Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

27/02/2015

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: De como o melhor que pode acontecer ao paraíso prometido aos gregos pelo Syriza é ser um purgatório (IX) – o ministro das Finanças Gregas não tem perdão

Outros purgatórios a caminho dos infernos.

Como que a provar, uma vez mais, que se as coisas correm mal nada impede que possam correr pior, assim como quando se fazem asneiras não se aprende necessariamente com elas e pode-se sempre fazer outras, Yanis Varoufakis, o ministro das Finanças Gregas (não, não é um lapso), voltou a cantar a mesma canção do perdão da dívida que já não constava do lista que ele próprio assinou, irritando Wolfgang Schäuble, o ministro alemão das Finanças, numa altura em que estava a tentar persuadir dos deputados do seu próprio partido a votarem o prolongamento do programa da Grécia.

Por falar em perdão da dívida, não está demonstrado que a Grécia não possa pagar a sua dívida (ver por exemplo o artigo do WSL «Greece Can Pay Its Debts in Full, but It Won’t»), o que parece indiscutível é que este governo fará tudo para não a pagar e não é muito provável que os gregos consigam vir a ter, não apenas um governo, uma sequência de governos nas próximas décadas capacitados para o fazer - ver diagrama.

Fonte: WSL
Se o governo grego está cada vez mais desacreditado nas «instituições» europeias, também as famílias e as empresas não parecem ter grandes expectativas. Em Janeiro foram levantados 12,5 mil milhões de euros dos quais mais de 70% por particulares.

Entretanto, o governo Tsipras-Anel começa a provar do seu próprio veneno nas ruas. A manifestação de ontem foi provavelmente apenas um primeiro ensaio por parte de alguns dos grupúsculos que compõem o saco de gatos do Syriza.

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (21) – O mito da deflação (IV)

Outras marteladas.

Esta semana Janet Yellen, a presidente da Fed, foi duas vezes ao Congresso americano passar a mensagem que o aumento das taxas de juro, embora possível, não estaria eminente, apesar do crescimento robusto da economia nos últimos trimestres e do ritmo de criação de novos empregos. Tudo porque a inflação voltou a cair em Janeiro para 0,8% abaixo, portanto, dos sacrossantos 2%, objectivo da Fed. Porquê 2%? Porque não 1% ou 3% ou 4%?

E, olhando para o gráfico seguinte, a inflação subjacente não é hoje muito diferente do que era na véspera do desmoronar da construção criada com a receita de Alan Greenspan de reduções de taxa e de injecções de liquidez, ao mesmo tempo que alertava para a «exuberância irracional» que a Fed alimentava, nos anos que precederam a crise de 2008.

E qual é a surpresa por a inflação global estar a descer com os preços os combustíveis em queda, a produtividade a aumentar, os preços dos produtos importados da Europa a cairem pela desvalorização do euro, etc.?

Fonte: The Economist
À conta do combate ao papão da deflação, a Fed continua a soprar as bolhas nos mercados imobiliário e de capitais e a introduzir enviesamentos nas decisões com taxas de juro evanescentes que levarão a investir em projectos inviáveis a taxas de juro de mercado, seja lá o que isso for.

E, indo mais ao fundo da coisa, qual é o racional dos bancos centrais fixaram as taxas de juro, isto é a renda para o aluguer do dinheiro, e os governos (já) não fixarem (por enquanto?) a renda para aluguer das casas?

Lost in translation (228) - Liquidez? Qual liquidez? Verão? Qual Verão?

Continuação daqui.

Há duas semanas o ministro da Economia Grega, Giorgos Stathakis, garantia ao Wall Street Journal que o governo não esperava problemas de liquidez antes do Verão.

O Verão este ano deve ter chegado mais cedo porque o ministro das Finanças Yanis Varoufakis disse na rádio grega, citado pela Reuters, que «definitivamente teremos um problema em pagar agora ao FMI».

26/02/2015

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (103) - Apagar o passado no Rato

«Muitos dirigentes do PS, incluindo António Costa, têm criticado o governo por não estar ao lado da Grécia e por seguir a Alemanha. A minha tese é muito simples: o actual executivo tem-se mantido fiel às políticas de todos os governos desde a adesão à Comunidade Europeia, incluindo os de Guterres e de Sócrates; o PS é que se está a afastar do que tem sido a política europeia de Portugal, desde 1986. A História e a política europeia não começou em 2011, com a chegada da “troika”.

(…)

E o governo de Sócrates manteve a tradição de recusar alianças com os periféricos. Entre 2010 e 2011, já estava a “troika” em terras gregas, Sócrates recusou qualquer aproximação à Grécia. Eram os dias em que o PM português fugia do PM grego nos Conselhos Europeus para não aparecerem juntos na fotografia. A “solidariedade” com a Grécia só existe quando os socialistas estão na oposição e não têm de governar. E, tal como Guterres, Sócrates também se aliou a um dos grandes europeus. Sabem com qual deles? Exactamente, com a Alemanha. E com a Alemanha de Merkel.»

O PS perdeu a memória?, João Marques de Almeida no Observador

CASE STUDY: O homem providencial para o Estado Previdência (9)

(Outros feitos do homem providencial)
«Numa união a 28 não é possível prometer um resultado que depende de negociações com várias instituições, múltiplos governos, de orientações diversas.»
António Costa, líder do PS, na conferência da Economist.
Caso não saiba, estamos a falar do mesmo Costa que prometeu
  • o fim da austeridade, 
  • o crescimento da economia, 
  • o aumento do salário mínimo para 522 euros, 
  • repor os salários na função pública, 
  • devolução integral dos cortes dos salários na Função Pública, em 2016, 
  • repor as pensões, 
  • eliminar a sobretaxa do IRS, 
  • investir em investigação e desenvolvimento, 
  • incrementar factores de competitividade empresarial efectivos, 
  • reduzir o IVA na restauração e o IMI, 
  • alterar o Tratado Orçamental, 
  • entre muitas outras promessas que ficaram afogadas no bla bla costista. 
Já agora ver esta infografia da «Agenda para a década».

Entretanto, Costa também disse aos chineses no Casino da Póvoa que agradecia «à China todo o apoio que nos deu» e que Portugal está numa situação «bastante diferente daquela que estava há 4 anos atrás».

Poderá então concluir-se que Costa só fala verdade para os estrangeiros?

Aditamento:
A boa imprensa de Costa conseguiu «manter secretas durante uma semana as declarações de António Costa no Casino da Póvoa».

Encalhados numa ruga do contínuo espaço-tempo (31) - Quem é quem na esquerda folclórica portuguesa

Um guia da revista Visão para saber quem é o Tempo de Avançar, o Livre, o Junto Podemos, o MAS, o Fórum Manifesto, o Manifesto 3D, os Renovadores, o MIC, o MIC Porto, enfim os grupúsculos que de união em união chegarão à desunião final.

Vá já lá agora mesmo, antes que fique desactualizado.

25/02/2015

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: De como o melhor que pode acontecer ao paraíso prometido aos gregos pelo Syriza é ser um purgatório (VIII) – a lista do Yanis não é SMART

Outros purgatórios a caminho dos infernos.

Afinal em que consiste a «first comprehensive list of reform measures it is envisaging, to be further specified and agreed by the end of April 2015» enviada por Yanis Varoufakis ao presidente do Eurogrupo?

Trata-se de um enunciado em 4 páginas A4 com 63 medidas cuja formulação chumba no teste SMART que qualquer estudante de gestão tem obrigação de conhecer. De facto, nenhuma dessas medidas é simultaneamente Specific, Measurable, Achievable, Realistic, Time-Bound, o que desde logo tem uma consequência: a menos que a troika as instituições as especifiquem, tornem verificáveis, atingíveis, realistas e com prazo de aplicação não vai ser possível sequer concluir se foram cumpridas.

Comentando algumas das poucas medidas que se podem considerar verificáveis:
  • Reduzir o número de ministros de 16 para 10 - gostava de ouvir o que tem a dizer sobre isso o PS e a esquerdalhada que tanto criticaram este governo a respeito da redução de ministérios;
  • Manter as privatizações que «tenham sido completadas» - é claramente um recuo do governo Syriza-Anel mas a medida seguinte («rever as privatizações que ainda não tenham sido enunciadas») permite tudo, a menos que a troika ponha ordem na caserna; 
  • «… the ambition to streamline and over time raise minimum wages in a manner that safeguards competiveness and employment prospects» (a formulação desta medida é um case study da treta semântica saída das meninges de um esquerdista) – daqui resulta outro evidente recuo no aumento do salário mínimo, mas fica a porta aberta para os maiores dislates.
Em conclusão, ou bem que a troika converte as 4 páginas de verborreia em algo exequível e verificável que contribua para a consolidação das contas públicas e obrigue aquela gente a fazer as reformas mínimas para tornar a economia grega competitiva, ou bem que a única consequência deste acordo é empurrar o problema com a barriga para a frente até que a barriga bata na parede. Nesse caso, o melhor desfecho será a saída da Grécia mais ou menos controlada da Zona Euro. O pior será o colapso da Zona Euro.

Actualização:

Afinal o enunciado das medidas, ainda que vago, pode não ter sido produzido pelo governo grego mas por um alto funcionário da CE. A ser assim, imagine-se se tivesse sido obra de Varoufakis.
Depois de o Eurogrupo e a CE terem feito o seu papel de polícia bom, et pour cause, estão agora a chegar ao local do crime os polícias maus. O BCE e o FMI avisaram hoje que para avançarem com os fundos que restam do programa de assistência são necessários «clear commitments on tough pensions, VAT, privatisation and labour reforms» (FMI) e porque «the commitments outlined by the authorities differ from existing programme commitments in a number of areas … we will have to assess whether measures are replaced with measures of equal or better quality in terms of achieving the objectives of the programme» (BCE).

Pro memoria (225) – E que tal vendermos o nosso não veto ao prolongamento do programa acordo com a troika as instituições?

Nos idos de 1985 a Grécia mostrava assim o preço da sua solidariedade

Um dia como os outros na vida do estado sucial (22) – Afinal há gente preocupada com a privacidade nas escolas

Apesar das imensas dúvidas quanto à capacidade do ensino público, encalhado nos parâmetros sindicais do Partido Comunista, se adaptar, com esforço ainda consigo perceber a lógica de substituir o chumbo ou reprovação escolar, agora rebaptizado, segundo o processo de reforma semântica em curso (PRSC), de retenção, por uma «espécie de “transição condicionada” – ou seja, o aluno passa, tendo no ano seguinte um apoio suplementar nas disciplinas em que revelou maiores dificuldades».

Ultrapassa-me o propósito de outra das medidas recomendadas pelo Conselho Nacional de Educação: acabar com obrigatoriedade «de afixação pública e obrigatória das pautas com notas individuais e nominais» nas escolas.

Mitos (189) – Mitologia grega (II)

Sempre segundo a esquerdalhada e o jornalismo de causas (simplificadamente, estes são a mão que escreve as teses dos primeiros), as negociações semânticas do Syriza com o Eurogrupo estão a ser um grandioso sucesso.

Quem não vai nessa conversa é Manolis Glezos, eurodeputado do Syriza, um herói da resistência antinazi e ícone do Syriza, que escreve no «Movimento de Cidadãos Activos» o artigo «Antes que seja demasiado tarde»:
«Chamar à troika ‘instituições’, transformar o Memorando de Entendimento em Acordo e tornar os credores ‘parceiros’ modifica tanto a situação em que nos encontramos como passar a chamar carne ao peixe. … Pela minha parte, peço desculpa ao povo grego por ter participado nesta ilusão.»

24/02/2015

BREIQUINGUE NIUZ: Eurogrupo aprovou extensão do programa acordo de assistência

Press-release do Eurogrupo:

«The Eurogroup today discussed the first list of reform measures presented by the Greek authorities, based on the current arrangement, which will be further specified and then agreed with the institutions at the latest by the end of April. The institutions provided us with their first view that they consider this list of measures to be sufficiently comprehensive to be a valid starting point for a successful conclusion of the review.

We therefore agreed to proceed with the national procedures with a view to reaching the final decision on the extension by up to four months of the current Master Financial Assistance Facility Agreement.

We call on the Greek authorities to further develop and broaden the list of reform measures, based on the current arrangement, in close coordination with the institutions in order to allow for a speedy and successful conclusion of the review.»

Glossário:
  • «Current arrangement» = programa de assistência 
  • «Then agreed with the instituitions» = depois de aprovado pela troika 
  • «Successful conclusion of the review» = aprovação pela troika das medidas

Mitos (188) – Mitologia grega (I)

A esquerdalhada e o jornalismo de causas domésticos têm vindo a apontar o dedinho acusatório à ministra das Finanças por, dizem eles, estar a ser na questão Syriza versus Eurogrupo mais papista do que o papa, sendo papa o ministro Shäuble. Maria Luís Albuquerque nega. Se disse o que lhe atribuem, fez mal em não assumir porque ficaria em boa companhia.

O certo é que vários dirigentes políticos da Europa de Leste – dos países que foram ocupados pelo Império Soviético e tendo experimentado as fórmulas da esquerda comunista e bloquista ficaram imunizados - não tiveram papas na língua e deixaram muito claro o que pensavam sobre o assunto:

  • «Ninguém na Europa quer dar dinheiro à Grécia», Robert Fico, primeiro-ministro da Eslováquia 
  • «A zona euro está mais estável e mais forte do que há cinco anos e a hipotética saída de um dos seus membros teria um fraco impacto», Maris Lauri, ministra das Finanças da Estónia
  • «A cooperação com a Grécia só pode ter por base o programa de assistência financeira existente, com condições claras», Janis Reirs, ministro das Finanças da Letónia 
  • «A política de austeridade foi o único remédio para nós e não vejo motivo para os gregos não a aplicarem … o populismo" grego é perigoso para a Europa», Andrius Kubilius, antigo primeiro-ministro da Lituânia.

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (20) Unintended consequences (IV)

Outras marteladas.

Não. Não é só Guan Jianzhong da agência de rating chinesa Dagong que descrê das propriedades miraculosas do alívio quantitativo e prevê «uma nova crise financeira mundial nos próximos anos». Também o Nobel Robert Shiller alerta para esse cenário baseado no cálculo do indicador CAPE (cyclically adjusted price-earnings ratio), por ele construído, cujo valor actual (27,8) ultrapassou o de 2007 antes da crise financeira.

Fonte: The Economist Espresso
E poderia ser outra maneira? Poder, poderia, mas quando o pior pode acontecer, muitas vezes acontece. E, a este respeito, é difícil imaginar pior do que as impressoras dos bancos centrais a todo o vapor alimentando bolhas nos mercados imobiliários americanos e ingleses e nas bolsas, com vários máximos dos índices bolsistas americanos atingidos recentemente (o último na 6.ª feira), as acções japonesas num máximo de 16 anos, as bolsas europeias em máximos de 7 anos e a de Londres prestes a atingir novo recorde.

Depois não se diga que não fomos avisados.

A mentira como política oficial (9) - Agarrem-me senão atiro-me

Cartoon KAL na Economist

«Já todos sabemos o que conseguiu o Syriza: em vez da troika, passou a haver “instituições”; em vez do programa, “acordo”; em vez de credores, “parceiros”; em vez de austeridade, “condições”. Enfim, a transfiguração semântica servirá para muita coisa, mas não chega para esconder que o Syriza enganou os gregos, quando, para ganhar as eleições, prometeu que bastava dar dois berros à Merkel para tudo se tornar fácil. Agora, como todos os mentirosos, resta-lhe continuar a mentir, recorrendo ao delírio verbal consentido pelos seus parceiros europeus para inventar “batalhas ganhas” em guerras perdidas.»

Rui Ramos no Observador

23/02/2015

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: De como o melhor que pode acontecer ao paraíso prometido aos gregos pelo Syriza é ser um purgatório (VII)

Outros purgatórios a caminho dos infernos.

Os gregos continuam a manifestar a sua confiança no êxito das negociações entre a Eurozona e o governo grego do circo mediático Tsipras-Varoufakis.

Serviço da Reuters desta manhã:

«Deposit outflows from Greece's banks rose last week to around 3 billion euros, according to JP Morgan estimates, ahead of Friday's last-minute aid extension agreement with the country's euro zone creditors.

The 50 percent increase in the pace of outflows from the prior week's 2 billion euros meant Greek banks were on track to run out of collateral for new loans in eight weeks as opposed to 14 the week before, JP Morgan said.

This is based on its calculation that of a maximum 108 billion euros of financing available from the European Central Bank and Greek central bank, Greek banks have already used up 85 billion euros, leaving them with 23 billion euros if needed.

Hard data on Greek bank deposit flows come with a long time lag, meaning estimates are the most up-to-date guides.

Outflows apparently accelerated during last week.

They totaled more than 1 billion euros over Wednesday and Thursday, three senior banking sources told Reuters on Friday, and about 1 billion euros on Friday alone, another senior banker said.»

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: A imobilidade social é uma bandeira de esquerda

«O que verdadeiramente indigna a esquerda é o seu tradicional inimigo: a ascensão social. Para quem ganha a vida através da "ajuda" aos pobres, não há pior do que um pobre que vence na primeira e dispensou a hipocrisia da segunda. Não há pior, em suma, do que um pobre que deixou de o ser - excepto o que, para cúmulo, se atreve a contar a sua história. 

 O marxismo, clássico ou "moderno", aprecia um mundo arrumadinho e imóvel, onde a pobreza é menos um estado do que uma condição vitalícia. Não se trata apenas de viver a pretexto dos necessitados: trata-se de garantir que estes continuam a necessitar - de abonos, protestos ou discursos "solidários". É por isso que se abomina o descaramento dos "arrivistas", dos "novos-ricos" e até dos recém--remediados ao mesmo tempo que se dedicam lengalengas demagógicas aos velhos e, conquista suprema, aos novos pobres. A miséria alheia assegura o sucesso dos que juram combatê-la mas celebram o seu crescimento, real ou desejado. O episódio do "pretinho salazarista" limitou-se a recordar uma fraude cruel: os amigos dos pobres só gostam deles assim.»

«Os amigos dos pobres» por Alberto Gonçalves do DN

Se me for permitido puxar a brasa à sardinha do (Im)pertinência, acrescento leia-se também a série de posts sobre o mito «os socialistas são amigos dos pobres».


SERVIÇO PÚBLICO: O acordo do Eurogrupo com o governo Tsipras-Yanis explicado às criancinhas (2)

Há várias maneiras de perceber em que consistiu o acordo de 6.ª feira passada do Eurogrupo com o governo Tsipras-Yanis, mas nenhuma delas consiste em ler o que sobre esse acordo escreveu o jornalismo de causas nos mídia portugueses. Uma maneira possível é ler este post. Outra é ler o que escreveu esta madrugada a Economist no seu Espresso.

Spartan conditions: Greece’s bail-out


«The bail-out extension to which Greece agreed on Friday left several questions unanswered. Not the least was exactly what measures the Greeks would have to take to jump-start economic growth. Today, therefore, Greece will submit to the European Commission, the European Central Bank and the IMF (the institutions formerly known as the “troika”) a list of reforms it intends to pursue in the coming months. These are likely to include crackdowns on tax evasion and corruption; Greece may find pension and labour-market reforms harder. If the institutions are satisfied, up to €7.2 billion ($8.2 billion), the sum remaining in the bail-out kitty, may eventually be disbursed. Under the terms of last week’s deal, though, the final review of Greece’s efforts needed to unlock the funds may not take place until the end of April, which raises a second unanswered question: how will Greece fund itself until then?»

SERVIÇO PÚBLICO: A Irlanda não é Portugal e Portugal não é a Grécia

Evolução dos yields nos últimos 12 meses das OT a 10 anos da Irlanda, Portugal e Grécia (Fonte: Bloomberg)

Lost in translation (227) – there is no such thing as flag carrier (III)

Continuação de (I) e (II)
«A TAP pouco contribuiu para o crescimento do Algarve, Madeira ou Porto. Temos de agradecer às companhias Low cost, que foram os grandes salvadores do turismo
Entrevista ao Expresso de Dionísio Pestana, presidente do grupo Pestana, o maior grupo hoteleiro português «com 6.335 unidades de alojamento, 12.980 camas e 59 empreendimentos turísticos... aproximadamente o dobro de unidades de alojamento do segundo classificado» (fonte).

22/02/2015

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (18) Unintended consequences (II)

Outras marteladas.

É inegável que o alívio quantitativo depois de 6 anos de taxas de juro evanescentes e de triliões injectados na economia teve resultados, pelo menos nos Estados Unidos e no Reino Unido. Contudo, é também inegável que alguns desses resultados não são exactamente os resultados que a Fed e o BoE procuravam e são assombrosamente parecidos com os cenários de pré-crise 2008.

Um deles é a volatilidade cambial que aumentou 50% em relação ao ano passado. As perturbações que essa volatilidade pode introduzir no comércio externo é o menor dos problemas comparado com as consequências de uma guerra cambial.

Fonte: The Economist Espresso
Outra consequência indesejada são as bolhas já aqui referidas nos mercados imobiliários e de capitais. Como exemplo das primeiras, leia-se o artigo «Stream of Foreign Wealth Flows to Elite New York Real Estate» no NYT e tenha-se em conta que estudos recentes («The Great Mortgaging: Housing Finance, Crises, and Business Cycles» citado pela Economist) mostram que a parte do crédito para compra de habitação tem vindo crescer e absorve hoje a maior parte do crédito bancário disponível para as empresas - «far from channelling money to companies, modern banks resemble “real-estate funds”, the authors claim, in which long-term mortgage lending is funded by short-term borrowing from the public».

Quanto às bolsas, em particular as bolsas americanas, os PER (price-to-earning ratio) atingiram valores insustentáveis e, de facto, não sustentados pelo fraco crescimento dos lucros em 2014. Recordem-se, uma vez mais, os diagramas seguintes.

Fonte: The Economist 
Aditivada pela impressora da Fed, a economia americana cresce a cavalo do consumo e está a ser o principal motor da economia mundial. Em consequência, o défice comercial americano excluindo combustíveis (cuja importação tem diminuído devido ao aumento da produção interna pelo fracking) cresce desde 2009 aproximando-se perigosamente dos níveis anteriores à crise (ver «The unbalanced global economy - American shopper»).

Não admira, por isso, que o número de cépticos do alívio quantitativo aumente cada dia. Um dos últimos foi Guan Jianzhong da agência de rating chinesa Dagong que prevê «uma nova crise financeira mundial nos próximos anos… é difícil dizer exactamente quando pode acontecer, mas todos os sinais de alerta estão presentes: volume crescente de dívidas e um progresso económico instável das economias nos EUA, Europa, China e outros países em desenvolvimento».

Depois não se diga que não fomos avisados.

Encalhados numa ruga do contínuo espaço-tempo (30) – Os primórdios do Nanny State

Quando o noivo era escolhido pelo ministério da Inducação Nacional não havia divórcios. Agora que a coisa ficou a cargo exclusivamente das noivas veja-se o resultado.

Enviado por JB

21/02/2015

SERVIÇO PÚBLICO: O acordo do Eurogrupo com o governo Tsipras-Yanis explicado às criancinhas

De uma forma muito sintética, o acordo consistiu em: acordamos continuar a tentar chegar a acordo ou para usar a descrição do Negócios:
«Mais empréstimos? Sim, mas a Grécia ainda tem de explicar como os quer usar e a troika tem de concordar. Há espaço para mudar políticas? Se encaixarem no actual programa, sim. Há flexibilidade orçamental? Só para acomodar menor crescimento. Quando chega mais dinheiro? Talvez só em Maio. E o que está reservado para os bancos, pode pagar salários? Não, e vai sair de Atenas
Ou, ainda, explicado em europês:
«The Eurogroup notes, in the framework of the existing arrangement, the request from the Greek authorities for an extension of the Master Financial Assistance Facility Agreement (MFFA), which is underpinned by a set of commitments. The purpose of the extension is the successful completion of the review on the basis of the conditions in the current arrangement, making best use of the given flexibility which will be considered jointly with the Greek authorities and the institutions. This extension would also bridge the time for discussions on a possible follow-up arrangement between the Eurogroup, the institutions and Greece
A grande conquista do duo Alexis-Yanis foi a substituição do nome «troika» por «TTMTIFCT» (that thing made up of three institutions formerly called troika). Só por isso, esta conquista permitirá ao governo Tsipras-Anel continuar o seu trabalho de agit-prop iludindo patetas, os quais infelizmente parecem constituir um fracção significativa dos gregos.

A defesa dos centros de decisão nacional (11) – Unintended consequences (II)

[Continuação de (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7),  (8), (9) e (10)]


Recapitulando: a coisa começou com um Manifesto dos 40, seguido pouco depois pelo Compromisso Portugal, fóruns de empresários e gestores que defendiam a manutenção no rectângulo dos chamados centros de decisão nacional. Vários dos que juraram correram a vender os seus anéis na primeira oportunidade.

Com a OPA do CaixaBank sobre o BPI, a que se seguirá provavelmente a compra do Novo Banco pelo BPI, já maioritariamente espanhol, cumpre-se mais uma etapa desta tragicomédia da defesa dos centros de decisão nacional. Ao mesmo tempo, se assim for, a banca espanhola passará a controlar quase metade do mercado português e La Caixa ganhará dimensão para competir com os outros grandes bancos espanhóis e ganhar novos mercados.

Poderia ser de outra maneira? Não, não poderia. Para manter os benditos centros de decisão nacional, os empresários, os bancos, as famílias, enfim o país, não poderiam estar afundados em dívidas como estão. E para toda essa gente não estar afundada em dívidas teria começado por ser indispensável, entre muitas outras coisas, não ter acreditado nas tretas do ministro anexo Vítor Constâncio que na sua famosa declaração Mississipi garantiu aos papalvos que o resultado dos défices externos crónicos e do consequente endividamento seria para um país integrando a Zona Euro - que está a milhas de ser uma zona monetária óptima - o mesmo do que para um dos Estados Unidos.