Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

27/09/2016

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Coisas que outros escreveram sobre Costa, as quais, por isso, já não precisam de ser escritas (31)

Outras coisas que outros escreveram.

Na 5.ª feira passada durante o debate parlamentar António Costa definiu o que para ele seria uma «sociedade decente» nos seguintes termos:
«é uma sociedade onde cada um contribui para o bem comum de acordo com as suas capacidades, e cada um recebe de acordo com as suas necessidades»
Por alguma razão, porventura um curto-circuito nas suas sinapses atafulhadas de ideias mal assimiladas e pior arrumadas, mas mais provavelmente pela necessidade de pagar tributo a comunistas e bloquistas dos quais depende, Costa usou quase ipsis verbis a definição de Karl Marx de uma sociedade comunista.

Sobre este episódio, remeto para o que escreveu José Manuel Fernandes, sobre o enquadramento histórico, e para o artigo pedagógico de João Carlos Espada que explica o significado da escolha de Costa, de onde respigo a passagem seguinte:

«Observemos a frase de Karl Marx. Se as pessoas devem contribuir de acordo com as suas capacidades e receber de acordo com as suas necessidades, isso implica que alguém terá de deter o poder para determinar as capacidades de cada um e o poder para determinar as necessidades de cada um.

Sabemos qual foi a resposta prática fornecida pelo comunismo e pelo nacional-socialismo a esta questão: esse alguém é o Estado. Mas, este não é sequer o problema mais fundo. Podia, por hipótese, não ser o Estado. Podia ser o “colectivo” — que era em rigor o que Marx tinha em mente naquela frase. E, também em bom rigor, o poder absoluto que o nazismo e o comunismo deram ao Estado foi dado em nome do “colectivo” — a “Nação”, no caso do nazismo, o “proletariado”, no caso do marxismo (o Terceiro Estado, no caso da revolução francesa)

Lembrando que este episódio se segue à declaração de Mortágua sobre a espoliação dos «ricos», a partir de agora só se engana quem quer ser enganado.

A maldição da tabuada (34) - Não saber a tabuada nunca foi uma desculpa para errar as contas (III)

Episódios anteriores (I) e (II)

Ainda outra oportunidade, ao nosso dispor ainda em vida de El-Rei Dom Filipe II "O Pio", para superar a maldição da tabuada foi a calculadora «Bones».


A «Bones» foi inventada em 1617 por John Napier, um matemático escocês, que se inspirou num sistema de multiplicação de matriz popularizado pelo matemático otomano Nasuh. O zingarelho de Napier podia fazer as 4 operações básicas e ainda extrair raízes quadradas e seria certamente muito apreciado pelo Doutor Centeno para as suas previsões de crescimento do PIB, que por falta de um zingarelho adequado deram o que estão a dar.

26/09/2016

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Sobre o (ig)nobel Stiglitz

«O americano Joseph Stiglitz, economista e Nobel do ramo, elogia portugueses, gregos e espanhóis por, cito o DN, "terem melhores noções de economia do que a troika" e derrotarem nas urnas "os governos defensores da austeridade depois de 2008".

Em primeiro lugar, convém explicar ao homem que, Grécia discutivelmente à parte, Portugal elegeu um governo alegadamente "austeritário" em 2011 - e, descontadas moscambilhas parlamentares, voltou a elegê-lo em 2015 -, e a Espanha continua, na medida do possível, sob um governo do PP. Em segundo lugar, acredito que portugueses, gregos, espanhóis, guatemaltecos e curdos tenham melhores noções de economia do que o sr. Stiglitz.

Em 2007, este portento andava por Caracas a prever a irreversibilidade do "sustentável" (sic) crescimento local, a admirar o nível de vida vigente e a declarar irrelevante a elevada inflação. Em 2016, enquanto vende utilíssimos conselhos ao Sul, assegura ainda que a Alemanha está aqui, está na miséria.

Para a semana, aposto que o sr. Stiglitz vai anunciar que a Irlanda, que cresceu 26% em 2015, não sai da cepa torta. Esperem lá: já anunciou, em Janeiro passado. Ou seja, em economia, história, actualidades e no que calha, o sr. Stiglitz é bem capaz de ser o indivíduo mais à nora e menos esclarecido do mundo. Aparentemente, o homem só é óptimo a esconder de uns tantos a sua prodigiosa incompetência. E isso, sim, merecia um Nobel

Alberto Gonçalves no DN

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (50)

Outras avarias da geringonça.

É difícil de acreditar. Até o consumo que era a poção mágica da geringonça para o crescimento parece estar a cair de acordo com a  Síntese Económica de Conjuntura do INE. Do investimento nem vale a pena falar, continua a diminuir desde Abril de 2015 (quando o governo PSD-CDS começou a preparar as eleições...).

É claro que a estimativas de crescimento do PIB só podem ser revistas em baixa. De acordo com as previsões do painel de economistas da Bloomberg voltaram a diminuir: de 1,2% para 1% em 2016 e de 1,5% para 1,2% em 2017. Recorde-se que o crescimento de 2016 foi sucessivamente previsto pelo PS em 2,4% (documento dos 12), 2,1% (geringonça 1.0) e 1,8% (geringonça 2.0).

25/09/2016

SERVIÇO PÚBLICO: o défice de memória (18)

Por razões que não será preciso explicar aos leitores atentos, vou retomar esta série de posts iniciada em Novembro de 2009, nos tempos do saudoso par José Sócrates-Teixeira dos Santos, com as metas e previsões do défices do OE 2016. Aqui ficam os links para uma retrospectiva: (1 em 05-11-2009), (2 em 26-11-2009), (3 em 27-01-2010), (4 em 01-02-2010), (5 em 17-05-2010), (6 em 28-10-2010), (7 em 09-01-2011), (8 em 31-03-2011), (9 em 24-04-2011), (10 em 26-04-2011), (11 em 30-04-2011), (12 em 04-07-2011), (13 - 03-10-2011), (14 em 29-11-2012), (15 em 13-11-2015), (16 em 11-02-2016) e (17 em 12-02-2016).

Síntese até 20-06-2016


26-07-2016 - «o défice orçamental ajustado da sazonalidade do primeiro trimestre de 2016  (...) o défice português foi de 0,8% do PIB, metade da média da zona euro que foi de 1,6%».

25-08-2016 - «a recapitalização da Caixa Geral de Depósitos (CGD) é “uma boa solução” e que “não atinge défice nenhum”» (António Costa)

31-08-2016 - «O défice de 2016 ficará “confortavelmente abaixo de 2,5%”» (António Costa)

01-09-2016 - «Pela primeira vez nesta década a meta orçamental do défice para 2016 será cumprida» (Ana Catarina Mendes)

20-09-2016 - «O secretário de Estado Adjunto do Tesouro das Finanças, Ricardo Mourinho Félix, admitiu esta terça-feira que o gabinete europeu de estatística, Eurostat, venha a considerar a injeção de capital público na Caixa Geral de Depósitos (CGD) no défice deste ano»

23-09-2016 - «Mário Centeno afirmou hoje que a execução orçamental de 2016 está “no bom caminho”, havendo uma “redução muito significativa” do défice face ao ano anterior, o que constitui um fator de credibilidade da economia portuguesa (...) após o Instituto Nacional de Estatística (INE) ter estimado que no primeiro semestre deste ano o défice das administrações públicas foi de 2,8% do Produto Interno Bruto (PIB) – uma diminuição face aos 4,6% registados no período homólogo.»

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (47) O clube dos incréus reforçou-se (XII)

Outras marteladas.

Depois da inesperada entrada da OCDE para o clube dos cépticos nas propriedades milagrosas do alívio quantitativo (ver este post), também o FMI no «Overview of the ECB’s Asset Purchase Program» publicado no IMF Country Report No. 16/301 manifesta uma grande falta de entusiasmo quanto aos resultados do Asset Purchase Program (APP) em Portugal que se terão limitado ao crédito para habitação e pouco ou nenhum impacto tiveram no investimento devido ao elevado nível do crédito empresarial malparado. Ora leia-se:

«The impact of the APP (Asset Purchase Program) is most clearly visible in the fiscal sector, where it has alleviated financing constraints and facilitated a slower pace of fiscal adjustment than had been envisaged previously. The APP, together with the ECB’s expanded refinancing operations, has similarly helped improve access to financing for banks and put downward pressure on lending rates, but transmission to lending appears constrained by the high level of NPLs (Non-Performing Loans). The impact on bank lending appears to have been primarily on household mortgages, where NPLs are relatively modest, with corporate lending continuing to contract. As a result, the macroeconomic effect thus far appears most evident on consumption, rather than investment, with little impact on headline growth.»

24/09/2016

A maldição da tabuada (33) - Não saber a tabuada nunca foi uma desculpa para errar as contas (II)

Episódio anterior (I)

Outra oportunidade ao longo da nossa história para superar a maldição da tabuada foi o «Sector» abaixo reproduzido.



O «Sector» supõe-se ter sido inventado por Galileo Galilei nos finais do século XVI e permitia realizar um certo número de operações matemáticas para fins militares. Quem diz militares diz para afinar o tiro e quem diz afinar o tiro diz afinar os défices orçamentais para evitar dar tiros nos pés. Este zingarelho teria feito as delícias do Dr. Teixeira dos Santos para calcular o défice de 2009 que começou por ser 2,2% e acabou em 10%.

23/09/2016

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (46) O clube dos incréus reforçou-se (XI)

Outras marteladas.

O clube dos cépticos nas propriedades milagrosas do alívio quantitativo acabou de ter ganhar um novo membro de peso. Nada menos do que a OCDE que acaba de publicar no Interim Economic Outlook, um «Global growth warning: weak trade, financial distortions» de onde respigo a seguinte passagem expressando a falta de fé nas políticas monetárias dos bancos centrais:

«Monetary policy is overburdened and, in the absence of strong fiscal and structural policy action, will not suffice to break out of the low-growth trap, while leading to growing financial distortions and risks. Current market-based expectations suggest that policy interest rates will remain zero or negative at least until end-2018 in the euro area and Japan and in the United States only slightlyhigher than at present. With past and current purchases of government bonds, central banks have become major holders and buyers of sovereign debt and are intervening in a wide range of other markets, including for corporate bonds and equities. The uneven policy response across countries and over-reliance on monetary policy adds to global imbalances and creates spillovers that can have disruptive effects on other countries through capital flows and build-up of financial risks.

Preparemo-nos, pois, para a emergência de um novo credo que receio seja também baseado nos supostos poderes miraculosos dos bancos centrais a manipularem o preço e a quantidade de dinheiro.

A maldição da tabuada (32) - Não saber a tabuada nunca foi uma desculpa para errar as contas (I)

O (Im)pertinências tem sustentado que os problemas com as contas, públicas e privadas, que afectam políticos, economistas, jornalistas e até, imagine-se, contabilistas, resultam da nossa falta de vocação para os números, sobre cuja origem aqui especulei. Falta de vocação que as luminárias que se têm dedicado a instruir a população nas últimas décadas pensaram superar eliminando a tabuada. Por isso lhe temos chamado a maldição da tabuada.


Acontece que essa falta de vocação não pode ser alibi para errar as contas pelo menos desde que existem dispositivos de cálculo. Ou seja desde 2.700 AC quando foi inventado na Mesopotâmia o ábaco, um zingarelho como o acima reproduzido. Nos próximos posts vou tentar demonstrar que, ainda que tivéssemos falhado o ábaco, tivemos muitas outras oportunidades ao longo da nossa história para superar a maldição da tabuada.

22/09/2016

Exemplos do costume (45) – As indignações selectivas (III)

Continuação de (I) e (II)

Ainda a propósito da transformação de Durão Barroso em bête noire da esquerdalhada e de alguns dos seus ocasionais compagnons de route (hoje a mão está a fugir-me para o francês, et pour cause) a pretexto da sua contratação pelo Goldman Sachs, é curioso registar que um dos detractores mais inflamados tem sido o Jean-Claude, o do comportamento «crescentemente errático». Juncker fez um intervalo nas suas palhaçadas e aproveitou a transformação de Barroso em bombo-da-festa embarcando na malhação com declarações que devem mais à demagogia do que a um sentido de Estado que uma criatura na sua posição deveria ter.

Antes de continuar, devo esclarecer que considero a decisão de Barroso mais imprudente do que eticamente questionável, porque ainda ninguém me explicou em que consistem concretamente os conflitos de interesse e quais os argumentos para a demonização da Golden Sachs que não são aplicáveis a uma dúzia de outros grandes bancos franceses, suíços, alemães e, claro, americanos.

Acontece que, além da demonstração da falta de sentido de Estado, as declarações de Juncker carecem de qualquer autoridade moral para censurar Barroso, e já agora, a Irlanda pela sua política fiscal, para quem como ele foi durante 18 anos primeiro-ministro de Luxemburgo e aprovou centenas de acordos fiscais secretos com multinacionais de vários países que lhes permitiam a evasão fiscal noutros países.

Recordo os «Luxembourg tax files», tornados públicos há 2 anos, a pretexto de mais um caso agora conhecido: a Comissão Europeia está a investigar um acordo fiscal entre Luxemburgo e a Engie, uma empresa francesa de energia, que lhe permitia evitar o imposto tratando transacções financeiras como dívida num país e capital em outro.

Carta de quem trabalha desde os 16 anos a quem tem o seu rabito pousado no Parlamento e quer tributar quem só dá um beijinho

Pousando «o seu rabito no Parlamento»
Notícias relacionadas:

«E é graças a eles TODOS que a Mariana, sem mérito algum, pousa o seu rabito no Parlamento. Porque não fossem eles, não haveria salário para nenhum de vós, que a bem dizer, é um desperdício. O país não precisa de parasitas que estudam meios para conseguir roubar mais a quem os sustenta. Precisa sim de gente como nós, mais ou menos “abastados” que produz, que investe, que cria postos de trabalho.
 (Carta de Cristina Miranda, antiga professora, de Viana do Castelo, publicada no Facebook e lida aqui)

«Mariana Mortágua quer investigar todas as pessoas que só dão 1 beijinho. Mariana Mortágua, a nova ministra das Finanças, está apostada em tributar mais impostos aos mais ricos em Portugal e apresentou um novo critério muito mais eficaz que a mera posse de património avultado.» (Piadas ao minuto)

21/09/2016

NÓS VISTOS POR ELES: Eles lá saberão porquê

«Portugal é bom para a vida amorosa mas não para trabalhar, dizem estrangeiros»

Segundo o estudo Expart Insider 2016, Portugal é o 5.º melhor em 67 países para manter uma relação amorosa. Para trabalhar também ficamos em 5.º lugar mas a contar do fim.

Lost in translation (278) – O que quer ele significar com a Rússia como exemplo de uma sociedade multicultural?

«Segundo a Sputnik (*), o candidato à liderança da ONU afirmou que a Rússia é um bom exemplo de construção de uma sociedade multicultural, com diversas nações a viverem juntas em paz.» (Fonte)

(*) Uma das agências noticiosas russas que funciona como câmara de eco do putinismo.

Comprar o voto do czar Vladimiro com manteiga rançosa não parece ser um obstáculo moral para o católico Guterres. É a realpolitik para fins pessoais.