Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

31/05/2016

Pro memoria (310) - O boneco de cera em progresso

Fonte

SERVIÇO PÚBLICO: Todos os americanos têm uma costela libertária nos seus corpos democratas ou republicanos

«O terceiro maior partido político da América termina a sua convenção em Orlando hoje (2.ª feira). Gary Johnson, o porta-estandarte em 2012, é novamente o candidato. Johnson é um ex-governador do estado estimado, ao contrário de Hillary Clinton e Donald Trump que têm taxas de aprovação mais baixas do que a Fossa das Marianas. Podem os libertários estar à beira de um avanço? Dez por cento dos norte-americanos descrevem-se como libertários, mas podem não ser nada libertários. Os democratas descontentes podem compartilhar posições anti-establishment com os libertários, mas não a vontade de abolir o Estado Social. Os republicanos anti-Trump podem sonhar com abolir os impostos, mas não deitarem para o lixo as restrições ao aborto. Por alguma razão os dois grandes partidos tem mantido as suas estranhas coligações de ideias e interesses. O duopólio que desfrutam não será quebrado este ano, mas os libertários poderiam conseguir os melhores resultados de sempre, ficando mais perto de 10% dos votos do que dos 0,99% que tiveram em 2012.»
The Economist Espresso

Para saber mais sobre o Libertarian Party, que tem como lema «Governo Mínimo, Máxima Liberdade», ver o seu site.

30/05/2016

Lost in translation (270) – O alemão é uma língua muito difícil

Cenário: visita do presidente da República Portuguesa à Alemanha

Fala de Joachim Gauck, presidente da Alemanha:

«Não quero imiscuir-me nos assuntos do governo e parlamento (federais) e muito menos dar conselhos ao Conselho Europeu e instituições europeias. Vou respeitar os limites do meu cargo e não vou tomar posição em relação a essas questões.» (Fonte)

Fala de Angela Merkel, primeira-ministra:
Não fala.

Fala do presidente Marcelo:
«Vou satisfeito com aquilo que senti e que ouvi da parte da chanceler Angela Merkel, e portanto acho que valeu a pena a visita, valeu muito a pena a visita. (…) é que correu muitíssimo bem, em particular a conversa com a chanceler Angela Merkel, melhor do que teria esperado.» (Fonte)

Estado empreendedor (101) – Controlo público, disse ele (continuação da continuação)

Continuação deste e deste posts.

Fiz notar que a melhoria dos resultados de 2015 da Caixa se ficou a dever ao acréscimo no exercício do montante das provisões e imparidades se ter reduzido em mais de 700 milhões, milagre de que seria prudente duvidar, recomendei.

Confirmei (jornal SOL) que o crédito de risco da Caixa (soma do crédito malparado com mais de 90 dias com dívidas renegociadas ou com evidências de risco, como falência do devedor) atinge 11,5% do crédito total concedido, ou seja 8,2 mil milhões do total de 71 mil milhões. Ora acontece que a Caixa registou imparidades de apenas cerca de 64% do montante dos créditos em risco. Agora fica patente o que o abrandamento das imparidades em 2015 foi o tal milagre que antevi.

Moral da estória: em apenas 6 meses a geringonça conseguiu contaminar a Caixa e induzi-la à batota nas contas. Com este know-how, se o Eurostat se distrai lá teremos outra vez contabilidade criativa.

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (33)

Outras avarias da geringonça.

Se há coisas que estão a crescer, uma delas é a dívida pública (ver este post de ontem). A outra poderá ser a dívida privada de empresas e particulares que deixou de descer. Quanto à dívida pública directa do Estado voltou a aumentar em Abril para 230,3 mil milhões.

Qual físico medieval que insiste em sangrar o doente com anemia, o governo da geringonça insiste que do aumento do consumo nascerá o crescimento da economia. Porém, o que nasce é o fim do equilíbrio das contas externas com o superávite de quase 300 milhões da balança de comércio e serviços no 1.º trimestre de 2015 a dar lugar um défice de mais de 100 milhões no 1.º trimestre deste ano. Na verdade, o consumo aditivado pelo crédito (aumento homólogo de mais de 20% e 35% no crédito automóvel em Março) está a fazer crescer a economia dos países que exportam para Portugal. Nada novo, portanto, tem sido isso que se tem verificado nas últimas décadas.

29/05/2016

ACREDITE SE QUISER: O menos pode ser mais e o mais pode ser menos

O departamento de Compliance do Citigroup tem um maior número de empregados do que todo o banco Lehman Brothers, o quarto banco de investimento americano cuja falência em 2008 foi o primeiro sintoma visível da crise financeira com efeitos ainda hoje visíveis - pode suspeitar-se que outros efeitos ainda mais visíveis surgirão no futuro quando se fizerem sentir as consequências das medicinas prescritas pelos bancos centrais para combater os efeitos da crise de 2008.

Por falar em conformidade, a maior percentagem de fraudes de todas as naturezas não é revelada pelos auditores internos ou externos, mas por whistle-blowers (delatores) ou disputas entre accionistas, particularmente se são da mesma família.

ARTIGO DEFUNTO: Para cada um a sua verdade

O diagrama seguinte publicado na Nota de Informação Estatística de Março de 2016 do BdeP mostra a evolução do endividamento do sector não financeiro, de onde se pode concluir que a tendência de descida da dívida de empresas privadas e de particulares verificada desde 2011 terminou em 2015, não por acaso ano de eleições. Quanto à dívida do sector público essa continuou inabalável a crescer.


Comentando a Nota do BdeP e este diagrama. dois jornais, que não obstante o que parece se situam no mesmo país, publicaram duas peças, que não obstante o que parece são do mesmo dia, com os seguintes títulos:

«Dívida do sector público aumenta 1,6 mil milhões em Março»

«Dívida pública diminui no primeiro trimestre»

28/05/2016

Dúvidas (158) – Eles são obsessivos-compulsivos ou apenas diletantes?

Pensava que com as quatro moções que os berloquistas discutiram nas jornadas parlamentares teriam atingido o auge dos delírios. Não atingiram. Confira-se o projecto de lei que apresentaram no parlamento sobre o «direito à autodeterminação do género» (não, não é regredir do género homo para o género Australopithecus afarensis, por exemplo; é apenas mudar de sexo) que pretende conferir aos maiores de dezasseis anos, e aos menores desde que legalmente representados ou por decisão do tribunal a pedido do menor, o direito a alterar no registo civil o «género», o nome e a fotografia do requerente de acordo com a sua «vivência interna e individual do género… e que inclui a vivência pessoal do corpo».

Ou seja, o João, um pimpolho com 16 anos, que segundo a lei ainda não atingiu a maioridade, poderá levantar-se um belo dia de manhã, vestir a lingerie, a saia e a blusa da mãe e ir ao registo civil requerer a mudança para o «género» feminino e passar a chamar-se Joana. Se, mais tarde, a sua «vivência interna e individual do género… e que inclui a vivência pessoal do corpo» mudar, vestirá as cuecas, as calças e a camisa do pai e voltará ao registo civil para mudar para o «género» masculino e chamar-se de novo João.

O João à saída do registo civil com o novo «género»
É claro que, sem esta lei, nada impediria o João, ou a Joana, de atingindo a maioridade alterar o seu registo civil sem necessidade de representação e, por isso, faria muito mais sentido antecipar a maioridade para os 16 anos já que, se uma criatura tem maturidade para decidir mudar de «género», terá maturidade para assumir plenamente os seus direitos e responsabilidades – ter não tem, mas isso é outra questão. Por isso, este projecto de lei é apenas mais uma bandeira pour épater le bourgeois ou, dito de outra maneira, só não é um insulto à inteligência porque os parolos que se deixam fascinar por estas iniciativas devem pouco à inteligência.

DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (7)

Outras preces.

«Desiludam-se aqueles que pensam que o Presidente da República vai dar um passo sequer para provocar instabilidade neste ciclo que vai até às autárquicas. Depois das autárquicas, veremos o que é que se passa. Mas o ideal para Portugal, neste momento, é que o Governo dure e tenha sucesso.

Comentou, displicentemente, o comentador Marcelo Rebelo de Sousa, interpretando o pensamento do presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, comentário que a comentadoria do regime interpretou, por sua vez, como significando que o comentador Marcelo Rebelo de Sousa prevê que o presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa colocou como prazo de validade da geringonça Outubro de 2017.

Bem escreveu com estranheza El País quando o professor Marcelo ainda só era o comentador Marcelo: «algo tiene el profesor que no tienen los demás». Estoy de acuerdo, pero hay serias dudas de que es algo que necesitamos, digo eu.

27/05/2016

ACREDITE SE QUISER: Todos os países têm dívida?

Ficará nos anais a boutade de Sócrates na sua conferência em Sciences Po sobre a dívida pública que não é para se pagar, como ele disse que tinha aprendido na Mouse School of Economics. O certo é que quase todos os países têm dívida pública e quase todos a vão pagando.

E dívida externa todos terão? Quase todos, excepto dois: Liechtenstein e Macau têm zero dívida externa e, acredite-se ou não, têm um superávite nas contas públicas. Apesar das enormes diferenças, têm uma coisa em comum: em nenhum deles os partidos socialistas estão no poder.

Chávez & Chávez, Sucessores (45) – Ponto de situação: no hay comida

Outras obras do chávismo.

«Estado de excepção e de emergência económica» em todo o país durante 60 dias, decretado por Maduro no dia 16. Rejeitado pelo parlamento no dia seguinte, continua porque para Maduro o parlamento só vale se tiver maioria do Partido Socialista Unido da Venezuela (na composição actual tem 55 deputados contra 112 do MUD) e há sempre o Supremo Tribunal composto por apparatchiks do chávismo. Maduro nem se dá ao trabalho de disfarçar e anuncia: «a Assembleia Nacional (AN) da Venezuela perdeu vigor político. É questão de tempo para que desapareça».

Manifestações, Caracas fortificada e repressão violenta deixam o país «entre o caos e a ditadura».

Às prateleiras vazias junta-se o colapso do sistema de saúde, crianças morrem sem medicamentos. «Estudantes que ficam vários dias sem aulas (práticas, porque não há materiais; teóricas, porque os professores não são pagos a tempo e horas e decidem faltar), os estabelecimentos públicos que, para poupar energia, só abrem dois dias por semana (deixando empregados sem ordenado e pessoas sem serviços), a falta de água e os cortes de luz de 4h por dia na maioria das casas de quem lá vive.» (Expresso)
Economist
Como chegou a Venezuela a este ponto? Segundo o eurodeputado comunista João Pimenta declarou no Parlamento Europeu a explicação é simples: «As forças mais reaccionárias e facínoras (...) o imperialismo Norte-Americano, o estigma neocolonialista europeu e as oligarquias monopolistas, não perdoam o povo venezuelano que há 18 anos afirma a vontade de romper com um passado de exploração, empobrecimento e políticas neoliberais.» De onde, se quereis saber como seria o Portugal governado pelo PCP, olhai para a Venezuela.

26/05/2016

E se Donald Trump que já é quase inevitavelmente o candidato republicano vier a ser o próximo presidente dos EU?

Continuação disto e daquilo.


Se for assim, isso significa:
  • Há sempre soluções em democracia;
  • Depois da democracia vem a demagogia e depois da demagogia vem a tirania; 
  • O povo nunca se engana;
  • A escolha de um presidente é demasiado importante para ficar nas mãos dos eleitores;
  • Temos de respeitar as escolhas democráticas;
  • Idem, mas só quando os eleitores fazem as escolhas certas;
  • Não significa nada. É só estatística;
  • Não é nada disso;
  • Não sei;
  • Não respondo.

ACREDITE SE QUISER: O newspeak das etnias

«Barak Obama deu força de lei a uma alteração que obriga a apagar as referências a "Orientais" nas leis federais dos EUA. A terminologia aceite passa a ser "Ásio-Americanos". O termo "Negro" será também substituído pior "Afro-Americano" em duas partes do Código dos EUA escritas em 1976 e nas quais se usava uma linguagem considerada inadequada para se referir a grupos minoritários.» (Expresso)

E é assim que um chinês de Guangzong que emigre para os EU passará a ser um ásio-americano, tal como uma natural de Myanmar. Percebo. Afinal o autor da lei nasceu em Honolulu, filho de um queniano e de uma americana, só conheceu África na meia-idade e também se diz afro-americano.

25/05/2016

Pro memoria (309) - E se o próximo James Bond for um negro ou uma mulher ou…

Há uns meses escrevi aqui o parágrafo seguinte, involuntariamente premonitório:
Um dia chegará em que veremos um filme de James Bond dirigido por uma lésbica muçulmana, protagonizado por um James transexual do Soweto, um gay asiático como Bond girl e uma gueisha bissexual como Dr. No. E, para equilibrar as coisas, teremos na ópera um baixo maori a interpretar a Cio-cio-san da Madama Butterfly e um índio navajo no papel de Mr Pinkerton.
Esse dia está mais perto. Especula-se que a Eon, a produtora há 54 anos de todos os Bond, está a considerar seriamente que o próximo seja uma mulher (fala-se de Gillian Anderson dos Ficheiros Secretos) ou um negro (fala-se de Idris Elba da série Luther). Há mesmo quem especule que poderá ser um gay. E porque não uma lésbica, ou bissexual, ou transexual ou intersexual (*)?

(*) Não sei o que seja intersexual. Suspeito que se trate de uma espécie dificilmente visível já que a câmara de Lisboa tem um programa com uma medida para «combater a invisibilidade social das pessoas Trans e Intersexo».

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Coisas que outros escreveram sobre Costa, as quais, por isso, já não precisam de ser escritas (29)

Outras coisas que outros escreveram.

«O voluntarismo português, que António Costa ilustrou com a sua vaca volitante, não é nunca uma tentativa de superação – é uma fezada, um desejo de milagre. Em todo o lado existem discursos motivacionais, mas o seu objectivo costuma ser o de convocar o povo para os sacrifícios que se avizinham, à maneira de Churchill: “Só tenho para oferecer sangue, suor e lágrimas.” Aquilo que sempre apreciei no discurso de Passos Coelho, Vítor Gaspar ou Maria Luís Albuquerque foi a ausência de paninhos quentes e a admissão de que era necessário fazer sacrifícios para que o país voltasse a ser credível cá dentro e lá fora.

Como se vê, esse discurso acabou, acusado de “colaboracionismo”. E entre as mais graves reposições de António Costa está precisamente essa mentalidade messiânica e parola, sempre em busca de um golpe de sorte que resolva a nossa vida por nós – olhem, até as vacas voam! Não, pá, não voam. E não precisamos que voem. O que precisamos, como dizia Natália Correia, é de espetar os cornos no destino. É duro, dá trabalho, mas mil vezes isso do que gastar a vida à procura de vaporosas manadas no céu socialista, com o país preso por um fio de coco.»

Excerto de «Não, António, as vacas não voam», João Miguel Tavares no Público

Infelizmente, é precisamente essa mentalidade messiânica e parola, sempre em busca de um golpe de sorte que resolva a nossa vida por nós que, sendo abundante no Portugal dos Pequeninos, proporciona a Costa a freguesia que garante a sua sobrevivência por um tempo talvez suficiente para nos re-colocar na bancarrota e, provavelmente, lhe poderá proporcionar a aceitação por parte dos parolos de um alibi equivalente à lengalenga da conspiração das agências de rating com o neoliberalismo e os alemães que serviu tão bem aos socialistas da última vez para lavarem as suas responsabilidades. Não menosprezemos as virtualidades da chico-espertice.