Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

01/10/2014

Estado empreendedor (91) – Depois do péssimo até o medíocre parece bom

Não se deve esperar demasiado da Martifer, dos irmãos Martins, a metalúrgica do regime, em tempos um dos exemplos de sucesso de José Sócrates e uma das meninas dos olhos do jornalismo promocional (uma variante do jornalismo de causas).

Apesar disso, o descalabro dos antigos Estaleiros Navais de Viana do Castelo era tão profundo que em poucos meses a Martifer que os comprou conseguiu o que se classificaria como milagres se tivesse acontecido durante a gestão pública dos ENVC. A West Sea, a empresa da Martifer gestora dos estaleiros, com apenas 107 trabalhadores (uma fracção das muitas centenas que por lá estacionavam enquanto empresa pública) já reparou este ano 10 navios e prevê 20 navios até ao final do ano, incluindo a reconversão do «Atlântida», e o começo da construção de dois patrulhas em Março (possivelmente um «incentivo» do ministério da Defesa para dourar a pílula) e a encomenda de uma série de navios-hotel em perspectiva. (Jornal de Negócios)

30/09/2014

DIÁRIO DE BORDO: Mais outro partido socialista na forja

Após uma sucessão de iniciativas (registadas nesta série de posts) reveladoras de uma enorme falta de princípios, Marinho e Pinto assina a Declaração de Princípios do novo Partido Democrático Republicano (PDR), um nome evocando, não talvez por acaso, a baderna da I República.

A Declaração de Princípios poderia, sem esforço, ser adoptada por quase todos os partidos socialistas das várias tendências desde o CDS até BE, passando pelo PSD, PS, Livre e vários outros grupúsculos que pululam na terra de ninguém dos equívocos, com a possível excepção do PCP que ainda está na fase das Conquistas de Abril.

Com a gente envolvida na formação do PDR, a começar pelo Dr. Marinho e Pinto, não lhe auguro um futuro para além das próximas legislativas onde, vaticino, o seu putativo eleitorado será sugado pelo «novo» PS de António Costa.

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Coisas que outros escreveram sobre Costa, as quais, por isso, já não precisam de ser escritas (2)

Outras coisas: «Para mim Costa não é um mistério»

«Sobre Costa haverá muito a dizer. O sentimento de entittlement sobre a coisa pública que carrega, visível na suprema lata com que mantêm o cargo (e o ordenado) de presidente da CML enquanto passa quatro meses a passear-se pelo país em trabalho eleitoral das primárias do PS, ou como afirma que não devia ter dado oportunidades a Seguro, como se lhe coubesse permitir que Seguro (acaso fosse capaz) brilhasse. O seu percurso profissional, sempre feito na política e na traiçoeirice que esta proporciona, que nos garante desde já que teremos um pm que não faz a mais pequena ideia do que é, por exemplo, uma PME (daquelas, que são a maioria, que não vivem empoleiradas no dinheiro dos contribuintes, que essas Costa provavelmente conhece muito bem). A sua produção assustadora de banalidades, tanto mais grave quanto faz da política vida há décadas, revelando que é apenas um gestor de dinheiros e de tachos, que ideologia não tem nenhuma e é incapaz de alinhavar ideias que vão além de tonterias como ‘tenho visão estratégica’, ‘precisamos de uma agenda para a década’, o que faz falta ‘é aumentar a riqueza’.»

Maria João Marques, no Insurgente

Pro memoria (196) – Não se pode confiar na integridade de Passos Coelho nem se deve confiar na competência de José Sócrates e dos seus acólitos

Este post é uma actualização do Pro memoria (195) onde corrigi o Pro memoria (194). No primeiro post recordei ter inferido há 3 anos da notória competência do socratismo para esgravatar a vida dos adversários inimigos que a ausência de acusações a Passos Coelho no frente a frente das eleições de 2011 significaria a ausência de roupa suja no armário do actual primeiro-ministro. No segundo assumi o provável erro no meu juízo de valor ao considerar a perversidade sem limites do gangue socrático e a sua falta de escrúpulos como uma condição suficiente para o maquiavelismo competente e bem-sucedido.

Agora é a vez de assumir a confirmação do meu erro quanto à ausência de roupa suja de Passos Coelho, que agora se percebe no mínimo com algumas nódoas (ver este Explicador do Observador).

Já quanto à competência do gangue socrático, posta em causa no segundo post, venho agora corrigir a provável explicação para a aparente incapacidade de expor o estado de higiene do underware de Passos Coelho que não estará na incompetência do gangue mas na inconveniência. Ora recorde-se a seguinte notícia do Público de há 6 anos:


29/09/2014

Lost in translation (211) – Uma contradição nos termos

«Seremos a oposição que este Governo merece e a alternativa que Portugal precisa» disse António Costa no discurso de entronização, com o seu estilo discursivo habitual de uma no cravo e outra na ferradura, sem se aperceber que, por tudo o que tem dito acerca deste governo, ser a oposição que «este governo merece» só poderá significar uma oposição pífia incapaz de vir a ser «a alternativa que Portugal precisa».

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Para mim Costa não é um mistério. Quanto ao resto só posso concordar

Para mim, António Costa é um mistério. Participou nos governos que afundaram o país, mas tem "boa imprensa". A sala onde fez o discurso de vitória parecia um conselho de ministros do socratismo, mas tem "boa imprensa". Fez uma patética gestão da Câmara de Lisboa, mas tem "boa imprensa". Ou seja, Costa é uma daquelas personagens lisboetas que têm sempre "boa imprensa". Façam o que fizerem, digam o que disserem, passam sempre entre os intervalos da chuva e são sempre levados ao colo. Bastava ver a ansiedade dos jornalistas, "então Dr. Costa, já nos pode dizer que ganhou?", "então Dr. Costa, já vai fazer o discurso da vitória?" Podiam ao menos disfarçar um poucochinho. É por isso que será um prazer bater em Costa. Criticar Seguro era só um dever, mas criticar António Costa será mesmo um prazer. Até porque ficaram à vista três características que não o recomendam.

Em primeiro lugar, revelou um carácter vingativo na forma como não se dirigiu ao adversário desta noite. Em segundo lugar, está rodeado pela gente que enterrou o país, os socráticos. Só lá faltava o chefinho da tribo. Em terceiro lugar, António Costa revelou um patético vazio de ideias ao longo desta campanha. Costa não sabe a realidade que tem pela frente (interna e europeia) ou está deliberadamente a mentir aos portugueses. O que não surpreende, tendo em conta as companhias.


«Bater em Seguro era um dever. Bater em Costa será um prazer», Henrique Raposo no seu blogue no Expresso

25/09/2014

ACREDITE SE QUISER: A alface, o magala e «o piropo como violência de género» (outra vez)

Há cerca de um ano, inaugurei a série «ACREDITE SE QUISER» com o post que reganhou actualidade um ano depois, quando o mesmo BE trouxe o mesmo piropo para o mesmo debate no mesmo parlamento. Não havendo nada para mudar, aqui vai o mesmo post.

«Militantes do BE discutem fim do piropo nas ruas do país»

«O debate vai acontecer no sábado às 10h30, mas num artigo online no esquerda.net as duas militantes avançam as linhas gerais. Para Adriana Lopera e Elsa Almeida, "o homem é ensinado desde pequeno a ser sujeito sexual, a ter desejo, prazer, orgasmo e a falar disto abertamente fazendo alegoria dos seus dotes de engate e não só" e "pelo contrário à mulher é reservada apenas a possibilidade de ser objecto sexual".» (ionline)

Há uns bons anos, uma charmosa amiga contou-me ter achado piada e sido bom para o seu ego a abordagem de um magala inspirado no seu belo vestido verde que lhe disse num tom galhofeiro: «gostava muito de ser um coelhinho para petiscar essa alface». Na minha modesta opinião, a batalha dessas militantes do sexo assexuado é inútil por ser improvável algum magala ver nelas um «objecto sexual» e impossível ver uma alface.

Pro memoria (195) – Não se pode confiar na integridade de Passos Coelho nem se deve confiar na competência de José Sócrates e dos seus acólitos

Este post é uma sequência e, mais do que uma sequência, uma correcção, do post «Pro memoria (194) – Pode não se confiar na integridade de Passos Coelho mas deve-se confiar na competência de José Sócrates e dos seus acólitos».

Inferi nesse post que, estando demonstrada ao longo de vários anos a competência do socratismo para esgravatar a vida dos adversários, para a seita quase sempre inimigos, o facto de José Sócrates no célebre frente a frente com Passos Coelho não ter conseguido tirar da manga nenhuma irregularidade pessoal de Passos Coelho poderia ser considerado um atestado de bom comportamento.

Estava enganado. Não quando escrevi que «pode não se confiar na integridade de Passos Coelho», porque de facto pode-se e até, sujeito à confirmação da barragem de artilharia em curso pelos jornalistas, maioritariamente de causas, não se deve confiar na integridade da criatura.

Estava enganado quando escrevi «deve-se confiar na competência de José Sócrates e dos seus acólitos». Pode confiar-se na perversidade sem limites da equipa, porém, como é sabido, a falta de escrúpulos é uma condição necessária mas não suficiente para um maquiavelismo competente e bem-sucedido.

24/09/2014

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (2) – O mito da deflação

[Outras marteladas (1)]

Pelo seu interesse transcrevo integralmente o artigo «Deflação e crise financeira» (Jornal de Negócios) do professor do ISEG Avelino de Jesus, uma apostasia da economia mediática.


«O BCE levou a cabo, em 18 de Setembro, a 1.ª das 8 operações TLTRO (Target Long-Term Refinancing Operations) previstas para o período de Setembro corrente até Junho de 2016.

Contra uma previsão de €100 biliões, o valor total dos créditos concedidos ficou-se pelos €82,6 biliões. Recorreram a esta generosa facilidade (taxa de juro fixa 0,15% para um prazo de 4 anos) apenas 255 das 382 entidades elegíveis.

Esta primeira operação – que muitos avaliam como um fracasso pela escassez da procura registada – insere-se no novo ciclo de acções que o BCE pretende implementar para combater o "perigo de deflação" que muitos, irracionalmente, julgam descortinar no horizonte imediato. O 1.º ciclo de operações do mesmo tipo fora lançado pelo BCE nos anos 2011/2012 então com o objectivo de "salvar o euro".

O primeiro ciclo destas operações de efectiva degradação monetária na aparência atingiu os objectivos propostos. Na prática, teve o efeito perverso de redução da pressão para o saneamento das finanças públicas (redução incrível dos juros soberanos) e para a continuação das reformas estruturais.

Se, apesar dos efeitos perversos referidos as operações dos anos 2011/2011 merecem algum julgamento benigno pela situação de quase emergência então vivida na zona euro, este segundo ciclo, agora iniciado, é absolutamente negativo, na medida em que pretende perseguir um fantasma e saldar-se apenas por novos e graves malefícios para a recuperação das economias que pretende salvar.

A experiência histórica mostra que os períodos de deflação muito raramente coincidem com períodos de recessão.

A tabela anexa reunindo resultados de investigação (1) recentemente divulgada pelo BIS ("Bank for International Settlements") mostra quão errónea é a percepção dominante – que o BCE também adopta – sobre os malefícios da deflação.

Tanto na época antes da I Guerra como no período a seguir à II Guerra o PIB real continuou a crescer mesmo nos períodos de preços em declínio. Mas, mais: as diferenças registadas na variação do PIB real entre os períodos de inflação e de deflação não são estatisticamente significativas.

Apenas no período entre as duas guerras mundiais, as médias anuais do crescimento do PIB real representam diferenças significativas. Mas mesmo neste período excepcional devem considerar-se duas notas fundamentais. Primeira, o período entre as duas guerras é influenciado pela experiência excepcional da Grande Depressão, quando os preços caíram 20% e o produto contraiu 10%. Segunda, neste período a contracção do PIB real tende a dar-se antes do deflagrar da deflação.

Se estas operações do BCE visam combater um perigo inexistente, elas arrastam efeitos perversos bem reais.

Primeiro, dá novo alívio às pressões para os governos sanearem as finanças públicas e adiarem ainda mais as reformas estruturais que alguns timidamente haviam iniciado.

Segundo, alimenta a já preocupante euforia nos mercados financeiros que segue paralelamente ao fraco investimento produtivo.

Terceiro, incentiva o aumento do endividamento dos agentes (Estado, famílias e empresas).

Quarto, perante os juros extremamente baixos provoca a tomada de riscos adicionais.

Quinto, a obtenção de créditos fáceis e baratos no BCE, na situação actual de balaços ainda grandemente por sanear, arrasta os bancos para a má alocação dos créditos: continuam a alimentar os velhos e problemáticos clientes para não reconhecerem perdas e dificultam e encarecem o financiamento dos projectos de novos clientes. As reduções dos juros provocam mais dívida quando é necessário mais capital e favorecem sectores onde já se investiu demasiado.

Sexto e finalmente, as facilidades monetárias contrariam a regulação macro prudencial e prevalecem sobre esta, permitindo mascarar as fragilidades dos balanços dos bancos, só evidenciadas após episódios de rebentamento.

Este conjunto de efeitos perversos não são ameaças teóricas. São realidades palpáveis, já verificadas em consequência do 1.º ciclo de degradação monetária. Este segundo ciclo vai ampliar, de forma perigosa, todas aquelas consequências e a saída da crise financeira, por este caminho, será uma miragem.

No caso português, creio que o leitor dispensará os evidentes exemplos do passado recente.

(1) Veja-se o último relatório anual do BIS, em especial as páginas 98 e 99. (BIS 84th Annual Report), livremente disponível em: http://www.bis.org/publ/arpdf/ ar 2014e.htm»


TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Teria sido um regabofe, pois claro

«Imaginem que o presidente da CML ainda era Santana Lopes. Imaginem a animação que não seria a próxima Quadratura do Círculo.» (Miguel Noronha no Insurgente)

Ocorre-me ainda que, se Costa à época já fosse presidente da CML, o túnel de Santana Lopes - nesse caso o putativo túnel de Costa - nunca teria sido entupido pelas providências cautelares do amigo Zé.

23/09/2014

CAMINHO PARA A SERVIDÃO: Olha quem fala

O camarada Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP, fez ontem várias críticas a propósito do BES e do seu processo de recuperação. É difícil não concordar com «empurram todos uns para os outros as responsabilidades e fazem-se de mortos ou vêm dizer que nada sabiam, depois de muito terem perorado acerca da solidez do banco». São as consequências das promiscuidades resultantes de um capitalismo corporativista que é como que um capitalismo a caminho do socialismo como pretende a Constituição.

Jerónimo de Sousa acusa também Fernando Ulrich «o tal banqueiro do ‘ai aguenta, aguenta’, … (que) sabia tanto e também se fez de ‘morto’ à espera de deitar a mão à presa». Infelizmente para as suas críticas, que devemos separar do camarada, Jerónimo de Sousa é o dirigente máximo de partido que «deitou a mão à presa», comandando em 1975 o assalto aos bancos, ao sistema financeiro em geral, à agricultura e às maiores empresas industriais, assalto de que resultou ficarem nas mãos do «Estado Socialista» mais de 30% do valor acrescentado bruto, com os resultados conhecidos nos 10 anos seguintes que incluíram duas bancarrotas e a destruição da economia.

Vivemos num estado policial? (7)

Recapitulando: segundo os números da UNODC, com 444,1 chuis (inclui PSP e GNR) por 100.000 habitantes, somos o terceiro estado mais policiado da Europa, apenas ultrapassados por Malta e pela Irlanda do Norte. Se este post terminasse aqui a resposta à pergunta do título seria: sim, somos um estado policial.

Porém, este post não termina aqui. Segundo os números divulgados pelo SOL, 10% dos 21 mil polícias são sindicalistas de 13-sindicatos-13 diferentes e faltaram o ano passado 23 mil dias por actividades sindicais. 600 dos 2.100 sindicalistas são dirigentes e cada um tem direito a 4 dias de folga por mês, os restantes 1.500 são delegados sindicais e podem ter 12 horas de folga por mês. As folgas não usadas acumulam-se como «créditos» para o mês seguinte. Dirigentes e delegados sindicais não podem ser transferidos de local de «trabalho» sem acordo expresso.

Entre esses 13 sindicatos encontra-se o Sindicato Nacional de Oficiais de Polícia (SNOP) que representa os oficiais da PSP com licenciaturas. O seu presidente fez declarações a vários jornais (incluindo uma entrevista ionline de ontem) expondo a roupa suja e abriu uma guerra com os outros sindicatos. O SNOP é agora um sindicato traidor.

Posso então terminar este post com uma resposta mais completa à pergunta do título: sim, vivemos num estado do género policial subgénero sindical.

Outros casos de polícia: (1), (2), (3), (4), (5) e (6).