Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

29/08/2015

Mitos (210) – Os chineses só investem em países endividados

Na verdade o mito completo é: os chineses só investem em países endividados, aproveitando os saldos e com o propósito de controlarem essas economias vulneráveis. É um mito cultivado pela esquerdalhada doméstica em geral (que, como se sabe, cultiva 99% dos mitos inventariados), pelo PS (enquanto está na oposição) e até por alguns empresários que não gostam dos chineses (por exemplo Soares dos Santos).

Como todos os mitos, este está tão longe da verdade que é incapaz de lhe infligir danos corporais. Veja-se o diagrama seguinte publicado pelo Handelsblatt que dá tanta importância aos investimentos em Portugal que nem lhes faz referência.


Segundo os dados recolhidos pela Ernst & Young e citado pelo Handelsblatt, as companhias chinesas investiram em 79 projectos na Alemanha no ano passado (68 em 2013 e 46 em 2012); 38 por cento dos investimentos chineses na Europa são na Alemanha; em segundo lugar encontra-se a Grã-Bretanha com 40 projectos. Segundo a Ernst & Young «as empresas chinesas querem juntar-se no topo do mercado mundial com produtos de alta qualidade, e para isso eles precisam do know-how da Europa, e especialmente da Alemanha».

28/08/2015

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Não é um pouco esquizofrénico? (4)

Uma das minorias de que faço parte é a dos portugueses que acham ridícula e ligeiramente doentia a busca incessante de tugas bem-sucedidos fora de portas. Frequentemente, os patrícios encontrados ou não são patrícios, por terem nascido noutras paragens, ou só são reconhecidos no bairro onde vivem o que para nós faz deles personagens galácticas.

Um outro exemplar dessa minoria deve ser Ricardo Araújo Pereira. Registo-o com um certo embaraço, tratando-se de um esquerdalho que escreve humor na Visão com pouca visão bilateral. Isso não me impede (após um esforço para mostrar equidade) de citar e recomendar (também porque a recomendação não é boa para o currículo de RAP) a leitura da sua peça «Disseram bem de Portugal em Badajoz».

Nessa peça RAP dá-nos conta de que «a expressão "português no topo do mundo" (apresenta) vários milhares de resultados no Google» (5.900 segundo a minha pesquisa), enquanto “englishman on top of the world” só apresenta 1 (encontrei 6, mas 5 resultam da peça de RAP e dos comentários). Em contrapartida, "american on top of the world" apresenta 41.200 resultados o que é muito face à modéstia inglesa e pouco face à obsessão portuguesa, já que os americanos são 32,5 vezes mais numerosos do que os tugas.

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Coisas que outros escreveram sobre Costa, as quais, por isso, já não precisam de ser escritas (20)

Outras coisas: «Para mim Costa não é um mistério», «Coisas que outros escreveram sobre Costa, as quais...»

«António Costa, nesta campanha, representa o “logo veremos”. Logo veremos se ele vai afrontar a mitológica Merkel, ou, pelo contrário, fazer tudo o que ela lhe mandar (o que quer dizer “uma postura activa na Europa, sem submissão nem aventureirismos”?). Logo veremos se vai acabar com a austeridade ou, pelo contrário, como o Syriza, aplicar uma dose ainda maior. Logo veremos como vai governar: sozinho, com a direita, ou com os comunistas. Logo veremos se mandará votar num candidato presidencial “radical” (Nóvoa), ou num candidato “moderado” (Maria de Belém). Em “eleições decisivas”, António Costa fez do PS uma escolha que deixa tudo por decidir.

Não vou acusar Costa de quaisquer limitações pessoais. Não é isso que está em causa. O que está em causa são as limitações políticas do líder de um partido que chamou a troika e assinou o memorando, para depois o renegar; que colocou Portugal na moeda única europeia, para depois, enquanto governou, nunca cumprir os pactos de estabilidade do Euro.
»

Excerto de «Carta de um indeciso aos seus semelhantes», Rui Ramos no Observador


«V. Ex.ª dirigiu a carta ao “eleitor indeciso” e esta convenceu-me. Não sou mais um eleitor indeciso: ter lido até ao fim permitiu-me decidir, com toda a assertividade, que V. Ex.ª não tem estofo intelectual para ser detentor de qualquer poder de decisão

«Re: Re: Re: Re: Cartas o *******», fecho de um post de Vítor Cunha no Blasfémias

27/08/2015

Encalhados numa ruga do contínuo espaço-tempo (44) – Minas de carvão para todos e carruagens só para mulheres

Jeremy Corbyn, o homem que se propõe enterrar o New Labour, segundo o Público, e o Old Labour segundo outros, incluindo eu, nacionalizar os transportes, reabrir as minas de carvão fechadas há 30 anos, tem segundo as projecções o voto da maioria dos eleitores registados do Labour, incluindo conservadores que se registaram para votar nele, gastando 3 libras na esperança que ganhe, dizem.

Jeremy Corbyn propõe-se também, quando um dia for aiatola prime minister, criar carruagens de metro e de comboio só para mulheres para evitar o assédio.

Carruagem chinesa em Teerão e em breve em Londres
É claro que criar carruagens só para mulheres é a mesma coisa que criar carruagens só para homens, uma ideia que se fosse proposta por um conservador faria desencadear uma onda de indignação nos mídia e nas redes sociais.

DIÁRIO DE BORDO: Schäuble visto por ele próprio

Algumas boutades de Wolfgang Schäuble, o ministro alemão das Finanças e bête noir da esquerdalhada, a seu próprio respeito num documentário televisivo (citada pelo Politico) onde mostra uma notável auto-ironia:
«Você sabe que eu não sou de baixa manutenção» para Angela Merkel quando esta lhe propôs o ministério das Finanças em 2009, que é como quem avisa ó Angela vais ter de me aturar.
Ich wünschte, ich hatte einen Schal wie das Ihre
 «Não sou tão atraente para a mídia. Sou um velho, muito cansado e às vezes mal-humorado e não posso competir com tal popstar», referindo-se à primeira conferência de imprensa com Varoufakis. 
«Tenho mais marcas e cicatrizes do que quaisquer outros especialmente por conflitos de interesses públicos». 
«Dizem que sou um pouco teimoso… Mas sou leal em relação às minhas responsabilidades democráticas. Não uso o poder da minha posição contra a pessoa que me convidou para a ocupar», referindo-se às relações com Anela Merkel.

SERVIÇO PÚBLICO: Da próxima vez também não vai ser diferente (5)

[Uma espécie de continuação de «Too big to fail» - another financial volcanic eruption in the making (1) e (2) e de «Da próxima vez também...» (1), (2), (3) e (4)]

Já aqui referi que nas bolsas americanas aditivadas pelo quantitative easing e as taxas de juro da Fed, os valores do P/E Ratio (price-to-earning ratio, isto é a relação entre a cotação das acções e os dividendos pagos) atingiram níveis insustentáveis e, de facto, não sustentados pelo fraco crescimento dos lucros em 2014.

Fonte: NYT

O diagrama anterior com a evolução dos PER baseados na média móvel de 10 anos de dividendos das cotadas do S&P 500 mostra que os valores actuais são dos mais altos nos últimos 60 anos com excepção do período da bolha tecnológica nos anos 1995-2000. Um PER de 25 significa que a rentabilidade da aplicação em acções é aproximadamente de 4%, o que parece muito face às taxas da Fed, mas é insuficiente para um activo de risco como as acções.

26/08/2015

Dúvidas (118) – Qual é a urgência?

Qual é a urgência de subconcessionar em 12 dias por ajuste directo os transportes colectivos do Porto que estão concessionados a empresas públicas há 70 (STCP) e 15 anos (Metro do Porto)?

Chávez & Chávez, Sucessores (34) – Filas, prateleiras vazias e bancos sem dinheiro, o paradigma do socialismo bolivariano (e, mais tarde ou mais cedo, de todos os socialismos)

Recordando os queridos líderes, o preso e o falecido, respectivamente
(Uma concessão pontual à demagogia)
«As autoridades da capital venezuelana proibiram neste domingo os cidadãos de fazerem fila à porta dos supermercados fora do horário de funcionamento, principalmente à noite, por considerarem que estimula a especulação e as vendas ilegais». (Observador)

«O principal banco da Venezuela reduziu de cinco mil para três mil bolívares (de 22,73 para 13,63 euros) a quantia que pode ser levantada diariamente na sua rede de caixas multibanco.» O câmbio oficial do dólar vai 6,3 a 200 bolívares, no mercado paralelo (isto é no mercado) é de 701 bolívares. (Observador)

Uma constante da visão socialista: a inversão das relações causais.

CASE STUDY: Colocando em perspectiva a queda abissal das bolsas chinesas

Com o seu pendor para o simplismo e o catastrofismo, os mesmos jornalistas e opinion dealers que veneram o intervencionismo dos bancos centrais a ditarem o preço do dinheiro e a entorná-lo na economia, fabricando lenta e seguramente a próxima crise, fizeram soar os alarmes com a queda das bolsas chinesas anunciando o crash galáctico.

Fonte: Bloomberg
O catastrofismo seguiu-se à aceitação com grande naturalidade da subida vertiginosa dos índices chineses nos 6 meses anteriores a Junho, subida que nunca poderia ser explicada pelos fundamentais da economia e que resultou igualmente do intervencionismo do banco central chinês. Como explicar de outro modo que as empresas chinesas cotadas passaram a valer o dobro do que valiam 6 meses antes? Como tudo o que sobe, mais tarde ou mais cedo, desce… poderá descer ainda mais porque o índice Shanghai Shenzhen CSI 300 continua acima do nível do início da injecção de anfetaminas do banco central chinês em Novembro do ano passado.

Capitalização bolsista [Fonte: Bank of America Merrill Lynch (via Market Watch)]
O outro aspecto da questão é a capacidade de propagação do crash bolsista chinês quando se sabe que a capitalização das bolsas chinesas vale menos de 30% das japonesas e menos de 5% das americanas. A razão principal do pânico se ter propagado às outras bolsas tem mais a ver com o sentimento da volatibilidade das bolhas criadas pelo intervencionismo dos bancos centrais americano, britânico e europeu do que pela importância relativa dos mercados de capitais chineses.

25/08/2015

CASE STUDY: Dissecando a mente de um grande aldrabão (4)

Outras dissecações: (1), (2) e (3)

Há uns 6 anos o Pertinente interrogou-se se José Sócrates seria um mitómano delirante ou simplesmente um vendedor de banha-de-cobra. À época eu não via o querido líder como um mentiroso compulsivo mas apenas um vendedor de banha-de-cobra, isto é mentiroso utilitário, e nessa convicção publiquei nos últimos 10 anos um bom número de posts onde as palavras Sócrates e mentira aparecem juntas. Gradualmente fui percebendo a compulsividade da mentira que ficou mais transparente depois da prisão.

A nossa intelligentsia, sempre fascinada com líderes fortes, ainda hoje tem dificuldades a descolar-se do animal feroz - há casos do domínio patológico como Miguel Sousa Tavares e Clara Ferreira Alves. Mesmo uma rebelde (muitas vezes sem causa) como Filomena Mónica tardou. Tardou mas arrecadou com um artigo no Expresso com o título «Será Sócrates mitómano?» onde a novidade foi a sua conclusão de que a criatura «não só não havia apresentado a tese como, muito menos, a defendera perante um júri académico». Surpresa? Nem por isso. É apenas mais do mesmo que vimos no passado da criatura.

SERVIÇO PÚBLICO: Da próxima vez também não vai ser diferente (4)

[Uma espécie de continuação de «Too big to fail» - another financial volcanic eruption in the making (1) e (2) e de «Da próxima vez também...» (1), (2) e (3)]

A intervenção militante dos governos através dos seus bancos centrais, primeiro dos anglo-saxónicos Fed e BoE, seguidos pelo ECB, resgatando indiscriminadamente bancos, anestesiando a percepção do risco com garantias elevadas de depósitos e injectando artificialmente liquidez com a impressora do quantitative easing, tem-se feito através terapêuticas para debelar uma crise que, como tenho vindo a insistir, criam as condições para gerar a próxima.

É claro que também estão agora em curso factores alheios a essa intervenção, como o arrefecimento da economia chinesa com efeitos sobre a procura mundial de matérias-primas que está a afectar as economias dos BRICS e dos países da OPEP.

Recentemente, temos assistido aos primeiros sinais de que a bolha criada por essas terapêuticas pode não estar longe de rebentar. Aliás, com o comportamento das bolsas chinesas, que em poucas semanas sofreram quedas abissais, o que foi pretexto para o governo chinês adoptar medidas do tipo «centralismo democrático» nos mercados de capitais - com pouco sucesso, aliás - , o bubble prick pode estar até mais próximo do que se pensava.


Esta segunda-feira esses sinais avolumaram-se com a propagação do pânico às bolsas seguindo os fusos horários: primeiro as asiáticas, depois as europeias e finalmente as americanas. Por várias razões, não é muito provável que se siga um crash, mas a volatilidade continuará e é um sinal muito forte de que se pode esperar o pior com taxas de juro próximas de zero e injecções maciças de liquidez.

24/08/2015

CASE STUDY: Os amanhãs que cantarão, segundo o PS, ou o triunfo da fé e da esperança sobre a experiência (5)

Outros amanhãs.


Retomo os comentários ao relatório dos 12 sábios «Uma década para Portugal», interrompidos para tratar dos 207 mil empregos simulados.

2. Diagnóstico económico e social


Este capítulo começa pela aceitação do que se negara no capítulo anterior e reconhece-se que antes da adopção do euro o investimento já se havia reduzido pela redução da taxa de poupança. Reconhece-se ainda que a taxa de poupança é baixa, apesar de se insistir em aumentar o consumo reduzindo-a ainda mais.

Continua-se o delírio de classificar as infra-estruturas como «instrumentos competitivos da economia portuguesa (que) decorrem de investimentos materializados antes do atual governo», como se dos muitos milhares de milhões torrados em auto-estradas e outros elefantes brancos se tivessem multiplicado no PIB e não na dívida pública e privada, como de facto aconteceu. Exemplificando a manta mal-amanhada com retalhos socráticos cosidos no meio do pano dos «novos economistas», na mesma página do referido delírio já se reconhece a «excessiva concentração de investimento em sectores de bens não-transacionáveis».

2.1 Desempenho macroeconómico


Mais contradições: a taxa de poupança que duas páginas antes «atingiu valores preocupantes no auge da actual crise» atinge duas páginas depois «valores superiores em 2 p.p. aos verificados antes da crise». Reconhece-se que a «correcção acelerada dos desequilíbrios externos», porém, segundo os sábios, tal «não resultou de aceleração das exportações». No parágrafo seguinte voltam as contradições , para puxar o lustro à governação socrática: «as exportações de bens e serviços registam desde 2005 uma evolução muito positiva». Voltemos ao mundo real e vejamos os diagramas seguintes.

Fonte: Trading Economics

Fonte: Trading Economics

Tentando tapar o sol com a peneira socialista, lá voltam a admitir na página seguinte que afinal «o comportamento das exportações» até terá sido positivo mas «mais justificado pela entrada em funcionamento de alguns grandes projetos em implementação desde antes da crise». Quais projectos, minha nossa senhora, impulsionaram as exportações? Terão sido o TGV e o aeroporto Jamais Alcochete?

Assinala-se a queda de mais de 20% do emprego na indústria transformadora, mas esquece-se que o PIB gerado na indústria está de novo muito próximo dos valores anteriores ao resgate, significando uma melhoria da produtividade.

Fonte: Trading Economics
Para concluir, por hoje, destaco o padrão analítico dos 12 sábios do PS: os resultados da execução do programa de ajustamento que o PS tornou indispensável, negociou e assinou têm sido uma desgraça, excepto nos aspectos que resultaram da governação miraculosa do preso 44.

(Continua)

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: De como o melhor que pode acontecer ao paraíso prometido aos gregos pelo Syriza é ser um purgatório (XXXVII) - So far, so good?

Outros purgatórios a caminho dos infernos.

A troika chegou a acordo com o governo grego sobre as condições do novo resgate, o parlamento grego aprovou as medidas, os bancos gregos reabriram com o dinheiro fresco do BCE, mais 86 mil milhões (36% do PIB) vão ser entornados na economia grega. A Grécia está, pois, no bom caminho. Certo? O mais provável é estar errado.

Uma semana depois, o parágrafo anterior parece ultrapassado pela ratificação do resgate pelo Bundestag e pelos outros parlamentos. Contudo, convirá não esquecer que dos 585 membros do Bundestag 454 votaram a favor, 18 abstiveram-se e 113 votaram contra, incluindo 63 deputados da coligação CDU-CSU, mais 3 do que no segundo resgate e mais 60 do que no primeiro.

Ainda assim, à primeira vista poderá parecer que se está no bom caminho, até porque o governo alemão insiste que o FMI irá participar, apesar do FMI dizer que só o fará com um haircut e governo alemão manter que o Tratado de Lisboa não autoriza o haircut (é claro que não). Talvez a coisa se resolva com uma garantia financeira da Zona Euro ao FMI.

Na frente política interna, o saco de gatos do Syriza está a romper-se e Tsipras demite-se para forçar novas eleições que tudo indica o Syriza, depurado do lunatismo mais exacerbado, irá ganhar, ainda que para formar governo terá de ser coligar de novo com a extrema-direita do Anel ou com a Nova Democracia.

Se, um grande se, tudo isso correr bem, resta o principal obstáculo ao sucesso do resgate do Estado grego: o governo grego a fazer o contrário do que tinha prometido e a duvidosa resiliência do povo grego para suportar mais 3 anos de resgate e um número indeterminado de anos de disciplina financeira. Resta também o obstáculo que é tolerância evanescente da maioria dos governos da Zona Euro pressionados pelo descontentamento crescente dos seus eleitorados.

Entretanto, as falanges domésticas de apoio ao Syriza propagam a ideia que tem sido a Alemanha quem mais lucrou com a crise grega ao financiar-se a juros baixos, em resultado da dívida alemã funcionar como um refúgio para as incertezas da Zona Euro. Felizmente, no mar dos delírios do jornalismo de causas resistem algumas ilhas profissionais, como Eva Gaspar do Negócios que desmistifica aqui essa falácia e demonstra que se alguém ganhou com a crise grega foram… os gregos, a quem foram perdoados 100 mil milhões de euros e que beneficiaram de uma redução de juros equivalente a 4,7% do PIB em 2013 e 4,4% em 2014.

23/08/2015

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Um jornalista bom no género mau pode vir a fazer o upgrade para o género bom (V)

Secção Res ipsa loquitur

Já fiz apreciações negativas do trabalho do jornalista Ricardo Costa [(1), (2) e (3)], que foram evoluindo para apreciações positivas (aqui, aqui, aqui e aqui) a que acrescento agora mais uma pelas suas análises recentes e em particular pela peça especialmente lúcida e informada sobre as eleições britânicas «Como esfolar um gato... ou acabar sem pele» na Revista do Expresso deste fim-de-semana. Espero que António Costa não leia esta peça ou, se ler, não lhe dê importância - sempre poderia ajudá-lo a «vender» melhor a suas más políticas.

Não aprovo o trabalho de Ricardo Costa pelo facto de algumas das suas opiniões e conclusões serem compatíveis com as que por aqui defendemos - outras não o são - mas porque, até as que considero erradas, são apresentadas e defendidas da forma certa.

Sei por experiência própria e sobretudo alheia que não é fácil manter as distâncias num país muito dado ao nepotismo, e por isso a independência em relação ao partido de que o seu irmão é líder e ao líder têm um valor muito especial.

Não admira por isso que lhe atribua mais quatro afonsos.

DIÁRIO DE BORDO: O direito a contaminar

Para alguém que olhe sem preconceitos negativos ou positivos para os comportamentos dos humanos, é razoavelmente evidente que a fixação dos lóbis gays no casamento unissexo, finalmente legalizado em Portugal há 5 anos, tem pouco a ver com a instituição do casamento em si mesma e muito mais com a necessidade de «normalizar» o seu status social.

De facto, como aqui escrevi, para a «comunidade» gay, com décadas de casamentos em atraso, mil e seiscentos casórios em 5 anos deveria ser uma decepção, sobretudo nestes tempos em que os casais normais no sentido gaussiano já quase deixaram de se casar, convencidos por décadas de propaganda politicamente correcta que o casamento era uma instituição burguesa decadente e não significava nada, a mesma propaganda politicamente correcta que convenceu os gays que o casamento significava tudo.

Algo semelhante se passa com a adopção numa época em que os casais «normais», além de cada vez menos se casarem, têm cada vez menos filhos cada vez mais tarde, por uma série de razões conhecidas. A menos que se descobrisse uma pulsão maternal e paternal «anormal» nos gays, a fixação dos seus lóbis na legalização da adopção tem com toda a probabilidade a mesma explicação - a necessidade de «normalizar» o seu status social.

A terceira vertente da «normalização» é a dádiva de sangue. Não parece que os gays individualmente considerados tenham uma pulsão para a dádiva de sangue mais forte do que a dos heterossexuais que, como é sabido, são relutantes em se deixarem sangrar. Outra vez ainda, são os seus lóbis que fazem a despesa da «luta», frequentemente usando a chantagem sobre os gays ainda dentro do armário em posições influentes para usarem essa influência.

Contudo, neste domínio a coisa fia mais fino porque o uso de sangue contaminado com HIV tem óbvios riscos para os receptores. A exemplo do que se passa nos EU, onde a FDA continua a não autorizar a dádiva por homossexuais, também em Portugal não é autorizada. Pois bem, tudo indica que o lóbi gay está em vias de conseguir infligir uma derrota à saúde pública: «o relatório "Comportamentos de risco com impacto na segurança do sangue e na gestão de dadores", a que a Lusa teve acesso, estabelece "a cessação da suspensão definitiva dos candidatos a dadores homens que têm sexo com homens (HSH) [homossexuais e bissexuais] ", uma decisão tomada por unanimidade entre os oito elementos do grupo de trabalho». Do relatório para a lei vai um passo que o lóbi gay jornalístico já deu, uma vez que anuncia que a «dádiva de sangue por parte de homossexuais vai passar a ser permitida».

Perguntar-se-á, mas os heterossexuais não têm HIV e não doam sangue? Claro que podem ter e têm HIV e podem doar e doam sangue. A enorme diferença é que, para utilizar o caso dos EU, os homens gays e bissexuais representam aproximadamente 2% da população e 57% das pessoas com HIV diagnosticado, ou seja a probabilidade a priori de um gay estar infectado é 65 vezes maior do que um não gay. Assim, sendo o risco tão desproporcionado a dádiva de sangue por um gay deveria no mínimo estar condicionada à apresentação de um teste negativo válido.

Por miopia e falta de coragem de ir contra a corrente do pensamento politicamente correcto, as luminárias domésticas confundem o direito à união legalizada (inadequadamente denominada casamento) com os «direitos» à adopção e à dádiva de sangue, que, se fossem direitos, seriam das crianças alvo da adopção e dos receptores de sangue.