Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

24/07/2016

Lost in translation (274) – Em socialês convergência e coesão significam o princípio do utilizador-não pagador

O ministro do Planeamento e das Infraestruturas da geringonça anunciou a redução de 15% nas portagens de algumas auto-estradas escolhidas por «critérios de convergência económica e coesão territorial». Passando por cima de saber como se converge ou se aumenta a coesão ou, para usar as palavras do ministro, como com um desconto de 15% nas portagens se consegue «apoiar o desenvolvimento do Interior, a fixação de emprego, a fixação de empresas e (…) a mobilidade das populações», resta traduzir coisa em português corrente.

Em português corrente, isso significa que o governo decidiu que 15% dos custos de utilização dessas auto-estradas irão ser pagos quem nelas não circula.

Seguindo o mesmo princípio do utilizador-não pagador, a oposição não se ficou atrás e o PSD classificando como «simbólica» a redução de 15% propôs suprimir as portagens da via do Infante durante as obras na EN 125. É mais um exemplo da doutrina MAD (Mutual Assured Distraction.

23/07/2016

CASE STUDY: O Brexit e a singularidade britânica

Já me tinha passado pelo radar há algum tempo o vídeo da conferência de há um ano de Roger Scruton no Nexus Instituut sobre o Brexit, mas só há poucos dias tive oportunidade de o ver com alguma atenção. É de visionamento recomendável para quem queira ter uma visão não estereotipada das razões do Brexit e da singularidade britânica, por um intelectual conservador, ele próprio singular.

NÓS VISTOS POR ELES: O Castelo dos Mouros pelos olhos de uma nativa do Michigan a viver no Reino Unido


Não é de todos os dias que uma publicação online trendy com a Ozi se ocupa das nossas ameias.

22/07/2016

CAMINHO PARA A SERVIDÃO: O Nanny State nunca dorme

DIÁRIO DE BORDO: Plutão - um regresso triunfal

Recordando, Plutão era o planeta preferido do (Im)pertinências há mais de 10 anos e até inspirou a área temática DIÁLOGOS DE PLUTÃO. Escrevo «era» não porque Plutão não continue a ter a minha preferência mas por ter sido despromovido por motivos definitivamente pueris. Um tal Dr. Brown descobriu em 2005 um objecto espacial na cintura de Kuiper do tamanho de Plutão, o que levou no ano a seguinte a União Astronómica Internacional a considerar que, por isso, Plutão não merecia o estatuto de planeta.

Ver aqui o vídeo
Plutão está de volta à ribalta trazido por Alan Stern, o inspirador da «New Horizons», uma sonda lançada em 2006 e que, após quase 10 anos de viagem, começou a enviar um torrente de dados mostrando que o planeta depreciativamente despromovido a «objecto espacial» é afinal um dos lugares mais interessantes do sistema solar.

Dúvidas (168) – Irá o Brexit consumar-se? (III)

Como que uma continuação daqui e dali.

Não é uma dúvida retórica. As consequências que os adeptos britânicos da saída minimizaram ou omitiram estão a emergir. Se o valor das empresas que resulta das suas cotações em bolsa tem algum significado (e tem muito, porque representa o valor que os mercados atribuem às empresas e os mercados põem o dinheiro onde põem a boca), a evolução posterior ao referendo das capitalizações bolsistas das 250 maiores empresas dos 10 países mais representativos nas relações com a Grã-Bretanha deve reflectir o impacto do Brexit.

Economist
E essa evolução representada no diagrama mostra bem o impacto negativo antecipado pelos accionistas no valor dessas 250 empresas, que constituem o núcleo das economias desses países, em todos os sectores e, muito particularmente, como seria de esperar, no sector financeiro. Curiosamente, não é a Grã-Bretanha a economia mais afectada. A Itália, França, Alemanha, Espanha e Holanda sofrem um impacto mais pronunciado.

21/07/2016

LA DONNA E UN ANIMALE STRAVAGANTE: Para tirar os trapinhos qualquer causa é boa, mas esta não lembraria ao diabo (20)

Outros trapinhos tirados.

Quando se pensaria terem-se esgotado as causas para tirar os trapinhos, surge uma que não lembraria ao diabo. Ao diabo? Sim, porque estamos a falar de Donald Trump, o candidato do partido Republicano agora entronizado, muito à custa das alergias suscitadas pelo politicamente correcto (PC) nas camadas menos ilustradas.

«An art installation by Spencer Tunick during the Republican National Convention in Cleveland, Ohio»
Embora fosse supérfluo, porque o Donaldo já tinha garantida a nomeação pela convenção de Cleveland, 100 meninas do PC resolveram tirar os trapinhos mais uma vez e deixaram-se fotografar na véspera da convenção pelo fotógrafo de causas Spencer Tunick «reflecting their anger through art against the hateful repressive rhetoric of many in the Republican Party towards women and minorities.».

ESTADO DE SÍTIO: Ponto de situação do golpe em curso na Turquia

Primeiro, Erdogan agradeceu a Alá a bênção da tentativa falhada de golpe pelos militares turcos (há quem diga que não foi falhada, até teve grande sucesso...). No dia seguinte não deixou as coisas na mão do Altíssimo e pôs em andamento um processo de purga que até este momento abrange:
  • 6 mil militares
  • 9 mil polícias
  • 3 mil juízes
  • 1.500 reitores de universidade públicas e privadas
[Fonte]

É obra e mostra uma notável eficácia para encontrar os «culpados». Fizeram bem o trabalho de casa.

20/07/2016

CASE STUDY: Um imenso Portugal (32)

[Outros imensos Portugais]

Como Lula e Dilma minaram as jóias da Coroa 

«No comando da administração federal desde 2003, o PT deixou vários legados danosos às estatais. Dos escândalos bilionários de corrupção ao aparelhamento político, quase nada escapou das garras do fisiologismo. Fruto da barganha política, a máquina pública inchou e ficou ainda mais ineficiente, inclusive nas companhias com capital aberto. Apesar de a quantidade de estatais praticamente não ter aumentado – passou de 131 ao término do governo FHC para 135 no fim de 2014, último dado disponível –, o número de funcionários cresceu 49%.

Significa que, durante os oito anos de mandato do presidente Luiz Inacio Lula da Silva e os cinco anos da gestão Dilma Rousseff, as empresas públicas incorporaram 182 mil pessoas aos seus quadros. No total, há quase 553 mil trabalhadores, segundo dados levantados pela DINHEIRO no site do Departamento de Coordenação e Governança das Empresas Estatais (Dest), órgão ligado ao Ministério do Planejamento. “Esse inchaço nas estatais não tem nenhuma lógica econômica”, afirma Gilberto Guimarães, especialista em liderança e gestão de pessoas e professor do Grupo Laureate. “A máquina pública vai na contramão dos ganhos de produtividade.

Se a quantidade excessiva de funcionários é um peso para o caixa das estatais, a presença de apadrinhados políticos no topo hierárquico dessas companhias torna-se um problema ainda maior para a sua sustentabilidade. Na linguagem dos funcionários concursados, os diretores, vice-presidentes e CEOs que assumem o cargo sem um currículo compatível são chamados de “paraquedistas”. “É o aparelhamento pelo qual uma pessoa é indicada por algum político sem entender nada do assunto”, diz Jason Vieira, economista-chefe da Infinity Asset Management, que trabalhou vários anos nos Estados Unidos.»

Continue a ler na Dinheiro da revista «Isto é» o artigo de Luís Artur Nogueira

ACREDITE SE QUISER: Vai (à Síria) chamar pai a outro

«Tendo em conta que os testes de ADN são como que uma prova plena do ponto de vista científico da paternidade, ou seja, do ponto de vista da realidade factual, manifesto é que aquele que culposamente impede a realização desses exames está a preencher a previsão do n.º 2 do art.º 344.º do CC.

A atitude do Réu, investigado progenitor, não aceitando a solução de recolha do seu material biológico pelo INML, nem por qualquer outra instituição, salvo se efectivada na Síria e por ordem de um tribunal sírio, o que já sabia não ser viável nem ter o valor de prova, implica uma recusa implícita e ilegítima, logo, uma violação culposa do dever de cooperação.»

[Supremo Tribunal de Justiça, Acórdão de 17 Maio 2016]

O Réu aceita a jurisdição portuguesa para ejacular mas não para fazer exames sobre o resultado da ejaculação.

19/07/2016

Vivemos num estado policial? (9) – Conselhos de caça ao gambuzino Pokémon

«A Polícia de Segurança Pública publicou um manual no Facebook para ajudar os jogadores de Pokémon GO a caçar Pokémons em segurança.». Entre os 7 magníficos conselhos, o meu preferido é «não cace sozinho, cace em grupo ou aos pares». É um inesperado e tranquilizante incentivo policial à socialização dos cidadãos.

Finalmente ficam plenamente justificados os 444,1 chuis (inclui PSP e GNR) por 100.000 habitantes, o que nos torna o terceiro estado mais policiado da Europa, apenas ultrapassado por Malta e pela Irlanda do Norte.

Ficam igualmente justificados os 2.100 sindicalistas de 13-sindicatos-13 diferentes que faltam 23 mil dias por ano por actividades sindicais, bem como os 600 desses sindicalistas que são dirigentes com 4 dias de folga por mês e os restantes 1.500 delegados sindicais com 12 horas de folga por mês.

Outros casos de polícia: (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7) e (8).

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (40)

Outras avarias da geringonça.

No meio do folhetim das sanções e dos planos B, ficámos a saber o que já sabíamos: a arma principal da geringonça para adiar o descarrilamento da execução orçamental são as cativações. E o que são as cativações? O Glossário da Execução Orçamental explica: é a retenção (ou congelamento) de verbas do orçamento de despesa determinada na Lei do Orçamento do Estado. Há apenas dois pequenos problemas: (1) segundo o governo, as cativações são apenas 350 milhões euros, uma gota de água no oceano da despesa e (2) a cativação evita o pagamento, não evita a despesa e já se estão a avolumar as montanhas de facturas por pagar.

Em paralelo com as cativações, o governo está a usar uma carpintaria orçamental mais à bruta, como no caso dos reembolsos de IRS adiados sucessivamente com estórias da carochinha.

Ainda quanto a sanções, nubladas pelo denso nevoeiro da propaganda, no Eurogrupo, onde a geringonça diz contar vários aliados, só o ministro das Finanças grego se mostrou contra a aplicação das sanções et pour cause. Em matéria de nevoeiro, não esqueçamos o défice de 2015 que Costa põe em 3,2%, para fins de agiprop interno, e para Bruxelas sem medidas one-off põe em 2,8% (a este expediente o Expresso, o semanário do regime, chamou «a doutrina Costa»).

ESTADO DE SÍTIO: Os políticos autocráticos não precisam de insultar a inteligência dos súbditos

Depois de uma tentativa falhada de golpe pelos militares turcos está em curso um golpe provavelmente bem-sucedido por parte de Erdogan, que nem se dá à maçada de contar estórias aos turcos. Ora confirme-se a transparência das suas intenções declaradas após o golpe militar:
«Este levantamento, este movimento é um grande presente de Deus para nós, porque o exército será limpo»

18/07/2016

O tigre celta e o tareco lusitano (7) - Os felinos antes e depois da crise

[Sequela de (1), por sua vez sequela de O rugido do tigre vs o miado do gato, de (2), de (3), de (4), de (5) e de (6)]

Para começar e melhor entender o que vem a seguir, republico o quadro comparativo entre o tigre e o tareco com os dados de 1995 e 2011 pouco depois do início da crise.


E acrescento outro quadro com dados actualizados de vários anos posteriores ao início da crise que podem ser considerados marcos.


Note-se que a taxa de crescimento do PIB da Irlanda indicada para 2015 é antes da revisão recente que a elevou para 26,3%, por razões excepcionais que estão explicadas (por exemplo aqui).

Os indicadores falam tão alto que não julgo necessário acrescentar prosa. O que é que a Irlanda tem que Portugal não tem? Várias coisas. E o que tem Portugal que a Irlanda não tem? Várias coisas. Por exemplo, uma selecção de futebol que ganhou o Euro 2016, está em 6.º lugar no ranking mundial da FIFA e é 3.ª no ranking europeu, contra o 31.º lugar da Irlanda.

E o que é que tem o futebol de diferente do resto das actividades em Portugal? Várias coisas, entre as quais: uma regulação leve, concorrência nacional e internacional entre operadores e, sobretudo, um mercado de trabalho aberto, competitivo e internacional - deve ser a única actividade em Portugal em que as famílias, os partidos e as maçonarias não arranjam lugares na profissão do chuto para os seus filhos, camaradas e irmãos, respectivamente.

Mitos (234) - A destruição de dinheiro pela banca

Uma das fixações favoritas da esquerdalhada é a demonização da banca - salvo, evidentemente, a banca pública, ainda que seja nela que os vícios que se suporiam privados mais se fazem sentir.

Essa demonização serve um dos mitos de estimação da esquerdalhada: o da destruição de dinheiro pela banca. Aqui, mais uma vez, surge a realidade a atrapalhar a tese, porque não só a banca pública não está isenta dessa suposta «destruição» como tem tido um papel notável, a par da banca privada assaltada pelas cliques das várias famílias socialistas (BPN e BCP) ou com elas amancebadas (BES).

Infelizmente para a fixação e o mito, a banca não destrói dinheiro. A banca financia a destruição de dinheiro em projectos de investimento de «investidores» ou na salvação de empresas falidas de «empresários» públicos e privados amigos do regime. Esta evidência é em geral cuidadosamente escamoteada para não comprometer a tese.

O Expresso publicou um artigo sobre o PER (Processo Especial de Revitalização) onde estima o volume total de créditos que podem estar envolvido neste processo entre 30 a 40 mil milhões de euros, algo entre 17% e 23% do PIB e onde inclui o quadro seguinte dos vinte maiores PER que somam 12 mil milhões e onde encontramos em lugar de destaque os Espírito Santo e o BPB-SLN.


Começa a ser difícil esconder a evidência de que o dinheiro alegadamente destruído pelos bancos é o custo dos elefantes brancos do regime promovidos pelos seus amigos, custo suportado não pelo Estado, mera instância de extorsão, mas pelos contribuintes, também adequadamente chamados sujeitos passivos.