Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

21/10/2014

SERVIÇO PÚBLICO: Um país só pode ser tão bom quanto os mídia que tem


«Seria fácil supor que o verdadeiro inimigo da política democrática é a censura das notícias - e que, portanto, a liberdade de dizer ou publicar alguma coisa seria um aliado natural da civilização. Mas o mundo moderno está a ensinar-nos que há dinâmicas ainda muito mais insidiosas e cínicas do que a censura, como esvaziar as pessoas de vontade política. Isto implica confundir, maçar e distrair a maioria das pessoas da política apresentando os acontecimentos de tal forma desorganizados, fraturados e intermitentes que a maioria da audiência é incapaz de seguir o fio dos assuntos mais importantes. Um ditador contemporâneo não precisaria de banir as notícias: bastaria que fizesse as empresas de media difundirem um fluxo de boletins com tom aleatório, em grande quantidade e com pouca explicação de conteúdo. Isto, no contexto de uma agenda que fosse sempre mudando sem indicar a relevância dos assuntos que parecia m há pouco indispensáveis, tudo isto intercetado por atualizações constantes sobre pormenores coloridos sobre assassinos e estrelas de cinema. Isto seria suficiente para arruinar a capacidade da maioria elas pessoas para alcançarem a realidade política - bem como qualquer pretensão que possam ter tido de alterá-la.»

Entrevista do Expresso a Alain de Botton a pretexto do seu livro «As notícias: um manual de utilização»

Um dia como os outros na vida do estado sucial (19) – Da falta de recursos

No domingo um homem morreu na queda de um parapente na serra da Arrábida. «Na encosta onde a vítima caiu estiveram seis veículos e 14 operacionais, entre bombeiros voluntários e sapadores, INEM e GNR» (DN). A ASAE parece não ter estado presente. Quem falou na morte do estado sucial por falta de recursos?

Uma escola de Paços de Ferreira quer contratar uma professora de Educação Visual do ensino básico que tenha «obras publicadas, no regime de autor ou coautor, de carácter pedagógico ou científico». Uma outra de Odemira procurar um professor de matemática que domine o espanhol. (DN) Quem falou em descentralização do recrutamento de professores?

A RTP contratou serviços de segurança que custam 2 milhões de euros (CM). É um duplo desperdício. Se a estação fosse destruída poupavam-se mais de 200 milhões dos fundos públicos e perdia-se pouco mais do que as homilias do animal feroz ao domingo e The Voice Kids.

20/10/2014

SERVIÇO PÚBLICO: Se não se fazem as reformas a tempo só resta a austeridade

«Pregunta. Europa no encuentra la vía para superar la crisis.

Respuesta. Algunos países, como los del sur, necesitan reformas que les den credibilidad. Del mercado de trabajo, de pensiones, de organización del Estado... Alemania las hizo, los escandinavos también. Como Canadá o Australia. En el sur de Europa hicieron poco. Se han hecho en Grecia o en España, pero ya con el cuchillo en el cuello. Y eso ha tenido costes. En Alemania no esperaron al último momento. Las hicieron en 2002 y 2003.

P. No cita a Francia. ¿Qué reformas necesita Francia?

R. Muchas. El mercado de trabajo, por ejemplo. No se puede sostener con estas tasas de paro. No se puede sacrificar así a los jóvenes. No se puede mantener un gasto público tan elevado. Supone demasiadas cargas para el Estado, para los empresarios... Sale muy caro. Y resulta muy difícil ganar competitividad en estas circunstancias.

P. ¿Es posible mantener el euro sin una unión política, sin una unión económica?

R. Se necesita más Europa, sin duda, pero la Europa del norte es cada vez más reticente hacia la del sur. Es un tema para hablarlo durante horas.

P. En Francia hay muchas resistencias a las reformas.

R. Sí, en la opinión pública y entre los políticos. Pero la degradación económica es profunda y hay que actuar. Hay un ejemplo claro: la tasa sobre el carbono. La medida la tomó la derecha y todo el mundo estaba de acuerdo. Ahora, la mayoría de la clase política está en contra. Es un síntoma de que tenemos un Estado débil. Los lobbies tienen una gran influencia en Francia.

P. En todo caso, usted mantiene que Francia no es un país en declive, en decadencia.

R. No, porque tiene muchos valores. Eso sí, conviene no perderlos demasiado deprisa.

P. ¿Cómo ve la batalla entre París y Bruselas por el elevado déficit francés?

R. El déficit actual por encima del 4% no es una excepción. El problema de Francia es que desde hace cuatro décadas no tiene un presupuesto equilibrado. Incluso en periodos de bonanza aumenta el déficit y no hace reformas. La austeridad es complicada para la economía, pero si no se hacen reformas a tiempo, es la única solución.»


Excertos da entrevista de El País a Jean Tirole, o novo Nobel da Economia. A entrevista tem o título «En España o Grecia se han hecho las reformas con el cuchillo en el cuello»

Pro memoria (201) – Atropelado pelo princípio da realidade e pelas leis de Parkinson

António Costa candidato a primeiro-ministro, cujos bolsos estão cheios de soluções de crescimento para o país, reconheceu que «não existe solução» para um problema deveras mais simples que são as inundações na cidade da qual é presidente da câmara.

É claro que solução, do tipo «solução final», para o problema das inundações, não existe. Nem para qualquer outro problema dessa natureza e magnitude. Por isso, Costa não pode ser responsabilizado pela falta de «solução final». Contudo, há medidas de mitigação do problema pela falta das quais Costa pode e deve ser responsabilizado.

E, por maioria de razão, deve ser responsabilizado por decisões que eliminaram medidas de mitigação como a manutenção preventiva dos colectores, ao extinguir em 2011 o departamento de obras de infra-estrutura e saneamento da CML reduzindo os seus 130 elementos a menos de metade e integrando-os em outros departamentos. Ao mesmo tempo que extinguia esse departamento mantinha nos quadros da câmara (ver este post do Impertinente):
  • 330 arquitectos 
  • 101 assistentes sociais 
  •  73 psicólogos 
  •  104 sociólogos 
  •  146 licenciados em marketing 
  •  260 engenheiros civis 
  •  156 historiadores 
  •  303 juristas, cujo serviço se supõe que deve ser dar parecer sobre os pareceres que a CML encomenda a gabinetes de advocacia privados, incluindo um a quem a câmara pagou 75 mil euros por um ano e 10 meses.

E tudo isto apesar de ter sido alertado há 4 anos para «uma situação de muito perigo, que é a degradação da rede de saneamento (que se encontra) num estado deplorável». E quem fez esse diagnóstico? O mesmo António Costa que pelos vistos sofre de um sério problema de dupla personalidade.

[Fonte: «Câmara desmantelou serviços de saneamento», Paulo Paixão no Expresso]

19/10/2014

ARTIGO DEFUNTO: Se eles ao menos lessem os jornais onde escrevem (4)

O que é um facto para um escritor que faz jornalismo de causas? Depende de quem é o escritor mas é provável que seja ficção. Exemplo: para Miguel Sousa Tavares o «Facto 5.» é «depois a ministra das Finanças confessar que já não é possível cortar mais a despesa do Estado (que continua a subir), ficou claro para todos que nunca haverá qualquer alívio fiscal, pois que está morta e enterrada qualquer veleidade de fazer o ajustamento por via da despesa e não da receita».

Duas páginas antes daquelas elucubrações há um artigo cujo título se lido por MST seria só por si suficiente para não escrever asneiras: «Despesa só cortou metade do défice». Se fosse para além do título, MST ficaria ainda a saber que

«De acordo com os cálculos do Expresso, a redução de 8,4 pontos percentuais no défice entre 2010 e 2015 é explicada em 4,4 pontos por diminuição dos gastos e os restantes quatro pontos como resultado de aumento de receita.

Neste cinco anos, o défice contabilizado com as novas regras europeias (SEC 2010) passou de 11,2% do produto interno bruto (PIB) em 2010 para 2,7% previstos para o próximo ano. A despesa recuou de 51,8% para 47,4%, enquanto a receita aumentou o peso de 40,6% para 44,6% do PIB.
»

DIÁRIO DE BORDO: Roubo inventivo

Great Wall, uma espécie de IBM XT (Museu de Tecnologia de Shenzen)

18/10/2014

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Coisas que outros escreveram sobre Costa, as quais, por isso, já não precisam de ser escritas (6)

Outras coisas: «Para mim Costa não é um mistério», (2), (3), (4) e (5).

«Uma manhã de Primavera deste ano de 2014, fui – com gosto – ao Largo do Intendente de propósito para oferecer a António Costa o livro que fiz com Vítor Gaspar. Meti-me no metro e fui, mas lembro-me do que ouvi: de Vítor Gaspar, com graça; do resto, sem nenhuma. Os argumentos eram os de hoje: a “obsessão” com a divida, a importância descomunal que “se” dava ao défice, os erros “crassos” da política do governo; a obediência servil à Alemanha e a subserviência cega à troika (cito de memória mas quem de imediato não reconhecerá António Costa nestes propósitos se eles não se alteraram um milímetro?).

É verdade: nada, ou quase nada, mudou na atitude político-mental de quem não compreende a economia que se vive nos nossos dias; não alcança a importância crucial da saúde das empresas como motor de verdadeiro crescimento económico; não atende à economia como fonte de criação de riqueza e tem tendência a achar que o mercado é algo de desprezível a que aqui só obedecem os neoliberais que nunca houve.
»

Crise de realidade, Maria João Avillez no Observador

ARTIGO DEFUNTO: Os espectros que pairam sobre o jornalismo de causas

«Há um espectro que paira sobre a Europa. Um espectro que aponta para o fim de um ciclo de austeridade punitiva nos países vulneráveis à dívida, ao défice público e aos ataques dos mercados financeiros. Não chegou através de uma revolução, nem teve como arauto um revolucionário obediente a ideologias radicais. Bastou uma eleição democrática na França e a subida ao poder de um político centrista para que, num ápice, a Europa reflectisse a fundo sobre a sua caminhada para o caos.»

Escrito em 23-05-2012 num artigo de opinião não assinado do Público, a propósito das eleições presidenciais francesas que deram a vitória a François Hollande, e recordado há dias por José Manuel Fernandes no Observador.

Moral da estória: a qualidade do jornalismo de causas mede-se pelas suas capacidades preditivas.

17/10/2014

Dúvidas (52) – O que faria funcionar o Moedas?

«O Moedas, o Moedas! Eu punha já o Moedas a funcionar», disse José Manuel Espírito Santo Silva. Ricardo Salgado não perdeu tempo e fez de imediato a ligação telefónica para o pôr a funcionar. «Carlos, está bom? Peço desculpa por esta a chateá-lo a esta hora.»

O Carlos dispõe-se a falar com José de Matos da CGD e com o ministro da Justiça do Luxemburgo onde estava a iniciar-se uma investigação por fraude a várias empresas do GES. «Obrigado, Carlos, um abraço», terminou o Dono Disto Tudo.

Gravação de uma reunião em 2 de Junho do Conselho Geral do GES, divulgada pelo jornal SOL

ACREDITE SE QUISER: E se for consentido?

«O governo dinamarquês está a planear tornar ilegal a prática de sexo com animais. A decisão foi avançada pelo ministro da Comida e da Agricultura dinamarquês, Dan Jørgensen, refere o Independent. A Dinamarca é um dos poucos países europeus que ainda permite a bestialidade. Apesar dos apelos emitidos por organizações ligadas aos direitos dos animais, a sua proibição nunca tinha sido formalmente discutida.» (Observador)

Ora aqui está uma nova frente de luta que se abre à esquerda fracturante.

16/10/2014

ESTADO DE SÍTIO: A vida para além do orçamento

O que se pode dizer da proposta de OE 2015? Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes. Nem traduz o aprofundamento das poucas reformas feitas e muito menos reflecte novas reformas. Nem é uma rendição incondicional às eleições. Nem é um orçamento à prova de surpresas, antes pelo contrário. Nem é um orçamento isentos de riscos. Nem é pura ficção orçamental.

É o quê afinal? É o melhor que um governo desgastado em fim de estação consegue fazer, num país à deriva, habitado por um povo que gosta muito do Estado Social e espera que ele seja pago pela Óropa, e com uma oposição perdida nos vários passados irrepetíveis: no passado do dinheiro abundante, das obras faraónicas e da Europa connosco, uns; no passado do PREC, das nacionalizações, do combate aos monopólios e do Estado a caminho do socialismo, outros; no passado das causas fracturantes, ainda outros.

Fonte: «Resumo dos aspetos essenciais do Orçamento do Estado para 2015, PwC

Em resumo: as despesas correntes ficarão ao mesmo nível de 2013 e as receitas fiscais continuam a subir a galope. Tradução: o país produtivo esvai-se a um ritmo crescente para sustentar um Estado pantagruélico e ineficiente. É a herança da coligação PSD-CDS que o PS merece, Não é o orçamento que o país precisa.

Ah, já me esquecia. Estradas de Portugal, Refer, ML, CP e Metro do Porto que tiveram em 2014 um perdão da dívida de 1,8 mil milhões de euros, vão receber em 2015 2,2 mil milhões de euros para a conversão de dívida em capital.

SERVIÇO PÚBLICO: As armas químicas inexistentes de Sadham afinal sempre existiam

Há vários mitos relacionados com a segunda intervenção no Iraque da coligação liderada pelos Estados Unidos. O ano passado tratámos do mito das 120 mil mortes causadas pela intervenção que afinal serão menos de 14 mil.

Nesse mesmo post, admitimos a «ficção de inexistentes armas de destruição maciça» para justificar a intervenção. Pois bem, afinal a ficção é um mito e, pelo menos quanto às armas químicas, foram encontradas abundantes provas da sua existência, segundo as conclusões do New York Times assim sumarizadas na sua newsletter sobre o tema:

«From 2004 to 2011, American and American-trained Iraqi troops repeatedly encountered, and on at least six occasions were wounded by, chemical weapons remaining from years earlier in Saddam Hussein’s rule, an investigation by The New York Times has found.

The American government withheld word about the chemical weapons from both the troops it sent into harm’s way and from military doctors.

The United States had gone to war with Iraq declaring that it had to destroy an active weapons of mass destruction program, but instead, American troops found the remnants of long-abandoned programs built in close collaboration with the West — often in territory that is now controlled by the Islamic State.»

The Secret Casualties of Iraq’s Abandoned Chemical Weapons, um bem documentado artigo de C. J. Chivers, no NYT

Fonte: C. J. Chivers, no NYT (ver link acima)

Pro memoria (200) – Atropelado pelo princípio da realidade (II)

«Não se pode, evidentemente, ao mesmo tempo, defender o progresso do Serviço Nacional de Saúde, defender o progresso da escola pública, defender o progresso na capacidade da proteção social e depois ter promessas desbragadas em matéria de diminuição dos impostos».

Ferro Rodrigues, o novo líder parlamentar do PS em entrevista à TSF

15/10/2014

Pro memoria (199) – Atropelado pelo princípio da realidade

«O presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, disse hoje que "não existe solução" para as inundações na cidade, refutando as críticas dos partidos da oposição sobre o plano de drenagem.» (DN)

Inundações à beira do Tejo da Gulbenkian
Hoje as inundações em Lisboa, para o ano a dívida pública e a austeridade, com outro nome claro – talvez redressement, como son ami François.

Títulos inspirados (32) – Cavaco, o contrariador

Como aqui e aqui já foi referido, a ministra das Finanças foi acusada, e justamente, de ter escondido aos deputados, aos jornalistas, aos analistas e aos comentadores informação privilegiada: a Caixa é um banco público, tem 30% do mercado bancário e tem, portanto, a mesma participação no Fundo de Resolução e, consequentemente, a Caixa pagará 30% das perdas com a resolução do BES e, no fim da linha, esse custo poderá ser suportado pelo accionista da Caixa que é o Estado.

Talvez tentando expiar a vergonhosa culpa, o primeiro-ministro e a ministra das Finanças admitiram que uma perda suportada no Fundo de Resolução pela Caixa poderia ter «reflexos indirectos» no accionista Estado deixando implícito que os contribuintes poderiam pagar a factura.

Entretanto, o venerando chefe de Estado Cavaco Silva, tirou-se dos cuidados e explicou com vasta soma de pormenores que os contribuintes não pagam nesse caso coisíssima nenhuma «porque não é certo, que pela via da diminuição dos prejuízos da Caixa Geral de Depósitos pela via do fundo de resolução então os contribuintes estão a suportar custos porque então ter-se-ia que dizer que toda a despesa da Caixa Geral de Depósitos era suportada pelos contribuintes». Dir-se-á que isso é só uma questão formal porque no fim da festa o contribuinte acaba por pagar todas as facturas do sector público, sejam elas da administração central, autarquias ou sector empresarial do Estado.

Podemos discutir longamente esta minhoquice, mas do que não restam dúvidas é que com tais explicações o venerando chefe de Estado contrariou a tese prevalecente entre deputados, jornalistas, analistas e comentadores de que a dupla Passos-Albuquerque lhe estava a escamotear informação preciosa (aquela que começava por ser a Caixa um banco público, etc.), porque muito simplesmente, segundo o venerando, não haveria prejuízo nenhum a esconder.

E o que fabricou o jornalismo de causas da Lusa – uma agência pública, recorde-se, com a desvelada colaboração de vários jornais? «Notícias» assim tituladas: «Cavaco contraria Passos sobre custo do Novo Banco para os contribuintes» (Económico), «Cavaco contraria Passos e Maria Luís» (DN), «Cavaco contraria Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque no caso BES» (Público)