Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

02/05/2016

A mentira como política oficial (15) - A mentira tem perna curta


«Horas antes tínhamos assistido, no Parlamento, à cena caricata de um primeiro-ministro a acenar com um papel que antes não tinha sido distribuído aos deputados, e ainda menos aos jornalistas, e onde estavam discriminados os cortes que ninguém queria assumir. Isto um dia depois de o mesmo Parlamento ter debatido – com o primeiro-ministro significativamente ausente – um Plano de Estabilidade que, afinal, estava truncado.»

«A grande farsa. E a catástrofe anunciada», José Manuel Fernandes no Observador

«Santander volta a contradizer o que Centeno disse no inquérito ao Banif»

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (29)

Outras avarias da geringonça.

Ainda a procissão vai no adro e o re-orçamento da geringonça só terá impacto a partir de Abril e já o défice do 1.º trimestre na óptica contabilidade pública se agravou de 108  milhões para 824 milhões.

O parecer do Conselho das Finanças Públicas, que arrasou o cenário macroeconómico da geringonça assente em premissas miraculosas, foi desvalorizado pelo presidente Marcelo («decisiva é a Comissão Europeia», disse) e acusado pela geringonça de ter uma «postura ideológica». À acusação respondeu o CFP que respeita «a racionalidade económica». Seja lá o que for «a racionalidade económica» não será certamente uma perspectiva interessante no universo paralelo em que se move a geringonça.

01/05/2016

ACREDITE SE QUISER: Deve ser isto que chamam República de Juízes

«Em Modena, Itália, um pai foi condenado a continuar a sustentar financeiramente o filho, (…)
Acontece que o homem de 28 anos demorou vários anos a completar a licenciatura em Literatura e preparava-se agora para abraçar uma nova experiência universitária — uma pós-graduação em cinema experimental. O pai disse “basta”. Era tempo de arranjar um emprego. Ao menos um part-time, pedia o progenitor, cujo nome não foi revelado por razões de confidencialidade. O tribunal não lhe daria razão. O juiz de Modena considerou que o curso de cinema experimental alimentava “as aspirações pessoais” do jovem adulto e que, portanto, os estudos deveriam continuar a ser suportados pelo pai.» (Observador)

Este é apenas mais um pequeno sinal da decadência de uma Europa decrépita, anestesiada pelo conforto, envelhecida e com os bárbaros às portas.

SERVIÇO PÚBLICO: A obra de Costa. A herança. (4) A escola (I) O abandono escolar

Outras heranças.

Antes que a geringonça se enfeite com os feitos que não são dela, numa área onde até agora só fez asneira, atente-se no diagrama seguinte.


Registe-se que a taxa de abandono escolar:
  • De 2000 para 2005 reduziu-se 5,3 pontos percentuais, isto é -12%;
  • De 2005 para 2010 reduziu-se 10 pontos percentuais, isto é -26%;
  • De 2010 para 2015, depois das reduções anteriores, ainda se reduziu 14,6 pontos percentuais de 28,3% para 13,7% isto é -52%.
Ou seja, em períodos iguais, o governo «neoliberal» conseguiu uma redução da taxa de abandono escolar maior em pontos percentuais e em termos relativos, quando já era mais difícil conseguir a redução, e deixou-a a 2,7 pontos percentuais da média EU28 depois de a ter recebido a 14,4 pontos percentuais da média EU28 .

30/04/2016

Pro memoria (306) – a nacionalização do BPN não custou nada e o nada vai já em 4,5 6,5 7 mil milhões (IX)

Posts anteriores (I), (II), (III), (IV), (V), (VI), (VII), (VIII), e (IX)

Em retrospectiva: Teixeira dos Santos, co-autor com José Sócrates do desastre da nacionalização de um banco que valia 2% do mercado, ainda em 2012, decorridos 4 anos da sua decisão fatídica, justificava a inevitabilidade da sua decisão porque a falência do BNP, segundo ele, levaria à quebra do PIB em 4%.

Já que estamos a recordar, recordemos que a nacionalização do BPN foi entusiasticamente apoiada pelo Berloque na pessoa do seu Querido Líder Louçã, agora semi-aposentado, o que não impediu sete anos depois a sua sucessora Querida Líder Catarina Martins dizer com grande descaro que o Novo Banco «é cada vez mais o novo buraco (...) e cada vez lembra mais o BPN».

Essa nacionalização para Teixeira dos Santos não custaria nada aos contribuintes e veio a custar x mil milhões. O x tem variado ao longo do tempo no intervalo [0, ∞[ aproximando-se do limite superior e, segundo a última versão da geringonça, deve andar pelos 7,3 mil milhões dos quais 2,8 já torrados e 3,5 a torrar no futuro.

29/04/2016

Dúvidas (155) – Serão todos órfãos?

«O campo de refugiados de Calais é uma selva. E os 129 menores desaparecidos junto ao Canal da Mancha são apenas um pequeno exemplo da incompetência das autoridades europeias entre cujos dedos se “evaporaram”, sem deixar rasto, 10 mil refugiados menores.»
Na revista Visão escreveu-se esta frase enigmática. Autoridades europeias? Os menores chegaram a Calais sozinhos? São todos órfãos? Não haverá por lá progenitores ou, como se dizia no tempo do fascismo, encarregados de educação? Como foi então possível a «evaporação» dos 129 menores ou pelo menos dos que por lá terão progenitores, sem deixar rasto, por entre os seus dedos?

A mim parece-me que, pelo menos em relação aos menores que por lá têm progenitores isto é apenas um pequeno exemplo da incompetência desses progenitores, o que até nem é assim tão surpreendente porque os progenitores são originários de Estados falhados que falharam por razões a que talvez não seja alheia a incompetência dos progenitores.


Ou talvez não. Quem sabe se a culpa disto tudo não é do homem branco e, se for assim, lá sobra a coisa para as autoridades europeias.

Chávez & Chávez, Sucessores (43) – O povo venezuelano sofre o ataque do imperialismo ao socialismo bolivariano

Há 3 semanas o pajarito apareceu outra vez a Maduro e disse-lhe ao ouvido que os funcionários públicos deixariam de trabalhar à sexta-feira para poupar água e electricidade. Esta semana o pajarito voltou a aparecer e os funcionários públicos passarão a trabalhar estar nas repartições só dois dias por semana.

Em resposta, a população agitada por uma Quinta Coluna ao Serviço do Imperialismo (QCSI) saqueia as lojas, de resto inutilmente porque as prateleiras estão vazias devido ao boicote dos Comerciantes Monopolistas ao Serviço do Imperialismo (CMSI).

Apesar das ameaças e ingerências externas, a Venezuela sob a liderança do Querido Líder Maduro (o único com acesso ao pajarito) caminha para o estádio superior do socialismo em que deixarão de existir prateleiras.

Por todo o lado as forças populares e patrióticas solidarizam-se e organizam a Jornada Mundial de Solidariedade com a Venezuela, à cabeça das quais encontramos o PCP que «reafirma apoio à luta do povo venezuelano e exige o fim das ameaças e ingerências externas».

Os amanhãs cantarão de novo.

ARTIGO DEFUNTO: A lista de Salgado

Há duas semanas que o Expresso e a TVI divulgaram as primeiras informações sobre os Papéis do Panamá e desde então tem sido um regabofe de indignações sobre os off-shores. Entre os Papéis encontra-se uma lista de avenças e compensações pagas pelo GES a mais de uma centena de pessoas, incluindo políticos, gestores e jornalistas até hoje não divulgada.

Por que será?

28/04/2016

ARTIGO DEFUNTO: Se não foste tu foi o teu irmão

Em poucas horas, dezenas de notícias em vários jornais implicaram André Gustavo Vieira da Silva, o publicitário brasileiro que colaborou na campanha eleitoral do PSD, como estando envolvido no «Lava Jato».

A origem das notícias foi uma peça do dia 27 do jornal Público onde, com vasta soma de pormenores sobre o trabalho do publicitário e as suas ligações a Marco António e a Relvas, se deu como adquirida a ligação do publicitário ao Lava Jato. Os tambores rufaram convocando as indignações do costume, associando Passos Coelho e o PSD ao «Lava Jato».

Afinal parece que quem está envolvido não era esse, mas o irmão António Carlos Vieira da Silva Júnior. Até agora vários jornais corrigiram a notícia inicial mas o Público não se deu ao trabalho de o fazer.

Actualização:
Veja-se no Insurgente o inventário (incompleto) das notícias, tentando «associar Passos Coelho à operação Lava Jato» e o desmentido da Procuradoria Geral da República e tome-se nota que a mesma gente que quer desacreditar Passos Coelho por uma ligação inexistente ao Lava Jacto, limpa a folha dos pêtistas que no Brasil estão de facto ligados a esse e outros esquemas de corrupção.

Um governo à deriva (24) - Afinal vai haver mais exames

«Este trimestre leva um medíocre. Tem de se esforçar mais!»

«Educação. Sindicatos vão avaliar ministro a cada três meses»

LA DONNA E UN ANIMALE STRAVAGANTE: Para tirar os trapinhos qualquer causa é boa (18)

Outros trapinhos tirados.

Revista Visão

Deve haver uma explicação científica para o impulso de tirar os trapinhos parecer infectar mais mulheres do que homens pessoas do sexo género feminino do que do outro sexo género, ou melhor do que dos outros sexos géneros: masculino, lésbico, gay e trans.

ACREDITE SE QUISER: Fidelidade conjugal

"Meu voto ( ... ) é para dizer que o Brasil tem jeito, e o prefeito de Montes Claros mostra isso para todos nós com sua gestão."


«RAQUEL MUNIZ, deputada federal (PSD-MG) que. ao votar a favor do impeachment. fez questão de referir-se a seu marido, Ruy Munlz (PSB), o tal "prefeito de Montes Claros". No dia seguinte, Ruy Muniz foi preso pela PF em Brasília por ser suspeito de prejudicar os hospitais públicos de sua cidade para favorecer um hospital privado controlado por seus familiares. Diante da repercussão do fato. Raquel declarou que reiterava o que dissera.»

Revista Veja, 27 de Abril

27/04/2016

Curtas e grossas (33) - Também tenho pena

«Tenho pena de homossexuais. É verdade, não adianta esconder. Não tenho pena por serem homossexuais, isso é lá com eles; tenho pena porque, voluntária ou involuntariamente, deixaram-se representar na sociedade portuguesa por imbecis, buracos, nazis em geral e esganiçadas, algumas delas do Bloco (ou Bloca) de Esquerda (e Esquerdo). Já não basta pertencerem a uma minoria, ainda têm que aguentar que o resto das pessoas os considerem estúpidos pela associação política.» («Triste sina, a do homossexual português»)

CASE STUDY: Mais horas de matemática aumentam o emprego dos professores de matemática

«Para os autores do estudo «O que faz uma boa escola», do projecto aQeduto, que será apresentado nesta terça-feira, o aumento registado em Portugal “pode estar associado à melhoria de desempenho” dos alunos portugueses de 15 anos a Matemática, registada nos testes internacionais PISA, cujo resultado médio passou de 466 pontos, em 2003, para 487 em 2012», escreve o Público.

O único resultado indiscutível de 5 horas semanais de matemática contra as 3 horas da média europeia é o aumento do emprego dos professores de matemática. Por várias razões, a começar porque os mais 70% de tempo de aulas continuam a deixar-nos claramente abaixo da média dos testes PISA, mesmo sem os corrigir dos «truques para apresentar resultados rápidos de sucesso para enganar os eleitores».

E a propósito cito as três conclusões que o Pertinente retirou do estudo «Education at a Glance 2015 OECE Indicators» que põem em causa as teses sindicalista da Fenprof:

1.ª – Em relação à média da OCDE, os professores portugueses já gastam menos tempo no ensino e aprendizagem e mais tempo a manter a disciplina apesar de uma média menor de alunos por turma.
2.ª – ... o número de alunos por turma é inferior à média da OCDE e não há nenhum correlação visível entre este número e a eficácia do ensino.
3.ª -  número de alunos por professores em todos os níveis de ensino é inferior em Portugal à média OCDE e à média UE21 e, uma vez mais, não há nenhuma correlação visível entre este número e a eficácia do ensino.

E acrescento: «repare-se que em relação à média OCDE, Portugal tem claramente menos alunos por professor do que o número de alunos por turma. Porquê? Ora, porque haveria de ser? Porque muitos dos professores não ensinam: estão de baixa ou requisitados pelos sindicatos para fazer agitprop

Mitos (229) - a pesada herança da longa noite fascista (XI)

Outras pesadas heranças.

Seis anos depois, para actualização deste inventário da pesada herança da dívida pública deixada pela longa noite fascista, aproveito o estudo «Finanças Públicas Portuguesas Sustentáveis no Estado Novo (1933-1974)?» de Ricardo Ferraz, um economista doutorado em História Económica e Social, um verdadeiro herege a trabalhar no Parlamento – o lugar geométrico da mitologia da esquerdalhada, este ano particularmente espevitada.

O diagrama seguinte mostra a evolução dos saldos orçamentais corrigidos (os oficiais foram todos positivos excepto em 1974 - guess why) considerando apenas os valores com impacto na dívida pública.


Como classificar as finanças públicas de um período de 40 anos que incluiu 6 anos da II Guerra Mundial e 13 anos de uma guerra colonial que exigiu um esforço financeiro tremendo para manter um exército de 240 mil homens, dos quais 170 mil a combater em três frentes? Dou a palavra ao herege Ricardo Ferraz:
«De acordo com estes resultados, é assim possível afirmar que durante o Estado Novo (1933-1974) - regime político que defendeu "finanças sãs" - as contas públicas portuguesas foram sustentáveis.»

26/04/2016

LASCIATE OGNI SPERANZA, VOI CH'ENTRATE: O insustentável peso da realidade

«É esse, talvez, o “essencial”: neste momento, Portugal não tem meios, nem para ser liberal, nem para ser socialista. Os liberais não podem cortar impostos a fim de libertar os cidadãos dos constrangimentos fiscais, nem os socialistas podem “investir” a fim de acumular recursos no Estado. No Portugal de hoje, qualquer arrebatamento liberal ou qualquer obstinação socialista gerariam imediatamente um défice orçamental que seria impossível de financiar nos mercados internacionais. Por isso, vimos, entre 2011 e 2015, um governo acusado de “liberal” a proceder a um “enorme aumento de impostos”, e vemos agora outro governo, orgulhoso do seu “socialismo”, a preparar discretamente “cativações” para o que der e vier. Enquanto a nossa respiração financeira depender da máquina europeia, estaremos todos muito “unidos no essencial”: a austeridade.»

«O paradoxo do presidente»,  Rui Ramos no Observador

Discordo no que respeita à nossa respiração financeira que depende sobretudo da dívida que acumulámos nos últimos 40 anos e que a máquina europeia nos permite ir suportando. Quem optou por se endividar optou por não ter opções e é por isso que esquerda e direita se diferenciam sobretudo pelo que dizem mas pouco pelo que fazem. 

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: De como o melhor que pode acontecer ao paraíso prometido aos gregos pelo Syriza é ser um purgatório (LI) A visita de estudo de Costa

Outros purgatórios a caminho dos infernos.

Tradução do pensamento do Alexis: Porquê me fará este gajo lembrar o Papandreou?
O que de mais notável aconteceu recentemente a Tsipras e ao Syriza? Quem lesse os mídia portugueses suporia que o acontecimento de maior relevo teria sido a visita de Costa, culminada com a assinatura conjunta de uma declaração contra a austeridade. Que o evento tenha sido completamente ignorado pela imprensa grega e pela imprensa internacional não lhe tira a importância nenhuma porque, como se sabe, a coisa se circunscrevia às negociatas entre o PS e o BE para insuflar oxigénio na geringonça.

Além da visita de Costa, Tsipras e o Syriza têm recebido inúmeras visitas das instituições anteriormente conhecidas como troika (*) para negociar o terceiro resgate que inclui um pacote de medidas adicionais (onde é que já ouvimos falar disto?) de 2 mil milhões de euros que se destina a ser automaticamente aplicado se o pacote previsto de 3% do PIB se revelar insuficiente (como costuma).

Tsipras e o Syriza também têm recebido inúmeras visitas de chineses, desde o primeiro-ministro Li Kegiang a delegações do China Ocean Shipping Group que pagou 368 milhões de euros pela concessão do porto do Pireu através do qual a China conta exportar os seus produtos para a Europa e Médio-Oriente, produtos a que se juntarão os excessos de produção de aço, carvão e cimento.

Sabendo-se disso, a visita de Costa ganha sentido e percebe-se que pode ter sido uma espécie de visita de estudo e mostra a visão estratégica de Grande Líder Costa quando logo após as eleições gregas disse: «Vitória do Syriza é um sinal de mudança que dá força para seguir a mesma linha».

(*) Homenagem a Prince

DIÁRIO DE BORDO: Grande Auditório Gulbenkian, o Pequeno Met dos tesos (8) - continuação

Quanto há duas semanas fiz aqui uma referência à prestação «superlativa» de Sondra Radvanovsky na Elisabetta da «Roberto Devereux» de Donizetti tive o cuidado de avisar que, como apreciador de ópera, sou como o apreciador de vinho que, por um misto de falta de talento para escanção (ou sommelier, como dizem os connaisseurs) e excesso de apreciação de vinho, passa directamente à ingestão.

Apesar desse aviso, quando alguns dias mais tarde lia atrasadamente a Revista do Expresso e deparei com a crítica demolidora de Jorge Calado fiquei … embaraçado como se estivesse expressado uma apreciação muito positiva de um briol que o sommelier de serviço considerou uma verdadeira zurrapa. Leia-se o que escreveu Calado (cuja erudição e bom gosto costumo apreciar):
Para o papel de Elisabetta exige-se voz, técnica de bel canto, convicção e génio dramático. Infelizmente, Radnovsky falha em todos os aspectos. O que se ouve é aquilo a que os ingleses chamam, em trocadilho, can belto (berros de cão).