Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

22/07/2014

O (IM)PERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: Os ricos não têm dinheiro suficiente para pagar a crise

Lido no Expresso (aqui):

«[…] soubemos recentemente que uma parte significativa da riqueza do país está nas mãos de apenas 1% da população. Aponta-se para uma concentração de cerca de 25% da riqueza nacional, nos ditos 1%, qualquer coisa como 41.250 milhões de euros, com um PIB de 165 mil milhões de euros.»

Vou passar por cima do «recentemente» e do facto da frase, tal como está escrita, confundir fluxo com stock, riqueza com produto.

Um quadro sobre a repartição das remunerações médias mensais pelos escalões mais altos mostra os dados seguintes:


Vamos a umas contas.

Considerando que existem em Portugal 10.406.967 habitantes (Pordata) e que a família média portuguesa é composta por 2,6 pessoas (INE), existem 4.002.680 famílias.

O último escalão do quadro (99,9999%) corresponde a 4 famílias a ganharem (em 2009) € 173.155 por mês. Ou seja, esses sacanas custam ao país € 701.089 por mês em salários que de certeza não merecem pois sabemos que só quem ganha € 500 por mês merece um salário. A minha sugestão é mandar o bando dos 4 para Ekaterinenburg num comboio de gado e fuzilá-los. Dividiríamos depois a fortuna que eles roubam pelas 4.002.676 restantes famílias. Distribuiríamos assim 18 cêntimos por mês a cada família.

Bem, se calhar não é exactamente o que eu esperava. Vamos então alargar o leque para os 99,9%. Ou seja vamos considerar que os 0,1% das famílias que ganham mais (€ 9,768 em 2009, cerca de € 4.500 líquidos por mês, um insulto) mereceriam umas férias forçadas em Ekaterinenburg com direito a enterro grátis. Aí sim, já resolvíamos tudo. As restantes 3.998.677 famílias passariam receber mais € 9,78 por mês.

Faríamos quase 4 milhões de famílias felizes, expurgaríamos a nossa sociedade de 4.000 famílias parasitas e o país daria um passo em direcção à igualdade.

Por que é que não percebem que o problema da nossa pequeneza não está nos escalões à direita, mas sim nos míseros € 165.000.000.000?

AB.

21/07/2014

ESTADO DE SÍTIO: «Um dilúvio de palavras num deserto de ideias»


Se em vez de um jornalismo de causas dominante, tivéssemos um jornalismo profissional e independente, se o PS tivesse, em vez de gente ansiosa por uma sinecura, militantes e simpatizantes medianamente inteligentes e razoavelmente autónomos, se Portugal tivesse, em vez do peso desmesurado de analfabetos funcionais, uma opinião pública esclarecida:
  1. A entrevista do Público a António Costa de ontem teria sido uma certidão de óbito e não um manifesto eleitoral recheado de lugares comuns e de contradições - «um dilúvio de palavras num deserto de ideias»; 
  2. Os socialistas começariam já a procurar um líder alternativo ao secretário-geral eleito e ao putativo secretário-geral ungido por Mário Soares, os artistas, a «intelligentsia» corporativa e as câmaras-de-eco do regime;
  3. António Costa teria perdido com aquela entrevista quaisquer hipóteses de vir a ser primeiro-ministro.

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: O berloquismo que restará depois da emigração para PS

« O ódio aos ricos? Os líderes de Gaza passeiam-se em aviões de luxo e apascentam fortunas em contas offshore. Os direitos LGBT? Em Gaza a homossexualidade é punida por lei e os seus praticantes fogem da tortura rumo a uma certa nação vizinha. A igualdade de género? A islamização do território reduz as mulheres a um pechisbeque silencioso e reprodutivo. A violência doméstica? Calcula-se que mais de metade das mulheres locais sejam espancadas pelos maridos pelo menos uma vez por ano - tradicional e recatadamente. E há as restrições às artes e à internet. O racismo oficial. A imposição violenta da "virtude". As conversões forçadas de cristãos. E, numa prática que o BE lamentará não se usar por cá, o fuzilamento de dissidentes. 

Sob o verniz da trupe burlesca e as mesuras progressistas para consumo dos simples, o BE, o que parte e o que resta, é essencialmente isto: criaturas avessas à democracia que usam o sistema democrático para ganhar a vida. Darmo-nos ao trabalho de as distinguir é tão inútil quanto perguntar-lhes porque é que a indignação que Gaza lhes suscita não se estende à Síria ou ao Egipto. Ou porque é que só nas recentes implosões eleitorais descobriram intolerante um partido que nunca foi outra coisa. Ou porque é que, em suma, se confere relevância pública a declarados ou dissimulados inimigos do público.»

Sob o verniz da trupe burlesca e as mesuras progressistas para consumo dos simples, o BE, o que parte e o que resta, é essencialmente isto: criaturas avessas à democracia que usam o sistema democrático para ganhar a vida. Darmo-nos ao trabalho de as distinguir é tão inútil quanto perguntar-lhes porque é que a indignação que Gaza lhes suscita não se estende à Síria ou ao Egipto. Ou porque é que só nas recentes implosões eleitorais descobriram intolerante um partido que nunca foi outra coisa. Ou porque é que, em suma, se confere relevância pública a declarados ou dissimulados inimigos do público
»

Alberto Gonçalves na sua crónica no DN

Dúvidas (45) – Pergunta retórica de João Galamba

«Como é possível que o caso Espírito Santo tenha surgido depois de três anos de troika?», pergunta retoricamente o jovem turco socratista João Galamba no seu manifesto no Económico.

É uma boa pergunta, à qual poderia adicionar outras mais pertinentes a respeito do mesmo e de outros casos, tais como:

  • Como foi possível o caso Espírito Santo depois de um mandato de Vítor Constâncio de 9 anos até 2009? 
  • Como foi possível o caso Espírito Santo depois de Teixeira dos Santos ter garantido durante 6 anos o estado de saúde da banca portuguesa? 
  • Como foi possível a nacionalização do BPN - que Galamba sorrateiramente tenta subtrair das responsabilidades da dupla Sócrates-Teixeira dos Santos - que era para não custar nada e o nada vai já em 7 mil milhões?

20/07/2014

Lost in translation (208) - «viveza criolla» em argentino é esperteza saloia

A Economist estabeleceu um paralelo entre as atitudes do jogador uruguaio Luiz Suárez que mordeu um italiano durante o jogo Uruguai-Itália e a do seu presidente José Mujica que a desculpou como uma brincadeira infantil, por um lado, e, por outro, as práticas políticas dos seus vizinhos argentinos que chamam a estas atitudes «viveza criolla» - o equivalente à nossa esperteza saloia.

«In colluding with Mr Suárez’s violation of the laws of football, the often sensible Mr Mujica was indulging in a practice that is far more common across the River Plate in Argentina than it is in law-abiding Uruguay: the exercise of a kind of teenage narcissism in which it is fine to break rules you don’t like, in the belief that you will get away with it. And if you don’t, well, it’s unfair because the world is against you. There is an Argentine term that captures at least part of this mindset: viveza criolla, or “native cunning”.

Viveza criolla has been a hallmark of Argentine economic policy under both President Cristina Fernández de Kirchner and her late husband and predecessor, Néstor Kirchner. The notion that Argentina could play by its own rules, rather than by those of economics or the rest of the world, was symbolised in the government’s denial of the inflationary impact of its expansionary policies by fiddling the consumer-price index. Meanwhile, the Kirchners heaped blame on the IMF for all the country’s problems

Ler o resto do artigo aqui.

TRIVIALIDADES: A Deutschland Mannschaft não deu só 7 ao Brasil…

... também deu um campo de futebol a Santa Cruz Cabrália na Baía e uma ambulância para os índios.

19/07/2014

Mitos (174) – Os citadinos são mais felizes, particularmente os de grandes cidades e, entre eles, os nova-iorquinos

Segundo tudo indica, esta é mais uma lenda desmentida pelos factos - ao menos nos EU. Segundo um estudo de Edward Glaeser, Joshua Gottlieb e Oren Ziv, os habitantes de NY são os mais infelizes à frente de todas cidades e as 5 cidades mais felizes com Lafayette à cabeça situam-se na Louisiana. Sem surpresa encontramos também Detroit no grupo das 10 menos felizes. Entre a infelizes encontramos ainda S. Francisco, Las Vegas, Los Angeles, Filadélfia, Boston, Seattle e Chicago, poe exemplo.

Como se pode visualizar no mapa seguinte, os estados mais felizes são os do interior de predominância rural e os mais infelizes são os mais urbanizados e, outro mito, a Califórnia não é exactamente o paraíso na terra a este respeito.

Fonte: WSJ


Votar Obama tornará os eleitores infelizes ou os eleitores infelizes preferem Obama?


Fonte: PoliticalMaps.org



18/07/2014

CASE STUDY: Um minotauro espera a PT no labirinto da Oi (13)

[Outras esperas do minotauro: (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10), (11) e (12)]

Como repetidamente se escreveu no (Im)pertinências, a venda da Vivo em troca da parceria com a Oi foi um desastre para a PT e para o país. Foi o desastre que já se viu, o desastre que se está a ver e o que ainda se há-de ver.

Se quisermos um indicador das proporções do desastre que já se viu para a PT basta comparar a capitalização bolsista por alturas da OPA da Sonae – inviabilizada pela associação espúria entre o governo socialista de José Sócrates e o GES – e a actual. Pelo caminho ficaram quase 10 mil milhões de euros ou mais de 80% do valor da PT há 6 anos.

O desastre que se está a ver é apenas a continuação por outros meios das consequências da instrumentalização da PT pelo GES: compra pelo menos desde 2012 de papel comercial de empresas para adiar o reconhecimento da falência de empresas tecnicamente falidas do GES no valor de milhares de milhões de euros. Consequências que a Oi e os interesses igualmente espúrios que nela se acoitam não hesitaram em aproveitar para forçar a renegociação da participação da PT na CorpCo que resultará da fusão, a qual foi reduzida de 38% para 25,6%.

Às famílias do GES, e em especial a Ricardo Salgado, temos assim de imputar não apenas as responsabilidades pela falência do seu grupo, pelos danos reputacionais ao BES, pelo agravamento dos riscos do sistema financeiro português, pelos danos à economia portuguesa, mas ainda em particular pelos danos causados ao valor e à reputação da que em tempos terá sido a empresa portuguesa mais internacional e mais prestigiada.

E temos igualmente de imputar responsabilidades aos múltiplos factótuns que serviram os interesses do GES e muito em particular a Francisco Granadeiro com os seus despachos das quartas-feiras no gabinete de Ricardo Salgado.

17/07/2014

Lost in translation (207) – «Não corporativo», disse ela

Os advogados manifestaram-se à frente do parlamento protestando contra a reforma judiciária e o fecho de tribunais. A bastonária que recebeu o bastão do Dr. Marinho e Pinto infligiu a seguinte bastonada ao jornalista de causas do Expresso «foi o maior protesto de cidadania não corporativo de que tenho memória».

É interessante verificar, mais uma vez, que as corporações se travestem de associações cívicas  lutando por causas nobres e objectivos generosos para disfarçar a defesa dos seus interesses corporativos: os médicos juram lutar pelo SNS e os advogados pelo que chamam o «acesso à justiça» que consistiria em polvilhar com tribunais (e, claro, gabinetes de advogados) as mais remotas e desabitadas freguesias do país.

16/07/2014

ESTADO DE SÍTIO: O putativo substituto faz o ponto da situação

Vale a pena ler a entrevista ao Público de Fernando Medina para se perceber como António Costa se esteve a preparar na presidência da Câmara de Lisboa para primeiro-ministro. Alguns excertos como appetiser:

"a alienação de activos será a estratégia prioritária para dar resposta à questão da dívida e para “tentar reganhar capacidade de investimento”.

"a situação financeira ... é sólida, mas comporta riscos, elementos futuros que têm de ser geridos e acautelados”.

"neste momento o serviço da dívida tem riscos de subida" a alienação de activos é “a forma de mais rapidamente de se gerir a situação da dívida”, pelo que será a estratégia a adoptar o passivo da câmara aumentou de 2012 para 2013. “É inequívoco que contabilisticamente aumentou. É verdade que invertemos o ciclo da descida”.