Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
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Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

31/10/2014

AVALIAÇÃO CONTÍNUA Contra a corrente e ao arrepio do rebanho

Secção Still crazy after all these years

«Repetir que Portugal tem de reduzir despesa corrente (salários do Estado e prestações sociais) a um ano de eleições é algo que nunca vi nenhum primeiro-ministro fazer. Clap! Clap! Clap!» escreveu Camilo Lourenço no artigo «Passos Coelho é uma surpresa. Positiva!» na sua coluna no Negócios.

Independentemente de se concordar com o que escreveu Camilo Lourenço (concordo no essencial), deve reconhecer-se que um jornalista profissional ter escrito tal artigo num país onde a preguiça mental e a cobardia para dissidir do rebanho levam a maioria a zurzir na classe política («there is no such thing as political class», poderia ter dito Margaret Tatcher), como se os políticos fossem todos iguais, e em especial quando exerce a profissão num meio onde predominam missionários brandindo a vulgata da esquerdalhada mostra uma louvável coragem e independência de espírito.

Cinco afonsos para Camilo Lourenço.

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (3) – Para onde tem escorrido a liquidez injectada pelos bancos centrais?

[Outras marteladas (1) e (2)]

Já em diversas ocasiões sublinhei as consequências indesejadas que podem resultar (e no passado resultaram) de colocar a impressora dos bancos centrais a funcionar para «aditivar» a economia. Agora a coisa chama-se quantitative easing mas a lógica é a mesma.


Também já apontei os indícios dos danos colaterais das políticas do dinheiro abundante e barato que começam a ser visíveis onde essas políticas foram mais longe: Estados Unidos e Reino Unido. E começam a ser visíveis precisamente nos sectores onde a bolha implodiu em 2008.

Leia-se a este respeito o que escreve Simon Baptist, Chief Economist da Economist, na sua newsletter desta semana que reflecte bem o quanto ele gostaria de ter o melhor de dois mundos, o sol na eira e a chuva no nabal e o receio de ter chuva na eira e sol no nabal:

«House prices are occupying the minds of many central bankers right now, not to mention those of potential buyers. Property has undoubtedly been one place where all this liquidity from central banks has been going: the last few years have seen strong price growth in many markets, including Japan, the US, the UK, Australia, the UAE and China among many others. This price growth has tempered in recent months in a lot of places, with the pace of growth slowing in the UAE and prices even falling (slightly) in the UK. It's not all good news for those worried about bubbles though—house price growth is accelerating in Australia, where worries about a property price bubble are a key reason why interest rates aren't coming down, despite low inflation. A sudden or sizable fall in house prices would doom the already fragile recovery, as consumers would tighten their belts again

Sublinho: «Property has undoubtedly been one place where all this liquidity from central banks has been going».

Também e sobretudo do outro lado do Atlântico aparentemente nada foi esquecido nem aprendido a respeito da alavancagem que a Fannie Mae e o Freddie Mac introduziram no crédito subprime (a respeito destas «government sponsored enterprises» e do seu papel na crise ver este post de 2009). Vejamos agora o que se está a passar nos EU, segundo a Economist (que, contudo, recomenda a medicina):

«This week a consortium of federal agencies also announced new standards that would permit banks to securitise and sell mortgages without retaining a 5% stake - leaving them little incentive to maintain high lending standards. In 2011 these agencies had suggested that such securities should only include mortgages with a minimum deposit of 20% and monthly repayments of no more than 35% of the borrower’s income. In the end they raised the loan-to-income ratio to 43% and dropped the minimum deposit entirely. The reason for the weaker standard, they said, was the concern that “additional constraints on mortgage-credit availability” might “disproportionately affect LMI (low-to-moderate-income), minority or first-time homebuyers.” Whether the lack of constraints might disproportionately affect taxpayers, the regulators did not say».

Qual será o resultado de a Fannie Mae e o Freddie Macos bancos «ressegurarem» 100% das hipotecas dos bancos? Quem disse que desta vez vai ser diferente?

30/10/2014

Dúvidas (55) – Porque será?

A Comissão parlamentar de inquérito ao caso Espírito Santo aprovou a audição de 119 nomes. Surpreendentemente, na lista de convocados encontram-se mais ministros do actual governo do que dos dois governos de José Sócrates que mais «negócios» fizeram com o GES. O Chefe, o amigo de Paris, não foi convocado.

SERVIÇO PÚBLICO: A misteriosa falta do crédito às empresas (2)

Há dois anos neste post concluía que a misteriosa falta do crédito às empresas resultava de vários factores, sendo um deles o estado de falência das empresas públicas com capitais próprios negativos que sugam o pouco dinheiro disponível dos bancos que preferem emprestar-lhes com garantia do Estado a apostar em empresas viáveis. Nessa altura foi estimado em 20 mil milhões o capital necessário para injectar nas empresas públicas e amortizar os seus passivos bancários.

Dois anos passados com um governo «neoliberal», segundo a irónica classificação da esquerdalhada doméstica, o endividamento total já vai em 35 mil milhões. Os campeões continuam mais ou menos os mesmos: Parpública 8,4 mil milhões, REFER 7,2 mil milhões, CP 3,8 mil milhões, Metro do Porto 3,2 mil milhões, Estradas de Portugal 3,2 mil milhões, Parque Escolar 1,1 mil milhões, Carris 777 milhões. Nem tudo piorou porque as empresas públicas não financeiras melhoraram os resultados de 2012 para 2013 em quase 900 milhões de euros.

Aqui fica a lista completa:

Fonte: Sector Empresarial do Estado – Relatório 2014, Direcção Geral do Tesouro e Finanças

Registe-se que, do total de 35 mil milhões, cerca de 20 mil milhões integram a dívida pública nas contas nacionais e representam quase 10% da dívida total.

29/10/2014

Encalhados numa ruga do contínuo espaço-tempo (25) - O animal feroz está de volta. Dêem-lhe uma medalha

Em consequência da entronização de Costa como líder do PS, com apoios bastante vocais de várias tralhas que sobrevivem no PS, nomeadamente da tralha socrática, começam a surgir indícios do resgate em marcha de José Sócrates, como parte do branqueamento dos 6 anos de governo em que arrastou o país para a bancarrota.

A eloquência da linguagem gestual
Primeiro foi a homenagem com entrega da chave da Covilhã (espera-se que esta chave não sirva para abrir o cofre da câmara). Depois foi a vez de um ajudante num dos governos de Sócrates anunciar que iria escrever uma carta ao PR a exigir uma medalha para o Chefe. Last but not least o poeta Alegre também escreveu uma carta exigir o mesmo.

Declaração de desinteresse: depois das centenas de medalhas que foram dadas a centenas de medalhados com obra irrelevante para o país, acho justíssimo darem uma medalha a José Sócrates pela sua obra que perdurará durante gerações.

BREIQUINGUE NIUZ: À atenção da Comissão Europeia – aproveitem enquanto não chega o Costa

«A Comissão Europeia anunciou ontem que nenhum Estado-membro tem nesta altura um orçamento que viole de forma grave as regras europeias. A nota enviada às redacções deixa perceber que França e Itália estavam nessa situação, mas depois de, na segunda-feira, apresentarem poupanças adicionais, fugiram ao chumbo iminente.» (Económico)

Ó Comissão Europeia esperem até Outubro do ano que vem e vão ver a diferença entre encostar às tábuas um Vals ou Renzi e pressionar um leão como o Costa que nos exercícios de aquecimento como líder sindical já está a liderar as câmaras da região de Lisboa na luta pelas 35 horas e os deputados na luta contra a homofobia e transfobia.

28/10/2014

Dúvidas (54) – A mutualização da dívida que é boa na Europa é má em Portugal?

«Vários municípios do país, quase todos governados pelo PS, contestam o Fundo de Apoio Municipal, que é um fundo de ajuda a municípios com problemas financeiros (habitualmente associados a excesso de endividamento). Entre as autarquias contestatárias está Lisboa, governada por Fernando Medina.

Os argumentos contra esta mutualização das consequências da irresponsabilidade financeira parecem decalcados do argumentário alemão contra a mutualização das dívidas europeias.»

João Miranda, no Blasfémias

Dúvidas (53) – Quando há fundadas dúvidas se há algo para dizer, o pior que se pode fazer é começar a falar e acabar com as dúvidas

Em si mesmo, usar o argumento que um governo não está a aproveitar os fundos comunitários, isto é a usar o dinheiro dos contribuintes nacionais para extorquir mais dinheiro aos contribuintes dos outros países da UE para aplicar em projectos escolhidos por gente que nunca investiu um cêntimo do seu dinheiro, nem mesmo qualquer outro dinheiro privado, é muito revelador do que se passa numa mente que imagina poderem os governos dar melhor destino ao dinheiro dos empresários e dos consumidores do que os próprios dariam se esse dinheiro não lhes tivesse sido extorquido.

É claro que, se falarmos de um país com o culto do Estado patronal, paternal e clientelar, a coisa fia mais fino e tudo isso parece natural. Vamos então considerar o contexto em que o Dr. António Costa, o putativo futuro primeiro-ministro, disse o que disse a este respeito à TVI no sábado passado (vídeo e resumo aqui) e exonerá-lo daquele vício de raciocínio.

Considerado o referido contexto, tudo indica que o Dr. António Costa disse asneira, meteu os pés pelas mãos, «leu o mapa errado» da proposta de OE 2015 e viu uma redução onde se prevê um aumento de 40% e colocou-se a jeito para um incógnito secretário de Estado lhe puxar as orelhas.

Oxalá esteja enganado (e digo oxalá porque se a criatura, que é do género socialista, vier a governar Portugal prefiro que seja bom no género mau do que mau no mesmo género), mas receio que as fundadas dúvidas sobre se os seus silêncios entremeados com paleio redondo resultavam de não ter nada para dizer possam acabar em certezas.

27/10/2014

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Um jornalista bom no género mau pode vir a fazer o upgrade para o género bom

Secção Com a verdade me enganas


Já por diversas vezes [(1), (2) e (3)] fiz apreciações negativas de Ricardo Costa, apesar de o considerar um dos melhores jornalistas no mercado das causas. Com alguma surpresa, li o seu editorial do Expresso de sábado passado onde se distancia da «vaga de fundo», para usar uma expressão parva, da antecipação das eleições que se move no lago do jornalismo de causas e dos opinion dealers, vaga que o ungido António Costa, por acaso o seu irmão, pretende surfar.

Por acaso, ou talvez não, Ricardo Costa também se distancia do bota-abaixismo a Durão Barroso prevalecente nos opinativos – desde logo o inefável Miguel Sousa Tavares que derrama numa das páginas seguintes um dos seus ódios de estimação para compensar a inacreditável veneração por José Sócrates. Costa faz um balanço relativamente equilibrado dos dois mandatos, apenas se perdendo quando critica o «inconseguimento», para usar uma palavra parva, como se Barroso pudesse ter sido uma espécie de Obama da União Europeia.

Desta vez leva três afonsos por se ter disposto a contrariar a doutrina Somoza.

SERVIÇO PÚBLICO: Os estressados

«Aggregate report on the comprehensive assessment» October 2014, European Central Bank

26/10/2014

SERVIÇO PÚBLICO: Um albergue de clientelas e interesses

«É sintomático que os três partidos que têm governado Portugal desde o 25 de Abril tenham a mesma dificuldade quando se trata de reformar o Estado. A razão é muito simples: este Estado foi construído por eles e reflete aquilo que têm de comum, a mesma visão de um Estado paternalista, de um Estado patrão, de um Estado burocrático, de um Estado que alberga, no sentido literal da palavra, as clientelas e os interesses das respetivas bases de apoio.

É por isso que a reforma do Estado se resume ao mesmo de sempre: uma interminável discussão sobre cortes, uma insustentável balbúrdia institucional, uma vergonhosa querela entre lóbis e interesses instalados. É por tudo isso que chegaremos a 2015 na estaca zero, ou seja, com a mesma despesa corrente que tínhamos em 2010. Longe vão os tempos em que Pedro Passos Coelho, injustamente acusado de liberal, defendia que a despesa deveria situar-se nos 42 por cento do PIB. Se o tivesse conseguido teria libertado quase 4 mil milhões de euros para a economia e, com isso, teria resolvido alguns dos problemas que temos.»

«A Reforma Impossível», Luís Marques, no Expresso

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (96) - «na comunicação social, não há pior»

Pergunta: «Já disse inúmeras vezes que, no que toca ao poder imiscuir-se na comunicação social, não há pior do que o PS. Porquê?»

Resposta de Joaquim Letria: «Disse e digo. … Quando ganharam as eleições perguntei se queriam que parasse com o programa (Cobras e Lagartos) e disseram-me que não. E depois fazem aquilo. … e havia ordens para nem me deixarem entrar na RDP. … Não sei quem foi, se foi ele (Jorge Coelho), o Sócrates… Eles eram os peões de brega.»

Entrevista da revista Tabu a Joaquim Letria

Pro memoria (204) – A avaliação da «obra feita» segundo a doutrina Somoza

Imaginemos como seria venerado um Barroso no final de dois 2 mandatos como presidente da CE, durante os quais a União se alargou de 15 para 28 membros e atravessou a maior crise depois da II Guerra Mundial, se esse Barroso fosse um destacado membro do Partido Socialista. (*)

Imaginemos como seria vilipendiado um Costa, candidato a primeiro-ministro, depois de dois mandatos como presidente da CML durante os quais manteve um aparelho paquidérmico com quase dez mil trabalhadores - proporcionalmente mais do dobro de Madrid ou Barcelona -, uma dívida pletórica apesar da injecção de 286 milhões - proporcionalmente 80% mais do que a dívida do Porto - e realizou uns arremedos de reformas, nomeadamente a extinção do departamento de obras de infra-estrutura e saneamento da CML responsável pela manutenção preventiva dos colectores, com os resultados conhecidos, …


e a transferência de 850 trabalhadores da limpeza para as juntas de freguesia, com os resultados igualmente conhecidos…


… se esse Costa fosse um destacado membro do PSD.

[Doutrina Somoza: ver o Glossário]

(*) Em tempo: no dia seguinte a ter escrito este post, João Carlos Espada, que não é de todo um apparatchik ao serviço de uma causa ou de um partido, escreveu um artigo de opinião «Parabéns, Durão Barroso», no Público, onde trata com independência e objectividade «um dos mais intrigantes fenómenos da atmosfera política e cultural nacional é a indiferença, quando não a aberta hostilidade, da nossa opinião publicada relativamente à presidência da Comissão Europeia pelo cidadão português José Manuel Durão Barroso

25/10/2014

Ressabiados do regime (11) - O facto de uma luminária não ter um pingo de sentido de humor não faz dela uma pessoa intelectualmente séria

O Pacheco Pereira que há 7 meses defendeu com fervor «o manifesto dos 70 signatários a pretexto da reestruturação da dívida, uma posição expressa em termos prudentes e moderados por um vasto grupo de pessoas qualificadas, quase todas também prudentes e moderadas ... não tendo assinado ... apenas por incúria ... em responder a tempo ao convite ... feito» e que há anos tece laudas semanalmente ao ungido do regime António Costa no «Quadratura do Círculo» (com um ar de criador embevecido com a sua criatura) é o mesmo Pacheco Pereira que guardou um prudente prudente silêncio quando o mesmo Costa deixou cair tudo do manifesto - a renegociação, a reestruturação, o haircut e a mutualização - e ficou a com audição pública?

Não deve ser o mesmo Pacheco Pereira. Se fosse, teria mostrado uma nota de cobrança embrulhada no seu verbo abundante, como a nota mais parca de verbo do jornalista João Garcia do Expresso: «Para já, é António Costa que fica em dívida. Esperava-se que pagasse a eleição oferecendo soluções». A dívida de António Costa aos seus prosélitos e aos seus padrinhos arrisca-se a ultrapassar a dívida do Estado Socialista.

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Os líderes políticos não são pagos para nos fazerem felizes mas para nos dizerem as verdades


«Despite what voters will tell opinion pollsters, they want more from their leaders than to have their own opinions repeated back at them. A great leader is one who is at least willing to try to sell a hard and unpopular message that is in the country's best interests.»

Simon Baptist, Chief Economist and Asia Regional Director, The Economist/Intelligence Unit