costa e o PS conseguiram até agora. Quarta perna contra a qual as outras três há um ano construíram um tripé chamado geringonça.

É claro que não é tudo mérito de Costa. Uma parte é mérito do tripé do jornalismo de causas que infesta as redacções ter funcionado convenientemente, porque todos estavam interessados em entalar o PSD para não ficarem entalados e colocando em risco a geringonça face à evidência do voto contra de comunistas e bloquistas.

16/01/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (66)

Outras avarias da geringonça.

Como escrevi a semana passada nesta crónica, o milagre da multiplicação da devolução de rendimentos da geringonça tem-se dado sobretudo nas importações de bens duradouros. No mês de Novembro as importações totais aumentaram 8,4% e, apesar do aumento das exportações, o défice comercial subiu 91 milhões em relação ao mesmo mês do ano passado e ficou em 781 milhões,

Por isso, os bancos privilegiam o financiamento do consumo e da compra de habitação (mais de 5 mil milhões até Novembro para comprar casinhas) e fica para trás o financiamento das empresas que diminuiu, o que de resto seria expectável quando se sabe que o investimento produtivo privado está em queda.

ACREDITE SE QUISER: Conflito de interesses? Qual conflito de interesses?

«Rio veio esta semana defender a nacionalização do Novo Banco. Não deixa de ser curioso que o mesmo seja presidente do conselho de administração de uma empresa do fundo Vallis, um dos maiores devedores do... Novo Banco.»  (Expresso)

15/01/2017

Nem todos os obamas de Obama fazem felizes os obamófilos: episódio (85) – Atrás de mim virá quem de mim bom fará

O anterior post anunciado como o último episódio de uma longa série não foi o último. Talvez seja este.

Rasmussen Reports
Se depois de 8 anos na Casa Branca, os americanos sentirem a falta de Barack Obama deve-se mais ao seu sucessor Donald Trump do que à bondade das suas políticas.

DIÁRIO DE BORDO: a passarada que me visita (29)

Felosa-comum ou felosinha (Phylloscopus collybita) tomando o seu brunch às 11:30 da manhã

14/01/2017

CASE STUDY: Trumpologia (7) - O período de graça acabou antes de começar

Mais trumpologia.

Depois de uma hebdomas horribilis de Donald Trump, que se contradisse e desdisse outra vez, várias vezes, com alegações de ter sido filmado pelos russos a fazer poucas-vergonhas, etc. (um enorme etc.), não admira ter a sua taxa de aprovação descido ao purgatório a caminho do inferno (37%). Ainda antes de tomar posse já há eleitores de Trump arrependidos.

Moral da estória (se a estória tivesse moral): um inimigo dos teus inimigos não é necessariamente teu amigo ou a doutrina Somoza é muito perigosa.

Mitos (245) - Desfazendo o mito de Louçã de um Trotsky salvífico

Mostrando distraidamente a sua costela trotskista de ex-militante da LCI e da IV Internacional, convenientemente camuflada para construir o frentismo bloquista, o conselheiro Louçã esforçou-se para limpar a folha de Leon Trotsky no seu prefácio à biografia de «Estaline», agora publicada pelo Expresso. José Milhazes no Observador não estava distraído e responde no Observador à pergunta que ele próprio faz: «Seria diferente se Trotski tivesse vencido Estaline na URSS?». Aqui vai um excerto à laia de teaser:

«Francisco Louçã assinala que a biografia de Estaline começa apenas “quando o biografado, já tem 44 anos, está no auge do seu poder, e por isso só cobre os últimos 21 anos da sua vida”, deixando de fora importantes momentos. Estou de acordo, pois isso permitiria também abordar algumas das imprecisões (ou talvez deturpações conscientes) escritas pelo próprio Dr. Louçã.

Muitas delas estão contidas no último parágrafo desse prefácio: “A tragédia do século XX é esta: uma revolução contra uma ditadura e uma guerra, que libertou milhões de servos e prometeu o fim da exploração, que se anunciou como a alvorada de uma humanidade cooperante, foi dominada por uma burocracia fechada, temerosa e por isso agressiva, cujo poder se ergueu sobre uma pirâmide de vítimas”.

Ora, como é sabido, a revolução comunista não foi feita contra uma ditadura, mas contra uma democracia pluralista saída da revolução de Fevereiro de 1917. Foi este pluralismo, por exemplo, que permitiu o regresso de Vladimir Lenine e Lev Trotski à Rússia e deixou escapar o poder para as mãos dos bolcheviques. Foi este pluralismo que convocou eleições para a Assembleia Constituinte em 1918, acto eleitoral livre onde os bolcheviques saíram derrotados e, por isso, não a deixaram ir além da primeira sessão. As eleições livres e pluralistas seguintes realizaram-se apenas em 1989, e os comunistas saíram delas fortemente enfraquecidos.»

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Distraído, mentiroso ou medroso?

Secção Musgo Viscoso

Para alguém que anda na política há mais de duas décadas, foi secretário de Estado de Guterres e ministro de Sócrates da Economia, primeiro, e das Finanças, depois, fazer um depoimento como o que fez na comissão de inquérito à Caixa só pode ser distraído, mentiroso ou está sob ameaça do animal feroz.

Respigo um entre muitos outros exemplos. Depois de há duas semanas o seu antecessor como ministro das Finanças de Sócrates ter admitido ser pressionado pelo animal feroz para nomear para a Caixa Santos Ferreira e o seu amigo Vara, Teixeira dos Santos diz que foi coincidência ter ele próprio nomeado a mesma dupla. Quanto a Vara explicou que «fez carreira na Caixa, era director, tinha conhecimento dos cargos de direção da Caixa e capacidade de liderança. Fazia a ligação entre a administração e a Caixa e sinalizava que os quadros da Caixa poderiam chegar à administração». Inexplicavelmente nenhum deputado presente na comissão de inquérito vomitou.

Com esta audição, Teixeira dos Santos merece cinco urracas pela falta de tomates, cinco bourbons por continuar igual a si próprio, cinco pilatos por ter passado o tempo a lavar as mãos das responsabilidades, e só não lhe atribuo cinco ignóbeis por não ter conseguido perceber se é distraído, mentiroso ou medroso.

Que a criatura com a sua songamonguice tenha conseguido atingir um estatuto de intocável do regime, depois das suas enormes responsabilidades no desastre socrático, diz mais sobre as nossas elites do que sobre ele próprio.

13/01/2017

ACREDITE SE QUISER: O sobe e desce

Sobe segundo a Aximage e recua segundo a Eurosondagem 

A defesa dos centros de decisão nacional (19) - Unintended consequences (VI)

[Continuação de (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7),  (8), (9), (10), (11), (12), (13), (14), (15), (16), (17) e (18)]

Ainda a propósito de várias coisas do domínio do óbvio ululante referidas no post anterior, veja-se no diagrama seguinte o resultado do crescente endividamento e descapitalização das empresas traduzido na posição do controlo accionista estrangeiro nas 500 Maiores e Melhores Empresas (fonte Expresso) sempre superior a 40% em qualquer dos três indicadores.


Enquanto isso, resmas de empresários, de gestores, de políticos, de opinion dealers e de outras luminárias patrióticas escreviam e assinavam manifestos e incendiavam os mídia e os congressos na defesa dos centros de decisão nacional. Alguns dos empresários mais incendiados venderam pouco depois de se incendiarem as suas participações a estrangeiros.