Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
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Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

20/09/2014

A maldição da tabuada (18) – Em média não sabem calcular médias

«É a primeira vítima do erro registado na colocação de mais de mil professores contratados para as cerca de 300 escolas com contrato de autonomia e Teip (territórios educativos de intervenção prioritária). Mário Agostinho Alves Pereira, diretor-geral da Administração Escolar desde 2009 até hoje, assumiu a responsabilidade pela aplicação de uma fórmula que calculou mal as classificações de milhares de candidatos às bolsas de contratação de escola e apresentou a demissão, apurou o Expresso. O pedido foi aceite pelo ministro da Educação.» (Expresso)

O erro consistiu em calcular uma média de duas variáveis de natureza diferente sem primeiro as tornar comparáveis. Exemplo: a média de 20 km e 40 milhas não é 30 kmilhas, é 34,1395 km ou 21,2139 milhas.

Os professores, a oposição e com eles o jornalismo de causas pediram a demissão do ministro. Sem razão. Primeiro porque não foi o ministro, por acaso um matemático, que determinou o processo de cálculo. Segundo porque os técnicos que prepararam o processo de cálculo e a lista de professores dele resultante não foram alunos do ministro, foram provavelmente alunos de professores sindicalizados na FENPROF e representados pelo sindicalista Dr. Mário Nogueira que estava na 1.ª fila das galerias do parlamento aos gritos a pedir a demissão do ministro. Terceiro porque provavelmente a maioria dos deputados da oposição (e da situação, já agora) que vituperaram o ministro não dominam os rudimentos da aritmética elementar. Quarto porque os jornalistas que fizeram eco da indignação dos profs e da oposição não foram capazes de explicar decentemente qual o erro em causa – com a uma única excepção da jornalista do Observador.

Para sermos justos, devemos observar com bonomia quer os erros, quer as indignações, quer a incapacidade de explicar os erros. Trata-se, afinal, da maldição da tabuada, um mal que nos aflige há séculos – segundo os entendidos, um mal que começou com a expulsão pelo Marquês de Pombal em 1789 dos jesuítas, as únicas almas que à época eram capazes de calcular médias simples e ponderadas.

Um mal que explica as nossas dificuldades com as contas públicas e privadas e com as nossas dívidas públicas e privadas e que infelizmente não parece ter sido percebido pelo presidente da Estónia Toomas Hendrik Ilves que nesta sua intervenção nos humilha, insinuando que gastamos mais do que ganhamos e pedimos emprestado mais do que podemos pagar, o que levou os estonianos, mais pobres do que os portugueses, a resgatar-nos, acusa. É uma crítica fácil e demagógica. Tivesse a Estónia os nossos problemas com tabuada e não falariam de cátedra.

19/09/2014

Dúvidas (50) – Qual dos dois Costas é candidato a primeiro-ministro?

Será o António Costa que promete não aumentar os impostos quando for governo ou será o António Costa que anunciou há 10 meses que «as taxas da Câmara de Lisboa vão subir já em 2014… a única forma de enfrentar a quebra de receitas sentida sem agravar impostos, cortar no investimento ou nos apoios culturais e sociais.» e defende em 2014 «a criação de uma taxa de turismo como forma de contrariar a redução de receita que o município tem tido, principalmente com a derrama»?

CASE STUDY: Uma espécie de «alívio quantitativo»

Numa velha anedota misógina, um pai respondia à pergunta de um filho «pai o que é a inflação?» com o exemplo da mãe: «quando a conheci pesava menos, era mais nova e valia mais e agora pesa mais, é mais velha e vale menos». (*)

A inflação é pois um fenómeno universal que nada poupa, nem mesmo as notas de avaliação escolar que qualquer observador atento da realidade pode confirmar vêm aumentando em todos os graus de ensino e, ao que parece, um pouco por todo o lado. Há várias explicações disponíveis para o gosto de cada um. Os mais velhos tendem a explicar a inflação das notas com o relaxamento dos critérios de avaliação. Os mais novos tendem a considerar que o fenómeno não carece de explicação, subentendendo que as novas gerações estão a ficar mais inteligentes - talvez por força de súbitas mutações genéticas que teriam encantado Darwin.

Como mostram os estudos de Stuart Rojstaczer citados pela Economist, o fenómeno é tão universal que não poupou la crème de la crème do ensino universitário americano – a Ivy League, como se evidencia no gráfico seguinte.


Citando a Economist, «universities pump up grades because many students like it. Administrators claim that tough grading leads to rivalry and stress for students. But if that is true, why have grades at all? Brilliant students complain that, thanks to grade inflation, little distinguishes them from their so-so classmates. Employers agree. When so many students get As, it is hard to figure out who is clever and who is not».

(*) Nota especial para alguma alma politicamente correcta aqui caída por engano: a anedota misógina pode facilmente ser ajustada à conformidade politicamente correcta trocando a ordem porque aparecem as palavras pai e mãe e alterando o género dos adjectivos.

18/09/2014

Estado empreendedor (90) – As reformas não consistem em ejaculações legislativas

O falhanço da plataforma Citius está não só a comprometer a reforma judiciária como a comprometer o funcionamento de todo o sistema judiciário. Para se perceber o estado de negação dos apparatchiks, o Instituto de Gestão Financeira e Equipamentos da Justiça (IGFEJ) informou num comunicado que está assegurado «o pleno acesso a todas as funcionalidades da plataforma Citius», mas apenas com «os novos processos instaurados após 15 de Setembro» via electrónica. Ou seja, a coisa não é grave porque só deixa de fora 3,5 milhões de processos para os quais serão necessários um ou dois anos de trabalho para os reintroduzir no sistema, segundo José Tribolet, presidente INESC.

E, pelos vistos, esse falhanço deixou surpreendidos a ministra e todos os dirigentes de topo do ministério da Justiça, o que deveria ser surpreendente e só não é porque são conhecidas a impreparação e a falta de diligência do aparelho administrativo do Estado para lidar com a mudança, gerir projectos e riscos e antecipar dificuldades.

«Do ponto de vista dos modernos sistemas de informação das organizações», os dirigentes de topo «são analfabetos, não conhecem o problema com que estão a lidar» e «acreditam que as coisas se resolvem com uma equipa corajosa ou uma liderança forte ou empregando consultorias externas que levam um ‘dinheirão’ e estão ali uns meses, mas este não é um trabalho de meses. Leva anos e tem de ser feito pelas pessoas da justiça», disse Tribolet à Rádio Renascença.

As reformas do Estado costumam falhar por falta da chamada «vontade política». Quando existe a «vontade política» falham por falta de capacidade de gestão o que vai reforçar durante anos ou décadas os lóbis afectados pelas reformas e vai amolecer ainda mais a amolecida «vontade política».

DIÁLOGOS DE PLUTÃO: Literacia financeira

Stôra: Joãozinho sabe o que é um warrant?

Joãozinho: Sei sim stôra. É uma ferramenta financeira…

Stôra: … um instrumento financeiro… Joãozinho…

Joãozinho: … um instrumento financeiro em que o dono…

Stôra: … o detentor… Joãozinho…

Joãozinho: … um instrumento financeiro em que detentor pode comprar ou vender acções ou obrigações a um preço previamente combinado.

Stôra: Muito bem Joãozinho. E agora vamos fazer uma operação: se eu tiver 4 warrants para dividir pelo Joãozinho e pelo Ruizinho quantos warrants cabem a cada um?

Joãozinho: Stôra posso usar a calculadora?

Stôra: Não, não pode.

Joãozinho: Ó Stôra mas ainda só aprendemos a somar.

[Diálogo imaginário, que pode um dia tornar-se real, inspirado numa medida prevista no anteprojecto das Grandes Opções do Plano (GOP) para 2015 para «introduzir a literacia financeira nos currículos do ensino básico e secundário, a partir do próximo ano lectivo»]

17/09/2014

Estado empreendedor (89) – A saga do «Atlântida» (actualização e epílogo?)

Recorde-se que o Governo Regional dos Açores, presidido pelo socialista Carlos César, encomendou o «Atlântida» e modificou o projecto para a seguir recusar aceitar o navio construído pelos Estaleiros Navais de Viana do Castelo por não cumprir os requisitos de velocidade em consequência dessa alteração (menos um nó = 1,85 km/h, uma diferença ridícula que cheira a pretexto para esconder uma qualquer manobra).

Recorde-se igualmente que o governo socialista de José Sócrates anunciou por várias vezes a venda do navio ao amigo falecido coronel Chávez - uma dessas vezes em que a negócio foi dado como fechado o preço anunciado foi de 42,5 milhões.

E chegamos assim a Abril passado quando a empresa pública açoriana Atlanticoline, a quem se destinava o navio, requereu ao tribunal a venda imediata do navio, do qual é fiel depositário a empresa ENVC, por 20 milhões, metade do preço de construção, para se ver ressarcida dos adiantamentos que pagou. Com esta execução pela Atlanticoline, esteve ameaçado o concurso público internacional para venda do «Atlântida», mas a coisa lá se conseguiu desatar. Abertas as 3 propostas, a mais elevada foi de 13 milhões de um armador grego que venceu o concurso mas esgotou todos os prazos para exercer a compra.

E assim chegamos (talvez) ao epílogo da saga, com a compra pela Douro Azul por 8,7 mil milhões de euros do «Atlântida» - uma espécie de navio-almirante da incompetência e negligência do socialismo socrático. Se terminar, esta saga, como todas as sagas socialistas, deixará um basto prejuízo: de um custo para os ENVC que ultrapassou os 40 milhões até 2009, talvez se recuperem, na melhor hipótese, menos de 9 milhões.

16/09/2014

BERQUINGUE NIUZ: A coisa nunca está tão mal que não possa piorar

A sucursal do BES na Flórida está a ser investigada por reguladores americanos «in a sprawling multinational effort to untangle the finances behind the collapsed Portuguese business empire».

Dúvidas (49) – Teria o DDT caído, não fora ter-se metido com o PQP e o Chico dos Porsches?

Antes de nos felicitarmos pelo «funcionamento das instituições» que colocou um fim (provisório?) ao reinado do Dr. Ricardo Salgado, o Dono Disto Tudo, convirá reflectirmos um pouco sobre as verdadeiras causas da queda da casa dos Espíritos.

Como agora se torna cada vez mais claro, as «instituições» funcionaram mal e tardiamente. Os administradores não executivos «independentes» do BES entravam mudos e saíram calados, a comissão de auditoria vivia em paz e harmonia com a comissão executiva, o ROC e auditor KPMG assobiava para o lado e sacudia a água do capote «alertando» os seus estados de alma (*), o BdeP empurrava com a barriga para frente tentando gerir as pressões do DDT, o governo lavava as mãos, porque quem tinha de lidar com o assunto era (de facto) o supervisor.

Se as «instituições» funcionaram mal e tardiamente, o que funcionou e fez cair o GES? Afora as inúmeras fraudes e ilegalidades várias, coisa que só por si no Portugal dos Pequeninos não seria dramática, foram essencialmente duas grossas asneiras do DDT, resultantes provavelmente de uma certa soberba e megalomania, geradas por décadas de impunidade.

A primeira asneira foi o DDT ter tentado controlar sem sucesso o grupo Imprensa através da tropa de choque da Ongoing, Nuno Vasconcelos e Rafael Mora, a respeito dos quais Armando Vara, o amigo do animal feroz, foi escutado a explicar ao seu amigo Oliveira que quem se mete com a Ongoing «não sabe com quem se meteu (porque Nuno Vasconcelos e Rafael Mora) … não têm quaisquer escrúpulos». Meteu-se com o Dr. Balsemão (na sua juventude conhecido como o Chico dos Porsches) e meteu a vara no vespeiro do Expresso onde criou uma dúzia de inimigos de estimação que nunca mais tiraram os olhos da roupa suja do GES. Nem mesmo os muitos milhões que gastou a comprar páginas inteiras de publicidade (3 a 4 em cada edição) apaziguaram as coisas. Seria só uma questão de tempo e de oportunidade. Apesar de ter escrito por linhas tortas, o Expresso escreveu a direito e, devemos reconhecê-lo, muitos outros jornais provavelmente venderam mais barato o silêncio e até a benevolência.

A segunda asneira foi o DDT ter-se metido com o PQP (Pedro Queiroz Pereira, um tipo teso, antigo campeão de ralis) tentando controlar a Portucel para lhe aplicar a receita da PT – desnatá-la para financiar o buraco negro do GES. PQP acelerou a fundo e reuniu uma soma de informações suficiente para o BdeP sentir obrigação de fazer alguma coisa, pouca, diga-se. E mais do que suficiente para o Expresso começar a encher várias páginas dos números seguintes, até hoje.

A partir daí a sorte do GES ficou escrita.

(*) Segundo relato do Expresso, a PwC cessou unilateralmente em 2002 a auditoria do BES por razões oficialmente não reveladas que o Expresso atribui a terem sido identificadas situações irregulares de que a PwC pretendeu dissociar-se.

ARTIGO DEFUNTO: Ignorância e preconceito

«Famílias pagam 34% da despesa total do país em saúde», foi o título que um misto de ignorância e enviesamento ideológico levou o Público a prantar numa notícia, a propósito dos 35 anos da criação do Serviço Nacional de Saúde, para descrever a seguinte situação: a despesa total em saúde é paga pelas famílias (por quem mais poderia ser? o papa Francisco? o Kremlin?), sendo cerca de 1/3 pago directamente pelas famílias que usam os serviços privados de saúde e cerca de 2/3, correspondentes aos serviços prestados pelo SNS, suportados pelos impostos pagos por todas as famílias, quer usem ou não o SNS.

15/09/2014

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (94) – nepotismo puro e duro (II)

Depois da condenação do gangue da «Face Oculta», temos uma outra condenação (de uma espécie de gangue das fotocópias) a 3 anos e 6 meses, ainda que com pena suspensa, da ex-ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues que contratou de 2005 a 2007 João Pedroso, advogado, dirigente do PS, irmão de Paulo Pedroso o ex-ministro do Trabalho de Guterres. Contratou-o duas vezes para fazer o mesmo manual de direito da Educação, nunca acabado, e pagou pela segunda vez uma tença mensal de 20 mil euros mensais, mais de 13 vezes superior à primeira. O resultado foram umas dezenas de pastas com fotocópias cujo custo total ultrapassou 300 mil euros.

Resultado ao intervalo: Justiça 2 – PS 0.

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: Here we go again (5)

Confirmando as tendências recentes do comércio internacional de bens, nos 3 meses de Maio a Julho o aumento das exportações reduziu-se para 1,5% em relação ao período homólogo de 2013 e as importações aumentaram de 4,9%. Resultado: degradação de 427 milhões de euros do défice com redução de 2,7% da taxa de cobertura. (fonte: Destaque de Julho do INE)


Não é preciso procurar muito para encontrar a causa principal da degradação. O aumento das importações na rubrica Material de Transporte e Acessórios foi de 422 milhões de euros, quase exactamente o aumento do défice.




Quando se vê a tendência dos saldos negativos da balança comercial (bens e serviços) desde 1996 e se constata que rondaram em média os 10 mil milhões de euros (dos quais em média 15 mil milhões correspondentes a bens), percebe-se que são esses défices acumulados que geraram uma das maiores dívidas ao exterior em todo o mundo. E percebe-se que as melhorias iniciadas em 2011 que culminaram com um superavit de quase 3 mil milhões em 2013 (salvo erro, o segundo ou terceiro em mais de um século) estão em vias de se esfumar.

E se houvesse dúvida, os dados do Eurostat divulgados esta manhã confirmam que nos primeiros 7 meses o défice comercial foi o quarto percentualmente mais elevado na UE, atingindo 5 mil milhões de euros. Em apenas 7 meses foi invertida a recuperação das contas externas dos últimos 3 anos.

Se a isto adicionarmos um ano de eleições e um provável governo socialista hipotecado a promessas irresponsáveis, iremos ter saudades de troika e podemos começar a preparar o seu regresso.

14/09/2014

NÓS VISTOS POR ELES: Não é barato mas sai caro

Como se sabe, o sistema educativo português é: muito bom segundo os professores e poderia ser excelente se fossem recrutados mais professores e aumentados os salários; bom para o governo e poderá ser muito bom depois da próxima reforma; foi bom enquanto a oposição foi governo mas está a degradar-se; não é grande coisa, é caro e demasiado exigente para os pais.

Para a GEMS Education Solutions, no Efficiency Index Report (citado aqui pela Economist) que compara resultados com custos, o sistema educativo português é pouco eficiente e Portugal é o 7.º menos eficiente dos 30 países da OCDE.


Como prémio de consolação, o sistema português é um pouco mais eficiente do que o alemão o qual é, contudo, claramente mais eficaz (score PISA 2012 em matemática 514 contra 487). Ou seja o carro alemão anda mais depressa mas consome mais combustível, o que não faz do carro português um carro frugal. De facto, Portugal está meio da tabela (13.º) em matéria salarial (salários a PPC) é o país da OCDE com menos alunos por professor (7,6 contra 16,5 da Finlândia, que tem o sistema de ensino mais eficiente e um dos mais eficazes).