Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

01/08/2015

DIÁRIO DE BORDO: Herr Schäuble tem razão, mas o mais importante não é a razão dele


Possivelmente vai ser mais um pretexto para vilipendiar Wolfgang Schäuble, o ministro das Finanças da Alemanha. No entanto, Schäuble uma vez mais tem razão ao defender que Comissão Europeia não deveria ter um papel político mas apenas de enforcement da legislação europeia e de supervisão das regras do mercado interno.

Na verdade, a CE é um órgão não eleito cujos membros são nomeados em resultado de cozinhados entre os países dominantes da EU e que tendem a prosseguir os próprios seus interesses como corporação, empurrando os Estados para uma «construção europeia» que dá sentido aos seus lugares e brilho aos seus egos, Construção que tem sido um processo com contradições que foram sendo resolvidas com uma espécie de abordagem maoísta de grandes saltos em frente.

E chegamos assim ao que verdadeiramente interessa e que possivelmente Wolfgang Schäuble, um europeísta convicto («le dernier européen» du cabinet Merkel, palavras de Jürgen Habermas), terá dificuldade em reconhecer. A construção europeia cada vez mais se revela uma perigosa utopia que no passado foi sendo enfiada pela garganta dos eleitorados à custa do lubrificante da ilusão de eterna e crescente prosperidade e do complexo de culpa alemão. Estando a crescente prosperidade comprometida no horizonte visível e em dissipação o complexo de culpa alemão (afinal só os alemães vivos com mais de 90 anos podem ter algum), ganha cada vez mais peso a realidade de 28 países com histórias, culturas e línguas diferentes que no passado se guerrearam frequentemente entre si, com níveis de desenvolvimento muito diferentes.

Essa realidade é incompatível com um Estado único como a história tem demonstrado e ainda mais incompatível com l'air du temps das autonomias e independências - nos últimos 35 anos a União Soviética desintegrou-se em 15 Estados, a Checoeslováquia e Jugoslávia deram origem a 7 Estados e na Espanha várias regiões e no Reino Unido a Escócia querem a sua independência.

31/07/2015

ESTADO DE SÍTIO: Um passo atrás, dois passos à frente disse Alexis Ulianov Tsipras


Depois de 5 meses de evasivas a dar o dito pelo não dito, se os 17 da zona euro ainda tivessem um resíduo de confiança no governo grego ter-se-ia evaporado ao saberem que o primeiro-ministro garantiu aos restantes membros do Syriza que as cedências à troika foram um «recuo táctico», depois de ter dito que o terceiro resgate era «a receita errada».

Para ser perceber como funciona a cabeça de um comunista, reciclado ou não, é indispensável não esquecer que ele não vê os seus interlocutores da UE como parceiros numa comunidade de que a Grécia faz parte. Para Tsipras eles são apenas fantoches ao serviço da burguesia dos respectivos países aos quais é perfeitamente legítimo iludir ou mentir ou vitimizar (tudo por uma boa causa) para lhes extorquir dinheiro ou concessões. That’s it.

ARTIGO DEFUNTO: A dificuldade congénita de distinguir fluxos e stocks

Se eu comparasse o património da minha empregada doméstica - proprietária de uma moradia – com o meu rendimento anual, concluindo que é mais rica do que eu, o que diriam os leitores do (Im)pertinências? Diriam provavelmente o mesmo que eu pensei do jornalista do Público que escreveu:
«Parte significativa da riqueza nacional é controlada pelos 25 mais ricos de Portugal. (...) A riqueza deste grupo ascende a 14,7 mil milhões de euros (14,3 mil milhões em 2014), o que equivale a 8,5% do Produto Interno Bruto português de 2014.»

Chávez & Chávez, Sucessores (32) – O alívio quantitativo na versão socialista modalidade bolivariana

A máquina do banco central da Venezuela continua a imprimir bolívares a todo o vapor para financiar um défice pletórico. Ao câmbio oficial o dólar vale 6,3 bolívares com os quais no mercado paralelo se compra um cêntimo de dólar. Em consequência, estima-se que a inflação em 2015 ultrapassará 200% - em alternativa a falsificar os dados, como o governo de Kirchner na Argentina, o governo de Maduro deixou de publicá-los.

Com o equivalente a um dólar seria possível comprar 33 kg de farinha de milho ao preço oficial se porventura algum supermercado a vendesse e após várias horas numa bicha. Com o mesmo valor é porém possível encher 140 vezes o depósito de um carro familiar aos preços subsidiados e vender o combustível na fronteira com a Colômbia por 5 mil vezes mais – um negócio florescente que é mais exemplo de como o socialismo é bom para o mercado negro.

Quando um dia o chávismo colapsar deixará a Venezuela de rastos por várias gerações.

[Fonte: Crackers in Caracas]

Mitos (209) - O contrário do dogma do aquecimento global (IX)

Continuação de (I), (II), (III), (IV), (V), (VI), (VII) e (VIII).

Se, como se sabe, as grandes mudanças climáticas se deram no passado sem nenhuma (ou pouco relevante) intervenção humana porque diabo nos estamos a concentrar exclusivamente na acção humana como único driver dessas mudanças no futuro? Por exemplo, até que ponto os efeitos de uma grande erupção vulcânica, como as que aconteceram várias vezes no passado, não anulará numa década os efeitos das emissões ligadas a actividades humanas no aquecimento global (supondo que este existe de forma sustentada)?

«Volcanic eruptions contribute to climate variability, but quantifying these contributions has been limited by inconsis- tencies in the timing of atmospheric volcanic aerosol loading determined from ice cores and subsequent cooling from climate proxies such as tree rings. Here we resolve these inconsistencies and show that large eruptions in the tropics and high latitudes were primary drivers of interannual-to-decadal temperature variability in the Northern Hemisphere during the past 2,500 years. Our results are based on new records of atmospheric aerosol loading developed from high-resolution, multi-parameter measurements from an array of Greenland and Antarctic ice cores as well as distinctive age markers to constrain chronologies. Overall, cooling was proportional to the magnitude of volcanic forcing and persisted for up to ten years after some of the largest eruptive episodes. Our revised timescale more firmly implicates volcanic eruptions as catalysts in the major sixth-century pandemics, famines, and socioeconomic disruptions in Eurasia and Mesoamerica while allowing multi-millennium quantification of climate response to volcanic forcing.»

Continuar a ler «Timing and climate forcing of volcanic eruptions for the past 2,500 year» na Nature

30/07/2015

Dúvidas (113) – Uma deserção do campo keynesiano ou simples realismo?

«O que me parece impossível é continuarmos a pensar nas despesas públicas como motor do crescimento económico. Isso acabou. Porque já chegaram a um nível, as despesas, os impostos, a dívida, todas essas coisas, simplesmente aumentar a despesa pública dá um efeito imediato de alguma melhoria, mas é um efeito imediato, como já verificamos largamente no passado.»

Teodora Cardoso, presidente do Conselho das Finanças Públicas, em entrevista ao Económico

O tigre celta, o tareco lusitano e o Garfield helénico. Os felinos são todos iguais mas há uns mais iguais do que outros

[Sequela de (1), por sua vez sequela de O rugido do tigre vs o miado do gato, de (2), de (3) e de (4)]


«O Banco Central Irlandês reviu em alta o crescimento da economia irlandesa, prevendo que o Produto Interno Bruto (PIB) cresça 4,2% em 2015, mais 0,5 pontos do que a estimativa de Abril.»

«A pouco mais de dois meses das legislativas, o Governo desiste de mexer nas pensões em pagamento e opta por uma redução nas pensões futuras.»

«Atenas impôs um preço máximo para alguns consumíveis vendidos em locais públicos como aeroportos, estações, 'ferrys', hospitais ou escolas para compensar em parte a subida de 10 pontos percentuais do IVA.»


Os PIGS também são todos iguais mas há uns mais pigs do que outros.

NÓS VISTOS POR ELES: O anti-Grécia

«Despite years of economic gloom and noisy complaints against austerity, Portugal is headed for elections in October with just about the least-radicalized politics in the eurozone.

The October 4 parliamentary vote looks set to be a straight fight between the governing center-right coalition of Prime Minister Pedro Passos Coelho and the center-left Socialist Party led by former Lisbon mayor António Costa.

Latest polls give the Socialists an edge with over 35 percent of the vote, but the government coalition is barely a couple of points behind.

There is no sign of a surge for leftist firebrands in the mold of Greece’s Syriza party or Spain’s Podemos.

The old-school Portuguese Communist Party (PCP) polls at around 10 percent, little changed from its score in the last elections, in 2011. Syriza wannabes in the Left Bloc are struggling to match the 5 percent they picked up four years ago. And far-right parties simply don’t make it onto Portugal’s political radar

«The anti-Greece - Why Portugal’s election won't produce Tsipras 2.0.», Politico

29/07/2015

DIÁRIO DE BORDO: Eu também agradeço…

«Queria agradecer a Augusto Santos Silva. Bem haja por nos recordar como se pode ser manipulador nos argumentos e rasteiro na linguagem. Por nos lembrar como isso foi regra nos seus anos de socratismo.»

José Manuel Fernandes, no Observador

… e aproveito para lembrar o que foi a manipulação dos mídia durante os governos do Partido Socialista, em particular quando o seu Chefe foi o preso 44 (ler uma retrospectiva em «O robô e a máquina de propaganda» de José António Saraiva).

Bons exemplos (101) - Blatter & Putin, a mesma luta

Fonte: jornal i

BREIQUINGUE NIUZ: Desacreditado até para os padrões helénicos

A confirmar a falta de crédito de Varoufakis, até para as exigências mínimas que são os padrões helénicos, «o Supremo Tribunal de Justiça grego pediu ao parlamento o levantamento da imunidade do ex-ministro das Finanças ... e o Procurador-Geral da República grego está também a pensar abrir um processo contra Varoufakis depois de ter sido divulgada a gravação de uma conversa em que o ex-ministro admite que tinha preparado um plano B secreto para voltar ao dracma e que terá designado um amigo de infância do seu ministério para o ajudar a levar o seu plano em frente, copiando as passwords dos contribuintes gregos.» (Económico)

Ficaria agradecido se alguém me explicasse como foi possível um sujeito deste quilate ter posto o jornalismo de causas doméstico e internacional a salivar de excitação e colocado luminárias de toda a esquerda em postura de reverência. Deve ser a doutrina Somoza em acção.

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: De como o melhor que pode acontecer ao paraíso prometido aos gregos pelo Syriza é ser um purgatório (XXXIV) – Highjacking and hacking

Outros purgatórios a caminho dos infernos.

Provavelmente picada pelos comentários de Paul Krugman, que reconheceu ter «sobrestimado a competência do governo grego», entre outras razões por não ter um plano alternativo, a vaidade doentia de Yanis Varoufakis levou-o a admitir ter um plano B de transição do euro para a dracma usando os bancos como um sistema paralelo de pagamentos. O «Statement by the Office of Yanis Varoufakis» publicado na 2.ª feira é uma peça de teoria da conspiração dificilmente superável – registe-se que quem preparava há meses um plano de abandono do euro tem a desfaçatez de se queixar de «forces at work within the Eurozone to have Greece expelled from the euro».

Segundo o jornal ekathimerini, «In a teleconference call (that ook place on July 16 more than a week after Varoufakis left his post as finance minister) with members of international hedge funds that was allegedly coordinated by former British Chancellor of the Exchequer Norman Lamont, Varoufakis claimed to have been given the okay by Tsipras last December – a month before general elections that brought SYRIZA to power – to plan a payment system that could operate in euros but which could be changed into drachmas “overnight” if necessary, Kathimerini understands. … The plan would involve hijacking the AFMs of taxpayers and corporations by hacking into General Secretariat of Public Revenues website, Varoufakis told his interlocutors. This would allow the creation of a parallel system that could operate if banks were forced to close and which would allow payments to be made between third parties and the state and could eventually lead to the creation of a parallel banking system, he said.»

É certo que Varoufakis desmentiu a parte que está demonstrada em gravações da teleconferência, mas que crédito se pode dar a uma criatura deste jaez?

O caso grego é uma ilustração perfeita das leis de Murphy. Por exemplo esta: se alguma coisa pode dar errado, dará. E dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível. Pergunto-me como é possível um Estado pária capturado por esta e outra gente do mesmo quilate permanecer na União Europeia, uma união talvez inviável até com Estados normais?

28/07/2015

Bons exemplos (100) - Fuga de Absolom

«Metade da equipa masculina de hóquei cubana, que competia nos Jogos Pan Americanos, em Toronto, fugiu para os Estados Unidos … quatro remadores a desaparecerem na semana passada, incluindo o vencedor de uma medalha de prata.» (Fonte)

Se fosse antes do restabelecimento das relações diplomáticas teriam sido todos?

Dúvidas (112) – O que qualificará a(o) Júlia(o) para ser deputada(o)?

«Júlia Pereira poderá ser a primeira deputada transexual a sentar-se num dos lugares da Assembleia da República, após ter sido colocada na lista candidata às legislativas pelo Bloco de Esquerda de Setúbal, e num lugar onde é possível ser eleita.» (Fonte)

Era uma Júlia que virou Júlio ou era um Júlio que virou Júlia?

Se é por ser transexual, não deveríamos ter também candidatos assexuais, ou de sexo mutante, ou esquizofrénicos, ou paranóicos, ou bipolares, ou obsessivos-compulsivos?

[Não precisam de me dizer. Sei que também sou diferente. Sou um porco sexista.]

CASE STUDY: Um imenso Portugal (13)

«Christiano, menino de uma favela do Rio, foi fotografado ao lado de Lula, em 2008, como ilustração de um programa de ajuda a comunidades carentes. De então para cá, deixou de estudar e viciou-se em crack.»

«Jovem símbolo da era Lula morre de overdose aos 15 anos» é o título do DN que, graças às investigações do caso «Lava Jato», à possível acusação do ex-presidente Lula (sem esquecer as ramificações com o Caso Marquês que envolve o preso 44) e ao estado calamitoso em que o PT está a deixar o Brasil, poderia ser substituído com propriedade por «O símbolo e a era morrem de overdose».

ESTÓRIA E MORAL: Nicolau, Passos e o argueiro

Estória

Como é sabido dos leitores habituais do (Im)pertinências, Nicolau Santos, um dos mais notórios pastorinhos da economia dos amanhãs que cantam, é também um dos nossos jornalistas de causas preferidos. Não nos poupamos a relevar os suas inúmeras produções teóricas (por exemplo, no inesquecível caso Baptista da Silva) e a sua proverbial independência. Ficamos agora obrigados a fazê-lo outra vez, depois da leitura do Expresso Curto de 2.ª feira – uma imitação barata do Espresso da Economist  – onde Nicolau se atira a Passos Coelho pelas suas «mudanças de posição». Não, não é engano, ele escreve mesmo sobre Passos Coelho e não sobre Costa, por muito que os mal-intencionados associem o Futuro Ministro de Portugal à expressão «mudanças de posição».

Se, por um lado, Nicolau Santos aponta as «mudanças de posição», por outro a sua independência não o impede de sublinhar que Coelho «até agora deu qualquer sinal de que vai alterar um milímetro que seja as políticas que tem vindo a seguir». De onde, como disseram, «Einstein, ou Benjamin Franklin, ou Rita Mae Brown (é escolher porque não há a certeza de quem a disse), “fazer todos os dias as mesmas coisas e esperar resultados diferentes é a maior prova de insanidade”».

Não posso estar mais de acordo e se Nicolau dá o exemplo de Passos, eu dou o exemplo de Nicolau que, esperando resultados diferentes das mesmas coisas, anda há 4 anos a zurzir Passos por não adoptar as políticas de Sócrates, as quais, segundo ele, nos salvariam do calvário da austeridade, mas que, segundo vários outros onde me incluo, nos conduziram à bancarrota que nos trouxe o calvário.

Moral

«Ver um argueiro no olho do vizinho e não ver uma tranca no seu

27/07/2015

Paineleiros escolhidos a dedo


Não ver noticiários, entrevistas ou comentários políticos na televisão, supondo ser possível distinguir uns de outros, priva-me de descortinar o deus ex-machina por trás dessas encenações. Como foi o caso, percebo agora ao ler os posts (este e este) de Helena Matos no Blasfémias, da montagem do painel de perguntadores na entrevista a Passos Coelho. Faziam parte do painel um ex-dirigente da Juventude Berloquista, um jornalista estagiário da TVI e um advogado consultor de Jorge Sampaio durante 10 anos - compare-se com o painel de que desfrutou o ungido Costa.

Imagine-se quando o futuro primeiro ministro de Portugal for entronizado e o PS ocupar ao governo com as mãozinhas mais próximas dos cordelinhos, a impunidade e o silêncio cúmplice que os mídia infestados de esquerdalhada lhe garantem.

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Coisas que outros escreveram sobre Costa, as quais, por isso, já não precisam de ser escritas (19)

Outras coisas: «Para mim Costa não é um mistério», «Coisas que outros escreveram sobre Costa, as quais...»

«Sobre Sócrates, o dr. Costa começou tipicamente por avaliar mal o "sentimento" popular e defender com tremeliques de orgulho as proezas do preso 44 enquanto primeiro-ministro. Uma bela manhã até desceu a Évora. Meses depois, numa exibição de objectividade sem precedentes, o dr. Costa criticou um governo de que ele próprio fez parte e jurou, sem jurar, não repetir a excursão alentejana.

Sobre o Syriza, o dr. Costa já disse tudo e o seu oposto, de acordo com o que tomou pelo clima do momento. Qualquer hipotético avanço dos maluquinhos que fingem mandar na Grécia tinha o dr. Costa, dez minutos decorridos, a erguê-los ao estatuto de farol da Europa. Em vinte minutos, os avanços recuavam estrategicamente e a apreciação do dr. Costa também: uma ocasião, apelidou o Syriza de "tonto". Mas isso foi antes do referendo, em que o Syriza voltou a ser sublime. E o referendo foi antes do acordo, em que o glamour do Syriza regressou a níveis da peste bubónica.

Nos intervalos dos Grandes Temas, o dr. Costa desdobrou-se a opinar acerca de temas minúsculos, naquele português de causar inveja a Jorge Jesus e sempre no lado errado do discernimento: o "investimento" público (promete muito), a austeridade (é uma péssima opção), a autonomia dos autarcas (quer reforçá-la), a "lusofonia" (acha-a linda). Nos intervalos dos intervalos, passeou o currículo democrático e arranjou uma guerra interna com as "bases" do PS, que consultaram as sondagens e desataram a questionar a infalibilidade do chefe. As cambalhotas em volta dos (inacreditáveis) candidatos presidenciais não ajudaram. Nem os abraços aos socialistas franceses que, afinal, conspiram para varrer Portugal do euro. Nem nada.

Resta apurar se a tendência para a calamidade é involuntária ou propositada. A verdade é que o dr. Costa conseguiu, em pouco tempo, renovar as esperanças eleitorais da coligação no poder. Um tiro no pé do Governo é invariavelmente seguido por uma explosão auto-infligida no porta-aviões do PS. Se o PS perder as eleições, o mérito será inteirinho do dr. Costa. Se ganhar, é Portugal que não merece melhor. E pior parece impossível

«Costa e castigo», ALBERTO GONÇALVES no DN

Embora seja difícil, pior não é impossível. Sabemos isso desde que o Major Edward Alvar Murphy Jr. o disse.

ESTADO DE SÍTIO: Bismarck, o Twitter e a alcoolemia

Já aqui recordei que Otto von Bismarck comparou um dia a feitura das leis ao fabrico de salsichas: quando menos se souber como são feitas, melhor. Se Otto fosse vivo olharia incrédulo, dar-lhe-ia um chilique e voltaria a correr para a tumba, porque não apenas a feitura das leis, com que já poucos se incomodam, também as negociações ao mais elevado nível são twittadas online pelos participantes e divulgados documentos e relatos tintim por tintim dos detalhes das reuniões, quem disse o quê e até gravações.

Recentemente, durante a saga do teatro grego iniciada com a vitória do Syriza, as prestações narcisísticas de Yanis Varoufakis elevaram a comédia mediática a um nível nunca antes alcançado. Isso já seria suficientemente mau se tivesse ficado confinado aos actores que representam esse Estado falhado. Não ficou, e pudemos assistir à competição entre quase todos os participantes nas reuniões da Eurozona pela hashtag mais popular, no caso das novas gerações, ou pelas orelhas dos jornalistas, no caso dos cromos.

Um dos casos mais ridículos, pela idade e pela experiência, de conversão a estas patetices é o de Jean-Claude Juncker que além do seu «chaotic management style, (and) rumours of an alcohol problem», e talvez por isso mesmo, se tem mostrado incapaz de conter as suas palhaçadas (exemplo: beliscar e beijar as bochechas de Tsipras) e a sua verborreia indiscreta, comentando o que supostamente se passa nas reuniões e puxando o lustro ao seu já lustroso ego, deixando implícito que com ele tudo foi melhor ou sem ele tudo seria pior. Vejam-se as suas revelações sobre o suposto desejo dos governos da Irlanda, Portugal e Espanha só discutirem o perdão parcial da dívida grega depois das suas eleições, como se ele não fosse o presidente da CE e não existisse o artigo 125.º do Tratado de Lisboa.

26/07/2015

SERVIÇO PÚBLICO: As pirâmides do estado napoleónico-estalinista (16)

[Retrospectiva das Otas dos otários]

Expresso de 25-07-2015
O Partido Socialista, promotor de resmas de estudos demonstrando sem margem para dúvidas o esgotamento da capacidade da Portela entre 2003 e 2007 (versão de 1998 do secretário de estado dos Transportes do governo de Guterres do qual fazia parte o actual líder António Costa) ou o mais tardar em 2020 (versão do Negócios de 2010), tornando o Novo Aeroporto, primeiro na Ota depois em jamais Alcochete, um desígnio nacional sem o qual o país regressaria à Idade das Trevas, não tem nada a dizer sobre as conclusões do secretário de Estado de Passos Coelho?

A maldição da tabuada (24) - A população residente segundo o jornalismo de referência

Expresso de 25-07-2015
Estima-se que no ano passado tenham entrado em Portugal 9,3 milhões de turistas estrangeiros. Segundo o INE a população residente em 2014 era 10,4 milhões, número que, segundo o Courrier, ficará reduzido em 2015 a 1,1 milhões = 10,4 - 9,3 milhões. Todos aqueles problemas de engarrafamentos, encontrar um lugar para estacionar, conseguir um ticket para um concerto e outros que nos afligem ficarão resolvidos. O Senhor seja louvado.