Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

24/05/2015

Mitos (196) - os socialistas são amigos dos pobres (V)

[Continuação de (I), (II), (III) e (IV)]

Já deveria ser do domínio público que os socialistas não são amigos dos pobres. Os socialistas querem perpetuar a sua clientela e por isso querem manter pobres os pobres e acabar com os ricos.

Mais um exemplo, a adicionar aos inúmeros já referidos nos posts acima, de que os amigos dos pobres não são os socialistas, são os capitalistas filantrópicos. Bill Gross, o lendário manager do fundo Pimco, que entretanto abandonou, depois de já ter doado uma quantidade inacreditável de dinheiro (600 a 700 milhões de dólares), revelou numa entrevista à Bloomberg que irá doar os restantes 2 mil milhões da sua fortuna.

Por falar em filantropia, Warren Buffet, um dos maiores capitalistas filantrópicos, se não maior de todos, defendeu recentemente que, em vez de aumentar os salários mínimos, o governo depois de receber a declaração de rendimentos deveria enviar um cheque de um valor regressivo aos trabalhadores com menores rendimentos. A ideia não é original - é uma espécie de imposto negativo. Vou pensar nisso.

ARTIGO DEFUNTO: Se ele o diz…


«Vou-lhe dizer uma coisa que eu aprecio: nunca houve tanta liberdade de imprensa como há hoje em Portugal. Governo nenhum desde o dr. Mário Soares… aliás, o dr. Mário Soares tem muito maus exemplos em matéria de liberdade (de imprensa). Isto é um mérito que tenho que reconhecer a este Governo. Há outros, como há outros defeitos.» (Marinho e Pinto em entrevista ao Observador)

Não é tudo mérito do governo. Há muito demérito do jornalismo de causas que infesta os mídia. A independência da parte desse jornalismo afecta às causas socialistas só se manifesta quando em S. Bento não mora um socialista. Quanto ao jornalismo de causas comunistas e berloquistas, esse ocupa-se a fazer cálculos para saber qual dos dois demónios é menos diabólico.

23/05/2015

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: A fábula do surto inventivo que nos assola (9)

[Outros posts sobre a mesma fábula: 08-08-2010; 28-11-2010;28-11-2012; 08-12-2013; 16-12-2013; 26-12-2013; 17-01-2014; 25-02-2014; 11-03-2014; 08-04-2015; 18-05-2015]

Segundo esta notícia do Expresso foram atribuídas pelo Conselho Europeu de Investigação (ERC na sigla em inglês) 2 bolsas avançadas de 2,5 milhões de euros a investigadores portugueses a acrescentar a 15 outras relativas a 2014. Segundo a prosa apologética do MEC isso «revela a crescente qualidade e internacionalização dos nossos cientistas e representa um investimento de mais de 31 milhões de euros».

Peço licença para discordar. Por benignidade, vamos admitir a bondade dos critérios de atribuição de bolsas por parte do ERC, o que não é pouco, porque esses critérios avaliados à luz dos resultados da investigação na Óropa (ver o quadro neste post) estão longe de serem indiscutíveis.

Ainda assim, com essa bondade, a dúzia e meia de bolsas atribuídas desde 2014 representam o quê num universo de quase 10 mil «investigadores» ou seja mais de 50% da média europeia em relação à população? Zero vírgula dois por cento, o que torna ridícula qualquer exaltação a este respeito.

Quando leio tais exaltações, lembro-me dos sketchs «Portugueses extraordinários (passe o pleonasmo)» da série «Melhor que falecer» em que Ricardo Araújo Pereira ridiculariza esta mania de glorificar os feitos dos patrícios - por exemplo uma entrevista a um famoso cozinheiro português que cozinhava para o secretário do adjunto de um realizador famoso. Ou lembro-me daquelas ridicularias dos jornais que escrevem «o Real Madrid de Cristiano Ronaldo» ou «o Chelsea de Mourinho».

Dúvidas (98) – Porque gostam os poderes socialistas de intimidades com os poderes fácticos dos futebóis?

Durante mais de uma década os socialistas da câmara do Porto socializarem intimamente com a mafia do futebol. Até chegar Rui Rio e espantar o bando do FêCêPê. Só foi preciso esperar até que Rui Moreira - um socialista sem cartão - voltasse a acolher o mesmo bando.

Na câmara de Lisboa, também os socialistas de Costa trocaram gentilezas com a mafia dos lampiões – por exemplo perdão de dívidas e legalização de obras ilegais. Mais recentemente, as trapalhadas sobre as comemorações no Marquês de Pombal mostraram um tratamento de favor por parte do sucessor de Costa, autorizando a baderna contra o parecer da PSP com os resultados que se viram.

Por falar em baderna dos lampiões, tenho de rectificar postumamente o post onde escrevi «Não é a boçalidade dos lampiões. É a de alguns lampiões». Depois de conhecer a extensão do que se passou em Guimarães e mais tarde em Lisboa, sinto-me obrigado a escrever boçalidade de muitos lampiões e vandalismo de alguns. Não há desculpas.

22/05/2015

ACREDITE SE QUISER: Les bons esprits se rencontrent

Entre os 39 livros em língua inglesa da biblioteca de Bin Laden, há apenas dois autores repetidos: William Blum (Killing Hope: U.S. Military and CIA Interventions since World War II e Rogue State: A Guide to the World’s Only Superpower) e Noam Chomsky (Hegemony or Survival: America’s Quest for Global Dominance e Necessary Illusions: Thought Control in Democratic Societies).

William Blum, começou por ser «um anti-comunista com desejo de se tornar um Foreign Service Officer» e acabou um adversário da política externa americana e, nessa qualidade, foi muito elogiado por Bin Laden e Chomsky. Este último, igualmente admirador de Bin Laden, não precisa de apresentação: «linguista, filósofo, activista político, fez casa cheia em Lisboa», para citar o Pravda Público.

Além desta literatura, Bin Laden possuía igualmente uma vasta colecção de pornografia cujo visionamento alternaria (especulo eu) com a leitura de Chomsky.

A maldição da tabuada (23) – Nem todas as operações aritméticas são comutativas

«As famílias portuguesas usam todos os meses mais de três mil milhões de euros de plafond de crédito - cartões de crédito, contas-ordenado e linhas de crédito autorizadas (crédito revolving). Um valor que reflecte gastos sistemáticos que ficam três mil milhões de euros acima do seu rendimento disponível.»

O parágrafo acima é o primeiro de uma «notícia» do Diário Económico, um jornal «especializado», com o título «Famílias usam três mil milhões de euros de plafond de crédito todos os meses». Se os gastos mensais das famílias ficassem três mil milhões de euros acima do rendimento disponível todos os anos o endividamento das famílias aumentaria 36 mil milhões de euros. Isto deveria ser suficiente para acender uma luzinha na cabeça do jornalista para perceber que está a confundir stocks (o plafond de crédito) com fluxos (consumo mensal acima do rendimento disponível).

Lost in translation (240) – O que queria ele dizer?

«Há medidas apresentadas pelos economistas do PS que são perfeitamente liberais – eu não as subscrevo. Mas são liberais.» Disse Passos Coelho, entrevistado pelo Observador.

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (25) Unintended consequences (VI)

Outras marteladas.

Uma coisa parece estar acima de qualquer dúvida: multiplicam-se os sinais de que as injecções maciças de liquidez pelos bancos centrais, nomeadamente a Fed, o BoE, o BoJ e agora o BCE, estão, entre outros efeitos colaterais, a inchar as bolhas dos mercados imobiliários e de capitais, como já aqui, aqui e aqui referi.

Quanto aos efeitos sobre o crescimento económico as opiniões dividem-se. Vamos aos factos: no Japão, apesar a impressora do BoJ estar há muitos meses a trabalhar a todo o vapor, o crescimento continua anémico. O mesmo se passa na Zona Euro ainda que a impressora do BCE esteja há menos tempo a trabalhar. Quanto aos EU, depois de vários anos e triliões de dólares, a economia animou-se e o desemprego desceu significativamente. Contudo, nos últimos meses, o boom (que nunca tinha atingiu altas temperaturas) começou a esfriar, apesar da impressora continua a funcionar. Ora veja-se o diagrama seguinte.

Fonte: The Economist Espresso

21/05/2015

Bons exemplos (96) – Os estudantes portugueses não querem ser utentes da vaca marsupial pública

«Dois mil e quinhentos alunos portugueses dos cursos de economia, gestão e tecnologia responderam à pergunta: quais são as empresas ideais para trabalharem» (Observador). Entre as 20 mais atractivas só há 3 empresas públicas – TAP em 16.º, BdeP em 19.º e Caixa em 20.º. Das restantes 17, só 4 são privadas portuguesas (com a Sonae em 2.º lugar) e as restantes são multinacionais.

É bom saber que os estudantes portugueses (pelo menos estes 2.500) não têm a mesma preferência do que os jovens franceses que na sua maioria aspiram a ser funcionários públicos.

ESTADO DE SÍTIO: Votando com os pés

Fonte: The Economist Espresso
Nem a lavagem do regime castrista em curso com a ajuda do papa Francisco, nem a promessa de Raúl Castro de passar a frequentar a missa, parecem fazer mudar de ideias os cubanos que têm a desdita de viver na «democracia» da família Castro e do seu partido comunista – votam crescentemente com os pés, ou, para ser exacto, votam com os braços, os remos e os motores dos seus barcos.

ACREDITE SE QUISER: Esclavagismo, disse ele (talvez pensando no Gulag)

Enquanto o camarada Arménio Carlos, o apparatchik de serviço na CGTP, acusa o FMI de ser uma «organização esclavagista» por este no seu último relatório recomendar manter as 40 horas de trabalho nas autarquias e reduzir o número de funcionários da Administração Pública, a 10 mil km de distância na «República Popular Democrática da Coreia» (recorde-se que o camarada Bernardino Soares tem dúvidas se a quinta dos Kim não seria mesmo uma democracia), o governo norte-coreano comandado pelo Kim sobrevivente enviou entre 50 a 60 mil cidadãos para trabalhar em várias indústrias por todo o mundo retendo a maior parte dos salários. Por falar nisso, recorde-se que Cuba, outra «democracia» do mesmo tipo, tem esse hábito há décadas.

20/05/2015

Estado empreendedor (94) – A saga do «Atlântida» só podia acabar mal

Não vou recontar a estória do «Atlântida» já amplamente contada no (Im)pertinências (ver estes posts), vou apenas recordar que depois de várias tentativas falhadas para o vender – a mais célebre terá sido a tentativa de Sócrates fazer negócio com o coronel Chávez – acabou por ser comprado pela Douro Azul por 8,7 mil milhões de euros de onde resultou um prejuízo estimado de 70 milhões de euros desde que o governo socialista regional dos Açores rejeitou a encomenda por motivos pueris.

Exemplificando outra vez uma das leis de Murphy – o facto de uma coisa ter corrido mal no passado não significa que não possa correr ainda pior no futuro – soube-se agora que, apenas  8 meses depois, a Douro Azul vendeu o barco por 17 milhões de euros a uma empresa de cruzeiros da Noruega. De onde se pode concluir: ou bem o empresário Mário Ferreira da Douro Azul é um génio a vender chaços ou bem os noruegueses são tansos ou bem o ministério da Defesa é um vendedor incompetente ou bem … Fico por aqui para não entrar em teorias da conspiração.

BREIQUINGUE NIUZ: Há quem compre BTs por mais do que eles valem

«Durante a manhã de hoje, Portugal realizou duas emissões de Bilhetes do Tesouro, obtendo taxas de juro negativas pela primeira vez na história e juntando-se assim ao grupo dos países que se financiam com taxas negativas. 

Assim, nos títulos com 6 meses de maturidade, o país emitiu um montante de 300 milhões de euros com uma yield média de −0.002%, um valor que compara com os 0.047% suportados a 18 de Março. Na emissão com maturidade de 12 meses, a taxa de juro implícita situou se em 0.021%, para um montante de 1.2 mil milhões de euros, o que compara com uma yield de 0.094% na última operação comparável. 

O bom resultado alcançado ficou também patente na forte procura registada, com esta a superar a oferta em 4.61 vezes na emissão mais curta e em 1.97 vezes nos títulos a 12 meses.»

Newsletter do BPI

É claro que isto só é possível nesta conjuntura particular dos mercados de obrigações. Em todo o caso, veja-se a diferença para a Grécia governada pelo Syriza, em cujas políticas o Telegraph encontra «a striking similarity in some of the pre-electoral language and proposals» do PS de António Costa.

DIÁRIO DE BORDO: Eu diria mesmo mais

Também me sinto bastante assim. Livrai-nos de tudo isso, «mas sobre tudo, livrai-nos Senhor dos seniores que se transladam para as redes sociais e que poluem a net com uma mistura nauseabunda de trotskysmo e de “hippismo” requentado. Não seria preferível jogar às damas ou à sueca num jardim, a beber umas bejecas e a dizer mal da patroa?»

ARTIGO DE DEFUNTO: A arte de bem titular (8)

«Défice abaixo dos 3% já foi alcançado, não uma mas sete vezes» foi o título escolhido pelo jornalista de causas do Pravda Público para um artigo onde comenta a seguinte afirmação de Passos Coelho durante um jantar em Guimarães no sábado passado:
«Conseguimos também que o país pudesse ter em 2015, é isso que vamos conseguir, um défice inferior a 3% do PIB. É a primeira vez desde que nós integrámos a moeda única».
É um longo (600 palavras) e confuso artigo escrito com grande ripanço, dois dias depois do tal jantar, onde as 7 vezes a que se refere o título são contadas esticando o período de referência (até se concede a subtileza de considerar 01-01-1999 para a fixação dos câmbios em vez de  01-01-2002 para a entrada em circulação das notas e moedas) e considerando os défices antes das correcções do Eurostat - critério que, se o preso 44 e a sua engenharia contabilística ainda por cá andassem, permitiria ter os défices que o homem quisesse.

Finalmente, com má-fé quanto baste, socorre-se dos dados da Pordata para concluir que «há seis ocorrências de anos em que o défice esteve abaixo dos 3%. A primeira data do ano em que foi implantada a democracia, em 1974, as restantes cinco aconteceram nos últimos 20 anos». Não fora o seu presumível escrúpulo antifascista e até poderia incluir na contagem os défices do Botas e acrescentar mais umas dezenas de défices inferiores a 3% - excepto durante a guerra na maioria dos anos da «longa noite fascista» registaram-se superávits.

É claro que o facto de a referência de Passos Coelho ser ao período de vigência do euro e não aos últimos 20 ou 40 anos é irrelevante para a tese da criatura, como é ainda mais irrelevante o facto dos défices da Pordata serem em contabilidade pública e o que interessa em termos de UE é a contabilidade nacional (*). Ainda assim, desde 1999 há apenas 2 anos com défice em contabilidade pública inferiores a 3% - conferir aqui) e não há nenhum desde a entrada em circulação do euro em 2002 (provavelmente o período que Passos Coelhos teria em mente).

Eurostat
E, no entanto, seria tão fácil verificar se Passos Coelho teria asneirado de facto, o que tem acontecido, diga-se, com alguma frequência, mas isso está acima das competências do jornalismo de causas. Bastava ter consultado o Eurostat. Em seu benefício, e uma vez sem exemplo, poderá conferir o diagrama acima e concluir que se (um grande se) este ano o défice ficar abaixo de 3% será o primeiro desde a adopção do euro, seja lá o que isso for. Poderá aproveitar e confrontar-se com a sua incompetência/desonestidade (cortar conforme preferir).

(*) «Public deficit/surplus is defined in the Maastricht Treaty as general government net borrowing/lending according to the European System of Accounts. The general government sector comprises central government, state government, local government, and social security funds. The relevant definitions are provided in Council Regulation 479/2009, as amended» (Eurostat)

19/05/2015

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (109) – Os socialistas rejeitam os seus próprios planos

Programa de Estabilidade e Crescimento 2010-2013 (PEC 4)

Muito oportunamente recordado no Insurgente.

Declaração conjunta: obrigado Observador


Faz hoje um ano que surgiu uma ilha de independência num oceano de jornalismo de causas.

                                         Impertinente                                                    Pertinente

Bons exemplos (95) – A lucidez ainda/já (cortar conforme o gosto) está em maioria

Fonte

SERVIÇO PÚBLICO: Keynes não era keynesiano e, se ainda fosse vivo, morreria de tédio ao ouvir os seus seguidores (2)

Entrevista a Richard Davenport-Hines na Veja. (2.ª parte)


Como Keynes combinou as qualidades do académico com as do homem de acção?

Eu diria que ele foi o arquétipo do intelectual público. Era sólido na teoria, mas também conseguia navegar com segurança entre os políticos e fazer com que suas ideias fossem economistas serviram de consultores a presidentes americanos e líderes europeus, mas nenhum teve papel semelhante ao que Keynes exerceu no período entre as Grandes Guerras. Ele liderou a delegação britânica na Conferência de Bretton Woods, em 1944, momento em que foram desenhados o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. Vinha negociando e planejando a criação desses mecanismos globais desde o início da II Guerra, porque estava determinado a reduzir a instabilidade. as crises, o desemprego e os impostos colectados para financiar armas antes da eclosão do conflito. Para Keynes, muitas das razões que levaram a Europa de volta às trincheiras eram económicas, não políticas. E ele acreditava que, ao desenhar as bases para um capitalismo menos instável, seria possível evitar uma nova guerra como aquela que arrasava o mundo. Foi a figura intelectual dominante de Bretton Woods. Mais tarde contava, com ironia, ter agido durante o encontro como economista, financista, político, jornalista, publicitário, advogado, funcionário do governo - e profeta. Keynes passou muito mal durante a conferência. Havia sido diagnosticado pouco tempo antes com um problema cardíaco irreversível e sofreu vários colapsos. Mesmo assim, conseguiu sair de lá com seus planos aprovados.

O que levou Keynes à economia?

Acho que houve dois motores: um certo sentimento de nostalgia e a crença na necessidade de viver uma vida plena. Keynes descrevia os anos que antecederam a 1 Guerra como um paraíso perdido para ele e para os europeus. Queria uma nova belle époque, um mundo de prosperidade, elegância, segurança e valorização das artes. Keynes amava a beleza e o prazer. E desejava que todos tivessem acesso a essas coisas, tanto assim que dedicou um tempo precioso a conseguir dinheiro para criar o Arts Council e financiar a Royal Opera House, a National Gallery e a Portrait Gallery. O senhor está dizendo que o Tratado sobre a Moeda foi escrito para devolver o mundo à belle époque?

É mais ou menos isso se estamos falando das motivações profundas, da maneira como a obra de Keynes se relaciona com a sua história de vida e a sua personalidade. Keynes participou activamente do grupo de Bloomsbury, formado por artistas e escritores como Virgínia Woolf.

Qual foi a importância dessa convivência para Keynes?

Era um ambiente estimulante para ele, embora todos os artistas fossem menos inteligentes que Keynes. Eram criativos, não intelectuais. Creio que um elemento-chave que Keynes exercitou com o grupo de Bloomsbury foi a arte de flertar. Ele sempre se achou feio. Para compensar isso, foi charmoso e cativante. Gostava muito de flertar com todos, não necessariamente no sentido sexual. Ele desenvolveu a capacidade de dominar as conversas como nenhuma outra pessoa naqueles tempos. Nunca foi arrogante. Só na velhice surgiu nele um traço de impaciência. Não suportava mais conversar com pessoas de mentalidade lenta, convencionais demais, que lançavam mão de clichés para justificar tudo.»

A entrevista continua com questões relativas à vida sexual de Keynes o que para o caso é irrelevante (apesar do que possivelmente pensam os gays e os homófobos).

18/05/2015

Manifestações de paranóia/esquizofrenia (6)


«Esquizofrénico é alguém que perde a capacidade de pensar de uma forma lógica e, consequentemente, de comunicar e de se relacionar, passando a viver num mundo paralelo e sem as normas pelas quais se regem as pessoas ditas normais».
«Houve uma batalha de senso comum que a esquerda perdeu completamente para a direita. As pessoas acham mesmo que viveram acima das suas possibilidades, que têm de pagar a conta, alimentar os mercados financeiros. (…)
Penso que já não vai lá com política, só com psiquiatria, parece-me um problema patológico.»
Excertos de uma entrevista do jornal i a Marisa Matias. A esquizofrenia já está a ser visível até para os berloquistas menos esquizofrénicos.

Dúvidas (97) – Finalmente a tão esperada revolta dos indignados?

Parece que não. É apenas a boçalidade dos lampiões. (DN)

Comentário ao comentário:

Tem Bruno Costa razão neste seu comentário. Não é a boçalidade dos lampiões. É a de alguns lampiões, como já foi de alguns dragões e de alguns lagartos. Julgo que os lampiões não são especialmente boçais. São mais os lampiões boçais porque os lampiões são em maior número. O meu ponto não era esse. O meu ponto são outros dois pontos. Ponto um: deve ser uma frustração para a esquerdalhada não conseguir excitar assim as massas; ponto dois: as emoções do futebol, aqui e noutros sítios, levam as massas excitadas à boçalidade.

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: A fábula do surto inventivo que nos assola (8)

[Outros posts sobre a mesma fábula: 08-08-2010; 28-11-2010;28-11-2012; 08-12-2013; 16-12-2013; 26-12-2013; 17-01-2014; 25-02-2014; 11-03-2014; 08-04-2015].

Com este já se contam 10 posts desmistificadores de mais esta fábula socialista agora chorosamente recordada por ocasião da morte de Mariano Gago que, para usar as palavras de Daniel Bessa, ocupou-se a comprar os ovos – com dinheiro fiado, acrescente-se – e agora só falta o mais difícil que é fazer as omeletes com os mais de 90 mil cozinheiros. O texto seguinte é uma ilha no oceano da verborreia do jornalismo de causas glorificando a torra de grana para criar um exército de investigadores que não investigam porra nenhuma (com as excepções que sempre houve e haverá). Ou, mais exactamente, investigar eles investigam, porém, na maior parte dos casos, ninguém, para além dos próprios e da sua claque de apoio, considera que isso seja investigação.

«Trata-se de uma grande questão política, com pê grande: deve o país continuar a investir em Ciência, como caminho para um dia, mais cedo ou mais tarde, melhorar a Economia (emprego, salários, condições de vida das pessoas)? Como em todas as grandes questões políticas, há lugar a opinião, mesmo ideologia, absolutamente legítimas; e parecer-me-ia conveniente que houvesse também lugar a informação factual, disponibilizada pela estatística, objetiva, sem opinião.

Portugal tem investigadores: 9,2 por mil habitantes em idade ativa, quando a média da OCDE é 7,2 e a da UE 6,8. Portugal gasta dinheiro em investigação e desenvolvimento: em percentagem do PIB, o Estado português está a 82% e as empresas a 50% da média da UE. Temos aqui um primeiro problema: empregamos mais investigadores do que os outros mas oferecemos-lhes piores condições de trabalho.

A coisa piora, e muito, à medida que nos aproximamos do final da cadeia de valor, dos resultados económicos: ainda em percentagem do PIB, Portugal (os investigadores, o Estado, as empresas, nós), submete patentes ao European Patent Office em apenas 18% da média da UE; e não tira dessas patentes, em receitas de exportação, tanto por venda como por licenciamento, mais de 3% da média da UE.

José Mariano Gago, cuja memória tão justamente homenageamos, ocupou-se de criar condições para que tenhamos os ovos. Falta fazer a omelete. Insistem, alguns, que precisamos de continuar a fazer ovos, mais ovos. Penso, pelo contrário, que temos de intervir na cozinha, onde se torna necessário mudar quase tudo (processos, no Estado, e nas empresas), para que, um dia, com a Ciência se faça Economia.
»

Daniel Bessa, no Expresso

SERVIÇO PÚBLICO: Keynes não era keynesiano e, se ainda fosse vivo, morreria de tédio ao ouvir os seus seguidores (1)

Entrevista a Richard Davenport-Hines na Veja (1.ª parte)


«O britânico John Maynard Keynes (1883-1946) é um dos titãs da história da economia. Para o historiador inglês Richard Davenport-Hines, contudo, isso é pouco para defini-lo. Com sua inteligência analítica, seu amor pela arte, sua habilidade social e sua capacidade para influir na política, ele foi um "homem universal". Esse é o titulo da biografia que Davenport-Hines acaba de publicar: The Universal Man: The Seven Lives of John Maynard Keynes. O autor explorou os vastos arquivos pessoais de Keynes, depositados na Universidade de Cambridge, para explicar os motores de sua obra. E afirma que Keynes é maior que as interpretações correntes de seu pensamento. "Ele anteviu os equívocos que viriam e disse: 'Chamo-me Keynes, mas não sou keynesiano'."

Quase setenta anos depois de sua morte, Keynes ainda merece um papel central no pensamento económico?

Sem sombra de dúvida. Houve um período, nos anos 80 e 90. em que se formou uma falsa imagem de Keynes como inimigo do capitalismo. Isso é um completo nonsense. Posso afirmar, pois li minuciosamente tudo o que ele escreveu, que Keynes dirigiu seus esforços para a melhora do capitalismo, não para a sua destruição ou '·superação.,. A crise de 2008 permitiu desfazer um pouco os equívocos e mostrou como os problemas que Keynes procurou abordar ainda são os problemas do nosso tempo. Porque aquela foi uma crise de excessos, de "exuberância irracional". como disse o ex-presidente do banco central americano Alan Greenspan, e Keynes empenhou-se no sentido de salvar o sistema de seus paroxismos de instabilidade. Ele disse, no início do século passado, que a regulação financeira tinha um papel importante a desempenhar, e que a regulação global era mais necessária para a estabilidade do capitalismo do que qualquer mecanismo nacional. E tudo o que aconteceu em 2008 mostrou a importância dessa discussão. Keynes é um autor fundamental.

Keynes era um economista de esquerda?

Era um elitista que nutria uma admiração romântica pela aristocracia e por tudo o que o dinheiro podia oferecer. Sempre foi. na verdade. um antimarxista. Para ele, as ideias de O Capital eram rígidas e ultrapassadas. '.\os anos 1930, dizia: "Como posso aceitar uma doutrina que se impõe como bíblia acima de qualquer crítica. um livro de economia obsoleto sem nenhuma possibilidade de aplicação no mundo moderno?". Suas visitas à União Soviética deixaram nele uma impressão desagradabilíssima. Keynes acreditava no individualismo, na competição, na liberdade, nas artes. Não na burocracia, no comunismo e na regulação excessiva da economia, ou de qualquer outro aspecto da vida.

Keynes era um intervencionista?

Ele acreditava nos benefícios da política económica. Mas também dizia que ela deveria ser alterada a cada quinze ou vinte anos. Não achava que a política económica poderia ser permanente, porque as circunstâncias mudam e as expectativas das pessoas também. Ele não acreditava em pensamento estático em nenhum aspecto. Já no fim da vida, dizia: “Eu me chamo Keynes, mas não sou keynesiano”. Tinha consciência de que estava em curso uma interpretação equivocada de seu pensamento. E. após sua morte, isso de fato aconteceu. Na Europa e nos Estados Unidos, atribuem a ele a paternidade das políticas de expansão do défice público, algo a que Keynes se opunha de forma contundente. Ele era extremamente contra défices de longo prazo. Dizia que governos podiam se permitir um pouco de défice para combater uma crise pontual, em especial ao injectar dinheiro na economia para reduzir o desemprego. Pois ele acreditava que o desemprego era o grande mal, o grande inimigo do potencial humano. Então defendia défices de curto prazo em situações emergenciais. Mas definitivamente era contrário a governos, empresas e famílias contraírem dívidas que jamais conseguiriam pagar.

Keynes não foi só um teórico, ele se aproximou do poder. Keynes gostava de política?

Ele conviveu com políticos poderosos. Mas não se identificava com esse meio, não gostava do relacionamento com os políticos. Em muitas anotações e artigos, descreve-os como entediantes e intelectualmente desqualificados para o cargo que exerciam. Acima de tudo, achava a maior parte deles hipócrita e sem convicções reais. o que era muito incómodo para alguém que tinha uma paixão intelectual pela verdade. Curiosamente, Keynes conseguiu transitar num ambiente de hipocrisia sem se render a ela. Era de uma sinceridade implacável.


Continua